Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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objeto definido, que se apresenta no confronto com as possibilidades que se abrem, recebe um nome - angústia - e ela, a angústia, anuncia-se como nosso mal estar. Para os modernos talvez o grande desafio fosse o de lidar com o tédio, a monotonia dos caminhos definidos, o aprisionamento das interdições. Para nós que nos enxergamos como livres, a angústia surge como o grande incômodo.

Vale salientar que nos utilizamos do termo angústia aqui de um modo ainda um
tanto quanto livre. Em nosso próximo capítulo, buscaremos exatamente uma
circunscrição maior dos conceitos, o que nos importa nesse momento é traduzirmos essa
inquietação, essa sensação de provisoriedade, de um “ainda não”, de uma premenência
constante, que invade a experiência contemporânea. Da mesma forma, tencionamos
mostrar como essa sensação acaba servindo ao próprio sistema que a constitui, a medida
que mantém todos em movimento, pelo receio de perderem o lugar em que se
encontram, que é sempre desvelado como um lugar provisório e por isso perfeitamente
substituível.

Uma das grandes mudanças instauradas em nossa época refere-se a nossa relação com o tempo. As imagens do passado nos sugerem uma certa lentidão, uma ausência de pressa, um certo bucolismo, que claramente se perderam. Mesmo em épocas muito recentes, quando analisamos o cinema, por exemplo, observamos nas cenas, nos diálogos, um padrão estético diverso, o que faz com que alguns se considerem entediados, em função da falta de velocidade, de agilidade.

Diríamos que a experiência subjetiva contemporânea, traduz-se por uma premência, uma pressão internalizada para que nos mantenhamos em movimento, para que não paremos. Tudo precisa ser rápido, ágil, deve economizar tempo e otimizar resultados. Para que esse movimento se dê são estabelecidos, a todo o instante, necessidades, saberes, reciclagens. A vida vai, progressivamente, se complexificando, a ponto de vivermos o paradoxo de termos criado mil recursos tecnológicos, com a escusa de deles nos servirmos para facilitar as nossas existências, e nunca, enquanto sociedade, termos tido tão pouco tempo para usufrui-los. Temos velocidade nos transportes, velocidade nas comunicações, temos utensílios que nos dispensam de uma série de esforços físicos, entretanto, a queixa de “falta” de tempo, de não conseguir “dar conta” de todas as coisas, nunca foi tão freqüente.



A “mudança” constante e a produção de novas e variadas necessidades parecem ser o pano de fundo de todo o processo. Tudo, dos brinquedos aos eletrodomésticos, é feito para não durar. Mantemo-nos, na expressão de Heidegger (1989), no território da



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curiosidade, uma determinação do impessoal, em que a busca do novo, existe para a perpetuação da imobilidade, um modo de neutralização da angústia. Entretanto, por outro lado, a angústia mantém-se presente e alimenta o movimento. Criam-se necessidades, que fazem com que tenhamos que correr mais, estudar mais, preparar-nos mais, trabalhar mais e cada vez “melhor”. O receio de fracassar, de não estar entre os incluídos, de sofrer as penalidades da segregação, faz com que não possamos parar. Internaliza-se e habitua-se com a velocidade. O sentir-se atendendo a todas essas demandas, alivia, ao menos por algum tempo, a angústia, atenua o medo, porém o processo não pára aí, continuamente novas necessidades e premências são criadas, resultando em mais angústia, mais pressa, mantendo, com isso, o movimento. Em realidade corremos, mantemo-nos em velocidade com receio de sermos ultrapassados; a pressa, no entanto, não leva a nenhum lugar específico, como ratinhos andando em círculos, ela existe unicamente para manter o próprio sistema.

As crianças, desde muito cedo já se vêem engolfadas nessa dinâmica. Foi-se o tempo em que elas tinham tempo de sobra para fazer atividades que nos acostumamos a ver como próprias da infância. Surgem patologias infantis, como o estresse, que anteriormente eram exclusivas do mundo dos adultos. Envolvidas em uma série de tarefas extracurriculares, tendo que atender a inúmeras demandas, vivendo em um mundo extremamente competitivo, não raro elas se queixam, ou mesmo que não o façam, demonstram de outras formas, não estar conseguindo suportar toda a pressão a que estão sendo submetidas. O processo de internalização da pressa, da busca de eficiência e de resultados ocorre cada vez mais precocemente, a medida em que somos preparados para sermos “vitoriosos”, para não estarmos entre as excluídos.

Esse movimento não se restringe a um grupo específico, progressivamente, ele atinge todo o globo e todas as classes sociais. Obviamente que de forma diferente, já que os louros dessa premência serão sempre para muito poucos e, normalmente, o alcançarão aqueles que foram mais bem preparados para esse sistema competitivo. Os pais de classe média e alta sabem bem disso e, exatamente em função desse fato, e porque não conseguem vislumbrar alternativas que não sejam a da adequação ao sistema, vão, cada vez mais, impondo aos seus filhos novas necessidades e domínio de habilidades. Mais uma vez o medo e a angústia mantém a necessidade de não parar.



É importante ressaltar que a premência e o movimento não são vistos, em geral, como um problema. Na verdade, eles só são encarados desta forma quando a pressão se torna tão forte que há algo como uma implosão, um cansaço, a impossibilidade de



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corresponder a esses e a todos os outros anseios que recaem sobre o sujeito. Na


experiência cotidiana, entretanto, essa impossibilidade de parar é grande produtora de
sentido, já que confere urgências, necessidades, imperiosidades, que nos distanciam de
questões existenciais que poderiam tirar o sono como: a possibilidade da morte, o
envelhecimento, a ausência de sentidos metafísicos para a existência, as falências
afetivas etc. O ter sempre um algo a fazer, o estar movido por mil objetivos e projetos é,
de certo modo, fortemente tranqüilizador. Do mesmo modo, a sacralização subjetiva, a
luta por procurar uma posição de destaque, o sentir-se diferenciado e especial, é
altamente sedutor. Há uma sensação presente de preenchimento, de propósito, que só se
desfaz quando nos deparamos com algo como um fracasso, uma intempérie, uma
doença, que nos apontam para o limite, para a impossibilidade de sermos os “deuses” do
projeto pós-moderno.

Esse movimento, que, como vimos, acaba por constituir-se em uma busca de propósito e preenchimento do vazio de sentido, por uma luta para aliviar a angústia e neutralizar o medo, não se dá unicamente quando estamos em mobilidade, ao contrário, ele se faz, muitas vezes, quando estamos fisicamente parados. Estão aí a internet, que nos permite cruzar espaços em uma velocidade absolutamente impensável no passado, e a televisão, que nos abre uma janela para mundos e culturas os mais variados. De link em link, de canal a canal, movemo-nos velozmente, ultrapassamos barreiras. De posse do controle remoto, o homem moderno exerce o seu poder, escolhe, viaja, move-se, “conhece” o mundo, “forma” opiniões. Agilmente ele vai de Paris a Tóquio, ele visita o museu do Louvre e presencia uma guerra. A linguagem há muito já não é mais a da narrativa, o tempo é o da informação, a descartabilidade de idéias que nos impõe um novo constante. O importante é estar em movimento, é sentir-se vivo, é nunca estar em repouso, a não ser que o repouso seja o lazer, uma viagem cheia de surpresas, emoções, prazeres, em que o que menos se espera é o repouso de fato.



Um campo em que todo esse movimento, essa pressa internalizada, fica muito clara, marcando indistintamente a nossa experiência subjetiva, é na relação com o consumo.

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Somos todos consumidores
Ser consumidor é estar em movimento, é viver sempre uma inquietação, um ainda não, é manter-se no campo do desejo, da espera por um algo novo, algo que venha surpreender os sentidos, trazer prazeres e satisfações nunca antes pensadas.

Talvez, nada caracterize tão fortemente a experiência subjetiva do contemporâneo, do que nos pensarmos enquanto consumidores. Sabiamente, Bauman (1999) classifica a nossa sociedade como uma sociedade de consumo, distinguindo-a da que nos precedeu - uma sociedade de produtores. Obviamente o homem sempre consumiu, mas como assinala Bauman, a diferença está na ênfase, no fato de que já não podemos pensar em nós mesmos sem, de alguma forma, enxergarmo-nos como consumidores. A própria riqueza apresenta-se de forma diversa: enquanto para os produtores o valor estava no acúmulo puro e simples, na sociedade de consumo o acúmulo sem a ostentação de símbolos e marcas, que distingam aqueles que podem consumir dos que não podem, não tem nenhum sentido.

O consumidor ideal vive em busca. Há sempre assinalado, como em uma miragem, um ponto de chegada, um objetivo a ser alcançado, que, teoricamente, traria o apaziguamento dos sentidos, a satisfação. Entretanto, o conceito de satisfação é absolutamente falacioso, ele sugere que, através do acesso a um determinado bem, conseguiremos um estado de espírito em que a necessidade será neutralizada. Esse estado, no entanto, não existe e não interessa a ninguém. Em realidade o sistema produtivo alimenta-se da insatisfação, na mesma medida em que nos promete a satisfação. Compra-se, por exemplo, um carro novo ou um eletrodoméstico, julgando que a aquisição propiciará “satisfação”. Isso, de fato, ocorre por um período curto, entretanto, em pouco tempo será lançado um outro produto, mais “moderno”, com “botões” e controles que, muito provavelmente, jamais serão utilizados, mas que são sugeridos e introjetados como “necessários”. Surge um sentimento de insuficiência, de insatisfação, que gera o desejo de novamente consumir, mantendo a estrutura produtiva. Portanto a satisfação é tudo que não se quer por parte da estrutura de consumo, mas não somente por parte dela. Também o consumidor não quer a neutralização de seu desejo, ao contrário, ele alimenta-se e move-se por ele. O desejo, as pretensas necessidades, o ter o que comprar, o pelo que trabalhar mais e mais, é grande produtor de sentido, confere propósito. O consumidor quer o próprio desejo, ele aspira ter urgência e necessidades, ele quer ser “surpreendido”, quer viver emoções novas, experimentar






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