Sindicato e tendência elementos de formaçÃO



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SINDICATO E TENDÊNCIA

ELEMENTOS DE FORMAÇÃO

Federação Anarquista Uruguaia (FAU)

E por ser para todos, precisamente, é que em períodos difíceis como o atual, se faz difícil também para os sindicatos, como tais, serem responsáveis por um nível mais elevado da luta. [...] Daí a necessidade dos setores mais conseqüentemente combativos, os que chegaram a uma compreensão maior das exigências atuais, agrupem-se e unam-se em outro nível: a tendência.
Aqui vão três textos compilados para discutir e buscar orientações para o trabalho sindical. Elementos extraídos e traduzidos na publicação Cartas da FAU, que compreendemos possuir, nas suas linhas fundamentais, a atualidade para construir um discurso e um projeto militante para abrir frente no movimento sindical. Esta é a terceira compilação preparada para estes fins – material que vem estudando e discutindo um grupo de companheiros/as.

Sindicato e Tendência. 27 de abril de 1970
A tarefa de fixar objetivos adequados e concretos para a ação dos grupos de tendência combativa, vincula-se à necessária delimitação do nível preciso de atividade que eles desempenham. Nesse sentido são úteis certas precisões.

Em primeiro termo convém ter sempre presente que a organização de tendência não equivale a organização da categoria, sindical...

Não há sindicato que possa subsistir muito tempo se abandona a defesa da categoria que agrupa. Defesa da categoria em geral e de seus interesses em particular, frente aos patrões e autoridades.

[...] O sindicato está aberto a todos. Entre seus membros habitualmente existem as mais diversas opiniões e orientações políticas e ideológicas e é correto que assim seja. Essas distintas opiniões confrontam-se dentro da vida sindical e se a categoria tem – como deve ser – um tipo de organização que reflete com fidelidade a opinião de seus componentes, será a orientação majoritária a que reflete a opinião do sindicato. É necessário e lógico que nestes se ocupem de temas que vão mais além da preocupação salarial, de luta econômica. Mas na medida em que vão – e vem – mais além, surgem as discrepâncias. Sobre métodos, sobre formas de atuar e, às vezes, inclusive, sobre programas. E tudo isso está bem.

Se o sindicato cumpre cabalmente sua função primária e básica de defender a categoria, é necessário que se ocupe desses temas. Mas – aí está o problema – sobre esses assuntos, é difícil que haja unanimidade e, portanto as posições dos sindicatos ao respeito podem mudar e de fato mudam, segundo o jogo de maiorias que vão se dando nas eleições, assembléias, etc. O sindicato não pode, por isso, ser um cimento suficientemente sólido para construir, a partir dele, um movimento revolucionário.

[...] Por isso, se queremos levar adiante uma linha regular e conseqüente de ação combativa no nível de massas, além de atuar sindicalmente, devemos nos reunir como tendência, que já implica um primeiro grau de definição, maior que o sindical.

Participar da tendência supõe aceitar um conjunto de definições que podem ser compartilhadas por companheiros de diversas extrações ideológicas, mas que já entranham certas exclusões (a dos reformistas, por exemplo), imprescindíveis quando se procura um mínimo de verdadeira coerência operativa.

Algumas das coisas que discutimos aqui podem parecer óbvias. Sem dúvida é útil tê-las presentes. Especialmente tê-las presentes no momento de atuar, para não voltar a cair em velhos erros [...] atribuindo às organizações sindicais pautas de ação político-ideológica, que o tempo demonstrará que não pode assumir consequentemente. Que são pautas, no nível de massas, de grupos de tendência.
Sindicatos e Tendência II. 4 de maio de 1970
[...] O fundo mais verdadeiro, a realidade habitual segue sendo essa: defender o salário, as condições de trabalho de todos. E por ser para todos, precisamente, é que em períodos difíceis como o atual, se faz difícil também para os sindicatos, como tais, serem responsáveis por um nível mais elevado da luta. [...] Daí a necessidade dos setores mais conseqüentemente combativos, os que chegaram a uma compreensão maior das exigências atuais, agrupem-se e unam-se em outro nível: a tendência.

Isso significa que tem de ser abandonada a atividade sindical? Claro que não. Temos que seguir atuando nas categorias, impulsionando a luta até onde seja legítimo e possível. Devemos chegar o mais longe possível, mas não tão longe para ficarmos isolados. [...] Nem para freá-las artificialmente, como faz o reformismo, nem para querer levá-las artificialmente aonde a categoria não quer ir, como, às vezes fazem os que ficam cegos com os seus próprios desejos e não vêem o que o trabalhador realmente quer.

Isso não significa que o militante tem de ser escravo do espontaneísmo das massas. Que tem de esperar sentado até que as massas “se toquem” para movimentar-se, para começar o movimento. A função do militante é a de promover a luta ativamente. [...] Mas promover a luta é uma coisa e deixar-se levar pelo subjetivismo é outra. Para promover realmente lutas na categoria, ele tem de pautar-se em coisas que sejam realmente desejadas pela categoria. [...]

A repressão trata de converter os que são “passivos” em assustados, os que são combativos às vezes em “passivos” e assim isolar os setores mais duros. Esses acabam sendo golpeados sozinhos. O reformismo joga no mesmo sentido e falará contra os “aventureiros” e pedirá “direções responsáveis” para tentar fazer base aproveitando as condições de retrocesso, de enfraquecimento, criadas pela repressão.

Uma vez concretizada a tendência, a experiência vem demonstrando que suas possibilidades transbordam o marco da atividade exclusivamente sindical. Há muita gente nos bairros que não está compreendida nos quadros sindicais, mas que está disposta para o combate, que se organiza para lutar. A tendência não pode dar as costas para essa realidade. [...] Isso implica a superação de velhos esquemas, de hábitos negativos, às vezes muito arraigados. Ela tem de romper, definitivamente, com os prejuízos isolacionistas, que encerram a atividade das agrupações dentro de sua própria categoria. Tem que ampliar as perspectivas, elevá-las ao nível que a situação exige. Deve concretizar, realmente, operativamente, a coordenação de atividades entre grupos de tendência que atuem na mesma zona, no mesmo bairro. Abrindo possibilidades concretas para que participem na luta todos os que estejam dispostos a ela. Estejam ou não filiados a um sindicato. Trabalhadores de fábricas ou oficinas não sindicalizados, estudantes do lugar, desempregados, donas de casa devem ter a possibilidade de participar no combate.

Devem ser criadas as formas organizativas que o habilitem. Nesse sentido se fará um vastíssimo campo. Todas as iniciativas assim o tem demonstrado. Só assim se consegue rodear de apoio e solidariedade, o que é imprescindível. [...] Só assim se conseguirá canalizar organizativamente o espírito de rebeldia e protesto que ferve em setores cada vez mais amplos do povo. Proceder de outra maneira seria desperdiçar forças.

Pode-se começar por uma reivindicação concreta, mas para que a ação não se esgote e termine assim que o problema for solucionado, deve-se ter, desde o princípio, uma perspectiva mais ampla. Mostrar às pessoas que com movimento a gente pode conseguir, não uma, mas várias coisas, que se unindo, lutando juntos, criamos consciência da própria força. E ao mesmo tempo demonstrar, na experiência viva, nos fatos que nunca mentem, quais são os obstáculos. Mostrar, de maneira inequívoca, por cima de todas as falações, quem são os amigos e quem são os inimigos. E inclusive os próprios limites da ação de massas. [...] Não é porque se realiza em um nível superior ao sindical que a ação de tendência deixa de ter limites precisos. Esses limites são os que põem a existência do sistema. [...] Daí seu incalculável e esclarecedor alcance político. Porque como toda outra forma de ação de massas, ela deixa clara a necessidade de uma transformação de fundo. De uma transformação que modifique os próprios fundamentos do sistema.

E isso já é uma tarefa mais complexa e difícil, que exige um compromisso maior, que exige métodos diferentes, níveis ainda mais elevados. É uma tarefa já definida e especificamente política que só uma organização política pode encarar. Os sindicatos significam um nível, primário e geral, de ação de massas. As agrupações de tendência coordenadas entre si e enraizadas no conjunto de setores mais combativos do povo, nos bairros, são um nível superior ao anterior. Mas a transformação de fundo do sistema só pode ser conseguida na medida em que exista uma organização especificamente política, capaz de disputar o poder com as classes dominantes. E para isso são necessários formas de organização e métodos de ação que só em uma organização ideologicamente homogênea e apta para atuar em todos os terrenos, pode se dar. Isto nos conduz a outro plano de considerações que iremos desenvolvendo.


Critérios para o trabalho no nível de massas – Recortes Uruguai
Atuar sindicalmente, com uma perspectiva revolucionária, fundido nas massas, e ao mesmo tempo não deixar de lado as tarefas reivindicativas da ação sindical gera dificuldades, sugere problemas.

A função essencial dos sindicatos, o que legitima sua existência como organização de massa é sua função de luta reivindicativa. É preciso evitar o erro de tentar converter os sindicatos em espécies de partidos políticos com definições totais e reivindicações sobre os mais diversos problemas.

É necessário ter critérios claros sobre quais são os objetivos em que vamos centrar as lutas. É certo que reivindicações não faltam, em todos os sindicatos e categorias. O problema consiste em eleger qual ou quais delas são preferíveis agitar primeiro para lançá-las depois como motivo de mobilização.

As organizações associativas e sindicais são, por definição, organismos de massas. Não teria sentido, dentro de uma perspectiva correta, tentar transformá-las em mecanismos para manipular verticalmente as massas. O aparato sindical deve ser um calço, e não um freio. As formas organizativas que são adotadas devem garantir o contato mais amplo, rápido e direto com as bases e os órgãos representativos de direção.

A convocatória de uma mobilização, a pertinência de um recuo, se estabelece através de uma análise concreta de condições e possibilidades. Em primeiro lugar a situação do sindicato: nível de organização e de consciência, experiência de luta, disponibilidade de quadros, etc. Em segundo lugar, a situação do conjunto do movimento popular: possibilidades de solidariedade e de influência sobre outros setores, orientações predominantes em direções e aparatos, etc. Em terceiro lugar, as peculiaridades do momento: crescimento ou refluxo momentâneo das lutas, situação e meios do inimigo na conjuntura. Com uma análise deste tipo e contato estreito com as massas é possível enfrentar, com eficácia, as mais difíceis circunstâncias.

Nesta perspectiva, evitar o isolamento (dos militantes mais combativos, dentro do sindicato; do sindicato dentro do conjunto do movimento sindical e popular) torna-se um dos aspectos fundamentais. Mas, para tanto, é necessária uma coordenação, estável e funcional, ampla e sem sectarismos, de todos os que estão verdadeiramente dispostos a lutar.

Quando a conjuntura muda é necessário proceder com formas diferentes. É necessário uma estratégia mais complexa e para tanto é necessário mais maturidade, criatividade e flexibilidade na militância sindical. Também é necessário mais dureza e combatividade, condições estas que não são incompatíveis, como alguns dizem, com as anteriores.

A proposta de lutas isoladas vincula-se à forma mais ou menos espontânea das lutas que vem se produzindo. Faz-se decisivo canalizar adequadamente o impulso espontâneo para que, se desenvolvendo e organizando, alcance os resultados mais eficazes. Para estar em condições de golpear no momento mais oportuno, concentrando maior quantidade de forças, é necessário prever, e isto supõe organizar-se, superando a etapa espontaneísta. Supõe um plano de luta que estabeleça objetivos, critérios de trabalho e medidas conjuntas elencadas, a partir de uma avaliação global da situação. Supõe uma direção que encabece e dirija efetivamente, que seja capaz de determinar os fatos em vez de correr atrás deles quando acontecem.

A respeito disso, é preciso ter bem claras algumas coisas.

Não basta que haja uma corrente de opinião favorável em um sindicato. É necessário implementá-la organizativamente. É imprescindível criar, em cada sindicato que haja possibilidades, agrupações que unam a todos que estejam dispostos a sustentar uma clara linha combativa e de luta.

Por agrupações entendemos organismos estáveis, estruturados internamente, com meios próprios de atuar, que desenvolvam uma ação permanente. Nas agrupações deve-se proceder com amplitude, sem sectarismos, mas sobre a base de posições claras e precisas. Evitar o sectarismo que isola.

A atitude sectária origina-se habitualmente da errônea tentativa de atribuir aspirações e objetivos que são próprios de organizações especificamente políticas (partidos) aos grupos de tendência dentro dos sindicatos. Em virtude deste erro acaba-se jogando sobre estes grupos definições abarcadoras e exaustivas sobre os mais diversos problemas.

A propensão a incorrer nestes erros se observa, quase sempre, entre pessoas independentes que, por carecer de possibilidades para canalizar adequadamente suas inquietudes políticas dentro de organizações específicas (partidos), tratam de fazê-lo partidarizando os grupos de ação sindical.

A organização é um meio, um instrumento para desenvolver a luta por determinados objetivos. Cresce na medida em que cumpre esses fins, na medida em que é funcional em relação a isso. É, portanto, equivocado o critério que faz do crescimento organizativo uma finalidade em si.

Às vezes, fazem-se reuniões, cria-se uma agrupação, instrumentaliza-se a agrupação organicamente, trabalha-se em torno de alguma meta precisa (participar de uma eleição, atuar em uma mobilização), mas terminada esta instância não se sabe mais o que fazer. As reuniões saturam e originam intermináveis discussões gerais. O grupo fica sem objetivos, sem ter “coisas pra fazer”. Se uma situação desse tipo continua, conduz inevitavelmente a impotência e ao fracasso. Não importa o quão numeroso e bem organizado que tenha chegado a ser o grupo. Não importam as posições que o grupo ocupe dentro de seu sindicato. Se não tem objetivos, se não luta ativamente por eles, fracassará sem remédio.

Também é certo o contrário. Qualquer grupo, por pequeno que seja, se escolhe adequadamente seus objetivos, se promove com atividade e entusiasmo a luta por eles, crescerá. Quem quer que seja que queira lutar se dirigirá para este grupo, reconhecerá nos companheiros que o integram seus verdadeiros e reais referentes, ainda que não estejam ocupando cargos de direção no sindicato. E essa é a função da direção que interessa.

Mas quando falamos de objetivos, do que estamos dizendo? Nesta etapa e no nível em que se desenvolve atualmente a luta os objetivos de uma agrupação serão, habitualmente, reivindicações de tipo sindical.

Já temos proposto que as reivindicações pelas quais lutar definem-se pelo grau de urgência com que são reclamadas pela massa do sindicato. Nesta matéria, não cabem “ocorrências”. Só interessam as reivindicações que são realmente sentidas pelas pessoas.

Na medida em que uma agrupação deste tipo traduz um nível de definição maior que a organização sindical (que é para todos) deve ter, inclusive para o plano reivindicativo, um enfoque próprio. Sua função é de animar a luta no marco do sindicato e portanto, sua proposta própria como grupo deve ir mais além das reivindicações da organização sindical.

Toda reivindicação concreta é manifestação parcial localizada de problemas mais gerais. Em matéria de reivindicações salariais, por exemplo, é fato que todas elas chocam-se com uma política geral do governo. Assinalar este fato utilizando a luta reivindicativa para esclarecer, no nível de massas, os motivos e características desta política, é tarefa que às vezes não se pode realizar pelo sindicato. Nestes casos, a agrupação deve fazê-la como tal.

Em resumo, trata-se de não perder de vista 3 coisas:
1) O que define a agrupação como tendência são posições e propostas políticas que se diferem claramente dentro do conjunto do sindicato e compõem o próprio perfil da agrupação.

2) Esse nível de definição, nas agrupações, deve ser suficientemente amplo para não se identificar totalmente com organizações especificamente políticas, não partidarizar.



3) Ter certa definição política não implica afastar-se dos problemas reivindicativos. É necessário ter sempre objetivos concretos para o trabalho de grupo. E estes objetivos, dentro do possível, devem abarcar as reivindicações que são necessárias promover dentro da organização sindical.

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