Poemas negros jorge de lima



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Outra Negra Fulô, de Oliveira Silveira

O sinhô foi açoitar


a outra nega Fulô
- ou será que era a mesma?
A nega tirou a saia
a blusa e se pelou
O sinhô ficou tarado,
largou o relho e se engraçou.
A nega em vez de deitar
pegou um pau e sampou
nas guampas do sinhô.
- Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!,
dizia intimamente satisfeito
o velho pai João
pra escândalo do bom Jorge de Lima,
seminegro e cristão.
E a mãe-preta chegou bem cretina
fingindo uma dor no coração.
- Fulô! Fulô! Ó Fulô!
A sinhá burra e besta perguntava
onde é que tava o sinhô
que o diabo lhe mandou.
- Ah, foi você que matou!
- É sim, fui eu que matou –
disse bem longe a Fulô
pro seu nego, que levou
ela pro mato, e com ele
aí sim ela deitou.
Essa nega Fulô!Essa nega Fulô!

Duas importantes figuras na cultura afro-brasileira suspiram esses versos de exaltação à Fulô: “o velho pai João” e “a mãe-preta”. Ambos “intimamente satisfeitos” se orgulham do que vêem e testemunham tudo “pra escândalo do bom Jorge de Lima/ seminegro e cristão”.

O testemunho dos dois é importante para que não falseiem novamente a história de Fulô, que nesta nova versão não demonstra fragilidade ou servilismo.

A sinhá, ao invés de ser retratada como uma vítima da sensualidade de Fulô e do suposto comportamento de mero paciente do sinhô no ato sedutor desta é caracterizada como “burra e besta”. Se na versão de Jorge de Lima, Fulô recebe os atributos de quem não possui cultura ou história, nesta, a sinhá é lesada pela sua falta de discernimento.

Quando ela pergunta sobre seu sinhô acusando-a do crime, esta lhe responde de forma assertiva e sem constrangimentos, ela ganha voz e assume seu ato “- É sim, fui eu que matou”, não se comportando de forma serviçal, demonstrando autonomia com relação ao que fez. E sua autonomia se estende à escolha de seu parceiro sexual. Ao final, ela foge com “seu nego, que levou/ ela pro mato, e com ele/ aí sim ela deitou”.
Chamando a negra Fulô!)

Cadê meu frasco de cheiro

Que teu Sinhô me mandou?

— Ah! Foi você que roubou!

Ah! Foi você que roubou!
Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


O Sinhô foi ver a negra

levar couro do feitor.

A negra tirou a roupa,

O Sinhô disse: Fulô!

(A vista se escureceu

que nem a negra Fulô).


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê meu lenço de rendas,

Cadê meu cinto, meu broche,

Cadê o meu terço de ouro

que teu Sinhô me mandou?

Ah! foi você que roubou!

Ah! foi você que roubou!
Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


O Sinhô foi açoitar

sozinho a negra Fulô.

A negra tirou a saia

e tirou o cabeção,

de dentro dêle pulou

nuinha a negra Fulô.


Essa negra Fulô!

Essa negra Fulô!


Ó Fulô! Ó Fulô!

Cadê, cadê teu Sinhô

que Nosso Senhor me mandou?

Ah! Foi você que roubou,

foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!



O poema trata do desaparecimento dos banguês, tipo de engenho de cana-de-açúcar a vapor que utiliza o bagaço de cana como combustível, que foram substituídos pelas usinas, de capital americano, pela mecanização (a usina Leão dos USA);

O poema faz prosopopeias para dizer que a usina é forte, mas para o eu lírico, a usina é triste, pois acabou com os banguês

Compara a usina com um templo evangélico, as igrejas sem sino, fazendo referência ao protestantismo dos americanos;

Outra referência ao estrangeiro é Mister Cox, que acaba com tudo, pois o que interessa é o dinheiro.

A partir daí o eu lírico desfila lembranças, todas as coisas que acabaram com a chegada da usina: a alegria das bagaceiras, os senhores de engenho, os trabalhadores dos banguês, o açúcar, o mel, a cachaça, os pães, os vendedores, os pregões, as comidas, as sinhás nas fazendas, os tachos, os nomes dos banguês da sua infância, entre tantas outras coisas que deixaram de existir e causam tristeza e saudades do eu lírico.
BANGUÊ
Cadê você meu país do Nordeste

que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra?

Ah! Usina, você engoliu os banguezinhos do país das Alagoas!

Você é grande, Usina Leão!

Você é forte, Usina Leão!

As suas turbinas têm o diabo no corpo!

Você uiva!

Você geme!

Você grita!

Você está dizendo que U.S.A é grande!

Você está dizendo que U.S.A. é forte!

Você está dizendo que U.S.A. é única!

Mas eu estou dizendo que V. é triste

como uma igreja sem sino,

que você é mesmo como um templo evangélico!

Onde é que está a alegria das bagaceiras?

O cheiro bom do mel borbulhando nas tachas?

A tropa dos pães de açúcar atraindo arapuás?

Onde é que mugem os meus bois trabalhadores?

Onde é que cantam meus caboclos lambanceiros?

Onde é que dormem de papos para o ar os bebedores de resto

[de alambique?

E os senhores de espora?

E as sinhás-donas de cocó?

E os cambiteiros, purgadores, negros queimados na fornalha?

O seu cozinhador, Usina Leão, é esse tal Mister Cox que tira

[da cana o que a cana não pode dar

e que não deixa nem bagaço

com um tiquinho de caldo


Cadê os nomes de você, banguê?

Maravalha,

Corredor,

Cipó branco,

Fazendinha,

Burrego-dágua,

Menino Deus!

Ah! Usina Leão, você engoliu

os banguezinhos do país das Alagoas!

Cadê seus quilombos com seus índios armados de flecha,

com seus negros mucufas que sempre acabavam vendidos,

tirando esmola para enterrar o rei do Congo?

“Folga negro

Branco não vem cá!

Si vinhé,

Pau há de levá!”

Você vai morrer, banguê!

Ainda ontem sêo Major Totonho do Sanharó

esticou a canela.

De noite se tomou uma caninha

pra se ter força de chorar.

E se fez sentinela.

E você, banguezinho que faz tudo cantando

foi cantar nos ouvidos do defunto:

“Totonho! Totonho!

Ouve a voz de quem te chama

vem buscar aquela alma

que há treis dias te reclama!”

Banguê! E eu pensei que estavam

cantando nos ouvidos de você:

Banguê! Banguê!

Ouve a voz de quem te chama!”



para as abelhas chupar!

O meu banguezinho era tão diferente,

vestidinho de branco, o chapeuzinho do telhado sobre os olhos,

fumando o cigarro do boeiro pra namorar a mata virgem.

Nos domingos tinha missa na capela

e depois da missa uma feira danada:

a zabumba tirando esmola para as almas;

e os cabras de faca de ponta na cintura,

a camisa por fora das calças:

“Mão de milho a pataca!”

“Carretel marca Alexandre a doistões!”

Cadê você meu país de banguês

com as cantigas da boca da moenda:

“Tomba-cana João que eu já tombei!”

E o eixo de maçaranduba chorando

talvez os estragos que a cachaça ia fazer!

E a casa dos cobres com o seu mestre de açúcar potoqueiro,

com seu banqueiro avinhado

e as tachas de mel escumando,

escumando como cachorro danado.

E o banguê que só sabia trabalhar cantando,

cantava em cima das tachas:

“Tempera o caldo mulher que a escuma assobe...”

Cadê a sua casa-grande, banguê,

com as suas Dondons,

com as suas Tetês,

com as suas Benbens,

com as suas Donanas alcoviteiras?

Com seus Totôs e seus Pipius corredores de cavalhada?

E as suas molecas catadoras de piolho,

e as suas negras Calus, que sabiam fazer munguzás,

manuês,


cuscuz,

e suas sinhás dengosas amantes dos banhos de rio

e de redes de franja larga!

ZEFA LAVADEIRA

(Trecho de A mulher obscura)
Uma trouxa de roupa é um mundo animado de anáguas, de corpinhos, de fronhas, de lençóis e toalhas servis; em resumo: dos homens e suas preocupações.

E qual é a maior força desse mundo? Onde o segredo das suas atividades?

— Olha o amor, Zefa, — olha os lençóis — torna-nos se­melhantes aos deuses, faz vibrar em nós o poema dos plasmas que neles se geraram. Por eles, retrocedendo pelo caminho de certas memórias obscuras, voltamos às Formas primeiras, às Energias inteligentes.

E desfazendo aquela trouxa de roupa com o desembaraço de Jeová, compondo e recompondo um caos, mostra-me peça por peça, todas aquelas forças mencionadas, lodos genésicos, ou salivas do Espírito que adejou sobre as águas.

Mas Zefa deu um muxoxo, arrepanhando as fraldas, arras­tando os pés. Zefa não tinha antenas para a torrente declama­tória interior de minha juventude em dias de convalescença.

Pela vereda que vinha do rio, surgiu cantarolando uma cafuza nova, com o pote à cabeça, o braço direito erguido, segu­rando a rodilha.

E senti-a em tudo, — na algazarra dos ramos, na toada das águas despenhadas, nos vegetais variegados como arraiais, no tumulto dos seres que sofrem, amam e se perpetuam corren­do a vida.

Josefa — lavadeira, porque se julga a sós, vai despindo as belezas selvagens de ninfa cafuza.

No remanso em que bate a roupa, há bambus e ingazeiros pelas margens. Josefa entra o caudal até as coxas morenas, a camisa arregaçada, o cabeção de crochê impelido pelos seios duros, tostados de soalheiras.

O braço valente arroja o pano contra a pedra de bater, e a axila cobre-se e descobre-se, piscando a tentação de arrochos e rendições cheias de saciedades. Aqui, toda lavadeira de rou­pa é boa cantaderia. A cantiga é uma corruptela de velhas toa­das num tom langoroso, alimentado de sofreguidões, de de­sejos incontidos, e de lamentações incorrespondidas.

Depois de lavar a roupa dos outros, Zefa lava a roupa que a cobre no momento. Depois, deixa-se corando sobre o capim. Então Zefa lavadeira ensaboa o seu próprio corpo, vestido do manto de pele negra com que nasceu. Outras Zefas, outras negras vêm lavar-se no rio. Eu estou ouvindo tudo, eu estou enxergando tudo. Eu estou relembrando a minha infância. A água, levada nas cuias, começa o ensaboamento; desce em re­gatos de espuma pelo dorso, e some-se entre as nádegas rijas. As negras aparam a espuma grossa, com as mãos em concha, esmagam-na contra os seios pontudos, transportam-na com agilidade de símios, para os sovacos, para os flancos; quando a pasta branca de sabão se despenha pelas coxas, as mãos côncavas esperam a fugidia espuma nas pernas, para conduzi-la aos sexos em que a África parece dormir o sono temeroso de Cam.

Cam é um dos filhos de Noé, que, ao ver a nudez do pai embriagado e denunciá-la aos irmãos, foi reduzido à condição de escravo desses por maldição paterna. À descendência camita, correspondente ao povo africano, caberia expiar a culpa de seu antepassado, reduzida à condição escrava.

O poema é narração de uma cena típica do Nordeste, as lavadeiras no rio em seu ofício, mas culmina com a sexualização do corpo feminino, como ocorre em outros poemas: Essa negra fulô”, “O banho das negras”, “Madorna de Iaiá”, “Ancila Negra”, entre outros. Alguns desses poemas trazem à tona lembranças afetivas da convivência com amas e criadas negras e não escondem o erotismo que as mulheres negras lhe provocam.





O poema Passarinho cantando parece resumir de maneira bem modernista a miscigenação das raças brasileiras.

Homens e mulheres que vieram da África para o Nordeste vão se misturando, se amancebando, se casando, gerando mestiços, em muitas gerações, levando no sangue marcas dos seus antepassados: cozinheiras, mucamas, senhores de engenho, até com o boto há descendentes (de acordo com a lenda, um boto cor-de-rosa sai dos rios amazônicos nas noites de festa junina. Com um poder especial, consegue se transformar num lindo, alto e forte jovem vestido com roupa social branca. Ele usa um chapéu branco para encobrir o rosto e disfarçar o nariz grande. Vai a festas e bailes noturnos em busca de jovens mulheres bonitas. Com seu jeito galanteador e falante, o boto aproxima-se das jovens desacompanhadas, seduzindo-as. Logo após, consegue convencer as mulheres para um passeio no fundo do rio, local onde costuma engravidá-las. Na manhã seguinte volta a se transformar no boto.)  

Dos casamentos saem doceiras, rainhas, cangaceiros, índias, brasileiras, cristãos, malandros, maquinistas, freiras, pai de santo, e até uma que nasceu em Londres e é parente do Rei.

Essa enumeração caótica, num ritmo frenético, serve para demonstrar o ritmo da miscigenação no Brasil, como se não fosse mais capaz de identificarmos quem é branco, negro ou índio, cristão ou não, pobre ou rico. Lembra o poema “Olá Negro” e outros que dizem respeito à mistura de raças no Brasil.

No final, temos o passarinho que ficou órfão, cantando sozinho com suas penas, simbolizando a dispersão racial e social dos descendentes da colonização brasileira.
PASSARINHO CANTANDO
Congos, cabindas, angolas,

também de Cacheo e de Bissao,

Maranhão, Pernambuco, Pará,

Fernando Pó, São Tomé, Ano Bom,

Serra Leoa, Serra Leoa, Serra Leoa!

Cabo Verde, Moçambique,

duas cozinheiras, três belas mucamas, óleo de coco,

(o boto também gosta de teu sangue Sudão).

Senhor Manuel Teixeira dos Santos

vem de redingote, suíças e procuração.

Ana Maria doceira de meu pai

amancebou-se com o alferes;

na segunda geração:

nem culatronas, nem pés apalhetados,

nem panos-da-costa, nem figas, nem aluá.

Na terceira nasceu Maricota, filha-de-santo,

checheré, rainha suicidou-se com fogo.

Deixou uma filha sagrada com água benta,

fechada com mandinga, branca, casada, com chácara.

Há na sua pele três estrelas marinhas, duas estrelas-d'alva,

a Lua, a Água-viva, a Fome de abraços.

Há no seu sangue:

trê moças fugidas, dois cangaceiros,

um pai-de-terreiro, dois malandros, um maquinista,

dois estourados.

Nasceu uma índia,

uma brasileira,

uma de olhos azuis,

uma primeira comunhão,

uma que deu seus cachos ao Senhor da Paixão,

uma que tinha ataques,

uma que foi ser freira,

uma que nasceu em Londres e é parenta do Rei.

O passarinho ficou órfão

cantando, catando penas só.


OLÁ NEGRO


Último poema do livro. Trata do dilema entre o branqueamento da raça e a perpetuação de uma “alma negra”.

Mesmo após gerações de mestiçagem, mantem-se uma memória ancestral, personificada no poema nos negros ancestrais: Pai-João, Mãe Negra, Fulô, Zumbi, no escravo, no negro fugitivo, no de Cabinda, do Congo, ioruba, nos negros que trabalharam no Brasil e nos Estados Unidos. É nesse sentimento de memória da raça que a raízes africanas devem se fortalecer, por exemplo, na sobrevivência das suas músicas como o jazz, o blues, os lundus, na sua religião, na sua alegria.

O poema diz que a raça que o enforca (o branco), enforca-se no seu tédio, ou seja, os brancos são uma raça triste, mostrando um conflito de raças, de grupos étnicos, de gerações, de uma cultura branca que tenta apagar uma cultura negra, mas que a cultura negra deve resistir e resistirá, o próprio vocativo que é o título do poema, saúda o negro para lembrar as suas origens. O poema se encerra com uma gargalhada da raça negra, que metaforicamente seria o dia nascendo, destacando a alegria da raça negra. (sinestesia).

Outros poemas do livro também tratam do processo de branqueamento, como “Pai João”, “Passarinho Cantando”, “Foi Mudando, Mudando” entre outras referências da miscigenação.

Zumbi (Serra da Barriga, 1655 — Serra Dois Irmãos, 20 de novembro de 1695) foi o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos do período colonial. Zumbi nasceu na então Capitania de Pernambuco, na serra da Barriga, região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no estado brasileiro de Alagoas. O feriado da Consciência Negra, 20 de novembro, é o dia da morte de Zumbi dos Palmares.

Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e a quinta


gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar tua cor!
E as gerações dessas gerações quando apagarem não apagarão 

de suas almas, a tua alma , negro!


Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi,
negro-fujão, negro cativo, negro rebelde
negro cabinda, negro congo, negro ioruba,
negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
para o tronco, para o colar de ferro, para a canga
de todos os senhores do mundo;
eu melhor compreendo agora os teus blues
nesta hora triste da raça branca, negro!

Olá, Negro! Olá, Negro!

A raça que te enforca, enforca-se de tédio, negro!
E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes,
com os teus sons, com os teus lundus!
Os poetas, os libertadores, os que derramaram
babosas torrentes de falsa piedade
não compreendiam que tu ias rir!
E o teu riso, e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade
mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades!

Olá, Negro!

Pai-João, Mãe-Negra, Fulo, Zumbi
que traíste as Sinhás nas Casas Grandes,
que cantaste para o sinhô dormir,
que te revoltaste também contra o Sinhô;
quantos séculos há passado
e quantos sobre a tua noite,
sobre as tuas mandingas, sobre os teus medos, sobre tuas alegrias!

Olá, Negro!

negro que foste para o algodão de U.S.A
para os canaviais do Brasil,
quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer
para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana?

Olá, Negro!

Negro, ó proletário sem perdão,
proletário, bom,
proletário bom!
Blues
Jazzes,
songs,
lundus…
Apanhavas com vontade de cantar,
choravas com vontade de sorrir
com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom,
para o chicote doer menos,
para o dia acabar e negro dormir!
Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes
com tuas danças, com tuas gargalhadas!
Olá, Negro! O dia está nascendo!
O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo?

Olá, Negro!


Olá, Negro!

O poema, de tom exclamativo, evidencia as comemorações e datas do mês de Maio.

O dia do trabalho (o primeiro de maio), o dia abolição da escravatura (o 13 de maio), o Corpus Christi, o fato do mês de maio ser o mês de Nossas Senhora e também da antiga data em que se comemorava a descoberta do Brasil, dia 3 de maio (hoje se comemora em 21 de abril).

O poema mescla a cultura negra (a abolição, Pai João) com a cultura branca, principalmente com a religiosidade (Nossa Senhora, Corpus Christi) quando algumas datas são comemoradas.

Há referências à escravidão (Quem trabalhou mais que Pai João /cavando a terra com a enxada?/ Dia 13 de Pai João!), mas há também referências à preguiça e a sensualidade brasileira (o brasileiro só deve /pensar mesmo em descansar! / Meu bem... vamos nos deitar?), assim o poema mescla crítica e humor.

A linguagem do poema é predominantemente afetiva, pelos diminutivos (“mesinho brasileiro”, “mês santinho”) e também pelo vocativo “meu bem”.





MÊS DE MAIO
Mês de maio!

Ai! mês bem feito

que tem o dia primeiro

pra ser Dia do Trabalho.


Comemorando este dia

vamos todos descansar!


Mês de maio, mês de maio,

ai, mesinho brasileiro!

O Brasil quis fazer anos

escolheu seu dia três. —


Comemorando este dia

vamos, meu bem, descansar!


Mês de maio, fora os domingos,

fora os dias emprensados

que a gente deve guardar,

tem dia santo de guarda

que é o dia nove de maio,

tem o maior dia santo

dia do Corpo de Deus.

Comemorando esses dias

o brasileiro só deve

pensar mesmo em descansar!

Quem trabalhou mais que Pai João

cavando a terra com a enxada?

Dia 13 de Pai João!

Meu bem... vamos nos deitar?


Mês de maio, mês santinho!

Nossa Senhora escolheu

este mês pra ser mês dela...
Nossa Senhora não deixe

este mesinho acabar.



Pai João é o personagem folclórico, símbolo do velho escravo negro, sofredor e submisso. (corresponde também ao Uncle Tom, de Cabana de Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe).

O poema trata dos árduos trabalhos que o negro sofreu para sustentar os ciclos econômicos do Brasil (e até dos Estados Unidos), na cana, no algodão, no café; além dos seus sofrimentos e da sua família, mulher e filhas que se tornaram serviçais nos engenhos e na casa grande (a filha que era mãe de leite dos brancos, da sua mulher que foi ser objeto sexual do senhor de engenho). Finalmente, dos seus descendentes que ficaram mestiços (seu sangue bom / torrão de açúcar bruto / numa panela de leite), ou seja, o poema trata da dívida que o país tem com o negro, sempre explorado e maltratado (sua pele ficou na ponta dos chicotes / a força no cabo da enxada).

Há uma referência no poema ao bandeirante Fernão Dias Pais Leme, famoso por ser um caçador de esmeraldas, símbolo da cultura oficial, mas que morreu sem ter achado esmeraldas verdadeiras. No poema, a verdadeira esmeralda pode ser entendida como o trabalho de Pai João, ou seja, do negro: a esmeralda é o verde das folhas da cana e do café.

Outro poema que além de tematizar a história do negro do Brasil, do seu trabalho, também se refere à mestiçagem e o branqueamento dos seus descendentes, além de uma pequena referência ao misticismo negro na mandinga que faz a noite tão negra sem nenhuma estrela.


PAI JOÃO

 

Pai João secou como um pau sem raiz. -



Pai João vai morrer.

Pai João remou nas canoas,

cavou a terra,

fez brotar do chão a esmeralda das folhas:

—café, cana, algodão.

Pai João cavou mais esmeraldas

que Paes Leme.

A filha de Pai João tinha um peito de

Turina para os filhos de ioio mamar.

Quando o peito secou a filha de Pai João

também secou agarrada num

ferro de engomar.

A pele de Pai João ficou na ponta

dos chicotes.

A força de Pai João ficou no cabo

da enxada e da foice.

  A mulher de Pai João o branco furtou

para fazer mucamas.

O sangue de Paio João se sumiu no sangue bom

como um torrão de açúcar bruto

numa panela de leite. -

Pai João foi cavalo para os filhos de ioio montar.

Pai João sabia histórias tão bonitas

que davam vontade de chorar.

 

Pai João vai morrer.



Há uma noite lá fora como a pele de Pai João.

Nem uma estrela no céu.

Parece até mandinga de Pai João.


Poema de caráter autobiográfico: o poeta teve durante a infância uma mucama (a ancila = serva, escrava), Celidônia, que foi sua babá e que morreu afogada num rio.

Celidônia era, além de sua mucama (que embala a rede, acompanha para a escola, conta histórias), também foi a responsável por despertar a sexualidade de Jorge de Lima quando ainda era menino (tuas mãos negras me alisando / teus lábios roxos me bubuiando);

A experiência sexual do menino com a sua mucama parece algo de normal ou até típico no contexto do nordeste da época.

O eu lírico precisa recalcar estes desejos e lembranças (muita coisa, mais coisa ainda, muita coisa ainda, muita coisa a recalcar e esquecer, praticamente uma gradação), mas parece que a principal delas é a morte do seu “anjo negro”: o dia em que te afogaste, /sem me avisar que ias morrer, /negra fugida na morte,/ contadeira de histórias do teu reino,/ anjo negro degradado para sempre /Celidônia, Celidônia, Celidônia!).

Em um depoimento de José Fernando Carneiro (amigo do poeta), Celidônia seria uma obsessão para Jorge de Lima, durante toda sua vida, principalmente, no final, nas insônias trazidas pela doença.

O poema então permite uma leitura afetiva, a lembrança, a saudade da babá querida que morreu, uma leitura psicanalítica, dos processos de desejo e de perturbações psíquicas trazidas pelo inconsciente, e ainda uma leitura social, revelando a divisão de classes, de autoridade e subserviência entre brancos e negros, entre senhores e escravos.


ANCILA NEGRA

Há ainda muita coisa a recalcar,

Celidônia, ó linda moleca ioruba

que embalou minha rede,

me acompanhou para a escola,

me contou histórias de bichos

quando eu era pequeno,

muito pequeno mesmo.

Há mais coisa ainda a recalcar:

As tuas mãos negras me alisando,

os teus lábios roxos me bubuiando,

quando eu era pequeno,

muito pequeno mesmo.

Há muita coisa ainda a recalcar

ó linda mucama negra,

carne perdida,

noite estancada,

rosa trigueira,

maga primeira.

Há muita coisa a recalcar e esquecer:

o dia em que te afogaste,

sem me avisar que ias morrer,

negra fugida na morte,

contadeira de histórias do teu reino,

anjo negro degradado para sempre

Celidônia, Celidônia, Celidônia!

Depois: nunca mais os signos do regresso.

Para sempre: tudo ficou como um sino ressoando.

E eu parado em pequeno,

mandingando e dormindo,

muito dormindo mesmo.


Um dos grandes temas do livro é o sincretismo religioso e a presença das religiões afro-brasileiras. Sincretismo pode ser definido como fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, ou combinação de elementos de crenças e práticas culturais de diversas fontes.

Oxalá é o criador que moldou os homens a partir do barro, entidade poderosa relacionada à criação do homem, no sincretismo é identificado com a figura de Cristo, por ser o criador, pela sua posição maior e eternidade.

Iemanjá é a rainha do mar ligada à água como símbolo de fecundidade, é a mãe de todos os orixás, no sincretismo, é identificada como Nossa Senhora, pela virgindade e por ser a mãe de todos.

Ogum é o orixá da guerra e do fogo, que abre os caminhos, é associado a Santo Antônio ou São Jorge, identificado pelo seu cavalo encantado (na Bahia, São Jorge também é identificado com Oxóssi);

Ainda no poema, pode ser identificado Exu, por angana (“senhor”) que se posicione contra os inimigos, os aleguás e capiangos brancos, que escravizaram e exploraram o povo negro, os operários africanos.

Exu é uma entidade justa e vingativa, nada executa sem algo em troca e não esquece de cobrar promessas feitas a ele, a Igreja o identificava como uma entidade demoníaca.

O eu lírico se sente unido, se identifica com o povo africano, quer ser vingado pela exploração dos brancos (que nos escravizam, que nos exploram, / a nós operários africanos);

Agô: é uma interjeição usada para pedir licença ou desculpas na tradição ioruba.







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