She a chave do entendimento da psicologia feminina


VII - O SOFRIMENTO DE PSIQUÊ



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VII - O SOFRIMENTO DE PSIQUÊ

Em seu desalento, diante da visão de Eros que voa para longe dela, Psiquê pensa em afogar-se no rio. Aliás, toda vez em que se vê diante de uma tarefa difícil vem-lhe o ímpeto de suicidar-se. Será que essa tendência não aponta para uma espécie de auto-sacrifício - sacrificar um estágio de consciência em favor de um novo, que se avizinha? Quase sempre o desejo de suicidar-se mostra o início de um novo nível de consciência. Se se mata a coisa certa - a velha forma de adaptação -, sem ferimentos pessoais, uma nova era plena de energia surgirá.

Quando é atingida por uma experiência arquetípica, a mulher desestrutura-se, e é aí que recobra rapidamente sua ligação arquetípica e restaura seu ser interior. Isso também faz com que ela reúna todos os elementos que a poderão ajudar e que estão nas profundezas do seu self. Essa forma de agir é peculiar à mulher, pois o homem tem a sua própria, diferente da dela. Enquanto ele vai sair à cata de alguma tarefa heróica, ou seja, "matar muitos dragões para salvar frágeis donzelas" , geralmente ela se retira para um lugar muito tranqüilo e lá fica, pacienciosa, sem se ocupar de nada, esperando até que algo dentro dela lhe dê os meios, o caminho e a coragem.

Um amontoado de paradoxos! Ela pode descobrir que abraçou a Morte quando se casou; sim, morte de uma velha forma de vida.

É desconcertante para o homem dar-se conta do alto grau de controle que a mulher exerce sobre os sentimentos e sobre o mundo interior, uma habilidade desconhecida da maioria deles. Ela pode entrar quando queira no lugar mais profundo do seu ser, onde a cura é conseguida e o equilíbrio restaurado. Grande parte dos homens não tem tal controle sobre seus sentimentos, nem sobre sua vida interior. Muitas são as mulheres que percebem essa diferença em seus companheiros e sentem-se machucadas por não perceberem neles o mesmo grau de sensibilidade.

Estar dominado pela paixão é como ser feito em pedaços, mas traz em si a possibilidade de solução. Se houver força e coragem suficientes, o indivíduo poderá sair desse "desmembramento" com uma nova consciência sobre seu próprio valor e sua unicidade como ser. É uma senda muito difícil de ser trilhada, mas para alguns temperamentos talvez não haja outra a percorrer. Parece que os ocidentais elegeram esse caminho para refazer a conexão com as energias arquetípicas, às quais damos nomes de deuses e deusas.

Qual a melhor forma de solucionar esse problema? É ficar absolutamente parado, não fazer nada. E é exatamente o que acontece com Psiquê. Supera seu impulso suicida e permanece quieta. Quando você sentir que alguma coisa o fez perder o pé em alguma situação, quando você sai de órbita, o melhor a fazer é dar uma parada.

A mulher tem a grande virtude de parar nos momentos adequados, e talvez esteja aí uma das condutas mais sábias de que o ser humano é capaz. Ela é obrigada a retornar a um núcleo central fixo, cada vez que algo muito forte lhe acontece. É um ato altamente criativo, mas que deve ser levado a cabo corretamente. A mulher deve ser receptiva, não passiva.

Uma velha história chinesa ilustra bem esse princípio feminino, que muitas vezes não é bem compreendido no nosso mundo ocidental. Uma aldeia estava sofrendo uma estiagem terrível; as colheitas estariam totalmente arruinadas caso não chovesse logo. Um famoso fazedor de chuva foi chamado, e lhe ofereceram tudo para que trouxesse a chuva vivificadora. Ele andou pela cidade, observou tudo, depois pediu uma cabana de palha, comida e água por cinco dias. Foi tudo rapidamente providenciado, e no quarto dia choveu. Os habitantes acorreram à cabana, cheios de alegria e gratidão, levando presentes ao fazedor de chuva por ter ele salvado suas colheitas. Desconcertado, o homem explicou-Ihes que ainda não havia iniciado os rituais para fazer chover. Sentira-se tão desarmônico consigo próprio, quando vagara pela cidade, que ainda precisava de um tempo para afinar-se. A chuva viera naturalmente. Esse "afinar-se" é a grande arte feminina - tanto da mulher quanto da ani­ma. (Deve ficar claro que não nos estamos referindo propriamente a homem e mulher, mas sim a feminino e masculino.) É algo que o feminino sempre consegue ao ficar bem quieto.

A forma feminina de entregar-se é similar, se não igual, à do fazedor de chuva do Tao. Mas um homem também pode agir assim, caso se manifeste seu lado feminino. Uma forma divina de entregar-se.

É possível transmudar o estar-apaixonado para amor, o que é a história de um casamento bem-sucedido. Nossos matrimônios ocidentais têm seu ponto de início na paixão e, felizmente, mudam para o amor. Esse é o tema básico de nossa história: começa com uma colisão entre uma mortal e um deus, ou seja, dois níveis de ser: a característica humana e a supra-humana. Ambas têm de aprender, mas isso só é conseguido dolorosamente, pois uma não pode viver sem a outra. A característica supra-humana não pode ser vivida ao nível humano.

Lembro-me de uma charge de James Thurber: um casal de meia-idade está brigando e o marido dispara: "Bom, mas quem foi que acabou com a magia do nosso casamento?"

Quando tocados por um deus ou uma deusa, que devemos fazer? Esta é uma pergunta que não tem resposta em nossa cultura. Muitos, na verdade, têm de suportar a deterioração da visão divina do ser amado, acabam por acomodar-se na monotonia da meia-idade e resolvem que, afinal de contas, aquela virtude divina era uma tremenda bobagem.

A alternativa feminina para transpor a auto derrota e a depressão que acompanham o infeliz final do estar-apaixonado vai-nos ocupar pelo resto de nossa história.

PSIQUÊ SOZINHA

Ser atingido por emoções divinas é tornar-se aberto para captar a consciência divina, mas divina no sentido grego, do Olimpo. Os gregos referiam-se aos arquétipos como se fossem deuses, numa terminologia mais adequada e mais poética do que a que usamos hoje em dia. Referir-se aos grandes arquétipos que agem dentro de nós, quando nos apaixonamos, como sendo deuses e deusas, é uma forma inteligente e bela. Uma vez que nos tocam, jamais poderemos retornar à condição comum, despreocupada e inconsciente de antes. Atualmente, uma das únicas formas de ser visitado pelos deuses é quando um ocidental se apaixona, e então um caminho de evolução que tenha em si a consciência como meta, poderá ser percorrido.

Depois de um trágico "caso de amor", a tarefa da mulher é traduzir a dor e o sofrimento nos degraus de seu desenvolvimento pessoal.

A mulher tem dentro de si aquela virtude feminina de retornar à quietude sacrificatória, que pode ser observada na tradição cristã quando se diz: "Aqui nos entregamos e nos apresentamos ao Senhor... num sacrifício vivo".

Psiquê sacrifica-se: vai ao rio para entregar-se, talvez pelos motivos errados, mas com os instintos certos.

Pan, o deus de pés fendidos, está sentado à beira do rio com a ninfa Eco ao colo. Percebe que Psiquê está a ponto de atirar-se nas águas e a dissuade.

Mas por que exatamente Pan? Ele é o deus que se coloca ao lado do self, aquele jeito selvagem, aquela quase-loucura considerada sagrada pelos povos antigos, de que tanto nos arrependemos quando se apodera de nós. Daí o nome pânico. E é essa específica virtude que salva Psiquê. Se pudermos encontrar o deus Pan no lugar certo e conseguirmos ser guiados para fora de nós mesmos, na direção de algo maior, aquela energia será usada em nosso benefício. Se levados para algo inferior, como o suicídio, será o caminho errado.

O ataque de choro na mulher é uma reação que advém da experiência-Pan. Embora possa ser humilhante (essa palavra significa estar perto do humus ou da terra), derreter-se em lágrimas poderá levar você a algo maior que você mesma. É a força evolutiva de Afrodite que leva você a esse ponto e mostra-lhe o próximo degrau.

Pan também sempre tem algo a dizer a Psiquê em momentos como este. Portanto, aconselha-a a rogar ao deus do amor, pois ele é quem compreende os que estão abrasados por suas flechas. Que ironia sutil, ou seja, você, que foi "ferida" por esse deus, terá de pedir exatamente a ele que a cure de suas flechas!

Sendo o deus do amor, Eros é o deus do relacionamento. É da natureza do princípio feminino - seja homem ou mulher - ser fiel a Eros, ao relacionamento. Seguir sempre o caminho que manterá o relacionamento com aanima ou com o animus, pois é com ele que você terá de se haver intimamente. No caso da mulher, ela terá de aceitar Eros como seu princípio-guia.

Contudo, para encontrar o deus do amor, Psiquê necessita confrontar-se com Afrodite, pois ele está sob seus poderes, nesse momento. A moça rebela-se e, em vez de ir a Afrodite, dirige-se a alguns outros templos dedicados a várias outras deusas. É sistematicamente rejeitada, pois nenhum deus ou deusa ousa correr o risco de ofender Afrodite. Seu ódio seria um perigo!

Existe um paralelo muito esclarecedor, nesse ponto, entre Psiquê e Parsifal. Ela vai em peregrinação de altar em altar, até que chega àquela a que realmente deveria recorrer. Ele, de sua parte, está passando por sua experiência - Rei-Pescador: lutando heroicamente nas batalhas, derrotando dragões e salvando donzelas. O trabalho de ambos é igualmente nobre, só que diferente. Seja você homem ou mulher, esses processos dinâmicos dos princípios masculinos e femininos são importantes para serem lembrados. Ambos têm característica feminina/masculina, e é necessário escolher a ferramenta adequada para a tarefa específica que se lhe apresenta.

Psiquê deve continuar sofrendo até que seu caminho esteja desimpedido. Fritz Kunkel disse, certa vez, que não se deve tirar ninguém de seu sofrimento prematuramente. Se estivermos no caminho do sofrimento, ou numa época estéril, talvez seja porque deveríamos mesmo passar por isso, durante algum tempo. Ao entendermos a estrutura global do sofrimento, um trecho estéril do caminho não parecerá assim tão assustador.

Finalmente, Psiquê vai ao altar de Afrodite, pois quase sempre aquilo que provocou um ferimento é também um instrumento de cura.

Afrodite não resiste e passa-lhe um duro sermão, reduzindo-a a zero. Diz-lhe que não serve mesmo para nada, a não ser para lavar pratos, e que se existisse algum lugar para ela neste mundo - coisa muito duvidosa -, seria apenas para desempenhar tarefas muito subalternas. Por fim, designa-lhe quatro tarefas, que significarão para a moça sua redenção.

VIII - AS TAREFAS

Psicologicamente falando, a carga das tarefas impostas por Afrodite à pobre da Psiquê é a mais pesada registrada na literatura. A mentalidade moderna assim reagiria: "Está bem, obrigada por toda essa teoria, mas, e agora, que é que eu faço?" Esse ponto do nosso mito mostra o padrão mais coerente possível para o princípio feminino. O fato de a história haver sido tirada de uma época tão longínqua, em relação à nossa história psíquica, não a torna menos útil; ao contrário, faz jus à sua universalidade e atemporalidade. Existe um sem-número de fórmulas para a maneira masculina de resolução, mas nossa história é uma das poucas que mostram a saída feminina em nossa herança cultural.

Depois de haver conseguido sobreviver à causticidade da preleção de Afrodite, Psiquê recebe dela as instruções, tão precisas quanto apavorantes. Mas por que tivemos de recorrer a Afrodite para tal coisa? Não haveria como ir a qualquer outro lugar. Eventos psicológicos vêm num pacote: ingenuidade, problema, espera e solução são perfeitamente conseguidos em uma estrutura coerente.

A PRIMEIRA TAREFA

Afrodite aponta a Psiquê uma enorme montanha de sementes de diferentes tipos, todas misturadas, e diz-lhe que ela deverá separar e selecionar as semente antes do cair da noite. Se não o lograr, a pena será a morte. Dito isso, encena uma saída dramática e pomposa para participar de um festival nupcial. A pobre da Psiquê é deixada só com sua tarefa. Tarefa impossível, que ninguém conseguiria realizar. Senta-se outra vez, imóvel, chora, e mais uma vez decide-se pelo suicídio.

De repente, aparece em seu socorro um exército de formigas que selecionam e separam as sementes com grande rapidez e aptidão e terminam o trabalho antes de anoitecer. Afrodite reaparece, como prometera, e muito a contragosto admite que uma boa-para-nada como Psiquê até que havia cumprido a tarefa de forma tolerável.

Que belo toque de simbolismo o desse monte de sementes a serem selecionadas! Em tantas coisas práticas da vida, tais como a rotina da dona-de-casa, por exemplo, ou em sua própria vida profissional, o desafio da mulher é o de fazer prevalecer a ordem e o método. Seja o grito lá da sala: "Mãe, cadê o outro pé de meia?" ou a lista de compras, ou, ainda, um novo rascunho para aquele manuscrito - tudo isso é selecionar, ordenar e colocar em forma. Sem essa tarefa essencial de estabelecer a ordem haveria o caos.

O homem recorre à mulher para conseguir a organização doméstica, pois ele sai para o mundo atrás de coisas que vê como muito mais importantes, deixando a cargo dela a manutenção da ordem do lar. Ele não a acha capaz de selecionar, separar, ordenar.

Ao fazer amor com uma mulher, o homem dá-lhe um número incalculável de sementes. Ela terá de escolher uma e iniciar o milagre da gestação. A natureza, em sua característica-Afrodite, produz tanto! A mulher, com sua capacidade de selecionar, tem de escolher uma semente e levá-Ia à frutificação.

Muitas são as culturas que eliminaram o selecionar e ordenar, através dos costumes e das leis. Estipulam o que a mulher deve fazer e, com isso, a salvam da tarefa de selecionar. Segunda-feira é dia de lavar; terça-feira, de passar, etc. Nós, ocidentais, somos povos livres e não temos tais protecionismos. A mulher deve saber como diferenciar, como selecionar criativamente. Para que isso aconteça, ela precisa encontrar sua natureza-formiga, aquela primitiva, ctônica,7 aquela característica telúrica que irá auxiliá-Ia. A natureza-formiga não é o intelecto; não nos fornece regras a seguir. Primitiva, instintiva, silenciosa, legitimamente acessível à mulher.

Talvez esse atributo de selecionar sementes faça parte da masculinidade interior da mulher - um eco de Eros. Mas ela deve lembrar-se desta lei básica: fazer uso de tal função, altamente discriminatória, fria, seca, própria de seu animus, como ligação entre seu ego consciente e o mundo interior, o Inconsciente Coletivo. O animuse a anima pertencem principalmente aos céus e aos infernos do mundo interior. Curiosamente fazem, a um tempo, parte do humano e do divino, do pessoal e do transpessoal. Por isso é que são intermediários excelentes entre a personalidade e o Inconsciente Coletivo. Mantêm um pé em cada mundo: agem como eficientes guias espirituais internos para o ego consciente, nas relações deste com o mundo exterior.

Freqüentemente depreciamos o animus, mas isso só se justifica se ele é usado em circunstâncias impróprias ou se se manifesta externamente, caso em que origina problemas. Mas ele é a chave para a vida espiritual da mulher, sempre que trabalha internamente. É o elo principal entre ela, ser individual, e a grande unidade, a divindade, o Inconsciente Coletivo, lugar de origem do animus.

Ter de selecionar coisas objetivas no mundo exterior não é tarefa requerida a todas as mulheres. O tipo amazona (Tony Wolff descreve quatro tipos de mulheres: a mãe, a hetaira,8a média e a amazona), ou seja, a mulher de negócios, poderá encarar esse tipo de seleção. Tem sua natureza-formiga altamente desenvolvida, podendo usar seu componente masculino no mundo exterior.

O feminino na mulher, ou a anima no homem, precisa selecionar e retirar o material que está no inconsciente, para trazê-Io com ordenação e lógica para o consciente. Esta é, na minha opinião, a grande função feminina, freqüentemente negligenciada.

Toda mulher tem competência para esse atributo de selecionar. Tarefas podem ser feitas de um modo geométrico: o que está mais perto em primeiro lugar, ou o que estiver mais próximo a um sentimento. Dessa maneira simples, pé-no-chão, você poderá quebrar o impasse do "demasiado".

É fácil não tomar conhecimento de uma outra dimensão do processo de seleção - a interior. Ao mesmo tempo que uma grande quantidade de material nos chega do inconsciente pedindo-nos para ser selecionada, também estamos recebendo o tudo-cai-em-cima-de-mim que vem do mundo exterior.

É uma árdua tarefa, para a mulher, fazer a seleção nessa dimensão interior e proteger-se, e à família, das torrentes internas que são, no mínimo, tão avassaladoras quanto as que vêm do mundo exterior. Sentimentos, valores, modulação, limites, eis aí ótimas bases para selecionar que poderão produzir excelentes frutos. E todas são peculiares à mulher e à feminilidade.

Pode-se ver um casamento como duas pessoas que estão costas com costas, cada uma protegendo a outra de uma forma particular. Ele voltado para o mundo exterior e ela, para o interior, um nível onde se sente mais à vontade. Essa situação não é estática, pois cada um deles caminha para a plenitude, que é a personalidade integral representada pelas duas faces de Janus que olham, ao mesmo tempo, para o mundo interior e para o exterior.

A tarefa da mulher é, além de proteger-se, proteger seu homem e sua família dos perigos do mundo interior: humores, inflação do ego, excessos, vulnerabilidade e o que se costumava chamar "possessões". São coisas que o gênio da mulher sabe manejar bem melhor que o do homem. A ele também cabe sua própria tarefa, ou seja, virado para o mundo exterior, manter a salvo sua família. Existe um perigo em particular na mentalidade de nossos dias, ou seja, ambos estarem virados para o mundo exterior, ambos dedicando todo o seu tempo às coisas externas. Essa atitude deixa o mundo interior desguarnecido, ficando o lar à mercê dos perigos que o rodeiam e que acabam por encontrar uma brecha desprotegida para assaltá-Io. As crianças são primordialmente vulneráveis a essa falta de salvaguarda.

No início do casamento, o casal forma dois discretos círculos que quase se sobrepõem. A divisão entre os dois é grande, e ambos têm suas tarefas específicas. À medida que amadurecem, aprendem um pouco mais sobre o gênio do outro e, gradativamente, os círculos aproximam-se mais e mais, e a área de sobreposição torna-se maior.

Jung conta o caso de um senhor que o procurou por causa de um problema. Quando Jung lhe pediu que falasse sobre seus sonhos, respondeu-lhe que jamais sonhava, mas que seu filho de seis anos o fazia, com todos os detalhes. Jung então disse-lhe que recordasse os sonhos do filho. Durante semanas e semanas, levou-lhe os sonhos do menino, até que de repente passou a sonhar, ao mesmo tempo que a criança deixava de fazê-Io! Jung explicou-lhe, então, que, sem querer - pois se havia deixado levar pela moderna mentalidade coletiva, tão comum, em relação a tais coisas -, falhara, deixando de cuidar de uma dimensão tão importante de sua própria vida. Ao mesmo tempo, o filho vira-se obrigado a suportar a carga sozinho.

Se você quiser deixar a melhor herança possível a seu filho, deixe-lhe um inconsciente limpo, não lhe deixe sua vida não vivida, que estará escondida no seu inconsciente até o dia em que você estiver pronto para olhá-Ia cara a cara.

Geralmente é a mulher quem cuida desses lumes interiores, mas, nesse exemplo, foi a tarefa do pai que recaiu sobre a criança. Quando falamos do masculino e do feminino, é preciso que fique bem claro, uma vez mais, que não estamos falando exclusivamente de homem e mulher. O lado feminino do homem pode tomar a si a tarefa que normalmente pensamos pertencer à mulher e vice-versa.

A SEGUNDA TAREFA

Afrodite, de forma insultuosa e arrogante, determina a segunda das tarefas de Psiquê: deverá ir a um campo, do outro lado do rio, e juntar um pouco de lã de ouro dos carneiros que ali pastam. E deverá estar de volta ao cair da noite, sob pena de morrer se não o conseguir.

Psiquê precisa ser muito corajosa (temerária seria a palavra correta) para cumprir tal tarefa, pois os carneiros são ferozes. Uma vez mais ela se desestrutura e pensa em suicídio. Aproxima-se do rio que a separa da pastagem dos carneiros do sol, com o firme propósito de jogar-se às águas. No último momento, os juncos que margeiam o rio falam-lhe e lhe dão conselhos.

Os juncos, humildes plantas que brotam do lugar onde a água encontra a terra, advertem-na para que não se aproxime dos animais, em busca da lã, enquanto houver luz do dia. Se não seguisse esse conselho seria morta a marradas. Se fosse à noitinha, porém, conseguiria facilmente recolher a lã que costumava ficar presa aos arbustos e galhos mais baixos das árvores do bosque, e obteria, assim, suficiente quantidade de lã de ouro para satisfazer Afrodite, sem atrair para si a fúria dos carneiros.

A Psiquê não lhe foi dito para ir diretamente aos carneiros ou tentar conseguir a lã de ouro pela força. Na confrontação direta, seriam muito perigosos. Portanto, ela deve abordar esses animais agressivos, de cabeça de touro, apenas de forma indireta.

Quantas vezes a masculinidade não se parece com isso, aos olhos de uma mulher, quando chega a hora de ela assimilar um pouquinho dessa característica para sua própria vida interior! Imagine uma jovem, muito feminina, no início de sua vida, observando o mundo de hoje e sabendo que necessita abrir seu caminho nele. Tem medo de ser esmagada, morta ou despersonalizada pela natureza-carneiro da sociedade impessoal, competitiva e patriarcal em que vivemos.

O carneiro representa uma característica masculina poderosa, elemental, instintiva, que pode entrar em erupção quando menos se espera, como uma "entidade" invadindo a personalidade. É um poder terrível e numinoso, como a experiência da sarça ardente, as profundezas abissais do inconsciente, que pode esmagar o frágil ego se não for corretamente dominado.

É preciso fazer aqui uma distinção entre carneiro e Velocino. Talvez convenha recordarmos o mito da busca do Velocino de Ouro, para melhor compreensão desta tarefa de Psiquê. O Velocino de Ouro - ou Tosão de Ouro - é um dos grandes mitos da Antigüidade que versam sobre a masculinidade. Nele, Jasão e seus companheiros dão provas de coragem e virilidade.

Era o pelego de um carneiro que salvara dois irmãos - Helle, a menina, Phrixos, o menino - das mãos assassinas do pai e da madrasta. No instante em que ia ser desferido o golpe mortal, o carneiro, que era muito forte, aproximou-se voando e arrebatou ambas as crianças. Infelizmente, porém, a menina caiu no mar e afogou-se, e só o menino chegou são e salvo a um outro reino, onde sacrificou o animal em ação de graças. O Velocino de Ouro foi dado por Phrixos ao rei daquelas terras, e só muito mais tarde é que Jasão e os argonautas foram em busca dele.

Ao sacrificar o carneiro, Phrixos guarda o Velocino de Ouro, que é o símbolo do Logos. Há uma ligação íntima, orgânica, entre Logos e poder, assim como entre Velocino e carneiro.

Como poderá o homem bem controlar tal poder, tão terrível, e usá-Io em benefício de si próprio e da natureza? Os mitos antigos mostram como: sacrificar o carneiro e guardar o Velocino; ou, ainda, apenas recolher a lã que ficou presa nas ramas, para não despertar a fúria animal. Outra alternativa nos é mostrada por Tolkien - o moderno criador de mitos -, que manda devolver à terra o anel do poder. Na terminologia oriental, é manter o equilíbrio entre o Yin e o Yang, entre Logos e Eros. O mito de Psiquê diz que não se deve tentar arrancar ou usar a lã enquanto ela estiver no carneiro. O conhecimento primordial, ligado ao poder também primordial, tem uma capacidade instantânea de destruição.

Nosso mito nos dá instruções bastante explícitas sobre como Psiquê deve, sabiamente, aproximar-se desse poder-carneiro. Não deve chegar perto dos animais durante o dia, mas ao crespúsculo, e somente deve recolher a lã que tenha ficado presa aos galhos e arbustos, nunca obtê-Ia diretamente dos carneiros.

Hoje em dia são muitas as pessoas que pensam que poder só se adquire se se arrancar um punhado de lã dos flancos de um carneiro e sair exibindo-o em triunfo. Desde que o poder é uma faca de dois gumes, é bom só tomar o necessário, o que é perfeitamente plausível. Usar pouco o poder é continuar dominado pelas vozes interiores que representam os pais. Exercê-Io em demasia pode significar abuso e violência, deixando atrás de si danos e destruição.

John Sanford, escritor e terapeuta, diz que se um jovem faz uso de drogas, seu ego não é suficientemente forte para suportar a enorme carga das experiências interiores, com as quais ele se defronta; poderá ser totalmente destruído. Isso seria tentar obter o poder-carneiro diretamente, ou obtê-Io em grande quantidade. Nós, hoje, homens e mulheres, estamos pegando à unha um carneiro muito, mas muito grande, que poderá virar-se contra nós e nos destruir. Nosso mito nos adverte para que tomemos o poder na medida da necessidade, para que sacrifiquemos o não-necessário e mantenhamos poder e relacionamento na proporção justa.

Há uma distinção entre as formas masculina e feminina de obter o Velocino: a maneira de Phrixos e a de Psiquê. Aquele precisou sacrificar o carneiro, ao passo que ela não: recolheu o excedente. A idéia de juntar somente o que sobrou, os restos do Logos, a energia masculina racional e científica, o que estava nas ramas, pode parecer intolerável à mulher moderna. Por que deveria ela pegar só um pouquinho do Logos, um pouquinho dessa qualidade? Por que não simplesmente abater o carneiro, arrancar-lhe o pelego - o Velocino de Ouro - e exibi-Io em triunfo, tal qual faz o homem?

Foi exatamente o que Dalila fez, transformando seu ato, depois, num grande jogo de poder; só que deixou um rastro de destruição. O mito de Psiquê mostra que a mulher pode conseguir a energia masculina, necessária a seus propósitos, sem nenhum jogo de poder. A maneira de Psiquê é bem mais suave, não precisa transformar-se numa DaliIa e matar Sansão para adquirir o poder.

Há mulheres que precisam de uma porção maior de masculinidade, mais do que a que o mito mostra. É bom lembrar que as amazonas atrofiavam o seio esquerdo (o que significa abrir mão de uma parte considerável de sua feminilidade), para que pudessem manejar o arco com desenvoltura. Mais masculinidade pode implicar menos feminilidade, e é esse justamente o problema.

Sinto que a civilização ocidental tomou um caminho errado, há algum tempo, e por isso o espaço hoje ocupado pela feminilidade está ameaçado. Daí a importância do mito, pois ele fala exatamente das duas formas de a mulher agir: a certa e a errada.9

Esse ponto da mitologia levanta uma enorme questão para nós: quanto da energia masculina é o suficiente? Creio não ter limites enquanto a mulher mantiver-se centrada em sua identidade feminina e só usar sua força masculina para beneficiá-Ia, como uma ferramenta consciente. Assim também deve suceder com o homem: pode usar tanto quanto queira sua força feminina, enquanto homem, usando seu lado feminino de maneira consciente. Usar em demasia, porém, em ambos os casos, pode causar muitíssimos problemas.

A TERCEIRA TAREFA

Afrodite descobre que - incrível! - Psiquê lograra juntar o suficiente de lã de ouro. Furiosa, resolve derrotá-Ia. Manda-lhe que encha uma taça de cristal com a água do Estige - um rio que desce do alto de uma montanha, desaparece na terra e retorna à montanha. É um rio circular, que depois de passar pelas profundezas abissais do inferno volta às origens, no pico da montanha. Por ser guardado por monstros perigosíssimos, não há como aproximar-se dele o suficiente para conseguir uma taça de água, por menor que seja.

Fiel à sua forma de reagir, Psiquê desestrutura-se, mas desta vez nem chorar consegue, porque ficou totalmente entorpecida pela derrota.

É então que aparece a águia de Zeus, como se fosse magia. Certa vez essa mesma ave ajudara o deus em um certo caso de amor e daí nascera entre ambos uma camaradagem. Agora, desejando proteger seu filho Eros abertamente, Zeus pede à águia que assista Psiquê. Ela voa até a jovem, que está perdida em sua aflição, e pede-lhe a taça de cristal. Alça vôo para o centro do rio, mergulha-a no meio daquelas águas turbulentas e perigosas, enche-a e a devolve perfeitamente a salvo para Psiquê. Tarefa cumprida.

Esse rio é o rio da vida, correndo nos altos e baixos, vindo de altas montanhas e entrando nas profundezas do inferno. A correnteza é veloz e traiçoeira, suas margens, escorregadias e íngremes. Quem se aproximar demais facilmente poderá ser arrastado e afogar-se em suas águas, ou então ser esmagado contra as rochas do seu leito.

Essa tarefa nos mostra como a feminilidade deve relacionar-se com as infinitas possibilidades da vida. A forma feminina de agir é fazer uma coisa por vez, e fazê-Ia muito bem-feita. Psiquê só deverá encher uma taça de água por vez. Não é negada à mulher uma segunda, uma terceira ou uma décima atividade, mas é só uma taça por vez, com ordenação.

O aspecto feminino da psique humana tem sido descrito como uma consciência difusa. A natureza feminina é inundada pelas infinitas possibilidades que a vida proporciona e vê-se atirada a todas elas quase que de golpe. E a grande dificuldade é que ninguém pode ter ou ser muitas coisas ao mesmo tempo. Algumas das possibilidades que nos são dadas contrapõem-se, e, portanto, temos de escolher. Como a águia, que tem visão panorâmica, temos de focalizar um ponto no longo rio, mergulhar e trazer uma, só uma taça de água.

Há uma heresia popular, muito espalhada, que afirma: se pouco já é bom, mais é melhor. Seguir esse ditame leva o indivíduo a criar uma vida que nunca vai levar à auto-realização. A propaganda nos diz para agarrar todo o sabor que se possa arrancar da vida. Isso não funciona, significa que, mesmo que se esteja no processo de uma experiência muito profícua, já se está de olho em alguma outra. Nunca se está satisfeito, porque os planos para o futuro estão sempre se intrometendo no presente.

Por outro lado, nosso mito nos diz que um pouco de uma virtude, desde que sentida com muita consciência, é mais do que suficiente. Como afirma o poeta, é possível ver o mundo num grão de areia. Poderemos concentrar-nos em um aspecto da vida, ou em uma experiência, absorvê-Ia, esgotá-Ia e nos sentir satisfeitos. Só aí é que poderemos partir, com ordenação, para qualquer outro ponto.

A taça de cristal é o continente para a água da vida. O cristal, como se sabe, é frágil e muito precioso. O ego humano pode bem ser comparado à taça de cristal; é o continente para uma pequena parte da vastidão do rio da vida. Se o ego-continente, como a taça, não for usado com todo o cuidado, o belo mas traiçoeiro rio poderá estilhaçá-lo. A visão da natureza-águia é muito importante para se ver com clareza e mergulhar no rio, no lugar apropriado, de forma adequada. O ego que esteja tentando trazer para a vida consciente uma parte da imensidão do inconsciente deve aprender como fazê-lo, usando uma taça por vez. Do contrário, correrá o risco de ser esmagado.

É um aviso contra qualquer mergulho nas profundezas, na tentativa de trazer à tona o todo da vida para um só foco; melhor uma taça de cristal com água do que uma torrente que nos poderá afogar.

Um indivíduo despreparado que da terra olhe para baixo e veja as águas do rio da vida conturbadas, num torvelinho confuso, poderá sentir que não tem meios para fazer sua escolha. Se chegar ao rio por outra margem, num outro ponto, poderá achar a água estagnada, aparentemente sem movimento ou vida, e ficar sem expectativa de mudanças. Um outro indivíduo, que se aproxime desse rio vindo de sua margem particular, de um ponto quase sem perspectivas, vai possivelmente precisar do auxílio de sua natureza-águia para ter seu ponto de visão ampliado o suficiente para conseguir ver uma parte maior dele, com seus meandros, suas curvas, suas mudanças de curso. Assim, de um ponto de vista diverso, poderá vislumbrar outras possibilidades. Quando nos parece até impossível ver só uma pequena parte da margem, a perspectiva-águia nos dá a possibilidade de um novo degrau, provavelmente um bem pequeno, se comparado à ambição normal, mas o degrau apropriado ao crescimento pessoal.

A maioria das pessoas está oprimida pelo "demasiado" da vida moderna, mesmo no dia-a-dia. Eis a hora para a visão-águia e a mentalidade de uma-taça-por-vez.

A QUARTA TAREFA

Ao mesmo tempo em que é a mais difícil, essa quarta tarefa de Psiquê também é a mais importante. E muito poucas são as mulheres que conseguem atingir esse estágio de evolução. A linguagem usada para descrevê-Ia pode parecer estranha e muito antiga. Se essa não for a sua tarefa, deixe-a de lado e trabalhe no que for adequado para você. No entanto, para as mulheres que necessitam embarcar nela, as informações contidas em nosso mito são preciosíssimas.

Fiel à sua forma de agir, Afrodite prescreve uma tarefa impossível a um mortal. Se somente contássemos com o poder conferido aos mortais, não sobreviveríamos a nenhuma delas, principalmente a essa em especial. Mas eis que surge um auxiliar, como presente dos deuses, que a torna factível.

Essa é a última prova pela qual deverá passar Psiquê. Afrodite a instrui para que vá ao mundo infernal e peça a Perséfone - deusa do Inferno, a misteriosa, a eterna donzela, a rainha dos mistérios - um cofrinho onde ela guarda seu ungüento de beleza.

A moça, percebendo a total impossibilidade de tal tarefa, mais uma vez se desestrutura e se dirige a uma torre muito alta com o propósito de atirar-se de lá, escapando assim de seu destino fatal.

E é exatamente essa torre, escolhida como uma saída fácil, que dá a Psiquê as instruções de que ela tanto necessita para chegar ao mundo dos mortos. E que instruções! A torre diz-lhe para procurar um lugar muito escondido e lá encontrar o respiro da abertura do Hades, que desemboca no caminho intransitável que leva ao Palácio de Plutão, deus dos infernos.

Mas ela não poderá ir de mãos abanando, pois deve pagar pela passagem. Precisará levar consigo dois pedaços de bolo de cevada nas mãos, duas moedas entre os dentes e mais toda a fortaleza que conseguir reunir, para passar por muitas provas difíceis. Essa passagem através do Hades tem seu preço, e o preparo é essencial. Além disso, não deverá prestar ajuda a um coxo que lhe pedirá para apanhar a lenha que caiu do lombo de seu jumento. Deverá também recusar-se a salvar um homem que está se afogando, e não deverá intrometer-se com as três Tecelãs do Destino.

A primeira moeda ela dará ao barqueiro que faz a travessia do Estige. Uma das fatias do bolo ela irá jogar a Cérbero, o cão de três cabeças, guardião das portas do Inferno. Assim, enquanto as três cabeças brigam pelo bocado, ela poderá passar por ele e entrar.

Deverá também recusar qualquer comida, que não seja frugal, enquanto estiver no reino dos mortos. No caminho de volta, o procedimento será o mesmo.

Psiquê encontra o caminho intransitável, desce até o rio Estige e depara-se com o coxo que puxava seu jumento carregado com lenha. Quando alguns gravetos caem ao chão, ela, automaticamente, obedecendo aos seus impulsos de generosidade, abaixa-se para alcançá-Ios. Lembra-se, então, de que uma das instruções era precisamente recusar ajuda a esse velho. Isso porque deveria poupar suas energias, que deveriam estar concentradas para enfrentar as dificuldades da tarefa a cumprir.

Quando chega ao barco de Caronte este lhe pede uma moeda pela travessia do rio que a levará ao Hades. Durante a viagem, um homem que estava se afogando pede-lhe ajuda, mas outra vez Psiquê é obrigada a recusar. Isso porque quando uma mulher está a caminho de ver-se cara a cara com a deusa do reino dos mortos, precisa reunir todos os seus recursos e não desviá-Ios para outras tarefas.

Uma vez no Hades, Psiquê vai diretamente ao seu objetivo, mas no caminho encontra-se com as três Tecelãs do Destino. As mulheres lhe pedem ajuda, mas, uma vez mais, passa por elas sem prestar-lhes atenção.

Que mulher poderia passar pelas Tecelãs e não parar para tomar parte na tessitura do Destino? Especialmente na vida dos filhos ela não deveria interferir. A mãe pensa que deve guiar os filhos, o que é verdadeiro em alguns aspectos, mas não em outros, porque eles não são seus filhos, são filhos da vida. A mãe não deveria parar a própria vida para tomar parte na trama do destino de seus filhos. Ela lhes será mais útil se cuidar do próprio destino.

A moça fora avisada para que não parasse, porque aí viria a perder uma das fatias do bolo de cevada, e não poderia usá-Ia para a sua manobra diversionista na tenebrosa passagem que ainda estava por vir. Sem tal manobra jamais retornaria ao mundo da luz dos homens.

A seguir, Psiquê defronta-se com Cérbero. Atira-lhe uma das fatias e enquanto as cabeças brigam por ela a moça passa sem correr riscos.

Finalmente, vê-se na antecâmara de Perséfone, a eterna virgem, rainha dos mistérios. Como havia sido instruída, recusa a pródiga hospitalidade que a deusa lhe oferece. Aceita somente a mais simples de todas as iguarias e senta-se no chão para comê-Ia. Isso é muito significativo. Em muitas civilizações, fazer uma refeição em algum lugar significa ter laços com o local, a família ou situações. Fica-se comprometido, de certo modo, com o lugar onde se come. Por isso é que um brâmane jamais aceita comer numa casa de casta inferior, pois ficaria preso a ela. Se a jovem aceitasse o luxo oferecido por Perséfone estaria presa à deusa para todo o sempre.

Psiquê, crescendo em sabedoria e força - pois as tarefas anteriores haviam-na fortalecido -, passa pelas provas e pede a Perséfone que lhe dê seu cofrezinho com o ungüento de beleza. Sem hesitar, a deusa o entrega a Psiquê. "Um cofre que continha um segredo místico" , que é a chave para uma incrível questão que aparecerá logo mais.

No caminho de volta, ao passar de novo pelo horrível cão, joga o segundo bolo e, em seguida, dá a segunda moeda ao barqueiro.

A última das instruções dadas pela torre é uma prova demasiado grande para Psiquê. E ela desobedece o sábio conselho: não abrir o cofrezinho nem tentar saber o que ele contém. Bem no finalzinho de sua jornada, já divisando a luz do mundo dos vivos, Psiquê pensa lá com seus botões: "Aqui estou eu, com o segredo da beleza de Afrodite nas mãos. Que tola seria se não olhasse o conteúdo e não tirasse só um pouquinho para mim, pois assim me faria bela para meu adorado Eros!" E assim foi, só que encontrou nada dentro dele. O nada sai e recai sobre ela sob a forma de um sono mortal vindo do Inferno. E Psiquê jaz no chão totalmente inconsciente.

Eros, refeito de seu sofrimento, toma ciência do desastre ocorrido com Psiquê e encontra a saída para o aprisionamento infligido por Afrodite. Voa até ela, apaga aquele sono mortal de suas faces e o recoloca no cofre. Acorda-a com a picada de uma de suas flechas e faz-lhe uma admoestação por haver ela sucumbido à curiosidade, o que quase vem a matá-Ia. Depois, diz-lhe que vá até Afrodite e lhe entregue o misterioso cofrezinho.

Eros voa diretamente a Zeus e lhe pede por Psiquê. Recebe dele uma reprimenda porque seu comportamento deixara muito a desejar. Mas também honra-o como seu filho e diz-lhe que vai ajudá-Ios. Ato contínuo, conclama todos os outros deuses e dá instruções expressas a Hermes para trazer a moça a seu reino. Proclama a todos os habitantes do Olimpo que a tirania do amor exercida por Eros já havia durado o suficiente, e que agora chegara a hora de pôr os grilhões do casamento nesse incendiário.

Já que Eros havia escolhido uma noiva, por livre-arbítrio, e muito linda, ele, Zeus, exigia o casamento. Para contornar a dificuldade da união de um deus a uma mortal, Zeus supervisiona pessoalmente a cerimônia. Dá de beber à formosa Psiquê da ânfora da imortalidade, o que lhe vai assegurar tanto a imortalidade quanto a promessa de Eros de que nunca mais a abandonará. Será seu marido para todo o sempre.

Nunca aconteceu nos céus festa mais linda! Zeus presidia, Hermes servia, Ganimedes enchia as taças de vinho, ApoIo tangia sua harpa. Até Afrodite, quem diria, contagiada pela alegria geral, estava extasiada com o filho e com a nora!

No tempo devido, Psiquê dá à luz uma filha cujo nome é Prazer.



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