Quarta-feira, 7 de novembro de 2012


A psiquiatria mineira na segunda metade do século XX



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A psiquiatria mineira na segunda metade do século XX
Importantes contribuições à nossa psiquiatria deram os seguintes médicos: Geraldo Roedel (1920-1975), profissional de grande cultura e inteligência, Heleno Coutinho Guimarães (1928-1977), José Jorge Teixeira (1899-1980), Aspásia Pires (1921-1980), a primeira psiquiatra do sexo feminino em Belo Horizonte, Odilon Dias Becker (1913-1982) e Flávio Neves (1908-1984).

O próprio autor da História da Psiquiatria Mineira, Joaquim Affonso Moretzsohn foi um profissional atuante e destacado em nosso meio. Entre suas credenciais se incluíam: ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais; membro titular da Academia Mineira de Medicina, do Instituto Mineiro de História da Medicina e da Academia Brasileira de Administração Hospitalar; membro titular da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. 

Não poderíamos neste trabalho deixar de escrever algo sobre dois grandes nomes da psiquiatria mineira de meados e segunda metade do século XX, os professores Clóvis de Faria Alvim e Paulo Saraiva.

O prof. Clóvis de Faria Alvim nasceu em Itabira, MG, em 1920, neto do grande político mineiro Cesário Alvim. Formou-se na Faculdade de Medicina de Minas Gerais (ainda não era Federal) em 1945, tendo se dedicado durante trinta anos ao trabalho intelectual na área teórica da psiquiatria, com incursões na história, no folclore, na literatura, na antropologia e na crítica literária. Possuidor de cultura invejável e profundo conhecedor da psiquiatria, foi autor de várias publicações científicas. Sua tese de Livre Docência de Psiquiatria intitulou-se Introdução ao Estudo da Deficiência Mental, tendo escrito um livro sobre o mesmo assunto. Foi também o responsável por um dicionário de termos psiquiátricos e psicológicos.



Colaborador da famosa educadora Helena Antipoff, professor universitário, fundador de associações psiquiátricas e psicológicas, pesquisador, Clóvis de Faria Alvim deixou obra de imenso valor como “Alguns aspectos da vida sexual dos índios brasileiros”, Um caso de esclerose tuberosaUm precursor mineiro da psiquiatria brasileira, O jovem Freud, O pensamento evolucionista em neuropsiquiatria e Assistência ao doente mental. Administrou cursos de psiquiatria infantil, tendo atuado no Serviço de Antropologia Criminal na Penitenciária Agrícola de Neves, no Instituto Pestalozzi, no Hospital de Psiquiatria Infantil e na Faculdade de Ciências Médicas. 

Da esquerda para a direita: Drs. Javert Rodrigues, presidente da AMP, 


 Antônio Carlos Corrêa, prof. Neves Manta, da Academia de Medicina do

Rio de Janeiro e prof. Clóvis de Faria Alvim. Lançamento de meu primeiro

livro Introdução à Psiquiatria Reflexológica, março de 1976, 
Casa de Saúde Santa Maria, Belo Horizonte. 

Fui grande amigo do prof. Clóvis nos seus últimos anos de vida e sempre me fascinou sua cultura enciclopédica e eclética. Em uma das últimas vezes em que nos encontramos, eu estava na varanda em frente à Casa de Saúde Santa Maria, quando ele chamou-me a um canto e mostrou-me um livro que carregava debaixo do braço (ainda era uma obra vista com preconceito por diversos círculos mineiros). Tratava-se do Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), uma obra que entrou para a lista das mais infames de toda a história da humanidade. Por vários séculos este livro esteve no Index da Igreja Católica, tal o descalabro de suas propostas. Escrita por dois frades dominicanos austríacos, em 1486, ensinava a caçar bruxas, geralmente denunciadas por indivíduos que se mantinham no anonimato (os inquisidores sabiam quem eram), sem provas, com acusações infundadas contra pessoas inocentes. Na maioria das vezes, as denúncias eram motivados pela inveja ou o ciúme, e a Inquisição extraía delas confissões sob tortura. O livro descreve esses métodos de tortura destinados a “provar” com proficiência a condição de bruxas de suas vítimas, como julgá-las, e, finalmente, como entrega-las às autoridades seculares para que a sentença fosse cumprida, ou seja, para que elas fossem queimadas na fogueira. Este livro ficou em minha memória por mais de duas décadas, quando, há muitos anos, o adquiri e serviu-me como fonte valiosa em minhas pesquisas sobre os delírios na história. Faleceu o prof. Clóvis, em 1979, uma hora antes de proferir uma palestra na Casa de Saúde Santa Maria. Foi uma perda irreparável para a ciência mineira.


O prof. Paulo Saraiva nasceu em Belo Horizonte, em 1918, diplomando-se na Faculdade de Medicina em 1944, onde foi professor e defendeu tese de Livre-Docência intitulada O teste Rorcharch em psiquiatria infantil. Assim como seu grande amigo Clóvis Alvim, dedicou boa parte da vida ao estudo do sofrimento mental do ser humano. De cultura invejável, deixou obras como Problemas emocionais das crianças, O conceito de esquizofrenia, Estudo médico-psicológico de casos de deterioração mental, Medicina psicossomática, O teste Rorcharch e a personalidade epiléptica. 

Publicou vários artigos em revistas e jornais leigos como Psicologia da forma e método dialético, A Psicanálise, O complexo de Édipo, O Psicotécnico e a segurança no trânsito, A psicossomática, A memória, A narcoanálise, As psicoterapias, A personalidade epiléptica. Trabalhou em diversas instituições psiquiátricas e foi professor de psiquiatria na Faculdade de Ciências Médicas. 

Tive o privilégio de trabalhar muito próximo ao prof. Paulo Saraiva, pois lecionei psiquiatria a seu lado, na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, por vários anos, e também fomos sócios em nosso primeiro consultório e clínica, de 1971 a 1976. Ele, já um mestre consagrado com vasta clínica particular, sempre nutrira, em segredo, simpatias pelas teorias de Ivan Petrovitch Pavlov e sua neurofisiologia aplicada à Atividade Nervosa Superior e à psiquiatria. Nossa amizade perdurou por toda a vida. Eu nutria por ele uma profunda admiração e respeito filiais. Foi o prefaciador de meu primeiro livro: Introdução à Psiquiatria Reflexológica, em 1975, registro este que cultivo com muito orgulho. Sua memória será sempre por mim reverenciada, já que ele foi um dos profissionais mais íntegros, éticos e capazes que conheci. Seu saber enciclopédico se equiparava ao de seu grande amigo Clóvis de Faria Alvim. Faleceu em 1996, em pleno gozo de sua profícua carreira e em plena lucidez. Uma perda que gerou um vazio imensurável em toda a nossa comunidade psiquiátrica.

A tônica da assistência psiquiátrica em Minas Gerais era baseada em hospitalizações, até a década de 1960. Havia inúmeros hospitais estaduais como o Hospital Colônia de Barbacena, o Instituto Raul Soares, o Hospital Colônia de Oliveira, o Hospital Galba Velloso, o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil e inúmeras clínicas psiquiátricas particulares. A ênfase era no tratamento hospitalar tanto na capital como no interior do estado. Um grupo de médicos se unia, alguns nem eram psiquiatras, e formavam uma instituição destinada a atender doentes mentais. Segundo Moretzsohn (p.145-169) podemos citar os seguintes hospitais, com suas respectivas datas de fundação e seu corpo clínico, em quatro décadas, em Belo Horizonte:


Casa de Saúde Santa Clara (1937).
Os fundadores foram os filhos do Dr. Cícero Ferreira (1861-1920), um dos fundadores da Faculdade de Medicina da UMG (posteriormente UFMG), em 1911. Foram eles: Drs. Ary, Blair e Ivan Ferreira e Dr. Necésio Tavares, ligado a eles por laços de parentesco. Foram diretores: Drs. Blair Ferreira, Ari Ferreira, Mário Cícero Ferreira, Leopoldo de Castro Ferreira, Hélio Tavares, Orlando Campos Ferreira, Breno de Castro Ferreira, Hélio Tavares Filho e, nos últimos anos, Carlos Eduardo Ferreira. Passaram pelo Santa Clara quase todos os psiquiatras de Belo Horizonte, dos quais podemos citar os mais antigos: Drs. Sandoval de Castro, Odilon Dias Becker, Fernando Velloso, Ivan Ribeiro e Hélio Tavares. Quando o hospital fechou as portas, no início da década de 1990, seu corpo clínico era composto pelos Drs. Adilson Alves Cabral, Aluízio Batista Moreira, Antônio Coura Macedo, Arnaldo Madruga Fernandes, Antônio Porcaro de Sales, Ana Ester Nogueira Pinto, Breno de Castro Ferreira Junior, Celso Levi, Carlos Eduardo Ferreira, Edgar Mello Magalhães, Eduardo Eustáquio Andrade, Eduardo Olímpio Viegas Vargas, Fábio Lopes Rocha, Fábio Mendonça Porto, Francisco Hugo Badaró, Geraldo Borges Júnior, Geraldo Megre Resende, Guilherme Brasil Lucena, Hélio Tavares Filho, Heron Fernando Lima Lopes, Irany Silva, Jarbas Alves Loureiro, Jansen Campomizzi, José de Assis Corrêa, José Roberto Buainain, José Ronaldo Procópio, Marcelo Ribeiro Vaz, Marcos André Menezes, Mário Catão Guimarães, Marcio Sampaio, Maria Auxiliadora Viana, Maria Arlete de Castro Andrade, Newton Figueiredo, Otávio Maia Saliba, Osvaldo Martins Ferreira, Ovídio Magalhães Santeiro, Porfírio Marcos Rocha Andrade, Samuel Lansky, Sálvio Luiz Moreira Penna, Sérgio Passos Ferreira, Sylvio Magalhães Velloso, Tatiana Guimarães T. Mourão, Zuleide Sousa Carmo Abijaodi.
Casa de Saúde Santa Maria (1947).

Fundada e dirigida pelo prof. Austregésilo Ribeiro de Mendonça, até seu falecimento nos fins da década de 1990. Atualmente é dirigida pelos seus filhos Solange Maria de Mendonça Campos e Austregésilo de Mendonça Filho. Desde o início, o Prof. Mendonça contou com a estreita colaboração de seu irmão, também psiquiatra, Dr. Antar Ribeiro de Mendonça (1911-1963). Um dos mais assíduos e íntimos colaboradores foi o Dr. Geraldo Rodrigues de Oliveira, que exerceu por muitos anos a atividade de médico clínico e psiquiatra. Também passaram pelo Santa Maria, onde internavam seus pacientes particulares, nomes consagrados da psiquiatria mineira: Drs. Galba Velloso, Silvio Cunha, Caio Líbano, José Cezarini, Fernando Velloso, Milton Gomes, Clóvis Alvim, Haley Bessa, Paulo Saraiva, Flávio Neves, Francisco Badaró, Ataulpho da Costa Ribeiro, José Pedro Salomão, Aloísio Batista Moreira e Helênio Coutinho Guimarães. Outros médicos, de outras especialidades, também fizeram história no Santa Maria: Drs. Otaviano Lapertosa Brina, Petrônio Monteiro Boechat, Manoel Bernardo dos Santos, Ari Moreira da Silva, José Araújo Barros, José Segundo da Rocha, José Rodrigues Lóes. De seu corpo clínico, por várias décadas, participaram: Drs. Austregésilo Ribeiro de Mendonça, Paulo Saraiva, Francisco Badaró, Raphael Mesquita, Solange Mendonça Campos, Austregésilo Mendonça Filho, Antônio Carlos de Oliveira Corrêa, Gustavo Fernando Julião de Sousa, Hilbene Rodrigues Galizzi, José Jacinto Chaves, José Nogueira de Sá Neto, Milton Ribeiro Sobrinho, Oliveiros C. Ribeiro, Otaviano Corrêa da Veiga Lima, Aloísio Batista Moreira, Maria Cristina Palhares, Maria Cristina Contigli, Otávio Gouvea Ferreira.


Clínica Pinel (1946).
Fundada pelos Drs. Geraldo Roedel, Joaquim Affonso Moretzsohn, Sandoval de Castro e Moacir Martins Andrade. Sua direção sempre foi colegiada, composta pelas famílias dos Drs. Moretzsohn e Sandoval de Castro, que adquiriram as cotas dos outros dois colegas. Já integraram ou integram o corpo clínico os seguintes psiquiatras: Drs. Vicente Soares, José Amaral de Castro, Raul Costa Filho, Antônio Afonso Morais Moretzsohn, Francisco Alberto Laender de Castro, Francisco de Paula Victor Pereira, Feliciano de Abreu e Silva, José Pedro Salomão, Neuza Carneiro Magalhães, José Carlos Câmara, Clóvis Figueiredo Sette Bicalho, Edgar Magalhães, José Nazário Gonçalves, Carlos Moretzsohn Ildefonso, Paulo Henrique Scarpa, Roberto Lage Pessoa, Adelson Sousa Pires, Júlio Cesar Valadares Roquete, Marcelo Vaz, Guilherme Brasil Lucena, Ovídio M. Almeida Jr., Ronan Rodrigues Rego, Watercides França, José Nogueira de Sá Neto, Antônio Roberto Vieira Guedes, Alberto André Delpino Mendonça, Raimundo Cabral, Kleber Lincoln Gomes, Jansen Campomizzi, José Ronaldo Procópio, Marcondes Franco da Silva, Lilian Antunes, Marília Mariani, Mauro Passos, Ronaldo Canals, Jeferson Perez Pereira, Eliana Costa e Silva, José de Assis Corrêa, Idário Valadares Bahia, Antônio Lopes Cançado Neto, Jarbas Loureiro, Sálvio Luiz Moreira Penna, Sílvio Monteiro Resende, Narcélio Laponez Silveira, Soter Ramos Couto, Aldorando Ricardo do Nascimento, Raimundo Ferreira Maciel, Antônio Osvaldo Aquino, Flávio Luiz Moretzsohn da Silva, Luiz Carlos Braga Pires, Valéria Fátima Moreira, Humberto Campolina França, Celso Luiz Cruz, Sandoval de Castro Filho, Claudio Lage Moretzsohn, Lucas Lage Moretzsohn, Graco de Nóbrega Cesarino Filho, José Maria Morais Alvarenga.
Clínica Afrânio Peixoto (1952-1968).
Foram seus proprietários os Drs. José Pedro Salomão, Ataulpho da Costa Ribeiro e Sebastião Abrão Salim.
Clínica Senhora de Fátima (1954), fundada pelo Dr. Tasso Ramos de Carvalho. Foram de seu corpo clínico os Drs. Dolores Ribeiro Ramos de Carvalho, Djalma Teixeira de Oliveira e Alaor Rezende.
Clínica Nossa Senhora de Lourdes (1959-2000).
Foram fundadores os sócios cotistas Drs. Pedro Costa Neto, Hélio Durães Alkmin, Aspásia Pires, Lourival Alcântara Veloso, Ivan Ribeiro, José Gilberto de Souza, Eduardo Ozório Cisalpino, Wilson Mairinck e José Pio Cardoso. Foram de seu corpo clínico os Drs. Alan Freitas Passos, Amélio Porcaro Sales, Antônio Augusto F. Paulino, Dório Antônio Raggi Grossi, Guilherme B. Lucena, Helenita S. Goulart, Renato S. Oliveira, José Romualdo Oliveira, José Valmir Barrote Junior, Otávio Saliba, Antônio José Viegas e Janete Andrade.
Clínica Boa Esperança (1961-2000).
Fundada pelos Drs. Aristóteles Brasil e Armando Leite Naves. Foram de seu corpo clínico os Drs. Neide Garcia de Lima, Luiz Augusto Ribeiro, Adelaide Duarte Ubaldino e Paulo de Lima Garcia.
Hospital Espírita "André Luiz". Inaugurado em 1967.
Fundação espírita que teve seus primeiros diretores os Srs. Virgílio Pedro de Almeida, dr. Celso Dias de Avelar, dr. José Schembri, dr. Haroldo Alves Timponi. A coordenação clínica coube ao dr. Marco Aurélio Baggio. Foram ou continuam sendo de seu corpo clínico os drs. Jaider Rodrigues de Paulo, Luiz Carlos Rodrigues, Sérvulo José Duarte Vieira, Ricardo Mendes Pereira, Carlos Antônio B. Calixto, Geraldo Walter Heilbuth, Marcelo Oliveira Mundin, Henrique Marcos Cordeiro Campos, Dario D. Ferreira Pena, Osvaldo Hely Moreira, Rafic Dabien, Renato Pereira Campolina Pontes, Walter Rodrigues da Costa, Lenice A. Sousa Alves.
Clínica Serra Verde (1971-2005).
Destinada ao internamento de pacientes crônicos. Foram seus fundadores os drs. Mário Ibrahim da Silva, José Porcaro Vorcaro, Luiz Issa e Francisco Augusto Machado. Foram membros de seu corpo clínico os Drs. Antônio Carlos Calixto, Wagner Luiz Alves, Flávio Luiz M. da Silva, Carlos M. Ildefonso Silva, Celso Cruz, Ronaldo Cairo, Watercides França, Luiz Carlos Braga Pires, Maria Cristina Contigli, Euli Peixoto, Leonardo Taves, Venios Borges, Raimundo Ferreira Maciel, Humberto Campolina, Valéria de Fátima Moreira.
Centro Terapêutico Comunitário "Santa Margarida" (1974-1983).

       Fundada pelos drs. Adelson Sousa Pires, Clóvis Figueiredo Sette Bicalho, Júlio Cesar Valadares Roquete e Luiz Carlos Braga Pires. Trabalhava dentro do princípio da comunidade terapêutica, com redução no uso de psicofármacos e mais atendimentos socioterápicos e psicoterápicos.


Até o fim da década de 1960 não havia uma preparação formal do especialista em psiquiatria. Não haviam as residências médicas ou cursos de pós-graduação. Quem podia, se deslocava para o Rio de Janeiro ou São Paulo, onde acompanhava cursos de extensão, na Universidade do Brasil, Universidade de São Paulo ou Serviço Nacional de Doenças Mentais. Raros eram os que podiam fazer cursos no exterior. A grande maioria tinha sua formação através de estágios em hospitais psiquiátricos (na época havia a figura do estagiário-acadêmico ou interno-acadêmico, quando o estudante de medicina era incorporado ao corpo de estagiários do hospital, onde prestava serviços de plantão e atendimento em enfermarias, em troca de aprendizagem e conhecimentos na especialidade). As clínicas e hospitais mais procurados se situavam em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Barbacena.

No início da década de 1960 novas ideias começaram a germinar em nossa psiquiatria, como ademais em todo o Brasil. A psicanálise progressivamente se introduziu como influência marcante na prática e pensamento dos psiquiatras e essa influência somente cresceu no decorrer dos anos.


O Hospital Galba Velloso como referência psiquiátrica
Quando no governo de Minas Gerais se encontrava José Francisco Bias Fortes e seu secretário de Estado da Saúde o prof. Austregésilo Ribeiro de Mendonça, este um ex-psiquiatra do IRS, e, portanto, consciente das deficiências desta instituição, se reuniram e decidiram pela construção de um novo hospital psiquiátrico em Belo Horizonte. Seu objetivo era substituir o “velho Raul” que seria modificado e adaptado para receber adolescentes com problemas de conduta.

O governador conseguiu um grande terreno de 12 mil metros quadrados, na zona oeste de Belo Horizonte, no bairro Gameleira. Ao fim de seu governo entregou o edifício quase pronto. A verba para tal empreendimento veio, em parte, dos cofres estaduais. Mas a maior parte veio de recursos da União, notadamente do Serviço Nacional de Doenças Mentais, então dirigido por um psiquiatra mineiro, Adauto Botelho. A conclusão da obra se deu no governo seguinte, de José de Magalhães Pinto e, segundo Moretzsohn (p. 141), quando era secretário de saúde Roberto Resende. O próprio Moretzsohn era o Chefe do Serviço de Psiquiatria da Secretaria de Saúde. Decidiu-se também que o IRS seria destinado somente a pacientes do sexo masculino e o Hospital Galba Velloso (HGV) somente para pacientes do sexo feminino. 



Hélio Durães Alkmin foi o primeiro diretor do HGV, que passou a funcionar a partir de agosto de 1962. As primeiras pacientes foram 34 mulheres transferidas do IRS para lá. O corpo clínico do hospital era composto de psiquiatras transferidos do IRS e outros nomeados pela Secretaria de Saúde. Segundo Moretzsohn (p. 141) o nome do hospital foi escolhido e levado para aprovação pelo Departamento de Neuropsiquiatria da Associação Médica de Minas Gerais. O retrato de Galba Velloso foi inaugurado em 01/11/1963. 
A partir de agora farei um relato do que testemunhei nesses últimos cinquenta anos da psiquiatria mineira. Iniciei meus primeiros contatos com a psiquiatria em agosto de 1966. Havia concluído a disciplina de farmacologia na Faculdade de Medicina da UFMG (FMUFMG). Submeti-me a avaliações com entrevistas e testes com Eunice Rangel, vice-diretora do HGV, fui admitido como interno acadêmico. Na ocasião, havia a figura do interno acadêmico, isto é, o estudante de medicina que, a partir do terceiro ano da faculdade, era admitido em hospitais, com o fim de estagiar, trabalhar como plantonista, prestar atendimento a enfermarias e ambulatórios e até ali residir. 
A psiquiatria mineira passava por transformações importantes. O HGV era, então, um foco polarizador de ideias que a estavam renovando. Em 1963, a direção do hospital fora transferida para as mãos de Jorge Paprocki, então um nome em ascensão em Minas Gerais, dadas suas pesquisas e publicações em revistas científicas. Paprocki se graduara em medicina em 1955 pela FMUFMG. Como não houvesse cursos de pós-graduação ou residência em psiquiatria, ele desenvolveu grande habilidade no trabalho com pacientes portadores de distúrbios mentais em hospitais e ambulatórios de Juiz de Fora, onde residiu por alguns anos, sob o enfoque de comunidades terapêuticas. Voltando para Belo Horizonte, trabalhou ao lado do psiquiatra Ivan Ribeiro e do anestesiologista Petrônio Boechat. Tornou-se conhecido nacionalmente em decorrência de suas pesquisas e publicações na área de psicofarmacologia, um setor da psiquiatria em franco desenvolvimento, e no emprego de anestésicos e narcose na eletroconvulsoterapia (ECT).
O estilo de administração de Paprocki causou grande impacto na psiquiatria mineira. Trouxe novas ideias, decorrentes da onda internacional que incentivava terapêuticas menos rígidas para os doentes mentais. Aí se incluíam a redução de contenções físicas, abolição de quartos-fortes e camisas de forças, preferência por utilização de métodos terapêuticos como os psicofármacos, ressocialização através de comunidades terapêuticas, ambientoterapia, socioterapia, suporte psicoterápico institucional, terapia ocupacional, praxiterapia e outras. Ao mesmo tempo, utilizavam-se ainda as técnicas de tratamentos biológicos como cardiazolterapia e insulinoterapia, além do já citado ECT (com e sem anestesia). Os resultados logo começaram a surgir. Aliado a tudo isto, num gesto audacioso para aqueles tempos (e ainda para os dias atuais), Paprocki instituiu o chamado “open door integral”, isto é, as enfermarias não eram trancadas com grossas portas com barras de ferro para evitar a fuga das pacientes. Não havia portas e uma das pacientes, já em melhores condições psíquicas do que os demais e com previsão de breve alta hospitalar, era colocada na entrada da enfermaria para controlar o movimento de saída dos demais. Os resultados encorajaram a manutenção desta nova estratégia.
Paprocki abriu as portas do hospital para jovens estudantes de medicina que desejassem seguir a especialidade da psiquiatria, acolhendo-os como internos acadêmicos. Grande parte deles passou a residir no HGV, em setor reservado. A medida atraiu uma plêiade de jovens estudiosos e sequiosos de conhecimento e treinamento especializado. Esse movimento constituiu o berço de uma grande geração de futuros psiquiatras que se destacaram nas mais diversas áreas da psiquiatria, da psicanálise, da psicoterapia, da neuropsiquiatria e das neurociências. Ao mesmo tempo, Paprocki incentivou a todos na realização de trabalhos de pesquisas e na publicação de seus resultados. Em grande parte dessas pesquisas ele era o líder e coordenador. O gosto pela pesquisa, pela redação de trabalhos científicos e pela sua publicação logo se tornou uma prática rotineira de toda a equipe.
Paprocki era severo, respeitado e, de certa forma, temido. Ao mesmo tempo, era bondoso, compreensivo e incentivava as habilidades e qualidades individuais de cada um dos internos. Alguns profissionais experientes trabalhavam com ele, como os neurologistas Benítez Emílio Conde e Dalton Lintz de Freitas, este também eletroencefalografista, os clínicos e cardiologistas Emílio Grimbaun, Belces de Paula, Edson Rasuk, José Luiz de Amorim Ratton e Geraldo Ribeiro, este ginecologista. 
Dentre os psiquiatras mais experientes estavam: Helênio Coutinho Guimarães, Neusa Magalhães Carneiro, Pedro Lopes de Oliveira, José Pedro Salomão,  José James de Castro Barros, José Domingues de Oliveira, Aldorando Ricardo do Nascimento, Mário Catão Guimarães, José Raimundo Lippi, Eunice Rangel. Esta foi o braço direito de Paprocki e muito contribuiu para o êxito da administração e das ações implementadas naquela época. 
Na ocasião, um considerável número de internos acadêmicos ali trabalhava havia, pelo menos, dois ou três anos. Dentre eles, assinalo: Marco Aurélio Baggio, César Rodrigues Campos, Odília Miguel Pereira, Francisco Juarez Ramalho Pinto, Virgílio Bustamante Rennó, Francisco Paes Barreto, Arlindo Carlos Pimenta, Francisco Xavier, Vicente Santos Dias, José de Assis Corrêa, Eudes Ramón Paredes Montilla (venezuelano), José Carlos Pires Amarante e, por um período mais curto, Walmor Piccinini (este, vindo do Rio Grande do Sul). Quase na mesma ocasião de minha inclusão no grupo, também foram admitidos meus colegas de faculdade Javert Rodrigues, Rodrigo Teixeira de Salles e, algum tempo depois, Maria Muniz Passos (Lia), Maria Auxiliadora Athayde e Lélio Marcio Dias.
Outros estagiários logo se incorporaram a este multifacetado grupo de jovens idealistas e dedicados, como José Ronaldo Procópio, Claudio Pérsio Carvalho Leite e Hélio Roscoe. Um grupo de psicólogos estagiários e estudantes de psicologia, também se inseriu ao grupo, como Welber Braga, João Mascarenhas, Elizabeth Clark, Flávio José de Lima Neves e outros. Formou-se, aos poucos, um grande grupo multiprofissional composto por enfermeiras, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, todos dedicados e sequiosos de conhecimento. Também havia uma equipe de professoras para o curso fundamental que ministravam aulas de cuidados pessoais, higiene, auxílio à leitura e escrita, para as pacientes internadas, como um complemento às diversas terapias disponíveis. Esta foi uma experiência única e pioneira no estado que durou por não mais que três anos.
Iniciei meu trabalho no Centro de Estudos Galba Velloso (CEGV) pouco após minha chegada ao hospital. No princípio, como bibliotecário, depois como diretor de publicações e, finalmente, em 1969, após a gestão de José Carlos Pires Amarante, o sucedi na presidência. O CEGV fora criado em 1964 e tivera como presidentes os psiquiatras Eunice Rangel e José Domingues de Oliveira, e os acadêmicos Francisco Paes Barreto e José Carlos Pires Amarante. Como diretor de publicações, em 1968, planejei a publicação de um texto sobre psicofármacos, visto que nenhum livro sobre o assunto havia sido publicado no Brasil, até aquela data. Pensei numa obra escrita a várias mãos, na qual cada um dos membros do corpo clínico se encarregaria de escrever um capítulo. Agendei com o grupo uma reunião no CEGV quando apresentei meu projeto, aprovado com entusiasmo. Escolhidos os temas e ementas, a distribuição seguiu a predileção de cada um. Tornei-me o editor desta obra.  Jamais imaginamos que o livro marcaria época na psiquiatria brasileira. Foram seis meses de trabalho intenso e profícuo e os resultados não demoraram a surgir.
Nesta época, antes da era das residências de psiquiatria, a “turma do Galba” realizava estudos auto didáticos, geralmente em grupos e utilizando os tratados de psiquiatria famosos do período. Um deles era o do psiquiatra argentino Juan Beta, Manual de Psiquiatria, livro considerado por demais organicista numa época em que a psicanálise já dominava amplamente a psiquiatria brasileira e mundial. Também o Manual de Psiquiatria, de Mayer-Gross, em que pese sua orientação organicista, era mais aceito que o anterior. Em contrapartida, Iracy Doyle, com sua Nosologia Psiquiátrica, tinha profundas raízes psicodinâmicas. Era um livro que praticamente decorávamos por inteiro. Outros autores e obras importantes estudados com afinco, em que noites eram varadas sobre suas páginas, em particular na sala do CEGV: Psiquiatria Dinâmica, de Henri Ey, Psiquiatria Clínica Moderna, de Noyes e Kolb, Psicopatologia, de Kurt Schneider, Tratado de Psiquiatria, de Manfred Bleuler, História da Psiquiatria, de Franz Alexander, Psicopatologia Geral, de Karl Jaspers, Temas Psiquiátricos (um extenso tratado de psicopatologia), de Cabaleiro-Goás, Psicologia Médica, de Juan-José Lopez-Ibor, os livros de Weitbrecht e Tellembach, Estratégias em psicoterapia, de Jay Haley, e muitos outros. Tomávamos também conhecimento, a partir de 1968, do trabalho do grande psiquiatra espanhol, Francisco Alonso-Fernandez, com sua obraFundamentos de la Psiquiatría Actual, uma expressão da excelência psiquiátrica do período. Somente no final da década de 1970 surgiu o também muito aguardado Psiquiatria, do prof. Nobre de Melo. Mas, então, todos nós já estávamos longe do Galba.
Com frequência eram convidados grandes psiquiatras para proferir palestras no CEGV: prof. Clóvis de Faria Alvim, um dos mais brilhantes da história da psiquiatria mineira, prof. Paulo Saraiva, de conhecimento enciclopédico, prof. Hélio Durães Alkmin, da UFMG, prof. Austregésilo Ribeiro de Mendonça, fundador da disciplina de psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCMMG), Fernando Megre Velloso, Joaquim Affonso Moretzsohn, Ivan Ribeiro da Silva, Francisco Hugo Badaró, Geraldo Megre de Resende, Aspásia Pires de Oliveira, todos grandes e consagrados nomes de nossa psiquiatria, além do prof. José Elias Murad, com suas aulas memoráveis sobre psicofarmacologia. 
 As tendências entre os internos acadêmicos já se faziam esboçar, a maioria com pendores para os estudos de psicanálise. Alguns foram tomados de verdadeira afeição pela teoria freudiana e pela psicoterapia analítica. No meu caso, em particular, apesar de ter feito análise de grupo por seis meses com o prof. Célio Garcia e quase um ano e meio de análise individual com Jarbas Moacir Portella, o meu interesse pelas teorias pavlovianas e sua neurofisiologia aplicada à psiquiatria e psicologia, demonstrou possuir uma força mais vigorosa e suas teorias científicas tiveram para mim o gosto da “verdade”. Éramos todos muito jovens, idealistas e radicais. Não havia espaço para o meio-termo, para a síntese, para o eclético ou o holismo.
Graduei-me em medicina pela UFMG em dezembro de 1968, quando me candidatei à residência de psiquiatria, criada um ano antes, um convênio entre a Secretaria de Estado da Saúde de MG e a FCMMG. Esta foi a primeira residência de psiquiatria no Estado. 
A obra Psicofármacos foi concluída em maio de 1969. Teve tiragem de dois mil exemplares. Os recursos vieram das economias feitas pela tesouraria do CEGV, durante mais de um ano. O livro teve grande aceitação e era vendido na Cooperativa Editora e de Cultura Médica. Inúmeros exemplares foram enviados, como permuta, para bibliotecas de universidades, hospitais, instituições psiquiátricas pelo Brasil afora, o que contribuiu para torna-lo bastante conhecido. A obra foi um marco na história da psiquiatria brasileira. Por mais de seis anos era única, sobre psicofarmacologia, publicada no Brasil. Apenas em 1975 o prof. José Caruso Madalena, do Rio de Janeiro, publicaria outro livro na área, com teor um pouco diferente. Uma obra maior e mais atualizada somente foi publicada pelo mesmo Caruso Madalena, em 1980, portanto, mais de dez anos após o trabalho do CEGV.





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