Somos sobreviventes do pdv. Vulnerabilidade e resistência entre ex-servidores pedevistas


Driblando os estigmas do desemprego



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Driblando os estigmas do desemprego.

A militância no Movimento Unificado pela Reintegração/ Readmissão dos Pedevistas (MURP), bem como a militância política de forma mais ampla tem um papel fundamental nas vidas dos meus entrevistados; ficou evidente que, de alguma maneira, a participação ativa no Movimento acaba sendo uma forma de sublimar a culpa que cada um individualmente carrega por ter feito uma escolha que, agora, consideram errada. Os encontros, as conversas e discussões também servem para atenuar o peso do fracasso pessoal, é uma forma de politizar o que, por outro viés, pode ser lido de forma individualizante.

Embora, em algumas ocasiões, até possam fazer uma avaliação autocrítica dos erros que cometeram, há sempre um outro lado que os permite mitigar a culpa através da historicização dos fatos; seja um discurso mais refinado que lança mão de noções como “neoliberalismo” e “reestruturação produtiva”, ou ainda aquele tipo de compreensão mais difusa que atribui responsabilidades ao governo que, por não ter cumprido as promessas acerca da linha de crédito específica para pedevistas (com juros mais baixos) e dos cursos de empreendedorismo do SEBRAE, teria determinado seu fracasso.

As cartilhas oficiais do governo apresentavam o PDV como uma grande chance de atuação em setores outros da economia e de realização do sonho de ser “seu próprio patrão”. Ao final da cartilha, sob o título de Informações Gerais, o servidor é tratado como “empreendedor”, num dos tópicos, divulga-se o curso Iniciado um Pequeno Grande Negócio, oferecido pelo SEBRAE, dividido em 5 módulos: O perfil do empreendedor, Oportunidade de futuro, A competitividade que você precisa, O mapa da mina e Seu diferencial no Mercado. Há um forte discurso de valorização do empreendedorismo, o que confirma a tese de Mônica Alencar (2008) sobre a substituição das políticas de emprego e renda da década de 1970 pelo “nacional-empreendedorismo” hegemônico nos anos 90. Segundo a autora:




3 Não tratarei sobre a questão da religiosidade de forma pormenorizada neste trabalho, contudo, vale grifar, que este foi um traço importante de algumas trajetórias, tendo tido destaque nos depoimentos de alguns dos meus entrevistados.

“As iniciativas de apoio e incentivo às pequenas unidades econômicas tornaram-se, a partir da década de 1990, uma das principais ações de enfrentamento do desemprego no Brasil no âmbito das políticas de emprego e renda[...] Se na década de 1970, o horizonte que se delineava na atuação sobre o informal era a sua incorporação em direção ao assalariamento [...] Na década de 1990 os propósitos são outros[...] No discurso e na política governamental passou a predominar a concepção de que as pequenas unidades produtivas têm um papel central na redução dos níveis de pobreza e como alternativa em face do desemprego [...] A inserção produtiva e social do excedente de força de trabalho e dos trabalhadores urbanos pobres passa a ser prerrogativa da proposição que vislumbra o apoio e o incentivo aos pequenos empreendimentos como o meio mais eficaz de garantir renda ou ocupação (não necessariamente emprego assalariado)” (p.117).


Esse “novo espírito do capitalismo”, tal qual abordagem de Boltanski e Chiapello, onde há uma (re)valorização do indivíduo empreendedor contrasta com a, cada vez mais frágil, organização coletiva do trabalhador. Especialmente em alguns setores, como o bancário, a competitividade gerada pelas novas atribuições decorrentes da reestruturação do trabalho bancário, além de aumentar a lucratividade, contribuiu para “obnubilar os laços de pertencimento de classe e diminuir a capacidade de resistência sindical dos bancários, dificultando sua organização no espaço de trabalho” (ANTUNES, 2006: 21).4

ainda os casos onde a competição não foi exatamente o que concorreu para desmobilizar os trabalhadores, mas o desenvolvimento de uma “cultura do comprometimento” (ALVES, 2006: 468), digamos assim, onde o trabalhador é levado a se pensar como um “colaborador” da empresa (mentalidade incorporada até mesmo pelos sindicatos), obscurecendo os antagonismos das relações de classe. Guardando as devidas proporções, vários pontos deste “espírito” foram levados para o setor público, onde ex-diretores de empresas privadas foram encarregados de implementar as mudanças.

“O impacto sobre a subjetividade da força de trabalho é perverso, pois caminha no sentido de suprimir a idealização de classe as bases subjetivas de uma identificação com um projeto antagônico para além da lógica (e dos ideais) do capital (...) O ideal de classe, sob a pressão contingente da defensividade instrumental, transformou-se num ideal corporativo, restrito ao âmbito da empresa, cuja projeção e idealização, no plano da subjetividade de classe, é totalmente capturada pelos ideais do capital” (ALVES, 2006:469)
É exatamente no contexto de tais mudanças, nada favoráveis à organização da classe trabalhadora, que surge o MURP, que o tempo todo terá que enfrentar a desmobilização eminente. Os motivos são os mais diversos, no caso específico desta organização, pesa o fardo inefável da precarização e vulnerabilidade, recorrentemente descritas pelos entrevistados, que avaliam tais

4 Sobre os impactos da reestruturação produtiva e neoliberalismo sobre a atuação dos sindicatos ver, dentre outros, ALVES, 2006: 461-474; ANTUNES, 2006: 15-27; ANTUNES, 2006: 499-509.

dificuldades como verdadeiros obstáculos para que boa parte dos pedevistas se mantenha ativo na luta pela reintegração. Segundo um dos entrevistados, liderança do MURP, muitos deixavam de ir às reuniões marcadas porque não tinham o dinheiro da passagem.



Entrevista 9 (Seu Emerson, 58 anos, IBGE) A maioria das pessoas que saiu não tinha garantia... Isso era bem visível, a gente vê... eu tive um amigo que saiu depois de mim, ele saiu bem depois de mim... Entrou no PDV e a vida dele acabou ali, e ele era um cara que tinha uma estrutura... Virou alcoólatra, virou viciado e morreu de AIDS (longa pausa) E vou dizer mais, eu acho... Acho eu que o alcoolismo e as drogas vieram em função, quando ele descobriu que tava com a AIDS e tinha saído do IBGE. Porque vem a questão do exame demissionário... Que não teve. Quando eu entrei eu fiz exame! (...) Pra sair não teve nada disso... Foi uma coisa triste, se tu verificar, alguns colegas que eu conheço aqui do Rio de janeiro, pena de ver! pena! Foram abandon... Porque aí não é o problema da separação, certo? Foram abandonados totalmente pela família. Eu conheço pessoas que tão vivendo na rua e dormindo em albergue de noite. Espera a prefeitura passar pra ir dormir, pra comer... E não é um, nem dois. Ex-servidor, e não é um, nem dois.

Entrevistadora: O senhor tem o contato de algum deles?

Entrevistado 9: Olha o contato que eu tenho é de ter passado na rua e ter conversado (...) Aqui, ali na Cinelândia, na Av. Chile, onde tem o IBGE, porque (o incrível) parece que os caras ficam perto do local aonde trabalhavam, até pra que, até porque talvez alguém passe e possa ajudar. Porque eu fiz isso, se eu to com dinheiro no bolso, eu passo e o cara diz “pô, Emerson, ô gaúcho, não tem um dinheirinho pra comprar um cigarro?” então, se eu tenho... E essa é a realidade. E o interessante é isso, essa coisa do cara estar perto do local de trabalho. Isso é o que chama atenção, porque o cara ele se desvinculou, mas ao mesmo tempo se arrependeu e diz “não, eu vou ficar perto”. Independente do dinheiro, mas pra tá perto ali... alguma referência...

O MURP assume, em certa medida, o papel de referencial, uma forma de pertencimento que substitui aquela perdida a partir do momento em que deixam de ser "funcionários públicos", não se tornam "patrões" e não reingressam no mercado de trabalho de forma permanente. Especialmente nos casos em que o apoio familiar não se concretizou, e não foram poucos os exemplos; Seu Jorge afirma que muitos dos pedevistas do Rio de janeiro, por exemplo, eram imigrantes e, portanto, não tinham um ampla rede familiar por perto à qual recorrer; outros, como ele próprio, preferiram não “incomodar a família”, dentre estes percebe-se uma vergonha pela situação de desemprego.

Dois dos meus informantes não estavam ligados ao MURP, um deles, Gilmar (58 anos, INAMPS/ SUS) afastou-se depois de um tempo, pois, segundo afirmou, não concordava com as táticas de mobilização do movimento que, várias vezes propôs apoio a outros Movimentos Sociais, como o MST (Movimento dos Sem Terra). Este informante discordava das lideranças, que propunham o engajamento numa "luta mais ampla contra o capital", conforme dito por outro entrevistado (uma das lideranças do movimento).

É interessante notar que os dois entrevistados que não tinham ligação com o MURP foram justamente os que assumiram individualmente “a culpa” por todas as dificuldades que passaram depois do PDV; Gilmar – que chegou a frequentar as reuniões no MURP no início do Movimento

– avalia que seu negócio não prosperou porque ele não estava preparado para ser patrão. Contudo, apoia a Reforma implementada pelo governo FHC. Para ele, a única falha foi o não cumprimento das promessas, pois acredita que se tivesse tido uma orientação sobre empreendedorismo poderia ter prosperado no ramo da joalheria. Segundo ele, o problema foi não ter “tino para patrão”, pois que a sua "cultura" de servidor público não era compatível com a sua nova realidade.

O entrevistado passou por um divórcio e voltou para a casa dos pais quando tinha mais ou menos 45 anos. Depois da falência, isto é, depois de fechar as duas lojas que tinha aberto em Madureira, não abriu outro negócio em outro ramo, tampouco conseguiu emprego fixo. Chegou a fazer algumas tentativas frustradas, que não deram certo nem mesmo na loja de colchões de um amigo. Fez um teste vocacional e o diagnóstico: não tinha espírito de liderança, por isso não poderia ocupar a vaga de gerente que estava disponível.5



Esta situação gerou muita ansiedade e acabou, segundo ele, resultando numa depressão. Desde então jamais deixou de frequentar a psicanálise. Em seu depoimento, bastante emocionado, relatou como é difícil conviver com estes transtornos, confessou que houve períodos que não tinha vontade de fazer nada. A tristeza era ainda maior, afirma, quando as pessoas julgavam ser "frescura". Quando o entrevistei pela segunda vez em 2011 estava finalmente concluindo a faculdade de Direito, depois de sete anos. A situação, a depressão certamente pesaram.


5 Sobre esta discussão acerca das diferentes concepções e modelos de gestão empresarial (empreendedorismo, capacidade de liderança e capacidade de mobilização como atributos necessários a um líder) ver Boltanski e Chiapello, 2009.

Seu Jose é o outro pedevista sem ligação com o MURP e sua trajetória também chama atenção. Depois da adesão (1997) usou os incentivos financeiros para injetar capital nos negócios de um dos irmãos de quem se tornou sócio. Na verdade, a empresa no ramo da produção editorial e diagramação já existia e vinha muito bem. Depois da sua entrada, ainda se tornaram maiores, o que os obrigou a encontrar um espaço mais amplo, saíram do Centro da Cidade e alugaram um galpão no Rocha, Zona Norte do Rio de Janeiro. As coisas andaram bem nos dois anos seguintes até que começaram a enfrentar severas dificuldades financeiras, um dos sócios sofreu um grave acidente quando voltava para casa, as coisas começaram, então, a "andar pra trás". A sociedade foi desfeita e a maior parte das dívidas, inclusive as trabalhistas, que fizeram questão de honrar, acabaram sendo arcada pelo meu entrevistado e seu irmão. Abriram uma empresa no nome de um parente e usavam o próprio apartamento para trabalhar, aproveitaram o pouco do mobiliário e alguns computadores, mas as maquinas grandes, as impressoras de última geração acabaram sendo vendidas. Resistiram por cinco ano, mais ou menos, contudo novas dívidas se acumularam e por motivos diversos fecharam definitivamente a empresa. Era chegada a hora de buscar um outro ramo, depois de mais de duas décadas teve que voltar a procurar emprego, com um agravante: a idade; já beirava os cinquenta anos. Resolveu que faria novos concursos públicos, mas não para nível superior, escolheu as vagas de Ensino Médio, esbarrando numa concorrência enorme. Além de tudo, uma boa parte de seus concorrentes era de jovens, também com nível superior, porem com a "cabeça mais fresca", como ele diz, e matriculados em cursos preparatórios, o que estava fora das suas possibilidades.

Estamos diante de trajetórias marcadas, delineadas pela vulnerabilidade. Acerca deste conceito Araújo tece algumas considerações bastante interessantes:

“Os factores de vulnerabilidade resultam da interacção entre factores de vulnerabilidade extrínseca e factores de vulnerabilidade intrínseca. Os primeiros reportam-se aos espaços sociais de ancoragem das vivências do desemprego com as suas características próprias, as suas estruturas de oportunidades, as dinâmicas socioeconómicas globais que os atravessam e às dinâmicas que são eles próprios geradores que formam “o quadro das fronteiras dentro das quais os diversos contornos das situações podem ser captados na multiplicidade das suas influências cruzadas” (Capucha, 2000a: 13).

Os factores de vulnerabilidade intrínseca, como já se referiu, reportam-se às características sociais dos indivíduos e às suas trajectórias de vida. Inspiramo-nos aqui da proposta de D. Demazière (1995: 60) que avança em relação à empregabilidade diferencial com a distinção entre empregabilidade intrínseca e empregabilidade extrínseca, como correspondendo a dois processos de construção/destruição da empregabilidade que implicam uma leitura não dissociada das trajectórias profissionais e dos espaços sociais concretos onde estas se desenrolam (Demazière, 1995: 61). Na mesma linha, para L. Capucha (2000b), a vulnerabilidade face ao mercado de emprego é uma realidade dual: situa-se ao nível das pessoas individualmente

consideradas e ao nível dos mercados de emprego no seu conjunto (sistema de emprego e dinâmicas sistémicas que afectam o funcionamento dos mercados de trabalho e sistemas conexos, ensino e formação profissional, por exemplo)” (ARAÚJO, 2007: 27)
De um modo geral os pedevistas do MURP tiveram que lidar com a vulnerabilidade extrínseca, o cenário socioeconômico desfavorável à abertura de microempresas, ápice da implementação da agenda neoliberal que, dentre outras coisas implica numa falta de autonomia perante os Organismos Internacionais e Instituições Financeiras que, por sua vez, farão uma série de exigências, como elevação das taxas de juros, o que é mortal para quem depende de empréstimos para iniciar o negócio próprio. Mesmo aqueles que não quiseram ou não puderam abrir o seu próprio negócio também foram afetados por este contexto no que diz eleito à retração do mercado de trabalho ocasionada pelo processo de reestruturação produtiva desencadeado desde a década de 1970. Ou seja, empregar-se novamente não foi nada fácil, nem mesmo para os que tinham um nível de escolaridade maior; nível superior, mas já com idades avançadas para os padrões do mercado. Estamos falando, das vulnerabilidades intrínsecas.

Não só a idade pesou sobre os destinos dos pedevistas, conforme informações disponíveis nos cadastros do MURP, a maior parte Dos pedevistas da Administração Direta, autárquica e fundacional era composta por funcionários de nível elementar, isto é, ocupavam cargos e funções para as quais se exigia o equivalente ao Ensino Fundamental.6 Este foi um dos mais severos e cruéis obstáculos à "recolocação" num outro setor da economia à qual se referia Bresser Pereira na apostila de esclarecimentos sobre o PDV de 1996, elaborada pelo Ministério da Administração Pública e Reforma do Estado (MARE). Nível de escolaridade baixo e idade avançada configuram aquilo que Araújo classifica como vulnerabilidade intrínseca. Sugiro que tenhamos muito cuidado com a interpretação desta palavra " intrínseca", pois pode nos levar à conclusão de se tratar de falhas dos sujeitos entrevistados, quando na verdade estamos falando de toda uma geração de brasileiros onde a maior parte das pessoas frequentou a escola por poucos anos, conforme mostram os dados dos Censos de 1990 e 2000, realizados pelo IBGE. Isto para não falar da questão da idade, que é um problema do ponto de vista do mercado, não os indivíduos que envelhecem.

De qualquer maneira, o que gostaria de enfatizar neste trabalho são exatamente as estratégias de reação à privação de emprego, não só as estratégias econômicas de sobrevivência,

6 Isto se deveu ao fato de a maior parte dos elegíveis aos PDVs serem exatamente os de nível elementar.

mas aquelas de ordem, digamos, psicológica, que de certa maneira amenizam o impacto dos estigmas que pesam sobre o desempregado.

Segundo Erving Goffman, (1988), vários foram os significados atribuídos ao termo esigma, “atualmente o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original, porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal. Além disso, houve alterações nos tipos de desgraças que causam preocupação” (GOFFMAN, 1988: 23). Um dos casos abordados pelo autor é o estigma que pesa sobre os desempregados. Neste mesmo livro, Goffman cita o relato de um pedreiro alemão de 43 anos evidencia o quão “duro e humilhante é carregar a fama de um homem desempregado” (p.26). Fala do sentimento de inferioridade e da perda dos laços, da indiferença dos amigos e conhecidos antigos que deixam de ser “cordiais”, e da acusação, como se tivesse culpa pela situação de desempregado.

Esta sensação foi relatada em algumas entrevistas. Gilmar, na primeira entrevista, lembra das acusações que recebeu por ter aderido ao PDV, até mesmo de ter aderido para evitar pagar a pensão à ex-esposa de quem se separou, na verdade, após a adesão ao PDV. Além destas acusações, lembra com bastante angústia das pessoas dizendo que a sua depressão não passava de capricho ou “desculpa para não procurar um trabalho”.

O entrevistado (Seu Jose, 58 anos, CEG) também passou por situação semelhante ao depoimento narrado por Goffman, não necessariamente devido a uma indiferença por parte dos antigos amigos, mas especialmente pela falta de dinheiro e de meios para continuar frequentando os lugares onde os encontrava e até mesmo para visita-los em suas casas. Nestes casos o isolamento acaba tendo duas razões: a material e a de ordem psicológica, a própria pessoa passa a achar que não será bem-vista por não ter um emprego ou por não poder pagar a conta de uma rodada de cerveja no encontro com os amigos.

Na verdade, a associação entre desemprego e vagabundagem, no caso dos pedevistas aparece, por exemplo, da seguinte forma, muitos funcionários públicos alegam que os pedevistas, enquanto funcionários, não eram dedicados, “gostavam de voar”, “já faziam outras coisas e viam

o serviço público como bico”, “estavam mais preocupados em fazer carreira política” (acusação feita especialmente no caso de ex-sindicalistas que aderiram ao PDV).7

também uma outra acusação que pesa sobre os pedevistas do MURP, muitos dos colegas que continuaram no serviço público costumam atuar os pedevistas de agirem de má-fé, isto é, aderiram ao PDV porque "queriam ser empresários, gastaram o dinheiro todo e agora tão querendo voltar". 8 Meus entrevistados ponderam que este tipo de opinião se deve à falta de informação, pois, conforme fazem questão de mostrar, nos documentos onde encaminham a proposta de reintegração está bem claro que o dinheiro recebido seria devolvido em parcelas descontadas do salário.

Se o desemprego é uma situação estigmatizante, a falência também soa para alguns como desonra ou como desgraça que marca o indivíduo, talvez por sugerir uma inaptidão, especialmente entre os homens. Seu Jorge (68, IBGE), bem como o Seu Paulo (60 anos, INCA), afirmaram que fizeram questão de poupar a família, portanto, não pediram ajuda, sequer desabafaram as frustrações com os familiares mais próximos. Entrevistado 8 diz que nunca foi de consultar nada a ninguém, portanto também não caberia incomodar as pessoas por conta de uma escolha malfeita. Ele contou que houve uma situação em que ele estava dormindo no escritório onde funcionou sua empresa, antes da ordem de despejo, dormia sobre a mesa e recostava a cabeça numa lista telefônica já que não tinha nem mesmo um travesseiro. Mas mesmo nesta época, quando sua filha ligava ele dizia que estava tudo bem.



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