Teoria dos sentimentos morais



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Sonália da Silva Alexandre

TEORIA DOS SENTIMENTOS MORAIS

Adam Smith

QUARTA PARTE

Do efeito da utilidade sobre o sentimento de aprovação

Consistindo de uma seção

Pag. 219

CAPÍTULO I

Da beleza que a aparência de utilidade confere a todos os produtos de arte, e da ampla influência dessa espécie de beleza observaram que a utilidade é uma das principais fontes de beleza. [...] Que a capacidade de qualquer sistema ou máquina para produzir a finalidade para a qual foram planejadas confere certa conveniência e propriedade ao todo e torna agradável tão-somente imaginá-lo ou contemplá-lo é algo tão óbvio que ninguém jamais deixou de notar.”

Pag. 219-220

“Também, a causa por que nos agrada o útil indicou-nos ultimamente um filósofo engenhoso e agradável*, que reúne grande profundidade de pensamento à maior elegância de expressão, e que possui o singular e feliz talento de tratar os temas mais abstrusos não apenas com a mais perfeita perspicuidade, mas com a mais viva eloquência. De acordo com esse filósofo, a utilidade de qualquer objeto agrada ao seu dono porque lhe sugere, constantemente, o prazer ou comodidade que é capaz de lhe proporcionar. [...]”

Pag. 221


“O filho do homem pobre, a quem o céu, na sua ira, castigou com a ambição, admira a condição dos ricos tão logo começa a olhar o seu redor. [...]”

Pag. 222


“[...] Está encantado com a remota ideia dessa felicidade. Em sua imaginação, essa parece a vida de algum ser superior, e para ascender a ela consagra-se a perseguir para sempre felicidade e honra. [...]”

* O autor se refere a David Hume (conferir Treatise on Human Nature II, ii, 5; 363-5; III, iii, i, 576-7; ed. Selby-Bigge). (N.da R.T.)

Pag. 224

“[...] Então, poder e riqueza se mostram como na verdade são: gigantescas e trabalhosas máquinas fabricadas para produzir algumas poucas insignificantes comodidades para o corpo, consistindo de molas belas e delicadas que se devem manter em bom estado com a mais ardorosa atenção, e que, apesar de todos os nossos cuidados, estão sempre pronto a arrebentar em mil pedaços, esmagando, em seus destroços, seu infeliz dono. São imensos edifícios que exigem o trabalho de uma vida inteira para serem erguidos, a todo momento ameaçam dominar quem neles habita, e que, enquanto estão de pé, embora possam poupá-lo de alguns dos menores incômodos, não o podem proteger de nenhuma das mais severas inclemências da estação. Afastam a chuva de verão, não a tempestade de inverno, mas todo o tempo o deixam cada vez mais exposto à ansiedade, ao medo, e à dor; às doenças, à ira e à morte.”

Pag. 224-225

“[...] Se considerarmos por si só a satisfação que todas essas coisas são capazes de proporcionar, separada da beleza de disposição adequada para suscitá-la, sempre parecerá muito desprezível e trivial. No entanto, rara são às vezes em que as vemos sob essa luz abstrata e filosófica. Em nossa imaginação, naturalmente a confundimos com a ordem, o movimento uniforme e harmonioso do sistema, a máquina ou economia que a produzem. Os prazeres da riqueza e das honras, considerados desse ponto de vista complexo, atingem a imaginação como se se tratasse de algo grandioso, belo e nobre, cuja obtenção vale todo o trabalho e cuidado que tão dispostos estamos a lhe dedicar.”



Comentário: Acreditava-se que o Direito Natural provinha da participação do homem numa ordem universal “perfeita”, sendo Deus o criador dessa ordem. Logo, a ação humana se adequa a uma ordem racional, pois o homem é pertencente desse todo.

Pag. 225


“E é bom que a natureza se imponha a nós dessa maneira. É essa ilusão que dá origem e mantém em contínuo movimento a destreza dos homens. É o que primeiro os incitou a cultivar o solo, a construir casas, a fundar cidades e estados e a inventar e aperfeiçoar todas as ciências e artes, que enobrecem e embelezam a vida humana; [...].”

Pag. 226


“[...] Os ricos apenas escolhem do monte o que é mais precioso e agradável. Consomem pouco mais do que os pobres; e a despeito do seu natural egoísmo e capacidade, embora pensem tão-somente em sua própria comodidade, embora a única finalidade que buscam, ao empregar o trabalho de muitos, seja satisfazer seus próprios desejos vãos e insaciáveis, apesar disso dividem com os pobres o produto de todas as suas melhorias. São conduzidos por uma mão invisível* a fazer quase a mesma distribuição das necessidades da vida que teria sido feita, caso a terra fosse dividida em porções iguais

*Conferir A riqueza das nações, IV, ii, 9. (N. da R. T.)

entre todos os seus moradores; e assim, sem intenção, sem saber, promovem o interesse da sociedade, e oferecem meio para multiplicar a espécie. [...] No conforto do corpo e na paz de espírito, todas as diferentes posições da vida estão quase no mesmo nível, e o mendigo que se aquece ao sol junto da estrada possui a segurança por que se batem os reis.”

Comentário: Aproximação com o pensamento de Grotius, no qual o Direito Natural passa a ser considerado uma “técnica” racional de coexistência, a própria natureza humana conduziria os homens às relações sociais.

Pag. 226-227

O mesmo princípio, o mesmo amor ao sistema, a mesma consideração da beleza da ordem, da arte e da invenção, frequentemente servem para recomendar as instituições que tendem a promover o bem-estar público. Quando um patriota se empenha pela melhoria de qualquer parte da política pública, sua conduta nem sempre nasce de pura simpatia pela felicidade dos que dela vão colher benefícios. Comumente, não é por solidariedade com cocheiros condutores de carruagens que um homem de espírito encoraja o conserto das estradas. Quando a legislatura estabelece prêmios e outros estímulos para o progresso das manufaturas de lã e linho, essa conduta raramente procede de mera simpatia com o usuário de roupas finas ou baratas, muito menos com o manufaturista ou comerciante. A perfeição política, a extensão do comércio e das manufaturas, são objetos nobres e magníficos. Agrada-nos contemplá-los, e interessa-nos tudo que tenda e promovê-los. Fazem parte do grande sistema de governo, e as rodas da máquina política parece mover-se com mais harmonia e facilidade por meio deles. [...] Todas as constituições de governo, entretanto, são valorizadas apenas na proporção em que tendem a promover a felicidade dos que vivem sob elas. [...]” [Excelente!]

Pag. 228


“[...] Se alguma coisa é capaz de o impressionar, é essa. Mas todas essas coisas tendem apenas a manter afastados sol e chuva, a poupá-los da fome e frio, das carências e da fadiga. Da mesma maneira, se desejares implantar a virtude pública no peito do que parece desatento dos interesses de seu país, muitas vezes será inútil falar-lhe das vantagens superiores de que gozam os súditos de um Estado bem governado, que estão mais bem alojados, mais bem vestidos, mais bem nutridos. Essas considerações habitualmente não causam grande impressão. É mais provável que o persuadas se descreveres o grande sistema de serviços públicos que trazem essas vantagens; se explicares as relações e as dependências entre suas várias partes, sua subordinação mútua umas às outras, sua subserviência universal à felicidade da sociedade; se mostrares como esse sistema poderia ser introduzido em seu país, o que impede isso de ocorrer no momento, como se poderiam remover esses obstáculos, para que todas as várias rodas da máquina no governo pudessem se mover com mais harmonia e suavidade, sem raspar umas as outras, sem retardar os movimentos uma das outras. [...] Nada predispõe tanto a promover o espírito público quanto o estudo da política – os vários sistemas de governo civil, suas vantagens e desvantagens -, da constituição de nosso país, sua situação e interesses com relação a nações estrangeiras, seu comércio, sua defesa, as desvantagens sob as quais opera, os perigos a que pode estar exposto, como remover umas e defender-se contra as outras. Por essa razão, as digressões políticas, se justas, razoáveis e praticáveis, são, entre todas as obras de especulação, as mais úteis. Até as mais fracas e piores não estão inteiramente desprovidas de utilidade. Servem ao menos para animar as paixões públicas dos homens e incitá-los a procurar meios de promover a felicidade da sociedade.”

Comentário: Princípio de guerra justa.

Pag. 229


CAPÍTULO II

Da beleza que a aparência de utilidade confere aos caracteres e ações dos homens, e em que medida a percepção dessa beleza pode ser considerada como um dos princípios de aprovação originais

“Os caracteres dos homens, bem como os produtos de arte ou as instituições do governo civil, podem servir ou para promover ou para perturbar a felicidade tanto do indivíduo quanto da sociedade. [...] Portanto, a beleza que possa pertencer ao governo civil por causa de sua utilidade necessariamente deverá corresponder em grau muito maior à sabedoria e à virtude. Ao contrário, que política civil pode ser mais ruinosa e destrutiva que os vícios dos homens? Os efeitos fatais de um mau governo se deve unicamente a ele não proteger suficientemente contra os males causados pela perversidade humana.”

Pag. 230


“O mesmo autor engenhoso e agradável que pela primeira vez explicou por que o útil agrada impressionou-se tanto com essa maneira de ver as coisas, que reduziu toda a nossa aprovação da virtude a uma simples percepção dessa espécie de beleza que resulta da aparência de utilidade. [...] E, na verdade, a Natureza ao que parece ajustou de modo tão feliz nossos sentimentos de aprovação e desaprovação à conveniência do indivíduo e da sociedade, que após o mais rigoroso exame se descobrirá, creio eu, que se trata de uma regra universal. [...]”

Comentário: De acordo com essa passagem, a formação dos nossos juízos se dá a partir da conveniência, as vezes é necessário reprimir algumas paixões egoístas com o intuito de garantir a felicidade ao maior número de pessoas possível, isso não significa necessariamente abrir mão de nossas paixões e interesses pessoais, e sim saber “refreá-los e/ou reprimi-los” em prol de um bem comum. [Temos um diálogo com a Ética de Spinoza].

Pag. 231


“Antes de mais nada, parece impossível que a aprovação da virtude seja um sentimento da mesma espécie que aquele por meio do qual aprovamos um edifício cômodo e bem projetado; ou que não tenhamos outra razão para elogiar um homem que não seja a mesma pela qual recomendamos um armário com gavetas.”

“Em segundo lugar, caso se examine bem, descobrir-se-á que a utilidade de qualquer disposição de espírito raramente constitui o primeiro fundamento de nossa aprovação, e que o sentimento de aprovação sempre implica um senso de conveniência muito distinto da percepção de utilidade. [...]”

As qualidades mais úteis a nós mesmos são, em primeiro lugar, razão e entendimento superiores, que nos capacitam a discernir as consequências remotas de todos os nossos atos, e a prever o beneficio ou prejuízo que provavelmente resultarão deles. E, em segundo lugar, o autodomínio que permite abstermo-nos de um prazer momentâneo, ou de suportar uma dor presente, a fim de obter um prazer maior, ou evitar uma dor maior no futuro. Na união dessas duas qualidades consiste a virtude da prudência, de todas as virtudes a mais útil ao indivíduo.”

Pag. 232


Da mesma maneira, tanto sob o aspecto da conveniência, como da utilidade, aprovamos o autodomínio por meio do qual refreamos nossos apetites presentes a fim de satisfazê-los melhor em outra ocasião. [...]”

Comentário: Autodomínio e temperança, virtudes da Natureza humana.

Pag. 233


“Humanidade, justiça, generosidade e espírito público são qualidades mais úteis aos outros. [...]”

Pag. 235


“Deve-se observar que, na medida em que o sentimento de aprovação se deve a percepção da beleza da utilidade, não tem relação alguma com os sentimentos alheios. [...]”

Pag. 236


[...] Todos esses sentimentos supõem a ideia de algum outro ser que fosse o juiz natural da pessoa que os experimenta; e é apenas por simpatia com as decisões desse árbitro de sua conduta, que pode conceber ou o triunfo de aplaudir-se a si mesmo, a vergonha de se condenar.”

Comentário: o conceito de simpatia pode ser tomado como base da moral. Os objetos morais nos são apresentados através dos sentidos, a partir das ações experimentadas podemos discernir o que julgamos ser “correto ou errado”. Segundo Lorde Shaftesbury, a mente humana não pode existir sem os sentidos. As imagens e formas de conduta mesmo depois de estarem fixadas na mente, não escapam ao nosso julgamento, é praticamente impossível manter-se imparcial.

QUINTA PARTE

Da influência dos usos e costumes sobre os sentimentos de aprovação e desaprovação moral

Consistindo de uma seção

Pag. 239

CAPÍTULO I

Da influência dos usos e costumes sobre nossas noções de beleza e deformidade

“Há outros princípios além dos já enumerados, que exercem considerável influência sobre os sentimentos morais da humanidade, e são as principais causas das mais diversas opiniões irregulares e discordantes que prevalecem nas diferentes épocas e nações, quanto ao que é censurável ou louvável. Esses princípios são os usos e os costumes, que estendem seus domínios sobre nossos juízos relativos a toda espécie de beleza.”



Comentário: Usos e costumes são apontados como aspectos importantes para a formação de nossos princípios morais.

[...]


Pag. 240

“O uso é diferente do costume ou, antes, é uma espécie particular de costume. [...]”

Pag. 241

“[...] Poucos homens, portanto, estão dispostos a conceder que os usos ou costumes exercem considerável influência sobre seus juízos relativos ao que é belo, ou, de outro modo, sobre a produção de qualquer dessas artes. Imaginam que todas as regras que deveriam, segundo pensam ser observadas em cada uma das artes se fundam na razão e na natureza, não no hábito ou preconceito. [...]”

Pag. 242

“Conforme os antigos retóricos, certa medida ou verso era naturalmente apropriado a cada espécie particular de prosa, pois expressava naturalmente o caráter, sentimento ou paixão que deveria predominar. [...]”

Pag. 243

“[...] O costume fez uma nação associar às ideias de gravidade, sublimidade e seriedade àquela medida que a outra relacionou com tudo que é alegre, irreverente e cômico. Nada se mostraria mais absurdo em inglês do que uma tragédia escrita nos versos alexandrinos franceses, ou em francês, do que uma obra da mesma espécie, em versos de dez sílabas. [...]”

Pag. 244-245

“Tampouco é apenas sobre as produções de arte que os usos e costumes exercem domínios. Ade coisas tem uma conformação peculiar, que se aprova, e possui uma beleza própria, distinta da beleza de todas as outras espécies. [...] Da mesma maneira, em cada espécie de criatura, a mais bela traz os caracteres mais fortes da estrutura geral da espécie, e guarda a mais forte semelhança com a maior parte dos indivíduos com que se classifica. Monstros, ao contrário, ou tudo que seja completamente deformado, são sempre mais singulares e bizarros, e guardam a menor semelhança com o gênero da espécie a que pertencem. Assim, a beleza de cada espécie, embora num sentido a mais rara de todas as coisas, porque poucos indivíduos atingem precisamente essa forma mediana, em outro sentido é a mais comum, porque todos os desvios se assemelham mais com ela do que uns com os outros. [...] Daí que certa prática e experiência de contemplar cada espécie de objetos é necessária, antes de podermos julgar sua beleza ou saber em que consiste a forma e mediana e mais usual. [...] Quantas ideias distintas a respeito da beleza as formas humanas e do rosto formam-se em diferentes nações! [...]”

Pag. 246

“Porém, não posso ser induzido a acreditar que nosso senso de beleza, mesmo externa, fundamenta-se inteiramente sobre os costumes. A utilidade de cada forma, sua adequação para os propósitos úteis para os quais foi designada, evidentemente recomendam, e a tornam agradável a nós, independentemente de costume. [...] Embora não possa admitir que o costume seja o único princípio de beleza, posso aceitar, contudo, a verdade desse sistema engenhoso, na medida em que concede que é raro existir uma forma externa tão bela a ponto de agradar e ao mesmo tempo ser inteiramente contrária ao costume, e diferente de tudo a que fomos acostumados nessa espécie particular de coisas, ou tão deformada que não seja agradável, se o costume a tolera uniformemente , e nos habitua a vê-la em cada indivíduo da mesma espécie.”

CAPITULO II

Da influência dos usos e costumes sobre os sentimentos morais

Pag. 246-247

“Uma vez que nossos sentimentos relativos a todas as espécies de beleza sofrem a influência dos usos e costumes, não se pode esperar que os sentimentos relativos à beleza da conduta estejam inteiramente isentos do domínio desses princípios. Porém, aqui sua influência parece muito menor do que em todo o resto. [...] Os princípios da imaginação, dos quais depende nosso senso de beleza, são de natureza muito sutil e delicada, e podem ser facilmente alterados por hábito e educação; os sentimentos de aprovação ou desaprovação moral, contudo, fundamenta-se nas mais fortes e vigorosas paixões da natureza humana e, ainda que possam de alguma forma ser distorcidos, nunca podem ser inteiramente pervertidos.”

Comentário: Adam Smith afirma que os nossos sentimentos relativos à beleza são influenciados pelos usos e costumes e podem ser alterados por hábito e educação. Em contrapartida, o autor admite que os usos e os costumes também podem influenciar, embora numa proporção bem menor, os sentimentos morais. Mas defende que os nossos juízos morais estão calcados em paixões mais vigorosas, portanto, não podem ser violados.

Pag. 247


“[...] Quando os usos e costumes coincidem com os princípios naturais do certo e do errado, aumentam a delicadeza de nossos sentimentos, e intensificam nosso horror a tudo que se aproxima do mal. [...]”

Pag. 248


“[...] As virtudes de gente de posição inferior, ao contrário, sua parcimoniosa frugalidade, sua penosa diligência, sua adesão rígida as regras, parecem-lhes vulgares e desagradáveis. Associam-nas tanto à vileza de posição a que essas qualidades comumente pertencem, como a inúmeros e imensos vícios que, supõem, acompanham-nas habitualmente, tais como uma disposição abjeta, covarde, doentia, mentirosa e baixa*.”

Pag. 249


“O caráter e os modos peculiares que o costume nos leva a atribuir a cada camada social e profissão talvez tenham às vezes uma conveniência independente do costume, e constituem algo que devemos aprovar por si mesmos, se considerarmos todas as diferentes circunstâncias que naturalmente afetam os que estão em diferentes estágios de vida. [...]”

Pag. 252


“[...] Seja qual for o comportamento que nos acostumamos a ver numa ordem respeitável de homens, vem a estar tão associada em nossa imaginação, àquela ordem, que sempre quando vemos uma acreditamos que depararemos com a outra, e, se nos desapontamos, sentimos falta de algo que esperávamos encontrar. Ficamos embaraçados e hesitantes, não sabendo como nos dirigir a um caráter que afeta claramente ser de uma espécie distinta daquelas em que estávamos predispostos classificá-lo.”

“[...] Toda a época e país considera o grau de cada qualidade que habitualmente se encontra nos homens respeitáveis como o ponto médio do talento ou virtude particular, e, como isso varia conforme as diversas circunstâncias que tornem diferentes qualidades mais ou menos habituais, por conseguinte variam os sentimentos relativos à exata conveniência de caráter e comportamento.”



*A Restauração Stuart (1660) trouxe à voga antigos cortesãos e nobres, caídos em desgraça durante as guerras civis (1640-1660). Era hábito então ridicularizar os puritanos, grandes protagonistas dessas guerras, acentuando sua origem social e seu fervor religioso, sobretudo a ênfase na pregação, a disciplina e a alegação de santidade dos propósitos. (TSM, Parte I, Seção III, Cap. II, p. 62). (N. da R.T.)

“Entre nações civilizadas, as virtudes que se fundam sobre a humanidade são mais cultivadas do que as que se fundam sobre a abnegação e o domínio das paixões. O caso é outro quando se trata de nações rudes e bárbaras: as virtudes de abnegação são mais cultivadas do que as de humanidade. [...]”



“O caso é outro entre bárbaros e selvagens. Todo selvagem experimenta uma espécie de disciplina espartana e, pela necessidade de sua situação, acostuma-se a toda a sorte de dureza. [...] Portanto, seja qual for a natureza de sua aflição, um selvagem não espera solidariedade dos que o rodeiam, e precisamente por isso nos desdenha expor-se, permitindo que não lhe escape a menor fraqueza. [...]”

Pag. 256


“[...] Assim, grande é a diferença entre os graus de autodomínio exigidos em nações civilizadas e bárbaras, e tais são os diferentes padrões com que julgam a conveniência do comportamento.”

Pag. 257


“Todos esses efeitos dos usos e costumes sobre os sentimentos morais da humanidade são, entretanto, insignificantes, se comparados aos que geram em alguns outros casos, e não é quanto ao estilo geral do caráter e comportamento que esses princípios produzem a maior perversão do juízo, mas quanto à conveniência ou inconveniência de usos particulares.”

Pag. 258


[...] Em geral, pode-se afirmar que o estilo dos modos existente em qualquer nação é o mais adequado à sua situação. [...]”

“Portanto, não é no estilo geral de conduta ou comportamento que o costume autoriza a mais ampla separação do que é a conveniência natural da ação. No que diz respeito aos usos particulares, sua influência com frequência é a mais destrutiva para a boa moral, pois é capaz de estabelecer como legítimas e irrepreensíveis ações particulares que colidem com os mais simples princípios do certo e do errado.”

Pag. 259

“[...], o costume ininterrupto autorizara tão completamente essa prática, que não apenas as vagas máximas do mundo toleravam essa prerrogativa bárbara, como até mesmo a doutrina dos filósofos, que deveriam ser mais justos e cuidadosos, deixou-se levar pelo costume estabelecido; [...].”

SEXTA PARTE

Do caráter da virtude

Consistindo de três seções

Introdução

“Quando consideramos o caráter de um indivíduo qualquer, naturalmente vemo-lo sob dois aspectos diferentes: primeiro, como pode afetar sua própria felicidade; e, segundo, como pode afetar a felicidade de outras pessoas.”

Pag. 265


SEÇÃO I

Do caráter do indivíduo, na medida em que afeta a sua própria felicidade; ou da prudência

A conservação e o estado saudável do corpo parecem ser os objetos que a natureza primeiramente recomenda ao cuidado de cada indivíduo. Os apetites de fome e sede, as sensações agradáveis e desagradáveis de prazer e dor, calor e frio, etc., podem ser consideradas como lições preferidas pela voz da própria Natureza, orientando-o quanto ao que deveria escolher e evitar para esse propósito. [...]”

“Na medida em que cresce, o homem logo aprende que algum cuidado e previsão são necessários para prover os meios de satisfazer esses apetites naturais, [...].”

Pag. 266

Nossa posição e crédito entre nossos iguais também dependem muito daquilo de que talvez um homem virtuoso desejaria que dependessem inteiramente: nosso caráter e conduta, ou da confiança, estima e boa vontade que esses naturalmente suscitam nas pessoas com que vivemos.”



“O cuidado da saúde, da fortuna, da posição e reputação do indivíduo – objetos dos quais se supõe que dependam principalmente seu conforto e felicidade nesta vida – é considerado a empresa própria daquela virtude comumente chamada prudência.”

“[...] Portanto, a segurança é o primeiro e principal objeto de prudência. [...]”

Pag. 267

“O homem prudente é sempre sincero, e sente horror ao mero pensamento de expor-se à desgraça que se segue da descoberta da falsidade. Ainda que sempre sincero, contudo, nem sempre é franco e aberto, e ainda que nunca diga senão a verdade, nem sempre julga obrigado, caso não o tenham propriamente convocado, a dizer a verdade completa. Do mesmo modo como e cauteloso em suas ações, também é reservado no seu discurso, e jamais expressa precipitada ou desnecessariamente sua opinião sobre as coisas ou pessoas.”

Pag. 268

“[...] Tanto em sua conduta quanto em sua palestra, é um observador rigoroso da decência, e respeita, com escrúpulo quase religioso, todo o decoro e cerimoniais estabelecidos da sociedade. [...]”

Pag. 269

“O homem prudente não se predispõe a sujeitar-se a uma responsabilidade que não tenha sido imposta por seu dever. [...] No fundo de seu coração, preferiria o deleite impassível da tranquilidade segura, não apenas a todo vão esplendor da ambição bem-sucedida, mas a glória sólida e real de realizar as maiores e mais magnânimas ações.”

Pag. 269-270

“[...], a prudência nunca é considerada uma das virtudes mais caras ou mais nobres. Conquista certa estima fria, mas não parece ter direito a um ardente amor e admiração.”

Pag. 270

“[...] Em todos esses casos, à Prudência se combinam muitas virtudes maiores e mais esplendidas: valor, ampla e forte benevolência, um sagrado respeito às regras da justiça, e tudo isso amparado por um grau apropriado de domínio de si. Essa prudência superior, quando transportada para o mais alto grau de perfeição, necessariamente supõe a arte, o talento e o hábito ou disposição de agir com a mais perfeita conveniência em todas as possíveis circunstâncias e situações. [...]”

Pag. 273

SEÇÃO II


Do caráter do indivíduo na medida em que pode afetar a felicidade de outras pessoas

Introdução

“O caráter de cada indivíduo, na medida em que pode afetar a felicidade de outras pessoas, deve fazê-lo pela sua disposição seja de prejudicar, seja de beneficiá-las.”

[...] A sabedoria de cada Estado ou república (commonwealth) empenha-se, tanto quanto possível, em empregar a força da sociedade para coibir os que são sujeitos à sua autoridade, de prejudicar ou perturbar a felicidade uns dos outros. As regras estabelecidas para esse fim constituem as leis civil e criminal de cada Estado ou país em particular. [...]”

Pag. 274


CAPÍTULO I

Da ordem em que indivíduos são recomendados por natureza aos nossos cuidados e atenção



“Como costumavam dizer os Estóicos, todo homem é primeiro e principalmente recomendado a seu próprio cuidado: e todo homem é certamente, em todos os aspectos, mais adequado e capaz de cuidar de si mesmo do que de qualquer outra pessoa. Todo homem sente seus próprios prazeres e dores mais imensamente do que os de outras pessoas. As primeiras são as sensações originais, as últimas, imagens refletidas e simpáticas, dessas sensações. As primeiras podem ser ditas a substância, as outras, a sombra.”

Pag. 276


“O que se chama afeição nada é, na realidade, senão simpatia habitual. Nossa preocupação pela felicidade ou desgraça dos que são objetos do que chamamos nossos afetos; nosso desejo de promover uma e evitar a outra, são o real sentimento dessa simpatia habitual, ou as consequências necessárias desse sentimento. [...]”

Pag. 278


“A educação de meninos em grandes escolas distantes, de rapazes em faculdades distantes, de jovens damas em internatos ou conventos distantes, parece ter prejudicado, na sua mais profunda essência, a moral doméstica das camadas sociais mais altas, e consequentemente a felicidade doméstica, tanto na França, como na Inglaterra. [...] A educação doméstica é a instituição da natureza, a educação pública, a invenção do homem. De certo é desnecessário dizer qual provavelmente será a mais sábia.”

Pag. 279


“Nas regiões pastoris, em todas as outras onde a autoridade da lei não é suficiente para garantir a perfeita segurança a cada membro do Estado, todos os diferentes ramos da mesma família comumente escolhem morar uns na vizinhança dos outros. Sua associação é frequentemente necessária para sua defesa comum. [...] Sua concórdia fortalece sua associação necessária, sua discorda sempre a enfraquece e pode destruí-la. [...]”

“Nas regiões comerciais, onde a autoridade da lei é sempre perfeitamente suficiente para proteger o mais humilde dos homens do Estado, os descendentes da mesma família, não tendo tal motivo para manter-se juntos, naturalmente se separam e dispersam, conforme os conduzem interesses ou inclinações. [...]”

Pag. 280

“Considero o chamado afeto natural antes o efeito do vínculo moral entre pai e filho, do que do suposto vinculo físico. [...]”

Pag. 281

“Essa disposição natural de acomodar e assimilar, na medida do possível, nossos próprios sentimentos, princípios e emoções aos que vemos estabelecidos e enraizados nas pessoas om quem temos a obrigação de conviver e conversar é a causa dos contagiosos efeitos da boa e má companhia. O homem que se associa principalmente aos sábios e virtuosos, embora talvez não se torne nem sábio nem virtuoso, não pode deixar de conceber um certo respeito, pelo menos pela sabedoria e pela virtude; [...].”

“Mas de todas as afeições por um indivíduo, a que se funda inteiramente na estima e na aprovação de sua boa conduta e comportamento, a que muita experiência e longo conhecimento confirmam, sem dúvida é a mais respeitável.”

Pag. 282


“[...] A natureza, que formou os homens para aquela bondade recíproca tão necessária para a sua felicidade, torna todo homem objeto peculiar de bondade para pessoas para quem ele mesmo já foi bondoso. Embora a gratidão dessas pessoas nem sempre corresponda a sua beneficência, o senso de seu mérito e a solidária gratidão do espectador imparcial sempre corresponderão. [...] Bondade gera bondade; e, ser amado por nossos irmãos é o grande objeto de nossa ambição, o caminho mais certo para alcançá-lo será mostrar, por intermédio de nossa conduta, que realmente os amamos.”

Pag. 283


“A seguir às pessoas que são recomendadas a nossa beneficência ou por seu vínculo conosco, ou por suas qualidades pessoais, ou ainda por seus serviços passados, vêm as indicadas, não de fato para o que se chama nossa amizade, mas para nossa atenção benevolente e bons serviços, os que se distinguem pela sua situação extraordinária – demasiadamente afortunados e demasiadamente infortunados, os ricos e poderosos e os pobres e desgraçados. A distinção em estratos, a paz e ordem da sociedade, estão em grande medida fundadas sobre o respeito que naturalmente concebemos pelos primeiros. O alívio e consolo da miséria humana dependem inteiramente da nossa compaixão pelos últimos. Mas a ordem e a paz da sociedade são ainda mais importantes que o alívio de miseráveis. [...] A natureza julgou sabiamente que a distinção em estratos, a paz e a ordem da sociedade, repousariam mais seguramente sobre a clara e palpável diferença de nascimento e fortuna do que sobre a diferença invisível, e muitas vezes incerta, de sabedoria e virtude. [...]”

Pag. 285


CAPÍTULO II

Da ordem em que as sociedades são por natureza recomendadas à nossa beneficência

“Os mesmos princípios que orientam a ordem em que os indivíduos são recomendados à nossa beneficência orientam igualmente aquela em que as sociedades nos são recomendadas. As sociedades para as quais beneficência é ou pode ser mais importante nos são recomendadas primeira e principalmente.”

“O Estado ou soberania em que nascemos e fomos educados, e sob cuja proteção continuamos a viver é, em casos ordinários, a maior sociedade cuja felicidade ou desgraça nossa boa ou má conduta pode ter muita influência. [...]”

Pag. 286


“O amor a nossa própria nação com frequência nos predispõe a ver com o mais malicioso ciúme e inveja a prosperidade e crescimento de qualquer outra nação vizinha. Nações independentes e vizinhas, não tendo um superior comum para decidir suas disputas, vivem todas em contínuo temor e suspeita umas das outras. Cada soberano, esperando pouca justiça de seus vizinhos, tende a tratá-los com tão pouca quanto espera deles*. O respeito às leis das nações ou às regras que Estados independentes declaram ou pretextam julgar-se obrigados a observar em suas transações uns com os outros é frequentemente pouco mais do que mero pretexto ou declaração. [...]”

Pag. 287


“O amor à nosso próprio país não parece derivar do amor à humanidade. O primeiro sentimento é em todo independente do segundo, e às vezes parece até predispor-nos a agir inconsistentemente com este. A França pode conter talvez quase três vezes o número de habitantes da Grã-Bretanha. Na grande sociedade dos homens, pois, a prosperidade da França deveria apresentar-nos como objeto de muito maior importância do que a da Grã-Bretanha. No entanto, o súdito britânico, que por essa razão preferisse sempre a prosperidade do primeiro país e não a do segundo, não seria considerado bom cidadão da Grã-Bretanha. Não amamos nosso país apenas como parte da grande sociedade dos homens – nós o amamos por si, e independentemente de qualquer consideração desse tipo. [...]”

“A mais ampla benevolência pública que se pode habitualmente exercer com algum efeito considerável é a dos estadistas, que projetam e formam alianças entre nações vizinhas ou não muito distantes para a conservação, quer do que se chama equilíbrio do poder, quer para a paz e tranquilidade geral dos Estados que estão dentro do âmbito de suas negociações. Mas os estadistas que planejam e executam esses tratados raramente tem algo em vista senão o interesse de seus respectivos países. [...]”

*O argumento de que as soberanias vivem em estado de guerra uma com as outras, sem árbitro para julgar suas controvérsias, encontra-se no capítulo XIII do Leviatã, e serve para que Hobbes ilustre a condição natural do homem. (N. da R. T.)

Pag. 289


“Todo Estado independente é dividido em muitas ordens e sociedades diferentes, cada uma das quais com seus poderes, privilégios e imunidades específicos. Todo o individuo é naturalmente mais efeito à sua ordem ou sociedade particular do que a qualquer outra. [...]”

“Da maneira como cada Estado se divide em diferentes ordens e sociedades que o compõem, e da distribuição particular que se fez de seus respectivos poderes, privilégios e imunidades, depende o que se chama a constituição desse Estado particular.”



“Da habilidade de cada ordem ou sociedade particular de manter seus próprios poderes, privilégios e imunidades contra as usurpações de todos os demais depende a estabilidade dessa constituição particular. [...]”

“Todas essas diferentes ordens e sociedades dependendo do Estado a que devem sua segurança e proteção. [...] Contudo, frequentemente pode ser difícil convencê-lo de que a prosperidade e conservação do Estado requerem alguma diminuição dos poderes, privilégios e imunidades da sua própria ordem ou sociedade. Essa parcialidade, posto seja às vezes injusta, não é por isso inútil. Controla o espírito da inovação. Tende a conservar o que quer que seja o equilíbrio estabelecido entre as diferentes ordens e sociedades em que se divide o Estado, e, embora por vezes aparente obstruir algumas alterações de que podem ser modernas e populares no momento, na realidade contribui para a estabilidade e permanência de todo o sistema.”

Pag. 290

“[...] Não é cidadão quem não está inclinado a respeitar as leis e a obedecer ao magistrado civil; e certamente não é bom cidadão quem não deseja promover, por todos os meios à sua disposição, o bem-estar de toda a sociedade de seus concidadãos.”

“Em tempos pacíficos e calmos, esses dois princípios geralmente coincidem, e levam à mesma conduta. [...] Mas em tempos de descontentamento público, facções e desordem, esses dois princípios diferentes podem delinear caminhos diversos, e até um homem sábio pode tender que é necessária alguma alteração na constituição ou forma de governo, [...].”

Pag. 291

“[...] Comumente esse espírito de sistema toma a direção do espírito público mais gentil, sempre o animando, e com frequência inflamando-o até a loucura do fanatismo. [...]”

Pag. 292

“O homem cujo espírito público é movido inteiramente pela humanidade e benevolência respeitará os poderes e privilégios estabelecidos, de indivíduos, e sobretudo das grandes ordens e sociedades em que se divide o Estado. Embora possa considerar que alguns são em alguma medida abusivos, vai-se contentar com moderar o que às vezes não consegue aniquilar sem grande violência. [...]”

“O homem de sistema, ao contrário, é capaz de ser muito sábio em seu próprio conceito, e frequentemente está tão enamorado da suposta beleza de seu plano ideal de governo que não pode tolerar o menor desvio de qualquer de suas partes. [...]; parece imaginar que pode dispor os diferentes membros de uma grande sociedade com a mesma facilidade com que dispõe as diferentes peças sobre um tabuleiro de xadrez; não considera que as peças sobre esse tabuleiro não tem outro princípio de movimento senão o que a mão lhes imprime, [...].”

Pag. 293


“Alguma ideia geral e até sistemática de perfeição da política e da lei certamente pode ser necessária para orientar as opiniões do estadista. Mas insistir em estabelecer, e estabelecer de uma só vez, a despeito de toda a oposição, tudo o que essa ideia possa parecer exigir, com frequência deve constituir o mais alto grau de arrogância. [...] É por essa razão que de todos os especuladores políticos os príncipes e soberanos são os mais perigosos. Essa arrogância lhes é perfeitamente familiar. [...] Desprezam a divina máxima de Platão, e consideram o Estado como algo criado para eles, não eles para o Estado. O grande objeto de sua reforma será, pois, remover os obstáculos, reduzir a autoridade da nobreza, retirar os privilégios de cidades e províncias, e tornar os maiores indivíduos e as maiores ordens do Estado tão incapazes de se opor ao seu domínio, como os mais fracos e mais insignificantes.”

CAPITULO III

Da benevolência universal

Pag. 293-294

“Embora nossos eficazes bons serviços raramente possam ser estendidos para qualquer sociedade mais ampla do que nosso próprio país, nossa boa-vontade não está circunscrita por nenhuma fronteira, e pode, pois, abarcar a imensidão do universo. [...]”

Pag. 294


“Essa benevolência universal, por mais nobre e generosa que seja, não pode constituir a fonte de uma felicidade sólida para um homem que não esteja plenamente convencido de que todos os habitantes do universo, os mais mesquinhos e os mais superiores, estão sob o cuidado e a proteção imediatos do grande Ser benevolente e onisciente que dirige todos os movimentos da natureza, e que está determinado, pelas suas próprias inalteráveis perfeições, a sempre manter nela a maior quantidade possível de felicidade. [...]”

Pag. 295


“Essa magnânima resignação à vontade do grande Diretor do universo tampouco parece estar, de algum modo, além do alcance da natureza humana. [...]”

Pag. 296


“A ideia desse Ser divino, cuja benevolência e sabedoria fabricaram e conduziram desde toda a eternidade a imensa máquina do universo para que produzisse, em todos os tempos, a maior quantidade possível de felicidade, é sem dúvida de longe o mais sublime de todos os objetos de contemplação humana. [...]”

“Porém a administração do grande sistema do universo, o cuidado da felicidade universal de todos os seres racionais e sensatos, é negócio de Deus, e não do homem. Ao homem está reservado um departamento bem mais humilde, mas mais adequado à fraqueza de seus poderes e à estreiteza de sua compreensão: o fato de estar absorto na contemplação do mais sublime jamais pode servir de desculpa para negligenciar o departamento mais humilde. [...]”

SEÇÃO III

Do autodomínio

Pag. 297

“O homem que age de acordo com as regras da perfeita prudência, da justiça estrita e da benevolência adequada pode ser considerado perfeitamente virtuoso. Mas o mais perfeito conhecimento dessas regras não basta para capacitá-lo a agir dessa maneira; suas próprias paixões podem muito facilmente induzi-lo – às vezes impelindo-o, outras seduzindo-o – a violar todas as regras que ele mesmo, em seus momentos de sobriedade e lucidez, aprova. O mais perfeito conhecimento, se não for amparado pelo mais perfeito autodomínio, nem sempre o capacitará a cumprir seu dever.”

“Alguns dos melhores dos antigos moralistas parecem ter considerado as paixões como divididas em duas classes diferentes: primeiro, as paixões que, para serem refreadas por um só momento, exigem um considerável esforço de autodomínio; e, segundo, as que são facilmente refreadas por um momento ou até por um breve período, mas que, por suas súplicas contínuas e quase incessantes, podem, no curso de uma vida, induzir a grandes desvios.”

Pag. 297-298

“Medo e cólera, a que vêm se misturar e associar outras paixões, constituem a primeira classe. O amor ao sossego, ao prazer, ao aplauso e a muitas outras satisfações egoístas constituem a segunda. O medo incomum e a cólera violenta são muitas vezes difíceis de refrear, mesmo por um só momento. [...]; mas, por suas súplicas contínuas, não raro nos induz a muitas fraquezas de que depois com muita razão nos envergonharemos. [...] O domínio do primeiro era denominado, pelos antigos moralistas acima aludidos, coragem, vigor e força de espírito; o último, temperança, decência, modéstia e moderação.”

Pag. 300


“Em muitas ocasiões o domínio da cólera se mostra não menos generoso e nobre do que o do medo. A expressão apropriada de justa indignação compõe muitas das mais esplêndidas e admiráveis passagens da eloquência, tanto antiga quanto moderna. As Filípicas de Demóstenes, as Catilinárias de Cícero, derivam de toda a beleza da nobre propriedade com que essa paixão se expressa. [...]”

Pag. 301


“[...] O autodomínio não é apenas em si mesmo uma grande virtude, mas dele todas as outras virtudes parecem derivar seu principal brilho.”

“O domínio do medo, o domínio da cólera, são sempre grandes e nobres poderes. Quando orientados por justiça e benevolência, não são apenas grandes virtudes, como também, aumentam o esplendor dessas outras virtudes. [...]”

Pag. 302

“[...] A mais intrépida bravura pode ser empregada na causa das maiores injustiças. Entre grandes provocações, a aparente tranquilidade e o bom humor ocultam às vezes a mais determinada e cruel decisão de vingança. A força de espírito exigida para essa dissimulação, embora sempre e necessariamente contaminada pela baixeza da falsidade, têm-na admirado com frequência muitos homens de discernimento nada desprezível. A dissimulação de Catarina de Médicis é muitas das vezes celebrada pelo historiador Dávila; a de Lorde Digby, depois de Conde de Bristol, pelo grave e consciencioso Lorde Claredon; a do primeiro Ashley, Conde de Shaftesbury, pelo judicioso Sr. Locke*. Até Cícero parece considerar que esse caráter enganador, embora de fato não seja altamente digno, não é inadequado a certa flexibilidade de maneiras, a qual julga em geral agradável e respeitável. [...] Este caráter de sombria e profunda dissimulação ocorre mais comumente em tempos de desordem pública – em meio a violência da dissensão e guerra civil. Quando a lei se tornou em grande medida impotente, quando a mais perfeita inocência é incapaz, por si só, de assegurar a segurança, a consideração pela autodefesa obriga a maior parte dos homens a recorrer à sagacidade, à eloquência, e à aparente acomodação ao que seja por enquanto o partido dominante. [...]”

Pag. 303

“[...] Temperança, decência, modéstia e moderação, são sempre amáveis, e raramente são orientadas para alguma má finalidade. [...]”

Pag. 304

“A disposição para afetos que tendem a unir os homens em sociedade, em humanitarismo, bondade, afeto natural, amizade, estima, pode às vezes ser excessiva. Contudo, até o excesso dessa disposição torna o homem interessante aos olhos de todos. [...]”

* Enrico Caterino Dávila, Historia delle guerre civili de Francia (1630), Edward Hyde, Earl of Clarendon, History of the Rebellion and Civil Wars in England; John Locke, “Memoirs relating to the life of Anthony, First Earl of Shaftesbury”. (N. da R. T.)

Pag. 304-305

“Ao contrário, a disposição para afetos que afastam os homens uns dos outros, como se tendessem a romper os laços da sociedade humana; a disposição para a cólera, ódio, inveja, malícia, vingança, é muito mais capaz de ofender pelo seu excesso do que pela sua falta. [...] A ausência de indignação apropriada é a principal falta do caráter vigoroso, e em muitas ocasiões torna o homem incapaz de proteger de insultos e injustiças a si ou a seus amigos. Mesmo aquele princípio, em cujo excesso e imprópria orientação consiste a odiosa e detestável paixão da inveja, pode ser imperfeita. A inveja é paixão que vê com maligno desgosto a superioridade dos que realmente tem direito a toda superioridade que possuem. [...]”

Pag. 306


“[...] A insensibilidade obtusa dos fatos da vida humana necessariamente extingue toda a atenção aguda e determinada para com a conveniência de nossa própria conduta, a qual constitui a verdadeira essência da virtude. [...]”

Pag. 307


“[...] O homem sábio, a quem a natureza dotou dessa sensibilidade excessivamente aguda, e cujos sentimentos demasiados vigorosos não foram suficientemente embotados e endurecidos pela educação precoce e pelo exercício apropriado, tanto quanto permitirem o dever e a conveniência, evitará as situações para as quais não é perfeitamente adequado.”

“Do mesmo modo, nossa sensibilidade aos prazeres, diversões e gozos da vida humana podem ofender quer pelo excesso, quer pela falta. [...]”

Pag. 309

“Ao estimarmos nosso próprio mérito, ao julgarmos nosso próprio caráter e conduta, há dois padrões diferentes com os quais naturalmente os comparamos. O primeiro é a ideia de exata conveniência e perfeição, na medida em que cada um de nós é capaz de compreender essa ideia. O outro é aquele grau de aproximação com essa ideia que habitualmente se obtém no mundo, e que a maior parte de nossos amigos e companheiros, rivais e competidores, pode ter realmente atingido. [...]”



“O homem sábio e virtuoso dirige sua principal atenção para o primeiro padrão – a ideia da exata conveniência e perfeição. [...]”

Pag. 314


“[...] A religião e os costumes dos tempos modernos pouco encorajam nossos grandes homens a se imaginarem deuses ou até mesmo profetas. Contudo, o êxito, associado a grande favor popular, tão frequentemente transforma as cabeças dos mais poderosos, que chegam a atribuir a si próprios uma importância e habilidade muito superiores às que realmente possuem e, por causa dessa presunção, chegam a precipitar-se em muitas aventuras imprudentes e por vezes ruinosas. [...]”

Pag. 316


“[...] Nossa admiração pelo êxito funda-se sobre o mesmo princípio do nosso respeito pela riqueza e poder, e é igualmente necessária para estabelecer a distinção de posições e a ordem da sociedade. Por essa admiração pelo êxito, somos ensinados a submeter-nos mais facilmente aos superiores que nos forem reservados pelo curso dos assuntos humanos; [...]. Para todos esses poderosos conquistadores, a grande populaça está naturalmente predisposta a erguer os olhos com uma admiração espantada, embora sem dúvida muito fraca e tola. Essa admiração, contudo, ensina-os a aquiescer com menos relutância ao governo que uma força irresistível lhes impõe, e de que relutância alguma os poderia livrar.”

Pag. 320-321

“O caso é outro quando se trata do homem vaidoso. Este corteja a companhia de seus superiores, tanto quanto o homem orgulhoso a evita. Parece pensar que o esplendor deles reflete um esplendor sobre os que sempre estão à sua volta. Frequenta as cortes de reis e as recepções (levees) dos ministros, dando-se ares de ser candidato à fortuna e privilégios, quando na realidade possui uma felicidade muito mais preciosa – se a soubesse saborear – de não ser um deles; gosta de ser admitido nas mesas dos eminentes, e mais ainda de exagerar quando em presença de outros a familiaridade com que o honram por lá. [...] O homem orgulhoso, ao contrário, jamais bajula, e frequentemente sequer é muito cortês com alguém.”

Pag. 323


“O homem orgulhoso comumente está satisfeito demais consigo mesmo para pensar que seu caráter precise de qualquer reparo. O homem que se sente perfeito naturalmente despreza toda melhoria. [...]”

“O contrário ocorre frequentemente, quando se trata do homem vaidoso. [...] Muito frequentemente, a vaidade nada mais é que uma tentativa de usurpar prematuramente a glória, antes de ser devida. [...] O grande segredo da educação é dirigir a vaidade para objetos apropriados. [...]”

Pag. 327

CONCLUSÃO DA SEXTA PARTE

“A preocupação com nossa própria felicidade nos recomenda a virtude da prudência; a preocupação com a de outras pessoas, as virtudes da justiça e da beneficência – uma das quais nos impede de prejudicar, a outra nos leva a promover aquela felicidade. [...]”



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