She a chave do entendimento da psicologia feminina



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IV - A CONFRONTAÇÃO

Eros faz o possível para manter Psiquê na inconsciência; prometeu-lhe o paraíso se ela não o visse nem o questionasse. Foi esse o caminho que buscou para subjugá-Ia.

É freqüente a mulher viver algumas etapas de sua vida sob o jugo do homem em sua vida exterior; mas tem de estar sempre alerta para evitar submeter-se ao homem interior, ou seja, o animus. A crônica da vida de uma mulher pode ser descrita em sua luta para evoluir em relação ao princípio masculino de vida, seja encontrando-o fora de si mesma, na figura de um homem, ou dentro de si, através do animus. O mesmo pluralismo existe na vida do homem, quando ele tenta conseguir um relacionamento inteligente com o princípio feminino de vida, quer o encontre numa mulher, quer na heróica batalha com sua mulher interior, sua anima. Dentro ou fora, esse é o grande drama da vida.

Apesar de serem infinitas as variações que constróem a individualidade da vida, o chegar-a-um-acordo com o elemento masculino tem um roteiro previsível. Provavelmente, o primeiro contato de uma jovem com a masculinidade foi-lhe proporcionado pelo pai. Depois, veio a masculinidade como devoradora, no seu casamento com a Morte, e, em seguida, por meio de Eros, que lhe promete o paraíso mas com a condição de não lhe fazer nenhuma pergunta. Mais tarde, verá como ele é realmente, ou seja, o deus do amor. Vivenciando esse drama, interior ou exteriormente, despendemos tanta energia consciente...

Se tivermos oportunidade de examinar a autobiografia de uma mulher, vamos observar capítulos eletrizantes: como ela se apaixonou, a descoberta e a perda do jardim paradisíaco e, queira Deus, sua redescoberta - maravilhoso, exatamente como lhe fora prometido um dia -, na chegada de sua maturidade.

O céu-na-terra, no período do namoro, que é exatamente o jardim paradisíaco, nos atrai. Ali Psiquê se vê no mais adorável e tranqüilo dos paraísos, onde até seus menores desejos são satisfeitos. O próprio Jardim do Éden, o lugar de perfeição. Desejamos de todo o coração que dure para todo o sempre, mas todo jardim - como já vimos antes - tem a sua serpente, ou um elemento-sombra, que abruptamente acaba com a tranqüilidade.

AS FERRAMENTAS

A sombra obriga a mulher a questionar o jardim paradisíaco e dá-lhe algumas ferramentas maravilhosas, mas ao mesmo tempo terríveis para usar em seu propósito: a lâmpada e a faca, esta um símbolo masculino.

A lâmpada, de início velada, significa sua habilidade para ver o que quer que seja, representa sua capacidade para conscientizar-se. A luz sempre foi o símbolo da consciência, esteja ela nas mãos do homem ou da mulher. A consciência natural da mulher é ímpar e bela: a lâmpada. Ela queima o petróleo ou o azeite e dá uma luz particularmente cálida e suave, sem aquela forte intensidade da luz solar. É o doce calor feminino, que se faz presente na natureza dessa luz. Lumina Naturae é um de seus nomes.

A faca é bem afiada. Das duas ferramentas, Psiquê só faz uso da primeira, jamais da segunda, e penso que esse é um sábio conselho que nos dá o mito. A mulher, ao trazer luz a uma situação, produz verdadeiros milagres; se, por outro lado, empunhasse a faca, poderia matar. Transformar ou matar? Eis uma escolha crítica, especialmente para a mulher moderna.

Se a faca vier primeiro, provavelmente haverá muito perigo, mas, se em seu lugar for usada a lâmpada, haverá a possibilidade de crescimento e manifestação de inteligência. A faca serve só para o uso pessoal, para o discernimento, para a clareza, para abrir caminho através do nevoeiro. Para uso interno. Se ela puder lembrar-se de usar a lâmpada em primeiro lugar, durante os períodos difíceis do casamento, saberá escolher entre usar ou não a faca. Se optar efetivamente pela lâmpada, saberá onde usá-Ia. Só que, na prática, a faca vem primeiro e só depois é que ela toma a lâmpada para ver o estrago que causou.

A faca é aquela capacidade destruidora que a mulher tem para afogar o homem com uma torrente de palavras. É o comentário cáustico que faz do homem um pedaço de carne no espeto. É essa também a forma como aanima do homem - seu lado feminino - age com ele, quando o relacionamento de amor deixa muito a desejar. É cortante e sarcástica; vem de faca na mão. A recomendação de usar a lâmpada, e não a faca, aplica-se igualmente à anima masculina e à mulher.

Se a mulher souber manejar bem suas ferramentas, produzirá o milagre da transformação - nada menos que a anunciação de um deus, Eros em sua luz real. Ela vai poder sentir-se perfeitamente bem por sua luz ter produzido o milagre. Podemos verificar que quando um homem anseia por uma mulher - um anseio quase que silencioso -, é pela necessidade que sente de sua lâmpada para mostrar a si próprio - e a ela também - sua real natureza e sua divindade. Toda mulher detém nas mãos esse maravilhoso-terrível poder.

Mas que é a lâmpada e que mostra ela? Na pior das hipóteses, ele fica sabendo quem é e que também tem um deus dentro de si. Um ser magnífico, em algum lugar dentro dele mesmo. E quando a mulher acende a lâmpada e vê o deus nele, ele se vê obrigado a manter-se à altura dessa condição recém-descoberta, precisa manter-se firmemente estruturado em sua consciência do masculino. É obvio que ele treme! Ainda assim, parece necessitar desse reconhecimento feminino. Coisas horríveis acontecem aos homens quando privados da presença feminina - dentro ou fora -, pois parece que é essa presença que lembra a ele o que tem de melhor.

Durante a Segunda Grande Guerra, alguns grupos isolados de soldados ficaram sediados nas Aleutas, por dificuldade de transporte para resgatá-los. Estavam privados de descanso e relaxamento. Nenhum dos shows, que usualmente entretêm os soldados, sequer chegou perto deles. Mais da metade dos homens estava sofrendo de colapso nervoso; não se barbeavam, não cortavam o cabelo nem faziam qualquer coisa para melhorar seu moral. Simplesmente porque lá não havia nenhuma mulher, ou seja, nenhuma Psiquê olhando para Eros para lembrar-lhes suas qualidades.

Quando um homem chega ao ponto de sentir-se desencorajado, um simples olhar feminino pode induzi-lo a restaurar seu senso de valor. Parece haver aqui um estranho vácuo na psicologia masculina. A maioria dos homens consegue seu auto-preço através de uma mulher: esposa ou mãe. Se ele for altamente consciente, porém, o extrai de sua própria anima. A mulher vê e mostra ao homem seu valor ao acender a lâmpada.

Certa vez, estava eu bem no meio de uma batalha familiar, vendo uma mulher a brandir sua faca. Em meio à lista dos pecados mortais do marido, lá estava a acusação de que ele conseguia sempre chegar atrasado em casa depois do trabalho. Ao que ele respondeu: "Será que você ainda não entendeu que fico naquela droga de escritório exatamente por sua causa, para poder conseguir dinheiro e sustentar a família?" A esposa desmontou; conseguira ouvir algo. Imediatamente a lâmpada substituiu a faca. E ele continuou: "Eu não iria ao escritório não fosse por você. Detesto aquilo. Só vou trabalhar por você e pelas crianças!" De repente aquele casamento ganhou uma nova dimensão por ter a esposa usado a lâmpada e olhado para ver o que ele era. E devo dizer que gostou muito do que viu.

O homem depende bastante da mulher pela capacidade que ela tem de trazer a luz para a família, pois ele não consegue bem encontrar um significado real para si mesmo. A vida é muitas vezes sem graça e estéril para ele, a não ser que alguém lhe confira um significado maior de vida. Em poucas palavras a mulher pode dar uma razão para a luta diária do homem, e ele lhe será então profundamente grato. O homem sabe e quer que assim seja, e até faz todo o possível para que aconteça, porque isso vai incentivá-Ia a dar-lhe um pouco de luz. Quando ele chega em casa e conta à esposa todos os acontecimentos do dia, na verdade está pedindo a ela que lance um pouco de luz para que ele possa entender o significado de tudo que passou. Ser a portadora da luz é uma das qualidades femininas.

O facho de luz ou a luz do conhecimento é abrasador. Leva o homem a tomar consciência do que o faz temer, tantas vezes, o feminino. Em sua maioria esmagadora, os homens, quando se comportam como" galo garnisé", o que estão fazendo é um esforço absolutamente inútil para esconder seu medo do feminino. Grande parte da tarefa de uma mulher é guiar o homem para que o relacionamento entre eles atinja um outro nível de consciência. É quase sempre ela que propõe: "Que tal nos sentarmos para analisar em que pé estamos?" Ela é aquela que leva o relacionamento de ambos ao crescimento. É exatamente do que ele tem medo, se bem que tema muito mais perdê-Io.

É fácil entender a função ou o significado do azeite da lâmpada de Psiquê. São dois aspectos: o azeite no sentido de engraxar, suavizar as situações difíceis, e também no sentido de "ser fervido em óleo". O azeite mantém a luz mas também queima Eros. Os homens, em sua falta de clareza na análise do feminino, sentem dificuldade em separar esses dois aspectos.

Um velho patriarca judeu, muito falastrão, foi ver-me queixando-se da falta de vida em sua casa. Os filhos se haviam ido, ele estava aposentado, e a tristeza se havia estabelecido em seu lar, minando-o. Senti o que estava errado e perguntei-lhe sobre as cerimônias em sua casa: "Ah! já deixamos isso de lado há séculos; não têm nenhum sentido!" Sugeri-lhe que pedisse a sua esposa que acendesse as velas do sabbath na sexta-feira seguinte.4 Ao que ele me respondeu: "Besteira!" Mas eu insisti e me pus a pensar no que iria ele contar-me na próxima semana, quando voltasse. "Eu não sei o que aconteceu, mas quando pedi à minha mulher que acendesse as velas do sabbath, ela caiu no choro e fez o que eu lhe pedi: "Minha casa passou a ficar diferente desde esse dia!"

Duas coisas sucederam: a cerimônia fora restaurada naquele lar e a mulher pudera cumprir sua antiga função de ser a portadora da luz, a lâmpada de luz suave que aquece, anima e dá significado às coisas. A mulher dá à luz.

O simbolismo da lâmpada no mito aponta direto para essa qualidade feminina de ser a portadora da luz. Nos mistérios de Elêusis são elas que geralmente carregam as tochas que espalham uma forma de luz bem feminina. A tocha ilumina com suavidade o ambiente, mostrando com precisão o próximo passo a ser tomado. Não é igual à luz cósmica e masculina do Sol, que ilumina tudo ao mesmo tempo e pode ofuscar.

Poucas são as mulheres que comprendem a grande necessidade que os homens têm de estar perto da feminilidade. Tal necessidade não pode ser vista como sendo um peso para elas, e nem precisam suportar essa carga por toda a vida. À medida que o homem descobre sua própria feminilidade interior passará a não depender tanto da mulher exterior para obtê-Ia.

Se ela quiser dar-lhe o mais precioso dos presentes, se realmente quiser preencher as necessidades masculinas - uma coisa que ele raramente vai admitir, mas que está sempre presente -, terá de ser muito feminina quando seu homem estiver pedindo - silenciosamente - essa qualidade tão cara. Principalmente quando ele tornar-se presa de humores é que vai precisar, e muito, da real feminilidade da mulher, para que possa catar os cacos e fazer-se homem novamente.

V - AMOR OU ESTAR APAIXONADO

Afrodite completou sua tarefa de expansão de consciência, mas de que forma! À primeira vista, por intermédio de um amontoado de estragos e erros aconteceu uma história de evolução! Afrodite, bendita alma pouco honesta, por ciúmes envia Psiquê a seu casamento fatal com um monstro horripilante, no cume da montanha. Não contente com isso, recorre ao filho, o deus do amor, para arranjar o casamento. Mas Eros, quando vai cumprir as ordens da mãe, espeta acidentalmente o dedo em uma de suas flechas de amor e apaixona-se perdidamente por Psiquê. Depois, num terrível momento de revelação, quando acende a lâmpada para ver um suposto marido demoníaco, Psiquê também fere o dedo em uma dessas flechas e apaixona-se pelo deus do amor!

Que característica é essa de "estar apaixonado" que parece ter o poder de pôr de lado os ditames do destino e produzir tais milagres? Faz-se necessário diferenciar amor estar apaixonado, antes de começar a deslindar esse mistério.

Amar alguém é uma experiência humana que une dois seres de uma forma também humana. É ver a pessoa como ela é na realidade e gostar dele ou dela por sua maneira comum de ser, com suas falhas mas também com toda a magnificência de sua personalidade humana. Se algum dia nos pudermos desfazer da cortina de fumaça das projeções que vivemos, e olhar verdadeiramente para o outro, nos daremos conta de como pode ser maravilhosa a criatura terra a terra. O problema é que estamos cegados por nossas próprias projeções; raramente conseguimos ver com clareza e profundidade o outro ser - homem ou mulher.

Esse amor é durável e mantém-se firme dentro das experiências do dia-a-dia. Um amigo o descreve de uma maneira adorável: "Mexer o mingau de aveia do amor". O amor se realiza nos fatos e acontecimentos corriqueiros e não necessita de uma dimensão extrapessoal.5

Amar é encarar o outro da maneira real, simples, como o ser humano que de fato é. Amar nada tem de ilusório; é ver o indivíduo, vê-Io, mas não através de um determinado papel ou imagem que tenhamos planejado para ele. É dar valor à individualidade daquela pessoa, dentro do contexto do mundo comum.

Quando alguém se apaixona, alcança um nível supra-humano de experiência, e é instantaneamente elevado ao reino divino, onde todos os valores humanos são superados. É assim como se de repente fôssemos envolvidos por um tufão e atirados num reino onde todos os valores são calcinados. Por exemplo, se a corrente elétrica do amor fosse de 110 volts, a do estar-apaixonado seria de 100000, uma corrente de energia supra-humana, impossível de ser contida em limites domésticos. Apaixonar-se pertence a deuses e deusas, está muito além do tempo-espaço.

De repente, vê-se no ser amado um deus ou uma deusa, e através dele - ou dela - vislumbra-se um estado além do pessoal. São sensações explosivas e inflamadas, uma verdadeira loucura divina.

Ao observarmos um casal apaixonado olhando um para o outro, vamos perceber muito bem que eles estão "olhando através". Cada um deles está apaixonado por uma idéia, uma imagem, um ideal ou ainda uma emoção. Estão apaixonados pelo amor. As mulheres são psiquê vendo o ser amado mais como Eros, o deus do amor, do que como o homem que elas conhecem e poderiam amar pelo que ele é.

Mas tem uma coisa no estar-apaixonado, é que não dura. Um belo dia, a fulgurante imagem do ser amado - que antes pairava com radiante beleza diante dos olhos do enamorado, ou enamorada - torna-se banal, sem graça. A virtude transpessoal e divina apaga-se e surge o ser simples e comum. Eis aí um dos sentimentos mais tristes e mais doídos da vida. O estar-apaixonado é a visitação de algo divino.

Portanto, que nos está dizendo o mito? O deus do amor, ele próprio é picado por uma de suas flechas e se apaixona por uma mortal. Mas não é difícil para o próprio deus do amor ser tomado de assalto pelo estar-apaixonado, porque isso faz parte de sua natureza. Porém, quando um simples mortal, de repente, é ferido pela flecha fatal e se apaixona, então o caso se torna mais sério.

Dizem que Psiquê foi o primeiro ser mortal que chegou a ver um deus em todo o seu esplendor e viveu para contar a experiência. Eis o cerne de nossa história: uma simples mortal apaixona-se por um deus, consegue manter-se leal à sua condição humana e, ao mesmo tempo, é fiel a seu amor. O final sublime do mito é conseqüência dessa lealdade a si própria e ao amor.

Vamos fazer um teste: imagine que, por qualquer motivo, a humanidade haja desaparecido da face da Terra, menos você e uma outra pessoa. E você vai tentar encontrar essa tal pessoa, ao longo do dia. Sinta o quanto ela significa para você, dadas as circunstâncias. Essa sensação nem pode ser comparada à do "mexer-o-mingau-de-aveia-do-amor", que é durável, que consegue manter a estabilidade de um lar.

Se há vinte anos alguém me tivesse dito que um dia eu estaria equiparando amor a estabilidade, com certeza eu ficaria chocado e muito bravo. Mas suponho que tal mudança seja própria da meia-idade, que traz seus lampejos de sabedoria.

Tanto Eros quanto Psiquê tiveram o dedo picado pela flecha mágica e instantaneamente foram transportados ao reino do estar-apaixonado. Na seqüência, milagres e, inevitavelmente, muito sofrimento. Psiquê é resgatada de seu casamento com a Morte; Eros é desmascarado e mostra-se um deus; Psiquê é banida de seu paraíso; Eros voa de volta para a mãe, cheio de dor. A experiência do apaixonar-se consegue mesmo acabar com a tranqüilidade; mas, de outra parte, cria uma energia muito forte que vai gerar evolução.

Antigamente, a experiência de ser tocado pelos deuses tinha lugar no contexto religioso. Nós, os modernos, relegamos a religião a um plano secundário em nossas vidas. Hoje, raramente ouvimos alguém contar que foi profundamente atingido por um êxtase místico-religioso. A religião foi esfriada na cultura ocidental. Mesmo as pessoas que ainda se agarram às formas tradicionais religiosas, quase nunca são movidas ou alimentadas intensamente por elas. Não mais são sacudidas por intensas sensações dentro de sua vida espiritual.

Temo que a sensação profunda da visão interior do esplendor e da grandiosidade de um deus esteja sendo substituída, confundida com um mero "apaixonar-se" , noção peculiarmente ocidental.

Parece que a única forma de as pessoas comuns serem atingidas pelos deuses, nos nossos dias, é por intermédio do romance. Apaixonar-se é a experiência de olhar através daquela pessoa em particular e ver o deus ou a deusa que está nela. Não é à toa que nos tornamos cegos instantaneamente quando nos apaixonamos. Passamos reto pela pessoa amada, no seu aspecto humano, e vamos direto a algo muito maior.

Psicologicamente falando, isso significa que antes da época do nosso mito, se alguém atingisse um arquétipo, fatalmente seria desintegrado. O mito mostra que a partir de Eros e Psiquê, e sob certas circunstâncias, quando simples mortais passassem por uma experiência arquetípica poderiam sobreviver a ela, mas sofreriam uma mudança radical.

Creio ser essa a pedra de toque de nossa história: um mortal alcança uma dimensão supra-humana e vive para contar a história. Neste contexto, é possível ver não só o que significa ser trespassado pelas flechas do deus do estar-apaixonado, como também a profundidade dessa experiência, com todas as interpenetrações dos mais diferentes níveis que ela envolve. Essa é a incrível, a explosiva experiência do apaixonar-se.

Os asiáticos não têm a tradição do apaixonar-se. Entram em seus relacionamentos com tranqüilidade, sem dramas, aparentando serem intocáveis com relação às flechas de Eros. Os casamentos são arranjados. Tradicionalmente, o homem não vê a noiva antes do final da cerimônia, quando as guirlandas são levantadas. Aí ele a leva para sua casa e segue um padrão cuidadosamente prescrito para recém-casados. Ele concentra e guarda a energia que experimentamos quando estamos apaixonados, para despendê-Ia no templo, com os deuses e deusas, que lhe dão este grande poder.

Então, nossa história fala de uma mulher que foi tocada por algo muito além da experiência humana. O resto do mito nos vai esclarecer como ela conseguiu sobreviver a este toque divino.



VI - A DESPEDIDA DE EROS

Quando a lâmpada de Psiquê desvelou a divindade de Eros, fê-Io sofrer muito, causou-lhe dor profunda. O paraíso havia acabado, pois ficou patente quem era ele na realidade - não o deus do casamento mortal nem o fazedor de paraíso, mas a própria encarnação do amor. E isso foi mais difícil e mais doloroso do que descobrir nele um impostor, ou, pelo menos, alguém pior do que ele próprio havia prometido. É espantoso que a melhor das possibilidades possa chegar a ser tão doída! Embora seja totalmente inesperado, isso vem a ser verdadeiro em muitas situações na vida. Certa vez, uma professora que tive contou-me uma passagem que posso usar para ilustrar esse ponto: um jovem muito agitado chegou para um controle, depois de seis semanas de análise, dizendo:

- Toni, é muito horrível!

Como, quais são as más notícias? - perguntou Toni, aflita.

- Não me pergunte; é tenebroso!

- Me conte, por favor me conte!

- Toni, minha neurose desapareceu, e que é que eu vou fazer agora?

A moral da história é transparente: perder uma velha forma de adaptação é má notícia, mesmo quando substituída por outra muito, mas muito melhor. Tanto Eros quanto Psiquê ficam profundamente feridos quando desponta para ambos uma nova etapa de evolução, embora muito superior à anterior.

Que ironia! No instante em que alguém se apaixona, é bom que saiba que o ser amado é encarado como um ser absolutamente único e, por conseqüência, inatingível. Aí dá-se conta da distância, da separação e da dificuldade de relacionamento. Também pode advir um terrível sentimento de inferioridade, tanto no homem como na mulher, quando descobrem que seu companheiro, ou companheira, é um deus ou uma deusa. Solidão e isolamento se seguem.

Eros sustenta sua ameaça: Psiquê dará à luz uma menina mortal ao invés de um menino-deus, e ainda por cima será abandonada por ele. Portanto, a condição humana, comum, vem a substituir o jardim paradisíaco.

Quando isso se manifesta no mundo exterior, nos primeiros tempos do casamento, é quase certo que vai transformar-se num triste drama. É quando ela descobre que, afinal de contas, ele não é nenhum fazedor de paraísos, como ela esperava, e ainda mascara suas artimanhas, fazendo-as invisíveis a ela. Conseqüência: ambos vão sofrer um grande choque. Eis o potencial para a subida de um grande degrau na escalada da consciência, mas que também significa muita dor. Ambos são expelidos do paraíso e cravados firmemente nas proporções humanas. Esse pode ser um momento muito propício para ser aproveitado, porque as pessoas são melhores como seres humanos do que como deuses ou deusas. Seja como for, causa sofrimento emocional.

Eros voa de volta para a mãe, Afrodite, e age muito pouco até o final da história. A pobre Psiquê é deixada sozinha para empreender sua jornada, sem nem imaginar que conta com tantos auxiliares. Até Afrodite, a sogra-megera, cuida dela, de uma forma bem dura, há que se dizer. Durante essa experiência o marido pode abandonar a mulher e voltar para a casa dos pais. Mas também pode não abandoná-Ia fisicamente, mas por meio de incontáveis ataques de mudez total, indiferença surda e ausência emocional. Voltou para a casa da mamãe - se não fisicamente, refugiando-se em seu complexo materno interior. É assim que Afrodite reina absoluta na consciência da mulher.

Se virmos Eros como animus da mulher - seu lado masculino interior -, podemos dizer que ele manteve Psiquê num estado inconsciente típico de possessão de animus, até a hora em que ela acendeu a lâmpada da consciência. Fato que trouxe à luz sua verdadeira identidade e o obrigou a voar para o mundo interior a que pertence.

O ANIMUS


Jung disse que a função mais eficiente da anima e do animus é agir como mediadores entre a parte consciente e a inconsciente de nossa personalidade. Quando Eros volta para o mundo interior de Afrodite, está apto para interceder por Psiquê junto à deusa, Zeus e outros deuses e deusas do mundo arquetípico interno. Como poderemos verificar, coloca todas as suas aptidões para ajudá-Ia nos momentos mais críticos de sua jornada evolutiva, através dos elementos da terra, tais como formigas, águia e juncos.

Se alguma mulher quiser mudar algum aspecto da adolescência ao qual ainda esteja presa, precisará quebrar o domínio de seus componentes masculinos, a que está subordinada inconscientemente e que vão comandar seus relacionamentos no mundo exterior. Para que ela evolua, o animus conscientemente reorganizado como tal - precisará assumir a posição entre o ego consciente e o mundo interior inconsciente, onde poderá atuar como mediador. Um inestimável auxiliar para ajudá-Ia. Ele poderá abrir-lhe as portas para uma verdadeira vida espiritual. A mulher, num estado de possessão do animus, ou seja, durante essa mediação entre mundo interior e exterior, não tem a mínima consciência de seu animus. Ela crê que seu comportamento advém dele, mas a escolha é determi­nada por seu próprio ego. De fato, é seu ego que foi subjugado pelo animus nessas circunstâncias.

Quando a mulher acende a lâmpada da consciên­cia vê o animus, e o vê bem, independente de seu ego. Assim como Psiquê, geralmente ela se apavora, pois ele parece-lhe tão poderoso e divino, enquan­to ela, por comparação, vê seu self consciente com­pletamente inútil e frágil. Eis um momento perigo­so e desesperador para ela. Depois de passar pelo choque, apavorante, de reconhecer seu animus e assustar-se com sua própria incapacidade de lidar com ele, também estará em perigo de ver-se esma­gada pela grandiosidade do que ele representa. Se se der conta de que tem um elemento divino dentro de si, o resultado pode ser uma alegria muito grande, próxima a uma experiência culminante. O grande pe­rigo é "apaixonar-se pelo próprio amor".

Se você conseguir entrar em um acordo com es­se desenvolvimento e manter-se na superfície en­tre os dois extremos - homem-morte e homem­-deus, paraíso e expulsão, alegria e desespero -, po­derá então empreender a real tarefa humana de am­pliar a consciência. Aí sim, a promessa vai soar ver­dadeira e se cumprirá: se você agüentar ver o seu homem exatamente como ele é e, depois, acender a lâmpada, o que só você poderá fazer, descobrirá que ele é um deus - provavelmente não no senti­do do paraíso, o que lhe agradaria tanto, mas no sentido Olimpo, o que é muito mais grandioso. Não conheço maior promessa na vida.

Esse evento na vida de Psiquê tem algo que ver com a primeira visão que Parsifal teve do castelo do Graal.6Parsifal vê um mundo magnífico, além da imaginação, mas não pode permanecer nele. Da mesma forma, Psiquê perde Eros logo após haver descoberto sua real, magnificente natureza.



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