Israel belo de azevedo



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é, mas na media em 
que é para nós. [106] 
   
"Ao buscar o objeto ou questão da filosofia, descobrimos que o que lhe dá impulso é 
o elemento teológico expresso na preocupação suprema do ser humano. Ao buscar o objeto 
ou questão da teologia, descobrimos que nela explicita-se o elemento filosófico expresso na 
questão do significado e da estrutura do ser e suas manifestações nos diferentes domínios do 
ser. Assim, a filosofia e a teologia são, ao mesmo tempo, convergentes e divergentes. 
Convergem na medida em que são existenciais e teóricas ao mesmo tempo. (...) Divergem 
quando a filosofia se mostra basicamente teórica e a teologia, existencial". [107] 
   
  
   
Embora expresso nos meados do século 20, o método da correlação ajuda a entender 
o percurso da meditação de alguns dos mas importantes filósofos e teólogos modernos, como 
Leibniz, Kant, Hegel, Kierkegaard e Schleiermacher. Esses pensadores protestantes não 
fizeram teologia protestante, mas filosofaram dentro de um quadro protestante. São filhos 
desta percepção dos limites entre filosofia e teologia. 
   
Eles são produtos e produtores daquilo que Tillich chama de era protestante, outro 
conceito-chave, para se entender o desenvolvimento da Reforma na Europa. Usado para 
explicar a fusão entre protestantismo e humanismo nos últimos quatro séculos, o termo 
também ajuda a compreender o protestantismo do tipo religião civil que acabou 
predominando nos Estados Unidos. 
   
O protestantismo de princípios se pretende uma crítica constante à Reforma do século 
16. Tillich a critica por ter traído o "princípio protestante", entendido como "uma expressão 
da vitória sobre as ambigüidades da religião, sua profanização e demonização". Só este 
princípio, que não se restringe a nenhuma igreja, pode enfrentar a "auto-elevação 
trágico-demoníaca da religião e liberta a religião de si mesma para as outras funções do 
espírito humano, ao mesmo tempo em que liberta essas funções de sua auto-reclusão contra 
as manifestações daquele que é último". [108] 
   
Na verdade, o que se pretende é uma religião emancipada tanto da autonomia quanto 
da heteronomia. 
   
Os Estados Unidos foram um solo fértil para os dois tipos de protestantismo. Se o 
denominacionalismo praticamente aí se realizou como expressão, o princípio protestante foi 
transformado num novo tipo de religião civil. Nesse país, os dois protestantismos se 
fundiram, já que as denominações se tornam a religião da maioria. Evidentemente, 
sobreviveu algum tipo de protestantismo de princípio, mas à margem, porque absorvido pela 
religião civil. Como no Brasil, a população protestante sempre foi minoria, o protestantismo 
de doutrinas nada teve a ver com a religião civil, uma proposta aqui católica. 
   
Assim, nos EUA, são protestantes a formação das colônias, a independência do país, 
o ensino fundamental e universitário, o desenvolvimento tecnológico, a conquista do 
mercado mundial. No Brasil, o protestantismo não teve nada a ver com nenhum dos grandes 
dramas do país. 
   
O próprio desenvolvimento das denominações está ligado aos lugares que tomaram 
nestes movimentos da história norte-americana. 

   
Como o protestantismo brasileiro veio dos EUA, ele teve que traduzir aqui as 
categorias de lá. O conceito de religião civil, evidentemente, não pôde ser traduzido. A 
experiência no campo da educação foi repetida aqui, mas sem o mesmo fôlego. Não se pode 
esquecer: aqui o protestantismo foi minoria e como tal se comportou. 
   
Predominou aqui o protestantismo de doutrinas. Alguns teólogos, como Erasmo 
Braga (este menos, pelo seu próprio tempo) e Rubem Alves (este mais, pelo tempo e pela sua 
própria formação intelectual), para mencionar dois exemplos, pensaram na categoria de 
protestantismo de princípios, mas foram exceção. 
   
  
   
PRIMEIRA CONCLUSÃO 
   
Permanece presente a pergunta pela modernidade ou não do protestantismo. Uma 
compreensão do problema exige considerar diferentes questões, aqui levantadas em forma de 
conclusão. 
   
  
   
1. Uma primeira resposta exige uma outra pergunta: há ruptura em história? 
Conquanto não seja aqui o lugar adequado para esta resposta, o problema pode ser adaptado 
para a problemática das idéias religiosas. Neste sentido, o historicista Wilhelm Dilthey vê na 
história da humanidade, "não somente uma continuidade da aprendizagem progressiva, mas 
também um desenvolvimento religioso-moral". No caso específico da religião, a eventual 
insuficiência das respostas leva o "homem verdadeiramente religioso" a buscar 
transformações "a partir da sua experiência ético-religiosa interior e profunda", mas "dentro 
de um quadro existente". [109] 
   
Aceito o pressuposto diltheyano de que "uma das leis da história da religião" é que 
"somente na continuidade histórica e na comunidade religiosa a fé humana tem uma vida 
forte e um desenvolvimento contínuo", [110]a pergunta acerca da modernidade ou 
medievalidade da proposta humanista-protestante perde sua razão de ser. 
   
Neste sentido, a crítica de Troeltsch-Alves, de que a preocupação última do 
protestantismo é responder a uma pergunta medieval (é possível a certeza da salvação?), 
torna-se vazia. A proposta da Reforma teria que necessariamente estar próxima da pergunta 
medieval, pelo simples fato de suas raízes estarem fincadas na Idade Média. No 
protestantismo e no humanismo, ainda estão presentes e convivem com visões medievais. 
[111] 
   
De qualquer modo, como o lembra David Bosch, alguns elementos do protestantismo 
foram uma continuação do modelo religioso tipificado pelo Catolicismo medieval. Ambos, 
por exemplo, insistiram na correta formulação doutrinária como um paradigma. [112]Há 
outro ponto que mereceu também uma dura crítica de Troeltsch: a Reforma não separou 
igreja e estado, embora tenha colocado as bases para que isso ocorresse depois com alguns 
anabatistas e com os batistas em geral. 
   
"Desde Constantino, a idéia de estado "cristão" e de interdependência entre igreja e 
estado foi simplesmente tomada como assentada. Os dirigentes católicos logo perderam sua 
hegemonia sobre certas áreas de Europa, que vieram a ser governadas, então, por reis e 
príncipes luteranos, reformados e anglicanos. A única diferença foi que os protestantes 
pareciam crer que "já que o exercício do poder absoluto pela igreja papal estava errado, seu 
exercício pelos adversários do papado estava certo". As guerras religiosas foram feitas para 
estabelecer que tipo de fé cristã seria soberana numa determinada área. Uma solução foi 
encontrada na Paz de Augsburg (1555) e na Paz de Westphalia (1648), onde a famosa regra 
do cuius regio eius religio (...) foi promulgada e fez com que as hostilidades chegassem ao 

fim". [113] 
   
2. Provavelmente, a problemática pode ser colocada em outra dimensão: em que 
sentido o protestantismo se relaciona ao humanismo? 
   
Descartado o estabelecimento de uma relação do tipo causa e efeito, fica evidente que 
os corolários básicos da fé protestante (solus christus, sola fide, sola scriptura) são uma 
espécie de atualização do espírito humanista. No entanto, resta saber se a prática destes 
princípios resultou completamente reformada, vale dizer, revolucionária em relação ao 
período histórico anterior. 
   
Há alguns pontos de aproximação. Não há dúvida de que o protestantismo é 
humanista no sentido de que representou uma volta a uma fonte clássica, no caso, a Bíblia. 
Há até uma certa radicalidade nesta escolha: os protestantes têm uma incontida preferência 
pelos livros do Antigo Testamento, inconscientemente considerada a fonte das fontes. A 
opção se demonstra até pelos nomes dados aos filhos, a maioria tirada da personália 
veterotestamentária. [114] 
   
Há também pontos que os afastam. Um deles: o humanismo é radicalmente otimista 
em relação ao homem, enquanto a visão reformada (batista, inclusive) é fundamentalmente 
pessimista. [115]O agostinianismo radical não dá espaço para o desenvolvimento de 
qualquer tipo de pelagianismo. Posteriormente, no protestantismo de princípios (em 
oposição ao de doutrinas) a perspectiva de Pelágio foi ganhando corpo. Na origem, no 
entanto, o bispo de Hipona reinou absoluto, sem frestas. 
   
É sob este pano de fundo teológico que deve ser compreendido o problema da certeza 
da salvação. A preocupação estava no cerne da meditação de Lutero e de Calvino, mas por 
caminhos diferentes. A irrupção da graça em Lutero era de tal forma que não sobrou qualquer 
lugar para o mérito humano. Em Calvino, a doutrina da predestinação, conquanto radical e 
garantidora da certeza da salvação, oferecia um espaço para algum tipo de especulação: de 
que modo o crente pode saber que foi eleito para ser salvo? A prova era a vida da pessoa 
posterior à sua conversão. 
   
O protestantismo de doutrinas, fiel a Lutero e a Calvino, tem reafirmado a 
possibilidade da certeza da salvação. Poucas denominações não a têm como pedra angular do 
seu edifício. A doutrina é uma necessidade que distingue o protestante do católico, mas 
distingue também o protestante do homem moderno, que não abre mão do seu direito à 
dúvida. [116] 
   
De qualquer modo, em relação ao período medieval, a formulação protestante é uma 
resposta não-sacramental, porque centrada na noção de dignidade pessoal do indivíduo. 
Nisto, a proposição é moderna. 
   
3. Em resumo, o protestantismo, que é cristianismo e isto não se pode esquecer, não 
superou a tensão entre autonomia e heteronomia. A própria Renascença não teve a 
radicalidade que prometia. Ela navegou sem conflito pelas águas de um neoplatonismo 
difuso. Além disso, não teve pejo em reafirmar o idealismo, retomado visceralmente por 
Hegel, na mesma tradição. 
   
Diante destas considerações, se por moderno se entende a passagem do homem para 
uma visão autônoma da história contra qualquer tipo de heterodeterminação, seja ela 
teonômica, eclesionômica ou hieronômica, a conclusão preliminar a que se pode chegar é que 
o protestantismo vive uma tensão. 
   
A partir destas percepções, pode-se resumir: a Renascença e a Reforma racharam a 
rocha. Depois disto, cada movimento seguiu seu próprio curso. O caminho da Reforma vem 
sendo plural. Os batistas são uma de suas singularidades. 

   
 

   
AS (RE)FORMAS DA REFORMA 
   
  
   
"Os teólogos reformados -- como a maioria dos pensadores cristãos da época -- 
achavam que igreja e mundo, Cristo e cultura, existiam num relacionamento pleno de tensão. 
Cristo e mundo não estavam em disputa, mas nenhum devia ser dominado pelo outro. 
   
A partir deste consenso, os pensadores reformados consideraram fortemente o mundo 
como um desafio ao controle e disciplina cristãos. Embora a cultura fosse entendida como 
decaída, pervertida e oposta a Cristo, devia ser formada e regulada ou "convertida". 
   
(...) 
   
Os líderes reformados, então, foram excessivamente otimistas em seus planos de 
reorganizar a sociedade e as instituições conforme suas interpretações da lei de Deus. De 
fato, ficaram firmes em seus propósitos pela crença de que eram apenas instrumentos no 
plano de Deus para reordenar a sociedade humana".   
   
(SYDNEY E. AHLSTROM   [117]) 
   
  
   
  
   
 
Com a reforma, os cristianismos que eram dois se tornaram cinco ou mais. No entanto, 
mesmo a Reforma, que se queria o único cristianismo, não pôde negar in totum o cristianismo 
que quis reformar, sob pena de não ser mais cristã. 
   
Obviamente, por ser cristão, o protestantismo se erigiu sob crenças comuns aos 
Catolicismos romano e ortodoxo, que poderiam ser assim sintetizadas: 
   
  
   
. Deus como Criador e Pai 
   
. Cristo como Senhor e Salvador 
   
. A Igreja como o Corpo de Cristo e a comunidade dos crentes 
   
. A Bíblia como tendo valor religioso único 
   
. A relevância do cristianismo para a moral pessoal e social [118] 
   
  
   
A partir desses fundamentos, as compreensões se ampliaram para abrigar as ênfases e 
diferenças de cada tradição. A justificação pela fé (sola fide), o sacerdócio universal dos 
crentes (solus Christus) e a autoridade normativa da Bíblia (sola Scriptura) são o modo de 
apreensão protestante daquelas crenças básicas cristãs. Em continuação ao processo, no 
interior do protestantismo, cada confissão apôs novas ênfases e novas diferenças. 
   
Esquematicamente, esses elementos poderiam ficar assim representados: [119] 
   
  
   
CRENÇAS 
   
DENOMINACIONAIS 
   
  
   
CRENÇAS 
   
PROTESTANTES 
   
  
   
CRENÇAS CRISTÃS 
   
  
   
  

   
A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ 
   
Conquanto tenha nascido três, a Reforma protestante logo se tornou seis ou mais. Aos 
nomes de Lutero, Calvino e Zwinglio se juntaram outros reformadores e outros movimentos 
pouco depois: o anabatismo, o puritanismo e o metodismo, entre os mais representativos 
numericamente. Estes nomes e movimentos fizeram suas histórias de modo interdependente, 
embora se entendessem independentes. 
   
Todos, ao seu modo e ao seu tempo, afirmaram os três princípios fundamentais da 
Reforma, os quais, no entanto, ficaram mais como símbolos para fins de síntese do que como 
declarações normativas de fé. Os desdobramentos e fusões posteriores, oriundos de 
controvérsias e desenvolvimentos eclesiásticos, levaram a teologia protestante a reelaborar 
esses princípios, embora sempre procurando apontar para eles. 
   
Os três pais fundadores aceitavam tacitamente essas percepções, conquanto as 
ênfases e os programas de ação fossem diferentes, conforme o solo em que promoviam suas 
idéias. 
   
  
   
Um quadro sinótico, a partir de algumas preocupações específicas, pode ser útil para 
ilustrar estas diferenças e semelhanças. Deve ficar evidente que todas as percepções 
decorrem da primeira: o homem é justificado diante de Deus pela fé. Este é o ponto de partida 
de toda a teologia protestante. 
   
  
   
  
   
  
   
Quadro 1 
   
  
   
OS EIXOS DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ 
   
  
 
 
EIXOS                              LUTERANISMO                              CALVINISMO           
    ZWINGLIANISMO                              ANABATISMO 
   
SÍNTESE                              misericórdia de Deus                              soberania de 
Deus               supremacia da Bíblia                              nova vida em Cristo 
 
 
FONTE                              Cristo                                             Bíblia                             
Bíblia                                             Espírito Santo 
   
ANTROPOLOGIA               depravação total                              depravação 
total               doença moral                              depravação total 
   
SOTERIOLOGIA               predestinação dos eleitos               predestinação 
dupla               predestinação simbólica               regeneração indispensável 
 
 
MORALIDADE                              utraquismo                                             taborismo 
                             utraquismo                                             utraquismo 
   
ECLESIOLOGIA               corpo universal de santos               comunidade 
peregrina               corpus permixtum                              associação voluntária de salvos 
   
TEORIA POLÍTICA               estado como ordenança               estado como 
ordenança               aliança igreja e estado               separação igreja e estado 
   
  
   
As diferenças dificilmente foram de fundo. O eixo central, conquanto as ênfases 

fossem diferentes, era praticamente o mesmo. Todos aceitaram o princípio básico da 
justificação pela fé, nada cabendo ao mérito humano, já que a fé é um dom de Deus e não 
uma conquista humana. Mesmo os anabatistas, que tinham preocupações teológicas menos 
sistemáticas, concordavam que a salvação era pela fé, embora reinterpretassem o conceito 
para incluir nele a noção (um pouco mais mística) de uma nova vida habitada por Cristo. 
[120] 
   
Para Lutero, a fonte da teologia e da vida era Cristo, Cristo que estava presente na 
Bíblia. Calvino insistia na validade integral da Bíblia, noção difícil para Lutero aceitar. 
Zwinglio cria na normatividade da Bíblia, embora, por vezes, a interpretasse de modo 
subjetivista. Os anabatistas ensinavam que a fonte para a vida é a Palavra de Deus 
experimentada pela presença do Espírito Santo, numa espécie de mística doutrina da 
iluminação interior. 
   
Na soteriologia, as diferenças também eram de forma. Calvino foi o único a 
sistematizar a doutrina de uma predestinação dupla e condicional. Os outros a deram por 
aceita, embora os anabatistas preferissem ignorar o problema e destacar a necessidade da 
regeneração como condição para a nova vida. 
   
Quanto à antropologia, só Zwinglio admitia que o pecado original era uma doença 
moral e imaginava que, pela razão, algumas pessoas poderiam se salvar. Voz solitária, seu 
pelagianismo mitigado só encontraria eco no liberalismo teológico posterior. 
   
Para entender a teologia moral, é útil empregar uma tipologia desenvolvida pelos 
teólogos hussitas do século 15. Os utraquistas entendiam que somente aquilo que a Bíblia 
proibia expressamente devia ser proibido na vida da comunidade cristã. Mais radicais, os 
taboritas ensinavam que tudo aquilo que não estava expressamente autorizado pela Bíblia 
devia ser rejeitado. Lutero era utraquista e só rejeitava o que a Bíblia não aprovava. Zwinglio 
e os anabatistas em geral esposavam a mesma idéia, apesar de seus conceitos diferentes do 
que era a comunidade cristã. Calvino era taborita e rejeitava tudo o que não podia ser provado 
pela Bíblia. Por isto, era rígido na doutrina e na prática. Os anabatistas, embora utraquistas, 
não eram menos rígidos. 
   
Na eclesiologia, houve diferenças. Lutero, Calvino e Zwinglio concordavam que a 
igreja era a comunidade daqueles atingidos pela misericórdia de Deus. Nela, todos são 
vocacionados para serem sacerdotes de si mesmos. Os anabatistas também estavam de 
acordo, mas destacavam ainda que a igreja é uma associação voluntária dos salvos, com 
destaque para o adjetivo. 
   
Na teoria política, as diferenças eram maiores. Lutero concebia o Estado como uma 
ordenança de Deus, que o criou para evitar a desordem. Os cristãos deviam obedecer as 
autoridades do Estado. Calvino foi mais além: era dever do Estado proteger a religião. Aos 
cristãos cabia obedecê-lo. Melhor: aos cristãos caberia controlá-lo, numa espécie de 
neoteocracia. Num ponto, no entanto, Calvino se antecipou ao que seria princípio caro e 
necessário aos anabatistas e aos batistas: o dever de resistir às autoridades que se tornassem 
tiranas em assuntos de religião. Ele escreveu, referindo-se a magistrados encarregados de 
restringir os erros dos governantes: "estou muito longe de lhes proibir que, no cumprimento 
do seu dever, resistam à cruel licenciosidade dos reis. Se acenam para os reis que 
violentamente derrubam e assaltam o povo comum, declaro que sua dissimulação envolve 
uma nefanda perfídia, por traírem desonestamente a liberdade do povo, de quem sabem que 
foram nomeados protetores por ordenança de Deus". [121]Zwinglio propôs que igreja e 
estado deviam fazer uma aliança, pressuposto que a "lei" do Evangelho era válida também 
para o Estado. [122]Assim, a autoridade final estava na comunidade cristã, que exercia sua 

força através de um governo civil eleito para agir com base na autoridade da Bíblia. [123]De 
certo modo, todas estas percepções eram ainda medievais. Os primeiros a propor algo novo 
foram os anabatistas, para quem igreja e estado deviam ser radicalmente separados, ao ponto 
de um cristão não poder exercer qualquer função pública. A maioria [124]dos anabatistas 
entendia que o Estado era uma instituição necessária, mas, paradoxalmente, não achava ser 
possível assumir qualquer responsabilidade nele, seja na paz, seja na guerra. [125] 
   
Em síntese, a Reforma pode ser entendida em função de (suas) cinco chaves: 
   
  
   
  . o ponto de partida da justificação pela fé 
   
. a visão do homem a partir da perspectiva da queda 
   
. a ênfase à dimensão subjetiva da salvação 
   
. a redescoberta do sacerdócio de todos os crentes   
   
. a centralidade das Escrituras na vida da igreja [126] 
   
  
   
Assim, a justificação pela fé "é o artigo pelo qual a igreja permanece ou cai", por 
expressar a convicção básica da Reforma: "há uma enorme distância entre Deus e sua 
criação; no entanto, este Deus, em sua soberania e por sua graça, tomou a iniciativa de 
perdoar, justificar e salvar os seres humanos". Deste modo, toda a teologia da Reforma parte 
de uma perspectiva da queda, em decorrência da qual o homem é incapaz de fazer algo por si 
mesmo, diferentemente do que ensinava Tomás de Aquino, com sua valorização da razão. 
Para os reformadores, a humanidade jazia no mal e marchava para o mal. Para ser salvo, o 
indivíduo precisava ser resgatado do mundo. O problema da salvação tornou-se uma questão 
pessoal. Salvo e na igreja, o crente permanecia num relacionamento direto com Deus, 
mediado apenas pela leitura da Bíblia. [127] 
   
Foi este o protestantismo que venceu na Europa. Foi este protestantismo que foi para 
a Inglaterra. Como se observou anteriormente, suas crenças respondiam a necessidades 
específicas e concretas. Não foram idéias fora do lugar. Assim mesmo, por mais que esta 
síntese faça parecer, o protestantismo não foi um monolito. Cedo, muito cedo, ao tempo 
ainda dos seus protoformuladores, essas idéias ganharam oposição, que ficou na margem, 
mas não morreu. Idéias não morrem. 
   
A história da Reforma na Inglaterra é uma demonstração, como percebera 
Montesquieu, de que o povo inglês é o que melhor "soube prevalecer-se ao mesmo tempo, 
dessas três grandes coisas: da religião, do comércio e da liberdade". [128] 
   
  
   
A SEGUNDA REFORMA 
   
Uma prova da força das idéias foi a chamada reforma anglicana, esse "teto que 
abrigou muitas opiniões, segundo o dizer de Ragasdale Canon. [129] Embora tenha se 
pretendido, por razões diversas, constituir-se numa síntese [130]entre protestantismo e 
catolicismo romano, acabou tornando-se uma antítese. 
   
Tornou-se antítese por causa de outra antítese: o puritanismo, esse "corpo alternativo 
de idéias", [131]tributário do luteranismo, do calvinismo, do anabatismo e do próprio espírito 
inglês. [132] 
   
Por sua adesão ao calvinismo, o puritanismo fustigou o anglicanismo, mudou o 
calvinismo, gerou novas confissões e influenciou todas as outras, em sua própria e curta 
época e nas épocas seguintes. 
   
Como anotou Tawney, 
   
  

   
"o crescimento, triunfo e transformação do espírito puritano foi o movimento mais 
fundamental do século 17. O puritanismo, e não a secessão de Roma pelos Tudors, foi a 
verdadeira Reforma inglesa, e é de sua luta contra a velha ordem que uma Inglaterra 
indiscutivelmente moderna emerge. (...) A revolução que o puritanismo efetuou na Igreja e 
no Estado foi menor que a operada nas almas dos homens". [133] 
   
  
   
Sob certo aspecto, realmente, como intuiu Weber, "o puritanismo representou a 
conclusão lógica do processo de eliminação da magia no mundo", [134]ao considerar como 
superstição "todos meios mágicos de salvação", incluído aí, por exemplo, a ausência de 
música ou ritual nos sepultamentos de parentes, a fim de evitar que a "crença nos efeitos de 
forças de salvação mágicas ou sacramentais, pudesse ser restabelecida". [135] 
   
Foi este tipo de cristianismo protestante que aportou nos nascentes Estados Unidos, 
onde, no dizer de Ahlstrom, "a tumultuada Reforma inglesa foi recapitulada", constituindo 
um legado "não menos significativo que o impacto de Lutero sobre a nação germânica". 
[136] 
   
Por via de conseqüência, é impossível entender o cristianismo protestante brasileiro, 
os batistas em particular, sem uma compreensão da reforma puritana. Neste esforço, é 
preciso ter-se logo em conta que 
   
  
   
"os puritanos criam que tudo no mundo estava ordenado por Deus. Ao mesmo tempo, 
exigiam que os homens fossem cristãos ativos, com vida que mostrassem a glória de Deus 
transformando em seu nome a vida e a sociedade. Eram ao mesmo tempo predestinistas e os 
mais ativistas dos cristãos. Essa combinação paradoxal oferece a chave para o entendimento 
do ethos puritano". [137] 
   
  
   
Seus ensinos não estavam muito distantes dos eixos proto-reformados, conquanto 
usassem uma terminologia por vezes distinta: [138] 
   
  
   
Quadro 2 
   
PRINCÍPIOS DO CALVINISMO PURITANO 
   
SÍNTESE               soberania de Deus, que fez um pacto com o homem 
   
FONTE               Bíblia como extensivamente normativa 
   
ANTROPOLOGIA               depravação total do homem 
   
SOTERIOLOGIA               predestinação experimentada (confirmação da eleição) 
   
MORALIDADE               taborismo (ênfase na santificação) 
   
ECLESIOLOGIA               igreja como comunidade bíblica da fé 
   
TEORIA POLÍTICA               estado como subordinado a Deus (resistência aos 
tiranos) 
   
  
   
Numa espécie de reação aos novos tempos e atualização do calvinismo, os puritanos 
tentaram evitar o que consideravam um desvio da teologia da soberania de Deus. Perkins e 
seus seguidores ensinavam que Deus contratou com os próprios eleitos a sua salvação, 
seguindo as formalidades legais. Fizeram o mesmo, ao utilizarem o contrato social como uma 
moldura conceitual, conquanto suas teses em nada dependam de ter ele algum dia existido 
enquanto fato histórico. [139] 
   
A nova [140]teologia não era uma abdicação à ênfase calvinista na soberania de 
Deus, já que radicava na premissa de que Deus fez um acordo com Adão na criação, 

prometendo-lhe vida eterna se ele lhe obedecesse. Como o primeiro homem falhou, Deus fez 
um segundo acordo com Cristo, prometendo aos eleitos perdão e vida eterna com base no seu 
sacrifício na cruz. [141] 
   
O conceito ajudou os puritanos a sublinharem o valor da atividade humana sem 
negarem a soberania de Deus. A noção essencial é que, assim como Deus tem sido fiel em 
cumprir suas promessas, cabe ao homem cumprir as suas obrigações como parte do acordo. 
De certo modo, a teologia do pacto é uma conseqüência da doutrina do sacerdócio universal. 
Como recordam Dillenberger e Welch, ela ajudou os puritanos a entender que 
   
  
   
"cada indivíduo era responsável diante de Deus e ninguém podia ocupar o seu lugar. 
(..) O pacto compreendia também um povo destinado a viver em comunidade sob Deus. O 
plano de Deus para o mundo tinha uma natureza social; incluía a participação dos indivíduos 
numa unidade comum que sustentava e dava sentido a todos. Compreendia uma comunidade 
santa sustentada por Deus, mas expressa por homens dedicados a fazer todas as coisas de 
acordo com a sua vontade e para a sua glória". [142] 
   
  
   
Esta visão era nutrida na Bíblia, também entendida como a única fonte de orientação 
para a vida. Nela estava o critério adequado para todos os problemas. Além disso, só por seu 
intermédio se podia conhecer e experimentar Deus, cuja natureza íntima nela estava 
revelada. [143] 
   
Na tradição de Calvino, sua leitura indica que Deus controla a história e predestina 
umas pessoas para a salvação e outros para a perdição. Com a inserção da noção de pacto, 
esta perspectiva deixou de ser quietista, para ser militante. Muitos deles acreditavam que suas 
ações eram um sinal de sua eleição. O problema da certeza da salvação, cuja resposta o 
calvinismo não tinha, estava resolvido, pelo menos parcialmente. 
   
Um elemento que seria destacado mais tarde (a santificação) ajuda a entender a moral 
puritana. O pressuposto era simples: toda a vida, pública e privada, devia ser organizada de 
acordo com os padrões bíblicos. No plano pessoal, a santificação era, no dizer de Weber, um 
"intercâmbio" com Deus, "desenvolvido em um profundo isolamento espiritual". [144]Como 
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