Pacto de sangue



Baixar 481.6 Kb.
Página2/3
Encontro30.10.2016
Tamanho481.6 Kb.
1   2   3
.

ROLETA RUSSA

O Dr. Pedro entrou no elevador e cumprimentou a ascensorista com um movimento de cabeça e um arremedo de sorriso nos lábios. Ela respondeu com outro movimento de cabeça e um quase imperceptível sorriso, que só quem é muito bom na leitura da linguagem não verbal consegue perceber.

Todo dia ele fazia isso e todo dia ela respondia do mesmo modo. Era uma espécie de ritual. No elevador entraram cinco pessoas e todas praticaram o mesmo rito e a maioria recebeu a mesma resposta da ascensorista, salvo uma ou outra, mais conhecida, que ganhou um bom dia e uma abertura um pouquinho maior nos lábios da moça, na forma de um sorriso quase maquinal.

JR não pode deixar de pensar que aquele elevador se assemelhava à uma confraria onde as pessoas se reconheciam por palavras de passe e gestos rituais, como se fosse uma tácita sociedade de iniciados em uma seita de infelizes yuppies bem sucedidos economicamente e falidos na vida pessoal.

Ali todos se conheciam e se cumprimentavam com acenos de cabeça e imperceptíveis sorrisos. Todos trabalhavam naquele prédio. Todos tomavam o elevador no subsolo, onde fica a garagem. Todos usavam ternos e gravatas muito sóbrios, se são homens e vestidos discretos, se são mulheres.

No primeiro andar a porta se abriu e entraram mais duas pessoas. Uma delas devia ser conhecida da ascensorista, pois  ela recebeu o cumprimento ritual dela e respondeu com a senha da confraria: o aceno de cabeça e o imperceptível sorriso. A outra era um rapaz moreno, de aparência humilde, com uma pasta preta em baixo do braço.

Havia uma pequena plaqueta no lado de fora do elevador que dizia: elevador privativo. As pessoas que podem tomaram aquele elevador usavam um crachá cor de laranja e a ascensorista usava um crachá azul. O homem que entrou também usava um crachá cor de laranja, e vestia terno e gravata, mas o rapaz moreno, de pasta preta em baixo do braço, usava um crachá verde e vestia jeans e camisa de manga curta.

A ascensorista estava folheando uma revista e mascando um chiclete.

─ Moço, este elevador é privativo. Pegue o do outro lado ─, disse ela displicentemente para o rapaz de pasta preta em baixo do braço.

─ Eu trabalho aqui ─ respondeu o rapaz moreno, com a pasta preta em baixo do braço, mostrando o seu crachá.

─ Eu sei que você trabalha aqui, mas não pode tomar este elevador.

─ Porque não? Eu trabalho aqui!

─ Porque este elevador é privativo ─ insistiu a ascensorista, sem se exaltar.

─ Privativo de quem ?─ perguntou o rapaz humilde, com a pasta preta nas mãos.

─ É privativo ─ respondeu a ascensorista, sem deixar de mascar o chiclete, nem parar de folhear a revista.

─ De quem? insistiu o rapaz.
O Dr. Pedro respirava fundo e observava, ora a ascensorista, ora o rapaz moreno, com a pasta preta nas mãos. Ela agora não parecia nem amistosa nem ausente. E o rapaz não parecia tão humilde. Meia dúzia de pessoas usando gravatas, ternos de cor escura, rostos severos e crachás cor de laranja olhavam para os dois litigantes, com uma cara de condescendência aborrecida.

─ Privativo de quem? Atacou de novo o rapaz, já não tão humilde, com a pasta preta agora pendurada em uma das mãos, e com a outra segurando a porta do elevador.

─ De quem usa crachá cor de laranja, não está vendo? ─ Respondeu, com irritação, a ascensorista, agora já não folheando mais a revista e encarando decididamente o rapaz..
O Dr. Pedro olhava com interesse a estranha litigância. Essa explicação, dada pela ascensorista, representava, na opinião dele, um recuo dela em relação ao rapaz da pasta preta. Achou que ele também havia percebido isso e não perdera a ocasião de por o pé dele onde ela tirava o dela.

─ Porque só o pessoal de crachá cor de laranja pode usar este elevador? ─ perguntou, com certo ar de desafio, o rapaz agora não tão humilde, com a pasta preta pendurada em uma das mãos.

─ Porque eles estão na lista dos autorizados ─ respondeu a ascensorista.

─Autorizados por quem? ─ retrucou ele. O Dr. Pedro concluiu que ele havia ocupado mais um pedaço do espaço dela com aquele “autorizados”.

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar para ele com uma cara de desprezo.

─ Quem dá essas autorizações? Insistiu o rapaz.

E desta vez ela não cedeu. ─ Aqui só os autorizados ─ respondeu, agora com firmeza, levantando-se do banquinho, pronta até para a luta corporal, se fosse preciso. .

O rapaz não esperava a reação dela, e a resposta, que já tinha pronta, não serviu.

Demorou um pouco para devolver um “Mas eu trabalho aqui”.
Mais duas pessoas com crachá laranja tinham entrado no elevador e agora oito par de olhos que olhavam para os dois litigantes. Seus olhares não eram mais de condescendência aborrecida, mas sim de mal disfarçada impaciência.

─ Hei! Vamos acabar com essa palhaçada ─ cuspiu o primeiro.

─ É. Depois vocês resolvem esse negócio ─ disse o segundo.

─ Já estamos atrasados ─ resmungou um terceiro.

─ Que troço mais ridículo ─ balbuciou um quarto, lançando um olhar carrancudo para os dois importunos litigantes.

─ Como é o seu nome? Perguntou a ascensorista.

─ Jorge..., respondeu ele, mostrando o crachá.

─ Você não pode tomar este elevador. Ele é privativo ─ insistiu a ascensorista. ─ Mas por hoje passa. Da próxima vez pegue o elevador do lado ─ disse ela, sem olhar para ninguém e sem deixar de mascar o chiclete.

O elevador fechou as portas e começou a subir. A ascensorista voltou a folhear a sua revista e o rapaz colocou de novo a pasta preta embaixo do braço. Seu olhar era distante e frio, como se não estivesse ali.

Dentro do elevador as oito pessoas de terno e gravatas, portando crachás cor de laranja, olharam durante algum tempo com desprezo para o rapaz moreno, agora de novo com ar humilde, com a pasta preta em baixo do braço. Ele não estava nem ai. Parecia estar sozinho no elevador.

Quando os dez andares do prédio foram vencidos e os últimos passageiros saíram, o rapaz de aparência humilde, com sua pasta preta em baixo do braço saiu também. Não olhou para ninguém. Nem para a ascensorista. Ninguém viu que ele desceu oito andares pela escada. Nos seus olhos havia um brilho de vencedor.

]

O Dr. Pedro passou pela recepção e cumprimentou a secretária com o habitual bom-dia e o sorriso castiço de todos os dias. Abriu a porta do seu escritório e olhou para dentro dele como se o estivesse vendo pela primeira vez. Sentia um inexprimível desgosto a constranger-lhe o peito. Abriu a janela e o barulho intermitente da metrópole, invadiu, como uma horda bárbara e sem controle, o ambiente. Só então percebeu que sua cabeça estava doendo. Deu então a primeira ordem do dia para a secretária.



─ Sandra, dá para você me arrumar uma aspirina?

A secretária trouxe, quase imediatamente, uma pequena pastilha branca e um copo com água. Para ela aquilo também era um ritual. Todo dia era a mesma coisa.

O Dr. Pedro olhou inexpressivamente para a aspirina. Parecia uma pequena e nojenta pastilha branca, insípida e inodora. Mas internamente, na tela do seu cérebro, ela assumiu a imagem de uma bala de revólver. Abriu a primeira gaveta da mesa e pegou o trinta e oito que guardava ali. Destravou o tambor da arma e retirou todas as cápsulas. Enfiou a aspirina dentro de uma das câmaras vazias do tambor e depois recolocou uma cápsula por cima dela. Ajustou o tambor e deu três giros nele. Depois colocou o cano do revólver na boca e começou a brincar de roleta-russa.  

A ESTRATÉGIA DO DIABO

                

 
João era um sujeito extremamente infeliz que vivia se queixando da má sorte que tinha na vida. Nada dava certo para ele. Desde pequeno acostumou-se a ver os outros se darem bem e ele sempre se ferrando. Todo mundo arranjava namorada, ele não. As meninas o tratavam com indiferença e raramente olhavam para ele. Quando o faziam, dava para notar que o contemplavam com desprezo e certo desagrado que alguém poderia interpretar  até como nojo. Se alguém dissesse para o João que isso era consequência do fato de ele andar sempre desarrumado e sujo, ele se aborrecia e ficava meio agressivo. Dizia que as garotas eram umas vadias que só se interessavam por rapazes cheios da grana e ele, como era pobre, não tinha nada para oferecer a elas.

Quando chegou o tempo de procurar emprego foi a mesma coisa. Todos os colegas conseguiram entrar para o mercado de trabalho, e depois de algum tempo, a maioria já havia se tornado profissional em alguma ocupação ou até mesmo já haviam montado empresa própria. Ele não. Trabalhou como ajudante no comércio e na indústria, tentou aprender uma profissão na área de prestação de serviços, como barbeiro primeiro e depois como marceneiro, mas nunca passou de aprendiz. Em todas essas tentativas, depois de um, ou no máximo dois meses, ele desistia, dizendo que não tinha jeito para a coisa. Por fim, acabou mesmo ganhando a vida como servente de pedreiro, trabalhando como um cavalo velho (como ele dizia) para ganhar cem contos no fim da semana, dinheiro esse que gastava todo no bar da esquina, tomando tudo em pinga.

Seus colegas, que haviam se dado bem na vida, tinham estudado, fizeram cursos noturnos, ou então tinham se tornado práticos em alguma profissão. Quando perguntavam a João porque ele não fazia isso também, ele dava de ombros e dizia que isso não ia adiantar nada porque ele não tinha sorte na vida.

Invejava e odiava todos eles. Sentia-se desprezado e evitado por todo mundo, rechaçado como se se fosse um leproso. Ninguém o convidava para nada e ao cabo de algum tempo se viu sem nenhum amigo, completamente solitário e sem lugar para ir. Por fim, cansado daquela vida sem esperança, tornou-se ladrão de residências, assaltante de postos de gasolina e acabou até matando uma vítima que um dia resistiu á sua tentativa de assalto.
No entanto, tinha sonhos de ser um homem feliz. As duas coisas que mais desejava era ficar rico e ter uma mulher muito bonita, com quem pudesse constituir uma família. Mas achava que a segunda coisa só aconteceria se ele, um dia, conseguisse a primeira. Por isso roubava e a cada dia se tornava um ladrão mais perigoso.

Um dia João dia teve um sonho. Sonhou que em determinado lugar, lá no alto da serra que ele podia avistar no horizonte, havia uma caverna e em baixo dela uma linda cachoeira. Nessa caverna um riquíssimo tesouro havia sido escondido há muitos séculos atrás por um bando de piratas. E quem o achasse seria o seu dono.

No começo João não ligou muito para o sonho. Ele não era de acreditar nessas coisas. Mas o sonho se tornara intermitente. Era toda noite a mesma coisa.  E cada vez mais nítido e mais detalhado. Mostrava até o caminho para a caverna. E até o advertia para não acreditar nas pessoas que encontrasse pelo caminho, porque elas iam dizer para ele que sonho era besteira e iriam tentar impedi-lo de chegar até o tesouro.

O sonho se repetiu tanto que, um dia, João se convenceu de que era a fada da sorte que estava lhe falando durante o sono. Ele, que sempre se queixara da má sorte, estava agora tendo a chance de mudá-la. Era só ter a coragem e a disposição para encontrar a tal caverna.

Assim pensando, pôs-se a caminho. Embora o sonho fosse nítido e mostrasse com clareza o caminho, a tal caverna não parecia ser muito perto. Seriam vários dias de caminhada, tendo que atravessar, inclusive uma floresta, pois, ao que parecia, a caverna ficava no alto de uma serra, bem distante do lugar onde ele morava.

Depois de caminhar por várias semanas, João, cansado, parou em uma casinha, á margem da estrada. Uma moça, de uma deslumbrante beleza, o recebeu. Era a moça mais bonita que ele jamais vira.  João imediatamente encantou-se com ela. E ela era extremamente gentil e hospitaleira. Hospedou-o, cuidou dele, deu-lhe comida e uma boa cama para descansar. E ao fim de três dias naquela casa João estava perdidamente apaixonado por ela e ela por ele. Ela, então, lhe propôs que ficasse morando lá, que se tornasse seu marido, se ele quisesse. Pois ela tinha muitas terras e muitos bens. Seus pais haviam morrido e ela estava se sentindo muito sozinha.

─ Se trabalharmos juntos ─ disse a moça ─ poderemos ficar ainda mais ricos.

João pensou no enorme trabalho que teria para manter aquela fazenda. De repente, sentiu-se cansado e impotente.

“ Eu não posso ficar aqui com ela, agora”, pensou João. “Primeiro tenho que achar a caverna dos meus sonhos”.

E sem se importar com as súplicas, os argumentos e nem mesmo com as lágrimas da moça, ele partiu, deixando a jovem desconsolada.


Depois de caminhar mais duas semanas, João chegou á uma fazenda, onde avistou uma grande casa, em meio a uma enorme plantação. Parecia ser uma fazenda muito rica. Havia um imenso rebanho de bois no pasto, que devia valer uma fortuna. Mas ele não via viva alma naquela fazenda. Nenhum empregado. A fazenda aparentava estar completamente vazia. Caminhou até a enorme varanda, bateu na porta e ouviu, lá dentro, uma voz que pediu para ele entrar. A voz parecia sair de um quarto, situado no andar de cima. Estranhou não encontrar ninguém na casa, só aquela voz que pedia para ele ir até o quarto. Mas ainda assim, bem desconfiado e com receio, ele entrou.

Subiu até o quarto e lá encontrou um homem muito velho, deitado em uma cama, sorrindo para ele, com o resto das forças que parecia ainda haver nos músculos do rosto.

─ Que bom que você apareceu, meu filho, disse o velho ─ com um fio de voz. ─ Eu já estava perdendo a esperança.

─ O que houve aqui? ─ perguntou João. ─ Porque não há ninguém nesta fazenda?”

─ Foi uma epidemia de cólera, meu filho. Ela matou cinco pessoas em uma semana e todo mundo ficou com medo e fugiu ─ respondeu o velho.

─ E o senhor, porque ficou? Não tem medo de pegar a doença?

─ Eu estou muito velho, meu filho. Vou morrer de qualquer jeito. E depois eu sou o dono desta fazenda. Não tenho filhos, nem parentes, nem ninguém que possa tocar isso para mim. A epidemia já passou, já não há mais nenhum foco da doença, mas as pessoas tem medo e não querem voltar.

João passou mais três dias na fazenda, cuidando do velho. Ao fim desses três dias o velho morreu, mas antes de morrer chamou-o para perto de si e perguntou-lhe se queria ser seu herdeiro. A fazenda era rica, mas ele teria que trabalhar bastante para recuperá-la. Tinha muitas coisas para fazer, recontratar trabalhadores, recuperar clientes e fornecedores, enfim, um trabalho de administração bastante intenso.

João pensou no trabalho que iria ter e ficou cansado de repente.
“Não posso ficar com esta fazenda”, pensou. “Tenho que correr atrás do meu sonho”. E assim pensando, ele disse não ao fazendeiro, e saiu, poucos minutos depois de ele render o espírito.
 

Enfim, depois de mais de um mês de caminhada, João chegou, enfim, á cachoeira. Reconheceu-a imediatamente como a visão dos seus sonhos. Não havia o que por nem tirar. Era exatamente como a sonhara.

Uma visão maravilhosa! A água descia de uma vertiginosa altura, em lindos feixes dourados, que reverberavam ao sol. Um arco-íris de deslumbrante beleza curvava-se sobre o espelho d’água, como se fosse um mítico animal, matando sua insaciável sede.

Na base da cachoeira, João avistou o que parecia ser a entrada de uma caverna. De roupa e tudo, com o coração quase a sair pela boca de ansiedade, nadou até a entrada. Depois de passar por uma espécie de antecâmara, avistou uma enorme porta de madeira, que deixava entrever, por entre suas frestas, uma réstia de dourada luz. Exatamente como no sonho.

“ É ali que deve estar o tesouro”, pensou João. Com o coração batendo forte correu para ela. Ao colocar a mão na pesada maçaneta, seus olhos caíram sobre os dizeres que encimavam o umbral. “Quem daqui passar, seu destino encontrará”, dizia o letreiro escrito em letras góticas. Era isso mesmo que ele procurava: seu próprio destino.

João girou a maçaneta. Ao fazê-lo pensou na moça linda e generosa que deixara na fazenda. Com o tesouro dos seus sonhos nas mãos, ele poderia voltar e desposá-la. Arrendaria as terras dela e não precisariam trabalhar para mantê-la. Pensou também no velho fazendeiro que lhe oferecera a herança. Poderia arrematar a fazenda e arrendá-la também. Pensou em quão feliz seria com toda aquela fortuna. Não precisaria mais viver do crime.

João se viu dentro de uma enorme sala iluminada com uma luz dourada, ofuscante e tão brilhante, como se a sala toda fosse revestida com ouro. Mas a sala estava completamente vazia. Não havia ali um único objeto, um móvel, cortinas, nada. Apenas uma única lâmpada amarela, acesa, pendurada no teto, proporcionava todo aquele brilho que coruscava, intenso, como se todo o ouro do mundo tivesse sido reunido ali. Era dela que vinha toda aquela enganadora luminosidade.

E então ele ouviu uma voz que dizia. ─ Finalmente você veio. Você agora é meu!

João reconheceu aquela voz. Era a voz que lhe falava em sonhos. Mas agora ela o assustava. Era uma voz cavernosa, que emitia um som monstruoso, que parecia sair da garganta de um demônio. Seus cabelos ficaram em pé. Um arrepio percorreu toda sua espinha, desde o alto do couro cabeludo até a planta dos pés.

Imediatamente percebeu que havia caído em uma armadilha. Correu para a porta. Tentou abri-la, mas ela estava trancada. Foram inúteis seus esforços para escapar.

Uma gargalhada diabólica encheu os condutos do seu ouvido e estourou nos circuitos do seu cérebro enquanto sentia que a sua alma estava sendo arrancada do seu corpo com a violência de uma força irresistível.
─ Deus, perdoe-me. Nunca pensei que a fada da sorte fosse assim tão feia e malévola ─  gritou João, ao ver ao ver a monstruosidade da figura que puxava sua alma para fora do corpo, como se ela fosse uma rolha sendo tirada de uma garrafa.

─ A fada da sorte não está aqui ─ respondeu a monstruosidade ─ Mas no seu caminho para cá você passou por ela duas vezes e não a reconheceu. Isso é o que acontece com todos aqueles que desejam vencer na vida sem fazer força. A preguiça, a inveja, a ambição desmedida e sem ética, são cataratas que eu coloco nos olhos dos sonhadores e dos imbecis que sonham com a fortuna, mas não estão dispostos a trabalhar para obtê-la. Essa é a minha estratégia para atraí-los. Cedo ou tarde, todos caem no meu laço.

─ Seja bem-vindo ao meu reino ─ disse a monstruosidade, rindo diabolicamente. ─ Para cá vêm, cedo ou tarde, todos os preguiçosos, todos os invejosos, todos os rancorosos, todos os criminosos, todos os egoístas, os malandros e vagabundos que se deixam levar pela ilusão da vida fácil.

E foi então que ele mergulhou na escuridão daquele poço sem fundo onde todas as esperanças se dissipam.


 

A ESCOLHA DO PROVEDOR



                    
                       
 
As Santas Casas de Misericórdia são hospitais particulares que vivem de verbas públicas e da ajuda da sociedade. As verbas que os governos federal, estadual e municipal destinam para esses hospitais não chegam a cobrir sessenta por cento dos custos que elas têm. O resto tem que ser levantado junto à comunidade. Por isso toda Santa Casa tem um voluntariado bastante ativo. Isso quer dizer que boa parte dos serviços prestados por uma Santa Casa são feitos por pessoas que trabalham de graça Na maioria desses hospitais, o Provedor, como chamado o seu dirigente administrativo também é um voluntário. A maioria das pessoas não sabe disso e acha que o governo está pagando tudo e são as pessoas que trabalham ali os culpados pelas deficiências existentes no hospital. Sequer imaginam que algumas daquelas pessoas que elas xingam não recebem um centavo pelo serviço que prestam e só estão fazendo isso pelo amor que têm pelo próximo.
Machadinho é um desses voluntários que ama o próximo e por isso resolveu aceitou ser o Provedor de uma Santa Casa. Para quem não sabe o Provedor de uma Santa Casa, normalmente é uma pessoa da sociedade que é eleita pelos membros do grupo que compõe a chamada Mesa Administrativa, para dirigir o hospital. Ele não precisa ser um médico, nem um administrador hospitalar, nem sequer um profissional da saúde. Geralmente é um voluntário que assume o compromisso de administrar o hospital e normalmente não ganha nada para isso.

É claro que ás vezes, um deles rouba o hospital. Isso tem acontecido principalmente nos dias de hoje, em que os nossos próprios administradores públicos e políticos, que deviam dar o exemplo, formam verdadeiras quadrilhas para assaltar o erário público. Mas não é a tendência geral desses casos, pois a maioria dos senhores Provedores das Santas Casas do Brasil são realmente pessoas honestas e comprometidas com o bem estar das pessoas a quem servem.

Machadinho não é um desses salafrários. Ele é um sujeito honesto e de bom caráter. Funcionário público aposentado, ele queria prestar serviço á sua comunidade. E como era uma pessoa muito respeitada na cidade onde ele vivia, foi eleito Provedor da Santa Casa local. Logo de cara se viu com um baita problema. A Santa Casa que ele comandava tinha apenas oito leitos de UTI e todos estavam ocupados, menos um. Tão logo sentou-se na cadeira do Provedor veio a informação:  três pacientes acabavam de dar entrada no pronto socorro. Um era um senhorzinho de oitenta anos que estava com um câncer terminal. Outro era uma gestante de alto risco que precisava ser operada de emergência e necessitava de cuidados intensivos. O terceiro era um jovem de família abastada que tomou todas numa festa, bateu o seu carro esporte em uma árvore e se arrebentou todo. Foi operado de emergência e morrerá se não receber cuidados intensivos.

Machadinho sabe que só pode atender um dos três. Não tem como improvisar leito na UTI. Isso é impossível em um hospital, embora muitas vezes alguns políticos pensem que é fácil e fiquem pressionando a direção para que atenda um dos seus eleitores. E quando isso não acontece eles viram inimigos do Provedor e fazem tudo para difamá-lo e prejudicar o hospital, atrasando o repasse de verbas, não destinando recursos de emendas parlamentares, boicotando de todas as formas o Provedor que não o atendeu, sem pensar que não é o Provedor que ele prejudica, mas o povo que o hospital atende.

Isso acontece todo dia em todos os hospitais públicos do país, mas o povo não sabe disso e pensa que são os médicos, os enfermeiros, os funcionários e os diretores que são os culpados pelo descalabro que existe em nossos hospitais públicos. Por que eles estão ali, dando suas caras a tapa, enquanto os políticos e os administradores públicos estão em seus gabinetes atapetados e com ar-condicionado, longe dos reclamos e da ira do populacho. Eles só aparecem no hospital quando acontece alguma inauguração. Procuram sair na fotografia para que o povo pense que foram eles que conseguiram trazer esse serviço.

       Machadinho terá que escolher. Ele sabe que os dois pacientes que forem preteridos certamente morrerão, pois eles terão que ser removidos para outros hospitais e vaga de UTI no sistema SUS é tão difícil de achar quanto um político que cumpra suas promessas depois de eleito. Provavelmente eles só sairão dali como fantasmas que ficarão vagando pelos corredores do hospital até que um anjo consiga convencê-los que estão mortos e já não mais pertencem a este mundo. Isso também acontece todos os dias e por isso é que hospital público geralmente dá aquela impressão de castelo mal assombrado, habitado por uma multidão de fantasmas.

A quem Machadinho contemplará? Quem ele escolherá para viver? Quem ele escolherá para morrer? Quem você escolheria?
     Ah! Se um você se vir no lugar do Machadinho, há uma coisa que precisa saber antes de escolher. Seja quem for que você escolha, as famílias dos dois que morrerão vão acusá-lo por omissão de socorro. Você será chamado de assassino pelas famílias dos defuntos e processado pelo Ministério Público.
      O Machadinho já sabe que não deve se importar com isso. Ele já viu que não será o primeiro nem o último processo que terá que responder por causa de problemas desse tipo. Mas você, que talvez nunca tenha passado por uma situação dessas, terá que conviver a vida inteira com essa mancha que sabão nenhum conseguirá lavar.

As pessoas que acham que as histórias de terror são mera fantasia nunca trabalharam em um hospital público. Aliás, não há melhor lugar para vivê-las de verdade. Para quem não entendeu porque escrevi esse conto, informo que eu sou Provedor de uma Santa Casa de Misericórdia. Por isso sei do que estou falando.


       Enquanto escrevo este texto, fico imaginando o que o Machadinho vai dizer aos dois fantasmas que ele vai encontrar no corredor do hospital, esta noite, á espera dele para perguntar por que eles foram escolhidos para morrer. Torço para que ele consiga convencê-los de que não foi o culpado pelo fato de eles terem morrido numa maca no corredor por que o hospital não tinha leitos na UTI para alojá-los.

Porque, além de tudo, ainda ter que carregar pela vida um monte de "encostos", ninguém merece.




VINGANÇA DIABÓLICA

 
Eu devia ter desconfiado que tudo era um plano para me ferrar. Mas como eu podia saber que esse infeliz do Heraldo seria capaz de armar um negócio desses só para botar no meu rabo? Ele parecia tão idiota, tão inocente... No entanto, o desgraçado sabia de tudo. E eu, que pensava ser tão esperto, nem desconfiei. Ah! aquela conversa que tivemos no bar... Ele me disse que precisava desabafar com alguém. E eu, bobão, fui. Afinal, ele era meu amigo. Então ele me contou, com lágrimas nos olhos, que estava sendo corneado pela mulher dele. Só não sabia com quem. Até me pediu para ajudá-lo a descobrir quem era o cara.

Fiquei com uma pena danada dele e até prometi ajudar.
Baita hipocrisia. Pois o cara que andava comendo a mulher dele era eu mesmo. Estranho. Fiquei com pena dele, mas não senti nenhuma culpa. Afinal, eu não tinha seduzido a mulher dele. Não fui eu que tomei a iniciativa de transar com ela. Foi ela que me atraiu com malicia e volúpia para a cama.

Era ela que sempre me telefonava pedindo para ir encontrá-la na ausência dele. Certo que eu poderia ter resistido, mas eu sou homem e homem não resiste muito a essas pressões. Eu não resisti. Saí com ela algumas vezes, e a bem da verdade, senti até um certo prazer em pensar que estava comendo a mulher dele.


Já estava tudo planejado. O bar, a cerveja, o desabafo. Depois aquela arma que ele me mostrou. Comprara naquele dia mesmo. Era para matar o cara que estava saindo com a mulher dele. Ou então, se não descobrisse quem, ele ia se matar, porque corno não ia continuar sendo. Bebemos uma dúzia de cervejas, e eu, a noite inteira fiquei tentando tirar aquela ideia da cabeça dele. Afinal, a coisa estava ficando perigosa e eu era o responsável por aquilo.

Saímos do bar juntos, abraçados como dois bêbados amigos. Quem estava lá viu nós dois sairmos. Viram também o revólver que eu peguei e enfiei no meu bolso. Olharam para mim com cumplicidade e com olhos de quem dizia: “ isso mesmo, rapaz, dê um jeito de sumir com esse negócio. Não deixe esse cara fazer bobagem.”

Andamos uma meia hora pela periferia da cidade, procurando lugares desertos. Ele disse que não queria chegar bêbado em casa. Queria andar um pouco para dissipar os vapores do álcool. Então fomos dar um passeio pelos arredores da cidade, longe da última casa do núcleo urbano.

Era quase de madrugada. Ninguém nas ruas. Eu, já quase lúcido, pedi para ele deixar aquele revólver comigo. Queria tirar aquela ideia maluca da cabeça dele. Na verdade, ia dar um sumiço nele. Já decidira também que iria parar com aquela sacanagem que eu estava fazendo com ele. Não sairia mais com a mulher dele nem que ela me implorasse de joelhos.

A noite estava escura. Ele concordou que eu guardasse o revólver, mas queria que o testasse. Pediu que eu o experimentasse para ver se a arma estava em perfeito estado. “Dá um tiro com ele” ele disse.

Estávamos longe da cidade. Nenhuma alma nas ruas. Eu peguei o revólver e disparei um tiro para o alto.

No mesmo instante em que o estampido do meu tiro ecoou nos ares o Heraldo caiu no chão. Bêbado, ou ferido pelo susto do barulho. Ou só para me gozar. Pensei tudo isso quando me abaixei para levantá-lo. Então vi o sangue que brotava da têmpora esquerda dele em borbotões. Uma poça vermelha, de cheiro ocre, começou a formar-se no chão. Fiquei indeciso entre correr para chamar socorro ou procurar saber o que tinha ocorrido.

Alguém tinha atirado nele. Não fui eu. Não fui eu. Não fui eu. Eu atirei para cima, tenho certeza disso! Mas alguém atirou nele e atingiu a sua cabeça, do lado esquerdo. Como podia ter sido eu, se eu estava do lado direito dele? E atirei para o alto. O tiro veio do lado esquerdo, porque o furo estava na têmpora esquerda. Mas quem atirou e de onde viera o tiro? Esquadrinhei todo o horizonte avistável daquele lado e não vi um único lugar de onde o assassino pudesse ter disparado aquele tiro.


Assassino? Assassino? Eu sou o assassino? A polícia tem certeza que fui eu. A bala é do mesmo calibre que a do revólver que eles encontraram em minha mão. Um trinta e oito.  Há os vestígios de pólvora que sempre ficam nas mãos de quem dá um tiro. Eu dei um tiro. Ninguém achou a bala que eu disparei. E eu tinha o problema de estar saindo com a mulher dele. As testemunhas que nos ouviram no bar confirmaram que ele jurou que ia matar o cara que estava saindo com a mulher dele.

Tudo isso foi levantado e provado.

Eu agora estou aqui nesta cadeia, pensando em como vou fazer para defender meu próprio rabo daqueles caras que estão me olhando com caras de hienas famintas de contato sexual. Tenho absoluta certeza que o Heraldo armou tudo isso só para me ferrar. Ele contratou alguém para matá-lo daquele jeito, naquela hora e naquele lugar. Só para me ferrar. Ele já sabia de tudo. Foi por isso que ele me falou que o cara que andava botando chifre nele iria se arrepender pelo resto da vida por ter feito isso.

É exatamente o que já estou sentindo só em ver o sorriso malicioso e os olhares lúgubres com que aqueles caras estão me medindo. Tremo só em pensar na noite que está chegando. Eu estuprei a honra dele e agora vou pagar na mesma moeda. O maldito Heraldo. Ele planejou tudo isso direitinho. Alguém pode pensar em uma vingança mais diabólica do que essa?

O ESTRANHO CASO DO ALFAIATE 

Um dia o Seu Geraldo acordou com uma sensação muito desagradável no corpo. Não sabia o que era. Sentou-se na cama tentando escutar os próprios pensamentos, mas eles só falavam das coisas que ele precisava fazer no dia e das dificuldades pelas quais ele estava passando na sua vida profissional e pessoal. 

Seu Geraldo sabia que todos os nossos sentimentos são informados por três classes de sentidos que o nosso sistema neurológico reconhece e cataloga: um sentido visual, que transforma tudo em imagens, um sentido auditivo, que transforma tudo em sons, e um sentido de cinestesia que transforma tudo que sentimos em sensações táteis, gustativas e aromáticas. Como o sentido auditivo não lhe dizia nada a respeito daquele estranho sentimento que estava experimentando, ele apelou para o cinestésico. Passou a mão pelo corpo todo, explorando cada milímetro dele, á procura de alguma pista que pudesse lhe dar alguma informação á respeito daquele estado de desconforto que se apoderara dele. Inútil. As sensações táteis não tinham nada para lhe informar. Nem obteve qualquer sucesso apelando para o nariz, pois todos os aromas que captou eram os mesmos de todos os dias; e quanto aos paladares, á única coisa que sentia era aquele mesmo gosto amargo na língua que não o abandonava desde que ele começara a beber além da conta e a tomar remédios para dormir.

O último recurso seria apelar para o visual.  Seu Geraldo então se postou em frente ao espelho, inteiramente nu e começou a examinar o corpo á procura de algum sinal que pudesse lhe dar alguma informação sobre o estranho incômodo que estava sentindo. Explorou o corpo inteiro, desde as solas dos pés, até o couro cabeludo, que ele examinou com o auxilio de um espelho.

Foi então que ele viu aquela barata subindo pelas bordas do vaso sanitário. Nojenta, cascuda, com as anteninhas vibrando, como se estivesse tentando entrar em contato com ele. Seu Geraldo odiava baratas. Pegou imediatamente um mata-moscas de plástico e começou a bater nela. Derrubou-a no chão e liquidou-a com três golpes do mata-moscas. Depois, usando o mata-moscas como pá, pegou o asqueroso corpinho e jogou-o no vaso. Deu a descarga e ficou a observar o remoinho das águas levando o cadáverzinho nojento para as profundezas do inferno dos esgotos.
Como sua vida parecia que estava indo. Não pode evitar a analogia. Estava se tornando alcoólatra e dependente de remédios para dormir. Já não tinha mais vida social. Vivia nas sombras, evitando a luz, como uma barata. Lembrou-se da estranha sensação que tivera ao acordar.

Decidiu continuar a explorar-se para ver se encontrava algum sinal físico que justificasse aquele sentimento.  Nada digno de nota. A não ser aquele pelinho estranho na pestana direita. Um pelinho negro que crescera mais que os outros, projetando sua ponta para fora da espessa moita de fios brancos e negros que formavam as suas fartas pestanas. Parecia uma anteninha de inseto. Seu Geraldo pegou a tesourinha que usava para aparar os pelos do nariz e imediatamente decepou a vantagem que aquele pelinho ousado tinha tomado sobre os seus companheiros ciliares. Esqueceu-se por um momento da sensação de inquietude que o dominava. Tomou uma ducha, escovou os destes, penteou os cabelos, vestiu-se. Escutou de novo os pensamentos. De novo só as preocupações do dia a dia.

Que não eram nada fáceis. Seus negócios estavam indo de mal a pior. Perdera a maioria dos clientes que amealhara em mais de quarenta anos de árduo trabalho. A maldita cultura do descartável. Ninguém mais mandava fazer ternos. Sua alfaiataria, que já fora a mais próspera da cidade, agora vivia ás moscas. Sobrevivia á custas de antigos clientes, que ainda se mantinham fiéis á velha moda dos ternos feitos sob medida, com cortes e tecidos escolhidos á dedo pelo freguês. Mas esses estavam escasseando cada vez mais. Há mais de três anos que seu Geraldo não captava nenhum cliente novo. E nos últimos anos comparecera a tantos funerais de antigos fregueses, que se deu conta de que logo não teria mais algum. O que faria da vida depois disso, ele que só fizera isso a vida inteira? Caçar as moscas que invadiam sua alfaiataria? Correr atrás das baratas que infestavam sua cozinha?

Quanto á vida pessoal, essa também nada tinha de promissora. Fora feliz sim, até algum tempo atrás, enquanto Dina estava viva. Dina, a sua fiel companheira de quarenta anos! Dina e a alfaiataria. As duas entraram na sua vida quase ao mesmo tempo. Eram duas relações que se confundiam. Ás vezes Seu Geraldo tinha dificuldades de saber a quem amava mais. Passava mais tempo na alfaiataria, é verdade, onde se sentia realizado, mas quando estava com Dina era a alegria de uma relação estável e feliz que enchia o seu coração. Feliz com Dina, realizado com a profissão que escolhera. Esses eram os dois componentes do equilíbrio emocional do Seu Geraldo e quem o conhecia tinha certeza que eram esses dois fatores que faziam dele o homem amável, simpático e educado que ele sempre foi. Um homem que era capaz de ler Freud e Kafka com a mesma disposição com que lia o jornal diário e conversava com os doutores que encomendavam os seus ternos; e comentava sobre filosofia e literatura com eles com a mesma desenvoltura com que discutia futebol com os ajudantes que pregavam os botões nos ternos e os ajudantes que faziam as entregas.  

No entanto, Dina morrera há dois anos atrás. Seus dois filhos, um formado em engenharia de produção, outro em administração de empresas, estavam longe. O primeiro trabalhando em outro estado, o segundo tinha se mudado para o exterior. Nenhum deles quis seguir a profissão do pai. Fizeram bem, pensava o Seu Geraldo. Se tivessem seguido a carreira do pai, hoje estariam sem profissão.

Dina se fora há dois anos. Os filhos também. A alfaiataria, se durasse mais dois, seria muito. Aquela sensação de incômodo neurológico surgiu novamente. O que fazer da vida naquela situação? Sentia-se uma barata tonta.  Seu Geraldo olhou para o espelho. Agora eram dois os pelinhos negros que se destacavam nas pestanas, um cada cílio, formando duas curiosas antenas. Pegou novamente a tesourinha e aparou-os. Passou o pente nelas e foi para a cozinha preparar o café.

Coisa horrível ter que tomar café da manhã sozinho. Seu Geraldo fazia isso há dois anos já, desde que Dina morrera. Mas nunca tinha sentido a plena nostalgia que isso lhe provocava como agora. Cortou o pão para passar a manteiga e reparou nos fragmentos de pão que caiam no piso da cozinha. Lembrou-se do cuidado com que Dina limpava a cozinha. “É para não atrair baratas”, dizia ela, pois uma casa antiga como aquela, que ainda tinha um porão, era um viveiro de ratos e baratas.. Seu Geraldo tomou o café, comeu o seu pão com manteiga, levou a xícara para a pia, lavou-a, guardou os apetrechos com que fizera o café e pegou a vassoura de pelos para varrer a cozinha. Não queria deixar nenhum fragmento de pão no chão. “Para não atrair baratas”, pensou ele, conectando esse pensamento com Dina. "Odeio baratas", murmurou ele, para si mesmo.

Dina, Dina. De repente, seu Geraldo sentiu vontade de pegar os fragmentos de pão que caíra no chão com as mãos ao invés de varrê-los, como sempre fazia. Agachou-se e começou a catá-los. Um a um, foi pegando os pequeninos pedaços de pão. Mas ao invés de colocá-los na pazinha com que recolhia o lixo para depositar na lata, ele começou a comê-los. Pareceu-lhe natural fazer aquilo. Andou de quatro pela cozinha toda, recolhendo aqui e ali fragmentos de alimentos que foram encontrados debaixo do fogão, embaixo da pia, nos vãos dos armários. Grãos de arroz, fragmentos de pão, restos de açúcar, quanto restinho de comida não ficavam escondidos pelos cantos mais ocultos de uma cozinha, que ele nunca imaginara que ficassem?

Dina, Dina. Ela tinha razão, era preciso limpar bem a casa. “Para não atrair baratas”. Tudo isso não deve ter passado de um minuto ou mais. Mas ao Seu Geraldo pareceu que tinha feito isso a vida inteira. Todavia, era a primeira vez que ele andara pelo piso da cozinha procurando fragmentos de comida. E comendo-os, o que era mais estranho. E de repente, também, da mesma forma intempestiva com que iniciara aquele comportamento, ele se deu conta do ridículo daquela situação. “O que estou fazendo?”, pensou ele. Levantou-se imediatamente e correu para o banheiro. Lavou as mãos com água e sabonete e escovou os dentes. Depois bochechou um antisséptico bucal, pensando na estranha sensação que sentia. Não estava com nojo. Apenas estava perplexo por ter praticado comportamento tão bizarro.

Quando foi ao quarto para pegar a carteira com os documentos, Seu Geraldo se deu conta de que não estava com nenhuma vontade de sair naquele dia. O quarto estava na penumbra, pois ele não havia aberto a janela nem acendido a luz. Esticou a mão para o interruptor e acendeu a luz. E imediatamente sentiu que ela o incomodava. Apagou-a imediatamente, dirigiu-se para a janela e começou a abrir as cortinas. O sol feriu seus olhos com uma intensidade tal que ele teve que fechá-las imediatamente,  com a rapidez de uma pessoa que tivesse percebido que alguém estivesse prestes a atirar nele. Sentiu que gostava da penumbra. E a que luz o incomodava.

Sentiu-se tomado por um imenso medo de sair de casa. O que seria aquilo que estava acontecendo com ele? Talvez estivesse ficando doente. Adquirira uma fobia?  Estaria com febre e tendo alucinações? Passou a mão pela testa.  Não, não tinha febre. Foi ao banheiro, lavou o rosto. Enquanto passava a mão pela pele flácida e pálida do rosto perplexo que via no espelho, tateou novamente duas pontas salientes nas sobrancelhas. Olhou-se no espelho. Elas estavam lá de novo, as anteninhas salientes, e agora mais espetadas do que antes. Seus olhos também estavam diferentes. Estavam mais arregalados, inchados nas órbitas e com uma cor estranha, entre um branco opaco e um amarelo bilioso. Sua boca também lhe pareceu mais enrugada, engrelhada, e seus dentes tinham a aparência de pequenos tentáculos que se fechavam com um movimento de pinças e não com o sobe-desce de martelos de moinho em processo de maceração, como ele sempre achava que a dentadura se parecia quando mastigava os alimentos.  

“Credo”, pensou o Seu Geraldo. “Acho que estou mesmo ficando louco.”

Mas tudo aquilo devia ser apenas uma alucinação. Aquela vida solitária e sem perspectiva estava começando a cobrar seus efeitos. Afinal, a sua vida, nos últimos dois anos, tinha sido uma vida de barata doméstica, como ele mesmo dizia aos poucos amigos que ainda lhe restava. Da casa para a alfaiataria, da alfaiataria para casa. Em casa somente a companhia da televisão ou de um livro. No trabalho a máquina de costurar, o giz para marcar, a régua, a máquina de corte, as linhas, as agulhas, dedais, chumaços de algodão para as ombreiras. Pouca ou nenhuma luz do sol. Pouca ou nenhuma companhia humana. Sanduiches no almoço. Fragmentos de comida pelo chão, que precisavam ser recolhidos diariamente.  As moscas que se ajuntavam e ele tinha que persegui-las pelo aposento, com um mata-moscas na mão. Vida de barata doméstica. E, no entanto, ele tinha horror á baratas.

Lembrou-se do seu papagaio, única presença viva que ainda mantinha em casa. A única criatura com quem ainda podia falar. Precisava dar-lhe ração e água antes de sair. Geraldinho, era como ele o chamava. O papagaio vivia em uma gaiola no quintal. Completamente domesticado, sua gaiola ficava aberta e ele tinha liberdade de passear pela casa inteira. Fazia a maior festa quando  o dono ia visitá-lo pela manhã, levando água e ração. Seu Geraldo pôs um par de óculos escuros, para evitar o incômodo do sol, e saiu até o quintal. A luminosidade parecia incomodá-lo cada vez mais. Mas assim que ele aproximou-se da gaiola do Geraldinho, o papagaio imediatamente saltou de dentro da gaiola e foi empoleirar-se no telhado. E lá ficou, por uns instantes soltando gritos desesperados, como se tivesse acabado de presenciar alguma coisa extremamente assustadora. E de repente, sem nenhum aviso, ele voou para cima do Seu Geraldo e começou a atacá-lo com uma fúria que ninguém julgaria que ele fosse capaz.

Seu Geraldo conseguiu livrar-se do papagaio com muita dificuldade. E não sem alguns ferimentos pelo rosto. Geraldinho enlouquecera. Diabos. Será que naquela casa todo mundo estava ficando louco? Ele, tendo alucinações e comportamentos estranhos. O Geraldinho, de repente, não o reconhecia mais e se tornara agressivo.

Decidiu que naquele dia mesmo ia procurar um médico. Antes,  foi ao banheiro para lavar-se e fazer uns curativos nos ferimentos que as bicadas do Geraldinho lhe dera. Mas quando se olhou no espelho seu coração disparou e o susto o fez retroceder com um salto. Entendeu imediatamente porque o papagaio o atacara. Não tinha mais um rosto humano. Ele era agora uma gigantesca, nojenta e horripilante barata, cascuda e com duas varetas pontudas como antenas de automóvel a balançar em sua testa. .

Seu Geraldo foi encontrado morto em casa três dias depois.  A perícia concluiu que ele escorregara no banheiro e batera com a cabeça no vaso. Sofrera uma fratura de crâneo. Os vizinhos só se deram conta da sua morte por causa do cheiro horrível que saia da casa. A casa dele está fechada até hoje. Só os seus vizinhos é que reclamam muito que suas latas de lixo, pela manhã, aparecem sempre reviradas e que um cheiro fétido, de restos de comida e coisas mortas, costuma sair da casa onde ele morava. Mas ninguém teve coragem de ir checar o que há lá dentro, pois há quem diga que a casa é mal assombrada. Dizem que lá habitam imensas e horripilantes baratas, cascudas, nojentas e canibalescas, que só podem ser vistas de noite e de dia se escondem no porão.

O MORTO ANTECIPADO


 
Era uma brincadeira sem graça o que estavam fazendo com ele. Aquela plaquinha com o nome dele naquele túmulo. Ou então não era brincadeira, mas algo bem mais grave que precisava ser apurado. O Dr. Ênio, naquele momento, não sabia o que pensar. A raiva era maior do que a capacidade de concatenar qualquer pensamento lógico.

Logo ele, que era delegado de polícia e tinha uma mente treinada para pensar com lógica e concisão. Agachou-se em frente ao túmulo e procurou esfriar a cabeça. Quem poderia ter feito aquela brincadeira macabra com ele? E seria mesmo brincadeira? Olhou para as plaquetas afixadas na pequena laje de concreto que indicavam os nomes das pessoas enterradas ali. Adão Pinto de Oliveira 20-05-1932-+ 5-8- 1989; Luiza Neves de Oliveira -13-03-1936- +16-07-1995; Viviana Neves Oliveira Paes, 12-05-1956 - +12-08 2007.

Pai, mãe e irmã. Todos enterrados ali. Não pode evitar a imaginação mórbida da imagem dos três esqueletos que estavam debaixo daquele gramado. Eram seus entes queridos. Procurou na memória a imagem deles com vida. Reviu o pai, com seus belos cabelos brancos e o imenso bigode a Charles Bronson, que ele mesmo procurava imitar, mas nunca conseguia fazer com que ficasse igual ao do pai. Depois a mãe, carinhosa criatura que sempre tinha um cafezinho novo e uma fatia de bolo de fubá quentinho para ele, toda vez que ele aparecia para visitá-los. Ele nunca avisava com antecedência, mas ela sempre adivinhava. E a sua Irmã, Viviana. Não havia conhecido outra moça tão bonita quanto sua irmã Viviana. Meiga, alegre, sonhadora. A advogada que não quis segui-lo no serviço público, se tornando delegada ou juíza, ou promotora. “Quero ficar do outro lado da sua mesa”, dizia ela, carinhosamente. “Sempre fomos concordes e cúmplices em tudo. Quero, pelo menos profissionalmente, poder brigar um pouco com você”, completava ela, sempre rindo. Viviana, Viviana, eram tão amigos, tão próximos um do outro. Morrera jovem. Apenas cinquenta e um anos. Um acidente de carro.

O Dr. Ênio olhou de novo as plaquinhas chumbadas na pequena laje. Esperava ter se enganado. Talvez fosse apenas uma alucinação a visão anterior. Mas não. As três placas agora eram quatro. Passou pela sua cabeça que a administração do cemitério talvez tivesse se enganado e chumbado por engano aquela placa ali. Ou até que tivesse mesmo, também por engano, enterrado alguém naquela tumba. Mas logo descartou essa última hipótese, pois era impossível. Ele era o dono da tumba. Comprara o local quando da morte do pai. Pagava pela sua manutenção e somente ele poderia autorizar o enterro de alguém ali. Aliás, para que algum outro corpo fosse enterrado ali, ele teria que ser contatado para poder assinar o alvará de retirada dos ossos do corpo mais antigo, que era o do seu pai. Pois ali só havia três gavetas. Um quarto defunto teria que desocupar o primeiro.

Não. Só poderia mesmo ser um triste engano da pessoa encarregada de chumbar as placas. Chumbara errado. Pusera na tumba dos seus parentes a placa de outra pessoa. Mas a coincidência não podia ser mais cruel. Pois o nome da pessoa era exatamente igual ao dele: Ênio Pinto de Oliveira 25- 09-1958 +02-10-2014. O mesmo nome, a mesma data de nascimento. “Não pode ser uma mera coincidência”, pensou.


“Hoje? Morreu exatamente hoje, esse sujeito?”, perguntou-se desconcertado, o Dr. Ênio, ao deter-se sobre a data da morte. E logo um simulacro de sorriso se abriu nos seus lábios, alongando o bigode tipo Charles Bronson que ele tentava imitar, sem sucesso. “Claro que só pode ser brincadeira. Alguém está tentando gozar com a minha cara”.

Mas logo seu rosto se anuviou de novo e um vinco de preocupação apareceu na sua testa. E uma máscara de surpresa afivelou-se-lhe no rosto. A terra do túmulo havia sido recentemente revolvida. Não notara antes por conta da surpresa que tivera em ver que as placas do túmulo eram quatro ao invés de três e por constatar que a quarta placa continha o seu próprio nome. Mas agora, mais calmo, pode ver claramente que houvera sim, um sepultamento recente naquele túmulo. Os coveiros eram, de certo, profissionais muito. competentes, pois após o sepultamento, devolviam as placas de grama retiradas para o mesmo lugar com tanta maestria que pareciam nunca ter sido retiradas. E o terreno era aplainado com tanto cuidado que mal se percebia que havia sido cavado.

“Só há um meio de tirar a limpo esse negócio”, pensou o Dr. Ênio. E ele foi imediatamente ao escritório da administração do cemitério.

─ Verifiquei que um corpo foi enterrado na campa SD 1432 esta manhã ─ disse ele ao rapaz que o atendeu. ─ Eu sou o dono desse jazigo e não recebi nenhuma comunicação do fato. Poderia me explicar o que está acontecendo aqui?

O rapaz olhou para ele com estranheza.

─ Como? O Senhor é o dono do jazigo e não foi comunicado?─ perguntou o rapaz, já entrevendo algum tipo de complicação.

─ Exatamente.  O Senhor deve ter aí um obituário onde constam as identidades dos sepultados, não tem?

─ Sim, temos, mas...

─ Não tem mas. Mostre-me a ficha desse sepultamento ─ comandou o Dr. Ênio e agora era o delegado quem falava.

O rapaz percebeu a mudança no tom de voz e não quis se perguntar por que, de repente, se sentia tão intimidado. Correu logo para um fichário no fundo da sala e voltou com uma pasta. Havia dentro dela um histórico de óbito. ” Ênio Pinto de Oliveira, natural de São Paulo, SP, nascido em 25 de novembro de 1960, casado, funcionário público, deixa dois filhos. Causa mortis, lesão craniana acompanhada por hemorragia interna causada por disparo de arma de fogo. Hora do óbito 18,30 hs. Dia 02 de novembro de 2014.”

─ Mas isso é mesmo uma brincadeira de muito mau gosto ─ vociferou o Dr. Ênio.

─ Como? ─ perguntou o rapaz da administração.

─ Vocês enterraram um sujeito que ainda não morreu ─ disse o Dr. Ênio com uma cara de poucos amigos, que logo gelou o sangue do rapaz..

─ Não entendi ─ balbuciou o rapaz, tentando pegar a pasta do obituário para checar.

O Dr. Ênio não deixou. Ao invés, mostrou com o dedo a informação que queria destacar.

─ Se o cara morreu ás 18;30 horas do dia 2 de novembro de 2014 como é que ele pode já estar enterrado duas horas antes de morrer? Aí tem truta. São exatamente 16 horas agora. Vocês não leem essas fichas?

O rapaz estava tão assustado que nem sabia o que responder. Olhava atabalhoadamente do fichário para o rosto do Dr. Ênio, e depois para o fichário novamente, procurando uma explicação que não vinha á sua mente. Estava ficando cada vez mais assustado.

─ Não entendo como isso pode ter acontecido... Francamente não entendo...

─ Tem mesmo certeza que alguém foi enterrado lá─ perguntou o Dr. Ênio.

─ Ah! Isso sim ─ disse o rapaz. ─ Eu mesmo autorizei os coveiros a fazer o enterro.

─ Pois traga-os aqui imediatamente. Vamos exumar esse corpo. Se vocês enterraram alguém lá, não é o cara que está nessa ficha. Aí tem ”truta” e eu quero ver o que há.

─ Mas senhor ─ tentou retrucar o assustado administrador ─ não podemos exumar um cadáver sem a licença das autoridades...

─ Eu sou a autoridade ─ disse o Dr. Ênio, tirando do bolso sua identificação funcional. ─ Mande exumar agora aquele corpo senão prendo você e seus funcionários já, por cumplicidade em crime de assassinato e ocultação de cadáver.
Levou cerca de meia hora para os dois coveiros abrirem o túmulo e quebrar a parede que lacrava a campa. Logo içaram para fora um caixão novinho em folha, de boa qualidade.

─ Parecia mais pesado quando pusemos ele lá ainda há pouco ─ disse um dos coveiros.´

─ É mesmo. Eu não havia notado isso, mas agora que você disse, parece mesmo mais leve ─ respondeu o outro coveiro.

─ Abram ─ ordenou o Dr. Ênio.

Não foi surpresa nenhuma para ele. O caixão estava vazio.
O Dr. Ênio esperou uns quarenta minutos pelos dois policiais á paisana, que ele mandou chamar para deter e interrogar o administrador do cemitério e os dois coveiros.  Precisava esclarecer aquilo. Podia ser uma simples brincadeira, mas era uma brincadeira criminosa e perigosa. Se os funcionários do cemitério poderiam ser subornados para fazer um negócio daqueles, podiam ser subornados para fazer qualquer coisa. Ali havia crime sim. Falsa comunicação de óbito, falsificação de obituário, simulação... Mas ele não tinha tempo para tratar daquele assunto agora. Eram exatamente seis horas da tarde. Prometera á Júlia, sua mulher, que estaria em casa ás sete. Tinham combinado sair naquela noite. Lembrou-se da informação contida no obituário. Casado, deixa dois filhos. Quis sorrir, mas o que veio foi um aperto no coração.
Um bloqueio na estrada. Um policial fardado o mandou parar.

─ O que houve colega? Eu já estou meio atrasado ─ disse o Dr. Ênio, sacando a carteira funcional e mostrando-a ao policial.

─ Um crime, doutor ─ parece que atiraram em um colega seu. Nós chamamos os paramédicos, mas não deu tempo. Ele acabou de falecer. Espera um pouco, que eu vou tirar a viatura para o senhor passar.

─ É?  Foi a única palavra que o Dr. Ênio conseguiu balbuciar. Desceu do carro com pernas bambas e um terrível aperto no coração. Uma angústia inexprimível tomou conta dele. Uma atração irresistível, como se ele fosse um pedaço de metal puxado por um ímã poderosíssimo o arrastava para aquele automóvel parado na beira da estrada, onde um corpo sem vida, com a cabeça destroçada, podia ser visto de longe.   

Quando ele chegou perto e viu o rosto do cadáver, todo o seu corpo sacudiu como se um terremoto interno tivesse irrompido naquele justo momento. Pois naquela pasta sangrenta, cujo único elemento de reconhecimento era o bigode á moda de Charles Bronson, ele viu seu próprio rosto. Então ele sentiu aquele puxão violento, que parecia arrancar dele toda a consciência do próprio eu. E ele não viu mais nada. Só a treva espessa em que estava sendo mergulhado.

Eram exatamente 18:30 horas do dia dois de novembro de dois mil e quatorze. Quando o policial voltou ao carro do Dr. Ênio para liberá-lo, encontrou-o vazio. Procurou-o entre as pessoas que haviam parado para contemplar o cadáver. Mas não o encontrou.

“ O homem estava com pressa mesmo”, pensou o policial. “Não quis nem esperar eu desbloquear a estrada e foi embora a pé."

]

CRÔNICA DE UM ASSASSINATO


Quando jovem estudante eu também tive meus sonhos. E o maior deles era ser jornalista. Sonhava com as grandes redações de jornais, me via correndo atrás das notícias, entrevistando celebridades, descobrindo falcatruas e desvendando crimes misteriosos que nem a polícia conseguia resolver. Assim, logo que terminei o ensino médio, fiz vestibular para a faculdade de jornalismo. Logo de cara percebi que o charme da profissão, se existia, eu não iria encontrá-lo na faculdade. Na verdade, o curso não tinha nada de charmoso. Era como o curso de direito, que fui fazer mais tarde, atraído por outro arquétipo falso, o do advogado matreiro que dá verdadeiros espetáculos de versatilidade e inteligência nos tribunais, inocentando pessoas que parecem estar, de antemão, já condenadas. Logo verifiquei que tais profissionais só existiam nos filmes de Hollywood, assim como os jornalistas tipo Bob Woodward e Carl Bernstein, que desvendaram o Caso Watergate, eram casos muito raros. Não obstante terminei o meu curso, mais por teimosia do que por desejo de ser jornalista mesmo. E como precisava de um estágio para pegar meu diploma, arrumei um lugar para estagiar no jornal de minha cidade, onde o redator chefe era amigo de um parente meu.

Fiquei uns três meses na redação ajudando o afeminado colunista da página social a montar a sua coluna. Um trabalho idiota, que eu odiava. Se o curso havia sido enfadonho e decepcionante, aquele estágio estava sendo simplesmente desencorajador. Praticamente, se ser jornalista era aquilo, eu francamente já estava desistindo.

Então, um dia o editor-chefe me chamou e disse: ─ Paulinho, a sua chance chegou. O Carlão está doente e não pode vir trabalhar hoje. Você vai fazer uma matéria policial no lugar dele.

Carlão era um repórter que costumava cobrir matérias policiais.

─ Um cara apareceu morto na Rua... Suspeita de assassinato. Quero que você vá lá e cubra essa matéria. Fale com os policiais, entreviste os parentes, os vizinhos, todos que puderem dar alguma informação. Parece que o cara tem alguma ligação com esse rolo da Petrobrás. Isso pode dar uma boa matéria e você pode ficar famoso. Faça bem o serviço e eu lhe dou o emprego ─ disse ele rindo.

Lá fui eu, juntamente com o Bráz, um rapazinho empertigado, que era o fotógrafo do jornal. A casa, situada em um bairro de classe média alta, indicava que ali morava um sujeito de posses.  Era uma bela residência, com um vistoso jardim, garagem para quatro carros, piscina, churrasqueira e tudo mais que se encontra em uma casa desse nível.

Naquele momento estava cheia de policiais e curiosos. Mostrei, com certo orgulho, ao policial que parecia estar á testa do caso, as minhas credencias de imprensa. Ele me olhou como se eu fosse um rato saído de um bueiro qualquer, mas logo mudou de atitude ao ver os flashes da câmara do Bráz focados no rosto dele. Então ele se abriu em um sorriso e perguntou no que poderia ser útil. O que não faz um estímulo á vaidade! Bem que dizia um professor da faculdade que a melhor forma de conseguir a boa vontade de um entrevistado era massagear o ego dele com um apelo á sua vaidade. Por que vaidade é como hemorroida: quase todo mundo tem, mas são poucos que confessam. Uma foto no jornal, com um título pomposo em baixo amolece qualquer um, e o nosso policial foi logo dando a opinião dele á respeito.

─ Não há nenhuma dúvida de que é um caso de assassinato ─ disse ele, apontando para o corpo estirado no piso da sala, em meio a uma poça de sangue, onde ele havia demarcado o contorno do espaço ocupado pelo cadáver com uns riscos de giz. Era um homem de cerca de cinquenta anos, bem vestido

─ Como sabe que ele foi assassinado? ─ perguntei.                                                        

─ Pela posição do corpo e por que não há sinais de pólvora em suas mãos ─ disse ele.─ Quem atira em si mesmo sempre fica com restos de pólvora nas mãos.

─ E qual seria o motivo desse crime? ─ perguntei. ─ Roubo, vingança, crime passional?.

─ Para mim, parece ser crime passional ─ disse ele, olhando para o fundo da sala, onde duas mulheres, abraçadas uma á outra, estavam chorando.

Compreendi logo a muda mensagem dos olhos dele. Olhei para a direção que ele apontara. Uma jovem e bonita senhora estava sentada no sofá de couro da sala de estar, chorando. Outra senhora, que devia ser a mãe dela, pela idade e semelhança de feições, estava tentando consolá-la. 

─ É a viúva dele ─ disse o policial. ─ A outra é a sogra.

“Uma mulher jovem e bonita”, pensei. No mínimo a metade da idade do defunto. Podem dizer agora que a hora não era apropriada, mas repórter que espera hora certa para colher informação nunca passará de foca de redação. E eu, agora que tinha tido aquela oportunidade, não podia perdê-la por conta de um sentimentalismo barato. Um repórter não pode ter tais escrúpulos, foi o que me ensinaram na faculdade. Também não pode ficar se preocupando com a verdade. A verdade é aquela na qual as pessoas acreditam. Se a versão é mais saborosa que o fato, imprima a versão. Essa é a primeira regra do jornalista. Então fui falar com a viúva. Assim que me identifiquei como repórter e perguntei á viúva se ela poderia conversar um pouquinho comigo, a mulher que parecia a mãe foi logo me dando uma bronca.

─ Ei rapaz, você não tem se "mancol", não? Não vê o estado da pobrezinha?

─ Tudo bem, mamãe, pode deixar, eu estou bem ─ disse a moça, enxugando as lágrimas com um lenço de papel.

─ O que você quer saber? ─ perguntou-me ela, assoando o nariz.

Olhei de relance para a mãe dela com uma ponta de ironia. ”Fica na sua, velha jararaca”, disse a ela mentalmente. Depois perguntei á jovem viúva. ─ A senhora é a esposa dele?

─ Eu era a esposa dele ─ respondeu ela.

─ E a senhora saberia dizer por que motivo ele foi assassinado?

─ Assassinado? ─ Quem disse que o Carlos foi assassinado? ─ respondeu ela, com os olhos arregalados.

─ Não foi? ─ perguntei.

─ Claro que não ─ disse ela. ─ Ele se suicidou ─ disse ela com uma convicção impossível de retrucar.

─ Mas porque ele teria cometido suicídio? ─ perguntei, interessado, pois logo vislumbrei ali uma boa história para explorar.

─ Primeiro, porque os negócios dele iam mal. Ele tem uma empresa de construção, que trabalha para empreiteiras de obras públicas. Desde que estourou esse problema com a Petrobrás ele não pega mais nenhuma obra. As dívidas foram se acumulando, os processos trabalhistas também. Ele estava ficando desesperado.

A jovem viúva caiu em um choro compulsivo e enterrou a cabeça loura no ombro da mãe.

─ Chega rapaz ─ disse a velha jararaca. ─ Ela não quer falar mais.

Aquele negócio estava começando a ficar enrolado. Não tinha a menor ideia por onde começar a escrever a minha matéria. Estava me preparando para sair quando a sogra bateu nas minhas costas, discretamente.

─ Quero falar com o senhor em particular. Poderia me acompanhar até a outra sala?

Fomos até uma sala ao lado, que parecia ser uma sala íntima. Estava mobiliada apenas com um sofá e um enorme aparelho de televisão de plasma. A mulher me puxou para um lado e assumiu ares de confidência.

─ Sabe, essas coisas a gente não deve ficar falando sem provas, mas eu acho que a milha filha não tem razão. O meu genro não se suicidou. Eu acho que foi assassinado ─ disse ela, baixinho, com o canto da boca.

─ E a senhora desconfia de alguém?─ perguntei. Aquilo estava ficando interessante.

─ Claro. Só pode ser aquela puta da amante dele. Ela o matou porque a minha filha o obrigou a abandoná-la.

─ Ele tinha uma amante? A sua filha sabia disso?

─ Não. Eu descobri isso a semana passada. Não tive coragem de contar isso a ela. A coitadinha já estava tão deprimida com essas dificuldades do trabalho dele.

─ E a senhora já disse isso á polícia?- perguntei.

─ Não, porque não tenho provas. Mas tenho certeza que foi ela.

─ A senhora sabe onde posso encontrar essa mulher? ─ perguntei, já imaginando as perguntas que iria fazer a ela.

─ É aquela puta ali, de vestido azul ─ disse ela, apontando discretamente para uma mulher de meia idade, bonita e elegantemente vestida, sentada numa cadeira de espaldar alto, no fundo da sala.

─ A vadia é tão despudorada que ainda vem aqui, emporcalhar com a sua presença um momento tão delicado.


Agradeci e fui em direção á pretensa amante, que ainda olhava para o cadáver no meio da sala, como se não acreditasse no que estava vendo.

─ Por favor, senhora. Sou do Jornal ... Poderia trocar umas palavrinhas conosco? ─ perguntei.

Ela me olhou com um ar meio desconcertado como se não estivesse entendendo o porquê da sua escolha. E ficou mais espantada ainda quando Bráz começou a tirar fotos dela. Mas isso parece que abriu nela a vontade de colaborar. O rosto dela relaxou e ela quase sorriu.

─ A senhora era amiga do falecido? ─ perguntei.

─ Por que o senhor quer saber?─ perguntou ela, desconfiada. Percebi que se colocava na defensiva.

─ É que fui informado que a senhora conhecia bem o falecido ─ disse eu.

─ Eu era a mulher que ele amava ─ respondeu ela com certa arrogância.

─ Mas ele era casado com outra mulher ─ respondi.


─ Uma biscatinha que só casou com ele por causa de dinheiro ─ disse ela.

Aquilo estava ficando cada vez mais interessante.

─ A senhora tem alguma ideia dos motivos que o levaram ao suicídio?─ perguntei.

─ Suicídio? Que suicídio, que nada. Foi ela que o matou!

─ De quem a senhora está falando?

─ Daquela putinha sem vergonha que se diz mulher dele.

─ A senhora acha que ela a matou? Como?

─ Ela atirou nele e fez parecer que ele se suicidou ─ disse ela, abaixando o tom de voz. Um brilho de ódio apareceu nos olhos dela.

─ E porque ela teria feito isso?

─ Porque ele ia deixá-la para viver comigo. Por isso ela o matou.


 
Eu já estava na rua, pronto para subir na perua da reportagem e voltar para a redação. Minha cabeça fervilhava. Como é que eu ia redigir aquela matéria? Suicídio? Assassinato? Crime passional?

Um sujeito nos abordou.

─ Ei , vocês são da Imprensa?─ perguntou ele.

─ Sim ─ respondi. ─ Somos do Jornal...

─ Ah! legal. Pode anunciar que o caso já está resolvido ─ disse ele. ─ Acabamos de pegar o assassino. É um caso de latrocínio. O cara entrou na casa para roubar, foi surpreendido pela vítima, que reagiu. Ele então atirou nele e depois fugiu sem levar nada.

─ Ah! meu nome é Nerivaldo. Investigador Nerivaldo. Fui eu que resolvi esse caso, sabe? ─ disse ele, estendendo a mão para mim e olhando para a câmara do Brás com um grande sorriso. ─ Você pode publicar isso?

Fiquei sentado a tarde inteira na redação pensando em como poderia costurar tudo aquilo. Por fim, quando o editor veio me cobrar a matéria, entreguei a ele uma folha com três linhas dizendo: Demito-me. Não quero mais ser jornalista. Vou estudar psicologia.

Depois da psicologia estudei direito, economia e sociologia. Estou agora na sexta faculdade, estudando filosofia. Ainda tento encontrar uma profissão na qual eu consiga entender o que é o ser humano.

O COMPRADOR DE ALMAS

 
 
Ele disse que se chamava Adrammelech e pertencia á Ordem de Samael. E que vinha de Mercúrio. Eu me chamo Sebastião, sou um mestre de obras, honesto e trabalhador. Não tenho muita leitura. Quase não consigo falar esse nome e a única coisa que sei, dessas que ele falou, é que Mercúrio é um planeta pequenininho que fica perto do sol. Quanto ao nome Samael, não tenho certeza se era Samael ou Samuel. Se for Samuel tudo bem, é um nome como outro qualquer. Só lá na minha igreja tem pelo menos quatro Samuéís. É um nome bíblico sabe?



Baixar 481.6 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
Dispõe sobre
reunião ordinária
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Relatório técnico
Universidade estadual
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
espírito santo
pregão eletrônico
Curriculum vitae
Sequência didática
Quarta feira
prefeito municipal
distrito federal
conselho municipal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
segunda feira
Pregão presencial
recursos humanos
Terça feira
educaçÃO ciência
agricultura familiar