Pacto de sangue



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Aliás, foi lá na igreja que ele me abordou. Eu ia todos os domingos na igreja. Era um cristão devoto, que acreditava em tudo que a Bíblia diz. E odiava gente que não acreditava. Gente que fica dizendo por aí que Jesus não é filho de Deus, que ele foi um homem comum que morreu como todo mundo e que não ressuscitou coisa nenhuma. 

Odeio gente que não acredita nele. Sempre achei que é por isso que existe tanta coisa errada no mundo. Pais que abandonam os filhos, filhos que desrespeitam os pais, ladrões por todos os cantos, gente se entupindo de drogas e cagando nas ruas, sujando tudo e emporcalhando o mundo, fazendo coisas nojentas em público, como se estivéssemos em plena Sodoma e Gomorra.

Odeio principalmente gente que mora nas ruas. Se esses indivíduos moram nas ruas é porque não prestam. Se prestassem não teriam deixado suas famílias, não teriam se tornado usuários de drogas, alcoólatras, mendigos e vagabundos. Odeio também essa gente que fica nas esquinas, se fazendo de artistas de circo, e essas crianças e adultos que riscam os para brisas dos nossos carros com sua água imunda e suas flanelas nojentas.

Eu já fui um sujeito muito mais simples do sou hoje. Um semianalfabeto, diga-se de passagem Mas depois que conheci o Adrammelech deixei de ser. Nunca tinha ouvido antes esse nome: Adrammelech.  Nome estranho, mas achei sugestivo, forte, diferente. Se dia tiver um filho vou dar esse nome a ele. Também não sei o que é a Ordem de Samael. Ele me explicou, mas eu não consegui entender nada. Para mim soou uma espécie de maçonaria. Mas eu também não sei o que é maçonaria. Só sei que seus membros se vestem de preto e fazem reuniões secretas dentro de uma igreja que eles chamam de Loja. Dizem que os maçons têm parte com o capeta. Eles não parecem ser gente tão ruim assim. Já trabalhei para um deles e a única coisa que estranhei foi ver aqueles símbolos esquisitos que eles usam. Esquadros, compassos, réguas, um olho no topo de uma pirâmide, uma corda cheia de nós.

Sei lá. Eu tenho horror á essas coisas que eu não entendo e que parecem revelar um mundo desconhecido, feito de magia e mistério. A Bíblia condena essas coisas e como eu sou um crente convicto também tenho que condenar,
Mas o Adrammelech é um cara legal. Desde o primeiro dia em do que o vi, parece que a gente se deu bem. Ele veio, sentou-se ao meu lado na igreja e disse que andava á minha procura já há algum tempo. Perguntei por que e ele me respondeu que tinha um trabalho para mim, e que se eu o fizesse bem, a minha vida iria mudar para muito melhor.

Claro que eu me interessei logo pela conversa dele. Principalmente com aquele negócio da minha vida mudar para melhor. Sempre fui um cara muito sofrido. Não sei quem foi meu pai e minha mãe não é o tipo de mulher que alguém gosta de chamar de mãe. Ela dava para todo mundo. Quando eu era criança ela me mandava sair de casa de madrugada, ir para a rua e ganhar algum dinheiro. Não importa o que eu fizesse para isso. Só tinha que trazer algum para casa. Se não trouxesse apanhava e ia dormir com fome. E sempre tinha um cara para dormir com ela. Geralmente um cara diferente. Por isso, tão logo comecei a ganhar dinheiro suficiente para me manter, caí fora de casa. Eu não me aborreço em ser chamado de filho da puta, mas dói imensamente saber que eu sou filho de uma.


O Adrammelech não mentiu. Ele se tornou o meu melhor amigo. Só pelo fato de ele ter me ajudado a melhorar de vida eu digo que ele foi a melhor coisa que aconteceu para mim. Ele me ajudou a arranjar um emprego melhor ─ imagine vocês que eu era um mero servente de pedreiro, e em menos de seis meses me tornei mestre de obras! Ganho agora dez vezes mais do que ganhava antes. Consegui até comprar um Fiat Pálio semi novo com o qual, parece, fiquei mais bonito, pois tenho conseguido até pegar algumas garotas, coisa que não conseguia antes.

Sim, eu estou agora bem de vida e sei que devo tudo ao Adrammelech. Foi ele que me ensinou, em tão pouco tempo, as técnicas de construção e administração de obras, com as quais eu convenço as pessoas a me contratar como empreiteiro. Foi ele que me ensinou as melhores cantadas, com as quais eu pego as meninas mais gostosas. Ele me ensinou a falar e a me vestir bem. Ele me transformou neste sujeito boa pinta que sou agora.

O Adrammelech é o meu gênio protetor. Por isso não estranhei quando ele me trouxe aquele facão afiado e disse que estava na hora de eu pagar tudo que ele havia me dado até então. O que eu tinha que fazer era simplesmente cumprir um pequeno ritual para poder entrar na Ordem de Samael. Eu teria que matar doze mendigos, ou moradores de rua, ou ainda prostitutas ou drogados. Ele me disse que isso era o que o “o Mestre da Irmandade" exigia, pois o mundo precisava ser limpo dessa imundície. Era um serviço que eu tinha que fazer para o bem da humanidade.

Não foi difícil entender o que ele queria que eu fizesse, nem achei que fosse coisa ruim. Afinal, eu não gostava mesmo dessa gente que fica dormindo em baixo nas marquises, congestionando as calçadas, cagando e mijando na rua, jogando lixo e sujeira para todos os lados. Também sempre odiei essa gente que se droga, esses mendigos sujos, fedorentos e maltrapilhos que ficam pedindo esmolas nos semáforos. E as prostitutas então... Essas malditas lembram a minha mãe...


A minha primeira vítima foi uma delas. Talvez eu tenha começado com as prostitutas justamente porque estava pensando em minha mãe. Não sei. Mas eu a retalhei com gosto. Foi fácil atrair a bobinha. Ela entrou no meu carro. Levei-a para um local bem afastado da cidade, pedi para ela tirar a roupa e fechar os olhos. E quando ela esperava que eu fosse meter o meu pau na sua xereca, o que entrou foi a lâmina do meu facão na garganta dela. Um golpe só. A cabeça daquela cadela fedorenta rolou que nem uma bola que a gente chuta.

Na mesma noite, depois de matar aquela puta, eu vinha voltando para a cidade e vi aquele mendigo dormindo no ponto do ônibus. Coberto com jornais, uma garrafa de pinga pela metade, ao lado dele. Combinação perfeita. Derramei a pinga nos jornais. Eu não fumo. Por isso não carrego fósforos nem isqueiro. Mas isso não foi problema. Usei o isqueiro do carro. Foi uma bela fogueira. Deu até para sentir o cheiro da carne queimada, temperada com cachaça. O terceiro foi um morador de rua que encontrei em um semáforo da cidade. Era madrugada. Não havia ninguém na rua. O idiota veio me pedir uma moeda. Disse que era para comprar um pãozinho. Mentira. Era para beber pinga. Desci do carro. Dei-lhe uma estocada bem no meio do umbigo. Depois puxei a lâmina para cima, como se estivesse abrindo a barriga de um peixe. As tripas dele se derramaram no meio da rua como se fosse um frango que a gente acabara de limpar.


E assim foi. Em três dias eu completei a missão que o Adrammelech me deu. Matei doze pessoas. Fui metódico. Quatro eram mendigos, quatro eram moradores de rua e quatro eram prostitutas. Não se perdeu nada. No quarto dia, quando eu terminara de matar o décimo segundo, o Adrammelech entrou de surpresa no meu carro, quando eu parei em um semáforo. Não sei de onde ele veio, nem o que estava fazendo ali naquela hora soturna da noite. Mas ele era assim mesmo. Costumava aparecer do nada, nas horas mais insólitas, como se fosse um fantasma.

“Você cumpriu bem sua tarefa”, disse-me ele. “Agora estamos parelhos com o nosso maior inimigo, o Miguel. Ele é o Mestre da outra Irmandade, a dos Elhoins. Como ele levou doze almas para a Irmandade dele, e esses doze tem multiplicado desde então os quadros da sua Ordem, nós temos que, periodicamente, levar doze para o nossa, para que ela se equilibre com ela em poder. Seja benvindo. Você agora é um dos nossos.”

E aí ele me disse que a polícia ia me pegar. Mas que eu não me preocupasse com isso. Que tudo já estava acertado para mim. Que eu já tinha conquistado meu lugar ao sol. Eu acredito. O Adrammelech nunca me mentiu. Agora mesmo, enquanto a polícia me interroga, e os policiais ficam me olhando com essa cara de horror, como se eu fosse um psicopata sem cura, ou uma pobre alma possuída pelo demônio, como disse aquele padre, ele está ali, sentado, morrendo de rir disso tudo. Ninguém pode vê-lo, pois ele não se mostra aos não iniciados nos Mistérios da Ordem de Samael.

Ele está ali, sentado em um cantos da sala, solidário como um Mestre que acompanha o seu discípulo em uma prova. Está sorrindo para mim agora e me dizendo que tudo vai ficar bem.


  Eu confio nele. Por isso estou tranquilo. Eu sei que nada pode me atingir neste mundo. Porque agora eu já sou um deles. Um membro da Ordem de Samael.*

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*Nota do autor: Adrammelech é um dos dez principais demônios citados pela Cabala, e Samael é a Ordem demoníaca á qual ele pertence, e atua como Mestre. Ele aparece na oitava manifestação Sefirótica da Árvore da Vida e sua influência corresponde, no Zodíaco, ao planeta Mercúrio, anunciador das grandes tragédias. Elhoim é principal ordem angélica, e  Miguel é o seu Mestre. Sua área de influência é sol, o astro da luz. Na Cabala cristã \o Arcanjo Miguel é identificado com o Cristo.

UM AMOR DOS INFERNOS- LENDA MEDIEVAL

                                                     


Et pour ce nul de vos presume baisier de feme, ne veve, ni pucele, ne mere, ni seror, ne ant , ne nule otre feme...). “E por isso nenhum de vocês deve ousar beijar esposa, viúva , donzela, mãe, irmã, tia, ou quaisquer outras mulheres”   § 123- Regra Da Ordem do Templo.

 
Essa era a regra. Um cavaleiro templário, ao entrar para a Irmandade devia renunciar para sempre ao amor. Devia, doravante, viver para a Ordem, perseguindo os santos objetivos pelos quais lutava, ou seja, a defesa intransigente da fé cristã, as ordenanças da Igreja, os interesses do reino cristão na Terra Santa. Por isso jurava manter a castidade, praticar a caridade e viver na mais estrita pobreza.

Era uma regra dura, mas tudo isso o Cavaleiro Aymeric jurara e achara fácil cumprir. O prêmio era impagável em qualquer moeda: a salvação da sua alma. Ele não via problema algum em viver na mais estrita pobreza. Os bens do mundo nunca o atraíram. Nascera na pequena nobreza do Languedoc, nunca possuíra nada além das suas armas e seu cavalo, os quais oferecera em vassalagem ao conde de  Mountbard, em troca da sua elevação á nobre condição de cavaleiro. Depois, quando viera a cruzada, ele, juntamente com seu lorde suserano embarcara para aquela grande aventura na Terra Santa, para combater os infiéis que haviam ocupado a sagrada cidade de Jerusalém e proibido os cristãos de visitar os lugares santos.

Lutara com denodo e coragem no cerco de Jerusalém, quando os cristãos tomaram a cidade, naquela tarde do dia 15 de julho de 1099. Ele fora um dos cavaleiros que formavam a linha de frente da batalha, quando os cruzados entraram na cidade, cruzando um rio de sangue que lhes cobria os tornozelos.

Sim, Aymeric era um valoroso soldado que não se importava com os prazeres da vida, nem desejava riquezas e tinha um coração aberto para a caridade. Por isso fora um dos primeiros irmãos a se filiar á Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo do Rei Salomão, um grupo de cavaleiros que se propuseram a viver como monges mendicantes, defendendo e protegendo os peregrinos cristãos que viessem a Jerusalém para adorar nos lugares santos.

Eles sim, eram verdadeiros santos. Ardentes defensores da fé, piedosos cristãos que não temiam derramar o próprio sangue em defesa dos valores que o Senhor Jesus Cristo havia trazido ao mundo e a Igreja de Roma se esforçava para disseminar, preservar e manter. Por isso ele havia sido iniciado naquela santa Irmandade, cujos regulamentos haviam sido redigidos por outro santo, o grande São Bernardo de Clairvaux.


E fora o próprio São Bernardo que redigira aquela regra que, agora, dez anos depois da sua iniciação como Templário, fazia dele o mais infeliz dos seres sobre a terra. Sim, aquela maldita regra que proibia que um cavaleiro templário se aproximasse de uma mulher: ‘... Et pour ce nul de vos presume baisier de feme, ne veve, ni pucele, ne mere, ni seror, ne ant , ne nule otre feme.”

Porque ele, Aymeric de Saint Didier, estava loucamente apaixonado pela dama Blanche de Chatillon, a jovem filha do conde Reinald de Chatillon, um dos pares do reino de Jerusalém e grande senhor entre os nobres cristãos que viviam na Terra Santa.

Mas ele, Aymeric, não podia nem almejar olhar para aquela donzela. Não fosse pela sua condição humilde, oriundo da pequena nobreza do Languedoc, embora feito cavaleiro por mérito conquistado no campo de batalha, havia ainda um impedimento maior, representado pelo seu juramento de cavaleiro Templário, de observar a mais estrita castidade, pois assim o exigia os votos da profissão de fé que adotara.

A mulher, diziam os ensinamentos que ele recebera nos Capítulos do Templo, devia ser vista como uma deusa. Devia ser adorada e respeitada como se fosse um santo relicário. Todo e qualquer pensamento lascivo em relação a ela era considerado um pecado capital. Devia ser expiado com jejuns, preces e retiro espiritual. Se o pecado tivesse sido cometido, ainda que por um mero olhar, uma palavra que fosse, dirigida a uma mulher, então o castigo era ainda maior. O chicote, a prisão, anos em uma masmorra, com ração de pão e água.

Essas regras já vinham da tradição da cavalaria secular. Por essa tradição, todo cavaleiro, ao ser armado, escolhia uma dama a quem jurava servir e ser fiel em seu coração. Com esse juramento acreditava-se que o cavaleiro se comportaria sempre com nobreza e seu coração seria eternamente fiel a um principio. Quanto aos Templários, sua jura a esse respeito era para com a Virgem Maria e a Igreja, as duas damas “viúvas” a quem eles juravam servir para sempre, em seus corações e espíritos. Por isso o Cavaleiro Templário era conhecido como “Filho da Viúva”, pois Maria, mãe de Jesus, era viúva de José, o carpinteiro, e a Igreja de Roma era a “esposa” viúva de Jesus.
Mas a paixão de Aymeric por Blanche tornava-se cada dia mais intensa. Ainda que nunca tivesse falado com a moça, ele sabia que ela também o amava. Estava escrito nos olhos dela. Ele via esse amor crescer dia a dia, a cada vez que seus olhares se cruzavam, no passo da Corte, onde ele, como cavaleiro, exercia suas funções junto ao Grão-Mestre do Templo e ela, na qualidade de dama de companhia da princesa Sibila, a irmã do rei leproso, Balduíno IV, costumava passar todos os dias em direção ao palácio real.

Aymeric chegou naquele ponto em que uma paixão se torna obsessão. Ele tinha que possuir aquela moça. São exatamente as paixões não correspondidas, ou aquelas cujas barreiras físicas, sociais ou religiosas impedem a correspondência que se tornam obsessivas. Por isso o cavaleiro estava numa encruzilhada fatal da qual não tinha como escapar. Eram dois abismos postos na frente e atrás dele, de forma que qualquer passo que ele desse, em qualquer direção, o resultado seria terrível. Ou teria que escolher a loucura, que fatalmente adviria se ele não pudesse desfrutar o amor de Blanche, ou  então o degredo, a prisão, a excomunhão, se resolvesse deixar a Ordem para viver o seu amor. E depois disso, o inferno quando morresse, pois para lá iam todos os perjuros, os excomungados, os traidores dos votos sagrados.


As mentes torturadas são o canal pelo qual o demônio entra no mundo. E foi certamente o demônio que sugeriu á Aymeric a solução que ele, depois de muitas noites sem dormir, afinal, resolveu adotar. Pois o demônio sugeriu ao impoluto e casto cavaleiro simplesmente que ele matasse Blanche e depois possuísse o seu cadáver. A lógica do demônio era simples: uma vez que a razão da sua loucura não mais existisse, ela também deixaria de existir. E quanto a sua paixão, ela seria satisfeita pela posse do corpo da moça. Assim, ele ficaria plenamente satisfeito: usufruiria do amor da sua dama e não precisaria quebrar os votos feitos à sua Ordem, já que um cadáver de mulher não podia ser considerado uma mulher. Pelo menos, não mais.

O demônio era insistente e ao cabo de algumas semanas de intensa pressão acabou convencendo Aymeric de que essa era a única solução. Não foi difícil para ele atrair Blanche para um encontro em um dos becos escuros de Jerusalém. Isso era o que mais havia naquela cidade de vielas escuras, estreitas e malcheirosas, que nenhuma pessoa honesta tinha coragem de frequentar depois que escurecia. Mas Blanche também o amava e estava esperando por isso há muito tempo. Sonhava com esse momento em que seu amor fosse finalmente correspondido.

Rezava para que um dia o seu cavaleiro tivesse a coragem de abandonar seus votos e entregar-se de vez áquela paixão, que a cada dia também crescia em seu coração de donzela sonhadora. Ela sabia de todas as restrições que eram impostas aos Templários nesse sentido. Mas também acreditava que o amor tudo vence: até mesmo as barreiras que a loucura e a ignorância humana impõem á sua própria natureza.   

E foi com essa confiança, o coração cheio de amor e a maior das esperanças que ela foi se encontrar com Aymeric. E ao invés das juras de amor, dos beijos sonhados e experimentados na sua imaginação de donzela, do prazer que vem do amor consumado, o que encontrou foi a morte na ponta do punhal do seu amado.

E depois de matá-la, ele a violou. Mas mal terminara o seu nefasto ato de necrofilia, satisfeita a doentia paixão dos seus sentidos desvairados, ele ouviu a voz que vinha do ensanguentado cadáver da infeliz Blanche. “Venha ao meu túmulo daqui a nove meses para ver o resultado do seu ato.”
Nunca se descobriu o assassino da jovem Blanche. Por seu lado, Aymeric encontrou, finalmente a paz. O demônio não havia mentido. Aymeric cresceu dentro da Ordem do Templo e acabou se tornando preceptor de uma das mais importantes preceptorias templárias da Europa. Nunca mais o demônio o atormentou. E nunca ninguém soube da sua aventura. E também jamais revelou a alguém, que nove meses depois do seu horrendo crime ele foi ao túmulo de Blanche e violou a sua sepultura. E ao abrir o caixão da amada, encontrou, entre suas pernas, uma cabeça humana, de feto recém-nascido. O corpo de Blanche, já completamente decomposto, estava em posição de mulher que acabara de dar a luz. Então, a mesma voz que lhe dissera para vir ao túmulo dela depois de nove meses lhe disse: “guarda em segredo essa cabeça e presta-lhe culto nas sextas-feiras santas á meia noite. Ela fará a sua fortuna e a de seus Irmãos”.
Assim nasceu o demônio Baphomet que fez a Ordem dos Templários se tornar a mais rica e poderosa Irmandade de todos os tempos. E depois também levou a todos eles para o inferno.

O OUTRO

Sabemos agora que toda partícula tem uma antipartícula, em relação á qual ela pode se anular.(...) Poderia existir um antimundo e antipessoas, feitas de antipartículas. No entanto, se você encontrar seu antieu, não aperte a mão dele! Vocês desapareceriam ambos num grande foco de luz.” 

Stephen W. Hawking- Uma Breve História do Tempo.           

 
Eu comecei a desconfiar que alguma coisa estava errada quando a minha mulher olhou para mim daquele jeito. Foi um olhar de desconfiança, de estranheza, perplexidade, de alguém que acaba de descobrir no companheiro de vinte anos uma faceta desconhecida.
Não, não era nenhuma coisa ruim. Pelo contrário, era coisa muito boa. Para ela, pelo menos. Vi isso na comunicação não verbal do seu rosto, no movimento dos seus olhos. Ela estava feliz com aquilo que parecia ser uma mudança qualitativa que estava ocorrendo em mim.

Uma mudança para melhor, segundo ela. Mas quando uma pessoa começa a se comportar de modo diferente do que sempre fez, o desconfiômetro é imediatamente ligado. Principalmente desconfiômetro de mulher. Geralmente elas acham que o seu homem está tendo um caso e por isso procura compensar em casa com mais carinho e atenção. Foi isso que ela me disse e eu, juro por Deus, não entendi bulhufas o que estava acontecendo, pois para mim, eu não estava fazendo nada diferente do que sempre fiz.

Não sou perfeito, sei até que não sou um caráter sem mácula, mas fiel eu sempre fui. E nada havia mudado em mim. Eu continuava sendo como sempre fui. Mas minha mulher jurava que sim, que eu andava mudado. Que eu tinha me tornado mais carinhoso, mais participativo, mais gentil com ela e com as crianças. Solicitou o testemunho delas e elas confirmaram. Notara também que eu me tornara mais atencioso e simpático com as pessoas. Antes eu era um cavalo xucro. Dava patada á torto e direito. Disse até que eu havia me tornado mais cuidadoso no trânsito. Que eu não avançara nenhum sinal amarelo no último mês, nem invadira faixa de pedestres, como costumava fazer.

No entanto, eu tinha certeza que nada mudara com relação a isso. Pedestres continuavam a ser um estorvo para mim. Sinal amarelo uma zona de disputa onde o mais rápido vence. Eu ainda pensava e fazia as mesmas coisas que sempre fiz e não tinha lembrança de qualquer mudança no meu comportamento habitual. Mas ela insistia que sim. Que eu mudara. Que eu estava até mais viril no sexo. O que, depois de vinte anos, com a mesma mulher, reconheçamos, é uma façanha. Eu não acreditava muito nisso. Se fosse com outra mulher podia ser. Touro só é touro por que sempre troca de vaca. Pelo menos era isso que eu costumava dizer para mim mesmo, embora como já disse, eu não fosse muito de aventuras fora de casa. Não por virtude de caráter, mas por uma razão muito prática: amantes custam caro e quase sempre dão dor de cabeça.

Mas todas as pessoas que conviviam comigo começaram a dizer a mesma coisa. Que eu estava mudado. Não fisicamente, é claro. Mas de personalidade. Que eu parecia estar mais jovial, mais inteligente, mais participativo, mais simpático, mais tudo isso e menos egoísta, menos egocêntrico, e coisas tais que eu nunca reconheci ser, mas que todo mundo parecia achar que eu era. E eu, na verdade, não via nada daquilo acontecendo em mim.

Salvo que eu estava me sentindo cada vez mais fraco, mais ausente de mim mesmo, mais esquecido de mim próprio. Sim, houve momentos que eu me peguei na rua sem saber quem eu era e para onde estava indo. Foram momentos de total apagão neurológico, nos quais a minha própria identidade era esquecida e eu sequer sabia o meu nome e onde morava, o que fazia na vida e coisas tais.

No início foram alguns lampejos de esquecimento. Começou assim, como pequenos escotomas, minúsculos laivos de insensibilidade, nos quais eu não via as chaves do carro que estavam na minha frente, ou esquecia os óculos que estavam no meu próprio rosto e começava a procurá-los, ou esquecia o relógio que estava no pulso e ficava revirando a casa atrás dele. Eu havia lido que escotomas são manchas que aparecem no campo da sensibilidade visual das pessoas, “ escondendo”  certos pontos ou regiões do nosso campo visual, e que isso era normal nas espécies mamíferas. Todas têm uma espécie de “ponto cego” em seus campos de visão. Mas eu não sabia que isso podia ocorrer também com os campos da memória, da sensibilidade tátil e com a sensação do próprio ego.

Era, no entanto, o que estava ocorrendo comigo. Aliás, é o que está ocorrendo comigo. Eu estou simplesmente apagando aos poucos. E agora sei que é um processo irreversível, que está ocorrendo no interior da minha mente e vai ocupando todas as células do meu corpo. Mas é um procedimento completamente diferente de todo e qualquer outro processo de morte que algum ser vivo jamais experimentou. É uma morte psíquica, uma morte ontológica, na qual o organismo sobrevive e até se renova, mas é a sua alma, o seu espírito que morre.

É uma morte ontológica. Nenhuma religião, nenhuma doutrina, nenhuma filosofia sequer conseguiu descrever uma forma de morte assim. As religiões costumam matar o corpo para preservar o espirito e a alma. Mas isso é porque o corpo é a única coisa que se pode ver, ouvir e sentir. Alma e espírito são realidades que estão além dos nossos sentidos. Só podemos matar aquilo que vemos, ouvimos ou sentimos. Por isso pensamos que o espírito sobrevive á extinção do organismo e a alma é uma substância imortal.

No entanto, eu vejo, escuto e sinto o meu espírito e a minha alma se extinguindo lentamente como se fossem uma mina de água secando por falta de chuva. Sinto-me como uma bateria que está sendo descarregada aos poucos e não consegue pegar mais carga. Mas o meu corpo, esse eu sei que ele está, de alguma forma, vivendo, e cada vez com mais energia, vigor e sensibilidade. Não sou eu que o digo, mas as pessoas que me conhecem. Elas me reconhecem, me elogiam por essa mudança, congratulam-se comigo por essa melhoria de personalidade, como eles dizem, mas eu, eu, que já fui, e estou no estertor da minha agonia enquanto ser, sei que esse indivíduo simpático, solerte, agradável e viril que eles elogiam e recebem com prazer e satisfação, muito mais do que me recebiam, não sou eu.

Ele, o outro, está ocupando o meu lugar no universo e assumindo tudo o que eu sou. Isso me incomoda. Sei que ele é melhor do que eu. Ele vai ocupar o meu lugar no afeto dos meus amigos, no coração da minha esposa e filhos, o meu espaço na cama com ela. E ela, eles, os meus filhos, vão amá-lo mais do que a mim. Mas ele não é eu! Ele não é eu!

Eu sei que estou chegando ao fim desta extraordinária experiência. Sei disso porque o tenho visto, sim, já invadindo o meu campo energético. Sim, o outro eu já está andando ao meu lado, já me substitui no espelho, quando me olho, usando as minhas roupas, os meus sapatos, o meu aparelho de barba, os meus óculos, e até os meus pensamentos. Nem sei se ainda tenho alguma coisa que possa chamar de meu. Ele já se apropriou de tudo. Já o peguei até fazendo amor com a minha mulher. E ela parecia estar gostando mais do que quando era eu.

Ele já assumiu a minha essência física quase que totalmente e eu já não tenho nenhuma força para confrontá-lo. Ele já chupou todas as minhas energias físicas, como se fosse um vampiro neurológico que assumiu o controle do meu corpo e de todos os meus estados interiores, substituindo-os pelos dele.

É com o último lampejo de energia que ainda tenho que escrevo este registro. Se não conseguir terminá-lo já sabem por quê.  Ele está chegando, se aproximando, eu sinto, e desta vez será definitivo. Ele é o meu antieu. Não sei como ele conseguiu manipular a mecânica das leis quânticas para vir a ocupar o mesmo universo que o meu. Mas sei que nós dois não podemos conviver no mesmo espaço dimensional. Um dos dois terá que se anular. E esse será eu. Eu sei disso. Eu sei disso.

Ele está chegando, e desta vez para ficar. Ele sabe que não pode tocar em mim e eu sei que não posso tocar nele. Ambos desapareceríamos em uma grande explosão de luz que destruiria o universo em que vivemos. Ele é esperto e não quer isso. Ele quer o meu lugar. Talvez estivesse esperando por isso há milhões de anos. Talvez me invejasse e sempre quisesse viver neste lado do universo paralelo onde as coisas podem ser sentidas. Por isso ele foi me ocupando aos poucos. Assumindo tudo que eu fui. E cada célula do meu corpo. Cada gota do meu sangue. Cada neurônio do meu cérebro. Devagarinho, sem alarde, sub-repticiamente, para que eu não percebesse e achasse um meio de reagir. Agora não tem mais jeito. Os polos já estão completamente invertidos. Agora ele é o positivo e eu, eu serei o negativo. Mas eu não sentirei mais nada. Ele está chegando para me assumir de vez. O outro. O antieu.

 

A VIDA, A MORTE E A LEI DE MURPHY

Aquele jantar já estava na agenda há bastante tempo. Era o aniversário de casamento dos melhores amigos de João e Márcia. Amigos há mais de quarenta anos. Eles haviam sido os padrinhos de Mário e Alice. Suas famílias cresceram juntas, e havia mesmo quem dissesse que as famílias dos dois casais constituíam a “igrejinha” mais forte do bairro.

No entanto, Márcia se surpreendeu com a decisão de João, tomada ás seis horas da tarde, quando ela começava a se arrumar para o jantar.

─ Não me sinto bem ─ disse ele. ─ Sei, lá. Acho que tive uma queda de pressão.

─ Tomou seu remédio hoje? ─ perguntou Márcia. Ela sabia que ele tinha problema de pressão. Afinal, já estava chegando aos setenta.

─ Tomei. Mas não é isso ─ disse João. ─ É uma sensação esquisita. Um mal estar, uma coisa assim, como se a minha energia vital tivesse diminuído. Sinto-me completamente sem vontade de sair. ─ Você se importa se eu não for?

─ Eu não ─ respondeu Márcia. ─ Quem vai ficar chateado são o Mário e a Alice. Afinal, é o aniversário de casamento deles e o melhor amigo e padrinho não vai estar presente.

─ É, eu sei ─ disse João. ─ Isso também me chateia muitíssimo. Mas não me sinto mesmo em condições de sair.

─ Então eu também não vou ─ disse Márcia. ─ Não tem sentido ir nessa festa sem você.

─ Não, não ─ protestou João. ─ Você vai sim. Você vai e justifica minha ausência. Diz para eles que assim que eu me sentir melhor, vou fazer uma visita para eles. Amanhã mesmo, se puder. Ou melhor ─ completou ele. ─ Diga que eu vou descansar um pouco e se melhorar até a noite, dou uma passada por lá ainda hoje.  Afinal, o restaurante onde o jantar vai se realizar é pertinho e isso não vai terminar antes da meia-noite...

A contra gosto Márcia foi, deixando João em casa. Antes de sair ela deu uma olhada para ele na cama. Já estava dormindo. Daquele jeito que ele sempre dormia, de bruços, com o braço direito largado, fora da cama. “Hum, mas vai hem?. Nem que a vaca tussa”, murmurou para si mesma, com um sorriso, lembrando que ele havia dito que se melhorasse ainda daria uma passadinha lá no restaurante.


Já passava das onze horas da noite, o jantar estava rolando, quando Márcia resolveu ir ao banheiro, retocar a maquiagem. Foi remexendo na bolsa, em busca do estojo de maquiagem que ela percebeu que deixara em casa a carteira com os documentos. Ela era uma mulher muito atenta a esses detalhes. E também era muito preocupada com essas coisas. Tinha sempre em mente a velha Lei de Murphy: “Se algo pode dar errado, dará.”

Ela nunca saíra de casa sem os documentos pessoais. Especialmente sem a carteira de motorista. Mas agora, que sabia estar sem documentos, tinha certeza que seria parada por um comando da polícia. E para agravar, ela tinha bebido algumas taças de vinho.

Saiu do banheiro pensando em pedir para algum amigo levar o carro para ela. Não ia arriscar, embora o trajeto para casa fosse curto e nunca nenhum comando policial tivesse, algum dia, se instalado nesse trajeto. A probabilidade de que, justamente naquela noite, houvesse algum, era mínima. “Mas se a possibilidade existe”, dizia a maldita Lei de Murpy, então ela fatalmente ocorrerá e da pior maneira. 

Havia outra possibilidade que ela podia explorar. Ver se João havia melhorado e telefonar para ele pedindo que ele lhe trouxesse os documentos. Se a lei de Murpy podia funcionar para ferrar a gente, ela também devia funcionar pelo outro lado, para ajudar. Se alguma coisa pode dar certo, ela dará. Porque isso também não poderia ser transformado em lei? Afinal, se o inverso era a Lei de Murpy, essa seria a Lei de Márcia. A possibilidade de que João tivesse melhorado era mais plausível do que encontrar um comando policial na rua. Por que só o que pode dar errado, tem que dar? Por que o que pode dar certo também não dará?

Foi assim que ela enfiou a mão na bolsa para procurar o celular. Mas nem chegou a completar a ação. Ficou petrificada, boquiaberta, olhando para o homem que estava á sua frente. Ela quase não podia acreditar no que via. Pois ali, na sua frente, sorridente e amoroso, estava justamente o João.

─ Querida, você esqueceu a carteira ─ disse ele. ─ Não pode ficar dirigindo sem documentos. E se um comando da polícia pega você?

─ Meu Deus, querido ─ disse Márcia, com o coração na boca, sem poder conter o susto. ─ Eu estava pensando justamente nisso. Estava pegando no telefone para ligar para você.

─ Não precisa mais. Eu trouxe seus documentos ─  disse ele, entregando-lhe a carteira.

─ Que bom que você melhorou ─ disse ela, mais calma. ─ Venha, venha cumprimentar Alice e Mário. Eles vão ficar felicíssimos por você ter vindo.

─ Não, não, por favor ─ disse João. ─ Eu só vim trazer os seus documentos. Você sabe. Quando a gente sabe que alguma coisa ruim pode acontecer, ela acontece. Paulo de Tarso já havia dito isso: “ o que eu temo é o que me acontece”─ disse ele, com aquele sorriso encantador, que a havia cativado há quarenta anos atrás.

─ Mas por que você não quer falar com eles? São os nossos amigos mais queridos ─ disse Márcia, sem entender.

─ Por favor, não insista, querida. Eu não estou preparado para falar com eles agora ─ disse João.

E antes que Marcia esboçasse qualquer reação João saiu pela porta do salão. Quando Márcia se recuperou da surpresa que o inusitado daquele comportamento do seu companheiro de quarenta anos lhe provocara, e correu atrás dele, ele já havia sumido.

Márcia voltou para a mesa do jantar, mas seu pensamento não estava mais ali. Foi por isso que ela logo se desculpou com o casal, dizendo que precisava ir para casa. Contou a eles o que havia acontecido. O esquecimento dos documentos, o medo de ser parada pela polícia, a ideia de telefonar para o João e a surpresa de encontrá-lo justamente na porta do sanitário feminino com os documentos que ela havia esquecido e um sorriso nos lábios.

─ Mas porque ele não veio para a mesa? ─ perguntou Mário. Seria tão bom vê-lo aqui.

─ Sim. Porque ele não veio? O que há com ele? ─ completou Alice.

─ Eu não sei ─ respondeu Márcia. ─ E isso é o que justamente me preocupa. Ele parecia bem, mas estava esquisito. Por isso é que eu preciso ir para casa. Tenho que saber se ele está mesmo bem.

─ Claro, nós entendemos. Vá, querida ─ disse Alice. ─ E se precisar de alguma coisa, não tenha constrangimento em nos ligar.

─ Isso mesmo. Não deixe de nos ligar ─ disse Mário.
  ─Pode deixar─ disse Marcia, preocupada, enquanto se levantava e dava um rápido beijo nos dois amigos e um ligeiro aceno de mão para os demais.

Márcia não levou mais de dez minutos para chegar ao prédio onde morava. O apartamento estava às escuras. Foi direto para o quarto. João estava na cama, na mesma posição em ela o deixara. De bruços, com o braço direito caído para fora da cama.


Márcia sorriu. Estava tudo bem. Maldita Lei de Murphy. Quanta consumição por causa de uma bobagem. Tirou os sapatos, os brincos e a colar. Depositou-os na caixinha de joias. Começou a despir-se e a procurar o pijama. João continuava dormindo. Ela olhou para ele. Fazia tempo que não olhava para João daquele jeito. Com o carinho e o afeto de uma mãe. Ele parecia uma criança, frágil, desprotegida, vulnerável. Pegou no braço dele, que pendia para fora da cama e ajeitou-o numa posição mais confortável. Ela sempre fazia isso. Nunca havia notado que ele era tão pesado. Aliás, parecia que estava mais pesado do que usualmente. Então sentiu uma vontade louca de abraçá-lo e beijá-lo. Ele fora tão gentil, tão dedicado, saindo de casa naquelas condições para levar os documentos para ela. Os quarenta anos que vivera com ele passaram, em instantes de segundos pela cabeça dela. Foram anos de intensa felicidade. Ela olhou para ele com ternura e admiração. E com gratidão. Nunca o amara tanto como naquele momento. Depositou um terno beijo nos cabelos embranquecidos dele e deitou-se ao seu lado, em conchinha com o corpo dele. Logo adormeceu. 
Márcia só descobriu que João estava morto pela manhã, quando ele não se levantou para o café e ela foi chamá-lo. O médico que ela chamou, velho amigo da família, diagnosticou imediatamente: Parada cardíaca. Mas João não sofrera, disse ele. Morrera dormindo, como sempre dissera que queria morrer. Só uma coisa deixou Márcia estarrecida em tudo aquilo. A hora da morte. O médico afirmou, com toda certeza, que João morrera entre oito e nove horas da noite. Ela protestou que não podia ser. Não disse porquê, mas não podia ser. Não, não era possível. Mas o médico não arredou pé da sua opinião. Não havia como errar. O legista também confirmou. João já estava morto desde ás nove horas da noite anterior.

Se ele já estava morto naquela hora, como poderia ter ido ao salão, ás onze horas, para levar para ela aqueles documentos? Essa é uma questão que Márcia encerrou em seu coração para sempre. Nem com os amigos Mário e Alice, os únicos com quem compartilhara essa informação, ela comentou esse detalhe. Ela só tinha uma certeza agora, e isso é o que a faz esperar a hora da própria morte com tranquilidade. A certeza de que, sejam quais forem as leis que regem a vida do universo, a mais forte de todas é a do Amor. Ela é a única que transcende as barreiras da vida e da morte. Por isso ela espera. Seu espírito é uma ilha de paz e seu rosto uma nuvem de tranquilidade. Ela sabe que logo estará com João novamente e desta vez, por toda a eternidade.


GALINHAS DESTRONCADAS

 
Uma das coisas que mais me incomodava na minha infância era quando a minha mãe matava uma galinha, para os nossos almoços de domingo. Isso acontecia muitas vezes. Eu não tinha problemas com o fato de ela matar a bichinha para servir de almoço para nós. Tanto que, depois que ela era levada á panela, com os temperos que a minha mãe punha, eu comia com tanto apetite que ficava até chupando os dedos, para sentir aquele restinho do gosto da carne temperada com sal, coentro e especialmente, aquelas folhinhas de manjerona. Ah! o gostinho da manjerona, que a minha mãe chamava de “mãegerônimo”.

O problema era com a forma como ela matava a galinha. Era por destroncamento. Ela pegava a coitada e puxava o pescoço dela como se estivesse tirando a rolha de uma garrafa de vinho. Depois jogava a pobrezinha no quintal e ela ficava lá, esperneando, pulando como um peixe fora dágua. Eu achava uma maldade sem tamanho fazer aquilo com a pobre ave. Por isso, depois que ela parava de pular e começava a estrebuchar, soltando os últimos suspiros, eu costumava pegar um pano velho e fazer um travesseirinho para ela. Depois encostava a cabecinha dela no improvisado travesseiro para que ela morresse em paz, confortável, como se fosse gente. Isso acalmava a minha consciência e eu não sentia nenhuma culpa em vê-la depois, recheada de farofa, tostando dentro do forno, ou esquartejada, fervendo dentro de uma panela.

Sensibilidade de criança. Minha mãe olhava para aquela minha arte e sacudia a cabeça, como a dizer: “esse menino é tonto mesmo.”

Talvez eu fosse tonto mesmo. É que dava uma pena danada ver uma criatura de Deus morrer daquele jeito. Por isso jurei a mim mesmo que nunca iria ser cozinheiro de restaurante, pois toda vez que aquilo acontecia, eu sonhava que crescia e ia trabalhar em um restaurante chinês. Por que de chinês, eu nunca descobri.  Mas lá o meu serviço era destroncar milhares e milhares de galinhas, que depois pulavam feito pipocas dentro de uma panela.

Cujos espíritos depois ficavam me seguindo como se fossem um exército de Brancaleone. Era aquele enorme contingente de penosas cacarejando atrás de mim, umas sem cabeça, outras com o pescoço quebrado, outras desmembradas, umas sem asas, outras sem pernas. Estas últimas, algumas até usando muletas, como se meu sonho fosse um gibi de terror. Eu também gostava de ler gibis de terror.


─ Mãe, galinha tem espírito? ─ perguntei um dia á minha mãe, depois que acabara de destroncar uma dita cuja.

Ela me olhou com aquela cara que sempre fazia quando eu dizia alguma besteira ou aprontava alguma molecagem. ─ Eu sei lá, moleque. Isso lá é coisa que se pergunte?

Se era coisa que se perguntasse eu não sei, mas que ela se perguntou, isso tenho certeza. Por que ela ficou olhando para a galinha que acabara de destroncar por um bom tempo. E ela nunca fizera aquilo antes. Suas execuções eram frias e metódicas, como se fosse um carrasco medieval enforcando condenados á morte. Nem um pingo de sentimento no ato.

Mas, que eu me lembre, ela nunca mais destroncou galinhas depois disso. Preferia comprar as bichinhas já mortas e depenadas no açougue ou no supermercado. ─ É mais prático e dá menos trabalho ─ dizia ela. ─ Assim a gente não precisa ferver para depois depenar e limpar. Desse jeito ela já vem prontinha para a panela.

Razão não lhe faltava quanto ao lado prático da questão, mas eu tenho certeza que não foi somente o pragmatismo da coisa que a fez mudar de comportamento. Foi o tal do sentimento. Se temos que fazer alguma coisa que depois a gente tem que justificar para nós mesmos, então é melhor fazê-la depressa e sem pensar. Porque se a gente pensar, não faz. Por isso é que Jesus disse a Judas: “o que tens a fazer, faze-o depressa.” Judas fez e está pagando por isso até hoje, e sei que terá de pagar até o dia em que Deus se cansar deste brinquedo que ele criou. Talvez minha mãe tenha pensado nisso. Depois que pensou, não fez mais.
Seja como for, ela teve tempo de evoluir nesse assunto antes de morrer. Porque, nas últimas vezes que comi frango na casa dela, recordo-me bem que ele já vinha assado e recheado da padaria ou do supermercado. Uma galinha gordinha, de coxas grossas, abertas em cima da mesa. Tinha até algo de sensual naquilo...

E eu nunca mais sonhei com espíritos de galinhas me perseguindo. Ainda bem. Fico imaginando o terror que seria se os coveiros ficassem sonhando com os cadáveres que eles enterram. Essa seria uma profissão sem praticantes.

A MORTE QUÂNTICA

 
Sentado na beira de uma campa, o Dr. Neves observava o vai e vem das pessoas andando pelas ruas estreitas do cemitério, carregando braçadas de flores e montes de velas de todos os tamanhos e cores. Perdera a esposa e um filho em um acidente cerca de dois meses antes e desde então sua vontade de viver também se fora. Era a primeira vez, depois do enterro, que ele vinha a essa cidade dos mortos, que têm suas ruas traçadas como se fosse uma cidade de vivos. Um sorriso amargo aflorou nos seus lábios ao pensar na ingenuidade das pessoas que depositavam montanhas de flores nos túmulos e acendiam aquele monte de velas, cujo sebo derretido escorria pelas lajes e provocava aquele cheiro nauseabundo que lhe revirava o estômago.

"Quanta besteira," pensava ele. "Quem morreu, morreu. Vira comida de vermes e um monte nojento de ossos, que depois são jogados num ossário, junto com milhões de outros, sem distinção de espécie alguma.

" Desaparecem assim todas as diferenças, todas as distinções, todas as identidades, restando apenas o que realmente somos neste grande acidente cósmico que é o universo: uma mera ilusão de ser."

Afinal, no ossário daquele cemitério estavam os ossos dos seus ancestrais, os seus amigos, as personalidades que fizeram a história na cidade, todos aqueles que, de alguma forma, um dia pensaram que eram “alguém”. E agora, ninguém conseguiria distinguir quem fora quem, a menos que um teste de DNA fosse feito em todo aquele depósito de cálcio para se saber quem tinha dado cada contribuição para o acervo.

"Que triste fim para a arrogância humana," pensava o Dr. Neves.


E ali, logo estariam também os ossos da sua querida esposa e seu amado filho, mortos em um estúpido acidente de carro, um acontecimento fortuito e imponderável, que se abatera sobre ele e ceifara a única coisa em que acreditava e amava. Sim. A vida era mesmo uma coisa fútil, fugaz, vazia e sem sentido.
Em Deus ele nunca acreditou. Religião também não tinha. Ele via Deus como uma mera ilusão criada pela mente do homem para dar a ele uma última esperança quando tudo o mais parece perdido, ou então para justificar e conferir sentido a uma existência que não tem um porquê de existir. Deus, para ele, era uma só uma resposta apropriada para a ignorância que temos sobre a nossa origem, a nossa razão de viver e o destino de toda a experiência humana, que no fim sempre termina daquele jeito, perdida em meio a um ossário.

“Deus” dizia ele para quem quisesse ouvir, ‘era uma muleta que os homens inventaram para se escorar na sua impotência. Uma resposta fácil para o mistério que cercava a origem, a finalidade e o destino da vida humana sobre a terra. Como ninguém sabia dizer de onde viemos, porque existimos e o que acontece depois que morremos, inventou-se uma resposta: Deus. Deus era a nominalização de um processo que a mente humana instaurou para justificar a si mesma.” 


Ele também, logo estaria ali, numa daquelas covas, pensou. Aliás, depois da morte de Suzana, sua esposa, e do seu filho Paulo, jovem bacharel, que dentro em breve estaria assumindo o seu lugar no escritório de advocacia que ele construiu ao longo de uma vida de trabalho árduo e honesto, essa era a coisa que ele mais desejava. Que sua existência terminasse o mais breve possível. A vida não tinha mais graça nenhuma para ele. Nem as láureas da profissão, o respeito dos colegas, a admiração dos alunos na faculdade onde ensinava, nada disso o emocionava mais. Nada disso valia a pena. Quando mais depressa terminasse tudo, melhor.

Para o Dr. Neves, a vida parecia ser um acontecimento fortuito que o universo tinha produzido em um momento de descuido. Era assim como um feto produzido em uma relação sexual descomprometida, onde os parceiros descuidaram da proteção anticoncepcional. Sim. Pelo menos naquele momento, em que a amargura de viver e sentir lhe parecia insuportável, o ser humano, para o Dr. Neves, era um feto que a natureza não conseguira abortar e nascera, crescera e se multiplicara, para se tornar, ao mesmo tempo, o seu orgulho e o seu algoz.

Por isso, nada daquilo que as pessoas tinham vindo fazer no cemitério tinha qualquer sentido ou finalidade. Dias dos Finados. Que coisa mais idiota. Ele mesmo só viera ao cemitério por mero enfado. Não estava ali para prantear seus mortos queridos. Afinal, sua crença era que a morte tudo cancela, tudo acaba, tudo homologa. A morte era a sentença final do processo chamado vida, sem possibilidade de recurso.

Viera ao cemitério por que não se sentiria bem se não viesse. Porque ele se sentia culpado por estar vivo enquanto sua esposa e filho estavam mortos. Por que deixou que eles fossem sozinhos naquela viagem de férias? Porque achou que era tão importante aquela audiência, que ele não podia mandar um assistente?  E assim, mandou a família na frente e ele iria depois da audiência. Se tivesse ido junto então ele também estaria morto e não carregaria, como agora, o peso de uma existência que parecia não ter mais nenhum sentido.

Aquelas pessoas, indo e vindo, pelas ruelas estreitas do cemitério, com braçadas de flores e maços de velas na mão... Parecia que estavam indo e voltando de visitas a pessoas vivas. As velas e as flores eram como presentes que se levam quando visitamos amigos e parentes em datas festivas. As pessoas, no dia dos finados, se comportavam como se estivessem no natal ou no reveillon. Ou no dia do aniversário do morto, quando as lembranças são todas para ele. Natal, passagem de ano, dia dos namorados, dia das mães ou dos pais, tudo comércio, nada mais do que mídia comercial criada por marqueteiros para vender os seus produtos. Rituais inúteis que só servem para iludir a nossa sensação de importância, o nosso anelo pela perenidade...
 
─ E aí, amigo. Admirando essa farra toda? ─ disse uma voz ao seu lado.

Ham? – Respondeu o Dr. Neves, meio assustado, porque não havia percebido que alguém havia se colocado ao seu lado

na laje do túmulo onde ele estava sentado.

─ Parece que você não gosta muito desse costume de homenagear os mortos, não é? ─ perguntou o homem que havia se sentado ao seu lado.

─ Porque o Senhor está dizendo isso? ─ perguntou o Dr. Neves, meio desconfiado.

─ Está escrito no seu rosto. Você olha para o povo, indo e vindo com suas flores e velas, e seu semblante é de pura amargura e desprezo por tudo isso.

O Dr. Neves franziu a testa ao receber a observação. Mas logo se recompôs e meneou a cabeça em sinal de concordância. Parecia que o estranho tinha lido a sua mente.

─ É. O senhor tem razão. Eu acho tudo isso muito deprimente. De fato, eu estou mesmo muito amargurado por que perdi minha esposa e um filho recentemente. E não acredito na existência de outra vida, sobrevivência do espírito, ressurreição, todas essas bobagens que as religiões inventam para nos consolar da mesquinharia da nossa existência.

─ Realmente, você é muito amargo e cético, meu amigo. Então não acha que existe vida após a morte?  Acha que tudo acaba quando a gente morre?

─ Eu não tenho a menor dúvida ─ respondeu o Dr. Neves. ─ Por isso ─ continuou ele ─ acho tudo isso uma grande besteira. Quem morreu está morto e acabado. Pouco importa que se lembrem dele ou não. A maioria dessas pessoas que está aí, colocando flores nos túmulos e acendendo velas para os defuntos, estão fazendo isso mais por desencargo de consciência do que por acreditarem nessas bobagens. Talvez devam alguma coisa para o defunto, ou queiram, de alguma forma, fazer as pazes com ele. Estão fazendo para o morto o que deveriam ter feito quando ele estava vivo.

─ É ─ disse o estranho, com um sorriso ambíguo. ─ Em alguma coisa você está certo. Muita gente aqui está mesmo pagando dívida para com os defuntos. Mas você está realmente muito amargo. As coisas não são assim como pensa. A gente precisa acreditar em alguma coisa. Aliás, a vida não tem sentido se a gente não acreditar.

─ Nisso o senhor tem toda razão ─ disse o Dr. Neves. ─ É exatamente o que estou sentindo agora. Uma total inapetência para viver. Se quer mesmo saber, bem que eu gostaria de ficar por aqui, não ter que voltar para a minha casa vazia, para aquele escritório sem graça, para todas aquelas coisas que eu antes fazia com tanto prazer e que agora só me trazem cansaço e aborrecimento.

─ Meu amigo ─ disse o estranho, tocando no ombro do Dr. Neves ─ a vida é uma centelha de energia que se manifestou um dia e iniciou uma eterna trajetória pelo universo. Você só pode fazer duas coisas com ela. Uma é aceitar fazer parte dessa trajetória, a outra é renunciar a ela. São as duas únicas opções que a gente tem. Mas nenhuma delas depende da nossa escolha. É como enfiar a mão dentro de um chapéu onde existem duas sentenças escritas: sim ou não. Tirar um dos dois significa poder viver para sempre ou morrer eternamente.

─ Não entendi ─ respondeu o Dr. Neves.

─ Eu sei. Eu também não entendia. A gente só entende isso depois que morre ─ disse o estranho, com um sorriso misterioso. ─ Acho que você está realmente precisando de ajuda. Eu vou ajudá-lo ─ completou.

Então tirou do bolso do paletó dois objetos e mostrou-os ao estupefato Dr. Neves. Um era um cartão no qual estava escrito: CENTRO ESPIRITA ANTÔNIO LIMA DE BARROS. Nele havia um endereço e o horário das seções. O outro era um revólver carregado.

─ Se você quiser conversar a respeito disso, meu amigo─ disse o estranho, poderá me encontrar nesse endereço. Então eu lhe explicarei melhor como tudo isso funciona. Se não...  Mostrou-lhe o revólver, que colocou em cima da laje. 

─ Seja o que for que você escolher, meu amigo─ completou o estranho ─ saiba que será para sempre. Se você escolher a morte pelas próprias mãos e ela vier, você continuará morrendo por toda a eternidade. Se escolher viver e esperar que a morte venha naturalmente, então viverá também por toda a eternidade. Cada escolha que a gente faz na vida gera um universo que se perpetua para todo o sempre.

O Dr. Neves ficou mudo de espanto. Não sabia o que dizer. E também sem qualquer ação. Sua língua paralisou-se e sua mente teve um lapso de fadiga. Desligou como se a energia que o acionava tivesse sido cortada subitamente. Foi só um fragmento de instante, mas o tempo suficiente para ele sentir que havia percorrido uma eternidade. Quando se recuperou daquele que parecia ter sido um pequeno apagão neurológico, ele percebeu que estava sentado, sozinho, sobre a laje de um túmulo. Em cima dela, ao seu lado, havia um cartão e um revólver. Então não fora um sonho, nem tivera uma alucinação.

Tocou, maquinalmente, na arma e sentiu-a queimar nas suas mãos. Largou-a imediatamente como se fosse uma brasa. Pousou, em seguida, os olhos sobre o cartão e uma conexão, rápida como um relâmpago que ilumina um céu sombrio, se formou na sua mente. Olhou simultaneamente para o cartão e para a placa de bronze fixada na laje: nela estava escrito: Antônio Lima de Barros, 1939 + 2012.

                                              

A opção que o Dr. Neves escolheu fica por sua conta, caro leitor. Mas saiba que, seja qual for a alternativa que você escolher para ele, você poderá estar condenando-o a repeti-la por toda a eternidade.

__________
Nota: A idéia da imortalidade ou da morte quântica é uma especulação científica bastante intrigante feita pelo físico teórico Max Tegmark em 1997 (atualmente ele ensina física teórica no MIT - Instituto Tecnológico de Massachusetts). Essa especulação é baseada na teoria da multiplicidade de universos, proposta por Hugh Everett em 1957. Essa teoria, numa explicação bem simplificada, pressupõe que uma partícula de energia (um feixe de fótons), a cada vez que é acionada, apresenta duas possibilidades de ocorrência, conforme o giro do seu spin (o movimento dos fótons) esteja em sentido horário ou anti-horário. Cada possibilidade tem 50% de chance de ocorrência. Mas cada ocorrência, uma vez efetivada, continua se repetindo eternamente, porque a cada vez que ela ocorre, sempre gera duas possibilidades possíveis. Assim, imagina-se um homem sentado em frente á uma arma apontada para sua cabeça. A arma pode disparar ou não. Se disparar e ele morrer, essa possibilidade se repetirá eternamente. A mesma coisa acontecerá se não disparar. O não disparo continuará a ocorrer eternamente, não importa quantas vezes o gatilho for acionado. Teoricamente, o homem poderá estar morto e vivo concomitantemente, e assim continuará pela eternidade toda. Assim, no mundo das realidades quânticas, a imortalidade, tanto quanto a morte, são fenômenos possíveis e consentâneos, aos quais estamos igualmente sujeitos.

O BOÊMIO DEFUNTO

Mauro encontrou tempos atrás um antigo camarada, o Vadico. Ficou com uma pena danada dele, porque o cara tinha virado morador de rua. Seu aspecto de bêbado pedinte não deixava dúvidas. Fazia muito tempo que eles não se viam, mas o Vadico o reconheceu de pronto.

─ Joãozinho, meu amigão! Como é que você está?

Ele veio para cima de mim com os braços abertos.

Mário levou algum tempo para reconhecê-lo, mas logo me lembrou do seu velho amigo de juventude. Vadico, um garoto que andava sempre bem vestido, cabelo engomado com brilhantina, bom papo. E muito bom cantor.

Sentiu uma espécie de mal estar indefinível, que se espalhou pelo seu corpo como se a sua energia vital estivesse sendo drenada. Quis se afastar do seu abraço, mas não deu. Um abraço frio, de corpo que parecia já ter perdido todo o calor de um organismo. Uma péssima sensação. Computou o fato ao deplorável estado em que ele se encontrava.

─ Eu estou ótimo ─ respondeu Mário, tomando cuidado para não devolver a pergunta. Logo viu que o amigo não ia poder responder que estava bem. Não com aquela aparência miserável de mendigo. E se fizesse, ele saberia que ele estava mentindo.

O rapaz estava que era um trapo só. Sujo, fedorento, cabelo desgrenhado, roupas todas puídas e remendadas aqui e acolá. E nos olhos aquela vermelhidão dos alcoólatras contumazes. Estava parado na porta de uma padaria. Era cerca das oito da manhã e o Mário tinha ido lá para comprar pão.

─ Vadico, meu velho, há quanto tempo não o vejo. O que você anda fazendo na vida? Perguntou mais por interesse do que por curiosidade, esquecendo a prudência anterior. Ele já sabia a resposta. 

─ Ando por aí ─ respondeu o Vadico, com um sorriso estranho.

“ Pelo visto, só enchendo a cara,” Mário pensou. Mas só pensou e não deixou a língua articular o pensamento. O cheiro de cachaça barata que ele exalava, já naquela hora da manhã, não deixava dúvidas. Ele, além de morador de rua, se tornara alcóolatra. Mas Mário não queria magoá-lo. Era um amigo da sua juventude, que ele não via há mais de dez anos.

─ Ainda gosta de cantar? ─ perguntou, só para desviar a conversa para um tema mais agradável.

─ Se gosto de cantar? Você pergunta se ainda gosto de cantar? Escuta só: “ Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peço.../ A minha nova inscrição...”  E ele cantou, em capela, toda a velha canção do Adelino Moreira, que o Nelson  Gonçalves imortalizou.

As lágrimas rolavam dos olhos vermelhos dele enquanto cantava. A tristeza que Mário começara a sentir aumentou. Relembrou as noites de serestas pelos bares da cidade. A voz do Vadico ainda era a mesma. Clara, melodiosa, sonora. Não havia se deteriorado como o corpo.

─ Caramba. " A Volta do Boêmio”. Você ainda se lembra dessa música? Você sabia cantá-la muito bem ─ disse Mário, com um sorriso comovido.

.

E isso não fora nenhuma gentileza da parte de. O Vadico cantava bem mesmo. Aliás, era uma das coisas que ancorava a amizade daquela turma. O gosto comum pela cerveja e pela cantoria. Principalmente músicas da velha guarda.  Nas noites de sexta e sábado, especialmente, a turma andava pela cidade, parando nos bares para uma cervejinha. Se aparecesse alguém com um violão, eles só iam para casa quando o dia clareava.  



Boêmios, seresteiros, notívagos, ou simplesmente pinguços, não importava o carimbo que lhes davam. Eles eram felizes. Eram jovens e tudo que fazíam parecia certo.

Mário olhou para o Vadico e deu graças á Deus por ter mudado de idéia a respeito da vida. Por ter acordado um dia com aquele gosto amargo na boca e a certeza de que aquela vida não ia leva-lo a lugar nenhum que prestasse. Ou melhor, levaria a um nada doloroso, que é pior do que um nada sem dor nem prazer, nem sentimento de qualquer espécie, que é o que sobra para aqueles que passaram a vida toda sem comprometimento com coisa alguma. Por isso largou a boemia, arrumou emprego fixo, estudou, constituiu família. Virou cidadão comprometido. Parou de andar pelos bares noturnos e cantar, só no banheiro. Também não fazia falta nenhuma. Nunca foi bom cantor mesmo.

O Vadico era.

─ Vem. Me paga uma pinga ─ disse o Vadico, pegando-o pelo braço e arrastando-o para dentro da .padaria

─ Vadico, Vadico. Você não prefere uma média com pão e manteiga? ─ perguntou Mário, pensando no estado etílico que ele já apresentava naquela hora.

─ Ainda não tomei o meu primeiro gole do dia ─ disse ele.


─ Não sei, não ─ respondeu. ─ Não gosto de ver você assim ─ disse ele, finalmente, abandonando a sua postura politicamente correta, de não querer magoar o seu velho amigo, demostrando pena pelo seu lamentável estado. Mesmo naquela situação imaginou que o Vadico ainda devia possuir alguma autoestima.

As duas grossas lágrimas que haviam saído dos seus olhos vermelhos foram seguidas por outras duas ainda mais grossas.

─ Eu só quero uma birita ─ disse ele enxugando os olhos vermelhos com a manga rota e encardida da camisa.

─ Cachaça a esta hora? Isso vai acabar matando você, cara. Isso é um veneno ─ disse Mário, com pouca convicção na voz, pois já sabia que o argumento não ia impressioná-lo.

Não impressionou mesmo, mas ele sentiu uma estranha sensação de tristeza na resposta que ele deu. Uma resposta que o magoou até o fundo da alma e fez um arrepio brotar na sola do seu pé e percorrer toda espinha, até o alto do couro cabeludo. E, no entanto, não havia nada de estranho no que ele disse.

─ Gostaria que me tivessem dito isso há uns dois anos atrás ─ .Eu ainda estaria vivo.

Mário não gostou da metáfora. Ensaiou alguma coisa para dizer, algo assim como, enquanto há vida há esperança, mas a frase não saiu. Vadico percebeu o constrangimento dele e devolveu um simulacro de sorriso, sarcástico e meio sinistro.

Só então Mário se deu conta que era a presença física dele que provocava aquele mal estar. Era assim como um horror sem causa, uma queda na energia vital, como aquela que se tem quando uma anemia profunda toma conta do nosso organismo. Então, para se livrar logo daquele incômodo que a presença dele lhe causava, foi com ele ao balcão e paguou a pinga que ele, praticamente tomou de um gole só, como se fosse um viajante no deserto, tomando um copo de água.

─ A gente se vê qualquer dia desses ─ disse ele, agradecendo e saindo.

─ Tchau. Te cuida! ─ respondeu Mário, intimamente aliviado por se ver livre daquela presença insalubre. Suspirou aliviado, mas não se livrou daquela sensação esquisita que a sua presença lhe trouxe. E ela ficou ancorada nele durante muito tempo, pois sempre lhe vinha a memória daquele sentimento quando se lembrava desse encontro.

Nunca mais Mário viu o Vadico. A única coisa que soube dele depois disso foi que o seu velho amigo boêmio e cantor havia sido encontrado morto na porta de uma padaria e fora enterrado como indigente. Quem lhe disse isso foi o Peixoto, outro amigo daqueles tempos, que também cultivou, como eles, a boemia da cidade. Ele trabalhava no necrotério e assistiu ao enterro do Vadico. Era a única pessoa presente, além dos coveiros.

Isso não pareceu estranho á Mário. Depois que vira no que o seu amigo se tornara, ele tinha a certeza de que mais dia, menos dia, alguém ia encontrá-lo morto em uma calçada qualquer da cidade. Aliás, ele já cheirava a cadáver. Depois que o Peixoto lhe contou isso Mário sentiu uma certa culpa por ter pago aquela pinga para ele. Devia ter insistido na média com pão e manteiga. Pagando cachaça para ele era como se ele tivesse colaborado para a morte prematura do amigo.

Foi ao cemitério visitar o túmulo dele, segundo a indicação que o Peixoto lhe deu. Só uma tosca cruz numa cova simples marcava o local. Alguém, talvez, o próprio Peixoto havia escrito o apelido dele na cruz. Vadico. Acho que ninguém sabia o verdadeiro nome dele. Talvez fosse Osvaldo, ou Valdir. Isso não importava mais. O que tem de ser é.

0A única coisa que tirou o sono do Mário, e continua a atormentar o seu espírito até agora, foi a data que o Peixoto escreveu na cruz como sendo a da morte do Vadico. Era quase um ano antes daquele encontro na porta da padaria. Que por sinal era a mesma onde eles haviam se encontrado e ele cantara a Volta do Boêmio.

Mário havia pago uma pinga para um boêmio defunto? Quando ele se lembrava disso aquele mesmo arrepio que ele havia sentido naquele dia voltava a percorrer todo o seu corpo, desde a sola do pé até os últimos fios de cabelo.  Brrrrrr.

 


BRINCADEIRA MACABRA
Minha mãe dizia que brincadeira tem hora. Eu devia ter ouvido o conselho dela. Se tivesse ouvido não carregaria pelo resto da vida este sentimento de culpa, que até hoje, já quase perto da hora de devolver á Deus a alma que me foi emprestada, ainda carrego como se fosse uma corcova que aderiu a mim e me pesa nas costas, tanto, tanto, que ando encurvado como um corcunda psicológico.

Eu fui o culpado pela morte do meu melhor amigo. Pois fui eu que inventei aquela brincadeira idiota que tirou a vida dele. Isso já faz mais de cinquenta anos, mas para mim é como se fosse ontem, pois toda vez que me lembro daquele instante, eu vivo novamente aquela experiência terrível, e a cada vez que revivo, me sinto mais culpado.

Éramos dois garotos muito arteiros. Éramos como irmãos. Desde a escola primária, quando nos conhecemos, andávamos juntos para todos os lados. Quem brigasse com um brigava com o outro. Se um não fosse escalado para jogar no time da rua, o outro também não jogava. Quem quisesse encontrar um podia ter certeza que também ia encontrar o outro. Era sempre o Neguita e eu. Eu e o Neguita.

Até o dia que resolvemos fazer aquela brincadeira idiota com o Tonhão. O Tonhão era um cara mau. O bandidão do bairro. Todo mundo sabia disso e ninguém se metia com ele. O Tonhão tinha uma amante chamada Helena, prostituta bastante conhecida na cidade. Ele era o cafetão dela. Era ela quem o sustentava. Em troca, só recebia porrada. O Tonhão batia nela todo dia. Coisa de mulher. Naquele tempo havia um ditado, dizem que cunhado por Nelson Rodrigues, que dizia que mulher gosta de apanhar. Mulher de malandro ainda mais. Era uma idiotice herética, mas tinha, e ainda tem homem que acredita nisso. Talvez algumas mulheres também, pois conheço algumas que apanham de seus homens, mas nunca arrumam coragem para largá-los ou para denunciá-los.

A Helena não era uma dessas mulheres. Ela gostava mesmo do Tonhão. Enquanto o amor durou ela aguentou as porradas. Mas não tem amor que resista a tanto desrespeito. Mesmo quando a gente já perdeu o respeito por si mesmo. Então, um dia a Helena se cansou de apanhar e largou o Tonhão. Deu no que deu. Ele não se conformou em perder a sua fonte de sustento e foi procurá-la. Inventou de tudo para que ela voltasse. Fez promessas, jurou amor, disse que ia trabalhar, que ia se casar com ela e ela ia poder deixar aquela vida, enfim, tudo que um sujeito faz numa ocasião dessas. Mas a Helena sabia com quem estava lidando. Provavelmente aquilo já acontecera outras vezes. Ela já estava calejada. Ficou irredutível. Então eles brigaram. Pela primeira vez ela reagiu á agressão. Meteu as unhas na cara dele. Briga feia. Ela correu para a cozinha do barraco onde estava morando e puxou a gaveta do armário em busca de uma faca. Ele percebeu a manobra e foi mais rápido. Sacou o punhal que sempre levava consigo e deu-lhe três estocadas certeiras no peito.

No dia seguinte, no bairro não se falava de outra coisa: o Tonhão matara a Helena. Ele deve ter arrumado um bom advogado porque não ficou mais que um mês na cadeia. Crime passional, disseram que foi. Afinal, houve também quem dissesse que não se perdera nada, pois a mulher que ele matara era uma prostituta, uma mulher perdida que envergonhava a espécie. Por conta disso todo mundo esqueceu a coisa muito depressa.


Menos nós. O Neguita e eu. Por isso resolvemos fazer aquela brincadeira boba com o Tonhão. Ele morava em um barraco, na beira de um córrego. Para chegar ao barraco ele precisava passar por um terreno baldio, onde havia um barranco alto, cheio de moitas, também altas. Então nós arrumamos uma folha grande de cartolina preta e colamos nela um esqueleto, pintado com tinta branca, que recortamos e colamos em um cavalete de bambu. E fixamos o esqueleto em cima de um carrinho de rolimãs, no alto do barranco. Com uma corda amarrada nele nós, escondidos atrás de uma das moitas, o movimentávamos, dando a impressão que o esqueleto estava andando. Três velas acesas também faziam parte da engenhoca.

A idéia era dar um susto no Tonhão. Ele não ia pegar a gente, porque até ele conseguir escalar o barranco nós já estaríamos longe. A moita onde estávamos escondidos ficava a mais de vinte metros do caminho onde ele ia passar. A noite estava escura como breu. Oculta entre as moitas, a nossa engenhoca, vista de longe, parecia mesmo o esqueleto de uma pessoa. E quando ela se movimentava, parecia, de fato, uma assombração.

O único som que se ouvia era a serenata dos grilos. Ficamos atrás da moita esperando o Tonhão passar. A ideia era que quando ele passasse, o Neguita devia chamá-lo pelo nome, imitando a voz de um fantasma, ou tentando imitar, do jeito que a gente costumava ver no cinema. Enquanto isso eu puxava a corda, movimentando a engenhoca.
“ Tonhãooooooo, você me mat....”

Não deu nem tempo do Neguita terminar a frase. Um clarão iluminou a noite e um estampido cobriu a voz dos grilos. O Neguita caiu sem um gemido, a mão no peito, com uma rosa vermelha e líquida a desabrochar por entre os dedos. Nunca corri tão rápido como naquela noite. E nunca tinha sentido tanto medo também. Aliás, esse medo é outra coisa que nunca mais me abandonou.

O Tonhão foi preso e pegou doze anos. O meu testemunho ajudou a condená-lo. Ele foi condenado mais pelos antecedentes do que pela morte do Neguita, creio eu. Confesso que até menti um pouco, dizendo para o delegado que a brincadeira não era para ele, mas para outros amigos que costumavam passar por ali. Mas desde então me senti tão condenado quanto ele. Punido pela culpa de ter inventado aquela brincadeira idiota e pelo medo de que o Tonhão saísse da cadeia e quisesse se vingar de mim. Graças a Deus ele morreu na cadeia, assassinado por outro preso.

Desse medo eu me libertei, mas da culpa não. Aquele lugar, onde fizemos aquela brincadeira irresponsável, hoje é uma rua cheia de belas casas. Mas quando passo por lá, tenho a impressão de que o espírito do Neguita ainda está ali, no mesmo lugar onde ele tombou. E que ele ainda chama por um nome, sem conseguir completar a frase. Só que não é Tonhão o nome que ele chama. É o meu. E que ele só vai poder completar essa frase no dia em que estivermos juntos de novo.


 

Sinopse


Um homem de meia idade e uma jovem, quase adolescente. encontram-se em uma balada e acabam indo para um motel. Mais do que a atração sexual entre eles é o pacto que eles fazem que dá sentido á estranha relação que se estabelece entre eles. Um pacto de sangue que os ligará pela eternidade, condenando-o a viver uma vida eterna de prazer e maldição, alimentada pela morte, é selado entre os dois, transportando-os para uma vida além da morte, onde o prazer é eterno e o castigo é a própria imortalidade.

Essa e outras estórias, algumas delas inspiradas em fatos reais, como os contos “Não saia de casa esta noite” “ A Chacina do Pavilhão 9” e o “Piloto do Airbus”, fazem parte desta coletânea de “short stories” de horror, nos quais o extraordinário é trazido para a vida cotidiana como fatos que a nossa consciência se recusa a catalogar como normais, mas que no mundo do nosso inconsciente, onde todas as informações são verdadeiras, eles ganham vida e se tornam realidades .

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