She a chave do entendimento da psicologia feminina



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EPÍLOGO

A última tarefa de Psiquê representa o passo mais significativo na evolução pessoal de uma mulher. Poucas delas estão suficientemente preparadas para iniciar-se em tal tarefa, pois seria imprudência empreendê-Ia antes de haver cumprido as precedentes. Tentar essa jornada muito cedo seria um convite ao desastre; recusá-Ia, se apresentada, é igualmente terrível. Nos primórdios da civilização, dificilmente seria empreendida por pessoas comuns. Era tarefa para os eleitos do mundo espiritual. Hoje, mais e mais mulheres são chamadas a esse grau de evolução. Quer tenham ou não consciência disso, é um degrau que vai gerar poder interior. O importante é fazer a opção de iniciar esse processo assim que ele se apresenta. Você simplesmente não pode ignorá-lo uma vez que tenha início, assim como também não pode ignorar uma gravidez.

Que podemos extrair de nossa história?

Os três primeiros "auxiliares" de Psiquê eram elementos da natureza-formiga, junco, águia. A torre é um elemento feito pelo homem e representa o legado cultural de nossa civilização. Ela nos ajuda, e muito, a saber como foi que outras mulheres, em épocas passadas, conseguiram completar sua quarta tarefa. Santa Tereza de Ávila refere-se a ela como Castelo Interior. Líderes da teologia, mormente mulheres, têm seus pontos de vista sobre ela. As feministas de nossos dias muito têm o que dizer. Na legenda cristã também encontramos bastante material sobre esse tema, com muitas histórias sobre as santas. De sua parte a psicologia jungiana traz muitas crônicas sobre a forma feminina de cumprir essa tarefa.

É bem importante discernir as formas do passado - tanto no Ocidente quanto no Oriente - e diferenciá-Ias dos caminhos contemporâneos. Finalmente, como na maioria das coisas, somos deixados com nossa própria torre interior, em nosso próprio caminho solitário.

Psiquê precisa abrir caminho para chegar ao Inferno, o lugar da dissolução (quantas não são as jornadas que se iniciam no ponto mais inesperado ou menos valorizado), descendo o intransponível caminho para a escuridão abissal do mundo interior. Ela não deve parar e não deve deixar-se desviar pela sua generosidade feminina. Precisa aprender a dizer não ao coxo e ao afogado (mas só durante esse estágio de seu crescimento). É um período muito difícil para a mulher. Um velho manco lhe pede que o ajude a recolocar a lenha no dorso do animal e ela tem de dizer não. Um moribundo lhe pede ajuda e ela precisa dizer-lhe não.

Há uma imagem chinesa que mostra o masculino e o feminino assim: Um homem está no topo de uma montanha, ao pôr-do-sol, com as mãos estendidas, palmas viradas para cima. Afirma um sim criativo. Uma mulher está no topo de uma montanha, ao pôr-do-sol, com as mãos estendidas, palmas viradas para baixo. Afirma um não positivo. No pensamento chinês, esta é uma forma de expressar o fato de que o masculino e o feminino carregam, cada um, metade da realidade. É o Yin e o Yang, na visão chinesa, a se completarem mutuamente na perfeição. Um precisa do outro; um alimenta o outro.

Ocupamo-nos aqui do não criativo e não do não simplesmente indiferente. A negativa, enquanto ato criador, é algo possível, mas no nosso mundo ocidental é uma possibilidade quase que inteiramente perdida. A mulher pode chegar a dizer um não criativo, construtivo, ordenador, caso cumpra essa última parte das provas impostas a Psiquê.

Em quase todas as sociedades primitivas, se alguém ajuda uma pessoa fica preso a ela. Na África, por exemplo, se alguém salva a vida de uma pessoa que mais tarde vem a cometer um crime, aquele que a salvou é responsabilizado.

Psiquê paga pela travessia do Estige com uma moeda e reserva a outra para voltar. Se ela não guardar energia suficiente no início, não terá meios para terminá-Ia. Essa jornada requer descanso, introspecção e concentração de energia. Psiquê precisa desviar a atenção do terrível cão que guarda os portais do Hades. Não é simplesmente ignorar as coisas odiosas que se encontram pelo caminho; elas precisam ser pagas com algo de sua própria espécie - bolos de cevada com mel.

A seguir, é importante não dissipar a energia reservada para a jornada, gastando-a com Perséfone e adotando sua forma de ser. Ela é a rainha do mundo dos mortos, a deusa inatingível, a eterna donzela, a rainha dos mistérios. Essa parte da mulher deve ser honrada e respeitada, pois aqui é que o mistério deve ser desvelado; mas você pode não se identificar com ela. Não é difícil encontrar exemplos de mulheres que permaneceram com Perséfone e não fizeram maiores progressos.

Psiquê enceta o caminho de volta do Hades, distrai o horrendo cachorro o tempo necessário para passar por ele, paga o barqueiro com a segunda moeda e volta à luz do mundo dos vivos.

Ela pede o cofrinho do ungüento de beleza, mas nada recebe, aos seus olhos. Esse nada é o segredo mais recôndito e, provavelmente, mais valioso do que qualquer outra virtude para a qual pudéssemos encontrar um nome. O mistério interior mais profundo para a mulher pode não ter nome, nem ser rotulado. É a essência daquela virtude feminina que precisa continuar sendo um mistério para os homens certamente, mas também para as mulheres. Não é nada menos que o elemento que cura a si próprio, que se auto-regenera.

O sono de Psiquê é o longo e prolongado sono da morte, que lhe fora profetizado desde o início pelo oráculo, mas que Eros havia postergado ao arrebatá-la para seu jardim. A morte psicológica, como sendo a passagem de um nível de evolução a outro, é um símbolo comum a mitos e sonhos. Morremos para o velho self e renascemos para uma nova vida.

No começo, Psiquê era uma criatura adorável, feminina e ingênua. Para galgar um novo degrau em seu desenvolvimento e conseguir uma nova vida, foi-lhe estipulado - pelo oráculo e pela evolução - morrer para aquela preocupação pueril, talvez narcisista, com sua beleza e ingenuidade, a fim de aprender a lidar com as dificuldades da vida, sem, porém, excluir suas facetas escuras e feias, e usando sempre as potencialidades de um ser já amadurecido.

Quem melhor que Perséfone para entender tudo isso? A Perséfone da mitologia também fora, de início, uma donzela pura e linda, tal qual Psiquê: cheia de vida, de juventude, de frescor primaveril. Sua beleza era sua maior preocupação, e foi justamente ela que lhe causou a perda da inocência, quando se atirou de encontro ao seu destino. Tudo porque um dia ficou extasiada com uma flor lindíssima - o Narciso -, que fora criada especialmente por Zeus com o propósito de afastá-Ia de seus amigos e fazer com que Hades a pudesse raptar e desposar. Depois do rapto, Deméter, sua mãe, passou a buscá-Ia desesperadamente. Zeus, então, deu sua permissão para que a jovem voltasse do mundo dos mortos uma vez por ano, durante a primavera e o verão.

Perséfone aprendera tudo sobre a beleza: seu preço e seu valor. Trazia-a, pois, anualmente para a Terra durante essas estações. Quando a deusa via sua beleza murchar com as primeiras geadas, tornava aos infernos. Sim, ela sabia tudo sobre a efemeridade da beleza e o quanto ela é desejada.

É, portanto, para junto de Perséfone que Psiquê é encaminhada, quando de sua última tarefa. Que melhor pessoa? Para quem mais poderia ela ser mandada, justamente quando necessitava morrer para a preocupação - infantil e original - com sua beleza e seu narcisismo, que a distanciavam do amadurecimento?

Quando Psiquê desobedece às instruções relacionadas ao cofrezinho (outra felix culpa, uma queda do estado de graça, necessária ao desenrolar do drama?), ela toma o elemento feminino, divino, para uso próprio, e ele lhe causa a perda da consciência. É esse o momento mais perigoso da jornada, exatamente o ponto no qual muitos se perdem. Identificar-se com o mistério é cair na inconsciência, que significa o fim para um maior desenvolvimento.

Psiquê trabalhou para executar as três tarefas e, por meio delas, conseguir uma conscientização maior, mais detalhada, em seu processo de auto-conhecimento. Finalmente defrontou-se com a tarefa da individuação, plenitude, inteireza. Isso, porém, exigiu-lhe uma descida às regiões abissais do inconsciente, do Hades, que só pôde ser empreendida depois de ela adquirir controle bastante para trabalhar conscientemente. Muitas mulheres, no entanto, conseguem fazer a jornada em segurança até esse ponto para acabar caindo na armadilha de identificar-se com o misterioso charme de Perséfone. Se isso acontecer, nenhum desenvolvimento mais lhes será possível, uma vez que se tornam verdadeiros fósseis espirituais, sem nenhuma dimensão humana.

Psiquê também teria sucumbido nesta prova, não fosse essa mesma falha ter ativado o poder masculino de Eros - ou seu lado masculino interior -, e o levado a salvá-Ia. Foi a picada da flecha do amor que a despertou e resgatou de seu sono mortal. Somente o amor poderá salvar você dos perigos de uma espiritualidade parcial.

Esse sono de Psiquê nos recorda o sono de morte de Cristo na tumba, ou o de Jonas no ventre da baleia. É o grande sono, a grande morte, o grande colapso que antecede a vitória final.

Eros realiza sua tarefa divina e Psiquê é recebida no céu como imortal. Seu contato com Eros é difícil e perigoso, mas no final brinda-a com a imortalidade. Portanto, a salvação é o prêmio da totalidade, que não é conseguida só pelo trabalho, mas é dádiva dos deuses. Pode-se, pois, presumir que quem esteve fortalecendo a jovem todo o tempo foi Eros; que foi ele, como animus, que se manifestou como formiga, junco, águia e torre.

Se tomarmos o mito todo como a própria história da mulher, Eros é realmente seu animus que está se tornando forte, saudável, deixando de lado as características do moleque malandro para ser um homem maduro, merecedor de se tornar seu companheiro. Tudo é conseguido, sim, com o trabalho da jovem, mas também com a colaboração efetiva dele.

Neste mito, como em muitos outros, a morte é apenas um sono. O animus - em sua dimensão no mundo interior do Olimpo - é capaz de salvar o ego e elevar Psiquê a uma vida nova, a um novo estado de existência. Ego e animus, agora, mantêm um relacionamento adequado, pleno e total. Ela é agora rainha, e o fruto dessa união é alegria, êxtase, totalidade e divindade.

É bonito descobrir que o problema, que parecia insolúvel, foi solvido enquanto a protagonista estava ocupada em resolver coisas práticas. Há uma história persa que ilustra bem esse ponto: um jovem escalou uma montanha e lá no topo descobriu uma caverna, e dentro dela uma pérola de grande valor. Mas a pérola estava sob a pata de um dragão tão grande e ameaçador que ele não viu chance nenhuma de pegá-Ia. Desgostoso, voltou à sua vida comum e sem grandes motivações. Casou-se, constituiu família, trabalhou e, depois de velho, quando os filhos já haviam saído de casa, viu-se livre novamente e pensou: "Antes de morrer, vou voltar à caverna para olhar a pérola pela última vez" . Encontrou o caminho de volta para a caverna, entrou e viu a pérola, linda como antes. Lá estava também o dragão, mas agora tão encolhido que se reduzira a quase nada. Pôde então apanhá-Ia e levá-Ia. Sem se dar conta, havia lutado contra o dragão durante toda a vida, dia após dia, através das coisas práticas de sua existência.

O nome da filha de Psiquê e Eros é traduzido por Prazer. Minha intuição me diz que melhor teria sido chamá-Ia Alegria ou Êxtase. Quando, finalmente, a mulher alcança seu desenvolvimento pleno e descobre que é uma deusa, dá à luz um elemento de prazer, alegria ou êxtase. Creio que o coroamento da realização feminina é ser capaz de levar essas qualidades para a sua vida. O homem valoriza tanto a mulher justamente por causa dessa capacidade ou poder. Ele não consegue encontrar o Êxtase sozinho, sem a ajuda do elemento feminino, que pode estar tanto na mulher interior - anima - quanto na exterior. A alegria é uma dádiva que brota do coração da mulher. Ela manifesta a beatitude e é a imagem viva dela. O fruto de todos os seus labores é a alegria e o êxtase.

FIM

1 Nome romano de Afrodite. (N. A.)

2 Devo a Betty Smith esse insight (N. A.)

3 C. S. Lewis trata esse aspecto do mito com genialidade - a identificação ingênua de Psiquê com sua própria capacidade de ser agradável, e as reações, não tão agradáveis, das irmãs - em seu livro Till we have faces. (N.A.)

4 Num lar judeu ortodoxo o sabbath tem início ao pôr-do-sol da sexta-feira. É de praxe que a mulher acenda as velas. (N. A.)

5 Para maiores esclarecimentos sobre o tema, ver WE, do mesmo autor, Editora Mercuryo, São Paulo, 1987.(N. T.)

6 Ver HE - Editora Mercuryo, São Paulo, 1987, 1992 (edição re­vista e aumentada). (N. T.)

7 Ctônico: relativo aos deuses e demônios que habitam os subterrâneos da Terra. (N. T.)



Hectairas: Cortezãs profissionais da Grécia antiga que, além de cultivar a beleza física, cultivavam também a mente e o espírito, elevando-se muito acima da média das mulheres da Ática.(N. T.)

9 Ver Feminilidade Perdida e Reconquistada, Robert A. Johnson, Editora Mercuryo, São Paulo, 1991. (N. T.)

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