Sabrina nº 196 "Ele gosta de você, minha filha. Seja agradável." Roxanne não conseguia



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Bettina  usava  um  chapéu  engraçado;  Roxanne  achou  que  ela  ficava  parecida 
com  a  avó  de  Chapeuzinho  Vermelho,  mas  não  comentou  nada.  Parece  que  a 
mãe  também  achou  que  não  estava  bem  porque  fez  cara  de  choro,  e  saíram 
todos atrás de um véu preto e uma flor. Era só isso o que ela queria. 
—  Eu  disse  que  não  queria  usar  chapéu  —  reclamou.  —  Não  tenho  tipo  para 
isso. Não sei o que me deu na cabeça para comprar essa coisa estranha: Bem no 
dia  do  casamento  da  minha  filha,  não  vou  fazer  papel  de  palhaça!  Com  essa 
coisa horrenda, eu não saio de casa. Prefiro não ir à igreja! 
O pai, ao contrário, não abria a boca. Andava de cá para lá, e de  lá para cá, a 
passos largos, como um relógio de ponto. Roxanne ficou até cansada de olhar. 
Não era possível! Nem um atleta teria conseguido tanto. 
Sentada, já arrumada, esperando a hora de sair, começou a ficar com um sono 
terrível. Que idéia obrigarem a noiva a se vestir com tanta antecedência! 
Não  podia  nem  pensar  em  se  deitar  um  pouquinho.  E  bem  que  precisava! 
Sentia as pernas bambas feito gelatina e um enjôo no estômago que aumentava 
a  cada  minuto.  Era  como  se  estivesse  caindo  num  poço  muito  fundo  e  não 
encontrasse nada para se agarrar. 
Não, isso não ia acontecer! Fechou os olhos, tentando manter a calma. Procurou 
se lembrar de cada detalhe daquela casa que estava prestes a deixar. Pensar em 
coisas familiares talvez a ajudasse a encontrar forças. 
Lembrou-se  do  quadro  da  sala.  Aquele  dos  grandes  cavalos  negros  pastando, 
com  uma  cerca  ao  fundo.  Quando  criança,  costumava  ficar  olhando  para  eles, 
fascinada,  esperando, que,  a  qualquer  instante,  saíssem  daquela  imobilidade  e 
saltassem a cerca para ir descobrir o que havia do outro lado. Agora, sentia-se 
como aqueles cavalos: presa à sua própria passividade. Era impossível saltar a 
cerca e fugir. 
Os  cachimbos  do  pai.  O  morno  cheiro  de  fumo.  Ia  sentir  tanta  falta  daquilo. 
Cheiro  de  lar.  Ele  sempre  acendia  o  cachimbo,  quando  se  sentava  para  lhe 
contar suas histórias favoritas. Como a do gigante sem rosto que comia gente. 
Senhora  dona  Sancha,  coberta  de  ouro  e  prata,  descubra  seu  rosto,  queremos 
ver sua cara! 
Abriu os olhos, assustada. Rhonda levantava seu véuzinho. 
— Roxanne, não é possível. Dormir no dia do casamento! Só faltava roncar. Está 

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na hora, criatura. Que calma enervante! 
Não  saberia  dizer  como,  de  repente,  estava  na  porta  da  igreja,  de  braço  dado 
com o pai. Repetiu as palavras da cerimônia automaticamente, quase sem se dar 
conta da sombra do estranho a seu lado. Só na hora da aliança, ergueu o rosto e 
viu o olhar grave e concentrado dele. 
O tempo parou. 
Prometi  amá-lo,  honrá-lo,  até  que  a  morte  nos  separe.  Ele  também  prometeu. 
Mas só nos detestamos... Como vai ser de agora em diante? 
A  pergunta  continuou  a  martelar  em  sua  cabeça,  enquanto  a  cerimônia 
prosseguia,  mal  escutando  as  palavras  solenes  de  um  sermão  que  lhes  pedia 
amor. 
Começou a rezar. Que as coisas se endireitem, meu Deus! 
Chegou a hora das assinaturas, dos cumprimentos. 
A mãe tinha o rosto molhado e Rhonda, vestida de azul, como dama de honra, 
estava ansiosa para beijar a irmã e o cunhado. 
No  carro,  durante  o  rápido  caminho  até  a  recepção,  Sebastian  segurou  a  mão 
dela com força. Roxanne não via seus olhos, só a boca sem ternura, rude e firme. 
Na  recepção,  ao  lado  dele,  ouviu  discursos,  tilintar  de  copos,  parabéns,  rindo 
daqui e dali para todos, desejando o fim do pesadelo. Percebia a alegria do pai 
por sua voz que se alteava sobre as outras. Viu Max Ansell dirigindo-se para o 
grupo de Delia. A garota estava elegante, o cabelo loiro cortado mais curto, um 
vestido  azul  que  realçava  seus  olhos.  Usava  bastante  pintura,  mas  bem-feita, 
toda em tons azuis combinando com a roupa. Ainda era a bela Delia, mas o riso 
tinha sido domado; os gestos, dosados. 
Esquecendo os próprios problemas, Roxanne observou Max parar de falar com 
a  moça,  a  surpresa  dela,  o  jeito  como  sacudiu  a  cabeça  negando  e  a  raiva  de 
Max, denunciada pelo rubor do seu pescoço. 
A  festa  estava  acabando.  As  pessoas  ofereciam  carona  umas  às  outras  e 
resolviam quem iria para a casa dos Challis e quem iria embora. 
Num  impulso,  Roxanne  aproximou-se  de  Max,  que  ousadamente  lhe  deu  um 
beijo na boca. 
— Viva a noiva! Você está linda, e Blair é um sujeito de muita sorte, mesmo. 

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—  Obrigada.  Sabe  onde  está  Delia?  Fez  o meu  penteado  e  eu  queria  dar  a  ela 
uma  rosa  do  bolo,  como  lembrança.  Parece  que  a  vi  conversando  com  você, 
agora há pouco. 
—  Você  viu  Delia  me  dando  o  fora.  Saiu  com  uns  amigos  do  seu  marido. 
Novidades. Uma noite na cidade. 
— Duvido — respondeu, calma. — Percebeu como baixou o tom de voz e que 
mudou de jeito, nos últimos tempos? 
— Truques. Só truques para conseguir um namorado novo. Conheço o gênero. 
— Você a feriu muito, sabia? 
— Ela estava pedindo. 
— Você é inatacável, com certeza. 
— Está bem, ganhou. Fui muito rude. Perdi a cabeça. 
— Porquê? 
— Você sabe o porquê. Estou querendo esganar aquele pescocinho há meses, e 
só percebi o motivo naquela festa. Não a culpo. Agora, ela deve me odiar. 
—  Acho  que  as  pessoas  não  fazem  mudanças  drásticas  em  si  próprias  para 
agradar a quem odeiam, não? Até pensou em deixar os cabelos castanhos outra 
vez, usar roupas de Gata Borralheira! 
— Burrinha!  — ele comentou, com um leve sorriso um pouco esperançoso.  — 
Com ela, é oito ou oitenta! 
—  Ela  é  assim.  E  se  você  não  tomar  uma  providência,  Delia  vai  acabar  num 
convento; vira freira. 
Max deu uma gargalhada. 
— Não podemos deixar que isso aconteça. Mas eu não conseguiria impedi-la. 
— Por que não? Se um dia ela se apaixonar, vai se dar inteira. Não faz nada pela 
metade. 
— Sei que você já percebeu, Roxanne. Acreditem ou não, quero me casar com 
ela. E mantê-la com a rédea curta, que é disso que ela precisa! 
Parecia muito possessivo e chauvinista, mas Delia encontraria um porto seguro 
num marido ciumento. 

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— Boa sorte para vocês, Max. 
— Vou precisar mesmo — murmurou, tristonho. 
A conversa com o rapaz ajudou Roxanne a voltar novamente à realidade. 
Sebastian  veio  chamá-la  e  levou-a  para  o  carro  de  Neal  Osborne,  que  estava 
escondido,  esperando  por  eles  com  hora  marcada.  Iriam  até  Auckland  e,  de 
avião, até Rotorua. 
Quando  Sebastian  lhe  perguntou  onde  queria  passar  a  lua-de-mel,  Roxanne 
sugeriu aquele lugar com sarcasmo e ele tinha levado a coisa a sério. Marcara o 
hotel, nas teimas de Whakarewarewa. 
Guiou calado por algum tempo. A tensão começou a crescer. 
— Sua mãe parece muito moça. 
A sra. Blair tinha sido encantadora, mas bastante formal. Parecida com a carta 
que mandara, no noivado. Sebastian deu de ombros. 
— A sua também. 
— Correu tudo bem, você não achou? 
— Muito. Sua mãe merece parabéns. 
—  Você  está  fazendo  ironia,  por  acaso?  —  perguntou,  percebendo  uma  nota 
ríspida no tom dele. 
—  Não,  mas  não  é  preciso  ficar  puxando  conversa,  só  por  minha  causa, 
Roxanne. 
A moça virou o rosto para a janela, fez força para não chorar, mordeu o lábio. 
— Fazendo manha? Ou com medo? 
Segurou  o  queixo  dela  com  força,  tentando  obrigá-la  a  encará-lo.  Roxanne 
chorou, sem querer, uma lágrima sentida. 
—  Não  vou  violentar  você,  menina  —  disse,  suavemente.  —  Será  que  esta 
promessa ajuda? 
Beijou-a,  Ela  não  retribuiu  e  sentiu  a  raiva  e  a  frustração  dele,  o  que  lhe  deu 
prazer. 
Não vai ser fácil assim, pensou ela. Alguma coisa se rebelava contra a idéia de 
um  casamento  baseado  no  sexo,  e  não  no  amor.  Uma  musiquinha  obsessiva 

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martelava  em  sua  cabeça:  "o  anel  que  tu  me  destes  era  vidro  e  se  quebrou,  o 
amor que tu me tinhas era pouco e se acabou..." 
Que coisa boba de lembrar. 
Talvez  um  dia  tivessem  se  amado,  um  pouquinho.  Acabara-se  tudo.  Que 
espécie  de  casamento  poderia  construir  sobre  uma  base  de  desilusão  e 
amargura? Que chance de felicidade tinham? Nenhuma. 
 
 
CAPITULO VII 
 
Jantaram  no  hotel  e  Roxanne  descobriu,  surpresa,  que  estava  com  fome.  A 
ponto  de  dar  cabo  de  um  prato  de  ostras  muito  frescas,  de  um  ensopado  de 
carneiro  cheirando  a  vinho  e  ervas  aromáticas  e  de  um  fortíssimo  sorvete 
coberto  de  fruta  kiwi  e  de  creme.  Um  vinho  leve,  espumante,  acompanhou  a 
refeição, e o café estava forte e quente. 
O  hotel  tinha  uma  pequena  pista  de  dança  e  uma  orquestra  tocava,  mas 
Roxanne  se  negou  a  dançar,  quando  Sebastian  a  convidou.  Não  queria  ficar 
muito  perto  dele,  embalando-se  com  música  romântica  num  ambiente  pouco 
iluminado. 
Quando  ele  se  levantou  e  puxou  a  cadeira  para  ela,  lembrou-se  de  que  a 
intimidade  do  quarto,  com  suas  camas  gêmeas,  seria  mais  sufocante  ainda  e 
sugeriu: 
— Vamos andar um pouquinho. Preciso de ar fresco. 
— Claro. Você está bem agasalhada? 
Ela  usava  saia  e  blusa  de  seda  natural  e  um  casaquinho.  Acenou  que  sim, 
atravessaram o vestíbulo do hotel e saíram para a noite fria. Sebastian caçoou: 
— Ar fresco era o que você queria?  
Ela riu também, porque havia um cheiro de enxofre denso e forte. 
— Faz bem à saúde — respondeu. — Mas a gente se acostuma logo e nem sente 
mais. 
Ele  a  segurou  pelo  braço,  guiando-a  por  um  caminho  que  ladeava  um  riacho 

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preguiçoso e onde se escutava o barulho de água fervente, subterrânea. 
—  Definitivamente,  é  um  passeio  de  não  se  tirar  o  nariz  do  chão.  Perigoso  — 
disse ele. 
Roxanne já ia concordar, mas mudou de  idéia. O  que ele queria, sendo gentil, 
era  desarmá-la.  Estava  sendo  educado,  braço  passado  à  volta  de  seus  ombros, 
andando  passo  a  passo  com  ela.  Continuaram  em  silêncio,  até  chegarem  ao 
jardim público, às margens do lago e tomaram um dos caminhos que levava à 
água. A lua fazia mil brincadeiras com as pequenas ondas que se enroscavam e, 
no ar, o cheiro era de rosas e enxofre, misturados. 
Numa  ponte  ornamental  sobre  um  riacho  quente  que  desaguava  no  rio, 
Sebastian parou. Roxanne debruçou-se no parapeito de madeira. Podia sentir a 
respiração  dele  nos  cabelos,  o  calor  de  seu  corpo  tão  perto.  Não  muito  longe, 
ouvia-se música maóri, vozes altas e excitadas, a batida rítmica dos pés nus no 
chão. 
Roxanne estava apreensiva, nervosa. 
—  Calma,  relaxe  —  sussurrou  ele  em  seu  ouvido.  —  Aprecie  o  luar  e  a 
paisagem. 
Ela  obedeceu,  cansada,  e,  quando  viu,  estava  nos  braços  dele,  num  beijo 
apaixonado, suas mãos quentes percorrendo, possessivas, o corpo dela. 
Não  se  mexeu,  estava  assustada.  Através  dos  olhos  entreabertos,  via  a  lua 
parecendo  querer  hipnotizá-la.  O  carinho  ia  e  vinha,  foi  se  sentindo  morna, 
desarmada, toda trêmula por dentro e por fora, frágil e carente de amor. 
E o beijo dele era a resposta a tudo isso. Um desejo devorador que a consumia 
inteira,  que  fazia  com  que  se  esquecesse  de  tudo,  a  não  ser  de  seus  corpos 
unidos, tão perto, que o bater do coração de um era o do outro. 
Sentiu  que  ele  ficava  excitado  demais  e  acordou  do  sonho,  para  tentar  lutar 
contra aquela força que a dominava. 
— Não faça isso, sua boba. Não brigue comigo. Não há nada para ter medo. 
— É fácil dizer. O que você espera de mim, usando força bruta para me beijar? 
Largou-a 
— Pronto, o bruto largou a presa indefesa. Agora, vamos voltar para o hotel? 

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No  quarto,  perguntou  se  ela  queria  usar  o  banheiro  primeiro.  Aceitou,  tomou 
um banho de chuveiro demorado, escovou os cabelos e saiu com o seu robe de 
noiva, rosa, com muita renda, bem amarrado sobre a camisola do dia. 
Ele  voltou  do  banheiro  de  roupão  e  ela  percebeu  que  não  usava  pijama  por 
baixo. Parou em frente da cama onde ela estava sentada e perguntou: 
— Ainda me odeia, Roxanne? 
— Ainda. 
— É pena. 
Segurou  seus  pulsos  com  uma  das  mãos,  obrigando-a  a  se  levantar,  e  tirou  a 
colcha da cama. Depois, soltou o cinto do robe cor de rosa, que se abriu e caiu 
de seus ombros. 
— Linda — murmurou, afagando as rendas do decote. — Muito virginal. 
Empurrou-a, delicadamente, para a cama... e cobriu-a com o lençol. 
— Boa noite, mulherzinha. Durma com os anjos. E apagou a luz, para espanto 
atônito de Roxanne. 
De manhã, quando ela acordou, ele já estava vestido, sentado, lendo o jornal. 
— Alô. O café da manhã começa daqui a dez minutos e aluguei um carro para 
as nove horas. Quer ir a algum lugar especial? 
Roxanne negou com a cabeça, muda. 
— Há muitos lugares interessantes. Estudei os folhetos que estavam na gaveta 
da cabeceira. Já esteve na Cidade Soterrada? 
— Quando era pequena. — Quer voltar lá? 
— Para mim, tanto faz. Como quiser: 
Sebastian levantou-se, muito alto, parecia um inquisidor. 
— Estou apenas tentando ser gentil, querida. Foi sua idéia vir aqui. 
—  Você  sabe  que  pouco  estou  ligando  para  isso.  Não  queria  lua-de-mel 
nenhuma. 
—  Não  queria  nem  casamento,  não  é?  —  ele  zombou.  —  Mas  casou.  E  está 
tendo uma lua-de-mel, como nos romances. Beijos ao luar, e, hoje, os prazeres 
turísticos. Ou prefere passar o dia no quarto? Também faz parte da tradição, é 

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claro. 
—  Não  quero  ficar  aqui,  trancada  com  você  por  nada  deste  mundo.  Qualquer 
lugar é melhor. 
Afastou as cobertas, pegou o robe e se levantou. 
— Você é o mestre e o senhor: irei aonde mandar. Pessoalmente, sempre odiei 
este lugar. Me dá horror, me deixa arrepiada! 
O céu anuviou-se, enquanto exploravam a cidade que fora engolida pelo vulcão 
e soterrada numa noite de 1886, quando o Tarawera, bem perto dali, entrou em 
erupção  tão  forte  que  seu  topo  cônico  explodiu  e  alterou  para  sempre  a 
paisagem de uma área enorme. Os famosos terraços e as casas construídas nos 
declives  dos  morros  desapareceram  e  só  existiam  agora  em  velhas  fotos  em 
sépia e em pinturas do século dezenove, de muito mau gosto. 
As  ruínas  das  moradias  da  antiga  cidade  haviam  sido  descobertas  nas 
escavações  para  se  tornarem  atrações  turísticas,  cheias  de  panelas,  pratos  e  o 
mais que tinha sobrado da catástrofe. Placas contavam histórias das pessoas que 
sentiram o terror do fogo, e havia uma plaqueta na cabana de alguém que ficara 
preso por vários dias e depois, miraculosamente, acabou sendo resgatado. 
Sebastian  examinava  tudo  com  interesse  e  Roxanne,  com  horror  fascinado. 
Continuaram  o  passeio  por  Waimangu  para  ver  as  "maravilhas"  termais  que 
haviam sido formadas com a erupção. 
Eram  terraços  de  sinca,  brancos  como  leite,  constantemente  lavados  por  uma 
fina película de água, buracos de lama borbulhante e um lago profundo de água 
fervente cercado de precipícios cobertos de vapor e do sempre presente enxofre 
amarelo. 
Almoçaram tarde, num restaurante sobre o vale, denso de emanações, e aí caiu 
a  chuva.  Voltaram  para  a  cidade,  visitaram  o  pequeno  centro  de  Maori  em 
Ohinemutu,  com  a  estátua  da  rainha  Vitória  sobre  uma  coluna  entalhada. 
Andaram  pela  igreja,  mistura  de  trançados  tradicionais,  esculturas  e  enormes 
janelas modernas de vidro, com a figura de Cristo trabalhada em jatos de areia 
sobreposta ao lago, de modo que parecia andar sobre as águas. 
A tensão que Roxanne sentira durante todo o dia começou a relaxar na igreja, 
interessada que ficou na arquitetura e esculturas. Quando saíram, ainda chovia 
bastante e tiveram que dar uma corrida até o carro. Sebastian olhou pela janela 

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e achou melhor voltar ao hotel. 
— Quem sabe, podemos ir aos banhos azuis? — sugeriu. 
Com  aquele  mau  tempo,  nadar  em  águas  minerais  mornas  parecia  uma  boa 
idéia. 
Boiando preguiçosamente na piscina, observando Sebastian mergulhar do  alto 
trampolim, Roxanne sentiu as lágrimas se misturando com as gotas d'água em 
seu  rosto.  Uma  lua-de-mel  devia  significar  felicidade  perfeita,  tempo  para  um 
homem e uma mulher que se amavam descobrirem segredos, intimidades. Que 
lua-de-mel  era  aquela,  com  Sebastian  a  clamar  por  seus  direitos,  sem  amor,  e 
ela, determinada a não ceder, atenta a cada movimento para fugir, desconfiada 
de cada momento de ternura. 
Fechou os olhos, tentando afastar o pensamento, as emoções. O calor da água e 
o vapor que subia eram como um soporífero e ela estava quase adormecendo, 
quando dedos fortes apertaram seu rosto molhado. 
— Dormindo? Que idéia! Pode se afogar. Era Sebastian. Quem mais? 
— Talvez fosse uma boa idéia. Ele não achou graça. 
— Não seja idiota. Se está se sentindo tão infeliz, a culpa é toda sua. Você está é 
com medo de estender a mão e pegar o que está a seu alcance. 
— Talvez eu não queira aquilo que posso pegar. Talvez queira aquilo que está 
fora do meu alcance. 
Virou-se para nadar para longe, mas ele a segurou pelo braço e puxou-a. 
— O quê, por exemplo? Você disse que não queria Mark. 
— Liberdade — disse ela. — Acho que é impossível imaginar que eu não queira 
homem algum, não é? 
Ele caçoou: 
—  Você  não  é  o  peixinho  gelado  que  finge  ser,  Roxanne.  Já  vi  o  gelo  derreter 
uma ou duas vezes. Vai derreter de novo. Por mim. 
—  É  o  mais  irresistível  dos  homens,  não  é?  Lembre-se  de  que  eu  estava 
fingindo. Há uma diferença. 
Um  grupo  de  crianças  entrou  estabanadamente  na  água  e  ela  aproveitou  para 
sair e ir se vestir. 

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Naquela  noite,  depois  do  jantar,  enquanto  Sebastian  conversava  com  um 
hóspede, Roxanne subiu para se deitar, pegou uma revista qualquer e caiu em 
sono  profundo  com  a  revista  do  lado,  a  luz  acesa  e  tudo.  Estava  realmente 
cansada. 
Passaram  o  dia  seguinte  num  dos  riachos  de  truta,  observando  os  peixes 
preguiçosos  nadando  em  águas  fundas,  mas  tão  transparentes  que  dava  para 
ver  cada  seixo  do  fundo.  Fizeram  um  piquenique  por  ali  mesmo.  Roxanne 
alimentou  peixes,  pardais  e  pombos  e  aceitou  relutante  o  convite  para  ver  o 
gêiser Pohutu mais tarde. 
Não  queria  que  Sebastian  soubesse,  mas  sentia  pavor  daquele  lugar.  Ainda 
menina,  tinha  visitado  Rotorua  e  foi  perseguida  por  pesadelos  durante  muito 
tempo depois. Que importava isso agora? Estava deprimida e triste por motivos 
bem mais sérios. Sebastian nem tinha chegado perto dela, o dia inteiro. É claro 
que não havia desistido, estava só ganhando tempo. Do ponto de vista dele, era 
uma causa ganha. Legalmente casados, juntos, ele a desejava e sabia que ela o 
queria; pelo  menos, um pouco. Era inevitável que, mais  cedo ou mais tarde, o 
natural  acontecesse.  Então,  por  que  não  aceitar?  Por  que  aquela  resistência 
inútil que o deixava furioso e amargo? A resposta vinha-lhe fácil. Porque queria 
que fosse por amor; e não o pagamento de uma dívida; não a cobrança de um 
contrato. 
Um  dia,  ele  devia  ter  sentido  amor  por  ela...  Um  homem  não  pede  em 
casamento  alguém  a  quem  não  ama.  Não  um  homem  como  Sebastian. 
Subitamente, entendeu tudo com a maior clareza do fundo de um rio cheio de 
pedrinhas. Entendeu que ele a amava e que sofrerá ao ser rejeitado, passando a 
sufocar  seus  sentimentos.  E  ela,  tonta,  não  tinha  sido  capaz  de  enxergar  a 
verdade.  No  momento,  só  pensava  na  família.  Realmente,  que  coisa  fora  de 
propósito fizera! 
Como remediar seu erro agora? Ferido, será que ele passara a não gostar dela? 
Gostava ainda? Como saber? Não, não podia contar com o amor de Sebastian. 
E, ao admitir que o perdera para sempre, veio a dor inesperada de saber que ela 
o queria mais do que tudo na vida... 
Ainda  tremia  por  dentro,  com  sua  recente  descoberta,  quando  visitaram  a 
Escola  de  Artes  Nativas.  Quase  não  escutou  as  explicações  de  como  a  escola 
surgira para salvar as técnicas antigas, que estavam ameaçadas de desaparecer. 

Daphne Clair – Por um corpo de mulher 
(Sabrina 196) 
Projeto Revisoras 
 
 
66 
Foram para as teimas e Sebastian andava sempre longe dela. Roxanne custava a 
disfarçar o medo e a necessidade de alguma segurança, um braço, um apoio. 
Ao descerem, voltando por entre poços de barro cinza, e buracos sulfurosos que 
espirravam  jatos  de  água  fervendo,  começou  a  sentir  o  terror  infantil  que  a 
perseguira  durante  a  primeira  visita  ao  gêiser.  Não  muito  antes  da  ida  da 
família Challis a Rotorua, uma mulher tinha caído sem querer ou se suicidado 
num dos poços. Roxanne vira as notícias pela televisão, e no passeio, de mãos 
dadas com o pai, fugia das "atrações" do lodo e da água quente. 
Enjoara com cheiro de enxofre, o borbulhar teimoso da lama, a vegetação podre 
que  parecia  o  corpo  meio  decomposto  de  um  animal  que  se  mexia  a  cada 
movimento do barro. 
Agora,  Sebastian  a  acompanhava,  mas  não  segurava  a  sua  mão.  Estava 
interessado nos fenômenos, e quando chegaram ao lugar do Pohutu, depois de 
passarem pela cascata do Véu de Noiva, Roxanne era só ressentimento, medo e 
aflição. 
Um  grupo  de  turistas  escutava  com  atenção  a  guia  maori  vestida  a  caráter, 
corpete  vermelho  e  saia  de  linha  estampada  de  preto  e  uma  tira  trançada  na 
testa.  O  Pohutu  esguichava  fortes  jatos  de  vapor  e  água  quente,  e  Sebastian 
andava  por  ali,  procurando  um  lugar  com  melhor  visão.  Ofereceu  a  mão  a 
Roxanne, quando passou, e ela recusou. No mesmo momento, o chão sob seus 
pés começou a vibrar e um ruído profundo e amedrontador saiu da terra. 
— Sebastian! Cuidado! — ela gritou. Ele se voltou, espantado. 
— Não tem perigo. Não vou chegar perto. 
O gêiser escolheu aquela hora para se exibir e, como uma besta descontrolada, 
soltou  uma  enorme  coluna  de  água  fervendo  de  suas  entranhas.  Os  turistas 
bateram  palmas,  fotografaram  de  todos  os  lados  e  Roxanne  viu  Sebastian, 
encantado, tentando apreciar o espetáculo de mais perto. 
Que  ele  ficasse  por  lá.  Ela  ia  fugir.  Cedeu  a  um  medo  irracional  de  criança  e 
começou a andar em meio ao vapor espesso. O chão de sílica resistente mudou 
para terra encrustada de enxofre, e ela continuou a andar, evitando as fendas do 
chão,  o  vapor  tomando  conta  do  seu  corpo,  até  que  a  perna  afundou  num 
buraco e a água quente tocou seu tornozelo. 
Aterrorizada,  teve  visões  do  inferno.  Era  engolida  pela  línguas  de  fogo. 

Daphne Clair – Por um corpo de mulher 
(Sabrina 196) 
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