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A Doença como Resistência do Corpo aos seus Constrangimentos



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A Doença como Resistência do Corpo aos seus Constrangimentos

O estudo de Borges (1999) com trabalhadores bancários com LER mostra-nos uma representação, bastante enfática, do imobilismo associado a questões institucionais ou pessoais que podem nos ajudar a pensar sobre a produção do silêncio do corpo no território da doença relacionada ao trabalho. Diz o autor:

Numa sessão de sociopsicodrama realizada com um grupo de doentes de LER, houve a construção coletiva de uma imagem simbólica onde o trabalhador era impedido de andar para a frente por inúmeras forças que se localizavam em todas as partes de seu corpo, grudadas nele, imobilizando-o (...) a doença imobiliza pela dor. Grande parte das relações interpessoais mediadas pelas instituições e organizações de produção e trabalho imobilizam pela exclusão. (Borges, 1999, p. 5-6)

Entendemos que essa imobilização do corpo necessita de estratégias de saber e poder que agem sobre ele, produzindo silêncio e que, além disso, não ocorrem só no espaço do corpo, mas são articuladas com investimentos sociais e institucionais nas linhas de concepção do trabalho, da saúde, da doença, dos colegas de trabalho, das chefias e das famílias.

Mas quais seriam as forças de produção desse silêncio do corpo?

• Aglomerado de hábitos e vivências que nos garantem uma organização de mundo e uma identidade que delimita o corpo, única e exclusivamente, voltadas para o trabalho.

• Expectativa de viver um "eu ideal" produzido por códigos específicos de "ser capaz", demandado por determinada sociedade.

• As vivências permeadas pelo medo da perda de referências sociais: medo da perda de identidade, medo da marginalização, medo da exclusão, etc.

• A linha de vida dicotomiza-se entre o normal e o patológico, o útil e o inútil, o trabalhador e o doente, na referência, como já vimos, do ethos da capacidade para o trabalho.

Nessa linha de entendimento, a doença é pensada pela limitação, isto é, como uma vida estratificada, identitária, onde a distinção entre um eu (dado) e um não-eu (perdido ou não encontrado) condiciona a angústia, a ansiedade, a infelicidade, a impotência, o fracasso, a baixa auto-estima. Desses sentimentos fala uma trabalhadora com LER: "não quero ser vista como uma portadora de LER para sempre e tenho medo de que precise esconder a doença para ser aceita novamente como uma boa funcionária".

Sendo assim, outras questões se colocam: como exceder essas expectativas? Como distinguir a doença mórbida e inútil da resistência de um corpo aos seus constrangimentos? Como escapar às armadilhas de captura? Como pensar (agir) de outro modo?

A idéia de que os acontecimentos permeiam relações de verdade que se sucedem e produzem histórias, e de que outras verdades podem ser produzidas e outras histórias contadas e experimentadas, nos faz pensar que a intervenção de poder no corpo sempre encontra resistências. E, neste caso, como falar das resistências nas LER?

Acreditamos que os sintomas das LER podem ser analisados não como incapacidade ou simulação de um corpo que não quer trabalhar, mas como formas de resistência do corpo aos limites de sua expansão no trabalho. A doença como resistência colocaria em xeque as relações de poder envolvidas na saúde do trabalhador. Possibilitaria, portanto, o questionamento do ritmo intenso do trabalho; enfatizaria a precariedade do processo globalizado em atender às demandas de saúde; apontaria as estratégias de captura de gestos e afetos na delimitação do uso e abuso do corpo na produtividade; configuraria a doença como um sinal, isto é, uma ruptura na continuidade dos constrangimentos do corpo.

Poderíamos reforçar essa idéia com a afirmação de Foucault de que a doença "apaga, mas sublinha; abole de um lado, mas é para exaltar do outro; a essência da doença não está somente no vazio criado, mas também na plenitude positiva das atividades de substituição que vêm preenchê-lo" (1968, p. 24).

A doença pensada como resistência pode ser entendida como uma normatividade, se nos aproximarmos da idéia de Canguilhem (1990), quando este afirma que a doença não é somente desequilíbrio ou desarmonia, mas uma forma de busca natural de equilíbrio. Nessa busca de equilíbrio, podemos apreciar que a doença, na relação de trabalho/corpo, joga contra a entropia crescente no que concerne ao desgaste físico e emocional e arriscamos a hipótese de uma desaceleração como índice de normatividade. Essa desaceleração criaria uma contranorma ao ritmo, à aceleração e à cadência imposta pelo trabalho que faz adoecer.

Neste sentido, a experiência de viver estaria escapando de uma outra forma de normatividade habituada e aprendida pelos regimes e regras de condução da vida, para atender à demanda de um trabalho de produção hiperacelerada e desgastante. Na teia complexa de relações entre a saúde e a doença, mostra-nos Canguilhem (1990, p. 65):

É artificial dispersarmos a doença em sintomas ou a abstraímos de suas complicações. O que é um sintoma sem contexto? (...) a clínica coloca o médico em contato com indivíduos completos e concretos e não com seus órgãos e suas funções."

Outro olhar e outra escuta que, sem dúvida, não deixariam escapar desse processo de adoecimento o contexto de trabalho que faz o corpo adoecer. Apontamos na contramarcha desse percurso a questão do médico do INSS/RJ, ao declarar:

"Nós colocamos uma interrogação dizendo que a pessoa não tem uma doença profissional. Ela tem, sim, uma doença orgânica relacionada com características pessoais e particulares, relacionadas com aquela própria pessoa".

Notas

1 Doutoranda do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana / Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (CESTEH/ENSP/FIOCRUZ). Professora do Departamento de Psicologia / Universidade Federal Fluminense.

2 Doutor do CESTEH/ENSP/FIOCRUZ.

3 In: Prigogine (1996, p. 12). Ao contrário, argumenta Prigogine, na física do não-equilíbrio, reconhecemos, em todos os níveis de observação, o papel das flutuações e da instabilidade, associadas às escolhas múltiplas e às noções de caos.



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