Os fascismos na américa latina. Ecos europeus e valores nacionais numa perspectiva comparada



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OS FASCISMOS NA AMÉRICA LATINA. ECOS EUROPEUS E VALORES NACIONAIS NUMA PERSPECTIVA COMPARADA*

Dr. João Fábio Bertonha, Universidade Estadual de Maringá/Brasil



Resumo: O presente artigo busca apresentar uma visão comparada a respeito da problemática do fascismo no continente latino-americano entre as duas guerras mundiais. A presença dos vários movimentos fascistas europeus na região é abordada, mas a ênfase é nos fascismos autóctones, cuja história é apresentada e discutida. Mais do que isto, a idéia é estabelecer, via história comparada, alguns padrões gerais sobre a presença fascista na América Latina, especialmente no tocante a suas bases populares e busca pelo poder. A comparação com outras regiões do mundo, como a Europa latina, a América anglo-saxônica e a Europa do Leste, por fim, procura situar a experiência fascista latino-americana dentro de um contexto ainda mais amplo.

Palavras chave: fascismo, América Latina, comparação.

Introdução

Apesar dos historiadores sempre terem recorrido à comparação como instrumento para escrever a História, os primeiros esboços conceituais da história comparada enquanto disciplina foram estabelecidos por Marc Bloch1 no início do século XX. Desde então, algumas questões são centrais quando se pensa em escrever uma história comparada. O que comparar, como e com quais parâmetros? Como escapar dos riscos inerentes à comparação, como o anacronismo e a falsa analogia? E vale a pena escrever uma história com esta perspectiva?

Claro que não existe uma resposta única a estas questões. Certos autores2, especialmente, mas não só, das ciências sociais, defendem a idéia de que é possível comparar fenômenos bastante distantes no tempo e no espaço e, mesmo assim, aprender bastante sobre eles. Para outros, seria evidente que quase todos os historiadores recorreriam, ao menos em algum momento, ao comparativismo histórico, mas que o recurso à história comparada só valeria a pena em certos casos3. Enfim, o debate teórico sobre o tema é contínuo e intenso.

Acredito, contudo, que a perspectiva de Bloch é a mais correta e que a comparação mais fértil é aquela que compara o comparável. Especialmente dentro da ótica do historiador, que busca menos a conceituação e mais refletir sobre as realidades históricas em estudo, a metodologia de Bloch parece mais adequada do que outras.

Também estou de acordo com a idéia de que, apesar de um enfoque comparativo ser possível e necessário em quase todos os estudos de História, a história comparada em si não o é. Certos temas podem ser mais bem compreendidos com um enfoque comparado, enquanto outros nem tanto, cabendo ao pesquisador fazer esta opção.

Pensando nestas diretrizes teóricas, é difícil imaginar um tema em que o enfoque da história comparada possa trazer mais benefícios do que o do fascismo, ou fascismos. Foi ele um fenômeno internacional, que se espalhou, sem respeitar fronteiras, por todo o mundo ocidental no período entre guerras e mesmo hoje. Em cada país onde surgiu um movimento fascista, havia uma tensão contínua entre essa perspectiva internacional e as condições locais, as quais condicionavam as possibilidades destes movimentos evoluírem para partidos mais estruturados e populares e chegar ao poder.

A multiplicidade de casos nacionais permite, assim, uma análise comparada potencialmente rica, iluminando as várias realidades locais e, ao mesmo tempo, fornecendo a base empírica necessária para a conceituação e generalização do fenômeno fascista como um todo. Além disso, estes movimentos, em essência, atuaram no mesmo espaço (o mundo ocidental, com ênfase na Europa e Américas, e com desdobramentos no resto do planeta) e tempo (os anos 20 e 30, com reflexos até o dia de hoje), o que, seguindo a definição de Bloch, os torna perfeitos para a comparação.

Este artigo pretende trabalhar nesta direção, enfatizando o problema do fascismo no continente latino-americano e, mais especialmente, a comparação entre os vários movimentos. Assim, não se trata, neste espaço, de escrever uma história geral do fascismo no continente e nem de procurar dar conta, em detalhes, de todos os casos individuais. A idéia é comparar tanto os casos latino-americanos entre si como o continente latino-americano como um todo com outras áreas geográficas, de forma a estabelecer padrões mais gerais sobre o fenômeno fascista.

Assim, o texto se dividirá em várias partes. Inicialmente, procurarei apresentar uma definição teórica mínima a respeito do fascismo, de forma a podermos selecionar de forma adequada os movimentos e regimes a serem incluídos na nossa comparação. Feito isto, apresentarei rapidamente os esforços dos fascismos europeus – da Itália, Alemanha, Portugal e Espanha - em difundir as suas ideologias no continente, de forma a entender o papel do referencial externo na formatação do fascismo local.

Posto isto, o foco mudará imediatamente para os vários movimentos fascistas autóctones. Procurarei fazer um balanço a respeito dos vários grupos fascistas, seus sucessos e fracassos, desde o rio Grande até a Patagônia. Longe de procurar escrever uma história completa destes grupos – o que demandaria muito mais do que um artigo – meu esforço se centrará sempre em torno de algumas questões chave, como as razões para seu sucesso (ou fracasso) em se tornarem movimentos de massa e atingir o poder. Um esforço comparado e uma busca de padrões gerais para a trajetória dos fascismos no continente completará este item.

Para finalizar, procurarei ampliar o foco comparativo e discutir as aproximações e diferenças entre o caso latino-americano e outras regiões do mundo. Nesse sentido, farei rápidas aproximações entre os fascismos latino-americanos e aqueles da Europa Latina, da América anglo-saxônica e do Leste Europeu. Uma conclusão mais ampla a respeito dos dilemas do fascismo na América Latina, baseada nos vários esforços comparativos efetivados no decorrer do artigo, finalizará o texto.

Cumpre ressaltar, por fim, que não utilizarei e nem citarei, por motivos óbvios, toda a imensa bibliografia disponível sobre o tema em dezenas de países e que meu foco analítico se centra nos anos 20 e 30, ignorando os vários movimentos de extrema direita, fascistas, que surgiram na região no pós-1945. Eles poderiam ser incluídos numa análise mais ampla, já que pertencentes a mesma família ideológica. No entanto, o pós-guerra obrigou a direita fascista, não só na América Latina, a tantas modificações – formando o que poderíamos chamar de neo-fascismo, pós-fascismo, etc. – que tornaria a nossa comparação mais complicada, o que me leva a permanecer no período entre guerras.

Marc Bloch, já nos anos 20, nos alertava para os riscos da comparação, como o anacronismo, a analogia enganadora, a generalização indevida, as ilusões sincrônicas, etc. Ele também destacava, contudo, os benefícios que ela poderia trazer ao nosso conhecimento, problematizando questões e nos permitindo fugir de uma visão excessivamente centrada no nacional. Dadas as características internacionais do fenômeno fascista, parece ser este um risco que vale a pena correr.

Por uma definição mínima de fascismo

Os historiadores, tradicionalmente, tendem a dar menos valor à discussão conceitual do que os cientistas políticos ou sociólogos. Mesmo que nossa ênfase seja outra, é este com certeza um erro. Ter clareza conceitual é a de suma importância para evitar erros analíticos e, no caso da história comparada, selecionar com precisão o que será comparado. No caso dos movimentos fascistas, este cuidado é ainda mais necessário. Com efeito, o uso da palavra “fascista” se tornou tão amplo e pouco definido que quase tudo poderia ser chamado de fascista. Pensando no nosso tema específico, a América Latina, o uso do termo se tornou tão comum que nosso modelo comparativo deveria, a princípio, incorporar os vários regimes militares dos anos 60 e 70, o peronismo, o regime de Vargas no Brasil, o APRA peruano e muitos outros. Isso não apenas seria equivocado em termos conceituais, como tornaria qualquer esforço comparativo inviável e até impossível.

Sem querer entrar na verdadeira floresta de papel impresso que tem procurado estabelecer uma “teoria geral do fascismo” 4, parece-me fundamental estabelecer, ao menos, a diferenciação entre o fascismo e outros movimentos da direita e entre os vários fascismos entre si.

É muito comum encontrarmos a definição do fascismo como movimento conservador ou reacionário. Especialmente na literatura marxista, surge a idéia do conservadorismo intrínseco dos fascistas, já que eles teriam surgido única e exclusivamente para combater o avanço que seria representado pela revolução socialista. O termo reacionário, por sua vez, é, em boa parte da historiografia, pensado como sinônimo de conservadorismo, mas, para outros autores, assume outro significado, de retorno ao passado. O fascismo seria conservador, reacionário ou, o que é conceitualmente mais complicado, ambos5.

Para sustentar essa opinião, os argumentos centrais são a oposição decidida dos fascismos ao comunismo e seu encanto pelas tradições e origens nacionais. Os ideais nazistas, por exemplo, parecem indicar claramente um desejo de conservar a realidade existente (o que seria um conservadorismo) frente aos riscos do comunismo ou da luta de classes ou mesmo de fazer voltar o relógio da História, caminhando para um mundo pré-industrial de pequenos proprietários rurais, de solidariedade de sangue, de cavaleiros em luta contra os inimigos do mundo germânico, etc.

Praticamente todos os outros fascistas também tinham estes tons de nostalgia do passado. Muitos endeusavam a tradição católica, a vida rural ou as grandes glórias dos séculos anteriores e atacavam os riscos do mundo moderno, do liberalismo e das suas derivações, como a vida imoral nas cidades, a perda do orgulho racial, etc. Daí a se concluir que eles eram reacionários, totalmente desconectados do mundo moderno e desejosos de regredir ao Antigo regime ou a antes, é um passo que poderíamos chamar de lógico.

No entanto, as aparências nem sempre correspondem à realidade. O encanto fascista pelo passado é, com certeza, um traço importante na sua ideologia e que o faz diferir de ditaduras modernizantes, como a do Estado Novo do Brasil, cujos vínculos com um passado idealizado eram não inexistentes, mas menores. O fascismo, no entanto, utilizava a tradição de uma forma diversa, para definir os contornos do “nós” e do “eles” e para mobilizar as massas frente a um projeto político moderno, e não para pregar a volta, o mais possível, ao passado.

É a partir justamente dessa constatação, aliás, que podemos discutir a hipótese dos fascistas serem considerados revolucionários, e revolucionários no sentido moderno do termo. John Lukacs, em livro de grande interesse6, dedica bastante tempo e espaço à questão e suas conclusões são, para o caso nazista, as de que Hitler não era um reacionário no sentido de desejar a volta a um passado imaginário ou a conservação de uma ordem social ameaçada.

Ele teria se aliado à direita tradicional e contra-revolucionária para atingir o poder, mas seria, antes de tudo, um "revolucionário nacionalista populista", cujo cuidado e habilidade em inflamar as massas mostraria a sua filiação à era democrática moderna e a impossibilidade de classificá-lo ao lado de conservadores preocupados com a mobilização popular, como Bismarck ou Hindenburg. Uma posição de interesse e que nos permite perceber a diferença central entre os fascistas e outros grupos da direita.

Não obstante, ao contrário de autores como Lukacs – e antes dele, Sternhell7 - não acredito que os vários fascismos superaram a dicotomia “direita x esquerda”. Eles incorporaram novos elementos ao corpo da direita e, em vez da volta a um passado glorioso, propunham uma revolução, uma “marcha para frente”, gerando um mundo onde os valores caros à direita seriam preservados e até exacerbados8, mas num “corpus” ainda mais ligado à modernidade e, especialmente, à nova sociedade de massas moderna. Nem reacionário, nem conservador, mas ligado a estes por parentesco ideológico e conveniência política, especialmente num período de grande agitação social e política como foi o entre - guerras.

Assim, é importante notar como a relação entre os vários movimentos e grupos políticos de direita, naqueles anos, era complexa e até ambígua. Havia empréstimos e trocas de elementos das suas máquinas políticas, que podiam ser absorvidos numa outra realidade sem obrigatoriamente mudar a mesma9. Assim, o regime varguista ou o de Salazar melhoraram seus sistemas de repressão e propaganda com o auxílio italiano e alemão, e intelectuais católicos franceses ou canadenses admiravam Mussolini, mas não se tornaram fascistas apenas por isto. Em alguns momentos, a solidariedade frente ao inimigo comum vencia as diferenças, enquanto, em outros, a briga pelo poder separava antigos aliados. O caso espanhol, neste sentido, é exemplar. Uma relação de proximidade e diferença que não foi apenas latino-americana, mas que explica boa parte da luta política no continente no período.

O fascismo europeu e seus ecos latino-americanos

Tanto a Itália liberal como a fascista pensaram no uso dos emigrantes como instrumento geopolítico para ampliar o poder italiano e ajudar a criar um Império, sendo o pensamento nacionalista fundamental para servir de ponte entre os dois momentos. A Itália fascista, contudo, tentou (especialmente nos anos 30) mobilizar os emigrantes num nível inimaginável para os políticos da era liberal, inclusive, em alguns casos, concebendo-os como quinta colunas potenciais e pretendendo a sua doutrinação ideológica.

Mais do que mobilizar os emigrantes num padrão diferente, contudo, a Itália fascista procurou articular essa mobilização com a criação de uma “Internacional fascista” capaz de colocar os movimentos políticos próximos ao fascismo na órbita de Roma. Também procurou influenciar a vida política de outros países (via subsídios, propaganda e outros instrumentos) para tentar aumentar o domínio político italiano (e ideológico fascista) no mundo. Uma “diplomacia paralela” atuante às margens da política externa tradicional italiana e onde os emigrantes, seus filhos, e os fascistas do exterior seriam chave.

Na América Latina, dada a presença de vastas comunidades italianas e também de movimentos e regimes fascistas e autoritários potencialmente adequados a aliança com Roma, os esforços fascistas foram bastante intensos. Não apenas as Embaixadas e consulados foram ampliados numericamente, como órgãos fascistas (fasci all´estero, Dopolavoro, Casa d´Italia) se espalharam pela América Latina, com uma concentração acentuada no Brasil e na região do Prata, mas presentes em todos os países. A propaganda e os contatos com movimentos fascistas locais também foram intensos10.

Os resultados desse esforço foram bastante decepcionantes para a Itália, em todo o mundo. Especialmente no caso da América Latina, todo o investimento na propaganda, na conquista das coletividades italianas e na criação de laços com os regimes ou movimentos fascistas mais promissores não tiveram nenhum resultado prático. Não obstante, tais esforços apoiaram a formatação dos fascismos locais e a própria existência de uma Itália fascista serviu para estimular as forças próximas em todo o continente.

Também a Alemanha se esforçou para atrair seus conacionais e descendentes residentes no exterior e fomentar laços com movimentos fascistas do exterior. Sessões da NDSAP-Auslandorganisation alemã se espalharam pelo continente, com ênfase no sul do Brasil e região do Prata, mas com sedes em quase todos os lugares. Propaganda nazista também circulou fortemente e muitos grupos fascistas e autoritários olhavam com simpatia para a Alemanha de Hitler e seu anti-semitismo e anticomunismo11.

No entanto, seu racismo exacerbado e seu imperialismo agressivo não agradavam a maioria dos fascistas do continente, a não ser em casos isolados que viam a hegemonia nazista como preferível à americana. A Alemanha, além disso, dispunha de poder para conquistar efetivamente o que queria e procurava impor sua dominação pela força, só fazendo propaganda no sentido mais instrumental do termo. A importância chave da questão racial dentro do corpo teórico nazista também o tornava muito menos aberto a qualquer idéia de colaboração com movimentos no exterior do que o fascismo italiano.

Isso diminuiu os vínculos dos nazistas com os fascistas de todo o mundo, e, na América Latina, onde os grupos fascistas locais estavam fortemente ligados ao catolicismo e tinham poucos vínculos ideológicos – salvo as exceções de praxe, como alas do Integralismo brasileiro, dos nacistas chilenos e outros – com a ideologia nazista, os contatos foram ainda menores. Aproximações e simpatias existiram, mas muito menos do que parece.

A Falange Espanhola e, posteriormente, a Espanha franquista também fez propaganda direcionada aos descendentes de espanhóis e aos movimentos próximos no continente. O ideal da Hispanidad, de defesa dos valores – normalmente conservadores - hispânicos e da união dos povos de língua espanhola era uma presença constante entre a intelectualidade espanhola, especialmente à direita, por todo o século XIX e, especialmente, a partir de 1898. Francisco Franco e seu regime também mobilizaram estes ideais, de forma modificada, por um longo período depois do fim da Guerra Civil, ainda que sem muitos resultados12.

a Falange Espanhola, apesar de ter um viés imperialista mais direto, voltado à África, também mantinha esse sonho de liderar a América Hispânica através dos vínculos culturais e da mobilização das coletividades espanholas locais13. Esse projeto, incrivelmente similar, ressalte-se ao italiano, acabou por não ser mais do que discurso vazio, dada a realidade econômica e militar da Espanha.

O Portugal de Salazar, por fim, também fez algum tipo de propaganda, através do seu Secretariado de Propaganda Nacional. O foco desta propaganda, claro, era a imensa coletividade portuguesa no Brasil e a manutenção de boas relações com este. Um tipo de propaganda diferente em alguns aspectos, dos sistemas anteriores, mas que também se aproximam em outros14.

Outros movimentos e ideologias próximas ao fascismo de outros países europeus, como os da França, também tiveram ampla divulgação na América Latina, mas estes quatro casos são os fundamentais, pois representam os dois regimes fascistas clássicos e os dois países com vínculos culturais mais fortes com a região.

O que fica claro, nesta rápida apresentação, é que os vários movimentos fascistas do continente não estavam sozinhos na sua luta. Publicações, notícias, informações, em alguns casos subsídios financeiros, etc. fluíam da Europa e davam, aos latino-americanos, a sensação de uma luta comum e transnacional15. A relação entre europeus e latino-americanos nem sempre era isenta de contradições e problemas, como o conflito nacionalista ou pela identidade dos imigrantes e seus filhos, mas a presença européia não pode ser descartada para dar conta da problemática do fascismo no continente. Dado que este é, em boa medida, um filho da Europa, tal fato não deve nos espantar.

Os fascismos latino-americanos em perspectiva comparada

Em alguns países da América latina, notadamente na região do Caribe e no arco andino, a presença de fascismo foi bastante limitada. Ditaduras militares ou democracias controladas pelas oligarquias foram a tônica do período, com a presença, no máximo, de intelectuais isolados propondo a formação de movimentos realmente fascistas. Os falangistas espanhóis ou outros grupos de inspiração espanhola foram a chave do fascismo nestes países.

Dessa forma, ditadores como Trujillo na República Dominicana, os Duvalier no Haiti, Somoza na Nicarágua ou Batista em Cuba, para mencionar apenas alguns, podiam ser extremamente sanguinários, admirar Mussolini e, especialmente, Franco, e dar cobertura às atividades, por exemplo, da Falange Espanhola, mas isso não os fazia fascistas e nem os tornava aliados incondicionais do fascismo.

Nesse sentido, o caso do general Maximiliano Hernández Martinez de El Salvador é emblemático. Comandando o país entre 1931 e 1944, tinha simpatias pelo Eixo, mas, sob pressão americana, se uniu aos Aliados e perseguiu as atividades italianas e alemãs no país.

O mesmo pode ser dito da Venezuela e do Equador, onde os poucos fascistas locais eram, essencialmente, ligados à Falange Espanhola ou, no mínimo, inspirados por ela16. Também na Bolívia, o fascismo teve pouca expressividade. Dois movimentos fascistas, ou fortemente influenciados pelo mesmo, a Falange Socialista Boliviana e o Movimiento Nacionalista Revolucionário, se desenvolveram, mas com pouca força, ainda que tenham, depois, participado do governo militar17.

Na Colômbia, da mesma forma, o fascismo não se desenvolveu com especial força, ainda que políticos conservadores como Laureano Gómez tenham demonstrado admiração por Franco. No entanto, no caso colombiano, surgiu, em1936, além de vários jornais e grupos menores, um movimento fascista - a Acción Nacional Derechista, ou “Os Leopardos” - um pouco mais consistente, liderado por Gilberto Alzate Avendaño y Silvio Villegas. Inspirado em Charles Maurras, tinha simpatias por Mussolini e Hitler, mas sua filiação maior era com a Falange Espanhola18. Chegaram a assustar os órgãos de segurança dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, mas, ao final, foram reabsorvidos pelo partido conservador19.

No Peru, houve alguma ação fascista mais desenvolvida nas pequenas, mas ricas e influentes, coletividades italianas e alemãs20 e alguma simpatia em grupos conservadores, ainda que tal simpatia, provavelmente, não deva ser superestimada21. Além disso, o Peru produziu dois dos mais notáveis ideólogos fascistas da América Latina, ou seja, José Riva Aguerro e Raul Ferrero Ribagliati. O APRA de Víctor Raúl Haya de la Torre as vezes é chamado de fascista, mas ele parece mais um precursor do populismo do que fascista. Esse rótulo provavelmente poderia ser colocado na Unión Revolucionária, mas esta nunca teve grande representatividade22.

O México é um caso interessante. Se classificarmos como fascistas os sinarquistas, provavelmente teríamos que incluir o México na lista de países nos quais o fascismo teve grande expressividade popular. No entanto, apesar dos contatos entre eles e os fascistas europeus e a adoção de toda uma parafernália simbólica fascista, fica claro como o sinarquismo estava mais para um tipo de reação católica do que de fascismo, ainda que com uma influência razoável deste. O seu apelo a ação não-violenta e a sua recusa à conquista do poder, aliás, são muito pouco fascistas23.

O caso dos “camisas douradas” do general Rodriguez parece um pouco mais controverso, com os historiadores inseguros sobre o seu caráter, fascista ou reacionário24. Parece haver sinais, de, no mínimo, mais proximidade do modelo fascista do que entre os sinarquistas, por exemplo.

De qualquer modo, mesmo se os incluirmos na categoria fascista, eles nunca passaram de algumas centenas de pessoas25. Um número razoável se comparado ao caso da América central ou do Equador, mas ainda assim pequeno. Se eles forem classificados como reacionários com traços fascistas, então, os grupos realmente fascistas do México que restam são tão inexpressivos que não nos permitem afirmar que o fascismo teve grande força no México, apesar de alguns ecos nas colônias italianas e alemãs26.

Passando ao cone sul, podemos identificar, tanto no Uruguai como no Paraguai, ecos fascistas alemães e italianos27 e círculos nacionalistas e anti-semitas com claras simpatias pelo fascismo28, os quais editaram publicações de importância, como a revista “Corporaciones”. Também aqui, contudo, a ação fascista local foi muito limitada e extremamente relacionada às ações do fascismo italiano e alemão entre as suas coletividades de imigrantes.

No Chile, a situação foi diversa. O Movimiento Nacional Socialista chileno surgiu já em 1932 e a influência da ideologia nazista e da coletividade alemã29 na sua criação são evidentes até no nome do movimento e no sobrenome do seu líder, Jorge González Von Marés. Mas ele não era cópia do original alemão, o que se infere por seu menor racismo e, inclusive, por seu antisemitismo, mais de base católica do que biológica.

De qualquer forma, este partido conseguiu extrapolar os limites da coletividade alemã e se tornou algo maior, com alguma representatividade social e política30. A situação chilena no entre-guerras, com crise econômica e social, forte polarização política e crítica generalizada ao liberalismo provavelmente ajuda a explicar esta maior força. Os nacistas chilenos, contudo, tiveram relações relações conflitosas com outros grupos de direita, o governo, os militares e a Igreja. O resultado é que não conseguiram alcançar o poder e, após uma tentativa de golpe em 1938, foram formalmente eliminados.

A Argentina, com certeza, é um caso emblemático das confusões entre fascismo e autoritarismo no período e também para os analistas posteriores. Desde 1945, com o peronismo e a fuga de muitos nazistas para a Argentina, tem-se a impressão de que a direita fascista sempre teria sido incrivelmente forte no país.

Isso, contudo, não é necessariamente verdade. Perón era um líder carismático, com algum tipo de partido único, que mobilizava as massas e, em certo momento, com simpatias fascistas. No entanto, faltava a ele o ideal orgânico, os tradicionais valores da direita e a construção de um partido como máquina de mobilização das pessoas para uma ideologia, e não como simples instrumento do líder. Apesar do debate sobre o tema ainda ser intenso31, eu o classificaria mais como um populista do que como fascista.

Outros dados indicam como o fascismo não era tão dominante como parece na Argentina dos anos 20 e 30. A coletividade espanhola, por exemplo, era fortemente marcada pelo antifascismo, ainda que sessões da Falange Espanhola tivessem alguma repercussão e as idéias falangistas influenciassem a direita nacionalista local32. Já a coletividade italiana não era nem de longe imune aos apelos do fascismo italiano, mas enfrentava uma forte oposição antifascista, inexistente em outros países da região33. Mesmo na colônia alemã, o nazismo, apesar de importante, não era consensual ou absoluto34.

Na própria sociedade argentina, a questão era complexa. Nos anos 30, havia círculos extremamente influenciados pelo fascismo (militares, Igreja, oligarquia), mas os movimentos fascistas argentinos foram relativamente pequenos. Havia as Ligas Nacionalistas, mas eram estas mais movimentos reacionários ou conservadores de direita do que fascistas. Elas tinham alguma simpatia por Mussolini e laços com os fascistas italianos e alemães em território argentino, mas Charles Maurras era a principal fonte de inspiração externa. No final dos anos 30, no máximo uma ou outra dessas ligas se aproximaram o suficiente do fascismo para serem consideradas como tal, mas o nacionalismo como um todo provavelmente não o era35.

No entanto, em que pese esta ausência de fascismo organizado na Argentina naqueles anos, a cultura fascista parece ter sido muito mais popular e difundida do que em outros países. O ideal fascista pode não ter se corporificado, por razões locais, em partidos e movimentos fascistas de peso, mas era bastante difundido em outros grupos de direita e na sociedade como um todo. Assim, não classificaria a Argentina, como faz Trindade36 como um país onde os fascismos não tiveram repercussão. Ela foi difusa e indireta, mas de importância, ainda que não o suficiente para justificar a imagem da Argentina como país fascista por excelência.

Se formos pensar em termos de fascismo organizado, o país mais próximo do fascismo na década de 30 seria, provavelmente, o Brasil. As coletividades alemãs e italianas não tinham aderido em peso ao fascismo de seus países de origem, mas um sentimento genérico de apoio estava presente37. O governo do presidente Vargas entre 1937 e 1945, o “Estado Novo”, com certeza não era fascista (sendo mais uma ditadura conservadora com tons modernizantes), mas vários de seus membros simpatizavam com Hitler e, ainda mais, com Mussolini e Salazar. Não obstante, o principal fator que sustenta esta afirmação é a existência da Ação Integralista Brasileira (AIB), o maior partido fascista surgido fora da Europa.

Há uma discussão imensa na historiografia brasileira sobre o caráter do movimento e se a classificação “fascista” seria adequada para ele38. A visão predominante, contudo, que compartilho, é a de que a AIB era seguramente, por suas características, bases sociais, vinculações ideológicas e internacionais, etc., um movimento fascista39.

Importante ressaltar que, apesar dos vínculos dos integralistas com o fascismo internacional (muito menos com o nazismo, e mais com o fascismo italiano e os movimentos fascistas e de direita de Portugal) e influência ideológica do fascismo de Mussolini e também dos movimentos fascistas portugueses, ele não foi de forma alguma algo mimético, importado e sem significado na realidade nacional. Pelo contrário, ele atraiu filhos de imigrantes, negros, parte das classes médias urbanas, intelectuais e também alguns operários. O número exato dos seus militantes é desconhecido, mas se aproximava das centenas de milhares de adeptos.

O movimento, além disso, esteve perto de atingir o poder no Brasil, tendo participado do golpe de Getúlio Vargas que criou o “Estado Novo” em 1937. Sua força foi insuficiente, porém, para assumir o poder num país onde a direita conservadora (especialmente a Igreja, os militares e as elites políticas e econômicas) manteve o controle do governo. Ao final, o movimento foi expelido do bloco governista e, após tentar um golpe de Estado em 1938, foi formalmente eliminado por Vargas, tendo seu líder, Plínio Salgado, se refugiado em Portugal. Seus remanescentes se reagruparam no pós-1945, mas sem conseguir uma relevância maior.



O fascismo latino-americano: traços gerais e questões comuns.

O estudo comparativo que fizemos no item anterior nos permite, sem dificuldades, verificar alguns padrões comuns para os fascismos do continente. Em primeiro lugar, verifica-se a quase que total inexistência de cópias simples dos fascismos europeus. Os verdadeiros fascistas italianos, falangistas ou nazistas no continente só podem ser encontrados nas sessões externas do PNF, da Falange ou do NSDAP instaladas no mesmo. Todos os que se originaram de bases locais, mesmo os fortemente influenciados pelo referencial externo e que, conceitualmente, são fascistas, tinham ao menos alguma especificidade local, até para fazerem sentido.

No entanto, é correta a reflexão de autores como Trindade e Larsen40 de que alguns fascismos seriam miméticos no sentido de não terem significado para as realidades locais e, por isto mesmo, não poderiam ter avançado além de um patamar mínimo em termos de força popular e política. Já outros, atuando num contexto mais favorável e representando valores e perspectivas com repercussão, teriam tido mais sucesso e chegado, inclusive, próximos ao poder. No primeiro caso, incluiríamos a América central, a Venezuela, o arco andino em geral, Uruguai e Paraguai. No segundo, estaria o caso brasileiro e, num estágio intermediário, Chile, México e, especialmente, Argentina.

Se pensarmos nas razões que poderiam, potencialmente, explicar esta divisão, talvez seja de interesse pensar no problema da modernidade e na crise geral que, no caso de alguns países europeus, colaborou para levar o fascismo ao poder.

Sem querer mergulhar nesta verdadeira floresta de papel impresso que trabalha a relação do fascismo com a modernidade, fica evidente, a meu ver, como estas teorias trazem uma visão determinista da História, como se todas as sociedades obrigatoriamente tivessem que chegar a um futuro pré-determinado (ou seja, o mundo moderno) e como se todas as manifestações políticas só pudessem surgir num dado estágio dessa evolução, e não em outros, o que é, empiricamente, pouco defensável.

Com efeito, se o fascismo é a expressão de um estágio do desenvolvimento capitalista, como explicar que sociedades em graus próximos de desenvolvimento (como Brasil e Argentina ou Alemanha e Inglaterra) tenham tido histórias muito diferentes no que se refere a movimentos fascistas? Ou que ele possa ter aparecido com força em países avançados em termos industriais, como a Alemanha, em outros semi-industrializados, como a Itália, ou em pouco modernos, como o próprio Brasil? A teoria da modernização, se levada ao pé da letra, não nos leva muito longe41.

Ainda assim, a relação estágio de desenvolvimento/modernidade/liberalismo talvez não possa ser completamente relegada a um segundo plano. Autores como Luyebbert, de Meur, Kocka e outros42 têm refletido sobre o tema e o trabalho recente de Stein Larsen, citado, traz uma colaboração de interesse nesse aspecto, especialmente se trazida, numa extrapolação minha, para o caso latino-americano.

Na visão de Larsen, graus de modernização e de liberalismo são a chave para criar um sistema teórico capaz de esclarecer como e porquê o fascismo é bem sucedido em algumas regiões e em outras não. Para ele, o surgimento e desenvolvimento de movimentos fascistas de massa demandariam um mínimo de desenvolvimento capitalista (classes médias urbanas, meios de comunicação de massa, sistema político minimamente funcional), sendo impossível que eles surgissem, salvo poucas exceções, em ambientes politicamente fechados, rurais ou arcaicos.

Para Larsen, sociedades atrasadas e pouco liberais, como a Bolívia ou a Guatemala, não ofereceriam perspectivas para o fascismo. Outras, já bastante liberalizadas politicamente, mas pouco modernas, como o Peru ou a Colômbia, ofereceriam perspectivas para o surgimento do fascismo, mas com limites. Já as altamente modernizadas e liberalizadas seriam quase imunes, enquanto as pouco liberalizadas e bastante modernizadas teriam amplas perspectivas para o desenvolvimento do fascismo. Nesse último caso, estaria, por exemplo, o Brasil.

Tenho dúvidas se tal modelo serve para todos os casos reais que podemos encontrar no continente e que apresentamos acima. Além disso, é óbvio que fatores outros, como heranças culturais, conjunturas políticas específicas, etc. também devem ser elencados para explicar o surgimento ou não do fascismo. A ausência de veteranos da Primeira Guerra Mundial (com a exceção do caso boliviano e seus veteranos da Guerra do Chaco) ou o fato da crise de 1929 atingir com menos força os países da América Latina também são fatores de importância para explicar a fraqueza fascista. Certos aspectos ideológicos do fascismo, como o racismo e o anti-semitismo (no caso alemão) também dificultavam a sua propagação num continente mestiço e com poucos judeus, o que explica, aliás, porque a matriz nazista tenha sido muito menos popular do que a fascista italiana ou as da Península Ibérica.

Mesmo assim, o fato de os países mais modernos da América Latina naqueles anos (Brasil, Argentina, Colômbia, Chile, México, etc.) terem sido justamente os locais onde os partidos ou a cultura fascista (no caso argentino) mais se desenvolveram talvez mereça ser levado em consideração. A exceção brasileira, onde o fascismo criou raízes institucionais, também poderia ser explicado por este viés estrutural, como uma resposta particular a uma crise ideológica de uma sociedade em transição para a modernidade43. Assim, mesmo que não seja um modelo perfeito, ele é válido ao indicar como certos problemas da transição do mundo moderno podem sim ser de importância para explicar o surgimento, ou não, de partidos fascistas de massa no continente.

Quando se trata de explicar a incapacidade desses movimentos, mesmo os mais fortes, em atingir o poder, os fatores a serem elencados, provavelmente, seriam o impacto da crise mundial e o gerenciamento desta pelas elites. Tais fatores podem explicar porque, em alguns países, o fascismo não teve forças para se desenvolver além de certo ponto e, especialmente, porque não conseguiram chegar ao poder em nenhuma nação da região.

Efetivamente, é válido recordar como a década de 30 não foi, na América Latina, a era dos fascismos, mas a das ditaduras ou dos “Estados fortes” e foram estes que, no limite, bloquearam a ascensão do fascismo ao poder, inclusive com a força das armas, como aconteceu no Brasil e no Chile em 1938.

As variações de forma, claro, foram imensas. Na América central ou Caribe (assim como na Bolívia ou na Venezuela), uma simples ditadura militar funcionou perfeitamente quando de uma crise geral como a dos anos 30. No Brasil, as elites preferiram uma ditadura conservadora com traços modernizantes, enquanto ditaduras mais ou menos disfarçadas, como os regimes de Terra no Uruguai, Justo na Argentina, Benavides no Peru se espalharam por todo o continente. Em alguns países, como a Colômbia ou a Costa Rica, a democracia se manteve, mas sob crescente influência militar, mantendo o equilíbrio político e a estabilidade institucional. Já o México vivia uma situação pós-revolucionária, com domínio da esquerda.

Em todos estes países, o fato comum é que as elites mantiveram o controle do poder e não viram necessidade de ceder espaço à direita radical ou a grupos alternativos, os quais, portanto, não conseguiram assumir o Estado nem mesmo onde conseguiram uma maior base popular e representatividade política. A opção fascista ficou na “reserva” e não precisou ser utilizada em nenhum país.

O fascismo poderia ter sido, assim, uma opção para ao menos alguns dos países da região, mas a própria modernidade incompleta destes países e o poder de suas elites pode, talvez, o ter impedido. Resta agora verificar se esta é uma especificidade do continente ou algo que se repetiu em outras regiões do mundo.



O fascismo das Américas latina e anglo-saxã. Diferenças e proximidades.

No universo anglo-saxão44, os fascismos, em geral, conseguiram atrair alguns grupos de imigrantes (como parte das coletividades italiana e alemã na América do norte) ou setores sociais que se sentiam a parte da sociedade dominada pelos anglos, como os francos no Canadá e os bôeres na África do sul. A ideologia fascista e, especialmente, a nazista, também foi popular entre grupos de extrema direita ou racistas dos EUA, da Austrália ou da Inglaterra.

Também houve alguma simpatia pelo fascismo italiano entre as elites anglas (especialmente antes da invasão da Etiópia em 1935) e os apelos do nazismo, dada a proximidade racial e cultural maior entre o mundo germânico e o anglo-saxão, tiveram um pouco mais de resposta em alguns setores, enquanto a importância do referencial espanhol ou português, por exemplo, foi menor.

Em geral, contudo, os grupos fascistas locais foram pequenos e com pouca capacidade de projeção política e social. Repetiu-se, pois, o escasso desenvolvimento institucional do fascismo, como ocorrido na América Latina, mas as explicações para esta resultante semelhante não são exatamente iguais.

Em primeiro lugar, estes países viveram a experiência da Primeira Guerra Mundial e da crise de 1929 com muito mais intensidade do que os da América Latina e eram sociedades plenamente modernas, de massa, o que teria permitido, em teoria, o crescimento da onda fascista. Vários elementos circunstanciais inexistentes na América Latina, contudo, atrapalharam tal crescimento. A relativamente pouca força da Igreja Católica é um deles. O fato dos regimes fascistas terem se instalado primeiro na Itália e Alemanha também atrapalhou os fascismos locais, pois eles passaram a ser identificados com o inimigo da guerra anterior (no caso alemão) e, possivelmente, da próxima, o que diminuía o seu apelo popular.

De maior importância foi o fato de estes países terem tradições liberais bastante consolidadas. Defender uma ditadura e, ainda mais, uma ditadura fascista, no Canadá e na Inglaterra era muito mais difícil do que na Alemanha ou na Polônia. Neste ponto, talvez as reflexões de Larsen que associam liberalismo consolidado com dificuldades para a ascensão do fascismo tenham algum sentido.

Nessa linha de considerações, talvez o mais importante de tudo tenha sido a solidez das instituições e a estabilidade do sistema político, que não abriram espaço para os movimentos fascistas se desenvolverem, como ocorreu na Itália ou na Alemanha. As elites desses países (seja conservadoras, liberais ou progressistas, como Franklin Roosevelt nos EUA) não se sentiram nem desejosas nem pressionadas a ceder o poder aos fascistas e o sistema político foi capaz de absorver os golpes da crise de 1929 sem apelar para soluções extremas.

Ao contrário da América Latina, assim, o fascismo nestes países foi bloqueado pela própria democracia. A aproximação que pode ser feita é que a estabilidade do sistema político (ou a sua reconfiguração nesta direção, numa ditadura conservadora ou numa reciclagem da democracia) e a confiança das elites em superar a crise sem ceder o poder a grupos radicais foi fundamental para conter quaisquer riscos de ascensão do fascismo nos dois locais.



Europa do Leste e América Latina: fascismos periféricos ou atrasados?

Pensando em áreas geográficas onde, potencialmente, haveria uma soma de fatores que podiam levar ao surgimento e crescimento de movimentos fascistas e sua chegada ao poder, o Leste europeu seria um candidato ideal. Os Estados eram recentes e pouco consolidados, com modernidade parcial e tradições liberais quase inexistentes. Havia grandes tensões étnicas e nacionais, o anti-semitismo era bastante difundido e havia temor pela ascensão do comunismo, instalado na vizinhança. Havia espaço e não espanta que movimentos fascistas tenham surgido e tido alguma relevância.

Claro que há especificidades, como a base camponesa ou a forte presença de aristocratas no fascismo romeno. Mas, em geral, o fascismo da região parece ter uma história próxima do da América Latina. Isso tanto pela sua base cristã (como na Eslováquia de Tiso ou na Guarda de Ferro romena, ligada ao catolicismo ortodoxo), como pelo seu apelo popular limitado, típico de países pouco modernos. E, mais especialmente, pelo fato das ditaduras conservadoras terem sido o modelo político dominante na região naquelas décadas. O fato de terem sido estas as que eliminaram, literalmente, os fascismos locais também indica similitudes com a América Latina.

Com efeito, várias dessas ditaduras, como as da Bulgária, da Eslováquia ou da Grécia, podiam ser simpáticas ao fascismo, mas isso não implicava se tornarem fascistas ou abrirem espaço aos fascismos locais. Algumas, aliás, podiam ser mais simpáticas ao fascismo do que ao nazismo, já que eram alvo privilegiado do imperialismo deste último. A ditadura de Pilsudsky, na Polônia, por exemplo, podia apreciar o anticomunismo e anti-semitismo de Hitler, mas dificilmente poderia ser nazista.

Em dois casos, os conservadores não apenas controlaram os fascistas, como entraram em choque, literalmente, com eles. Na Romênia, a Guarda de Ferro foi eliminada pelo Exército do marechal Antonescu, com apoio de Hitler, em 1941. Na Hungria, por sua vez, o governo conservador do almirante Horthy foi derrubado do poder pelo movimento fascista local, de Szálasi, em 1944, mas apenas graças ao apoio de Berlim, irritada pela tentativa do almirante de mudar de lado. O caso austríaco, com o regime ultra-conservador (ainda que com influências do fascismo italiano) de Dollfuss e Schuschnigg tendo sido um baluarte contra o nazismo até o Anschluss com a Alemanha, também merece ser citado neste contexto.

Ou seja, haveria uma possível generalização aqui, ou seja, que conservadores e fascistas tendem a se unir quando de um perigo maior (como na Espanha), mas que, em geral, tendem a colidir pelo poder. Também é possível generalizar que, em geral, as elites tradicionais preferiram, quando possível, a opção conservadora e que apenas em casos extremos e com apoio externo (como na Hungria), os fascistas conseguiram o poder por si só. A opção entre ditadura conservadora ou reacionária e o fascismo é pouco animadora, mas parece ter sido a tônica no período, ao menos na Europa oriental e na América Latina.



O continente latino-americano e a Europa mediterrânea: um fascismo latino?

Um termo que aparece regularmente nos estudos do fascismo é “fascismo latino”, um conceito que unificaria os movimentos e regimes fascistas dos países do sul da Europa e da América Latina num único bloco. Catolicismo, o mito de Roma e outros elementos comuns seriam a base deste conjunto.

Um dos problemas desta teoria é identificar, claramente, antes de mais nada, quem é latino. Na Suíça de língua francesa e italiana, na Bélgica francófona e no Québec, houve fascismos fortes, mas o regime liberal se manteve. Seriam estes países e regiões latinos ou semi-latinos, já que associados a outras realidades maiores? Depois, mesmo que esqueçamos estes casos limites e pensemos apenas nas nações claramente latinas, há diferenças imensas entre elas. Não apenas em termos de desenvolvimento econômico e social, como na solidez e estabilidade das instituições, além de relações diferentes com a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929.

A Itália, por exemplo, foi o único país latino que se tornou fascista, enquanto a grande maioria deles, como visto, oscilou para regimes “fortes” de algum tipo. Já a França, como demonstra uma imensa bibliografia, tem particularidades imensas, como a presença de movimentos fascistas extremamente desenvolvidos e, ao mesmo tempo, de uma forte resistência anti-fascista de esquerda quase inexistente em outros países latinos. Além disso, o fascismo alemão e italiano eram claramente inimigos da França e os ideais da Revolução Francesa estavam embebidos na sociedade francesa de uma forma muito mais intensa do que no resto do mundo latino. Em resumo, parecem haver diferenças demais para que possamos criar um padrão latino de fascismo.

Contudo, talvez não seja absurdo pensar em outra classificação, a qual poderia excluir França, Itália e outros casos pouco claros e incluir Espanha e Portugal juntamente com os países da América Latina. Nos dois países, o fascismo foi relativamente fraco e o pouco que eles conseguiram em termos de popularidade parece ter a ver, de forma análoga aos principais países latinos da América, com a emergência da modernidade nestes países. Além disso, foram ditaduras conservadoras e reacionárias, de Franco e Salazar, que acabaram por eliminar os movimentos realmente fascistas, de Primo de Rivera e Rolão Preto. Houve até mesmo uma tentativa de golpe dos nacional-sindicalistas em Portugal em 193945.

Assim, talvez o termo “fascismo ibérico” seja razoável para agrupar as histórias dos movimentos fascistas na Península Ibérica e nas suas antigas colônias na América. Ele é suficientemente amplo para abarcar várias experiências particulares, mas que tem traços claramente similares em termos de ideologia, relação com as forças conservadoras e mesmo destino. Ao mesmo tempo, é suficientemente restrito para excluir casos duvidosos e outros muito particulares, como o francês e o italiano. Uma hipótese, uma proposta de trabalho, que talvez valha a pena desenvolver.



Conclusões. Uma tentativa de síntese teórica.

A questão da modernidade é de importância para explicar o surgimento e o desenvolvimento dos fascismos? Parece-me que sim. Modelos que identificam problemas relacionados à modernidade como caldo para o fascismo, no período entre-guerras, não são absurdos. Mas não são modelos perfeitos ou matemáticos, como se estes problemas devessem, obrigatoriamente, levar ao fascismo. Tanto que, na verdade, só Itália e Alemanha se converteram em países fascistas e, mesmo hoje, em países totalmente modernizados, ecos do fascismo ainda estão presentes. De qualquer forma, os problemas da transição para o mundo moderno podem ser pensados como estruturalmente importantes para entender o fenômeno fascista.

Em sociedades por demais atrasadas e arcaicas, não havia uma sociedade organizada e uma cultura de massas para permitir a ascensão de um movimento fascista. Nas muito liberais e modernizadas, ele poderia surgir, como surgiu, mas sua voz foi ouvida marginalmente pela própria força do sistema liberal, que foi capaz de lidar com a crise mundial sem entrar em colapso. Já nas intermediárias, as chances de crescimento para um movimento fascista eram maiores.

No entanto, essa questão é apenas uma entre várias a serem consideradas. Se o Estado e as elites no poder perdiam o controle da situação, mesmo que temporariamente, os fascistas podiam crescer, como no Brasil dos anos 30. Já onde as elites mantinham sua influência dominante e se sentiam seguras, tais partidos não progrediam. Se o Estado era uma democracia, uma ditadura conservadora ou outra coisa, não importa tanto. O importante era não darem espaço ao fascismo e permanecerem estáveis.

Essas são questões de importância para entender o fascismo, seus sucessos e fracassos, em todo o mundo. Seja no mundo anglo-saxão, na Europa latina ou oriental ou na América Latina, havia determinações estruturais que facilitavam (ou não) a formação de um fascismo local e sua decolagem como movimento de massas. Do mesmo modo, outras questões estruturais, como a estabilidade do sistema político e social e sua capacidade de lidar com a crise mundial, também permitiam (ou não) a chegada do fascismo ao poder, seja num bloco histórico com outras forças, seja isoladamente.

O caso latino-americano, neste sentido, não é tão singular como parece. Ecos do fascismo europeu foram sentidos em todo o continente e tentativas de formação de algum tipo de movimento fascista foram vivenciadas em praticamente todos os países. Em alguns, normalmente os mais modernos e onde havia condições sociais e políticas mínimas, eles conseguiram sair do estágio embrionário e se tornarem movimentos de massa. Mesmo nestes locais, contudo, sua caminhada para o poder foi bloqueada pelas forças tradicionais e pelas elites. Apenas no Brasil, por condições particulares, ele atingiu pleno desenvolvimento e quase atingiu o poder. Em linhas gerais, contudo, a experiência fascista latino-americana não é tão diferente assim da de outros países europeus e americanos.

Havia, contudo, algumas especificidades de importância. Grandes coletividades de imigrantes alemães, italianos, portugueses e espanhóis estavam presentes no continente e ligadas aos partidos fascistas dos seus países de origem. Apesar de isto não significar que todas estavam dominadas pela ideologia fascista, elas permitiam uma difusão especial da experiência fascista européia no continente. Os vínculos culturais e lingüísticos, especialmente com a Península Ibérica, a França e a Itália, também facilitavam essa difusão, o que tornava a mensagem fascista mais permeável no continente do que, digamos, no Oriente Médio ou na China.

A forte presença do catolicismo, a ausência de veteranos da Primeira Guerra Mundial e os efeitos diferenciados da crise de 1929 também são fatores a serem considerados, ainda que não sejam exclusivos da região. O fato dos imperialismos italiano e alemão não serem considerados ameaçadores no continente (e, pelo contrário, serem vistos, ao menos em alguns países, como concorrentes ao norte-americano) também é específico da região e pode ter atraído algumas simpatias ao fascismo.

Enfim, a experiência analítica de comparar vários casos nacionais e regionais na América, na Europa e na Oceania indica que modelos como modernização e teoria das elites são úteis se queremos entender o que é o fascismo e quais as condições estruturais que permitiram o seu surgimento nas décadas de 20 e 30. No entanto, fica claro também como tais modelos são limitados e que a perspectiva histórica é fundamental. Cabe ao historiador acrescentar o particular, o conjuntural aos modelos, de forma a explicar, como disse Hobsbawm46, como e porquê o entre-guerras não tenha sido a “era do fascismo”, mas a do descrédito do liberalismo, das ditaduras e dos “homens fortes”. Uma conclusão válida para todo o mundo ocidental, mas,especialmente, para a América Latina.



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