Área 5 Taxas de juros nominais negativas: Teoria, implementação e impactos. Felipe Da Roz e Guilherme Mello1 Resumo



Baixar 297.35 Kb.
Página1/2
Encontro03.11.2017
Tamanho297.35 Kb.
  1   2
ÁREA 5 - Taxas de juros nominais negativas: Teoria, implementação e impactos.

Felipe Da Roz e Guilherme Mello1

Resumo

Com a disseminação das políticas monetárias não convencionais como tentativa de superação da crise econômica, a política econômica de taxa de juros nominais negativas aparece como seu último expoente. Este artigo pretende ilustrar as concepções teóricas e práticas acerca deste fenômeno, apresentando as bases teóricas desta política monetária, passando pela diferenciação do conceito de armadilha de liquidez, zero lower bound e as diferentes propostas para superação destas situações a partir de diferentes correntes teóricas. Em seguida são expostos os detalhes da operacionalização desta política monetária entre os diferentes países que a adotaram, sua disseminação e alguns de seus impactos. Conclui-se que, apesar de alguns efeitos no mercado de crédito, a expectativa de que a adoção das taxas negativas de juros solucionaria os dilemas da deflação e do baixo crescimento ainda não se comprovou verdadeira.



Abstract

With the spread of unconventional monetary policies as an attempt to overcome the economic crisis, the negative nominal interest rate economic policy appears as its last exponent. This article intends to illustrate the theoretical and practical conceptions about this phenomenon, presenting the theoretical bases of this monetary policy, through the differentiation of the concept of liquidity trap, zero lower bound and the different proposals to overcome these situations from different theoretical backgrounds. Following there are details of the operationalization of this monetary policy in Japan and Europe, its dissemination and some of its impacts. We conclude that, despite some effects on the credit market, the expectation that the adoption of negative interest rates would solve the dilemmas of deflation and low growth has not yet proven true.

Palavras chave: Taxas de juros negativas; Zero lower bound; Armadilha da liquidez; Políticas monetárias não convencionais.

Key words: Negative interest rates; Zero lower bound; Liquidity trap; Unconventional monetary policies.

Introdução

A eclosão da crise de 2008 teria sido um turning point acerca de políticas econômicas com intuito de evitar espirais deflacionárias e reativar o crescimento econômico. A política “convencional”, defendida pelo mainstream econômico, consistia em ajustes nas taxas de juros nominal de curto prazo como forma de combater perspectivas inflacionárias/deflacionárias. No entanto, como a taxa de juros norte-americana já se encontrava em patamares historicamente baixos, as chamadas unconventional monetary policy (políticas monetárias não-convencionais) vieram à tona. Dentre as propostas, teria ganhado força a defesa de Bernanke (2004) do chamado Quantitative Easing (QE). Após diversas mutações a respeito da forma de implementação desta medida (título públicos, títulos privados, operações twist, etc), outras políticas monetárias não-convencionais seguiram ganhando forças, até que as monetary wizandry2 teriam desembocado na adoção das taxas de juros nominais negativas – sendo que o primeiro país a implementar tal política teria sido a Dinamarca, em 2012.

Diante desta inovação histórica, muitos economistas esperavam a reversão dos efeitos deflacionários e recessivos observados em boa parte das economias desenvolvidas, acreditando que a expansão do crédito e da demanda agregada ocorreria em decorrência da adoção das taxas negativas. Baseados em uma versão moderna do conceito de armadilha da liquidez, acreditava-se que o limite zero da taxa de juros era a rigidez central que impediria que a política monetária fosse capaz de debelar as tendências deflacionárias. Apesar de ser possível vislumbrar tímidos sinais de recuperação do crédito, não necessariamente ligados a adoção das taxas negativas, o regime de baixo crescimento e baixa inflação prossegue em boa parte dos países que adotaram tais políticas, levantando dúvidas sobre sua eficácia.

Para discutir a adoção das taxas de juros nominais negativas, a teoria que a sustenta, sua operacionalização e seus impactos, esse artigo se divide em duas seções, além da introdução e da conclusão: A primeira visa abordar a evolução teórica do debate, desde o surgimento do conceito de armadilha da liquidez com Keynes, passando pelo conceito apresentado por Hicks e desembocando na versão de Krugman, que deu origem a teoria do Zero Lower Bound Economics. Além da análise teórica, a primeira seção discute as alternativas propostas pelas diversas correntes para superar os problemas da armadilha da liquidez, dentre as quais se destaca a adoção das taxas negativas de juros. A segunda seção busca analisar a implementação das taxas de juros nominais negativas, sua operacionalização e os efeitos observados até o momento, incluindo o impacto nos mercados de títulos, no mercado monetário e em alguns mercados de ativos, como o mercado imobiliário.



1 - O debate teórico.

O debate econômico sobre situações onde a política monetária se encontra limitada, com as taxas nominais de juros próximas a zero e incapazes de estimular a atividade econômica, não é propriamente novo. Keynes, no seu Treatise on Money, já abordava teoricamente a hipótese que posteriormente ficou conhecida como “Armadilha da liquidez” (AL). Acoplada na teorização conhecida como IS-LM, desenvolvida por Hicks, vários aspectos centrais da construção de Keynes são deixados de lado. Ainda assim, desenvolveu-se certamente a versão mais difundida do conceito de AL até o presente momento.

Apesar de teoricamente possível, a hipótese da AL não se concretizou até pelo menos a década de 1990, quando a crise japonesa levou as taxas de juros próximas a zero, sem gerar impactos no nível de preços e na atividade econômica. Diante deste cenário, Krugman (1998) apresenta sua própria leitura sobre o cenário japonês, sugerindo um conceito de AL mais próximo da literatura neokeynesiana, fundada no debate acerca da credibilidade da autoridade monetária. Este texto dá origem ao que ficou conhecido como “Zero Lower Bound Economics” (ZLB), a ideia de que existe um limite inferior da taxa de juros nominais que impediria a saída de uma situação de AL. A promessa era que, uma vez contornada a limitação imposta pela necessidade de taxas nominais positivas de juros seria possível alcançar a taxa natural de juros negativa, escapando da AL e restaurando o equilíbrio.

O debate teórico é alçado a um novo patamar quando alguns Bancos Centrais ao redor do mundo passam a adotar taxas nominais negativas de juros sobre as reservas bancárias, eliminando parcialmente as barreiras encontradas pelos autores que discutiam a hipótese de ZLB. A partir deste momento, se inicia uma nova discussão acerca dos impactos da política de “Negative Nominal Interest Rates” (NNIR), que apesar de ainda se encontrar em seus primórdios, já aponta para novos obstáculos para a utilização da política monetária como forma de promover a recuperação econômica em cenários de AL.

Visando reconstruir o debate acima descrito, essa seção se divide em duas partes. Na primeira, desenvolve-se o conceito de AL, tanto na versão de Keynes quanto na desenvolvida por Hicks, ilustrando seu embasamento teórico e as propostas para sua superação, até chegarmos na versão de Krugman, que avança para a discussão da ZLB Economics, colocando o limite inferior positivo da taxa de juros como uma “rigidez” que, caso corrigida, retiraria as economias do cenário de AL. Na segunda seção, discute-se as hipóteses sugeridas e adotadas para contornar os cenários de AL e ZLB até se alcançar a NNIR, fazendo-se uma comparação das propostas existentes desde Keynes e Gessel até as estratégias utilizadas pelos bancos centrais na crise recente.

1.1 – A armadilha da liquidez: Keynes, Hicks e Krugman

Ainda que ao incorporar no mainstream o conceito de AL, Hicks (1937) considere que tenha se baseado na teoria da preferência pela liquidez, sua concepção quanto a esta construção teórica seria radicalmente diferente daquela proposta por Keynes (1936). Portanto, tanto esta percepção distorcida da preferência pela liquidez quanto a incorporação equivocada do que seria a eficiência marginal do capital contribuem para que o conceito original da AL seja mal compreendido no debate acadêmico dominante até os dias atuais.

Entre a passagem do Treatise on Money para a Teoria Geral, Keynes teria amadurecido estes dois conceitos fundamentais que revolucionariam a teoria monetária. Conjuntamente, a preferência pela liquidez e a eficiência marginal do capital constituem a base da drástica mudança de perspectiva de Keynes quanto às expectativas em relação ao futuro para tomada de decisão no presente. Essa concepção seria central por dois motivos: a preferência pela liquidez estaria associada à incerteza em relação ao futuro – caso os agentes estejam em um baixo estado de confiança quanto ao futuro, acalmariam suas inquietações ao migrar de ativos menos para mais líquidos. Por outro lado, a eficiência marginal do capital, aspecto central para determinação do investimento, estaria centrada na concepção de expectativas de demanda futuro descontadas pela taxa de capitalização. Dessa forma, além da decisão de investimento ser influenciada diretamente pela prospecção de demanda, englobaria também o grau de incerteza cristalizado pela taxa de capitalização, circundada pela preferência pela liquidez.

Ao reconstruir sua teoria acerca da taxa de juros na Teoria Geral, Keynes propõe que esta se caracteriza por ser o prêmio por abrir mão da liquidez. Suas ideias são explicitadas no capítulo 17, quando apresenta o funcionamento de uma economia monetária da produção centrado na escolha de portfólio por parte dos agentes. Os ativos são caracterizados por quatro atributos: quase-renda; variação de preço; custo de carregamento; liquidez. Por exemplo, um bem de capital possuiria o atributo quase renda em destaque; enquanto uma commoditie poderia ter como característica principal sua variação de preço. A moeda teria papel especial por cristalizar o atributo liquidez, referencial para todos os outros ativos. Dessa forma, qualquer alocação de portfólio teria estas características em vista.

Ao considerar que vivemos sob incerteza radical, um grau de confiança deteriorado quanto ao futuro faria com que o atributo liquidez adquirisse papel de destaque em detrimento dos outros atributos dos ativos. Tais considerações são centrais para a conceituação da armadilha de liquidez proposta por Keynes. Segundo ele, uma economia se encontraria nesta situação quando:

“ (...) tão logo a taxa de juros tenha baixado a certo nível, a preferência pela liquidez se torne virtualmente absoluta, no sentido de que todos prefiram manter recursos líquidos a conservar uma dívida que rende uma taxa de juros tão baixa” (Keynes, 1983, p. 146)

É importante destacar que Keynes é enfático ao afirmar que a questão chave para tal situação não é tanto o nível em si da taxa de juros, mas “o seu grau de divergência quanto ao que se considera um nível razoavelmente seguro” (p.143). Esse grau de divergência aumentaria a demanda por moeda através de duas frentes. Em primeiro lugar, se a taxa de juros fosse reduzida, mas aquela considerada “segura” não segue o mesmo rumo, a percepção de risco de iliquidez aumentaria, elevando a demanda por moeda e reduzindo a procura por títulos. Em segundo lugar, Keynes aponta que quanto mais baixa a taxa de juros, menor o prêmio de seguro para compensar o risco de perda de capital, apontado como “a diferença entre os quadrados da taxa antiga de juros e da nova” (p. 143). Essa questão, conhecida na literatura financeira como a “duration”3 de um título, é decisiva para compreender o conceito de AL em Keynes, pois aponta para a centralidade da precificação dos estoques de riqueza como causa do cenário de AL.

O cálculo do duration modificado, que compreende a regra do quadrado da taxa de juros citada por Keynes, explicita a relação inversa entre o capital já investido e o cupom de retorno. Paralelamente a um maior rendimento do cupom, o aumento da taxa de juros promove uma desvalorização no preço do título. Em cenários de taxas de juros baixas (não necessariamente próximas de zero), a perspectiva de perda patrimonial decorrente de pequenos aumentos nos juros para o portador de um título pré-fixado faz com que a possibilidade de recuperação dos prejuízos se estenda por vários anos, mesmo com o reinvestimento das receitas de juros. Isso representa um aumento do duration do título, que provoca a manutenção da riqueza na forma de moeda.

Considerando que o conceito de preferência pela liquidez seria relativo (Kregel, 2000), a AL dependeria das expectativas quanto ao preço dos títulos no futuro, fundada na volatilidade recente da taxa de juros. Em cenários de taxas de juros baixas a perspectiva de perda patrimonial decorrente de pequenos aumentos nos juros para o portador de um título pré-fixado faz com que a possibilidade de recuperação dos prejuízos se estenda por vários anos, mesmo com o reinvestimento das receitas de juros. Vale destacar que por mais que esta situação seja mais propensa a ocorrer em baixas taxas de juros, nada impede que uma AL se instale a taxas mais elevadas. Esta concepção é ressaltada por Kregel:

“Thus, the lower the rate of interest, the higher the bond's duration and the longer it takes to recover the fall in capital values from the increased reinvestment earnings (…) However, it should be clear that this does not rule out the existence of a liquidity trap at higher rates” (Kregel, 1998, p.130)

Dessa forma, ainda que a AL seja muito mais factível quando a taxa de juros se aproxima de zero devido aos riscos mais elevados quanto à perda de capital, nada impede que ela ocorra a taxas altas. Tanto a relatividade da discrepância em relação à taxa considerada “segura” quanto a volatilidade recente da taxa de juros influenciam o grau de preferência pela liquidez em qualquer nível de taxa de juros.

O primeiro a incorporar o conceito de AL no mainstream teria sido Hicks (1937), em meio ao arcabouço teórico do IS-LM (Akram, 2016). Sua concepção de AL considerava que quando a taxa de juros se tornasse nula (próxima a zero), moeda e títulos se tornariam substitutos perfeitos, de modo que o instrumento de open market como meio de influenciar a taxa de juros da economia perderia sua funcionalidade. A incapacidade do BC influenciar as taxas de juros de mercado anularia os efeitos esperados para retirar a economia da recessão. Em outras palavras, a AL se daria quando a curva LM fosse horizontal, estando, portanto, ligada a um patamar específico da taxa de juros nominal.

Na realidade, Hicks se afasta de Keynes não apenas na definição de AL, mas na própria visão de preferência pela liquidez e seus impactos nas taxas de juros. Enquanto Keynes acreditava que a determinação da taxa de juros derivava de considerações acerca do futuro incerto, Hicks retoma a teoria dos fundos emprestáveis para explicar as taxas curtas de juros, definindo as taxas longas como as taxas curtas esperadas acrescidas de um prêmio de risco (Boianovsky, 2004). Neste sentido, a AL não é um fenômeno possível em diversos níveis de taxa de juros, mas apenas quando as taxas se encontram próximas de zero, ou seja, quando a possibilidade de redução da taxa nominal não existe e a substituição de moeda por títulos é perfeita.

Ainda que o conceito tenha sido reconhecido ainda nos anos 1930, economistas do mainstream o tratavam como um caso teórico e ultrapassado, cuja recorrência seria improvável4. No entanto, após a eclosão da crise no Japão ao final dos anos 90 em meio ao risco deflacionário o debate acerca da AL ganha força dentro desta corrente, cujo texto inicial partiria de Krugman et al (1998). Em um primeiro momento, a conceituação da AL é aparentemente idêntica à proposta por Hicks (1937)5. No entanto, Krugman dá papel de destaque à taxa natural de juros, o que acaba modificando tanto sua construção teórica como as propostas de superação da AL.

Em uma situação em que a poupança (oferta de capital) seja superior ao investimento (demanda de capital), o produto potencial (considerado dado) é menor do que o produto no presente. Em outras palavras, a taxa natural de juros é negativa; enquanto a PM é inócua - títulos e moedas substitutos perfeitos no ZLB. Krugman não trata com profundidade as causas para que levariam a taxa natural à negatividade, afirmando apenas que esta situação ocorreria se o nível de preços atual fosse considerado muito alto em relação ao nível de preços de longo prazo (dado pelo produto potencial). Dessa forma, como a taxa nominal não poderia ser negativa (ZLB), o BC precisaria encontrar outras maneiras para que a taxa real de juros fosse negativa; ou seja, indução de expectativas inflacionárias6 (). Por este motivo, grande parte das questões em torno da AL acabam se voltando para credibilidade do BC quando à sua PM:

“Whatever the specifics of the situation, a liquidity trap is always the product of a credibility problem: the public believes that current monetary expansion will not be sustained. Structural factors can explain why an economy needs expected inflation; they can never imply that credibly sustained monetary expansion is ineffective” (Krugman et al, 1998, p.166)

Dito de outra maneira, em meio a questões estruturais que determinam o produto e nível de preços de longo prazo, quando espera-se uma renda menor no futuro há um excesso de poupança devido à rigidez imposta pelo ZLB7. De maneira geral, textos subsequentes do NCM que abordam a AL por meio do ZLB seguem a teorização de Krugman (Krugman, 2000; Svensson, 2003, 2006; Buiter e Panigirtzoglou, 1999). Portanto, a questão das expectativas e da credibilidade do BC permeiam praticamente todas propostas de superação da AL8. Por este motivo, tanto Kregel (2014) como Palley (2016) afirmam que este aparato teórico poderia ser caracterizado como ZLB economics, e não a teoria de AL proposta por Keynes.

1.2 - Alternativas para escapar da AL e da ZLB.

1.2.1 - A abordagem de Keynes e dos pós-keynesianos.

A partir das diferentes concepções acerca da preferência pela liquidez e o desenvolvimento da armadilha de liquidez nas suas concepções originais, as propostas estritamente monetárias - taxa de juros nula e operações de open market de compra de ativos de longo prazo - por parte do Treatise on Money seriam completamente revistas por Keynes. Explicitamente sobre os programas de QE, Kregel destaca que:



Keynes would have gone about the implementation of QE in a much different way. Instead of announcing a given amount of purchases of particular securities and a target for the size of the central bank’s balance sheet, he would have set the bid and ask rate and let the market decide the amounts it wanted to transact. (Kregel, 2014, p.4)

Portanto, a política monetária é considerada um mecanismo importante para superação da armadilha de liquidez. As medidas propostas por Keynes seriam, no entanto, “multifacetadas”, requerendo ações por parte dos bancos centrais não apenas com intuito de manter taxas de juros de curto prazo em baixos níveis, mas também influenciar toda a curva de juros. Os bancos centrais teriam que adotar medidas além da redução da taxa de juros, fazendo esforços para reduzir a volatilidade das taxas e parametrizar sua direção, reduzindo a incerteza (Akraam, 2016). Portanto, “targeting the yield curve and reducing interest rate volatility is a prerequisite for overcoming a liquidity trap” (Akraam, 2016, p.29). No pós crise de 2008, oficialmente o FED anunciava os programas QE da forma defendida pelo mainstream¸ determinando previamente um montante para compra de ativos. Na prática, no entanto, este montante era ajustado tendo em vista a curva de juros de longo prazo. Mais recentemente, o Japão anunciou uma política com foco direto sobre a curva de juros.9

Explicitamente sobre as taxas de juros nominais negativas, com exceção de artigo recente de Palley (2016), Keynes e os pós keynesianos discutem muito pouco sobre a possibilidade real de sua implementação. Kregel apresenta marginalmente esta hipótese, tendo em vista a percepção de Keynes acerca das propostas de Silvio Gessel:

Keynes’s understanding of liquidity preference provides an alternative explanation of the role of negative interest rates and of his fascination with measures such as Silvio Gesell’s stamped money. (…) In Keynes’s approach, all that would be required to offset the impact of the liquidity trap would be to set the negative interest rate at a value such that it was greater than the loss in capital value associated with holding securities, for then money would provide no protection against capital loss due to the expected rise in rates. (Kregel, 2014, p.4)

Portanto, a adoção de taxas de juros nominal negativa buscaria evitar que os investidores se refugiassem na moeda com intuito de evitar correr riscos de perdas de capital. Ainda assim, mesmo que as políticas monetárias sejam um pré-requisito para superação da armadilha de liquidez, Keynes é enfático ao afirmar que tais medidas não são suficientes. Afinal, conquanto o intuito primário seria estimular o investimento, nada garantiria que a liquidez fluiria para ativos reais:



Keynes is skeptical that low interest rates by themselves would induce investment, particularly amid heighted uncertainty, where the investors’ expectations of future demand have been diminished. He believes that investors may prefer to stay liquid and hold cash and cash equivalents. (Akraam, 2016, p.29)

Dentre os pós-keynesianos, Palley (2016) analisa possíveis impactos das propostas de adoção de taxas de juros negativas no contexto recente, adotando uma postura ainda mais crítica que a de Keynes. Segundo ele, essa política seria fundamentada pelo ZLB economics. Palley destaca que a base do ZLB economics estaria contra conceitos básicos de Keynes: teoria da preferência pela liquidez; demanda efetiva; conexão indireta entre poupança e investimento e taxa de juros.

Após considerações acerca da teoria por trás das atuais NNIR, Palley argumenta que ao contrário do proposto, as taxas de juros negativas seriam limitantes para o investimento. Ao invés de basear seu financiamento em recursos próprios (equity), os investidores passariam a tomar recursos em buybacks de ações, incorrendo em um aumento da alavancagem de seus balanços. Além disso, em detrimento da alocação de recursos para investimentos produtivos, a tendência seria aprofundar processos de fusões e aquisições, inflando preços acionários. Em relação ao consumo, o impacto seria ambíguo: há um incentivo para poupar menos e consumir no presente, mas também deterioraria perspectiva de renda futura, o que poderia aumentar a propensão a poupar para compensar possíveis perdas. Outra ambiguidade residira no efeito riqueza: ao ser entendido como um “imposto sobre depósitos”, trariam um “efeito riqueza negativo”. No entanto, este também pode ser compensado por um efeito riqueza positivo: a redução das taxas aumentaria o preço dos ativos.

Mais que efeitos duvidosos sobre investimento e consumo, seus impactos financeiros seriam ainda mais adversos. Palley destaca três principais impactos: rompimento do crédito bancário (dificuldade dos bancos em manter sua lucratividade via crédito); fragilidade financeira e instabilidade (estímulo a recompra acionária e busca de ganhos de capital); desintermediação financeira (incentivo à busca de outros ativos para alocação de riqueza que não a moeda propriamente dita). Em um horizonte mais longo, mesmo que a política de taxa de juros negativas obtivesse sucesso, sua base residira no modelo de crescimento que teria culminado na crise de 2008: endividamento e inflação de ativos. Dessa forma, a reversão das políticas de taxas negativas necessariamente levaria ao estouro de bolhas em diversos mercados.

Em suma, Keynes e seus seguidores consideram que as políticas monetárias seriam indispensáveis para superação de uma situação de AL. No entanto, além de suas propostas diferirem daquelas apontadas pelo mainstream (em particular em relação ao espectro de maturidade dos ativos que deveria ser afetado pela política monetária), as políticas fiscais seriam indispensáveis para gerar demanda autônoma e, consequentemente, amenizar o grau de incerteza ao promover um horizonte de crescimento para o setor empresarial. Em outras palavras, políticas puramente monetárias não seriam suficientes para reverter a “confiança dos agentes” e por si só retomar o crescimento. Em relação às taxas de juros negativas, Keynes teria sido bastante cético quanto à questão do stamp scrip (imposto sobre o dinheiro), sendo que “não seria viável na forma em que ele [Gesell] propõe” (Keynes, 1983). Ainda assim, esta política monetária é pouco discutida por Keynes e demanda maior aprofundamento da corrente pós-keynesiana. Ainda que Keynes considere que uma taxa negativa seria um meio de superar a AL, a operacionalização aparentemente não estaria clara, tampouco seus efeitos sobre o setor financeiro, sendo a política fiscal um aliado decisivo no sucesso da tarefa.

1.2.2 - Perspectiva do Mainstream: Estímulos às expectativas inflacionárias

Dentre às propostas de superação da chamada AL em meio ao ZLB, o mainstream enfatizou que a autoridade monetária deveria voltar seus esforços para influenciar a taxa de juros real. Segundo essa perspectiva, a taxa de juros real seria a diferença entre os juros nominais (período t) e as expectativas de inflação (do período t+1). Quando estas expectativas aumentassem, as taxas de juros reais se reduziriam.

Dessa forma, nesse aparato teórico, pouco se discute sobre possibilidades de alocação de riqueza em meio a este cenário. Portanto, a questão das expectativas assumiria um papel central, sendo que a credibilidade do BC ao propor suas medidas seria essencial para o sucesso/insucesso de suas medidas. Dentre as medidas propostas, podemos destacar:


  • Meta de inflação: desde as primeiras propostas, no início dos anos 90, um overshooting inflacionário era visto como essencial para que o BC demonstrasse suas intenções. No entanto, seu simples anúncio não seria o suficiente por si só, pois em meio ao arcabouço de expectativas racionais/adaptativas os agentes antecipariam sua reversão.

  • Expansão da base monetária: ainda que tenha ocorrido muita controvérsia sobre sua eficiência, tem sido o principal mecanismo adotado no período recente. Baseado nas propostas de Bernanke e Reinhart (2004), tem o intuito de: i) afetar expectativas dos agentes; ii) induzir investidores a migrarem para ativos não financeiros, aumentando seus preços e reduzindo os yields de ativos de longo prazo (induzindo investimento)10; iii) efeito fiscal indireto expansionista11. Essa medida poderia ou não ser acompanhada da reestruturação do balanço do BC, qual seja, inserção de títulos públicos de CP e absorção de títulos de LP – cujo intuito seria reduzir a taxa de juros destes últimos12.

  • Depreciação cambial: medida central para o “método infalível” de Svensson (2003). O intuito seria induzir expectativas de aumento de preço futuro de maneira “concreta”, e não induzir exportações.

Em relação à política fiscal, alguns autores defendem que ela seria efetiva em uma situação de AL, visto que a equivalência ricardiana não seria válida (Krugman et al, 1998; Krugman, 2002; Taylor, 2000; Eggertsson & Krugman, 2012). Ainda que tenhamos alguns experimentos de PF, ainda são muito tímidas e de curta duração. Portanto, as propostas de PM vêm dominando os regimes de política econômica com objetivos estritamente monetários, seja buscando gerar expectativas inflacionárias, seja visando reduzir taxas de juros de LP. Grande parte das políticas disseminadas após a crise do subprime estariam assentadas, direta ou indiretamente, em alguma destas propostas.

Taxa de Juros Nominal Negativa

Conforme apresentado anteriormente, muito mais do que teorias sobre AL propriamente dita, o mainstream teria em vista o ZLB como a grande questão a ser superada. Enquanto as propostas anteriores seriam uma forma de "contornar” o problema ao impactar sobre a taxa de juros real, a adoção de uma taxa de juros nominal negativa solucionaria quaisquer problemas13. Sua adoção seria vista simplesmente como uma “proxy para inflação” (Ilgmann e Menner, 2011).



Em suas propostas originais de implementação, Buitter (2009) aponta três caminhos para superação do ZLB14. Segundo ele, a principal dificuldade da adoção das taxas de juros negativa residira no fato de que os instrumentos financeiros seriam divididos em bearer e registered. Enquanto os segundos possuiriam registro, seja no BC ou nos bancos comerciais em geral, os primeiros seriam detidos por portadores anônimos. Caso o BC implementasse taxas negativas de juros, os indivíduos tomariam recursos nessa taxa e “aplicariam” em moeda. Dessa forma, suas propostas seriam as seguintes:

  • Abolir o papel-moeda: apenas depósitos bancários no BC representariam a base monetária, permitindo a adoção das taxas negativas sem que agentes se refugiassem no papel-moeda. Segundo ele, países desenvolvidos (dado a elevada participação online dentre as transações monetárias) poderiam adotar esta medida com ganhos inclusive fiscais, evitando fraudes e etc.

  • Imposto sobre a moeda: proposta original de Gessel (1916), retomada por Fisher (1933) e, recentemente, citada por Mankiw (2009). No entanto, o problema dessas propostas seria, segundo Buiter, que há casos de instrumentos financeiros utilizados como meio de pagamentos mesmo sem legal tender (papel moeda). Portanto, se mesmo após o governo determinar um prazo de validade ou um carimbo em moedas invalidas os agentes privados continuarem a aceita-las e realizarem transações, a medida seria inócua. Para garantir que a moeda expirada não continue em circulação, o governo precisaria colocar alguma penalidade sobre tal ato. Contudo, além de ser politicamente inviável, envolveria custos administrativos.

  • Separação entre função de meios de pagamento e unidade de conta: adoção de dois tipos de moeda – uma denominaria contratos e outra como legal tender, ou seja, papel moeda. A autoridade monetária implementaria não só uma taxa de juros negativa sobre a moeda unidade de conta, mas também uma taxa de câmbio entre as duas moedas. Dessa forma, penalizaria aqueles que convertessem a moeda unidade de conta na moeda meios de pagamento, inviabilizando o refúgio para o papel moeda com juros nulo.

Em suma, as propostas do mainstream para a superação da AL quando a economia se encontra próxima do ZLB envolvem a emissão monetária contínua por parte dos bancos centrais e a adoção de NNIR, seja através de impostos sobre a moeda, seja através da separação das funções da moeda. Os impactos de uma taxa de juros de curto prazo negativa sobre o espectro de taxas de juros, central na teoria Keynesiana, perde importância na visão do mainstream, onde a moeda/liquidez não possui um papel central e os mercados financeiros aparecem de forma no máximo simplificada.


Baixar 297.35 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
Dispõe sobre
reunião ordinária
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Relatório técnico
Universidade estadual
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
espírito santo
pregão eletrônico
Curriculum vitae
Sequência didática
Quarta feira
prefeito municipal
distrito federal
conselho municipal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
segunda feira
Pregão presencial
recursos humanos
Terça feira
educaçÃO ciência
agricultura familiar