O que o Brasil exporta importa – uma análise sobre complexidade econômica e comércio exterior entre 1998 e 2014


Gráfico 5: Evolução da pauta de importações de bens manufaturados segundo intensidade tecnológica – Brasil, 1998-2013 (US$ Milhões)



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Gráfico 5: Evolução da pauta de importações de bens manufaturados segundo intensidade tecnológica – Brasil, 1998-2013 (US$ Milhões)

Fonte: Elaboração própria a partir da FUNCEX e OCDE (2011).

Esses resultados demonstram que o país está reprimarizando sua pauta exportadora e está vazando demanda por produtos manufaturados4, com destaque para os produtos de maior intensidade tecnológica. Para Kupfer (2016), a contribuição da indústria de transformação de bens de maior valor agregado foi minimizada pelo “vazamento”5 para fora devido à perda de competitividade decorrente por longo período de apreciação cambial coadunada com estagnação da produtividade e de forte ampliação dos custos sistêmicos de produção. Segundo Batista Jr (2000, p. 63): “Não é ao modelo primário-exportador que estamos regredindo, mas a um modelo primário-importador”.

Marcato e Ultremere (2016, p. 1) realizam uma análise via matriz-insumo-produto para avaliar o vazamento para o exterior da demanda doméstica e concluem que: “há uma tendência geral de aumento da participação das importações, tanto de insumos quanto de bens finais” e profunda deterioração na capacidade produtiva doméstica de acomodar acréscimos da demanda. Já Morceiro (2016) foca sua análise no vazamento da demanda nacional na manufatura analisando o coeficiente de penetrações das importações (CPI) entre 2003 e 2013, que se elevou de 13,5% para 26,8% nesse período. O autor demonstra que este índice (CPI) foi superior nos bens de alta e média alta intensidade tecnológica.

McMillan e Rodrik (2012, p.12) afirmam que:

The larger the share of natural resources in exports, the smaller the scope of productivity-enhancing structural change. The key here is that minerals and natural resources do not generate much employment, unlike manufacturing industries and related services. Even though these “enclave” sectors typically operate at very high productivity, they cannot absorb the surplus labor from agriculture.

Nesse sentido, é crucial sofisticar a produção industrial – ampliar a produção nos setores de maior produtividade. Segundo Gala et al (2017), “Therefore, the more sophisticated or complex an economy’s productive structure (bicycles, cars, trains, helicopters, chemicals), the greater its potential for the division of labor, and the greater the potential for productivity gains”.

Lélis, Silveira e Cunha (2016, p.15) chegam a resultados similares e asseveram: “que a ‘reprimarização’ da pauta de exportações brasileira aprofundou o problema da restrição externa. Logo, é oportuno o debate sobre a possível influência da composição da pauta exportadora brasileira na taxa de crescimento econômico”.

Para Hausmann e Hidalgo et al (2014, p.29) a análise de complexidade econômica possui capacidade preditiva do crescimento econômico: “economic complexity matters because it helps explain differences in the level of income of countries, and more important, because it predicts future economic growth”. De acordo com os autores, os países que possuem uma complexidade econômica superior aos demais países de renda semelhante tendem a crescer mais rápido do que os países avançados. Segundo Hausmann e Hidalgo (2014, p.27), “economic complexity is not just a symptom or an expression of prosperity: it is a driver”. Ou seja, a complexidade da pauta de exportação é significativa para explicar o processo de convergência ou divergência do PIB per capita entre as nações.

Rocha, Magacho e Gala (2016) realizam um estudo econométrico a partir dos dados do Atlas de Complexidade Econômica6 e defendem a capacidade preditiva do modelo de complexidade econômica de apontar as trajetórias de crescimento econômico entre os países. Os resultados obtidos pelos autores evidenciam que o Brasil está ficando para trás (falling behing), divergindo o seu PIB per capita das nações centrais.



Os dados do Atlas de Complexidade Econômica7 revelam uma gradual perda de complexidade econômica do Brasil: no início da série analisada (final dos anos 1990) até 2003, o país se situava entre os 40 países de maior complexidade – chegando, inclusive, no ano de 1999, a ficar na vigésima nona posição, apenas uma atrás do Canadá. Em meados da década de 2000 permaneceu entre os 50 mais complexos e, após a crise de 2008 se situa apenas entre os 60 países de maior complexidade econômica (gráfico 6). A evolução do Índice de complexidade Econômica reforça a retração da complexidade econômica brasileira, como podemos observar no gráfico 6 e na tabela 3.
Gráfico 6: Complexidade econômica – Brasil (1998-2014)

Fonte: Elaboração própria a partir de http://atlas.cid.harvard.edu/



A tabela 3 evidência o ranque e o ECI dos cinco países com maior ECI, além do Brasil. É patente pelos dados demonstrados que a posição brasileira está se deteriorando. Se em 1998 o Brasil era a trigésima quinta nação mais complexa, em 2014, sua posição era de apenas quinquagésima quarta. O seu índice de complexidade foi de 0,5544 para negativos 0,0024. O que evidência que o crescimento econômico brasileiro não tende a convergir com as nações mais complexas.



Tabela 3: Comparação entre o ranque de complexidade econômica em 1998 e 2014Ranque (1998)

País

ECI (1998)




Ranque (2014)

País

ECI (2014)

1

Japão

2,84144




1

Japão

2,20902

2

Alemanha

2,55418




2

Alemanha

1,9221

3

Suíça

2,40454




3

Suíça

1,87386

4

Suécia

2,18621




4

Coreia

1,82379

5

Reino Unido

2,13246




5

Suécia

1,71073

35

Brasil

0,5544




54

Brasil

-0,0024

Fonte: Elaboração própria a partir de http://atlas.cid.harvard.edu/.
Conclusão

A partir da análise que a estrutura produtiva importa no desenvolvimento econômico e que a pauta de exportação é uma boa proxy para avaliar Mudanças Estruturais como demonstram (Hausmann, Hwang e Hwang e Rodrik, 2007) e as análises de complexidade econômica, o presente estudo demonstra que está ocorrendo uma especialização regressiva da pauta de exportações brasileiras, o que evidencia uma Mudança Estrutural regressiva (falling behing) da economia brasileira e diminuindo as possibilidades do país alcançar um maior dinamismo econômico e convergir para o PIB per capta das nações mais avançadas.

A reprimarização da pauta de exportação é evidenciada no gráfico 1, que demonstra que a participação dos produtos manufaturados, que correspondiam a 76,9% da pauta de exportação em 1998 regrediu substancialmente a partir de 2008 e em 2014 representa 55,6%.

Mas, além desta reprimarização da pauta revelada anteriormente, se observou, também, que entre os bens da indústria de transformação houve uma especialização regressiva da pauta de exportações, de modo que os bens de menor intensidade tecnológica ampliaram 9 pontos percentuais a sua participação no total exportado pela manufatura. Se em 1998 representavam 29%, passaram para 38% em 2014.

Como resultado, o Índice de Complexidade Econômica (ECI) do Brasil caiu de 0,55 para valores negativos, o que levou o país da 35a posição no ranking mundial de complexidade econômica para a 56a posição, levantando grande preocupações sobre a sustentabilidade do modelo de crescimento brasileiro.

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1 Para suavizar as variações nas exportações, em virtude de alterações nos preços, Hausmann; Hidalgo et al., 2011 utilizam a média dos três aos anteriores para o cálculo do VCR.

2 http://unctad.org/en/Pages/statistics.aspx.

3 De acordo com a classificação da OCDE (2011).

4



5



6 http://atlas.cid.harvard.edu/

7 Disponíveis em: http://atlas.cid.harvard.edu/.


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