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A Doença como Inutilidade



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A Doença como Inutilidade

A possibilidade de a doença ser inscrita no registro do inútil surge, no século XVIII, com a emergência do corpo como foco do bem e do mal. Nessa época, há um deslocamento importante do olhar médico sobre o corpo, que comporá dois movimentos: de um lado, o corpo como objeto de conhecimento e; de outro, uma linguagem que fala desse conhecimento sobre o ser, a partir de uma nosografia política aderente ao contexto social da época.

Vemos emergir então, no século XVIII, o que será ratificado nos séculos seguintes: a associação entre saúde/trabalho e corpo/doença. E, com a consolidação do capitalismo, afirma-se a vinculação que vivenciamos, hoje, entre saúde e capacidade para o trabalho. Segundo Herzlich (1986, p. 206), essa associação não correspondeu a um processo naturalmas a um processo sócio-histórico que fez emergir no campo da medicina uma nova conceituação de saúde, onde seu avesso, a doença, tornou-se "uma condição socialmente reconhecida e legítima de inatividade". Assim, a partir dessa data, criou-se a necessidade de um cuidado médico para restaurar o corpo-trabalho, atendendo ao processo produtivo. Essa condição de inatividade, posteriormente, será reconhecida pelo médico do trabalho, para exercer a função de detectar, diagnosticar e barrar o corpo doente dos trabalhadores. Tal procedimento não aconteceria de forma pacífica. Vários movimentos operários surgiram, reivindicando melhor qualidade de vida, já deixando claro que a percepção de saúde, medida pela dicotomia doente/não-doente, não era tão hegemônica, mesmo que resoluções excludentes e mercenárias fossem, ao longo dos anos, empreendidas.

São exemplos de resoluções excludentes e mercenárias: as demissões de trabalhadores após o diagnóstico de uma doença; a negação freqüente do nexo da doença com o trabalho; a atitude do médico de não registrar o diagnóstico da doença, para não onerar nem a empresa como responsável nem o INSS como seguradora.

Há, na perspectiva da Perícia, uma volatilização das LER enquanto doença do trabalho. Conforme a afirmação de um médico: "LER é um termo em desuso. Está começando a ser provado que as dores e lombalgias, que as pessoas alegam, não são LER. Mudou para DORT. Na CAT, deve ser LER/DORT". Mudanças que não passam despercebidas aos olhares ao redor, diz uma funcionária do INSS:

"A função da Perícia Médica era essa, homologar processos de B31 para B91; que agora acabou, porque saiu uma nova Lei do Ministério da Previdência (...). Faz perícia de B31 todos os dias. De B91 e de LER, é que, até o presente, não faz mais, não. Os casos de LER estão todos parados".

O encaminhamento do nexo em relação às LER torna-se um recurso cada vez mais sofisticado ao servir para negá-las como doenças do trabalho, pois além de apagar suas inscrições e histórias anteriores, vai construir um espaço de subjetividade para o trabalhador, ao circunscrevê-lo em um perfil: é estável e não-doente o corpo que continua a trabalhar, mesmo com as restrições. O DORT é diagnosticado na Perícia Médica.

"(Mas) a pessoa não tem atrofia nos membros superiores ou nos membros inferiores que pode dar em qualquer segmento; não tem bloqueio articular, não tem diminuição da força, tá (...) não tem, digamos assim, edema ou inflamação visível, então ela pode manter a atividade laborativa, claro, com alguma restrição pequena restrição porque ela não tem alteração que a impeça de trabalhar. Então, é o mesmo esquema: pode ter o diagnóstico de DORT, digamos assim, porém a pessoa está estável".

Nesse caso, para a Perícia, há ligação entre corpo e trabalho se "a pessoa está estável" e é capaz, mesmo com o diagnóstico de DORT. Por outro lado, se as alterações o impedem de trabalhar, não há nexo, porque o corpo, agora inútil, não compõe com o trabalho, mas com o sujeito que adoece. Desta forma, forja-se a falsa distinção entre doentes e doenças, separando o corpo que adoece do sentimento sobre o seu estado. Teríamos, nessas dicotomias, doenças sem doentes (incapazes que se sentem capazes) e doentes sem doença (capazes que se sentem incapazes). Essa articulação compõe uma lógica de capitalização da saúde, onde não há trabalhadores doentes, mas sujeitos que adoecem, tomados genericamente, pelo INSS, na classificação de segurados. Traça-se assim uma metodologia de ação racional e científica que pensa o trabalho não afetando o corpo, e pressupõe a saúde como ausência de doença ou disposição para o trabalho.

A saúde, na dimensão do corpo, capaz para o trabalho ou na compreensão de um corpo-instrumento, atualiza o território do ideal-de-trabalhador e, principalmente, ratifica um perfil de ser específico para a produção estável, previsível, ordenado e submisso às leis da produtividade a qualquer preço.

Insistimos. Não falamos de todo o trabalho nem de qualquer saúde no trabalho, mas de uma racionalidade no agir sobre o corpo, que toma antigas formas de prescrição médica para normatizar regimes e condutas para a vida diária. A medicina, desde a época clássica,

(...) não era simplesmente concebida como uma técnica de intervenção que, em caso de doença, empregaria remédios e operações. Ela também devia, sob a forma de um corpus de saber e de regras, definir uma maneira de viver, um modo de relação refletida consigo, com o próprio corpo, com o alimento, com a vigília e com o sono, com as diferentes atividades e com o meio. (Foucault, 1985, p. 106)

Uma intervenção médica, que funcionando para conduzir a autogerência vigiada dos corpos, passa a partir do século XIX a referenciar um corpo capaz para o trabalho e a imputar ao sujeito a responsabilidade do adoecer. Essa razão médica fixa no corpo o ônus pelo descuido de adoecer. A pesquisa de Luz (1996) também mostrou que os doentes são discriminados, moralmente, a partir da idéia de um corpo descuidado que se torna enfermo pelos próprios excessos.

Nessa associação dicotômica de um lado, o trabalho e a saúde e; de outro, o corpo e a doença vemos emergir um saber, objetivando um poder (descarte do corpo-doente) pela produção de um corpo portador do mal (incapaz). São corpos produzidos por formações sociais, onde, segundo Foucault (1968), um exercício de poder micropolítico, difuso e não localizado, passa a ser estratificado por um saber e legitimado pela sociedade, à medida que se repete como logos no campo da saúde e da doença.

Esse campo de pensamento, ações e sentimentos sobre a saúde individual ou populacional não se configura apenas pelo saber/poder médico, mas também, segundo Sontag, por representação social. A autora, estudando a doença como metáfora, afirma:

Toda sociedade, ao que parece, precisa identificar uma determinada doença, com o próprio mal, uma doença que torne culpadas suas vítimas (...) deixar de considerar a doença como um castigo adequado ao caráter moral objetivo, dela fazendo uma expressão de individualidade interior, poderia parecer menos moralista. Mas esses pontos de vista acabam por ser tanto ou mais moralistas ou punitivos (...) a idéia romântica de que a enfermidade exprime o caráter é invariavelmente ampliada para afirmar que o caráter é a causa da doença. (1984, p. 60-61)

Se atentarmos para o fato de as LER serem doenças associadas a um perfil de morbidade, onde o indivíduo é descrito como obsessivo, minucioso e detalhista em seu comportamento frente ao trabalho, inferimos que as descrições dessa doença, no campo moral, individualista e metafórico, vão construir formas de subjetivação específicas. Podemos retomar nosso tema do silêncio do corpo-doente no trabalho quando constatamos, pelos matizes que são dados historicamente ao conceito de corpo, uma pré-conceituação de caráter mórbido.

Neste caso, a produção de uma personalidade mórbida ou, como nos falam os médicos do INSS, de uma "pessoa predisposta ao adoecimento", irá identificar o doente na sociedade, mas não o doente do trabalho. Um laudo do INSS/RJ exemplifica a idéia.

"A segurada é portadora de cervicobraquialgia difusa, osteoartrose difusa, cervical lombar crônica, doença degenerativa com o comprometimento cérvico braquial, não caracterizando a doença profissional. Nega B91".

A negação de doença do trabalho tem repercussões sociais na vida de quem adoece. Segundo Herzlich (1986, p. 203), é a perda de um código identitário, pois na doença profissional o indivíduo conserva sua identidade: a doença corresponde, para ele, a uma integração social específica mais persistente; o papel de doente é um papel social".

Para a autora, a pessoa doente procura uma identidade social para sintomas e disfunções, que somente tomam sentido e se organizam em doença à medida que introduzem uma modificação na vida do doente e, conseqüentemente, nessa identidade. Tais critérios definem as relações de maior e menor gravidade da doença. Concordamos quando a autora afirma que o papel de doente do trabalho assegura uma "integração social específica". Mas qual a sua especificidade? Que códigos sociais de saúde, trabalho, corpo e doença são articulados em um papel que identifique o doente e o não-doente, o doente do trabalho ou outro?

É importante observarmos que a incorporação de papéis identificatórios produtivo, improdutivo, saudável, doente imprime esquadrinhamentos de saber/poder sobre o corpo. São efeitos de poder frente a saberes que fixam como deve ser e se comportar um corpo, quer seja ele saudável, trabalhador ou doente para a sociedade. Efeitos de poder sobre o corpo que, no desvio da normalidade, deve ser, como no caso das LER, reparado, ajustado, adaptado e treinado para o trabalho produtivo, ou isolado, quando fixado em uma predisposição mórbida.

A identificação da doença, no registro da predisposição, referendada pelo INSS/RJ, tem atribuído ao doente o papel de incapaz, tomando como parâmetro de saúde a capacidade para o trabalho. Daí talvez o relato de muitos pacientes sobre o desejo de voltar à identidade social perdida, no caminho desviante do seu processo de adoecimento: "quero voltar a ser a trabalhadora que eu era antes de ficar assim...". A doença, como inutilidade, toma o papel do avesso, do reverso e até, no limite, da morte social.

A morte social expressa, no caso dos pacientes com LER, esse sentimento de perda de identidade. Espelha, como sublinha Ribeiro (1997), a estranheza dos trabalhadores em relação a eles mesmos, ao não se sentirem capazes de trabalhar e cuidar de si e dos outros, culpando-se por isso; dos colegas de trabalho, que os percebem trabalhando pouco ou mal e o acusam e, ainda, a dubiedade médica em relação a sua doença.

Em sua pesquisa sobre a atividade dos bancários em São Paulo, Ribeiro observa que as análises pelo viés da predisposição tentam explicar a prevalência do gênero feminino nas LER, mas "podem alimentar preconceitos e discriminações e culpar os adoecidos dos dois gêneros por seu próprio adoecimento" (1997, p. 195). Naturalizando-se as exigências do trabalho, continua, operar-se uma inversão quando "a sujeição dos que trabalham ameaçados de adoecer se converte em fator individual de risco para a produção" (Idem, p. 196).

Neste contexto, o processo de adoecimento revela sua condição histórica e social de violência pela submissão, mesmo que formas mais sutis de exigência de trabalho estejam sendo desenvolvidas. Pondera o autor que há, na atualidade, uma modificação na apropriação do corpo, mas ainda assim a submissão é intensa e contínua, posto que os espaços de mobilidade são estreitos e rígidos.

O corpo continua sendo exigido, mas de outro modo. Os esforços são agora bem mais leves, mas contínuos, rápidos, dando a impressão de inocuidade, tal a leveza no manuseio das máquinas industriais e de escritório. E quando se requer mais destreza, exige-se mais atenção. O corpo, agora, sai pouco do lugar. Nesses trabalhos atentos, tensos e intensos, a cabeça e os olhos seguem os passos rápidos da produção, as mãos se movimentam, mais que o resto do corpo, e os braços as acompanham ou se deslocam em posturas mais ou menos rígidas para que elas executem as tarefas prescritas. (Ribeiro, 1997, p. 186).

Neste caso, argumenta, opondo-se a essa idéia da predisposição nas LER, que a impropriedade nos casos de adoecimento não está na pessoa, nem no gênero, mas nas complexas condições de subordinação e hierarquização que são desenvolvidas no trabalho.



Do Corpo Devoto ao Corpo-útil

Há muito tempo, as tarefas quotidianas respondem à exigência do controle dos próprios desejos. Na Grécia, essa contenção denominava-se temperança, na qual o equilíbrio das forças internas e externas dava a medida do domínio e da liberdade do próprio corpo desejante e produtivo. Na Idade Média, o desejo era contido para ser reconstruído pelos desígnios de Deus. Apostando namortificação da carne para o enriquecimento espiritual, o programa de vida ascética dos monges prescrevia "tarefas repugnantes para evitar ao máximo os sonhos e a moleza do repouso" (Gondar, 1990, p. 27).

A eliminação do desejo acontecia pela manutenção do corpo em atividades sistemáticas e exaustivas. Assim, no mosteiro, "trabalho como um todo passa a sofrer uma série de marcações abstratas que regulam as atividades por intervalos de tempo, intercalando-se em tempo para a meditação, para as orações em conjunto e para o trabalho" (Idem, p. 27). Aqui a colagem entre corpo e trabalho é uma obrigação moral. O corpo exausto eleva a própria alma. Se naquele momento a associação servia à purificação da alma, ela atravessará os séculos servindo ao que será, no século XVII, invocado como dignidade humana.

No século XVII, novos olhares sobre o corpo serão proporcionados pelos estudos de Descartes, na Filosofia; e de Newton, na Física: Descartes, associando o corpo à idéia mecanicista de homem-máquina; e Newton3, privilegiando a ordem, a estabilidade e a certeza do mundo, que abarcaria a previsibilidade da conduta humana.

É bom ressaltarmos que esse homem-máquina será associado ao trabalho, não só por um sentido moral, como já vimos, mas também, conforme observa Weber (1985), por um "espírito do capitalismo", isto é, por uma base "ética ascética do trabalho", na qual a ação é orientada para determinados fins em função de alguns valores. Desta forma, a ética é compreendida como uma racionalidade de agir e pensar em busca de lucro que articula um ethos específico.

Assim, o trabalho deixa de ser uma tarefa executada pelo corpo para purificar a alma, e passa a ser um mecanismo estratégico ancorado dentro de um projeto ético e construído com base na Reforma de Lutero, segundo a qual a idéia de evocar a ação propunha o cumprimento das tarefas como caminho para servir a Deus. O sujeito endividado para com Deus prestaria contas através do trabalho. Logo, cada cidadão, na sua interioridade, na sua condição de falta para com o Senhor, teria uma dívida a pagar trabalhando. No protestantismo de Calvino, a vocação de um homem eleito para a glória de Deus pode ser entendida como um dever-ação ou devoção, onde as tarefas servindo à vontade de Deus "assim na terra como no céu", racionalmente organizadas, poderiam prover "o pão nosso de cada dia" e articular o trabalho como uma providência divina.

Segundo Weber, a idéia traz um projeto ético de subjetividade para o qual "(...) não somente é absolutamente indispensável um desenvolvido senso de responsabilidade", mas também um senso de dever e vocação para o trabalho: um sujeito que ao se associar ao trabalho devoto tem como subsídio "um longo e árduo processo de educação" (1985, p. 39).

Pode-se talvez considerar que esse "árduo processo de educação" permitiu a passagem do corpo-devoção para o corpo-útil, isto é, o corpo capaz para o trabalho. Pode-se ainda questionar de que maneira esses laços entre subjetividade e trabalho nos ajudariam a problematizar a noção de "capacidade para o trabalho" tão premente nas atividades da Perícia Médica do INSS/RJ que ora estamos analisando.

Essa capacidade não pressupõe uma natureza, mas um corpo disciplinado e controlado pelo exercício. Não um exercício qualquer, mas um exercício de poder sobre os corpos, para moldá-los em corpo-útil e dócil para o trabalho. Essa tese foi defendida por Foucault, ao estudar retratando a disciplina imposta aos corpos no final do século XVIII e início do XIX uma anatomia política. Uma mecânica de poder que, segundo o autor:

Define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que se faça o que se quer, mas para que se opere como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis. (Foucault, 1977, p. 127)

Entendemos que, desta forma, uma anatomia de corpo-útil (capaz) e dócil para o trabalho articulava uma economia de subjetividade necessária à época.

Verificamos, a partir das atividades do médico perito do INSS, que a idéia de um corpo capaz vai dimensionar, além da utilidade, a noção de vida saudável. Neste caso, a aliança da saúde com a capacidade para o trabalho faz da medicina um instrumento de intervenção política por excelência. Se, no século XIX, a medicina e, mais especificamente, a terapia psiquiátrica, julga como perigosos os comportamentos não incorporados à conduta regular e normal; no século XX, a medicina tomará o trabalho como referência para julgar o que considera normal ou anormal na sociedade, posto que

(...) o trabalho não é mais apenas uma técnica terapêutica, mas constitui um fator fundamental para discernir entre indivíduo normal, socializado que produz e o anormal, degenerado improdutivo. (Portocarrero, 1990, p. 5).

A doença como inutilidade permite alguns registros sobre o corpo. Já vimos a produção de um corpo assujeitado e sem resistência, no qual a dor e o sofrimento são sinais de degenerescência e/ou de fragilidade constitucional. Outro registro, como veremos, é o do sentido dado ao corpo-simulado: o corpo que se seduz pelo avesso do que é regrado como conduta normal e se apresenta fingindo-se de doente para não trabalhar. Esse corpo, também regido pela idéia de inutilidade, expressa a cópia desajustada e deslocada do referencial de saúde como matriz da capacidade no trabalho.

O registro, no INSS/RJ, desse corpo simulado passa pela controvérsia existente entre os sinais dos exames clínicos e dos exames de imagem. A transparência proporcionada pela imagem do corpo proporciona um novo caminho no processo de subjetivação desse corpo, no âmbito da doença relacionada ao trabalho. Neste caso, precisamos também entender de que forma a doença aparece na transparência do corpo-simulado.

A Transparência do Corpo-simulado

O trabalho De morbis artificum diatriba, de Ramazzini, em 1700, descrevia a doença dos escribas, que ficou posteriormente conhecida como cãibra dos escrivães, através da observação médica do uso do corpo dos trabalhadores no caso, da musculatura exigida para o ato da escrita. Esse médico relata que posições forçadas e inadequadas do corpo vão produzindo, com o tempo, enfermidades corporais. Sendo assim, relata que a doença dos escribas advém da sensação de peso e dores nas mãos, braços e ombros, pela concentração e tensão muscular estática, esforço repetitivo e sedentarismo.

Desse primeiro registro às polêmicas leituras atuais da linguagem do corpo nas LER, podemos notar dados de continuidade, quando os médicos atribuem a dor e ao sofrimento à hipersolicitação osteomuscular e posturas inadequadas, mas também de descontinuidade, ao codificarem hoje o processo de adoecimento com elementos orgânicos e de personalidade do trabalhador que, simulando dores como dizem os peritos , pretendem ganhos secundários. Essas leituras do corpo nos introduzem nos referenciais de verdadeiro e falso da dor.

Pode-se dizer que, ao instituir sistemas de sinais, codificar e decodificar padrões de normalidade por critérios de falso e verdadeiro no registro da confissão da dor, o médico perito do INSS/RJ aborda categorias definidoras das LER, induzindo a crença de um falso juízo da própria dor, ou da própria doença. Assim, reinscreve-se, na Perícia Médica, a sigla LER como "Lorota dos EspertosRemunerados".

A idéia de um corpo que simula a própria dor interfere nas relações cotidianas dos trabalhadores com médicos, familiares e colegas de trabalho. Queixam-se os doentes: "o pessoal acha que estamos tentando enganar, que estamos mentindo (...)"; ou ainda, "alguns acreditam que me finjo de doente para não trabalhar".

Essa noção coloca o trabalhador que adoece numa possibilidade de decodificação potencial, onde o que realmente importa não é a idéia que o médico tem a respeito do que escuta ou vê no exame clínico, mas da imagem que obtém, por uma tecnologia sofisticada eletromiografia, radiografia, cintilografia, ultrassonografia, ressonância magnética das queixas, dores e sofrimentos desses trabalhadores. Os médicos fazem a leitura do corpo a partir da transparência dele, ou seja, interpretam seus sentidos pelas imagens que representam os fatores de adoecimento.

É a criação de uma medicina preventiva, que utiliza em grande escala uma tecnologia sofisticada, colocando a idéia dos exames complementares como o ser sensível, capaz de informar sobre a iminência de uma doença que acomete um ser, que ignora o próprio sentir. Nesse percurso, a história dos males é revista na racionalidade médica atual: "torna-se uma história médica e mesmo uma história tecnológica dos males" (Witkowski, 1997, p. 432).

A tomada do corpo pela sua transparência fica ancorada na relação entre a medicina e a tecnologia. O corpo, no cenário contemporâneo, é o centro da pesquisa tecnológica das sensações. Como coloca Bruno, entram em relação, na interação corpo-imagem, sensores, sons, imagens, câmeras, reconfigurando tanto o espaço interno do corpo quanto sua exterioridade, em sua "capacidade de expressão, afecção e conexão, para além da pele e dos limites territoriais naturais ou etológicos" (Bruno, 1999, p. 99).

A observação, pelos aparelhos, da mobilidade dos fluxos do corpo através da imagem interior do corpo, não apenas transforma a anátomo-fisiologia, mas, mais ainda, afeta a sensibilidade do observador e sua relação com a medicina. Introduz-se outro habitar corpóreo na relação interior/exterior. O corpo, como imagem para o observador dos exames gráficos, é um corpo de identidade continuamente modulada, mas pode apresentar, no registro médico, estatísticas fixas que codificam o saber/poder da normalidade.

Talvez o médico perito, ao lançar mão da tecnologia como padrão para conceder/negar o nexo, utilize a técnica para afastar, no processo médico-paciente, o que expressa o próprio sentir do corpo: pulsar, esquentar, gelar, endurecer, fraquejar.

Na Norma de 1997, há um alerta ao uso abusivo dos exames imagéticos. Diz o texto que, embora a parestesia possa indicar o uso de eletromiografia para o diagnóstico diferencial, esse procedimento "tem alto custo, é invasivo e sem resposta conclusiva adequada para DORT".

A mesma Norma de 1997 postula que os diagnósticos dos DORT são "eminentemente clínicos", colocando a caracterização da dor como elemento imprescindível na sua avaliação diagnóstica e que, na análise comparativa entre os dois exames, "são minoria os casos em que os exames complementares apóiam o diagnóstico clínico".

A afirmação da dor nas LER pode ser acompanhada nesse mesmo documento. A dor muito nos informa, de maneira geral, sobre o processo de um adoecimento. Pode ser, geralmente, insidiosa e pouco definida, mas também pode traduzir o comprometimento de um músculo, tendão ou nervo específico. A dor, como sintoma de doenças inflamatórias, pode indicar comprometimento das bainhas, das tendíneas e dos tendões, por grande repetitividade e exigência de força e, nesse caso, auxiliar na caracterização das tendinites, das tenossinovites e das epicondilites.

Não só a dor, mas também outros elementos expressos pelos pacientes são indícios para o diagnóstico clínico, como por exemplo as alterações de sensibilidade. Por esses sinais podem ser detectadas as neuropatias compressivas entre as mais conhecidas, a síndrome do túnel do carpo e a lesão do nervo mediano.

A disparidade entre o exame clínico e os exames de imagem nos faz rever o deslocamento da postura do médico em relação ao ato diagnóstico, já enunciado pelo estudo de Foucault em Nascimento da clínica. Esse estudo esclarece que a clínica como fato histórico produziu uma mutação no saber médico quanto ao entendimento do espaço corporal, redefinindo a compreensão do patológico e a articulação da doença com o corpo doente. O fato veio caracterizar o território da medicina moderna, ao trazer a idéia de um corpo que adoece, deixando para trás a idéia de doença como resultado de possessão demoníaca, ou castigo de Deus. O corpo humano, em sua geografia anatômica, passa a constituir o espaço sólido e visível da doença e fundamento para o discurso médico. Hoje, com as tecnologias das imagens, o espaço do corpo torna-se transparente e esse poder de visibilidade sobre ele é ampliado em dimensões inimagináveis naquela época.

Os médicos peritos, a partir da tecnologia de imagens, produzem não só referenciais de afirmação/negação do nexo em relação às LER, mas, principalmente, inventam mundos possíveis para a relação entre saúde e doença, assim como para a leitura dos corpos inscritos por ela. Corpos como imagens fugazes de trabalhadores temporários, domiciliares, avulsos, ou que trabalham (e que adoecem) por conta própria. Segundo os laudos médicos de negação do nexo, não são detectadas nos exames as imagens que possam materializar a dor e as queixas, esvanecendo, dessa forma, a possibilidade da doença do trabalho. Assim, de novo nos deparamos com a perplexidade do silêncio da doença do trabalho a que nos referimos no início do texto, e da igual volatilização da imagem do sujeito caracterizado como segurado.

Quem é o segurado acidentário para o médico do INSS? Não é o trabalhador que adoece, uma vez que a doença é diagnosticada e registrada nos laudos de requisição de nexo, que, na maioria das vezes, é negado. Também não é o trabalhador que fica incapaz de trabalhar, posto que a emergência da incapacidade não é associada à história de quem trabalha e adoece. Não são os trabalhadores que, por muitos anos, digitam e mostram marcas de enfermidade no corpo, pois não são reconhecidos como portadores de doença do trabalho.

Neste sentido, são ilustrativos os depoimentos de duas trabalhadoras.

"Tenho 18 anos como digitadora, estou com isso há três anos, eu acho que é acidente de trabalho, porque eu adquiri isso porque estava trabalhando, não adquiri isso brincando, nem dentro de casa. Mas o INSS não reconhece, o processo está rolando há anos. Já estive no Centro de Reabilitação Profissional, mas só pude ficar quatro meses porque estava cadastrada como auxílio-doença".

"O INSS negou o B91 dizendo que a doença era congênita. Tive diagnóstico de síndrome do túnel do carpo, tendinite e tenossinovite e ele disse que era doença congênita de nascença, que eu já tinha isso antes e não é verdade. Sempre fui uma pessoa saudável e nunca tive problemas com o meu braço".

Que limite de incapacidade necessitará mostrar o corpo para provar que está verdadeiramente doente e, principalmente, como associar ao processo de adoecimento a sua história de vida e trabalho? Qual a possibilidade de resistência do corpo no silenciar da doença do trabalho?



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