Universidade estadual de mato grosso do sul eliane sarri



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3  OS CONTOS AMAZÔNICOS: ANÁLISE SOBRE O ASPECTO MÍTICO 

 

 

Nesse terceiro capítulo serão abordados os contos "O Baile do Judeu""Acauã" e "A 



Feiticeira",  fazendo  uma  análise  sobre  o  aspecto  mítico  de  cada  um  deles,  enfatizando  a 

questão da fatalidade que é muito  constante nas  obras de  Inglês de Sousa.  Esses  três  contos 

possuem em sua narração o mítico, apresentado de forma muito clara e objetiva, com o intuito 

de  permitir  que  o  leitor  entre  no  universo  dessa  narração,  sentindo  as  emoções  que  o  mito 

proporciona. 

Embora Inglês de Sousa seja um autor naturalista, tendo a preocupação peculiar em 

narrar  seus  contos  a  partir  de  um  naturalismo  real  e  encarnado  no  cotidiano  de  seus 

personagens,  ele  desenvolve  contos  que  apresentam  de  forma  muito  objetiva  e  concreta  o 

mítico, trazendo em seus personagens o perfil da superstição, do medo e do assombro, como é 

o caso dos contos que serão analisados neste capítulo.  

Para Paixão (2004) os contos de Inglês de Sousa, acontecem “na corredeira de suas 

águas,  todo  mistério  de  uma  região  assombrada  por  histórias  fantásticas  se  multiplica  em 

mitos e crendices populares que servirão de tema às narrativas de Inglês de Sousa” (PAIXÃO, 

2004, p. xiv). 

Galvão  (2008)  diz  que  “segundo  Luís  da  Câmara  Cascudo  o  mito  pode  ser  um 

sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e 

sem exigências de fixação no tempo e no espaço...” (GALVÃO, 2008, p. 4). 

Paixão  (2004)  aborda  a  concepção  mítica  de  Inglês  de  Sousa,  destacando  a  sua 

capacidade  de  mesclar  o  humano  com  o  simbólico,  como  pode-se  conferir  no  fragmento 

abaixo: 


 

No entanto, uma leitura mais acurada mostra que Inglês de Sousa privilegia 

mais  as  lutas  que  afligem  o  homem  moralmente:  a  opressão  do  mais  forte 

sobre  o  mais  fraco, e também  a  força  indômita  da  própria  natureza  que faz 

desse habitante das paragens remotas e esquecidas uma vítima impotente das 

forças contra as quais se vê impossibilitado de lutar. Não podemos dizer que 

o autor se desdobra nos detalhes da descrição, marca dos naturalistas; aqui, o 

importante  é  o  destaque  conferido  às  forças  naturais  que  amedrontam  e 

tornam  o  homem  sujeito  ao  domínio  de  temores  e  superstições  (PAIXÃO, 

2004, p. xiv). 

 

 Nesse fragmento fica claro que a intenção mítica de Inglês de Sousa é trazer para a 



narração o assombro, o temor e as superstições que fazem os seus personagens vivenciarem o 

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trêmulo  sentimento  do  medo.  Percebe-se  o  conhecimento  amplo  que  o  autor  tem  sobre  a 



região  amazônica  e  sua  capacidade  de  retirar  dessa  região  não  apenas  a  análise  histórica  e 

crítica de um povo que vive o esquecimento político, mas também sabe trabalhar a dimensão 

mitológica do folclore que essa região possui.  

Paixão  (2004)  ressalta  que  o  autor  Inglês  de  Sousa  não  se  preocupou  em  provocar 

uma  revolução  ideológica  através  de  seus  contos,  mas,  esteve  centrado  na  narração  que 

vislumbra  um  mundo  repleto  de  fatos,  história  e  mitos,  como  podemos  conferir  no  trecho 

abaixo. 

 

Não  se  pode  afirmar  que  Inglês  de  Sousa  tenha  tido  preocupação  em 



defender  a  situação  do  povo  da  Amazônia,  no  sentido  de  despertar  a 

consciência  para  uma  região  afastada  dos  grandes  centros  urbanos  e 

promover  mudanças  sociais.  O  olho  observador  descreve  a  realidade  sem 

segundas intenções,  a  não ser a  de  narrar os fatos,  sem  que  a  subjetividade 

prejudique o real (PAIXÃO 2004, p. xx). 

 

Nesse fragmento fica evidente a ideia do autor de querer explorar em seus contos a 



realidade, apresentando-a de forma concreta para que o leitor consiga vivenciar o fato narrado 

e  não  com  uma  intenção  de  mudança  ou  ideologia  política.  No  entanto,  é  possível  perceber 

que a criticidade nos contos de Inglês de Sousa, proporciona ao leitor uma análise de acordo 

com sua intenção ou criticidade dos fatos, como mostra o trecho abaixo. 

 

No  decorrer  da  leitura  prazerosa  dos  contos,  o  leitor  se  deixa  levar  pelo 



fascínio  de  mitos  e  lendas  da  Amazônia,  mas  ao  mesmo  tempo  escapa  ao 

mergulho  no  irreal  pela  intervenção  precisa  do  autor,  já  preocupado  com  a 

análise objetiva dos fatos (PAIXÃO, 2004, p. xv) 

 

No conto "A Feiticeira", o narrador apresenta um tom de discordância em relação aos 



que  duvidam  da  superstição.  Ele  coloca  o  sentido  da  superstição  como  uma  forma  de 

vivenciar  o  momento  e  a  história  do  conto,  trazendo  a  presença  feminina  com  um 

empoderamento de alterar situações e realizar o feitiço, provocando medo e terror a qualquer 

destemido. O conto ”Acauã" retrata a narrativa mítica ao trazer o canto agourento de uma ave 

que traz o mal e a perturbação. E por fim, será analisado "O Baile do Judeu" que através da 

narração  de  uma  festa  mostra  a  estranheza  na  pessoa  de  um  sujeito  que  dança  divinamente 

provocando em uns a sedução, em outros a curiosidade e em outros ainda o ciúme. 

Nesta perspectiva, o capítulo se estrutura em três partes que abordarão cada um dos 

contos analisados em seu aspecto mítico e por último faz-se uma análise sobre o Naturalismo 

a partir do conto abordado. Ressalta-se que neste capítulo o viés que permeará a abordagem 



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dos contos em seu caráter mítico será a fatalidade, que focará o fim trágico dos personagens 



na narração do autor. 

 

 



3.1  A Feiticeira  

 

No conto  "A Feiticeira",  Inglês de Sousa apresenta a figura da bruxa que incorpora 



na mulher a magia das ações sobrenaturais, impelindo o medo, o terror e o assombro. Nele a 

figura  da  bruxa  determina  o  destino  das  pessoas  que  a  enfrentam,    desvendando  um  mundo 

em que o desconhecido e aterrorizante pavor toma conta de sua vítima.  Mas, por outro lado, 

vem para mostrar ao ser humano a interligação que há entre o mundo natural e sobrenatural, 

impondo-lhe respeito através de acontecimentos apavorantes. No fragmento a seguir podemos 

observar a valentia de um homem incrédulo que vai enfrentar a bruxa e vivenciar, assim, um 

destino fatal.   

 

O tenente Antônio de Sousa era um desses moços que se gabam de não crer 



em  nada,  que  zombam  das  coisas  mais  sérias  e  riem  dos  santos  e  dos 

milagres.  Costumava  dizer  que  isso  de  almas  do  outro  mundo  era  uma 

grande mentira, e que só os tolos temem a lobisomem e feiticeiras. Jurava ser 

capaz  de  dormir  uma  noite  inteira  dentro  de  cemitério,  e  até  de  passear  às 

dez horas pela frente da casa do judeu, em sexta-feira maior (SOUSA, 2004, 

p. 25) 


 

A partir desse fragmento fica clara a ideia do autor de oportunizar ao leitor uma visão 

do  mítico  e  do  fantástico  mundo  da  imaginação  e  coloca  o  sobrenatural  como  aquilo  que 

emana do humano, não permitindo zombaria ou descaso de si.  

Inglês  de  Sousa  apresenta  no  conto  a  feiticeira  como  uma  personagem  medonha, 

cheia de poderes sobrenaturais. Como a poderosa feiticeira, assim conhecida, Maria Mucoim 

é revelada ao tenente Antônio de Sousa que foi até sua casa averiguar sua veracidade, pois o 

mesmo, tratava-se de uma pessoa incrédula, sem princípios religiosos e destemida em relação 

ao sobrenatural.       

 

 



...  uma  velhinha  magra,  alquebrada,  com  uns  olhos  pequenos,  de  olhar 

sinistro, as maçãs do rosto muito salientes, a boca negra que, quando se abria 

em  um  sorriso  horroroso,  deixava  ver  um  dente  –  um  só!  –  comprido  e 

escuro. A cara cor-de-cobre, os cabelos amarelados presos ao alto da cabeça 

por  um  trepa-moleque  de  tartaruga,  tinham  um  aspecto  medonho  que  não 

consigo  descrever.  A  feiticeira  trazia  ao  pescoço  um  cordão  sujo,  de  onde 



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pendiam numerosos bentinhos, falsos, já se vê, com que procurava enganar o 



próximo, para ocultar a sua verdadeira natureza. (SOUSA, 2004, p. 29) 

 

O conto permite entender que o sobrenatural é algo que acompanha a pessoa, no caso 



do  tenente,  o  incrédulo,  levando-o  ao  lugar  do  encontro  com  a  criatura  monstruosa.  Nesse 

sentido, o conto é permeado por um mistério que vai além do mito, e confunde até mesmo o 

tenente,  homem,  forte,  valente  e  inteligente,  mas  que  por  soberba  duvida  daquilo  que  não 

conhece e ainda, vai averiguar sua real existência.  

Por  isso,  o tenente  Antônio  de  Sousa  vê  na  feiticeira  a  ligação  com  o  diabo,  talvez 

essa  seja  a  única  forma  de  o  tenente  reconhecer  aquilo  que  considera  horrível,  mas  é  nesse 

episódio  que se entende  o sentido imaginário e de crendice popular defendido  por  Inglês de 

Sousa em sua narração, ao vincular a figura da bruxa com a personificação do demônio que 

faz  pacto  de  sangue.  E  diante  desse  cenário  arrepiante,  o  valente  tenente  cai  em  si  e  se  vê 

imerso em um mundo de horror do qual não se pode escapar.   

 

Quem não pode esperar do céu, pede auxílio às profundezas do inferno. E se 



isto  digo,  não  por  leviandade  o  menciono.  Pessoas  respeitáveis  afirmaram-

me  ter  visto  a  tapuia  transformada  em  pata,  quando  é  indubitável  que  a 

Mucoim jamais criou aves dessa espécie. (SOUSA, 2004, p.30) 

 

Percebe-se neste fragmento que a incredulidade do tenente não se faz redimir ao que 



vê e coloca em xeque a existência sobrenatural da feiticeira, perguntando “— Então, tia velha, 

é certo que você tem pacto com o diabo?” (SOUSA, 2004, p. 30) 

Diante da petulância de quem teme e não assume a velha Maria  Mucoim se revela, 

ainda que de forma superficial: 

 

Os  lábios  da  velha  arregaçaram-se,  deixando  ver  o  único  dente.  Ela  lançou 



ao rapaz um olhar longo, longo que parecia querer transpassar-lhe o coração. 

Olhar diabólico, olhar terrível, de que Nossa Senhora nos defenda, a mim e a 

todos os bons cristãos. (SOUSA, 2004, p. 31) 

 

Daí para frente, o conto narra a dinâmica relação entre o tenente Antônio de Sousa, 



que embora valente e descrente, sentia-se atraído em ir atrás do que lhe fascinava descobrir, 

enquanto a feiticeira sem muita notabilidade seguia o manso curso de sua vida cotidiana como 

bruxa.  Embebido  pelo  fascínio  e  a  curiosidade,  o  tenente  adentra  a  pequena  casa  de  Maria 

Mucoim e espantado relata o que vê. 

 


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A entrada de Antônio de Sousa causou um movimento geral. O murucututu 



entreabriu os olhos, bateu as asas e soltou um pio lúgubre. O gato pulou para 

a rede, o bode recuou até ao fundo do quarto e arremeteu contra o visitante. 

Antônio, surpreendido pelo ataque, mal teve tempo de desviar o corpo, e foi 

logo encostar-se à parede, pondo-se em defesa com o terçado que trouxera. 

Foi  então  que  animada  por  gestos  misteriosos  da  velha,  a  bicharada  toda 

avançou com uma fúria incrível. (SOUSA, 2004, p. 36-37)  

 

Nesse  momento,  percebe-se  que  o  tenente  tomou  consciência  de  sua  imprudência, 



mas já era tarde demais, cabiam-lhe apenas as consequências de seus atos. O azar em atribular 

o  que  é  sobrenatural  alcançaram  suas  tenusiosas  curiosidades  diante  da  velha  feiticeira. 

Restava-lhe, portanto, lutar pela vida que parecia ameaçada. 

 

Mas era um valente moço, e o perigo lhe redobrava a coragem. Num lance 



certeiro, conseguiu ferir o bode no coração, ao mesmo tempo que dos lábios 

lhe saía inconscientemente uma invocação religiosa.  

— Jesus, Maria! 

O  diabólico  animal  deu  um  berro  formidável  e  foi  recuando  cair  sem  vida 

sobre  um  monte  de  ossos;  ao  mesmo  tempo  o  gato  estorceu-se  em 

convulsões terríveis; e o urubu e a coruja fugiram pela porta aberta.  

A Mucoim, vendo o efeito daquelas palavras mágicas, soltou urros de fera e 

atirou-se contra o tenente, procurando arrancar-lhe os olhos com as aguçadas 

unhas. O moço agarrou-a pelos raros e amarelados cabeços e lançou-a contra 

o  esteio  central.  Depois  fugiu,  sim,  fugiu,  espavorido,  aterrado  (SOUSA, 

2004, p. 37-38) 

 

Nesse  fragmento  podemos  observar  como  o  personagem,  o  tenente  Antônio  de 



Sousa, se transforma a partir do momento em que encara o sobrenatural. Já no início do conto 

o personagem é descrito como cético, quando se afirma que “... era um desses moços que se 

gabam  de  não  crer  em  nada,  que  zombam  das  coisas  mais  sérias  e  riem  dos  santos  e  dos 

milagres." (SOUSA, 2004, p. 25). No entanto, diante da revelação do sobrenatural ele faz uma 

invocação  religiosa,  aflorando  uma  crença  que  estava  no  seu  inconsciente.  Assim  o  mito 

sobrevive ao ceticismo, e o personagem deixa de ser cético uma vez que o sobrenatural lhe é 

revelado.  

Pode-se perceber, no conto, que a partir do momento em que o personagem tenente 

Antônio  de  Sousa  enfrenta  a  feiticeira  seu  destino  trágico  é  traçado,  do  qual  ele  não  poderá 

escapar.  Começa  a  chover  muito  forte  e  as  águas  do  rio  Paranamiri  transbordam  inundando 

tudo, como pode-se observar no trecho abaixo: 

 

Um  espetáculo  assombroso  ofereceu-se-lhe  à  vista.  O  Paranamiri 



transbordava.  O  sítio  do  Ribeiro  estava  completamente  inundado,  e  a  casa 

começava a sê-lo. Os cacauais, os aningais, as laranjeiras iam pouco a pouco 



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mergulhando. Bois, carneiros e cavalos boiavam ao acaso, e a cheia crescia 



sempre. A água não tardou em dar-lhe pelos peitos. O delegado quis correr, 

mas foi obrigado a nadar. A casa inundada parecia deserta, só se ouviam o 

ruído das águas e, ao longe, aquela voz: 

— A cheia! (SOUSA, 2004, p. 39)        

  

Através da narrativa do conto, podemos observar a luta do personagem para se salvar 



da  grande  inundação,  porém  já  estava  cansado  de  nadar  e  não  encontrava  abrigo.  Foi  nesse 

momento  que  foi  surpreendido  por  aquilo  que  considerava  a  sua  salvação,  como  mostra  o 

trecho do conto: 

 

Nadava, nadava. As forças começavam a abandoná-lo, os braços recusavam-



se  ao  serviço,  cãimbras  agudas  lhe  invadiam  os  pés  e  as  pernas.  Onde  e 

como salvar-se? 

De súbito viu aproximar-se um luzinha e logo uma canoa, dentro da qual lhe 

pareceu estar o tenente Ribeiro. Pelo menos era dele a voz que o chamava. 

— Socorro! — gritou desesperado o Antônio de Sousa, e, juntando as forças 

num violento esforço, nadou para a montaria, salvação única que lhe restava, 

no doloroso transe. 

Mas  não  era  o  tenente  Ribeiro  o  tripulante  da  canoa.  Acocorada  à  proa  da 

montaria, a Maria Mucoim fitava-o com os olhos amortecidos, e aquele olhar 

sem luz, que lhe queria transpassar o coração... (SOUSA, 2004, p. 39-40)       

  

É importante ressaltar que a questão da cheia do rio, retratada nos fragmentos acima, 



permite pensar em  uma  questão ambígua, pois  o fenômeno da natureza pode remeter a uma 

leitura  do  sistema  natural  da  enchente  através  da  chuva,  como  a  uma  magia  feita  pela 

feiticeira,  e  essa  possibilidade,  da  magia,  reforça  a  ideia  de  que  o  personagem  passa  a 

acreditar no místico.  

O  conto  termina  com  esse  episódio  que  nos  mostra  que  a  feiticeira  é  aquela  que 

eternamente  assombrará  o  tenente  Antônio  de  Sousa,  e  por  mais  que  ele  fuja,  lute  ou  se 

esconda,  sempre  será  surpreendido  pela  presença  da  velha  cheia  de  mistério  e  assombro.  O 

preço  de  sua  incredulidade  se  dá  no  encontro  inesperado  com  o  horrível,  com  o  poder 

revelado  a  partir  da  concretização  da  existência  do  mito,  ou  seja,  com  a  fatalidade  que  se 

revela aos poucos em sua vida.   

O  encontro  entre  o  tenente  e  a  feiticeira  marca  o  início  da  fatalidade  na  vida  desse 

homem, que diante de tantos acontecimentos de ordem sobrenatural, se dá por convencido de 

que a velha Maria Mucoim é de fato, uma feiticeira maldosa e diabólica.  O tenente Antônio 

de Sousa acabou pagando um alto preço pela sua curiosidade e pelo seu ceticismo.  

 

 


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3.2  O baile do judeu  

 

Não tão diferente de "Acauã" e "A Feiticeira", o conto "O Baile do judeu" apresenta 



a  intenção  de  Inglês  de  Sousa  de  mesclar  seu  conto  com  os  aspectos  míticos  e  reais,  dando 

ênfase à superstição, ao fascínio pelas coisas de outro mundo e à magia do sobrenatural. 

De acordo com Paixão (2004) "O Baile do Judeu" narra a história de uma festa que 

tinha tudo para acontecer de maneira mais natural possível, mas a inesperada presença de um 

sujeito estranho, que ao dançar perfeitamente encanta, enciúma e amedronta os participantes 

da festa.  

Esse  conto  está  diretamente  ligado  ao  folclore  brasileiro  através  da  lenda  do  boto, 

como se pode conferir no fragmento que segue: 

 

O  boto,  na  Amazônia,  é  um  misto  de  peixe  e  homem,  que  surge  de  dentro 



das águas em noites de lua cheia, com o propósito de seduzir as jovens, que 

por  ele  se  apaixonam,  envolvidas  pela  sensualidade  dessa  figura  mítica. 

Quando  na  forma  humana,  o  boto  apresenta-se  como  um  jovem  simpático, 

atraente  e  sedutor,  dominando  as  jovens  ao  ponto  de  fazer  com  que, 

enfeitiçadas,  abandonem  seus  lares  para seguir  o  monstro  (PAIXÃO,  2004, 

p. xviii-xix). 

 

Nesse  trecho  é  possível  ver  como  a  figura  do  boto  na  região  da  Amazônia  se 



personifica com o homem que atrai e seduz e faz isso justamente por que é pleno de algo que 

está além do humano, ele é feito de poder, um poder sobrenatural.  

Cascudo (2012) define o boto como: 

 

Golfinho  da  Amazonas,  boto  vermelho,  boto  branco,  piraia-guará,  ou  pira-



iauara,  peixe-cachorro.  O  boto  seduz  as  moças  ribeirinhas  aos  principais 

afluentes do rio Amazonas e é o pai de todos os filhos de responsabilidade 

desconhecida. Nas primeiras horas da noite transforma-se num bonito rapaz, 

alto, branco, forte, grande dançador e bebedor, e aparece nos bailes, namora, 

conversa,  freqüenta  reuniões  e  comparece  fielmente  aos  encontros 

femininos.  Antes  da  madrugada  pula  para  a  água  e  volta  a  ser  boto 

(CASCUDO, 2012, p. 127). 

 

O  boto  é  um  personagem  que  encarna  a  fisionomia  humana  para  chegar  ao  seu 



objetivo, por isso Paixão (2004) o descreve: como tendo “... um furo na cabeça – marca que o 

torna  reconhecido  -,  o  boto  anda  sempre  de  chapéu,  o  que  protege  a  sua  identidade 

demoníaca” (PAIXÃO, 2004, p xix). 


45 

 

Inglês de Sousa coloca nesse mito um pouco de alegria e diversão, emergindo-o em 



um ambiente de festa, mas não foge do destino trágico que permeia os seus contos. 

O fragmento a seguir contextualiza bem o enredo do conto. 

 

Ora  um  dia  lembrou-se  o  Judeu  de  dar  um  baile  e  atreveu-se  a  convidar  a 



gente  da  terra,  a  modo  de  escárnio  pela  verdadeira  religião  de  Deus 

Crucificado,  não  esquecendo  no  convite  família  alguma  das  mais 

importantes  de  toda  a  redondeza  da  vila.  Só  não  convidou  o  vigário,  o 

sacristão, nem o andador das almas, e menos ainda o juiz de direito; a este 

por  medo  de  se  meter  com  a  justiça,  e  aqueles  pela  certeza  de  que  o 

mandariam pentear macacos (SOUSA, 2004, p. 103

 

A partir desse trecho, entende-se que o enredo do conto de Inglês de Sousa gira em 



torno  do  baile  do  Judeu.  Quando  todos  já  se  encontravam  na  festa  e  a  música  já  havia 

começado  fazendo  com  que  os  convidados  estivessem  à  vontade  dançando,  inclusive  dona 

Mariquinhas, que aparece como a personagem central da narração. Ela estava casada a pouco 

tempo com o tenente-coronel Bento de Arruda. No auge da festa às onze da noite aparece um 

desconhecido  que  empolgado  com  a  dança  da  valsa,  deixa  o  seu  chapéu  cair  no  salão, 

evidenciando  sua  identidade,  "...  um  sujeito  baixo,  feio,  de  casacão  comprido  e  chapéu 

desabado, que não deixava ver o rosto, escondido também pela gola levantada do casaco. Foi 

direto  a  D.  Mariquinhas,  deu-lhe  a  mão,  tirando-a  para  uma  contra  dança  que  ia  começar." 

(SOUSA, 2004, p.107). Ao notarem que o estranho se tratava do boto, este sai correndo e leva 

para sempre a sua dama de dança, dona Mariquinhas.  

Durante  toda  a  narração  do  conto  duas  características  do  conto  chamam  a  atenção. 

Uma  é  perceber  que  o  narrador  não  aprova  a  forma  com  que  a  festa  é  organizada,  onde  se 

destina o convite apenas para os importantes da vila, uma vez que Inglês de Sousa faz questão 

de elencar os convidados, como já foi mencionado acima. Outro fato é a presença contínua de 

um espírito alegre e divertido na festa, pois em todos os momentos, o narrador mostra a risada 

que  os  convidados  soltam  no  baile,  diante  da  figura  do  boto.  Mas  de  igual  relevância  é  a 

percepção  dos  convidados  em  relação  aos  afazeres  do  boto  na  festa,  principalmente  em 

relação à dona Mariquinhas, com quem dançara. 

 

As  risadas  e  exclamações  ruidosas  dos  convidados,  o  tropel  dos  novos 



espectadores  que  chegavam  em  chusma  do  interior  da  casa  e  da  rua, 

acotovelando-se  para  ver  sobre  a  cabeça  dos  outros;  e  sonatas  discordantes 

do  violão,  da  rabeca  e  da  flauta,  e  sobretudo  do  grunhidos  sinistramente 

burlescos  do  sujeito  de  chapéu  desabado,  abafavam  os  gemidos  surdos  da 

esposa de Bento de Arruda, que começava a desfalecer de cansaço, e parecia 


46 

 

já não experimentar prazer algum naquela dança desenfreada que alegrava a 



tanta gente (SOUSA, 2004, p. 109). 

 

Nesse trecho é possível ver o quão cheio de mistério é feito o personagem boto e que 



se  apresenta  de  forma  sobrenatural,  seduzindo  não  pela  aparência,  mas  pela  ágil  forma  de 

centrar a atenção dos convidados.  

O  fascínio  do  conto  "O  baile  do  Judeu"  talvez  esteja  na  obscuridade  da  figura  do 

boto, pois o terrível ser, encantador e envolvente em um primeiro momento, revela-se como 

aquele  que  deixa  todos  à  mercê  do  sofrimento  e  da  tragédia,  pois  a  partir  do  momento  que 

resolvem  contrariar  os  preceitos  religiosos  e  ir  ao  baile  promovido  pelo  judeu  eles  são 

determinados  a um  fim  trágico.  Mariquinhas  não conseguia  mais  dançar com  o estranho, no 

entanto,  este  a  mantém  presa  em  seus  braços,  insistindo  na  dança,  que  já  se  tornou  um 

pesadelo  para  a  moça  que  "...  não  sentia  mais  o  soalho  sob  os  pés,  milhares  de  luzes 

ofuscavam-lhe  a  vista,  tudo  rodava  em  torno  dela;  o  seu  rosto  exprimia  uma  angústia 

suprema,  em  que  alguns  maliciosos  sonharam  ver  um  êxtase  do  amor."  (SOUSA,  2004,  p. 

110)      

Apesar do conto "O Baile do judeu" ser breve, ele remete a uma vasta compreensão 

do mito e do folclore da região amazônica. Ao permitir que o leitor se deleite em uma leitura 

prazerosa, alegre e um tanto divertida, ele submerge em um abismo de tragédia. E ao terminar 

o conto, Inglês de Sousa se preocupa em narrar a figura sobrenatural do boto, identificando-o 

como a personificação do mal que arrasta, seduzida para si, as almas que se desprendem da fé 

e da religião. Por isso, termina narrando: 

 

No meio dessa estupenda valsa, o homem deixa cair o chapéu, e o tenente-



coronel, que o seguia assustado para pedir que parasse, viu com horror que o 

tal sujeito tinha a cabeça furada. E em vez de ser homem era o boto, sim, um 

grande boto, ou o demônio por ele, mas um senhor boto que afetava, como 

por  maior  escárnio,  uma  vaga  semelhança  com  o  Lulu  valente.  O  monstro 

arrastando  a  desgraçada  dama  pela  porta  agora,  espavorido  com  o  sinal  da 

cruz feito pelo Bento de Arruda, atravessou a rua sempre valsando, ao som 

da  varsoviana,  e,  chegando  à  ribanceira  do  rio,  atirou-se  lá  de  cima  com  a 

moça imprudente, e com ela se atufou nas águas.  

Desde dessa vez ninguém quis voltar aos bailes do Judeu (SOUSA, 2004, p. 

110).  


 

Mais uma vez nota-se a presença da fatalidade no conto de Inglês de Sousa. Esse fim 

destinado aos personagens torna-os condicionados ao Determinismo, sem poder escolher seu 

destino  final.  São  levados  à  tragédia  por  conta  de  algum  comportamento  que  infligem  à 

religiosidade do local  onde residem. Outro fator importante é perceber que o boto  foge, não 


47 

 

do  tenente  coronel  que  quer  salvar  sua  noiva,  mas  do  sinal  da  cruz  que  este  profere.  Isso 



mostra a religiosidade nas entrelinhas da narrativa e como essa interfere na presença dos seres 

sobrenaturais que afligem os humanos. No entanto, percebe-se também que mesmo a crendice 

religiosa do povo não impede de acontecer a fatalidade, como se esse episódio já fizesse parte 

do destino das pessoas, sem que nada pudesse mudar.  

Nesse  sentido,  Inglês  de  Sousa  (2004)  tem  a  preocupação  de  colocar  o  destino 

envolto na tragédia que ocorre aos seus personagens, que simplesmente desaparece diante do 

monstro,  do  sobrenatural  e  do  mistério.  O  mito  para  Inglês  de  Sousa  é  essencialmente  o 

mistério,  o  temeroso,  o  que  coloca  seus  personagens  em  uma  situação  de  impotência  e  de 

inércia  diante  do  grandioso  espetáculo  sobrenatural.  A  fatalidade  também  está  ligada  à 

desobediência e a prepotência diante do religioso, do não reconhecer o divino, mas de querer 

preponderar-se como um humano poderoso. Nesse sentido, o autor enfatiza claramente que o 

humano se aniquila e se dissolve diante do “bicho do outro mundo”. Assim, Inglês de Sousa 

cumpre  a  sua  proposta  naturalista  de  retratar  com  fidelidade  uma  região,  uma  vez  que  não 

deixa de abordar a questão mística. 

 

 

 



3.3  O mito do acauã agourento  

 

Segundo  Sylvia  Perlingeiro  Paixão  (2004)  o  conto  "Acauã"  retrata  a  mística  da 



Amazônia, através da crença de seu povo que considera de mau agouro o canto da ave acauã, 

que  com  seu  canto  agourento,  penetra  a  vida  do  povo  amazônico,  trazendo-lhe  arrepiantes 

temores, como podemos ver no texto que segue: 

 

É  o  caso  da  magnífica  narrativa  de  “Acauã”,  que  nos  fala  dessa  ave  cujo 



canto  é  considerado  agouro  pelo  povo.  A  história  é  comum:  o  capitão 

Jerônimo Ferreira, viúvo com uma filha de dois anos, certa vez se perde no 

caminho  de  volta  para  casa,  em  meio  ao  silêncio  e  à  solidão  comuns  em 

ambientes  aterrorizantes  como  a  floresta  amazônica.  A  chuva  e  os 

relâmpagos aumentam a atmosfera de terror que se completa com um ruído 

pavoroso:  da  colossal  sucuruji,  que  reside  no  fundo  dos  rios  e  dos  lagos. 

Eram os lamentos do monstro em laborioso parto. O capitão foge apavorado, 

seguido  pelo  grupo  que  aumenta,  até  que  tropeça  e  cai:  “com  a  queda, 

espantou  um  grande  pássaro  escuro  que  ali  parecia  pousado,  e  que  voou 

cantando: Acauã, acauã! (PAIXÃO, 2004, p. xvii). 

 


48 

 

 Diante  desse  relato  da  autora  é  possível  perceber  que  o  conto  nos  remete  ao  mito, 



tratando-se  de  uma  experiência  feita  com  a  ave  que  traz  mal  agouro  ao  povo,  do  qual  o 

capitão Jerônimo é alvo.     

 Outro  aspecto  que  chama  atenção  nos  contos  de  Inglês  de  Sousa    é  o  aspecto 

religioso, principalmente quando se trata da superstição de que não se deve sair para caçar em 

uma noite de sexta-feira. 

 

Também quem lhe mandara sair a caça em sexta-feira? Sim, era uma sexta-



feira,  e  quando  depois  de  uma  noite  de  insônia  se  resolvera  a  tomar  a 

espingarda  e  a  partir  para  a  caça,  não  se  lembrara  que  estava  num  dia  por 

todos  conhecido  como  aziago,  e  especialmente  temido  em  Faro,  sobre  que 

pesa o fado de terríveis malefícios (SOUSA, 2004, p. 60) 

 

Nesse fragmento é clara a presença da superstição nos contos de Inglês de Sousa, que 



por  descuido,  o  personagem  se  envolve  em  um  trama  sobrenatural  que  não  cabe-lhe  mais 

saída. Na verdade, Inglês de Sousa, mistura ficção e realidade em sua obra, pois a existência 

dessa ave é real, no entanto é sobrenatural o poder que ele dá ao animal. Ele traz a questão da 

crença justamente para tratar da superstição do povo da região amazônica.   

Cascudo (2012) define Acauã: 

 

Acauã e também macauoã, ave conhecida: mata cobras, sustenta com elas os 



filhos,  e  pendura-lhes,  como  troféu,  as  peles  na  árvore  em  que  habita.  Os 

indígenas,  quando  esperam  algum  hóspede,  afetam  conhecer  pelo  canto 

destas aves o tempo em que aquele deve chegar. Os ovos secos feito em pó 

são  contraveneno  do  das  cobras.  Tem  esta  ave  cabeça  bem  grande  cor 

cinzenta,  barriga,  peito  e  pescoço  vermelho,  costas  pardas,  asas  e  cauda 

pretas, malhadas de branco (CASCUDO, 2012, p. 9). 

 

Nesse fragmento Cascudo apresenta Acauã com informações bem claras de uma ave 



que  realmente  existe  e  que  é  repleta  de  superstições.  De  fato,  até  os  dias  atuais  nos  lugares 

mais  antigos  se  professa  a  crendice  sobre  essa  ave,  que  avisaria  a  chegada  de  visitas  e  de 

alguns acontecimentos ruins na vida das pessoas.  

É  interessante  ressaltar  que  no  conto  “Acauã”  aparece  outro  animal,  a  cobra  que 

mora no rio e que tem participação ativa na vida e na desgraça do Capitão Jerônimo Ferreira. 

Outro fato que aguça a curiosidade e a imaginação do leitor é a relação que há entre esses dois 

animais,  a  ave  e  a  cobra.  No  fragmento  acima  é  possível  verificar  que  a  ave  come  a  cobra, 

fazendo  o  leitor  entender  que  o  acauã  exerce  poder  soberano  sobre  a  cobra,  no  entanto,  o 

conto termina narrando a tragédia na vida do capitão que tem suas duas filhas transformadas 


49 

 

nesses  animais,  uma  na  cobra  e  a  outra  na  ave.  A  transformação  das  filhas  do  capitão  em 



animais é o acontecimento que marca fatalmente a vida do personagem, que teve seu destino 

traçado no momento em que saiu para caçar  na sexta-feira. 

Ainda segundo Cascudo, as aves noturnas eram tidas como agourentas, como mostra 

o trecho a seguir: 

 

...  certos  pássaros  noturnos  tinham  um  piado  queixoso,  enfadonho  e  triste, 



sendo  conhecidos  como  uira  jeropari,  pássaro  de  jurupari,  sinônimo 

demoníaco na catequese. [...] dizem que os diabos com eles convivem, que, 

quando põem, é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos 

pelo  diabo,  e  que  só  comem  terra. [...]  aquela  que ouve  cantar  o acauã fica 

certa de que eminente lhe está uma desgraça. (CASCUDO, 2012, p. 9)      

  

  



No  fragmento  acima  pode-se  notar  a  questão  da  crendice  popular  dos  habitantes 

dessa  região,  que  acreditam  que  as  aves  noturnas  podem  lhes  trazer  mau  agouro  para  quem 

ouvem o seu canto. No conto em questão, o autor trabalha com a tradição popular ao abordar 

essas crendices.  

No conto "Acauã" o personagem Jerônimo Ferreira se encontra diante de um destino 

trágico, quando sai para caçar em uma sexta-feira, dia considerado por todos da região como 

dia de mau agouro. Como mostra o trecho a seguir: 

 

Da caçada nada trazia, fora um dia infeliz, nada pudera encontrar, nem ave 



nem bicho, e ainda em cima perdera-se e chegava tarde, faminto e cansado. 

também quem lhe  mandara sair à caça em sexta-feira? Sim, era uma sexta-

feira,  e  quando  depois  de  uma  noite  de  insônia  se  resolvera  a  tomar  a 

espingarda  e  a  partir  para  a  caça,  não  se  lembrara  que  estava  num  dia  por 

todos  conhecido  como  aziago,  e  especialmente  temido  em  Faro,  sobre  que 

pesa o fado de terríveis malefícios. (SOUSA, 2004, p.60-61)    

 

Podemos perceber no conto que a partir do momento em que o personagem Jerônimo 



contraria  a  questão  supersticiosa  da  sexta-feira,  ele  está  fadado  a  um  destino  trágico,  e  essa 

fatalidade  vai  se  revelar  através  de  suas  filhas.  Este  destino  começa  a  se  delinear  quando  o 

personagem  ouve  os  gritos  lamuriosos  da  grande  cobra  e  tropeça  na  ave  acauã  que  voa 

cantando o seu canto agourento.  

 

Do  fundo  do  rio,  das  profundezas  do  lagoa  formada  pelo  Nhamundá, 



levantava-se  um  ruído que  foi  crescendo,  crescendo e  se  tornou  um  clamor 

horrível,  insano,  uma  voz  sem  nome  que  dominava  todos  os  ruídos  da 

tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar 

os condenados no dia do Juízo Final.  



50 

 

Os cabelos do capitão Ferreira puseram-se de pé e duros como estacas. Ele 



bem  sabia  o  que  aquilo  era.  Aquela  voz  era  a  voz  da  cobra  grande,  da 

colossal sucuriju, que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos 

do monstro em laborioso parto.  

O capitão levou a mão à testa pra benzer-se, mas os dedos trêmulos de medo 

não  conseguiram  fazer  o  sinal  da  cruz.  Invocando  o  santo  do  seu  nome, 

Jerônimo  ferreira  deitou  a  correr  na  direção  em  que  supunha  dever  estar  a 

sua desejada casa. Mas a voz, a terrível voz aumentava de volume. Cresceu 

mais, cresceu tanto afinal, que os ouvidos do capitão zumbiram, tremeram-

lhe as pernas e caiu no limiar de uma porta.  

Com a queda, espantou um grande pássaro escuro que ali parecia pousado, e 

que voou cantando: 

— Acauã, acauã!  (SOUSA, 2004, p. 62-63)     

  

O capitão Jerônimo passa o tempo cuidando de suas filhas, que afagava e acariciava 



sem  distinção,  entre  a  legítima  e  a  encontrada.  Mas  as  moças  eram  bem  diferente  uma  da 

outra.  O  trecho  a  seguir  vai  mostrar  claramente  Ana,  que  é  a  filha  legítima  do  capitão,  e 

Vitória, que é a menina encontrada na beira do rio. 

 

Ana fora uma criança robusta e sã, era agora franzina e pálida. Os anelados 



cabelos  castanhos  caíam-lhe  sobre  as  alvas  e  magras  espáduas.  Os  olhos 

tinham  uma  languidez  doentia.  A  boca  andava  sempre  contraída,  em  uma 

constante  vontade  de  chorar.  Raras  rugas  divisavam-se-lhe  nos  cantos  da 

boca e na fronte baixa, algum tanto cavada. Sem que nunca a tivessem visto 

verter  uma  lágrima,  Aninha  tinha  um  ar  tristonho,  que  a  todos 

impressionava,  e  se  ia  tornando  cada  dia  mais  visível.  Vitória  era  alta  e 

magra, de compleição forte, com músculos de aço. A tez era morena, quase 

escura,  as  sobrancelhas  negras  e  arqueadas;  o  queixo,  fino  e  pontudo;  as 

narinas, dilatadas; os olhos negros, rasgados, de um brilho estranho. Apesar 

da  incontestável  formosura,  tinha  alguma  coisa  de  masculino  nas  feições  e 

nos modos. A boca, ornada de magníficos dentes, tinha um sorriso de gelo. 

Fitava com arrogância os homens até obrigá-los a baixar os olhos (SOUSA, 

2004, p. 64-65). 

 

Nesse fragmento, o autor apresenta as duas filhas do capitão Jerônimo, uma adotiva e 

a  outra  legítima,  que  embora  fossem  criadas  e  cuidadas  com  igual  atenção  pelo  pai,  tinham 

aspectos  e  personalidades  diferentes.  E  a  diferença  não  estava  apenas  na  personalidade  e 

fisionomia, mas na forma com que se tratavam, de um lado Aninha era meiga e amorosa, mas 

evitava  a  presença  e  a  companhia  de  Vitória,  que,  por  sua  vez,  a  fitava  com  o  olhar 

amedrontador.   

O narrador coloca a situação enigmática da ausência de Vitória e do enfraquecimento 

de Aninha. 

 

Tudo,  porém,  correu sem  novidade, até  ao  dia  em  que  completaram  quinze 



anos, pois se dizia que eram da mesma idade. Desse dia em diante, Jerônimo 

51 

 

Ferreira  começou  a  notar  que  a  sua  filha  adotiva  ausentava-se  da  casa 



frequentemente, em horas impróprias e suspeitas, sem nunca querer dizer por 

onde  andava.  Ao  mesmo  tempo  em  que  isso  sucedia,  Aninha  ficava  mais 

fraca e abatida. Não falava, não sorria, dois círculos arroxeados salientavam-

lhe a morbidez dos grandes olhos pardos. Uma espécie de cansaço geral dos 

órgãos parecia que lhe ia tirando pouco a pouco a energia da vida (SOUSA, 

2004, p. 65-66). 

 

Aqui se percebe claramente que  algo de  estranho  está  acontecendo. Algo  que o pai 



não consegue decifrar. A palidez e inércia de uma e a tenacidade e audácia de outra confunde 

o capitão Jerônimo.  

Esse  enigmático  episódio  se  estendeu  até  o  dia  do  casamento  de  Aninha,  que  pela 

segunda  vez  havia  sido  pedida  em  matrimônio.  A  primeira  recusou,  mas  a  segunda  por 

imposição do pai  teve que aceitar. No dia do casamento, tudo  se consuma, mas não a união 

entre  ela  e  o  noivo  e  sim  um  assombroso  fato  que  deixa  muito  mais  interrogação  do  que 

entendimento.  E  na  hora  que  Aninha  precisava  responder  se  aceitava  ou  não  casar-se, 

acontece o inesperado: 

 

De pé, à porta da sacristia, hirta como uma defunta, com uma cabeleira feita 



de  cobras,  com  as  narinas  dilatadas  e  a  tez  verde-negra,  Vitória  a  sua  filha 

adotiva,  fixava  em  Aninha  um  olhar  horrível,  olhar  de  demônio,  olhar  frio 

que parecia querer pregá-la imóvel ao chão. A boca entreaberta mostrava a 

língua fina, bipartida como língua de serpente. Um leve fumo azulado saia-

lhe da boca, e ia subindo até ao teto da igreja. Era um espetáculo sem nome!  

Aninha  soltou  um  grito  de  agonia  e  cai  com  estrondo  sobre  os  degraus  do 

altar. (...) de repente a moça parecia sossegar um pouco, mas não foi senão o 

princípio de uma nova crise. Inteirou-se. Ficou imóvel. Encolheu depois os 

braços, dobrou-os a modo de asas de pássaro, bateu-o por vezes nas ilhargas, 

e,  entreabrindo  a  boca,  deixou  sair  longo  grito  que  nada  tinha  de  humano, 

um grito que ecoou lugebremente pela igreja: 

— Acauã!  

— Jesus! — bradaram todos caindo de joelhos. E a moça, cerrando os olhos 

como  em  êxtase,  com  o  corpo  imóvel,  à  exceção  dos  braços,  continuou 

aquele canto lúgubre:  

— Acauã! Acauã! 

Por cima do telhado, uma voz respondeu à de Aninha: 

— Acauã! Acauã! 

Um  silêncio  tumular  reinou  entre  os  assistentes.  Todos  compreendiam  a 

horrível desgraça. 

Era o Acauã.  (SOUSA, 2004, p. 69-71). 

 

Neste fragmento é possível percebermos como o personagem capitão Jerônimo está 



determinado  a  um  fim  trágico,  ou  seja,  a  fatalidade,  através  de  suas  filhas,  que  no  caso  de 

Vitória se transforma em cobra e no caso de Aninha na terrível ave acauã. E nesse momento 

Jerônimo estaria pagando o preço por ter desobedecido uma crença popular.      


52 

 

Assim, termina o conto de  Inglês de Sousa  "Acauã",  no qual mais  uma vez o autor 



considera  o  mito  na  escrita  do  conto,  retratando  a  superstição  do  povo  de  uma  região 

fortemente  marcada  por  mitos  e  lendas  que  amedrontam  e  tornam  o  homem  sujeito  ao 

domínio de seus temores. 

A partir desse conto é possível verificar que sua narrativa está repleta  de crendices, 

de superstições e da fatalidade. As duas filhas de Jerônimo Aninha e Vitória materializam em 

suas vidas a desgraça do pai, ao tornarem-se animais, uma a cobra e a outra ave. Essa tragédia 

se  deu  devido  à  desobediência  de  Jerônimo  ao  sair  para  caçar  em  uma  sexta-feira  maior.  A 

maldição do capitão Jerônimo Ferreira se dá por meio de vários fatos, como a transformação 

de suas duas filhas em animais. Nessa transformação, o capitão sofre duas maldições, porque 

tanto  a  cobra  quanto  o  acauã  agourento  são  sinais  de  tragédia.  A  Aninha  não  consegue  se 

casar, outro fato pertinente, pois o casamento tinha um propósito de benção na vida da família 

e, principalmente, o fato de que Vitória, a filha adotiva, talvez por vingança, exerça um poder 

que  enfraquece  a  irmã  e,  por  fim,  preconiza  a  tragédia  ao  ter  uma  participação  direta  no 

fracasso do casamento e na transformação de Aninha na ave acauã. 

Segundo Câmara Cascudo o acauã seria uma ave que mata cobras e alimenta com ela 

seus  filhotes,  gerando vida a partir de um  ser considerado símbolo  de coisa ruim, e por isso 

também o acauã seria um animal agourento.  

No conto, no entanto, é Vitória, ou seja, a personagem ligada à cobra, quem suga as 

energias  de  Aninha.  Essa  inversão  de  sentido  permite  uma  interpretação  na  qual  é  possível 

compreender  a atitude de Vitória como uma vingança da cobra à figura do acauã, pois a ave 

se  alimentaria  de  cobras.  É  justamente  no  momento  em  que  Aninha,  personagem  ligada  ao 

acauã,  vai  se  casar,  ou  seja,  vai  constituir  família  que  a  cobra  aparece  e  interrompe  não 

permitindo que o acauã, poderíamos supor, tenha filhotes.         

O conto narra que o preço pago pelo capitão é muito alto. Ao ver sua filha legítima 

carregar a desgraça de não poder consolidar o seu casamento, depois de duas desistências, e 

ser transformada em uma ave  agourenta. Enquanto que a filha encontrada na beira do rio se 

transforma  na  cobra,  e  o  gesto  paternal  e  solidário  com  a  pequena  menina  encontrada  se 

transforma em algo que marca tragicamente sua vida.  

No conto "Acauã", podemos observar que embora os mitos tenham histórias isoladas, 

elas se entrelaçam  através de um  agouro principal  que é o fato  de o capitão Jerônimo sair à 

caça em dia de sexta-feira, dia esse considerado aziago pelos habitantes dessa região. 

 

 


53 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

 

Ao concluir essa pesquisa pode-se constatar que Inglês de Sousa é um autor voltado 



para  a  representação  do  Naturalismo,  mantendo  uma  fidelidade  com  esse  aspecto,  em  que 

apresenta  em  seus  contos,  a  realidade  de  forma  concreta.  Assim,  a  narrativa  dos  contos 

permite que se compreenda a intencionalidade do autor em relação aos aspectos da fatalidade, 

do Determinismo e da Ciência. Por isso, pode-se constatar com clareza, a amplitude da visão 

de  Inglês  de  Sousa,  no  século  XIX,  ao  retratar  a  vida  cotidiana  e  histórica  das  pessoas  da 

região  amazônica,  ao  mesmo  tempo  em  que  retrata  toda  sua  dimensão  cultural  e  religiosa. 

Permeia-se  nessas  dimensões  a  tragédia  como  uma  condição  determinada  na  vida  dos 

habitantes dessa região. 

Walter  Benjamin  em  seu  ensaio  intitulado  "O  narrador:  considerações  sobre  a  obra 

de  Nikolai  Leskov"  afirma  que  as  melhores  narrativas  escritas  são  “as  que  menos  se 

distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (BENJAMIN, 

1994,  p.  198).  Para  Benjamin,  um  narrador  de  qualidade  tem  sempre  suas  raízes  no  povo, 

principalmente  nas  camadas  artesanais.  Ele  identifica  claramente  essa  característica  em 

Leskov, que, enquanto agente russo de uma firma inglesa, pode viajar por toda a Rússia. Essas 

viagens lhe foram de grande valia mais tardiamente em sua vida literária, pois, durante elas, 

enriqueceu-se tanto em experiência quanto em conhecimento 

No  presente  trabalho  objetivou-se  mostrar  como  o  autor  Inglês  de  Sousa  conseguiu 

utilizar mitos e lendas em sua obra Contos Amazônicos, obra naturalista de ficção, já que para 

o Naturalismo nada existe de sobrenatural, cabendo às leis científicas a explicação de todos os 

fenômenos da natureza.  

Inglês de Sousa destaca-se no Naturalismo brasileiro misturando ficção ao relato de 

uma região, descrita por ele, como assombrada por histórias do universo mítico, onde mitos e 

lendas  fazem  parte  do  cotidiano  dos  habitantes.  O  autor  tinha  uma  verdadeira  obsessão  em 

descrever em  suas  obras a região da qual  provinha, a região amazônica,  e o comportamento 

dos  sujeitos  que  a  habitavam.  E  sendo  esse  espaço  muito  marcado  por  um  imaginário 

fantasioso, preenchido por um rico e forte repertório mitológico, fez-se necessária a referência 

ao mito, que em muitos casos determina a conduta dos personagens dos contos. É através de 

histórias sobre o boto, sobre a maldição do pássaro acauã, sobre os poderes de uma feiticeira, 

retratados  nos  contos  "O  baile  do  Judeu",  "Acauã"  e  "A  feiticeira",  enfim,  por  causos  que 

definem a memória cultural dessa região que é extremamente rica, que Inglês de Sousa traz o 



54 

 

Determinismo,  que  submete  os  personagens  ao  destino  traçado  por  forças  superiores  à  sua 



vontade, destino esse que leva sempre à fatalidade. 

Nesse sentido, a pesquisa trouxe, através dos contos analisados, a percepção cultural 

do  povo  dessa  região.  De  uma  forma  contextualizada  os  contos  retratam  com  fidelidade  a 

região abordada, permitindo aos leitores uma compreensão clara sobre como viviam os povos 

nessa região e como interpretavam os fatos ocorridos, que estavam além de seus desejos, de 

suas vontades e de suas decisões.  

Assim, a pesquisa oportunizou a compreensão e o conhecimento de um autor que por 

meio  de  seus  contos  retratou  a  vida  do  povo  da  região  amazônica.  E,  com  fidelidade  ao 

Naturalismo  da  época  fomentou  a  discussão  de  fatos  históricos  e  do  mito  que  permeou  a 

existência humana desses habitantes.  

 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 

 

 

55 

 

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