Letras de Hoje. Porto Alegre, V. 41, n. 3, p. 93-100, setembro, 2006



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Teoria literária abordagens históricas e tendências contemporâneas (Thomas Bonnici, Lúcia Osana Zolin) (z-lib.org), Revista Elaborar A SOCIOLOGIA FILOSÓFICA DE GEORG SIMMEL E O PROBLEMA DO TEMPO HISTÓRICO - PDF Download grátis


Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 41, n. 3, p. 93-100, setembro, 2006
LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE LETRAS DE HOJE
š
A invenção da memória na
literatura angolana do Século XXI
Cris Gutkoski*
CECLIP/PUCRS
Seguindo os passos de uma proclamada errância internacional,
nas biografias de autores e de seres ficcionais, a literatura brasileira
do século XXI se apresenta em títulos como MongóliaBudapeste e
Berkeley in Bellagio, respectivamente romances de Bernardo Carva-
lho, Chico Buarque e João Gilberto Noll. Quase na mesma época, a
literatura angolana toma igualmente o rumo do espaço estrangeiro
e, na obra de José Eduardo Agualusa, traz títulos como Um estranho
em Goa O ano em que Zumbi tomou o Rio. Em 2004, com O vendedor
de passados, Agualusa retoma a localidade de sua terra natal para
dessacralizá-la.
Uma análise do romance vê deslocado o seu início para dois
paratextos anteriores à narrativa: o título do livro e a epígrafe.
O título é um achado, uma preciosidade a condensar a idéia de
compra e venda da memória. A epígrafe de Jorge Luis Borges
complementa o título por meio do desejo de adquirir, num futuro
hipotético a ser fabricado, uma história de vida alheia: “Se tivesse
de nascer outra vez escolheria algo totalmente diferente. Gostaria
de ser norueguês. Talvez persa. Uruguaio não, porque seria como
mudar de bairro”. A escrita de Borges antecipa assim o núcleo do
romance: a fabricação da memória e com ela a possibilidade ou
necessidade de reordenar as escolhas do presente, do futuro e
também do passado, ampliada para diversas nacionalidades e
temporalidades.
Pelas leis do mercado, se existe a figura de um comerciante de
passados, há quem precise comprá-los. A ação do romance de
Agualusa se concentra em Luanda, capital de Angola, país que
emerge como nação independente apenas em 1975, depois da Re-
* Mestre em Letras. Jornalista da Folha de São Paulo. Pesquisadora do Centro de
Estudos de Culturas de Língua Portuguesa da PUCRS.


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Letras de Hoje
Gutkoski, C.
š
volução dos Cravos, em Lisboa, e de séculos de colonização portu-
guesa.
1
Na delimitação das identidades de quem vende e de quem
compra histórias de vida completas, com árvores genealógicas ango-
lanas, se instalam as primeiras ambigüidades dessa narrativa
ficcional. O primeiro cliente, por exemplo, se apresenta como es-
trangeiro. Para manter o suspense da trama, a sua origem fica inter-
ditada até o final. “Tive muitos nomes, mas quero esquecê-los a
todos”, ele declara. O narrador descreve o comprador de uma iden-
tidade falsa como um homem que “falava docemente, com uma
soma de pronúncias diversas, uma sutil aspereza eslava, tempera-
da pelo suave mel do português do Brasil”. Os sotaques denunciam
trânsitos pelos hemisférios norte e sul, com a primeira de várias
referências a uma outra ex-colônia de Portugal. Também do vende-
dor não se sabe a nacionalidade: bebê abandonado, foi adotado por
um alfarrabista ligado ao círculo dos funcionários coloniais, neto
de um exportador de escravos para o Brasil. A orfandade do vende-
dor de passados surge duplicada na caixa que lhe servira de berço,
forrada de exemplares do romance A relíquia, de Eça de Queirós,
história de um órfão, Teodorico, que inventa cotidianamente para a
tia uma vida beata que ele não leva.
Nos ensaios de O local da cultura, no capítulo “Disseminação: o
tempo, a narrativa e as margens da nação moderna”, Homi Bhabha
procura escrever sobre a nação ocidental como forma obscura e ubí-
qua de viver a localidade da cultura:
Essa localidade está mais em torno da temporalidade do que sobre a
historicidade: uma forma de vida que é mais complexa que ‘co-
munidade’, mais simbólica que ‘sociedade’, mais conotativa que
‘país’, menos patriótica que patrie, mais retórica do que a razão de
Estado, mais mitológica que a ideologia, [...] mais híbrida na arti-
culação de diferenças e identificações culturais do que pode ser
representado em qualquer estruturação hierárquica ou binária do
antagonismo social (BHABHA, 2003, p. 199).
No romance em questão, a nacionalidade angolana é proble-
matizada desde um título que dessacraliza os eventos da história,
colocando-os num balcão como produtos ofertados. A localidade
africana surge na fixidez de um órfão que mora em Luanda, um
“homem que traficava memórias, que vendia o passado, secreta-
mente, como outros contrabandeiam cocaína”, fixidez nativa con-
traposta à mobilidade de personagens viajantes. Dois fotógrafos são
os principais interlocutores do vendedor de memórias, e suas vozes
introduzem no texto imagens meteóricas da luz e das sombras em
1
Os navegadores portugueses aportaram em Angola em 1482, comandados por Diogo
Cão. Três anos depois, padres missionários já estavam instalados na terra africana.
(MENEZES, Solival. Mamma Angola. São Paulo: Edusp: Fapesp, 2000).


A invenção da memória: literatura angolana ...
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várias localidades do mundo: Lisboa, Rio, Goa, Malásia, Pantanal,
Pará e Maranhão, visitados pela fotógrafa jovem, que afirma ter vis-
to o rosto de Deus durante uma tempestade no Recôncavo Baiano, e
Afeganistão, México, Irã, Palestina e Israel, locais de trabalho do
fotógrafo que foi correspondente de guerra e residente em Berlim.
2
Nesse romance de Agualusa, a capital de Angola surge no tem-
po presente, o do século XXI, como uma localidade a receber e a
viver, ainda que à distância, a universalidade da cultura. As dife-
renças se cruzam na casa do anfitrião, cheia de livros e música,
espaço associado a um barco cheio de vozes. O hibridismo a que
referem os estudos culturais ganha forte representação na figura do
narrador da história, uma lagartixa, no tempo presente, o da
enunciação, que se recorda de ter tido forma humana no passado.
Com o dono da casa, um homem branco albino, a osga guarda a
semelhança de possuir uma pele de péssima qualidade, invólucro
que repele a luz do sol. Numa narrativa que ficcionaliza a história
recheada de conflitos de uma nação emergente do Terceiro Mundo,
há diversas interpretações possíveis para a posição de que um
narrador-lagartixa enxerga o mundo. Boa parte do tempo a visão
do réptil se faz de ponta-cabeça ou de costas. Mas importa antes
traçar dois perfis de personagens que procuram um passado “novo
em folha” por dois motivos: esquecer do passado real e garantir o
futuro individual.

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