Poemas negros jorge de lima


REI É OXALÁ, RAINHA É IEMANJÁ



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REI É OXALÁ, RAINHA É IEMANJÁ

Rei é Oxalá que nasceu sem se criar.

Rainha é Iemanjá que pariu Oxalá sem se manchar.

Grande santo é Ogum em seu cavalo encantado.

Eu cumba vos dou curau. Dai-me licença angana.

Porque a vós respeito,

e a vós peço vingança

contra os demais aleguás e capiangos brancos.

Agô!

que nos escravizam, que nos exploram,



a nós operários africanos,

servos do mundo,

servos dos outros servos.

Oxalá! Iemanjá! Ogum!

Há mais de dois mil anos o meu grito nasceu!


Outros poemas do livro que podem ser lidos pelo tema do sincretismo ou das religiões afro-brasileiras, que fazem referência aos deuses, mitos, lendas, e entidades como Oxalá, Iemanjá, Exu, Oxóssi, Xangô, Ogum, entre outros:

“O Medo”, “Obambá é batizado”; “Quando ele vem”; “Xangô”; “Janaína”; “Quichimbi sereia negra”; “Benedito Calunga”, “Exu comeu tarubá”, “Poema de Encantação”, “Diabo Brasileiro”, ”Bicho Encantado”, “Bahia de Todos os Santos” e indiretamente em outros poemas.

Note-se que em todos esses poemas a linguagem utilizada é muito próxima da transcrição da oralidade e de termos típicos do iorubá e de outras línguas de origem africana.


FOI MUDANDO, MUDANDO


O poema indaga a um interlocutor que (pode ser o próprio país) quem teria formado a sua alma, o modo de ser, de rir de andar, a pele, o sangue, os pés (metonímias do povo brasileiro).

No seu questionamento a esse interlocutor, o eu lírico faz a seguinte pergunta: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Na pergunta do eu lírico, a resposta já está presente: foram exatamente as três raças que foram “mudando, mudando” e se transformaram numa única raça.

Podemos constatar essa resposta pelos próprios elementos que são colocados em dúvida: o corpo, a cultura, a linguagem, a comida, a história, a religião, enfim, a mescla das três raças (cabelo escorrido, orgulho de branco, algemas...).

Portanto, o poema versa sobre a miscigenação, o amálgama das três raças, que foram mudando o Brasil desde o seu descobrimento (da era cristão de 1500) até os dias atuais (até esses tempos severos de hoje).

Outros poemas do livro meditam sobre os processos históricos de formação cultural e étnica do Brasil como “Democracia”, “Olá Negro”, “Passarinho cantando”, “Pai João”, entre outros.




Tempos e tempos passaram

por sobre teu ser.

Da era cristã de 1500

até estes tempos severos de hoje,

quem foi que formou de novo teu ventre,

teus olhos, tua alma?

Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

Os modos de rir, o jeito de andar,

pele,


gozo,

coração...

Negro, índio ou cristão?

Quem foi que te deu esta sabedoria,

mais dengo e alvura,

cabelo escorrido, tristeza do mundo,

desgosto da vida, orgulho de branco, algemas, resgates, alforrias?

Foi negro, foi índio ou foi cristão?

Quem foi que mudou teu leite,

teu sangue, teus pés,

teu modo de amar,

teus santos, teus ódios,

teu fogo,

teu suor,

tua espuma,

tua saliva,

teus abraços, teus suspiros, tuas comidas,

tua língua?

Te vendo, medito: foi negro, foi índio ou foi cristão?

A NOITE DESABOU SOBRE O CAÍS


“A noite desabou sobre o cais”, teríamos a impossibilidade de achar caminho (“Capitão-mor perdi-me no mar. / Onde é que fica a minha ilha? ”), o trabalho e sua angústia (“A noite desabou sobre o cais / Rangem guindastes na escuridão”), o trabalhador e o escravo (“Donde é que vêm essas naus? / Serão caravelas? Serão negreiros? ”)

Há uma forte utilização de ritmo e cadência, nesse poema. É por meio da reiteração dos versos e estrofes que sentimos o universo soturno da noite, que cai pesadamente sobre o cais, mesclando, indistintamente, caravelas e negreiros, mar tenebroso, perder-se no mar, e a pergunta por um lugar que não se consegue achar: “Onde é que fica a minha ilha? ” A dificuldade de vislumbrar a “ilha”, de localizar um chão próprio num país, parece ter alguma vinculação também com o trabalho e sua penúria, com o degredo, com a condição livre e escrava do trabalho, ambas soturnas. Como se esses aspectos corroessem a geografia, o direcionamento, resultando numa imagem escurecida, angustiosa: Capitão-mor que noite escura desabou sobre o cais, desabou nesse caos!

“A noite desabou sobre o cais” parece ser assim, também, sobre a impossibilidade de desembarcar, de escolher uma terra, um chão. Repare-se que as embarcações são ainda, caravelas e negreiros – como se o trabalho, num país com essa origem, tivesse sempre essa mácula, mesmo quando se vincula a tempos mais modernos (marcados pelos guindastes).

Ou como se os temas e motivos caminhassem sobre- pondo-se indistintamente, uns aos outros: a ilha de São Brandão, Talvez para as Índias, terras de Santa Cruz, o Congo, Castelo de Sagres (referência à escola de navegação), para acabar sempre na noite escura: o triste destino dos que cruzaram os mares em navios negreiros ou caravelas, os desterrados, os degredados, para o trabalho duro e desumano, fazendo parte da triste história dos povos africanos.


A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Para onde vão essas naus?
Talvez para as Índias.
Para onde vão?

Capitão-mor, capitão-mor,


quereis me dizer onde é que fica
a ilha de São Brandão?

A noite desabou sobre o cais


pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Donde é que vêm essas naus?

Serão caravelas? Serão negreiros ?


São caravelas e negreiros.
Há sujos marujos na caravelas.
Há estrangeiros que ficam negros
de trabalharem no carvão.
Homens da estiva trabalham, trabalham,
sobem e descem nos porões,
Para onde vão essas naus ?

Saltam emigrantes embuçados,


mulheres, crianças na escuridão.
De onde vêm essa gente ?
Não há mais terras de Santa Cruz gente valente !

Ó indesejáveis qual país,


qual o país que desejais ?
Como é o nome dessas naus
que não se lê na escuridão ?
Vão descobrir o Preste João ?
Na minha geografia existe apenas 
perdido no mar o cabo Não.

A noite desabou sobre o cais


pesada, cor de carvão.

Essas naus vão para o Congo ?


Castelo de Sagres ficou aonde ?
Capitão-mor onde é o Congo ?
Será no leste, no mar tenebroso ?
Capitão-mor perdi-me no mar.
Onde é que fica a minha ilha ?

Para onde vão os degredados,


os que vão trabalhar dentro da noite,
ouvindo ranger esses guindastes ?
Capitão-mor que noite escura
desabou sobre o cais,
desabou nesse caos!

MADORNA DE IAIÁ


Madorna é um termo muito utilizado no Nordeste, é o mesmo que cochilo, modorra, no caso do poema a preguiça, a sesta, o sono da tarde.

A moça branca, a sinhazinha ou a Iaiá (tratamento dado às moças e meninas na época da escravidão), está na rede, enquanto a sua mucama (escrava doméstica, criada, e também pode ter o sentido de escrava amante de seu senhor) está balançando a sua rede e cantando um lundum (ou lundu, uma música e a correspondente dança de origem africana), mas o lundum é tão molengo que a moça tem vontade de dormir: a pergunta do eu lírico “com quem” introduz a nota erótica do poema: no sono, sonho da tarde, passa a dar “calor”, “suor”, a Iaiá tira a camisa, ou seja, é como se a música da mucama despertasse os sonhos e desejos eróticos da sinhá. Outro indício de erotismo está no embalo da rede, no “Ram-rem” da rede (onomatopeia).

A mucama faz tudo para não acordar a sinhá, para de cantar, de balançar a rede, mas não há mais jeito, a sensualidade do canto da mucama foi toda para o sono da Iaiá, que ela sem acordar “se coça, se estira, se abre toda” e “sonha com quem?”

O ritmo lento do poema lembra a própria preguiça, o balanço lento da rede, a música entoada pela mucama (tão bambo, tão molengo, tão dengoso). Assim como em outros poemas, a música está presente como elemento da raça negra (“Pra donde que você me leva”, “Retreta do Vinte”, entre outros)

Há uma incompatibilidade no casamento do aspecto entre cena e a realidade: a relação de dominação, e nesse sentido, de velada violência – entre mucama e iaiá (a escravidão, e seus desdobramentos, no século XX) que parece estar omitido no poema, pelo quadro, pela música e pelo erotismo.

Iaiá está na rede de tucum.

A mucama de Iaiá tange os piuns,

balança a rede,

canta um lundum

tão bambo, tão molengo, tão dengoso,

que Iaiá tem vontade de dormir.
Com quem?
Ram-rem.
Que preguiça, que calor!

Iaiá tira a camisa,

toma aluá,

prende o cocó,

limpa o suor,

pula pra rede.


Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!

Que vontade doida de dormir...


Com quem?
Cheiro de mel da casa das caldeiras!

O saguim de Iaiá dorme num coco.


Iaiá ferra no sono,

pende a cabeça,

abre-se a rede,

como uma ingá.

Pára a mucama de cantar,

tange os piuns,

cala o ram-rem,

abre a janela,

olha o curral:

— um bruto sossego no curral!


Muito longe uma peitica faz si-dó...

si-dó... si-dó... si-dó...


Antes que Iaiá corte a madorna,

a moleca de Iaiá

balança a rede,

tange os piuns,

canta um lundum

tão bambo,

tão molengo,

tão dengoso,

que Iaiá sem se acordar,

se coça,

se estira

e se abre toda, na rede de tucum.



Sonha com quem?

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