Quantos pães tendes?



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Encontro03.11.2017
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QUANTOS PÃES TENDES?”

(Prot. N. 01060/15)



Carta circular do Ministro Geral

após o encontro convocado em Frascati1

sobre os migrantes e os refugiados na Europa

1. A pergunta de Jesus

“Quantos pães tendes?”2 Com esta pergunta, Jesus se dirige aos seus discípulos depois que eles tinham manifestado o desconcerto e a impotência diante de uma multidão afamada e cansada. Eram verdadeiramente muitos, cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, e do que se podia dispor eram alguns pães e poucos peixes.

O nosso olhar abrange com igual desconcerto o incalculável número de migrantes e refugiados que tentam entrar na Europa, depois de terem atravessado o Líbano, a Turquia e outros países, e nos damos conta de que a situação é dramática. Não é só a Europa a estar envolvida neste fluxo migratório, pensem naquela massa de gente que, em busca de um futuro melhor, tenta cruzar as fronteiras entre o México e os Estados Unidos, e naqueles que, de vários países africanos, enfrentam o mar Mediterrâneo. Enquanto lhes escrevo, as agências de imprensa difundem a notícia de um naufrágio no mar da costa turca, em que morreram seis crianças. Neste momento, a atenção dirige-se sobretudo à Europa, mas seria errado pensar que se trate de uma questão apenas europeia.

As pessoas que fogem são tantas, muito mais do que aqueles cinco mil que Jesus abraçava com seu olhar. Suscitam temor, e em várias partes erigem-se muros para impedir seu caminho; há também quem gostaria de enviar-lhes para donde vieram. Aqueles que estão dispostos em acolher, perguntam-se sobre o que fazer diante de uma emergência tão grande. Parece quase poder ouvir a mesma pergunta dos discípulos a Jesus: “Onde vamos buscar, neste deserto, tantos pães para saciar tão grande multidão?”.



2. Tenham os mesmos sentimentos de Cristo: a compaixão.

Irmãos, recordei-lhes o trecho evangélico da multiplicação dos pães a fim de que o olhar sobre os eventos dramáticos dos migrantes seja iluminado pela fé, e o mesmo deve suscitar os sentimentos de Jesus: “Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo, e nada tem para comer. Não quero mandá-los embora com fome, para que não desmaiem pelo caminho”. Jesus sente “compaixão”, deixa-se tocar pelo seu estômago vazio, pelo seu sofrimento, a tal ponto que chama a si os discípulos: é preciso fazer algo! Pensemos em São Francisco, que se deixa tocar pelo sofrimento dos leprosos e depois “faz misericórdia” com eles.

Caros irmãos Capuchinhos, em qualquer parte do mundo que nos encontrarmos, não façamos de conta que não vemos, nem passemos adiante, nem ergamos os muros do medo do medo e da hipocrisia conformista. O sofrimento vivido por essas pessoas, o desespero que está escrito em seus rostos, possam realmente mover-nos à compaixão, interpelando a nossa caridade e a nossa minoridade. Não caiamos em lugares comuns que gerem a indiferença, ou mesmo façam aparecer nos lábios expressões do tipo: “por que não ficaram em suas casas?”. A nossa vocação ao seguimento de Jesus Cristo, sustentada pelo carisma de Francisco de Assis, pede-nos para nos assemelharmos ao coração compassivo de Jesus. Ele, o Senhor, perguntar-nos-ia hoje, como então: “Quantos pães tendes?”. A pergunta atualizada hoje poderia ser: “Quantos lugares e quantos espaços inutilizados tendes? Quantos meios e quanto dinheiro podeis pôr à disposição?”. A nossa resposta não será muito diversa daquela dos discípulos: “Temos um convento vazio e temos algum espaço inutilizado nas casas onde habitamos atualmente, mas o que é isso para uma emergência tão grande? Já estamos envolvidos em tantas atividades e agora chega também esta urgência para encarar!”. Jesus teria dito: “Façam-nos sentar”, “façam-nos entrar!”. A partilha levará mais uma vez a realizar um milagre!

O nosso olhar de fé, o nosso desejo de fazer algo, frequentemente deve levar em conta as normas e as leis das autoridades de cada País. Então poderá acontecer que, por um simples defeito estrutural, por exemplo, por causa das tomadas de energia elétrica colocadas muito embaixo na parede, as autoridades competentes pela acolhida dos migrantes recusem a oferta de um convento que tem todas as qualidades essenciais para acolher. Apesar dos imprevistos e das surpresas burocráticas, acredito ser profundamente evangélico ousar com insistência em dar sinais e usar todas as ocasiões à nossa disposição para criar uma mentalidade acolhedora em relação aos migrantes e refugiados.



3. O encontro de Frascati

Tudo isso que descrevi até agora, provocou-me a convocar um encontro em Frascati para refletir, partilhar e planejar escolhas para o futuro. O encontro ocorreu nos dias 15-16 de outubro passado, e reuniu 35 frades provenientes de 17 países, em particular da Europa, do Oriente Médio e da África. Os frades presentes foram introduzidos na questão por peritos da Caritas Internationalis, do Jesuits Refugee Services (Serviço Jesuíta aos Refugiados) e por duas irmãs da UISG (União Internacional das Superiores Gerais), competentes em matéria.

Escutamos testemunhos particularmente tocantes acerca de experiências já em ato na Ordem, especialmente nos lugares mais envolvidos, como Líbano, Malta, Grécia e Itália. Fr. Abdallah, da Custódia do Líbano, mencionou que seu país acolhe 1,2 milhão de refugiados sírios, os quais constituem 25% da população do país. Isso, indubitavelmente, coloca problemáticas notórias para o país, seja de tipo econômico, como a escassez de alimento, como de tipo social, como a competição para garantir a qualquer custo uma vaga de trabalho. Os nossos fardes, graças também às contribuições provenientes da Cúria Geral, começaram a acolher algumas famílias, a prover à escolarização das crianças cristãs e a garantir um apoio de saúde.

Fr. Gianfranco Palmisani, Ministro Provincial da Província Romana, Itália, contou-nos como a sua Província pôs à disposição dos refugiados mais de um convento vazio, e o fez em estreita colaboração com as autoridades competentes. Fr. Gianfranco também falou da situação encarada por ele, em que, diante da oferta de um imóvel nosso, a autoridade competente recusou tal disponibilidade em razão da concentração bastante alta de refugiados em uma determinada zona.



4. O que podemos fazer?

A emergência continua, e o nosso esforço não deve faltar. Os meios de comunicação denunciam que não poucos países têm feitos grandes proclamações de acolhida, contudo, que por razões de conveniência e de oportunidade política, demoram a se concretizar. É nossa tarefa estar próximos aos migrantes e refugiados; à fumaça das grandes palavras e declarações, é necessário responder com a concretude evangélica capaz de desenvolver projetos de solidariedade. Além disso, usemos nossas energias para difundir uma mentalidade que seja respeitosa da dignidade de cada pessoa, independentemente da religião e da raça. Favoreçamos iniciativas e lugares, onde os residentes de cada país possam conhecer os refugiados, para criar relações de amizade e de apoio.

Se dispusermos de estruturas não utilizadas e que estejam em bom estado, não temamos em oferecê-las às autoridades competentes para um serviço de acolhida. Por que não acolher pessoas individualmente ou então uma família em locais não utilizados do convento?

Uma proposta surgida durante o encontro de Frascati foi a de constituir algumas fraternidades internacionais que se coloquem a serviço dos refugiados nos lugares de maior passagem, como Lampedusa, Grécia e Áustria, apenas para citar alguns. Esta proposta é desafiadora e muito válida, mas deve ser aprofundada e elaborada ulteriormente.

Se, após ter examinado, pensado e feito o devido discernimento, chegarmos à conclusão de que não podemos dar nada em termos de estruturas ou de acolhida concreta, permanece sempre ainda a possibilidade de destinar uma contribuição em dinheiro ao Fundo para emergências da Solidariedade econômica da nossa Ordem ou a outras organizações empenhadas nesse âmbito. Quando Jesus pergunta aos discípulos quantos pães têm, convida-os a partilhar não apenas o supérfluo, mas também o que aparece como estritamente necessário e indispensável para sua vida. O Senhor está batendo com a mesma insistência também às nossas portas! Façamos a nossa parte, e ele saberá fazer a Sua. Peço-lhes para ler, com o coração acolhedor e compassivo, o capítulo 25 do Evangelho de Mateus, a partir do versículo 31, que é o nosso vade-mécum para gerar projetos de solidariedade; e não esqueçamos nunca, sublinho nunca, as palavras de Jesus: “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40).

5. Em caminho com a nossa pobreza

Irmãos caríssimos, caminhamos rumo ao Natal do Senhor, façamo-lo levando, cada um, a pobreza de poucos pães e alguns peixes, mas demos a Ele. Devo fazê-lo eu, que lhes sirvo como Ministro Geral, faça-o você, que é Ministro Provincial ou Custódio, faça-o você, caro irmão em qualquer parte do mundo que se encontrar e que, neste ano santo da misericórdia, pregará e testemunhará o Amor de Deus por cada homem. Façamo-lo juntos, irmãos, para anunciar que a nossa Fraternidade, iniciada por São Francisco, é capaz de gerar sinais de esperança, de acolhida, de gratuidade, a mesma que Cristo usou para conosco, dando a vida por nós. Façamo-lo juntos, testemunhando que não só temos recebido a Graça de ir aonde ninguém quer ir, mas de acolher também aqueles que muitos recusam. Não poucos nos insultarão, nos dirão que trazemos perigos, ou que devemos defender o orgulho nacional, que essas pessoas nos roubam as vagas de trabalho, e mais ainda. A resposta a tudo isso está escrita no Evangelho.

Confesso-lhes que trago no coração o desejo de logo ler que vocês responderam a este meu apelo. Peço que esta carta seja entregue a cada frade da Ordem.

Desejo-lhes um tempo cheio de misericórdia doada e recebida. A todos, um bom e santo Natal, e que o ano de 2016 lhes traga o vigor e a coragem que nascem da fé!

Fraternalmente.

Fr. Mauro Jöhri,

Ministro Geral OFMCap.

Dado em Roma, 8 de dezembro de 2015

Solenidade da Imaculada Conceição de Maria,

Padroeira de nossa Ordem



1 «Era estrangeiro e me acolhestes» (Mt 25,35) Prot. N. 00761/15.

2 Mt 15, 34. V. no cojunto: Mt 14,22-33; 15,29-39; Mc 6,30-44; 8,1-10; Lc 9,10-17; Gv 6,1-15.



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