Por uma teoria da tradução do teatro para a cena



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Dossiê Dramaturgia e 

Tradução


Por uma teoria da tradução 

do teatro para a cena 

contemporânea

For a theory of the theater's 

translation for the conteporary 

scene

Andreza Caetano

Doutoranda em Literaturas Clássicas e Medievais no 

Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da 

Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas 

Gerais. Bolsista CNPq.

E-mail: andrezacaetano@yahoo.com.br

issn: 2525-9105



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Revista do Laboratório de Dramaturgia – LADI – UnB – Vol. 7, Ano 3

Dossiê

Resumo

Enquanto tradutores de teatro, devemos nos pautar pela construção de tra-

duções capazes de captar e expressar as necessidades e possibilidades da re-

presentação teatral na atualidade, elevando a capacidade dramática e corpo-

ral do texto, bem como tornando o texto acessível a qualquer cidadão. Se a 

intenção da tradução é a representação ou a popularização da obra, é impor-

tante levar em consideração alguns fatores capazes de promover a fruição do 

texto, a partir da observação da sua função. Contribuir para uma teorização 

acerca da tradução de textos teatrais, induzir a uma análise em torno do con-

vencionalismo que tem regido a tradução há vários séculos, torna-se impor-

tante na contemporaneidade, posto que a Teoria da Tradução, especificamen-

te teatral, ainda é incipiente. Nesse contexto, esperamos contribuir com nossas 

observações acerca do tema, promovendo a interação do universo acadêmico 

com o teatral, no intuito de fomentar o pensamento crítico em torno das con-

venções que ainda regem a tradução do texto teatral no Brasil.

Palavras-chave: Teoria da Tradução, Estudos da Tradução, Tradução Teatral, 

Tradução Contemporânea, Teatro.


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Abstract

As translators of theater, we must be guided in the construction of translations capable 

of capturing and expressing the needs and possibilities of theatrical representation in 

the present, raising the dramatic and corporal capacity of the text, as well as making 

the text accessible to any citizen. If the intention of translation is the representation or 

popularization of the play, it is important to consider some factors capable of promo-

ting the fruition of the text, from the observation of its function. To contribute to a the-

orizing about the translation of theatrical texts, to induce an analysis of the conventio-

nalism that has governed the translation for several centuries, becomes important in 

the contemporaneity, since the Theory of Translation, specifically theatrical, is still 

incipient. In this context, we hope to contribute with our observations on the theme, 

promoting the interaction of the academic universe with the theatrical, to foster critical 

thinking around the conventions that still govern the translation of the theatrical text.

Keywords: Theory of Translation, Translation Studies, Theatrical Translation, 

Contemporary Translation, Theater.


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Introdução

A tradutologia

1

 tem se tornado apoio para tradutores de diversas línguas, an-



tigas e modernas, em outros países; entretanto, no Brasil, se, por um lado, os 

Estudos da Tradução têm crescido e despertado maior interesse em nossos 

pesquisadores, por outro, nota-se uma resistência às mudanças no modo de 

se traduzir, ainda perturbadoras, especialmente com relação à tradução de 

clássicos e na tradução de obras mais antigas, como se qualquer inovação não 

fosse legítima ou como se fosse possível desvalorizar a língua de origem ou 

desrespeitar uma época. Ainda se insiste em uma abordagem que rejeita o 

que os Estudos da Tradução têm desenvolvido.

No entanto, não se pode esquecer que também a Literatura é constituída 

e pode ser analisada por meio de sistemas que designam um conjunto de ele-

mentos inter-relacionados que compartilham certas características. Esses 

sistemas são formados tanto por textos quanto por agentes humanos que os 

leem, escrevem, e reescrevem (LEFEVERE, 1997). Queremos ainda pôr em re-

levo o fato de que a tradução segue normas, modelos de escrita e leitura. Autor 

e tradutor seguem esse modelo de acordo com o que estão acostumados a ler 

e ouvir, mas as normas usadas por escritores, críticos, leitores e até mesmo 

tradutores não são fixas, nem têm um valor absoluto, segundo Lambert (2011).

O objetivo primordial dos tradutores de teatro, acreditamos, deve estar 

pautado pelo apresentar uma tradução capaz de captar e expressar as neces-

sidades e possibilidades da representação teatral na atualidade, elevando a ca-

pacidade dramática e corporal do texto, bem como tornando o texto acessível 

a qualquer cidadão, se a intenção da tradução for a representação ou a popu-

larização da obra. Contribuir para uma teorização acerca da tradução de tex-

1  “Reflexão da tradução sobre si 

mesma a partir da sua natureza de 

experiência” (BERMAN, 2007, p. 19). 

Não pretendemos nos ater à discussão 

proposta por Meschonnic (2010) que, 

para propor o uso do termo ‘poética da 

tradução’ no lugar de tradutologia, 

aborda a inseparabilidade da teoria e 

da prática, envolvendo ligações 

culturais, linguísticas e sígnicas, além 

da historicidade do texto; considera-

mos desnecessário o levantamento da 

hipótese, seguimos Berman (2007), 

quem indica a tradutologia com 

parâmetros extremamente semelhan-

tes, mas com palavras diferentes, 

entendendo a tradução no campo 

cognitivo amplo do tradutor em 

função do público a que a tradução se 

destina; o que, fundamentalmente, 

comparando-se as duas suposições, 

não se pode estabelecer nenhuma 

diferença profunda, a não ser a 

mudança de um nome e da ideia de se 

considerar ou não o ato de traduzir 

como ciência; discussão que em 

absoluto, consideramos relevante para 

o presente trabalho.



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tos teatrais, induzir a uma análise em torno do convencionalismo que tem re-



gido a tradução há vários séculos, torna-se importante na contemporaneidade, 

posto que a teoria da tradução especificamente teatral é, de fato, incipiente.

Assim, voltamo-nos, neste trabalho, especialmente para o estudo da tra-

dução do teatro, considerando o teatro em todas as suas épocas; e cremos que 

o aporte do saber da prática teatral na formação do tradutor de teatro pode 

provocar maior disseminação da literatura dramatúrgica, privilegiando tan-

to a linguagem bem elaborada, quanto a potencialidade cênica e os traços do 

texto que incorporam a dramaticidade representativa nos palcos. Contudo, 

há uma minimização da importância dos Estudos de Tradução que estão em 

desenvolvimento, como se a tradução de alguns textos fosse um caso à parte. 

Nossa afirmação é baseada na percepção de questionamentos relativos, por 

exemplo, à escolha lexical utilizada nas traduções.

Buscamos sistematizar alguns pressupostos teóricos que permitem a abor-

dagem do teatro pelo viés da literatura dramática; isto é, contemplamos o 

exercício cuidadoso da dramaturgia na constituição de uma teoria da tradu-

ção do texto teatral. Voltamo-nos também para a perspectiva cultural con-

temporânea, visando à mais ampla disseminação literária, sem, contudo, ig-

norar os parâmetros acadêmicos e filológicos, necessários a uma tradução 

eficiente e acessível a públicos indistintos, acreditando que ambas as verten-

tes não se excluem, uma vez que entendemos que o produto de um trabalho 

realizado com cuidado filológico e que tem se desdobrado por anos de leitu-

ras e tentativas — ora frustradas, ora não — pode se encaixar em um padrão 

de qualidade acadêmica sem deixar de abarcar seu intuito de alcançar o es-

petáculo e a população, de levar até ela aquilo lhe é desconhecido, e que enri-

quecerá seu conhecimento de mundo e sua cultura.

Pensando, portanto, na insipiência mencionada, esperamos contribuir 

para a teorização dos Estudos da Tradução de Teatro, partindo de conside-

rações acerca das teorias e trabalhos realizados, almejando a sistematização 

de estratégias que têm se mostrado eficientes. Para tanto, cabem-nos algu-

mas perguntas: Como a tradução do teatro é vista? Por que as traduções de-

vem seguir parâmetros que acabam distanciando a obra do público leitor, de-

vido à linguagem ou sintaxe? Questionarmo-nos essas coisas podem tornar 

o texto teatral mais acessível?

Teorias

Diniz (2010) descreve sucinta e claramente a classificação que aqui nos con-

vém expor rapidamente. Ela denomina como recriações, o conjunto formado 

por adaptação e apropriação. Baseando-se em Julie Sanders, designa a pri-



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meira como um texto que afirma seu parentesco com a matriz mais explici-



tamente, reinterpretando o original em novos contextos, enquanto a segunda 

(apropriação) viajaria para domínios e produtos culturais inteiramente di-

versos da obra precursora, afastando-se da fonte e reelaborando completa-

mente os termos do original. A autora traz um conceito de tradução que mui-

to nos compraz. Ela diz que “a tradução seria um tipo de recriação, distinto 

das adaptações e apropriações, pois, enquanto estas se afastam da matriz 

para se reinventar, a tradução reinventa-se ao se aproximar o máximo pos-

sível da matriz” (DINIZ, 2010, p. 125).

O que nos interessa, fundamentalmente, é a sistematização do tipo de 

trabalho que vem sendo realizado por Patrice Pavis, por Andréa Peghinelli, 

por Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, e outros estudiosos pelo mundo, que 

entendem a tradução do texto teatral, envolvendo, no campo de aplicação do 

próprio texto, o conceito de representabilidade (BASSNET, 2003) e de exe-

quibilidade cênica (BARBOSA, 2012). Nesse aspecto, acreditamos que o dire-

cionamento de Peghinelli e Barbosa, ao envolverem um corpo de artistas no 

processo de tradução, é o melhor caminho pra se alcançar um resultado mais 

eficaz, embora nosso objetivo não seja discutir qual é o melhor método de 

tradução, e sim, discutir a exequibilidade cênica desses métodos e como es-

ses textos produzidos são recebidos, sua fluência e sua relação com o que se 

espera da tradução desse gênero literário, para conseguir traçar algum perfil 

que auxilie o tradutor.

Bassnett é perspicaz ao questionar os problemas metodológicos da teoria 

da tradução, dizendo que ocorrem sempre a partir de um posicionamento 

empírico, quando deveriam ser norteados por estudos não empíricos, preci-

samente, o tipo de estudo mais valioso e mais necessário (2003, p. 137). Contudo, 

ela própria somente aponta problemas baseando-se no empirismo e na com-

paração de traduções diferentes sobre a mesma obra original, sem levantar 

qualquer tipo de proposição a respeito do que considera necessário acerca 

dos estudos tradutológicos.

Acreditamos que estruturar uma teoria sem percorrer os trabalhos já rea-

lizados não representa um processo sustentável, uma vez que é a partir da ob-

servação que se pode adotar uma mentalidade crítica capaz de vislumbrar uma 

nova perspectiva. Sem a observação do já realizado, não se pode chegar à ideia 

de algo que poderia ser melhorado. Ainda assim, não é nosso objetivo, neste 

trabalho, estabelecer contraposição de trabalhos de tradução realizados no 

Brasil, tentando analisar a aproximação dessas traduções com o que se espera 

de um texto teatral, contrapondo trechos traduzidos por diferentes pessoas, 

buscando o que de mais cênico pudermos encontrar nos trabalhos, especial-



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mente no que se refere à locução e compreensão textual. Não vamos nos ater 



ao julgamento da ‘qualidade literária’ do que já foi feito, mas esperamos che-

gar a uma conclusão que possa auxiliar o tradutor a abarcar a obra traduzida 

enquanto literatura acessível e enquanto texto teatral representável.

Partindo das estratégias catalogadas por Lefevere

2

 acerca da tradução de 



poesias, Bassnett diz que “as deficiências dos métodos que ele examina de-

vem-se a uma sobrevalorização de um ou mais aspectos do poema em detri-

mento do todo” (2003, p. 139), e, citando Popovič, concorda com uma relativa 

liberdade do tradutor a quem é permitido ‘diferir organicamente’ e ‘ser inde-

pendente’ quando busca essa independência em prol do original, tentando 

reproduzir uma obra viva. Bassnett declara que é importante primeiramente 

sobrepujar o eixo vertical problemático da teoria da tradução, em que o ori-

ginal “goza de um estatuto mais elevado do que o texto traduzido”, aceitando 

que “são inevitáveis as transformações expressivas” (2003, p. 141); mesmo 

crendo que é preciso cuidar, durante a tradução, para que o método aplicado 

não seja redutor ao ponto de obscurecer e enfraquecer a “agudeza do poema”. 

Para ela, “o êxito de uma tradução depende da familiaridade do leitor com 

um conjunto de sistemas de referência” (2003, p. 146), observando que, ape-

sar da liberdade do tradutor em transformar as propriedades semânticas do 

texto, é fundamental que não se pretenda “subvalorizar a força semântica do 

original” (2003, p. 147).

É preciso também ser criterioso na escolha adequada e equilibrada das 

palavras, para que a linguagem e o tom não se tornem tão distantes quanto 

o original; afinal, uma cultura vai se moldando na outra e ambas vão estabe-

lecendo uma mescla nessa interação, que é mais regida pela cultura de che-

gada do que pela cultura de origem, embora devamos ter a consciência de 

que essa “transferência cultural não apresenta um escoamento automático, 

passivo, de uma cultura a outra” (PAVIS, 2008, p. 3), pois as culturas, ao mes-

mo tempo, condicionam e são condicionadas pela ação social, “sendo-lhe cau-

sa e consequência” (PAVIS, 2008, p. 11).

A dinâmica interna da tradução de qualquer língua, seja ela antiga ou mo-

derna, está diretamente relacionada com seu ciclo sociocultural e “não há me-

lhor maneira de lutar contra convenções domésticas do que a adoção súbita 

de hábitos e convenções exóticas, como demonstram tanto as pseudotradu-

ções quanto um tipo específico de tradução que causa estranhamento” (LAMBERT, 

2011, p. 55). Não se trata apenas de questões comunicativas e linguísticas, pois 

as traduções de todas as línguas e em todas as épocas são “inevitavelmente 

influenciadas por normas de TODOS

3

 os tipos” (LAMBERT, 2011, p. 54) de sis-



temas inter-relacionados – a norma pode ser predominantemente linguística, 

2  1) Tradução fonêmica, que se volta 

especificamente para o som da língua 

de partida, tentando produzir uma 

paráfrase na língua de chegada. 2) 

Tradução literal, de forma que a 

tradução palavra por palavra acaba 

distorcendo o sentido e a sintaxe do 

original. 3) Tradução métrica, cujo 

critério dominante é a reprodução do 

metro. 4) De poesia para prosa, que 

‘distorce o sentido do valor comunica-

tivo e da sintaxe do texto original, 

embora não em grau tão elevado 

como na tradução literal ou métrica’. 5) 

Tradução rimada, em que o tradutor se 

submete a ‘uma dupla servidão: o 

metro e a rima’. 6) Tradução em verso 

branco, na qual ‘se acentuam as 

restrições impostas ao tradutor pela 

escolha da estrutura’, embora se 

obtenha maior rigor e literalidade. 7) 

Interpretação, em que se encaixam as 

versões e imitações (LEFEVERE, 1997, p. 

137-138).



3  Grifo do autor.

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religiosa, política, colonialista, etc. –, mas não podemos ignorar que já não se 



indaga hoje, nos Estudos da Tradução, se uma tradução é boa ou não, nem 

mesmo como traduzir, pois “já foi demonstrado várias vezes que as relações 

literárias entre tradições diversas seguem de forma bem sistemática as flutu-

ações das relações políticas” (LAMBERT, 2011, p. 52), especialmente controla-

das pelas classes dominantes dentro do sistema intelectual e do mecenato.

A tradução do teatro, embora alcançando maior prestígio a partir das pes-

quisas e projetos que vêm sendo trabalhados, ainda carece de uma teorização 

que possa abarcar tanto as posturas tomadas pelos tradutores, como uma 

perspectiva que valorize o critério de representabilidade, citado por Bassnett, 

que avalia a necessidade de “determinar a função do sistema da língua de par-

tida e procurar um sistema na língua de chegada que cumpra essa mesma 

função” (2003, p. 189), privilegiando a exequibilidade cênica (BARBOSA, 2012) 

e a ‘legibilidade’ da tradução (BERMAN, 2007), respeitando os elementos es-

senciais de origem, mas, por outro lado, adaptando-os conforme se faz ne-

cessário na língua e cultura de chegada, pois “cada época produz seus pró-

prios signos, que se manifestam em modelos sociais e literários” (BASSNETT, 

2003, p. 145). Nesse sentido, Meschonnic (2010) também afirma que o caráter 

do texto influencia o modo de se traduzir, e isso exige determinada compe-

tência. Assim, para traduzir teatro, infere-se a necessidade de competência, 

ou, no mínimo, envolvimento estreito com o universo teatral.



Tradução cênica e acadêmica: ideologias diferentes?

Entendemos que traduzir o teatro exige algo além da prática tradutória, o 

que podemos alcançar por meio de leituras de comentadores, filólogos e es-

tudiosos da teoria da tradução. É  indispensável, seguindo as orientações de 

Lambert (2011), assumir a importância do estudo acerca do autor, da época 

da obra a ser traduzida — incluindo sua literatura, cultura e política —, do 

aspecto social e da estratégia retórica que transitam de modo especial entre 

a obra original e a traduzida; tentando estabelecer, nas traduções já realiza-

das, um parâmetro analítico dos efeitos que tais estudos podem ter no resul-

tado final da obra traduzida.

Exige-se também, por outro lado, a prática e algum conhecimento teatral, 

para que haja maior conexão com a complexa função do texto, sem que as 

culturas de partida ou de chegada se imponham uma sobre a outra, uma vez 

que a “translação implica uma transferência cultural e linguística” (ROSAS, 

2003, p. 148). Por causa dessa funcionalidade textual, é importante vislum-

brar as perspectivas e estratégias de tradução a serem adotadas no processo, 

respeitando, especialmente, a “tensão dramática que também precisa ser le-


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vada em conta tanto na análise textual como em uma montagem” (SANTOS, 



2010, p. 23). É imprescindível, ainda, decidir para quem a tradução é destina-

da. Além disso, deve-se observar se a tradução será letra-a-letra (ipsis literis) 

e depois sofrerá alguma adaptação, ou se será realizada dentro dos padrões 

do escopo, levando em consideração que este escopo deve avaliar as expecta-

tivas do receptor final (ROSAS, 2003).

Pensando também nas questões culturais, é importante buscar uma lei-

tura global da obra não nos focando somente em um aspecto da peça, mas 

tratando de abarcar, tanto quanto possível, a maior quantidade de itens que 

podem ser privilegiados em uma tradução. Para Bassnett (2003, p. 145), a con-

centração em um aspecto particular do texto (a métrica, por exemplo) em 

detrimento de outros, “leva o tradutor a ignorar frequentemente que o texto 

literário é composto de complexos sistemas que extravasam as suas próprias 

fronteiras”. Se a leitura do tradutor desconsiderar a estrutura global da obra 

e sua relação com o tempo e o espaço em que foi produzida, os elementos es-

senciais de origem se perdem, pois “cada época produz seus próprios signos, 

que se manifestam em modelos sociais e literários” (BASSNETT, 2003, p. 145). 

Assim, cabe, justamente, respeitar, o mais possível, os complexos sistemas 

que tornam a tradução um ato não somente científico, mas político, social e 

cultural; sobretudo, pensando na ‘legibilidade’ da tradução (BERMAN, 2007, 

p. 66), observando o ‘tecido cultural das línguas de partida e de chegada’ 

(ROSAS, 2003, p. 134).

Para nós, o teatro representa a arte corporal, visual, tangível; representa 

também a capacidade de envolver o outro mais que individualmente, de erigir 

no coletivo as percepções do mundo e de materializar a dor e a alegria nesta 

percepção; é a expurgação através da letra e da poesia plenas de imagens, sons 

e gestos.  É, pois, uma arte que toca o ‘leitor’ enquanto está silencioso e parti-

cularmente despojado, mas que, quando se faz carne, modifica e interfere no 

real. Entendemos que o teatro – texto e encenação – deve ser uma arte que 

busca a atenção do espectador para arrebatá-lo de si, e para que ele possa se 

enxergar por meio dos acontecimentos que arrolam e fundam o ser fictício e 

o ser presentificado. O teatro é palavra viva, é som e cor, é a possibilidade ma-

nifesta diante dos olhos de quem o vê e ouve. É, portanto, no nosso entender, 

a mais bela e completa de todas as artes, uma vez que envolve todos os senti-

dos humanos. E cabe relembrar o que declarou Larbaud (2001, p. 67):

Cada texto tem um som, uma cor, um movimento, uma atmos-

fera que lhe são próprios. Para além do sentido material e literal, 

todo trecho literário, como todo trecho musical, tem um senti-

do menos aparente, e só ele cria em nós a impressão estética 



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desejada pelo poeta. Pois bem, esse é o sentido que é preciso 



restituir, e é sobretudo nisso que consiste a tarefa do tradutor.

Assim, a tradução do teatro nos permite abordar a literatura pelo viés da lín-

gua e da cultura, o que, por sua vez, envolve a ideologia acadêmica. O teatro 

tem sido traduzido por grandes estudiosos e grandes nomes; contudo, tais 

traduções apresentam certa defasagem no panorama contemporâneo dentro 

de uma análise voltada para a representação nos palcos, devido à sua sintaxe 

e semântica impróprias para a oralidade. É importante buscar minimizar o 

distanciamento entre as traduções acadêmicas e a execução cênica, além de 

oferecer uma perspectiva de tradução preocupada não somente com o texto 

literário e a beleza estética das palavras, mas também com o acesso do ator e 

da população em geral ao texto, com a comunicação interpessoal e a represen-

tação. Vários dos pressupostos teóricos nos quais nos fundamentamos foram 

sistematizados por Barbosa, que diz privilegiar “a elaboração de um texto em 

sua exequibilidade cênica” (2012, p. 14). Nesse sentido, entendemos que o es-

tudo da força da retórica, do poder imagético das palavras e do conjunto pa-

lavra-imagem-teatro se faz necessário no panorama contemporâneo. Para 

tanto, buscamos uma estreita relação entre a filologia, a teoria e a prática da 

arte tradutória, tal como Susan Bassnett (2003, p. 129) indica ser necessário.

Aristóteles, em sua 

Poética (1449a), abona nossos pressupostos de uma 

linguagem fluida e coloquial para o falar teatral grego, por exemplo. Ele afir-

ma que “quando apareceu o diálogo [no teatro], naturalmente encontrou-se 

o metro apropriado”, a saber, o iambo, ritmo que muito se aproximava das 

conversas ordinárias de uns com os outros. Evidentemente, quando o con-

texto exigia um tom mais solene, trocava-se o metro, e usava-se, por exemplo, 

o hexâmetro.

Hoje, nossos parâmetros são vários, e devemos, durante os processos de 

tradução, levar em consideração as palavras de Malhadas (2003, p. 43): “a di-

mensão visual do discurso teatral (expressão corporal, aparência do ator, ce-

nário, acessórios) torna imprescindível que, também ao ler uma peça, a co-

loquemos diante dos olhos, quando se quer apreender seu espetáculo”, mesmo 

que o discurso esteja apenas na dimensão verbal. Assim, ignorar ou exagerar 

na organização sintática e lexical de detalhes que outorgam à peça a visuali-

dade necessária durante o processo de leitura individual equivale à inobser-

vância do potencial artístico e representativo da obra.

Suh (2002) afirma que antes de meados da década de 1970, a crítica de 

tradução esteve centrada principalmente em uma noção idealizada e muitas 

vezes subjetiva de equivalência das partes do texto, em um procedimento 


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normativo e avaliativo, partindo do pressuposto de que esperava-se que o 



texto de chegada reproduzisse o texto original, desvios eram indesculpáveis, 

e, por isso, mantinha-se a atenção apenas na descoberta de omissões e im-

precisões no texto de destino. Essa crítica era frequentemente reducionista 

e seletiva, pautando-se sempre em discussões de textos individuais e no con-

fronto de passagens do original e da tradução em um esforço para demons-

trar a superioridade do texto-fonte e as evidentes deficiências do texto-alvo. 

Ainda assim, cabe-nos pesar a rejeição às críticas advindas  da análise com-

parativa e avaliativa textual em relação à descrição histórica, deslocando o 

foco da preocupação tradicional com a natureza reverenciada ou sagrada do 

texto-fonte para a aceitação do texto-alvo como um produto em si. Busca-se, 

atualmente, a relação além da transposição de textos, a tradução como me-

diadora cultural, desvinculando-se a noção de status da tradução.

Na tradução de teatro, especificamente, essa postura comparativa ainda 

é mais complicada, posto que na intenção do texto teatral, segundo Suh (2009), 

a dimensão estética da obra se concentra em várias pessoas que interveem, 

desde o tradutor/dramaturgo e o diretor, passando pelo iluminador, atores, 

figurinista, e outros interventores, até chegar ao espectador, que constrói 

significação a partir do conjunto de informação percebidas, e não apenas do 

texto. É preciso, então, considerar a cadeia de comunicação que se estabelece 

a partir de um texto teatral. Não se pode entender essa tradução como se en-

tende a tradução de um romance ou poesia, nos quais a cadeia comunicativa 

se vê mais delimitada, encontrando o receptor da mensagem sem passar por 

outros intervenientes, já que essas pessoas manipulam, adaptam e ajustam 

o texto, segundo as necessidades da performabilidade.

A partir dos postulados teóricos indicados, podemos constatar uma pre-

ocupação geral sobre o tema. Pode-se entender que não estão, necessaria-

mente, desvinculadas a escrita cênica e uma suposta tradução filológica ou 

acadêmica. Trata-se de um conjunto que se voltará para a elaboração de um 

produto final, preparado para um público final que deve ser projetado no iní-

cio da tradução, para que não se incorra em falhas comunicativas e se tenha 

a perda da construção de significado pelo público-alvo. Em resumo, não são 

ideologias divergentes, mas complementares, que, se associadas, podem ge-

rar os resultados que se espera de uma tradução de texto teatral, que leva em 

consideração a função desse texto.



Possibilidades

Poderíamos, para tentar responder a algumas das questões propostas, usar 

como argumento o fato de que o teatro não é lido por qualquer pessoa. Mas 


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Revista do Laboratório de Dramaturgia – LADI – UnB – Vol. 7, Ano 3

Dossiê

daí surge outra questão: Por que o teatro não é uma leitura disseminada? As 



mudanças que têm ocorrido no sistema educacional mundial desde as déca-

das de 80 e 90, e não pretendemos adentrar o tema, têm se voltado muito 

mais para fatores que vão além — ou aquém dependendo da perspectiva — 

do conhecimento dos cânones literários, e buscam uma abordagem que apro-

funde as competências e habilidades do estudante. Nesse contexto, construir 

pensamento crítico e tornar o aluno mais adaptável tornou-se mais impor-

tante que agregar-lhe montes de palavras desconhecidas, inclusive das lite-

raturas nacionais, que têm recebido reformulações e adaptações de lingua-

gem. Se a literatura nacional tem recebido tais reformulações, por que seriam 

usadas traduções de Shakespeare ou do teatro grego ou latino — somente 

para citar alguns exemplos consideráveis — que mal podem ser decodifica-

das, necessitando-se constantemente recorrer a um dicionário online para 

descobrir o significado de palavras como morosidades, acicates, maculada, 

sói, e muitas outras, que não são de todo desconhecidas, mas não alcançam 

o público mais jovem? Então o público a que se dirige a tradução é um públi-

co mais velho, com um conhecimento mais consolidado. Pode-se argumen-

tar: Mas é por meio dessa literatura com palavras cultas que os jovens apren-

derão. Disso vai depender a medida e a sensatez do tradutor para utilizar esse 

vocabulário. Se para leitura de uma página, o leitor tiver que recorrer ao di-

cionário duas vezes, em dez páginas ele já não conseguirá memorizar o sig-

nificado das vinte palavras. E então ele não aprendeu o novo vocabulário, e 

nem se interessou pela leitura. E isso por que estamos falando de leitura. No 

âmbito da representação a situação fica pior, haja vista a impossibilidade de 

se recorrer ao dicionário no momento. Na realidade, o que se pode notar é 

que atores e diretores mudam essas palavras, por que muitos deles também 

não se apropriaram do seu uso, e a palavra sai de suas bocas como se não car-

regasse sentido e emoção. É como afirmou Rónai (2012, p. 141): Essas obras 

“se tornaram clássicas exatamente por exercerem forte impacto na sensibili-

dade dos contemporâneos”, e, dessa forma, “para que nós experimentemos 

impacto semelhante, cumpre seja vazada a obra numa linguagem que iden-

tifiquemos como nossa”. 

Esse quadro pode e precisa ser reelaborado, ou melhor, o teatro grego já 

tem ressurgido com um novo vigor e tem se espalhado nas instituições de 

ensino do país. Se a partir da tradução da 



Medeia (2013), dirigida por Barbosa, 

podemos comprovar a disseminação do texto teatral grego por ter sido uma 

tradução mais conectada com seu tempo, e há escolas privadas que hoje exi-

gem a leitura desta obra, com essa tradução realizada nesses moldes, então 

podemos também acreditar que a mudança na perspectiva de tradução pode 


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Revista do Laboratório de Dramaturgia – LADI – UnB – Vol. 7, Ano 3

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disseminar muitas outras obras, sem diminuí-las em nada, mas, ao contrá-



rio, tornando-as maior. E mesmo que essa obra tenha trechos de difícil com-

preensão, e use um vocabulário rebuscado, não podemos desprezar sua po-

tencialidade cênica e a conexão que estabelece com a atualidade.

Assim, se hoje a leitura de algumas obras pelo corpo discente de nível fun-

damental e médio nas escolas é desprezada, haja vista a dificuldade de com-

preensão lexical e sintática, mesmo que pudéssemos defender a ideia de que 

justamente essa dificuldade traria mais riqueza linguística para os novos lei-

tores, nota-se que ao contrário de acrescentar, essa estratégia de tradução 

provoca afastamento e elitização de uma cultura que, certamente, tem muito 

a oferecer e a contribuir para o desenvolvimento tanto intelectual quanto so-

cial dos jovens.

Deste modo, deve-se atentar para o fato de que as obras teatrais sejam 

traduzidas com qualidade acadêmica e filológica, mas que sejam igualmente 

acessíveis para um público não elitizado. Acreditamos que uma opção não 

exclui a outra e que nosso propósito não é disparatado, uma vez que a com-

preensão do teatro, desde a Antiguidade, não se restringia a uma pequena 

parcela da sociedade, capaz de ler e escrever com erudição.

Esperamos colaborar para a exploração da encenação de peças teatrais na 

íntegra, sem cortes e adaptações, e contribuir para o estabelecimento de pres-

supostos teóricos diferenciais para a tradução teatral, pensando em estraté-

gias que sejam capazes de captar e expressar as necessidades e possibilidades 

da tradução do texto teatral, respeitando, nesse processo, a representação da 

atualidade, oferecendo textos de qualidade para a formação de um público 

crítico, e focalizando a capacidade dramática e corporal do texto, tanto no 

que diz respeito à tragédia, quanto no que se refere à comédia, abordando 

aspectos literários, linguísticos, estéticos; e, analisando a desenvoltura da pa-

lavra na boca do ator. Esse ideal se dá pela necessidade de uma constituição 

sólida, dentro da Teoria da Tradução, de um trabalho voltado exclusivamente 

para a tradução do teatro.

É dentro dessa percepção que se faz necessário observar o uso e a neces-

sidade, nas traduções, de dêiticos, pois o comportamento não-verbal frequen-

temente fornece um retorno interno que mostra para os participantes e o 

público como eles podem reagir em tal situação (LATEINER, 1998, p. 6); de 

pronomes pessoais específicos, localizações cênicas que se mostram por meio 

da fala, uma vez que o valor da evidência literária serve de chave para a per-

cepção em relação ao comportamento espacial (HOLOKA, 1992, p. 238); e de 

figuras de linguagem e pensamento nas traduções disponíveis num recorte 

temporal. É importante na tradução do texto teatral valorizar os efeitos des-



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ses usos, e elencar os principais elementos textuais que orientam especifica-



mente o ator e diretor no processo de representação para o público, além da 

expressão literária e corporal e da transmissão e recepção dos efeitos da arte 

retórica no ouvinte ou espectador. Isso pode ser entendido como estratégia 

de tradução, que alcança resultados mais claros e diretos e que resultam em 

leituras mais bem sucedidas e abrangentes de textos teatrais. Tradutores 

constantemente eliminam as muitas repetições desses dêiticos, por conside-

rarem desnecessários durante a leitura. Contudo, se durante a leitura cons-

trói-se a visualidade do texto teatral, ainda nessa perspectiva, a observação e 

manutenção são necessárias, especialmente para se deixar rastros e espaços 

vazios que são próprios do texto teatral, assim como para completá-los. Suh 

(2009, p. 30) afirma que “de todos os gêneros literários, o texto dramático é 

um texto incompleto por excelência, e cuja natureza incompleta tem uma in-

cidência significativa em sua tradução”.

Por outro lado, a formalização de leituras, com auxílio de atores e direto-

res de teatro, para que possam opinar sobre as facilidades ou dificuldades 

que encontram em diferentes tipos de textos, sobre a exequibilidade de tre-

chos selecionados mostrou-se peça fundamental para a construção de textos 

traduzidos harmonicamente, que conseguem associar fluidez cênica e lite-

rária. Este tipo de trabalho vem sendo feito e vem comprovando sua eficácia. 

Essa etapa do processo não consiste em apenas um experimento, mas em 

parte efetiva da criação de uma nova teoria do processo tradutório do teatro. 

Nesse contexto, os papéis de comunicação do tradutor dramaturgista e do 

diretor de teatro são distintos, porém complementares, posto que ambos têm 

propósitos semelhantes; assim, o ideal é a colaboração, desconsiderando-se 

a ideia de superioridade ou inferioridade entre ambos (SUH, 2009).

Nesse momento, cabe ressaltar nossa fé no fato de que, assim como afir-

mou Suh (2009, p. 35) o tradutor é um “especialista em comunicação e sua 

competência bicultural é uma base pré-requisito para o seu trabalho”. Não se 

trata apenas de traduzir o texto, mas de transpor a cultura, e para tanto é pre-

ciso entender que o público, bem como diretor, atores e demais intervenien-

tes do processo que envolve desde a escrita até a recepção, não tem a mesma 

visibilidade da cultura. Considerando-se esse fator especificamente, é neces-

sário transmiti-la de forma a torná-la compreensível, e nesse contexto, mui-

tas vezes as informações desconectam-se e passam a não constituir nenhum 

significado para a audiência, se não estabelecem similaridade com seu co-

nhecimento prévio de mundo para construir as novas significações.

Além disso, deve-se considerar as diferenças entre ler um texto, ou ouvi-

-lo e traduzir esse texto. A responsabilidade do tradutor está nessa interme-



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diação e, portanto, ele deve ser consciente dessa comunicação. O tradutor é 



um produtor e transformador de significados e, segundo Ottoni (2005) de-

ve-se entender o papel fundamental que as diferenças e semelhanças entre 

as línguas que se traduz exercem sobre a produção de sentidos. O tradutor é 

responsável por essa significação.

Obviamente, a escolha do tradutor, especialmente no que tange ao públi-

co a quem se dirige sua tradução, interfere na postura adotada no léxico, na 

sintaxe e em outros critérios que mantém no decorrer da construção do tex-

to de chegada. Mas cremos que a tradução do texto teatral parte do princípio 

da representação no palco e para qualquer público, já que o teatro, atualmen-

te, mesmo já sendo por si seletivo, não intenciona a seletividade. Daí a neces-

sidade de se buscar evitar interpolações desnecessárias, que se propõe, mais 

que nada, a demonstrar a intelectualidade do tradutor. Comunicar conteúdo 

e beleza do que se transmite na tradução não necessariamente exige palavras 

que não são palatáveis, ou construções sintáticas mais apropriadas para lei-

tura do que para a fala. O tradutor de texto teatral deve compensar quaisquer 

possíveis preconceitos e projeções inadequadas que ele próprio tenha encon-

trado no texto de origem para que o texto de chegada cumpra sua finalidade. 

Se o texto será lido ou representado, desde que tenha sido pautado na sua 

função, alcançará seu objetivo.

Algumas considerações

O panorama contemporâneo tem se voltado para uma nova diretriz no que 

diz respeito à tradução e vem, paulatinamente, desvencilhando-se do antigo 

perfil que até então tem se espelhado basicamente na erudição. De fato, tal 

postura tradutória tem tornado não só as obras mais antigas, como também 

as suas traduções, cada vez mais distantes no tempo e no espaço, já que a com-

preensão se vê dificultada segundo a escolha lexical e sintática, ou, observan-

do a partir de outro aspecto, segundo o público a quem o tradutor se dirige.

A exequibilidade cênica de muitos textos teatrais não se mostra sustentá-

vel, justamente porque os tradutores não se relacionam e não entendem o 

universo teatral. Traduz-se teatro da mesma forma que se traduz romance ou 

poesia, ignorando-se a função do texto, e muitas vezes também, cabe dizer, 

ignorando-se o público que receberá a obra. Rónai (2012) afirma que é uma 

falácia crer que se aprende tradução sem traduzir, somente através de algum 

manual, e que a tradução, muitas vezes, escapa de qualquer sistematização. 

Na realidade, quando estamos diante do texto, lidando com suas dificuldades, 

ou melhor, com a dificuldade de transpor a cultura e o texto de origem para 

o de chegada, é que se percebe as diretrizes, as nuances suaves e também a 



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força do texto, e, nesse sentido, para a tradução do texto teatral, tem-se ainda, 



além do texto de origem e de chegada, o universo teatral a se observar.

Assim, consideramos que alguns aspectos devem ser observados na tra-

dução de um texto teatral, não como um manual a ser seguido, mas como 

suporte ao tradutor: 1) A função do texto. O texto teatral é escrito para ser fa-

lado, para ser representado, e mesmo que seja lido após a escrita, ele deve 

respeitar prioritariamente sua função de representabilidade. 2) O público a 

quem o texto pretende alcançar. Quando uma obra é publicada, deve-se ter 

em conta quem ela vai alcançar e quais são nossos objetivos na tradução. 3) 

A forma como a cultura de origem será levada à cultura de chegada, pois há 

que se considerar constantemente a manutenção do vínculo do conhecimen-

to de mundo do receptor da mensagem com o que está sendo apresentado. E 

nesse ponto, cabe ainda a ponderação cuidadosa acerca da proposta de es-

tranhamento trazida por Lambert (2008). Estranhamento demais corta o elo 

estabelecido com o receptor da mensagem. Por isso deve-se ter em conta se 

sobram códigos que permitam uma compreensão dos signos suficiente para 

não desconectar a audiência. É certo, como afirmou Ubersfeld (2005), que 

uma peça pode ser entendida sem que se compreenda perfeitamente todas 

as alusões de outros códigos culturais; contudo, cremos que há necessidade 

de ponderação, como dissemos, quanto à medida em que se explora estra-

nhamentos e alusões. 4) Os aspectos textuais próprios do teatro, que em um 

texto de romance e poesia podem parecer exagerados ou inconvenientes, mas 

que são absolutamente necessários na construção da visualidade do texto te-

atral. 5) O rebuscamento desnecessário que não convém à oralidade. É pre-

ciso tomar cuidado com vocabulários e interpolações constantes que inter-

ferem na compreensão rápida e dinâmica necessária a esse tipo de texto. O 

texto teatral é ágil, sem perder profundidade. Essa agilidade pode se ver apa-

gada dependendo das escolhas do tradutor. 6) O conhecimento e a aproxima-

ção com o universo teatral, bem como a colaboração com diretores e atores, 

que vivem o texto que é objeto do tradutor. Uma palavra que um ator consi-

dera difícil de pronunciar no palco pode ser muito boa para se usar na poesia 

ou no romance, mas não é apropriada para o texto teatral. O mesmo se aplica 

para as construções sintáticas complexas. Lembremos Aristóteles e a aproxi-

mação da linguagem ordinária.

São esses detalhes que, quando observados, podem levar o tradutor de te-

atro a um passo adiante daquilo que Ricœur (2012) chamou de intraduzível, 

da pluralidade das línguas, com seus recortes fonéticos, articulatórios, lexi-

cais, de significações verbais, de sinônimos, de sintaxe, que induzem a re-

composição de um novo discurso; um discurso imbuído de cultura e de visões 



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de mundo diferentes. Há que se abandonar o dilema da traição na tradução, 



posto que, como afirma o autor, “não existe critério absoluto do que seria a 

boa tradução” (2012, p. 46).

Sem querer que nossas considerações sejam vistas como imposições à 

prática tradutória, o que se pretende aqui é, a partir de nossas próprias ex-

periências com a tradução do texto teatral, trazer aspectos que nos parece-

ram eficientes no processo tradutológico. A conexão com o universo teatral, 

com a profundidade dos sistemas de representação que se dão no palco, com 

a fluência das palavras ditas em voz alta – não apenas uma palavra, mas uma 

oração, um período que pode soar confuso ao se ouvir, mas que são absolu-

tamente compreensíveis na leitura – e a necessidade de observação acerca 

das ferramentas utilizadas para transpor a cultura de origem devem assumir 

papel preponderante na tradução desse gênero textual. Quando se opta por 

traduzir teatro, acreditamos que a audição vem antes da leitura, haja vista 

que o uso de dêiticos, pronomes, uma boa pontuação, indicam o caminho in-

terpretativo para os leitores e para que possam construir mentalmente as 

imagens. Isso não exclui a importância do rigor acadêmico, mas, pelo con-

trário, mescla-se com ele. Para que uma tradução tenha suporte acadêmico 

não significa que ela tenha que ser rebuscada e repleta de inversões sintáti-

cas, ou coberta pela ‘aura’ intelectual que muito mais afasta o receptor que o 

aproxima. Antes, o rigor acadêmico é a base para que o tradutor compreenda 

a diferença entre os gêneros que ele traduz, a função do texto, e, finalmente, 

para que possa escolher a intencionalidade do texto a ser produzido e o pú-

blico a que se destina sua tradução. Cremos, finalmente, que esses são os ele-

mentos que podem tornar o texto teatral mais acessível.



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Suh%20Joseph%20Che.PDF Acesso em 10/04/2018.

UBERSFELD, Anne.

 Para ler o teatro. Tradução José Simões. São Paulo: 

Perspectiva, 2005.



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