Sabrina nº 196 "Ele gosta de você, minha filha. Seja agradável." Roxanne não conseguia



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Projeto Revisoras 
 
 
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CAPITULO III 
 
Nas  semanas  que  se  seguiram,  Sebastian  e  Roxanne  encontraram-se  muitas 
vezes.  Ele  a  levava  para  casa,  ou  iam  ao  cinema  e  depois  jantavam.  O  passeio 
preferido  era pela orla, apreciando o azul do mar de um lado e as  montanhas 
verdes do outro. 
O vinco de preocupação no rosto de Owen Challis diminuiu, e Bettina só faltava 
cantar, tão satisfeita estava. Até Rhonda comentou que ele era legal, um cara e 
tanto, não é? 
Só Mark não aprovava. Já enfiara na cabeça que Roxanne era propriedade dele 
e,  de  repente,  a  segurança  lhe  fugia  bem  debaixo  dos  pés.  Passou  pelo  ciúme, 
pela dor, pela indiferença fingida e, um dia, explodiu. Não agüentou mais, fez 
malcriação e deixou de telefonar por uns tempos, magoado. 
Sebastian  escolheu  uma  casa  linda,  perto  da  cidade  e  debruçada  sobre  o  mar, 
com  vista  de  cartão  postal.  Pouquíssimos  vizinhos,  escondidos  atrás  da 
vegetação  tropical  e  exuberante.  O  verde  ali  parecia  indomável,  surgindo  por 
entre as pedras, nos caminhos tortuosos que levavam à praia. 
Do  terraço  da  casa,  descia-se  para  um  pátio  cercado  de  hibiscos  e  de  manukas 
vermelhas.  Depois,  por  uma  encosta  íngreme  e  selvagem,  chegava-se  ao  mar. 
Era o único modo de se ter privacidade em uma praia tão bonita. 
A família Challis, em  peso, foi visitar a casa nova. Bettina deu palpites a mais 
não  poder  de  como  decorar  aqui  e  ali,  nadaram  bastante  e,  alguns  dias  mais 
tarde, Sebastiarn fez questão de que Roxanne fosse lá com ele, sozinha. 
—  Andei  comprando  alguns  móveis  e  quero  que  você  os  aprove  —  disse, 
casualmente. 
— É especialidade de mamãe — respondeu, marota. 
— Mas é você que eu quero que vá. 
Aquilo  poderia  significar  muita  coisa,  e  Roxanne  ignorou  as  implicações.  Ou 
melhor, às possíveis complicações. 

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— E se eu não gostar da sua escolha? 
— Mudo tudo. 
Ela  não  acreditou,  nem  ele  esperava  que  acreditasse.  Depois  do  primeiro 
encontro, o relacionamento deles não se transformara em nada profundo, mas 
num  namorico  sem  conseqüências  com  alguns  beijos,  momentos  agradáveis, 
tudo  muito  sensato  é  acomodado.  Era  assim  que  devia  ser,  era  assim  que 
haveria de continuar sendo, pensava Roxanne, segura de si. 
Os  móveis  novos  eram  bonitos,  discretos,  coisa  de  muita  classe.  A  moça 
aprovou sem restrições. 
—  Sebastian,  você  me  arranja  alguma  coisa  para  beber?  Estou  morrendo  de 
sede. 
— É pra já. Tenho uma grande cozinha, com tudo o que se possa imaginar.  
Levou-a até uma pequena geladeira quase vazia de onde tirou uma garrafa de 
vinho e duas taças. Ela se surpreendeu. 
— Então é isso, vinho espumante, a primeira coisa que o senhor compra? Muito 
prático, mesmo. — Os olhos dela caçoavam, zombeteiros, maliciosos. 
Com um sorriso inocente, Sebastian mostrou que tinha entendido o comentário. 
—  Nada  de  maus  pensamentos.  Só  queria  comemorar.  Vou  dormir  aqui,  hoje, 
pela primeira vez. 
Alguma  coisa  estremeceu  dentro  dela.  Sentiu  o  ambiente  mudado,  disfarçou, 
virou  o  rosto  para  o  outro  lado  e  bebericou  o  vinho  como  se  não  existissem 
insinuações no ar, pedidos, desejos. 
A  cozinha  era  pequena  demais  e  foi  para  a  sala,  sem  pressa.  Olhou  o  Pacífico 
pelas portas de vidro, tão tranqüilo, mas convidativo. 
Acabou o vinho, e Sebastian pegou o copo. 
— Quer mais? 
— Não, obrigada. Vamos dar um passeio pela praia? Parece fresco e gostoso lá 
fora. 
— Ótimo. Quer nadar? 
Negou  com  a  cabeça.  Nem  roupa  de  banho  tinha.  A  não  ser  que  ele  fosse 
colecionador  de  biquínis,  o  que  era  até  possível.  Saiu  primeiro,  enquanto  ele 

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lavava  e  guardava  os  copos,  mas  Sebastian  a  alcançou  logo  e  andaram  em 
silêncio  por  entre  as  árvores,  escutando  os grilos,  o  grito  das gaivotas,  o  bater 
das ondas. A típica mistura do cheiro das manukas e da maresia era boa, entrava 
pelo nariz, refrescava a cabeça. Chegaram à areia, pararam à sombra de alguns 
arbustos,  quase  molhando  os  pés  na  água  que  vinha  correndo  lamber  quem 
chegasse perto. 
A noite chegava devagar, cheia de vermelhos no céu e verdes-escuros no mar. 
Roxanne sentiu um arrepio de frio. 
— E melhor irmos indo. Está começando a ventar. 
No  caminho  de  volta,  como  se  fosse  para  aquecê-la,  Sebastian  tomou-a  nos 
braços  e  beijou-a.  Primeiro,  de  mansinho;  depois,  com  uma  intimidade  a  que 
nunca se atrevera antes. Descia a ponta dos dedos por seus ombros, esquentava 
os  braços  com  o  vaivém  da  palma  da  mão.  Eram  movimentos  de  procura,  de 
paixão, que pediam resposta. Resposta que ela não deu. Continuou passiva, até 
que ele a puxou para a areia e curvou-se sobre ela, dizendo: — Não resista. Não 
tenha medo de mim, vai ser bom, Roxanne. Bem que ela queria resistir àquela 
sedução  toda,  mas,  aos  poucos,  foi  se  soltando,  ficando  calma,  vazia,  pronta 
para  aceitar  as  exigências  daquele  corpo  quente,  dos  beijos  que  a  deixavam 
trêmula  e  sem  vontade  própria.  Quase  sem  perceber,  foi  mostrando  que 
gostava. Fechou os olhos, mas continuou vendo o brilho das primeiras estrelas. 
Seu  coração  batia  no  mesmo  ritmo  das  Ondas  barulhentas.  Ele  beijou  seu 
pescoço e, com a voz rouca de desejo, pediu: 
— Roxanne, venha para casa comigo. 
Ela  morreu  de  vergonha  porque  os  minutos  pareceram  horas,  antes  que 
conseguisse ter forças para dizer não. 
—  Não  —  repetiu  ele,  com  um  toque  de  humor  resignado.  —  Pelo  amor  de 
Deus, ela disse não! 
Levantou-se, ajudou-a a se levantar também e foram de mãos dadas até a casa. 
Mas agora ele estava frio, distante. 
— Vou viajar neste fim de semana. Tenho coisas a fazer em Auckland. 
Roxanne  não  respondeu  porque  não  sabia  que  tipo  de  comentário  fazer.  "Vou 
sentir  sua  falta"?  Ou:  "Que  pena"?  Na  verdade,  a  tentação  era  tanta  que  até 
preferia  assim:  ele  bem  longe.  Será  que  arruinara  as  chances  do  pai?  Ele  não 

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pedira sacrifícios, mas o pior de tudo é que descobrira que o tal sacrifício seria 
um  imenso  prazer.  Voltar  para  a  casa  de  Sebastian  e  dormir  com  ele  seria  a 
glória, não o inferno. 
Mark  telefonou  convidando  para  uma  festa  na  casa  de  Max.  Aceitou 
imaginando  que  ele  já  soubesse  da  partida  de  Sebastian.  O  ex-namorado 
caprichou no charme, na delicadeza e na atenção. Uma ótima companhia, como 
sempre  tinha  sido.  A  turma  da  festa  era  a  de  sempre,  e  alguém  perguntou, 
rindo, pela "divina Delia", 
— Tentei convidá-la — Max explicou —, mas fui informado de que ontem, ao 
soar das cinco horas, qual donzela escolhida, foi embora com Sebastian Blair, de 
malinha e tudo, em direção ao horizonte perdido! 
Na  mesma  hora,  começou  a  fofoca,  as  mulheres  aos  risinhos,  os  homens  com 
cara de "aquele sujeito é que sabe viver". 
Roxanne simplesmente gelara. Depois, sentiu como se seu corpo pegasse fogo, 
teve  enjôo,  vontade  de  morrer  ou,  pelo  menos,  cair  no  choro.  Mas  o  olhar 
observador  de  Mark  estava  fixo  nela,  e  resolveu  esconder  aquele:  desgosto 
inexplicável.  Sorriu,  meio  engasgada,  e  pensou  que,  se  tivesse  sido  mais 
cordata,  ele  a  teria  levado,  e  não  Delia.  Lembrou-se  também  de  que  Sebastian 
aceitara  sua  recusa  sem  muito  drama.  Com  certeza,  tanto  fazia,  para  ele.  Mas 
logo Delia! Fingiu que estava feliz, bebendo e dançando até as duas da manhã. 
No  dia  seguinte,  na  igreja,  amaldiçoou  toda  e  qualquer  bebida.  As  têmporas 
martelavam e a náusea queimava a boca do estômago. Diabo de Sebastian Blair! 
Que fosse para o inferno, que era o melhor lugar para ele! 
Credo! Pensar uma coisa daquelas na igreja! Perdão, meu Deus. E concentrou-se 
no sermão. 
No fim de semana, as notícias estouraram. Delia voltara dos feriados como um 
gato empanturrado de leite e só ouviam comentários sobre o carro de Sebastian, 
o apartamento dele, sua admiração por ela, os sofás, as cadeiras de couro (e não 
de vinil) caríssimas! 
Tanto  falatório  por  causa  de  umas  míseras  cadeiras  deixou  Roxanne  com 
vontade de descrever a cama dele, nada menos do que a cama, para calar a boca 
de todo mundo. Mas desde quando estava envolvida em rivalidades com Delia? 
Seria  descer  muito  baixo.  Preferiu  desviar  a  conversa  para  outros  assuntos. 

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Esquecer... 
Ele  provavelmente  também  já  a  esquecera.  E  onde!  Nos  braços  da  loira  mais 
oxigenada da cidade. 
Naquela noite, Sebastian a esperava em frente à loja. 
— Estou esperando meu pai — disse, friamente. 
— É que me ofereci para pegar você e ele aceitou. 
— Então... vamos embora. 
No caminho, não perguntou pela viagem a Auckland. Na verdade, falou muito 
pouco. Ao chegar em casa, sentiu-se obrigada a dizer: 
— Com certeza, papai gostaria de ver você. Entre, por favor. 
— Obrigado. Realmente ele quer falar comigo. 
Roxanne  percebeu  que  ele  estava  irritado  com  a  frieza  com  que  o  tratava. 
Sentiu-se vingada. Mas... de quê? 
Owen Challis foi mais efusivo do que de costume, Bettina fez café e serviu com 
bombinhas  recheadas  de  ricota  e  enfeitadas  com  tomates  e  picles  de  pepino. 
Para  completar,  fatias  de  bolo  de  chocolate  com  creme.  Roxanne  quase 
derrubou  o  café,  quando  Blair  mencionou  que  havia  voltado  de  Auckland 
naquele dia mesmo. 
Quando foi levá-lo até a porta, ele perguntou cerimoniosamente: 
— Por que a surpresa ao saber que voltei hoje? E por que está me botando no 
gelo? Gostaria que me dissesse. 
Sua voz era baixa, quente... e ela o odiava. Só isso. 
—  Não  faço  idéia  do  que  você  está  falando.  Sebastian  segurou-a  pelos  pulsos, 
com força. 
—  Eu  sei.  Está  com  raiva  pelo  que  aconteceu  na  semana  passada,  não  é?  E 
espera  que  eu  me  desculpe.  Não  posso  dizer  que  me  arrependo.  Adorei.  — 
Depois de uma pequena pausa: — E você também gostou. Só me arrependo do 
que não fiz. Do que não fizemos.  
Roxanne puxou as mãos, furiosa. 
— E logo, logo achou companhia mais simpática, mais oferecida, mais... mais... 

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Todo  mundo  sabe  que  foi  para  Auckland  com  Delia.  Não  esperava  que  fosse 
um segredo de Estado, esperava? 
—  Então,  é  isso?  —  A  expressão  dele  era  séria.  —  Ahn,  então  a  cidade  inteira 
chegou à conclusão de que uma carona e um caso de amor são a mesma coisa. 
De repente, ele viu o ridículo da situação e o riso aflorou, solto. 
— Roxanne, Roxanne, você me surpreende... 
Ela até o perdoaria, se confessasse. Mas mentir assim era demais. E com aquela 
cara de santo, de sonso... 
—  Não  adianta  esconder.  Delia  pôs  a  boca  no  mundo,  com  descrições 
completas. Passou o fim de semana no seu apartamento... 
— Não passou, não senhora. 
E Sebastian começou a rir de verdade, divertido com a confusão. 
— Meu Deus! Alguém deveria ter me avisado de quem é Delia. Nunca vi nada 
parecido.  Encontrei  com ela na sexta-feira e mencionou, de passagem que ia  a 
Auckland visitar a tia no fim de semana. Ofereci uma carona na frente de todo 
mundo, à luz do dia... A tia mora em Auckland do Sul; meu apartamento é em 
Parnell, e eu linha uns papéis a entregar em Epsom. Parei no meu apartamento. 
Não podia deixar a moça esperando no carro, ou podia? Ela ficou espiando da 
porta, em pé! 
De  repente  Roxanne  teve  pena  de  Delia,  de  sua  necessidade  de  afirmação,  de 
carinho. 
— Ah! Então, foi só isso? 
—  É  bom  acreditar  em  mim.  E  como  castigo  por  ter  uma  cabeça  tão  cheia  de 
minhocas,  você  vai,  amanhã,  me  ajudar  a  dar  uma  reunião  na  casa  nova. 
Aperitivos e um banho de mar. Depois do almoço, está bem? 
Roxanne  ficou  procurando  uns  restos  de  raiva  e  ressentimento.  Era  difícil.  Só 
havia um grande alívio porque Delia e Sebastian não tinham passado o fim de 
semana juntos. 
 
 
 

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CAPÍTULO IV 
 
Quando  Roxanne  entrou  em  casa,  o  pai  estava  andando  de  lá  para  cá,  no 
vestíbulo.  Ela  lhe  deu  um  beijo  estalado  na  bochecha  e,  carinhosamente, 
perguntou: 
— Como vão as coisas? Conte pra mim. 
—  Não  se  preocupe,  querida.  Mas  vão  mal.  Não  faço  idéia  de  quanto  tempo 
ainda  agüentaremos  nossas  cabeças  fora  d’água.  Preciso  saber  com  certeza 
quais são as intenções de Sebastian. E enquanto isso... 
— Enquanto isso, é melhor que andemos no mesmo passo que ele, não é? 
O velho suspirou. 
—  Ajudaria  muito.  Queria  uma  decisão,  mas  não  posso  colocá-lo  contra  a 
parede.  Se  ele  descobrir  a  fragilidade  da  minha  posição,  terá  uma  vantagem 
enorme. Especialmente no fim, se acabar se recusando a fazer a fusão. 
— Acha que ele seria capaz disso? 
Owen sorriu, amargo. 
—  Filha,  Sebastian  Blair  é,  simplesmente,  um  dos  negociantes  mais  astutos  de 
todo o país e... 
— Ora, é uma surpresa. Ele me disse que conseguiu o emprego porque a firma 
era da família! 
—  Verdade.  Mas  quem  colocaria  um  incompetente  na  direção?  É  só  dar  uma 
olhada  no  balanço  do  último  ano  e  ver  do  que  é  capaz.  Parece  um  rapaz 
bonzinho, mas é duro como aço. 
Rapaz bonzinho não seria bem a descrição que ela faria de Sebastian Blair. Não, 
de  jeito  nenhum.  Era  uma  personalidade  muito  forte,  para  um  adjetivo  tão 
fraco. Deixe pra lá. E murmurou: 
— É, posso imaginá-lo sendo desumano e cruel. Talvez... Rhonda apareceu na 
sala, de ouvido em pé. 
— Oi, o que é que vocês estão cochichando aí? 
— Menina, não é hora de estar na cama? — disse Roxanne. Rhonda lançou-lhe o 
olhar mais furioso de seu repertório, e a irmã comentou, rindo: 

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—  Desculpe.  Sempre  me  esqueço  de  que  você  já  saiu  da  escola  e  virou  uma 
mocinha. Mas, com esse cabelo de Maria Chiquinha, parece que tem no máximo 
doze anos. 
—  É  que,  quando  passo  a  loção  de  sardas,  tenho  que  prender  os  cabelos  para 
não ficarem todos gosmentos. 
—  Para  meu  gosto  —  disse  o  pai  —,  Doris  Day  é  uma  das  mulheres  mais 
bonitas que conheço. 
Rhonda não disse nada, mas, ao ver a cara dela, Roxanne caiu na risada. 
— Já vi que dei um fora outra vez. 
O velho fez uma careta e saiu para procurar a mulher. 
— Doris Day, pelo amor de Deus! — murmurou Rhonda, no auge do desgosto. 
— Ela é muito atraente. — Ao ver o olhar de "eu te mato" da irmã, corrigiu: — 
Melhor do que King Kong, afinal. 
— King Kong? — Rolou os olhos e começou a rir. — Você é uma tonta mesmo, 
Roxanne. 
Foram dormir, ainda brincando. Mas, depois de apagarem a luz, a preocupação 
começou  a  atormentar  Roxanne  de  novo.  Era  difícil  conservar  um  homem  a 
distância,  sem  rejeitá-lo  de  uma  vez.  Por  outro  lado,  ele  aceitara  a recusa  dela 
sem grandes protestos e voltara como amigo... 
Quando Sebastian veio buscá-la no dia seguinte, ela o avisou de que iria voltar 
cedo, pois tinha combinado sair com Mark. Depois de uns minutos de silêncio, 
Sebastian disse: 
— Não quero você saindo com esse rapaz. 
— Como é? Eu, recebendo ordens suas? Desde quando? 
— Não é uma ordem. Simplesmente uma constatação. Não, e pronto. 
Ficou calada, sem saber o que pensar. Ciúme? Seria sinal de que gostava dela. 
Mas não dava grandes mostras disso. Será que gostava mesmo? 
Pelo menos naquela tarde, não aparentou grandes paixões. Na casa dele, levou-
a até a cozinha onde ela o ajudou a fazer os sanduíches, preparou patês para as 
bolachas  salgadas  e  batatas  fritas.  Achou  duas  bisnagas  de  pão  francês, 
preparou manteiga de alho, besuntou-as por dentro e por fora, embrulhou em 

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alumínio e pôs no forno. 
Os doze convidados foram chegando lá pelas três e meia e já se encaminharam 
para  a  praia.  Nadaram  por  mais  ou  menos  uma  hora  e  voltaram  para  os 
aperitivos  e  sanduíches.  Roxanne  conhecia  todo  mundo  e,  enquanto  servia  a 
comida,  sentia  que  a  olhavam  com  curiosidade,  querendo  saber  a  quantas 
andava o relacionamento dela com Blair. 
Max Ansell, sempre maldoso, piscou e perguntou: 
— Onde está a bela Delia? 
—  Nem  imagino  —  respondeu  Roxanne,  sem  se  abalar.  —  Por  que  não 
pergunta a Sebastian? 
—  Acha  que  devo?  —  Ergueu  as  sobrancelhas  em  interrogação  e  foi  puxar  a 
manga do outro. 
Começaram  a  conversar,  mas  não  era  possível  escutar  o  que  diziam,  pois 
estavam de costas, admirando a vista. Será que Max teria coragem de perguntar 
sobre o tal fim de semana? 
Roxanne foi se aproximando dos dois e pediu a Max para lhe dar uma carona, 
na volta. 
— Eu vou levar você — disse Sebastian. 
— Não precisa. Max vai para aqueles lados e... 
—  Não  há  problema  mesmo  —  confirmou  o  outro.  Blair  olhou-o  e,  firme  mas 
cordialmente, agradeceu: 
— Obrigado, mas eu vou levá-la. 
Max afastou-se com ar de "bem que eu estava desconfiado" e foi conversar com 
outro grupo. 
— Sebastian, não há mesmo necessidade. Vai deixar as visitas e eu... 
— Eu trouxe você. A responsabilidade é minha. E não se preocupe. Vai estar em 
casa às sete para o passeio com Mark. 
Passou  o  braço  pela  cintura  dela  e  começou  a  andar  de  grupo  em  grupo.  As 
pessoas olhavam, curiosas, e a moça sussurrou, entredentes: 
— Pare com isso, o que é que vão pensar? 

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Uma  centelha  de  irritação  brilhou  no  olhar  dele,  mas  largou-a,  apesar  da  cara 
feia. 
Quando  todos  tinham  ido,  Roxanne  começou  a  limpar  os  cinzeiros  e  lavar  os 
copos. Ele entrou na cozinha, depois de se despedir dos últimos convidados. 
— Deixe tudo isso e vamos à praia. Cinco minutinhos, só. — Tirou o cinzeiro da 
mão dela e o pôs em cima da mesa mais perto. 
— É melhor eu ir para casa. 
—  Temos  muito  tempo.  Você  não  vai  chegar  atrasada,  prometo.  Ela  fez  a 
pergunta que estava na ponta da língua: 
— Max perguntou por Delia? 
— Conversamos sobre ela. Por quê? 
— Ele disse que ia perguntar e eu achei que talvez estivesse só me provocando. 
— Com o nome de Delia? Pensou que você ficaria com ciúme? 
— Não sei. Você passou o dia fazendo o possível para que pensassem que sou 
propriedade sua, não passou? 
— Ótimo que tenha notado. Mas se, por isso, você ficou exposta às brincadeiras 
de Max, peço desculpas. 
Aproximou-se  dela,  mas  Roxanne  nem  percebeu,  distraída  que  estava  com  a 
brisa refrescante que agitava as folhas de manuka e de ponga. Sebastian disse: 
— Não contei nada sobre Delia a Max. Quer que conte? 
— Não tenho nada com isso. Não é da minha conta. 
—  É  da  sua  conta.  Quer  saber  por  que  me  comportei  como  seu  dono,  o  dia 
inteiro? 
Ela o olhou friamente. 
— Não aceita competição, não é? A cidade é pequena, Mark ficaria sabendo que 
fui anfitriã em sua casa... 
— Isto é só uma pequena parte do motivo real. Você leva Mark a sério? 
—  Tanto  quanto  levo  você  —  respondeu,  rápido.  Alguma  coisa  brilhou  nos 
olhos dele, por segundos. 
— Já o beijou como me beijou na praia? 

Daphne Clair – Por um corpo de mulher 
(Sabrina 196) 
Projeto Revisoras 
 
 
33 
— Isso não é da sua conta. Você não tem nada, nada a ver com a minha vida. — 
E apertou os lábios com raiva. 
— Mas eu quero que seja da minha conta. Quero saber da sua vida.  
Puxou-a  para  si,  abraçou-a  e  procurou  sua  boca,  num  beijo  apaixonado.  Ela 
ficou surpresa e depois excitada com o calor do seu corpo musculoso. Esforçou-
se fracamente para se desvencilhar, mas ele não a deixava mesmo; talvez, nem 
percebesse. Sentiu que não sossegaria, enquanto ela não retribuísse aquele beijo. 
Abriu  um  pouco  os  lábios  e  ele  agradeceu,  com  a  força  de  sua  boca  úmida  e 
ávida. 
— Quero que se case comigo, Roxanne. Aceita? 
Ela  engoliu  em  seco.  O  que  dizer?  Agora  estava  perdida  de  vez.  Não  posso, 
pensou,  tonta.  As  preocupações  do  pai  apareceram  na  sua  frente.  Era  um 
momento de crise, e ela tinha que reconhecer. Um dos piores. Outro beijo para 
ajudar a resolver, dizia ele, e outro e outro. 
— Pare! — Quase sufocou. 
— Por quê? Você nunca recusou antes... 
— E nem você me pediu em casamento antes! 
— Isso é verdade. Nem a você nem a nenhuma outra mulher. 
Sinais  cruzavam  a  cabeça  dela  como  néon.  Não  podia  dizer  que  não, 
atrapalharia  a  fusão  com  a  firma  do  pai.  O  danado  daquele  homem  tinha  o 
poder de arruinar a vida de sua família! 
—  É  que...  é  que  eu  não  esperava  uma  coisa  dessas.  Não  posso  pensar  um 
pouco? 
— Enquanto namora Mark? Não. 
— Eu jamais faria isso. Você não tem o direito de fazer essa insinuação maldosa. 
— É Mark que você quer? 
— Não! 
— Ei, não fique tão furiosa! Só me ocorreu que poderia estar me usando, para 
fazer ciúme a ele. 
 — E claro que não estava. Ele relaxou um pouco. 

Daphne Clair – Por um corpo de mulher 
(Sabrina 196) 
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