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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Breve História da Psiquiatria Mineira






O prof. Galba Velloso e equipe do Instituto Raul Soares na década de 1930.

Fonte: História da Psiquiatria Mineira. Joaquim Affonso Moretzsohn, 1989.



Em linhas gerais, a psiquiatria mineira seguiu a história da psiquiatria no Brasil, desde os tempos coloniais e imperiais, mas sempre manteve suas particularidades regionais, suas idiossincrasias, a presença de grupos distintos de profissionais em torno de ideias ou práticas. Contudo, sempre teve um papel relevante na psiquiatria nacional e diversos nomes de psiquiatras mineiros foram alguns dos pioneiros da medicina no País.  Inúmeros outros tiveram posição de grande destaque nacional, o que é motivo de admiração de todos. Tudo advindo de um intenso labor e pelo acúmulo de um patrimônio teórico, científico, filosófico, humanístico, de reconhecido valor.


Segundo Joaquim Affonso Moretzsohn, em sua História da Psiquiatria Mineira, de 1989, a psiquiatria passou por vários períodos históricos ou diferentes estágios a que denominou de: místico, medieval, orgânico, psicológico etc. Considera que esses períodos têm seus correspondentes na área hospitalar com suas fases asilar, carcerária, hospício, hospital, ambulatorial etc. Em Minas Gerais, as coisas não foram diferentes e, para ele, esses períodos podem ser classificados em:
1º. Período: “Antigo” – Anterior à criação da Assistência Psiquiátrica em Barbacena-antes de 1900.

2º. Período – “Medieval” – (Asilar) – Hospital Colônia de Barbacena: 1903.

3º. Período – “Renascentista” – (Hospitalar) – Instituto Raul Soares: 1922.

4º. Período – “Moderno” – (Casa de Saúde) – Casa de Saúde Santa Clara: 1937.

5º. Período – “Contemporâneo” – (Ambulatorial) – Introdução das drogas psicotrópicas e dos conceitos psicanalíticos: 1960.
A psiquiatria mineira no século XIX
Até quase a virada do século XIX para o XX, os doentes mentais eram recolhidos às cadeias públicas, ou enviados para Hospital Geral de Alienados (Hospício D. Pedro II), no Rio de Janeiro, já que havia um convênio do governo mineiro nesse sentido. Em Diamantina e São João Del Rei, haviam os chamados “anexos psiquiátricos” onde doentes mentais eram hospitalizados e tratados. Moretzsohn (p.9) considera que a primazia da assistência psiquiátrica em Minas Gerais pertence a São João Del Rei, já que o movimento psiquiátrico dos médicos do Rio de Janeiro foi posterior a ele. Na ocasião, faziam-se diagnósticos psiquiátricos, como a “monomania”, seguindo o modelo da escola francesa de Esquirol.

Figura de proa do período foi o Dr. Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835). Nasceu na vila de Guarapiranga, atual Piranga, em Minas Gerais. Foi aluno do Seminário Diocesano de Mariana, quando aprendeu o latim, feito esse que lhe abriu as portas de estudos no exterior. Estudou na Universidade de Coimbra e, em seguida, diplomou-se em medicina na Universidade de Edimburgo, Escócia.

É considerado por muitos o primeiro psiquiatra do Brasil, sendo, seguramente, o primeiro de Minas Gerais. Foi autor de uma obra pioneira, em 1814, intitulada “Impugnação Analytica ao exame feito pelos Clínicos Antonio Pedro de Sousa e Manoel Quintão da Silva em uma rapariga que julgarão Santa na Capella de Nossa Senhora da Piedade da Serra“. Clóvis de Faria Alvim, citando Flamínio Fávero, (Moretzsohn, p.185), diz que este foi o primeiro documento médico-legal surgido no Brasil. Sobre Gomide, escreveu um belo artigo científico o meu caro amigo, o grande psiquiatra mineiro que há muito já se foi, Clóvis de Faria Alvim, em trabalho intitulado “Um precursor mineiro de psiquiatria brasileira”, na Revista da Universidade de Minas Gerais, em 1962. Ao abordar o caso de uma beata que teria se tornado supostamente “santa” e se instalado numa ermida no alto da Serra da Piedade, no início do século XIX, Clóvis de Faria Alvim exalta as qualidades científicas e intelectuais de Antônio Gonçalves Gomide discorrendo sobre o texto deste:
 “O opúsculo termina com uma breve exortação aos peritos, contendo ainda em apêndice, como já foi mencionado, um catálogo dos livros em que se encontram casos circunstanciados de catalepsia... Acreditamos suficientemente demonstrado que o Dr. Antônio Gonçalves Gomide, nascido em Minas, em 1770, possuía vastos conhecimentos de Patologia Mental, como era conhecido na época a nossa especialidade, podendo ser considerado, com justiça, o precursor da psiquiatria em nossa terra. Foi contemporâneo de Pinel e de Benjamim Rush, o patriarca da psiquiatria americana. Precedeu de alguns anos o famoso Dr. José Martins da Cruz Jobem, que na cidade do Rio de Janeiro, em 1830, bradou contra o modo desumano de tratamento dado aos alienados”.

In: ALVIM, Clóvis Faria. Um precursor mineiro da psiquiatria brasileira. Revista da Universidade de Minas Gerais. Belo Horizonte. n.12, p.234-250, 1962.


Antônio Gonçalves Gomide era considerado homem de profundo saber filosófico a ponto de ser chamado de “iluminista” por Paulo Gomes Leite (Moretzsohn, p.185). Sua instigante personalidade não o limitou à prática da medicina. Foi Juiz ordinário e de órfãos em Caeté, Membro da Assembleia Nacional Constituinte e senador do Império do Brasil, entre 1826 e 1835.
A psiquiatria mineira da primeira metade do século XX
Um dos mais importantes psiquiatras do período foi Joaquim Antônio Dutra (1853-1943). Diplomado em medicina pela Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, tornou-se clínico muito conhecido e respeitado na Zona da Mata mineira. Apesar de ter sido Deputado Provincial e Senador por Minas Gerais, sua grande contribuição à psiquiatria foi o fato de ter sido o diretor do Hospital Colônia de Barbacena, desde sua fundação, em 1903, até 1936, quando de sua aposentadoria.

Grande destaque teve Galba Moss Velloso (1889-1952), um psiquiatra “clássico”, diplomado no Rio de Janeiro. Veio para Minas Gerais após a inauguração do Instituto Raul Soares, em 1922. Foi um grande profissional, homem culto e brilhante, dirigiu o Instituto Raul Soares (IRS) por diversos anos. Reuniu à sua volta grande número de psiquiatras, médicos, literatos, amigos, colocando-se sempre no papel do líder científico e cultural. Foi Professor Livre-Docente na Faculdade de Medicina da UFMG, com tese sobre “Malarioterapia na doença de Bayle”, tratamento este que se tornara então uma das grandes conquistas da medicina. Foi o fundador e colaborador da revista “Arquivos de Neurologia e Psiquiatria”, onde publicou diversos artigos científicos. Foi um dos signatários do “Manifesto dos Mineiros”, em 1945, e, por isso, foi demitido do cargo de diretor do Instituto Raul Soares. Contudo, manteve a altivez e independência frente às adversidades políticas e às pressões (Moretzsohn, p.186).

Um dos nomes mais fulgurantes na psiquiatria mineira do período foi o prof. Ermelindo Lopes Rodrigues (1889-1971). Homem de vasta cultura e grande participação na psiquiatria nacional, antes de vir para Minas Gerais exerceu o Prof. Lopes Rodrigues as seguintes atividades (Moretzsohn reproduz em fac-símile a página de rosto da Primeira Memória Médico-Administrativa do Instituto Raul Soares, de 1930, p.131): "Interno do Hospício S. João de Deus (Bahia, 1919), Interno do Hospital Nacional de Alienados (Rio de Janeiro, 1920), Membro da Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal (1922), Docente-Livre de Clínica Psiquiátrica (por concurso) da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro (1925). Prestou concurso para professor catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais (1926), tendo sido aprovado. Dirigiu esta por vários anos. Foi Diretor do Instituto Raul Soares (Belo Horizonte, 1929). Seu último cargo foi o de Diretor do Serviço Nacional de Doenças mentais na década de 1960". 

Moretzsohn também reproduz em seu História da Psiquiatria Mineira (p.132-133) o prefácio que o professor Lopes Rodrigues escreveu para a Primeira Memória. Encontramos aí a expressão das mágoas do eminente professor às críticas que sofria como diretor do IRS. Em sua opinião, o esforço de um diretor pode ser dividido em três partes: a primeira "se perde no vórtice dos relatórios, dos apelos oficiais, das insinuações, dos escritos e dos reclamos emergentes que dilataram noitadas, lavraram sobressaltos e fiaram meditações". Na segunda parte "se desfaz no vozeiro que lhe opõem as forças repulsivas onde ela se opera, isto é, o testemunho tarado que se irradia das coletividades psicopáticas, em cujos meandros parasitam aqueles que maltratam a consciência com autoridade". Na terceira, a sensação de dever cumprido "na mais difícil conduta humana: lidar com os que lidam com alienados".




Prof. Lopes Rodrigues, na década de 1960, quando era Diretor do

Serviço Nacional de Doenças Mentais, no Rio de Janeiro.

Fonte: História da Psiquiatria Mineira. Joaquim Affonso Moretzsohn, 1989.

Vê-se que os problemas que a psiquiatra atual encontra nas suas mais diversas facetas, clínicas, administrativas, políticas, culturais e sociais, não são exclusivamente obra do presente, pois existem há muito, muito, tempo.

Atribui-se ao prof. Lopes Rodrigues, um papel secundário da cátedra de psiquiatria e de seu corpo docente nos eventos psiquiátricos do Estado, durante várias décadas, em função de estar ele sempre viajando, atendendo aos seus inúmeros compromissos, deixando seus compromissos profissionais em terras mineiras para segundo plano. Seus assistentes e professores Livres-Docentes não se sentiam à vontade para imprimir ao Departamento (nome que foi adotado muito mais tarde) uma ação mais presente e de liderança na psiquiatria mineira, ao contrário do que ocorria em outros estados, quando as universidades federais ou estaduais haviam há muito assumido papéis de liderança inconteste nas pesquisas, estudos e promoção de eventos científicos em sua jurisdição.

O prof. Zoroastro Vianna Passos (1887-1945), apesar de não ter sido psiquiatra, deixou importante contribuição em nossa história. Foi Chefe da Diretoria Geral de Assistência Hospitalar do Estado de Minas Gerais, e teve sob sua orientação todos os hospitais públicos psiquiátricos do estado.  Foi um dos fundadores da revista Archivos da Assistência Hospitalar do Estado de Minas, que representou papel de fundamental importância nas décadas de 1930/40 para a psiquiatria mineira.

Grande profissional foi Iago Victoriano Pimentel (1890-1962). Homem de grande saber e erudição, dedicado aos conhecimentos da psiquiatria humanista clássica de seu tempo, escreveu importante obra sobre psicologia aplicada à educação, que foi livro básico durante muitos anos na área da pedagogia. É considerado o primeiro tradutor de Freud no Brasil.

Um dedicado psiquiatra do período foi Moacir Martins Andrade (1910-1969), grande especialista em Psiquiatria Forense, onde se destacou, tendo sido psiquiatra da Penitenciária Agrícola de Neves. Foi um entusiasta do teste miocinético de Mira y López (PMK), cujo teste original enriqueceu com dados de suas próprias observações.

A psiquiatria infantil teve na figura de Antônio Bernardino Alves (1894-1971) o seu pioneiro em Minas Gerais. Foi o primeiro diretor do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, inaugurado em 1947.

A psiquiatria clássica alemã, organicista, teve em Silvio Ferreira da Cunha (1893-1972) sua última figura exponencial. Formou-se no Rio de Janeiro e, em Belo Horizonte, foi Diretor do Instituto Raul Soares. Posteriormente, foi Chefe do Serviço de Higiene Mental da Secretaria de Saúde.



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