Universidade estadual de mato grosso do sul eliane sarri



Baixar 338.06 Kb.
Pdf preview
Página2/4
Encontro18.06.2020
Tamanho338.06 Kb.
1   2   3   4

1.2  Naturalismo de Zola 

 

Rodrigo Carvalho (2011), no artigo Émile Zola e o Naturalismo Literário, afirma que 

Émile  Zola  nasceu  na  França  e  viveu  entre  os  anos  de  1840  a  1902,  foi  escritor  e  defendeu 

com  veemência  o  Naturalismo.  Buscou  através  de  suas  obras  aproximar  a  arte  do  saber 

científico que vigorava na época. De uma maneira muito realista apresentou em sua literatura 

o que o homem tem de mais desprezível e triste. 

Segundo Carvalho (2011), foi a partir de uma adaptação das noções elaboradas pelo 

médico  Claude  Bernard,  em  Introdução  ao  Estudo  da  Medicina  Experimental  (1865),  que 

Zola chegou ao seu método de romance experimental, decidindo que seus romances deveriam 

ter rigor científico. Nesse sentido, o escritor indicaria que o observador é aquele que aplica os 

métodos de investigação dos fenômenos sem variar as condições de existência destes, já que o 

experimentador  emprega  métodos  de  investigação  fazendo  variar  as  condições,  de  modo  a 

fazer os fenômenos aparecerem em circunstâncias diferentes. 

Ainda  segundo  Carvalho  (2011),  Zola  compreendia  que  a  conduta  humana  é 

determinada  pela  herança  biológica,  pela  fisiologia  das  paixões  e  pelo  ambiente.  Para  ele  o 

desenvolvimento  das  personagens  e enredos  deve ser determinado sobre aspectos  científicos 

similares aos empregados em experiências de laboratório.   

O Naturalismo permeou todo o seu trabalho literário e forma de expressar o que via e 

deveria mudar no mundo de seu tempo, como mostra o fragmento abaixo: 

 

Zola  arquitetou  minuciosamente  a  construção  de  seu  edifício  literário; 



buscou  um  sistema  filosófico  e  uma  visão  de  mundo  que  retratasse  seu 

tempo. Não encontrou somente uma filosofia, porém uma fórmula para seu 

ideário.  Naturalismo  foi  a  palavra  que  designou  sua  nova  literatura. 

Fomentou  uma  “literatura  científica”  graças  a  todo  o  movimento  de 

doutrinas  cientificistas  e  materialistas  que  proliferaram  ao  longo  do  século 

XIX.  Mostrou-se  em  sintonia  com  autores  em  ascensão  como  Charles 

Darwin  e  sua  teoria  evolucionista,  Honoré  de  Balzac  e  sua  ampla  obra 

literária,  bem  como  as  doutrinas  socialistas  que  começavam  a  se 

arregimentar (CARVALHO, 2011, p. 107). 

 

Por  meio  desse  fragmento  é  possível  verificar  a  vasta  visão  e  trabalho  de  Zola  que 



permeia toda a situação de seu tempo e engloba em seu estilo naturalista a filosofia, a ciência 

e  a  política.  Nesse  sentido  é  possível  entender  como  sua  perspectiva  de  elucidar  como  a 

realidade  do  homem  de  seu  tempo  se  dá  de  forma  completa,  objetiva  e  clara,  tal  qual  é  a 

performace do Naturalismo. 



15 

 

Como  ressalta  Carvalho,  Zola  soube  combinar  as  teorias  polêmicas  com  o  que  o 



mundo  vivia  no  momento,  como  as  questões  darwinistas,  evolucionistas  e  deterministas.  E 

saltando do Realismo adentrou com veemência o Naturalismo redesenhando o mundo em sua 

forma mais natural possível, onde evidenciava a realidade cruel de homens e mulheres. Esse 

aspecto é possível constatar na passagem abaixo:  

 

Émile Zola foi participante da dura realidade sobre a qual refletiu, dispondo 



de uma narrativa que em diversos momentos adota tons escuros e sombrios. 

É  propósito  do  autor  chamar  a  atenção  para  as  precárias  e  desumanas 

condições  de  homens,  mulheres,  crianças  e  idosos  franceses,  bem  como  ao 

sentimento  de  revolta  de  multidões  esmagadas  pelo  peso  da  exploração 

(CARVALHO, 2011, p.117). 

 

Nesse  sentido,  o  Naturalismo  torna-se  um  instrumento  favorável  para  que  Zola 



empreite  seu  trabalho  de  demonstrar  e  chamar  a  atenção  da  realidade  de  muitas  pessoas  em 

seu tempo.  

O  que  é  interessante  perceber  é  que  ele  consegue  trazer  em  suas  obras  um  olhar 

amplo sobre as diferentes realidades e situações e não apenas foca em uma única realidade ou 

situação humana. Por isso, ele consegue agregar em sua literatura aspectos sociais, políticos, 

humanos e científicos.  

Outro fator importante na obra de Zola é que os seus personagens retratam a vida do 

seu cotidiano, contando histórias de pessoas que cruzavam seu caminho real, como mostra o 

trecho a seguir:  

 

Muitas  representações  de  Zola  se  comportam  como  as  pessoas  que  o  autor 



cruzava  diariamente:  em  ambientes  miseráveis,  sobrepunha-se  a  “besta 

humana”,  busca-se  alívio  no  álcool,  convive-se  pela  violência.  Para 

sobreviver  era  necessário:  roubar,  se  prostituir.  Crianças  sucumbiam  à 

violência  e  à  fome.  A  doença  é  um  elemento  pertinente  nas  narrativas  do 

escritor  francês,  tanto  daquela  advinda  das  insalubres  condições  do  meio, 

quanto  a  doença  nervosa;  ambas  atacam  todas  as  classes  sociais, 

reproduzindo essa condição original nas gerações subseqüentes, conforme os 

ditames  naturalistas  que  permeiam  os  romances  experimentais  do  autor 

(CARVALHO, 2011, p. 117). 

 

Diante  do  exposto  é  compreensível  verificar  que  o  estilo  literário  de  Zola  é 



alavancado como a priori dos tempos, que permite uma transmissão da leitura que se faz do 

mundo  e  das  pessoas,  na  qual  esta  realidade  se  encarna  no  concreto  da  vida  humana, 

traduzindo,  por  meio  da  literatura,  toda  a  experiência  crucial  e  sensível,  de  maneira  única, 

visível,  palpável  e  fria.  Por  isso,  talvez  seja  possível  ver  em  Zola  um  autor  que  permite 



16 

 

iluminar  as  suas  obras  pela  realidade  obscura  da  vida,  quando  descreve  e  mostra  de  forma 



direta as relações e sensações vivenciadas por pessoas no cotidiano de suas vidas. Cotidiano 

esse marcado por conflitos e desafios.  

Assim, pode-se afirmar que o estilo naturalista de Zola torna o mundo mais pleno e 

real, sem facetas obscuras ou situações irreais, permitindo aos leitores uma visão completa e 

ampla do mundo e de suas interações entre pessoas humanas, concretas e reais.  

 

 



 

1.3  O Naturalismo como afirmação da ciência e do Determinismo 

 

Como  ressalta  Coutinho  (2004),  o  Naturalismo  é  um  movimento  que  rompe  com  o 



estilo romântico e apresenta a vida em sua forma mais real possível, por isso, esse movimento 

literário está estritamente ligado ao Realismo. 

Nessa perspectiva, é possível entender que o Naturalismo é a expressão da ciência e 

consequentemente do determinismo, uma vez que essas duas dimensões se mesclam em uma 

conexão com a vida humana.  

Retomando  Pereira  (1998),  o  Naturalismo  está  ligado  ao  Realismo,  os  autores 

utilizam da realidade para expor o drama e a vida de homens e mulheres. Por isso buscam em 

autores como Hyppolite Taine, que viveu entre 1828 a 1893, o determinismo que enxergava 

no  homem  e  em  seus  hábitos  e  costumes,  os  fatos  da  história  e  da  sociedade  de  seu  tempo, 

transcendendo as questões da influência do meio, da hereditariedade e da raça.  

Por outro lado, a teoria da evolução, defendida por Darwin, que viveu entre os anos 

de 1809 a 1882, trata sobre a seleção natural das espécies. Fundamentado nesses dois pilares 

teóricos que se fundem e consolidam o Naturalismo, como afirma Sodré (1965). 

O  homem  como  produto  do  meio  no  qual  está  inserido  é  a  centralidade  do 

Determinismo, que vê o indivíduo como uma projeção do contexto do qual faz parte e do qual 

não consegue escapar, mas está condicionado a projetar e reproduzir a realidade que o insere 

em determinado lugar, situação e cenário. 

De acordo com Sodré (1965), é relevante considerar que o Determinismo é, antes de 

tudo, uma teoria de cunho filosófico que busca afirmar que as escolhas feitas pelos homens se 

dá através da relação de causalidade, ignorando assim, a possibilidade do livre-arbítrio.  



17 

 

Assim,  fica  evidente  que  o  ser  humano  não  tem,  nessa  visão,  vontade  própria,  eles 



são apenas projeções de realidades externas, estando totalmente à mercê do destino que lhe foi 

traçado, como apresenta o fragmento a seguir, retirado de O cortiço de Aluísio Azevedo. 

 

— É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada a 



segui-los. — Prendam-na! É escrava minha! 

A  negra, imóvel,  cercada  de  escamas  e  tripas  de  peixe,  com  uma  das  mãos 

espalmada  no  chão  e  com  a  outra  segurando  a  faca  de  cozinha,  olhou 

aterrada para eles, sem pestanejar. 

Os  policiais,  vendo  que  ela  se  não  despachava,  desembainharam  os  sabres. 

Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto 

e,  antes  que  alguém  conseguisse  alcançá-la,  já  de  um  só  golpe  certeiro  e 

fundo rasgara o ventre de lado a lado. 

E  depois  embarcou  para  a  frente,  rugindo  e  esfocinhando  moribunda  numa 

lameira de sangue (...) (AZEVEDO, 1997, p. 207) 

 

 

Por  meio  desse  texto  é  possível  entender  que  o  Determinismo  é  a  força  do  destino 



sobre a vida da pessoa e que coloca o ser humano como alguém condicionado ao meio, como 

produto,  sem  vontade  e  sem  livre  arbítrio.  Essa  força  do  destino  pode  ser  notada  através  da 

personagem  Bertoleza,  que  representa  a  mulher  na  condição  de  inferioridade,  mulher  negra, 

escrava e submissa ao homem, como um objeto de exploração por parte de seu companheiro 

João Romão, pois  Bertoleza trabalha muitos  anos  para o companheiro  sem  receber nada  em 

troca e assim que ele consegue atingir seu objetivo financeiro a descarta como um objeto que 

não lhe serve mais. O interessante nessa obra, é a maneira como o Determinismo aparece, já 

que o autor cria uma expectativa de que a personagem Bertoleza poderia deixar a condição de 

pessoa ligada à escravidão, pois ela  atua como mulher do personagem Romão, porém no final 

sua situação não muda, e ela continua na condição de escrava, ou seja, está determinada pela 

condição racial e atrelada ao cenário de escravidão que marca a personagem. 

Sodré  (1995)  afirma  que  o  Naturalismo  faz  de  seus  personagens  um  fantoche  que 

está  inevitavelmente  preso  à  origem,  ao  meio  e  ao  contexto.  A  origem  está  ligada  ao 

Determinismo  biológico,  enquanto  o  meio  refere-se  ao  contexto  social  e  literário,  um  fator 

que condiciona o indivíduo. Passaremos agora a comentar o Naturalismo no Brasil.

 

 



 

 

 



 

 

 



18 

 

1.4  O Naturalismo no Brasil 

 

O Naturalismo tem seu começo na Europa, onde nasce através da publicação do livro 



Germinal de Émile Zola em 1885, como mostra Broca no excerto abaixo: 

 

Movimento  literário  que  teve  início  na  Europa  com  a  publicação  do 



livro Germinal,  de  Émile  Zola,  o Naturalismo chegou  ao  Brasil  no  final  do 

século  XIX.  Foi  nessa  época  que,  influenciados  por  escritores  europeus, 

nossos  escritores  passaram  a  enxergar  na  literatura  um  instrumento  de 

denúncia social, e não apenas um entretenimento para a classe média e para 

a elite brasileira (BROCA, 1991, p.98) 

 

O  Naturalismo  e  o  Realismo  ocorrem  juntos  no  Brasil.  No  momento  da  publicação 



de O Mulato (1881) de Aluísio de Azevedo e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) de 

Machado  de  Assis.  Esta  última  é  considerada  a  obra  que  inaugurou  o  Realismo  no  Brasil. 

Também  encontramos,  nesse  período,  outros  autores  que  se  destacaram,  como:  Adolfo 

Caminha  com  Bom-crioulo  (1895)  e  Inglês  de  Sousa  com  O  missionário  (1888)  e  Contos 



Amazônicos (1893). 

Segundo  Bosi,  "o  Realismo  se  tingirá  de  Naturalismo,  no  romance  ou  no  conto, 

sempre que fizer personagens e enredos submeterem-se ao destino cego das leis naturais que a 

ciência  da  época  julgava  ter  codificado"  (BOSI,  2015,  p.178).  Ou  seja,  a  literatura  realista 

produzida no final do século XIX, se transforma em naturalista à medida que os personagens 

são  submetidos  ao  destino  traçado  por  forças  superiores  à  sua  vontade,  na  qual  o  homem  é 

lançado em determinada direção.        

No Brasil, o Naturalismo nasce contextualizado em autores que buscam difundir um 

pensamento mais  real  e  natural  da vida humana,  através  do  retrato  de uma situação difícil e 

polêmica como apresenta Nelson Sodré ao dizer que o Naturalismo brasileiro é permeado pela 

influência do meio e do Determinismo. 

 

O principal representante do Naturalismo no Brasil foi o maranhense Aluísio 



Azevedo.  Em  sua  obra  máxima, O  Cortiço,  Aluísio  condensou  todos  os 

ideais  naturalistas  ao  mostrar  como  a  influência  do  meio  e  a  força  dos 

instintos determinam o comportamento das personagens. Em outras obras do 

autor,  como O  mulato Casa  de  pensão,  é  possível  observar  como  o 

fatalismo das forças sociais e naturais atua sobre o homem, em uma tentativa 

de  validar,  por  meio  da  literatura,  as  teorias  científicas  que  dominavam  o 

pensamento filosófico em todo o mundo (SODRÉ, 1965). 

 

Por  meio  do  fragmento  acima  destacado  é  possível,  nesse  sentido,  entender  que  o 



Naturalismo  no  Brasil  foi  muito  semelhante  ao  Naturalismo  europeu,  pois  como  tal,  está 

19 

 

permeado  pelo  determinismo  que  não  permite  que  os  personagens  tenham  vontade  própria, 



sendo estes levados a um fim trágico. 

De acordo com Bosi (2015) é relevante destacar que a característica do Naturalismo 

no  Brasil  é  semelhante  ao  Naturalismo  europeu,  como  os  aspectos  relacionados  ao  estilo  da 

linguagem  coloquial  que  coloca  os  personagens  em  diálogo  direto  entre  si;  a  observação  da 

realidade  que  perpassa  por  um  realismo  absoluto,  apresentando  tudo  que  a  vida  tem  em  seu 

estado real  e concreto; retrata a sociedade de forma objetiva e clara, mostrando o que há  de 

mais  singular  na  vida  das  pessoas.  Também  é  extremamente  forte  a  influência  do 

evolucionismo  e  do  positivismo  como  fatores  determinantes  na  construção  do  perfil 

naturalista.  Além  disso,  o  Naturalismo  no  Brasil  mostra  de  forma  clara  e  real  os  problemas 

humanos e sociais. 

Segundo  Coutinho  (2004),  embora  tenha  sido  publicada  quatro  anos  após  a  obra  

coronel  sangrado  (1877)  de  Inglês  de  Sousa,  o  romance  O  mulato  (1881)  de  Aluísio  de 

Azevedo  é  que  foi  considerado  o  marco  do  surgimento  do  Naturalismo  no  Brasil.  Portanto, 

cronologicamente, Inglês de Sousa é quem seria digno desse mérito, porém essa precedência é 

considerada,  pelo  crítico,  como  acontecimento  obscuro,  no  qual  o  escritor  não  assumiu 

totalmente  a  filiação  ao  movimento  naturalista,  se  não  de  modo  coincidente  ou  acidental. 

Apenas  com  o  romance  O  missionário  (1888)  é  que  Inglês  de  Sousa  apareceria  realmente 

como escritor naturalista. 

 

O  romance  naturalista  no  Brasil  tem,  para  as  suas  origens,  nas  histórias  de 



nossa  literatura,  duas  datas:  1877  e  1881,  as  quais  correspondem, 

respectivamente,  à  publicação  de  O  coronel  sangrado,  de  Luís  Dolzani 

(pseudônimo de Inglês de Sousa), e de O mulato, de Aluísio de Azevedo. 

Não  obstante  a  circunstância  de  ter  vindo  a  lume  quatro  anos  depois  de  



coronel  sangrado,  foi  o  romance  de  Aluísio  de  Azevedo  que 

verdadeiramente  assinalou,  em  nossas  letras,  a  presença  da  nova  escola 

literária, com o rumor e debate que então provocou, de Norte a Sul do País.       

Antes de  O Mulato ser divulgado em sua reduzida edição de província, em 

São Luís do Maranhão, outro romance naturalista merecera a letra de fôrma, 

é  certo  que  não  em  sua  totalidade,  mas  pelo  menos  em  alguns  de  seus 

capítulos mais expressivos. Referimo-nos, a Um estudo de temperamento, do 

maranhense  Celso  Magalhães,  que  José  Veríssimo  acolheu  na  Revista 



Brasileira e cuja divulgação foi interrompida com o desaparecimento dessa 

publicação periódica. 

Cronologicamente, portanto, Inglês de Sousa e Celso Magalhães arrebatam a 

Aluísio Azevedo o mérito da implantação do Naturalismo no Brasil. Temos 

de  reconhecer,  no  entanto,  que  essa  precedência  é  acontecimento  obscuro, 

sombreado  ainda  mais  pela  mediocridade  de  ambas  as  manifestações 

artísticas.  


20 

 

No  estudo  que dedicou a  Inglês  de  Sousa,  ao  analisar  a  literatura  brasileira 



no período de 1870 a 1920, Lucia Miguel Pereira avisadamente assinala que 

O coronel sangrado é naturalista não na técnica, mas no espírito. 

[...] 


Somente  em  1888,  com  O  missionário,  Inglês  de  Sousa  apareceria  como  o 

naturalista  de  intenção  e  feitio,  que  se  inspirava  no  figurino  imposto  à 

literatura  do  tempo  pelo  criador  dos  Rougon-Macquart.  Antes  dessa  data, 

não  denota  o  romancista  brasileiro  filiação  evidente,  senão  de  modo 

coincidente ou acidental. (COUTINHO, 2004, p. 69-70)      

   


 

A  partir  desse  fragmento  é  possível  entender  que,  para  Coutinho,  só  com 



Missionário,  em  1888,  é  que  Inglês  de  Sousa  aparece  como  naturalista,  ao  mencionar  que  a 

sua manifestação literária não passa de um acontecimento inusitado, coincidente ou acidental.  

Sodré, no entanto, possui um posicionamento diferente ao de Coutinho, pois afirma 

que as obras O Cacaulista (1876) e O Coronel Sangrado (1877) de Inglês de Sousa são as que 

mais  se  encaixam  nas  novas  tendências  do  Naturalismo  que  surgiu  nas  últimas  décadas  do 

século  XIX.  Segundo  Sodré  O  Coronel  Sangrado  possui  características  naturalistas  mais 

fortes do que O Mulato de Aluisio Azevedo, como podemos observar no fragmento a seguir. 

 

A  figura  que  aparece  com  mais  frequência,  na  disputa  de  prioridade 



naturalista, é a de Inglês de Sousa. E aqui se constata, concretamente, como 

cabe ao público, na realidade, a decisão de tais problemas, e os julgamentos 

soberanos e definitivos. Porque, sem a menor dúvida, tomados os dois livros 

isoladamente,  isto  é,  sem  considerar  a  decisão  do  público,  O  Coronel 



Sangrado, de Inglês de Sousa, publicado em 1877, revela muito mais traços 

naturalistas  do  que  O  Mulato,  aparecido  quatro  anos  depois  e  aceito  como 

marco  inicial  da  nova  escola  entre  nós.  Mesmo  O  Cacaulista,  de  1876, 

revela  em  Inglês  de  Sousa  a  intenção  e  o  domínio  de  técnicas  e  processos 

naturalistas  que  Aluísio  não  revela  no  seu  livro  tão  conhecido.  (SODRÈ, 

1965, p. 175)         

           

Segundo Bosi (2015), nascido no estado do Maranhão, Aluísio Tancredo Gonçalves 

de Azevedo viveu entre os anos de 1857 a 1913 e foi quem inaugurou o Naturalismo no Brasil 

com a obra O Mulato (1881). Desempenhou um papel de extrema importância através de suas 

atividades  como  jornalista,  romancista,  contista,  cronista,  diplomata,  desenhista,  pintor  e 

caricaturista.  Sua  primeira  obra  literária  foi  o  romance  Uma  Lágrima  de  Mulher  (1880), 

considerada um romance sentimental. Em 1881 publica O Mulato, na qual, segundo o crítico, 

seria sua "primeira obra de relevo, em que agride o preconceito racial, corrente nas famílias 

ricas  da  província"  (BOSI,  2015,  p.199).  Foi  o  único  escritor,  daquela  época  no  Brasil,  que 

vivia exclusivamente da sua escrita, e isso explicaria o desnível existente entre as suas obras 



O Mulato, Casa de Pensão e O Cortiço em relação as outras obras consideradas pelo crítico 

21 

 

como  "pastelões  melodramáticos  de  inspiração  industrial"  (BOSI,  2015,  p.199).  Ainda 



segundo  Bosi  (2015),  Aluísio  de  Azevedo  fomentou  o  Naturalismo  no  Brasil  contando  a 

realidade de seus personagens e como seguidor fiel do Naturalismo europeu traduziu em suas 

obras a vida real de forma clara e concreta.  

No  entanto,  como  menciona  Lúcia  Miguel  Pereira  (1988),  Aluísio  Azevedo,  em 

alguns  momentos,  parece  mesclar  um  pouco  de  romantismo  em  suas  obras,  embora  não 

ofusque  o  seu  caráter  naturalista  que  tem  sempre  um  destaque,  como  nas  obras  O  Mulato 

(1881) e o Cortiço (1890), como podem observar no trecho a seguir. 

 

E a melhor prova de que o Naturalismo nos foi imposto pela moda está em 



ter sido tão mal assimilado. Praticaram-no sempre como quem executa uma 

receita os nossos romancistas, que, no espírito, continuavam românticos; não 

há disso prova mais expressiva do que  O Mulato, que representou a vitória 

da nova escola, tendo entretanto apenas disfarçado com cenas realistas o seu 

romantismo. (PEREIRA, 1988, p.122) 

  

Essa  ideia  de  romantismo  também  é  abordada  por  Alfredo  Bosi,  pois  para  ele  a 



leitura de O mulato dá uma boa visão do meio maranhense do tempo, mas não cumpre a outra 

exigência de Zola, a de pintar como se comporta uma paixão, como mostra o texto a seguir. 

 

O  protagonista,  o  mulato  Raimundo,  ignora  a  própria  cor  e  a  condição  de 



filho  de  escrava:  não  consegue  entender  as  reservas  que  lhe  faz  a  alta 

sociedade de São Luís, a ele que voltara doutor da Europa. Aluísio acumula-

o de encantos e de poder sedutor junto às mulheres e o faz amado e amante 

da prima, Ana Rosa, cuja família dá exemplo do mais virulento preconceito. 

A  intriga,  romântica  pelo  tema  do  amor  que  as  tradições  impedem  de  se 

realizar, admite um corte mais ousado no trato das relações entre Raimundo 

e  Ana  Rosa.  O  final  de  ópera,  com  a  fuga  dos  amantes  malograda  pelo 

assassínio  do  mulato,  volta  a  colorir  a  história  de  um  romantismo  gritante 

que Aluísio quis in extremis sufocar, mudando a ardente heroína em pacata 

mulher  de  um  tipo  imposto  pela  família  e  que  sempre  lhe  parecera  o  mais 

sórdido  dos  homens.  O  autor,  desejando  provar  demais  (no  caso  o 

preconceito vivo nas famílias brancas e a oscilação psicológica da mulher), 

desfigura o par amoroso, emboneca o protagonista e deixa o leitor no escuro 

quanto à marcação de um possível "caso de temperamento" que nas mãos de 

um  Zola  poderia  render  a  figura  de  Ana  Rosa.  Não  falha,  porém,  na  sátira 

dos  tipos  da  capital  maranhense:  o  comerciante  rico  e  grosseiro,  a  velha 

beata e raivosa, o cônego relaxado e conivente (BOSI, 2015, p.200-201).            

 

 



Outro autor que se destacou no Naturalismo no Brasil foi Adolfo Ferreira Caminha. 

Segundo Bosi, o escritor nasceu na cidade de Aracati, no Ceará, em 1867. Órfão, enfrentou, 

ainda  criança,  doenças  e  a  grande  seca  de  1877,  em  seguida  muda-se  para  o  Rio  de  Janeiro 


22 

 

sob a tutela de um parente, onde estuda na Escola Naval, acontecimentos que marcaram a sua 



infância e a sua trajetória como escritor.    

Segundo J. Guinsburg e João Roberto Faria, Adolfo Caminha traz em suas obras tudo 

o  que  vivenciou  como  marinheiro.  Os  açoitamentos  que  os  marinheiros  sofriam,  que 

aparecem  na  obra  No  País  dos  Ianques  (1894),  que  pode  ser  tomado  como  um  manifesto 

sobre  a  violência  física  que  os  marinheiros  da  época  sofriam.  No  romance  Bom-crioulo 

(1895), ele escreve sobre a homossexualidade dos marinheiros, o que causa grande mal estar 

na  Marinha.  O  personagem  central  desse  romance,  Amaro,  representa  uma  figura  movida 

pelos  nervos,  governada  pelo  temperamento  forte,  extremamente  violento,  animalesco  e 

doentio.  E  para  tratar  desses  ambientes  e  desses  sujeitos,  Adolfo  Caminha  utilizou  a 

metodologia e o vocabulário da estética naturalista.  Por esse espírito destemido e inovador o 

autor é marginalizado pela crítica da época que considera suas obras imorais.       

De  acordo  com  Pereira  (1988),  outro  autor  que  teve  grande  destaque  e  importância 

no contexto literário do Brasil, foi Herculano Marcos Inglês de Sousa. Nascido na cidade de 

Óbidos, no estado do Pará, viveu entre os anos de 1853 a 1918. Ele foi um dos fundadores da 

Academia  Brasileira  de  Letras,  trabalhou  como  professor,  advogado,  político,  jornalista  e 

escritor. Suas principais  obras são:  O cacaulista (1876); História de um pescador (1877); 



Coronel Sangrado (1877); O Missionário (1888); e Contos Amazônicos (1893). 

Durante  sua  vida  buscou  evidenciar  o  Naturalismo  de  forma  real  e  mais  objetiva 

possível.  Essa  característica  é  singular  em  suas  obras  como  o  Coronel  Sangrado  que  foi 

publicado  em  1877  e  o  Missionário  em  1891.  O  Missionário  retrata  a  influência  do  meio 

sobre a vida da pessoa humana.   

Para  Pereira  (1988),  Inglês  de  Sousa  ficou  conhecido  em  nossa  literatura  por  ser 

autor  de  O  Missionário  e  Contos  Amazônicos,  enquanto  que  as  outras  obras  ficaram 

esquecidas. E que devido a esse esquecimento é que Aluísio de Azevedo obteve o mérito de 

iniciador do Naturalismo no Brasil. 

 

Inglês de Sousa é sobretudo conhecido em nossa literatura como o autor do 



Missionário  e  dos  Contos  Amazônicos.  As  novelas  de  mocidade  ficaram 

esquecidas. Esquecimento dos mais injustos. Creio, aliás, que o silêncio em 

torno delas se estabeleceu logo de início; do contrario,não caberia a Aluísio 

de  Azevedo  o  título  de  iniciador  do  movimento  naturalista  entre  nós:  



Coronel  Sangrado,  saído  em  1877,  quatro  anos  antes  do  Mulato,  estava, 

muito mais do que este, no espírito da nova escola. (PEREIRA, 1988, p.157)         

        


23 

 

Ainda  segundo  Pereira  (1988),  o  autor  traz  em  suas  obras  aspectos  da  região 



amazônica,  na  qual  ele  nasceu,  descrevendo  as  dificuldades  da  vida  dos  habitantes, 

envolvendo suas histórias em tons sombrios, para com isso incorporar um elemento essencial 

desse povo, o mito.     

Segundo Coutinho, apesar de terem como cenário a Amazônia, as obras de Inglês de 

Sousa fixam mais o homem que a selva, como se esta, com sua grandeza, não interessasse ao 

escritor,  que  desejava  apenas  surpreender  e  apreender  o  elemento  humano,  nas  suas  lutas  e 

nas suas fraquezas, nas suas características e suas determinações.  

Os  nove  contos  que  compõem  a  obra  Contos  Amazônicos  (1893)  possuem 

características e expressões bem marcantes da região Amazônica, além de retratar o cotidiano 

dos habitantes dessa região, como mostra o texto a seguir de Sylvia P. Paixão. 

 

As nove histórias que compõem o volume poderiam ser consideradas quase 



como  crônicas  de  costumes  da  época,  ou  melhor,  um  documento  social 

elaborado a partir da observação de vários aspectos da região da Amazônia, 

onde a luta do homem contra o meio selvagem em que a vida se apresentava 

como uma sucessão de embates sociais e políticos era também a luta contra a 

natureza que o ameaçava. Personagens típicos da cidade de Óbidos, no Pará, 

bem  como  habitantes  marginalizados  do  interior  desfilam  nas  páginas  do 

livro,  ilustrando  a  vida  social  e  política  de  meados  do  século  XIX,  embora 

não seja essa a principal característica da obra de Inglês de Sousa. À medida 

que  se  lê  os  contos,  percebe-se  uma  unidade  temática,  fatos  do  cotidiano 

comum se entrelaçam compondo um todo, centralizado no que há de típico 

na região amazônica (PAIXÂO, 2004, p. XIII).   

            

  

Para  Paixão,  esses  contos  podem  ser  considerados  como  documentos  sociais,  pois 



fixam vários aspectos da região amazônica e registra a luta diária de seus moradores, além de 

demonstrar  o  espírito  popular  cheio  de  superstições  e  temores  do  mistério  dos  grandes  rios, 

das florestas inexploradas e dos animais. 

    Segundo  Sylvia  P.  Paixão,  Inglês  de  Sousa  vivenciou  um  momento  de  grandes 

transformações  no  Brasil.  E  esse  fato  influenciou  nas  suas  obras,  como  é  o  caso  dos  contos 

“Voluntário” e “Quadrilha de Jacó Patacho”. No primeiro, o autor, traz a questão da Guerra 

do  Paraguai,  e  no  segundo,  à  Cabanagem,  ambos  os  acontecimentos  representaram  grandes 

lutas dos homens em busca de melhores condições de vida. Em outros contos como “O baile 

do judeu”, “Acauã” e “A feiticeira”, é interessante perceber que Inglês Sousa traz a mitologia 

e a lenda como partes integrantes da ficção, revelando uma natureza com selvas e lugares que 

são desconhecidos.  Esse aspecto  mostra a presença do espírito supersticioso e misterioso  do 

povo amazônico retratado pelo olhar naturalista do autor, através de sua narrativa.  



24 

 

Este subcapítulo



 

se limita a uma abordagem breve sobre Inglês de Sousa, já que esse 

autor será discutido e analisado de forma mais completa em outro capítulo deste trabalho. 


Baixar 338.06 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
reunião ordinária
Dispõe sobre
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Universidade estadual
Relatório técnico
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
pregão eletrônico
Curriculum vitae
espírito santo
Sequência didática
Quarta feira
conselho municipal
prefeito municipal
distrito federal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
Pregão presencial
segunda feira
recursos humanos
educaçÃO ciência
Terça feira
agricultura familiar