Israel belo de azevedo



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logos. [782] 
   
Na tradução desses conceitos em termos cristãos, a história não importa. O plano de 
Deus para o homem é visto como uma realidade já dada, pré-existente, de certo modo 
inacessível à nossa inteligência e parcialmente apreensível pela contemplação. Poderemos 
realizar a nossa vida na medida em que nos entregarmos à oração e à purificação da alma. 
Nessa concepção, o histórico é mero acaso, de cunho transitório diante desta realidade 
suprema predeterminada. [783] 
   
Projeta-se a esperança para o futuro. E mesmo essa esperança é colocada em termos 
de destruição do mundo. "Os céus passarão com grande estrondo, e os elementos ardendo, se 
dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas -- queimadas" (II Pd 3:10). 
   
O efeito prático é um niilismo. O homem não pode fazer nada, mesmo porque "os 
sinais indicam que está próximo" o fim do mundo. [784] 
   
Assim, a teoria do Estado é conseqüência do princípio do individualismo aplicado 
também à igreja, que diante do Estado é igualmente livre e responsável. Na prática, todo o 
político é reduzido ao nível das relações com o Estado. 
   
Se, especialmente no que se refere aos aspectos moral e ético, a hipótese com que se 
operou já foi demonstrada, cabe aclará-la melhor no que tange à relação igreja e estado, área 
em que a cartilha liberal, que os puritanos e batistas ajudaram a escrever, foi decisivo. 
   
  
   
  
   
As matrizes 
   
A quinta hipótese exige considerações mais amplas, devendo por agora relembrar-se 
que as três matrizes do pensamento batista são o liberalismo, o puritanismo e o pietismo. 
   
O liberalismo [785]será objeto de especial atenção a seguir, uma vez que já 
mereceram suficiente consideração o puritanismo e o pietismo, movimentos que lhe foram 
contemporâneos e com os quais interagiu, desenvolvendo seu arcabouço filosófico no quadro 
geral do liberalismo, o qual será preciso agora discutir mais amplamente. Como já foi 

assinalado, sem o entendimento da sub-reforma puritana, é impossível compreender-se os 
protestantes e, particularmente, os batistas. 
   
Quanto ao pietismo, basta recordar que foi longamente gestado na Europa e nos 
Estados Unidos. No entanto, seu princípio (quase "iluminista") da dinâmica da relação com 
Deus, de modo direto, chegou ao Brasil apenas como ética. Por isto, não pode ser encontrado 
nos livros de teologia, mas nos de ética (pouco) e nos de ficção (muito) e teatro, onde as 
histórias seguem sempre o protótipo da parábola do filho pródigo. 
   
Quanto ao puritanismo, sua contemporaneidade com o liberalismo primitivo torna-o 
mais importante que qualquer outro movimento teológico. Nele estão as raízes de todo o 
pensamento batista. Tem sido comum atribuir-se o ethos protestante brasileiro ao pietismo, 
mas o pietismo é apenas um desdobramento do puritanismo, numa tentativa de aperfeiçoar 
ou restaurar sua herança. 
   
Deve estar ainda implícito que, ao se tratar destas duas idéias-forças, os valores 
básicos continuam sendo o cristianismo em geral e o protestantismo em particular, dos quais 
as visões puritanas e pietistas são reinterpretações (ou esforços de restauração). 
   
  
   
  
   
QUE LIBERALISMO? 
   
Segundo a hipótese enunciada, os batistas no Brasil vêm forjando, à luz de uma 
tradição própria, suas idéias filosóficas a partir de uma grande matriz: o liberalismo. 
   
  
   
Protestantismo e liberalismo 
   
O protestantismo e o liberalismo são filhos da mesma época. 
   
Os chamados tempos modernos são os tempos da secularização, cujos ventos 
sopraram como vendaval a partir do século 16. Até então, "a vida de uma pessoa tinha todos 
os seus momentos marcados, como um maestro marca o trabalho de uma orquestra, pela 
religião dominante". [786] 
   
Tem início, então, um amplo programa de dessacralização do mundo, erigido 
"sob(re) os escombros do encanto diante da natureza, do medo de forças invisíveis e da 
fidelidade a idéias, instituições, sacramentos, lugares e grupos" e do qual o protestantismo é 
paradoxalmente parte integrante. [787] 
   
Neste tempo do homem autônomo, o mundo era um problema para ele resolver. 
Evidentemente, a idéia do homem privado vem se desenvolvendo lentamente, a ponto de 
Burckhardt considerá-lo "plenamente desenvolvido" já no século 14. [788]A solução 
corporativa cedeu lugar a uma solução privatizada, trajetória em que o puritanismo, por ser 
religião de minoria, desempenhou decisivo papel. [789]O Estado perde o lugar de sumo-bem 
para o indivíduo, a cujo serviço deve estar. A religião passa a ser um "caráter totalmente 
subjetivo", na expressão de Burckhardt. [790] 
   
É neste movimento que se inscrevem as idéias liberais e as idéias protestantes, que se 
apossam do individualismo, tornando-o um de seus eixos. Está-se diante de uma conjugação 
de forças dispostas a resgatar o indivíduo perdido em meio ao corporativismo sacramental 
então vigente.   
   
Conquanto haja quem ache que o individualismo não estava na essência da Reforma, 
[791]parece não haver dúvida de que a revolta de Lutero -- de caráter nitidamente 
subjetivizante -- e os descobrimentos científicos e geográficos -- que ampliaram a 
compreensão européia -- fragmentaram a cosmovisão medieval. No mínimo, as propostas de 
Lutero e Calvino constituíram uma espécie de "prólogo à cultura do individualismo". 

[792]Agora, a nova geração procurava a verdade na experimentação científica e na 
experiência religiosa. Deste modo, "a verdade não mais podia ser imposta de cima, por força 
da autoridade; tinha de ser reconstruída de baixo, edificada sobre a convicção individual". A 
ênfase agora era posta "nas coisas mais que nas palavras, na comprovação dos sentidos e do 
coração", numa flagrante oposição aos exercícios intelectuais divorciados da prática; valiam 
agora "o pensamento em oposição à memoração" e a experiência contra raciocínios 
considerados inúteis. [793] 
   
Conquanto a "fé liberal" de Lutero, Calvino e dos puritanos em geral possa não ter 
ultrapassado os domínios da liberdade religiosa, [794] Locke incorporou-lhe a noção de 
liberdade consciência, "restituindo-lhe a sua autêntica significação, em grande parte perdida 
nas guerras de religião". [795] 
   
Assim, a Renascença, a Reforma protestante e a revolução científica podem ser 
colocados como os passos iniciais do liberalismo, também uma revolução intelectual, 
[796]cuja chave é a autonomia do indivíduo, [797]visto como um fim em si mesmo e não 
como um meio para a promoção dos interesses dos outros". [798] 
   
Um protestantismo seguiu todos os passos do liberalismo geral, constituindo mais 
tarde o liberalismo teológico, que é filho do deísmo inglês. Este liberalismo, rechaçado pelo 
protestantismo em geral, conquanto lhe tomasse alguns conceitos por empréstimo, 
desenvolveu atitudes como o respeito pela ciência e pelo método científico, o ceticismo 
quanto à possibilidade de se alcançar o conhecimento certo da realidade última, a ênfase 
sobre o princípio da continuidade do homem com o mundo natural e uma confiança no 
homem e no progresso. [799] 
   
Outro protestantismo, inscrito na experiência das grandes denominações, 
apropriou-se apenas de alguns conceitos, uns de forma radical (como a afirmação do 
indivíduo) e outro de forma parcial (como a submissão absoluta da fé ao crivo da razão). 
   
Na passagem para os EUA o quadro permaneceu tenso. As denominações 
reafirmaram cada vez mais o caráter subjetivo da fé, o que seria uma radicalização da 
autonomia, mas se constituíram em sólidas (e por vezes, rígidas) instituições, numa negação 
desta mesma autonomia. 
   
Em linhas gerais, como demonstrado no capítulo 4, o liberalismo religioso 
norte-americano se manifestou em termos de entronização do princípio da liberdade 
religiosa, fundado pelos puritanos e solidificado pelos deístas, com uma radical separação 
entre igreja e estado, reafirmando-se o conceito de que religião é um assunto entre Deus e o 
indivíduo. Nesta visão, saiu fortalecido o princípio do individualismo, desenvolvido em 
termos de um certo voluntarismo e de busca da perfeição pessoal. A razão, porém, saiu 
enfraquecida e subjugada à sua dimensão prática, o que gerou um antiintectualismo. Em 
outras palavras, a razão foi, negativamente, vista como insuficiente e, positivamente, 
instrumentalizada para se tornar útil. 
   
O princípio laico da separação entre igreja e estado foi conjugado à necessidade do 
fortalecimento institucional, alimentando um repúdio ao catolicismo, desenvolvendo um 
espírito de expansão missionária e provocando a exacerbação da doutrina da natureza 
espiritual da missão da igreja, que também se constituiriam em marcas do protestantismo 
brasileiro. 
   
Não é preciso recordar que, desde os primórdios da implantação do protestantismo no 
Brasil, seus seguidores estiveram associados a movimentos liberais, [800]os quais 
favoreceram a sua radicação. [801].Há, portanto, entre o liberalismo brasileiro e o 
protestantismo uma afinidade de propósitos em muitos pontos. 

   
Um deles, a título de exemplo, é atitude protestante (e batista) brasileira em relação à 
presença dos Estados Unidos no Brasil. Pelas páginas de O Jornal Batista evidencia-se que 
aquele país foi apresentado como um modelo político e religioso para a América Latina. A 
"outra América" é tratada como um novo Israel, com papel especial no plano de Deus para 
história global, em função de formação protestante. A partir daí, as relações entre os dois 
países devem ser incrementadas. [802]Assim, as insinuações de que os protestantes na 
América do Sul preparam o avanço econômico dos Estados Unidos, o jornal reconhece haver 
simpatia e mesmo entusiasmo "em numerosas comunidades latino-americanas" pelas "coisas 
dos Estados Unidos", os quais se devem "à obra de serviço que, no meio dessas comunidades, 
têm realizado os representes missionários] do cristianismo protestante". [803]Quanto à 
acusação explícita de que esses clérigos são agentes do imperialismo ianque, a resposta é um 
ataque: os verdadeiros "agentes" são os padres estrangeiros e o verdadeiro imperialismo é o 
Catolicismo romano. Os Estados Unidos são um país como qualquer outro. Seu capital como 
sua gente são bem-vindos, mas se lhes deve aplicar a lei. E com isso nada têm a ver os 
missionários, cujo trabalho independe daquele país, já que são sustentados pelas igrejas e 
suas entidades de cooperação. [804]   
   
De fato, não se pode aceitar a genérica acusação de que os missionários evangélicos, 
batistas em particular, estejam a serviço consciente de qualquer outro interesse que não a 
pregação de sua mensagem religiosa. De igual modo, não se deve levar a sério a defesa 
protestante que mostra o "verdadeiro" imperialismo como representado pelo catolicismo. A 
empreitada missionária norte-americana está ligada à empreitada política e econômica dos 
Estados Unidos na América Latina. Esta ligação, porém, revela que as duas entradas (a 
religiosa e a econômica) coincidiram, isto é, integrante um mesmo movimento: nenhuma 
delas depende da outra; ambas fazem parte de um mesmo movimento, a da reordenação das 
relações internacionais. Os missionários não prepararam o campo para a chegada dos 
capitalistas. Os capitalistas não têm interesse particular na vida dos missionários, ou para 
servirem de "pontas-de-lança" ou para propagarem o "american way of life". O que deve ter 
havido (para usar a imagem de Pierre Bourdieu [805]) foi uma sacralização de uma realidade 
não sagrada. 
   
  
   
  
   
O liberalismo dos batistas 
   
No caso específico dos batistas, que nascem concomitantemente com o liberalismo 
inglês, é preciso repetir que eles são cristãos, derivando do cristianismo suas doutrinas 
básicas, são protestantes, reinterpretando da Reforma algumas de suas marcas, e são liberais, 
bebendo deste movimento muitos dos seus valores. 
   
Assim como não aceitam alguns caminhos do cristianismo e do protestantismo 
majoritários, também não cerram fileiras com todos os postulados do liberalismo clássico, 
mas podem ser descritos como tais. Em última análise, o liberalismo não perpassou todo o 
pensamento o pensamento batista, mas lhe perpassou no essencial, naquilo que faz diferença. 
   
Impõe-se, então, para concluir esta investigação, indicar em que o pensamento batista 
é e não é liberal. 
   
Inicialmente, é preciso dizer que, exceto por Rui Barbosa (que está para os batistas 
brasileiros como Locke está os ingleses e americanos), o liberalismo batista brasileiro pouco 
tem a ver com o liberalismo filosófico e político brasileiro, por duas razões básicas: a origem 
do pensamento batista está na Inglaterra e nos Estados Unidos e o pensamento social batista 
no Brasil foi mais de consumo e menos de produção. Nem por isto, porém, o pensamento 

batista brasileiro deixa de ser liberal. A leitura de    O Jornal Batista deixa muito clara a 
escolha batista: uma escolha liberal. 
   
Os pontos de divergência e convergência se interceptam. 
   
  
   
1. O individualismo é um valor de convergência plena. A afirmação do indivíduo é 
radical e chega mesmo à soteriologia, ao estabelecer a competência exclusiva da alma na 
aceitação da oferta divino, e à eclesiologia, quando só a igreja local (a partir da doutrina da 
congregação de regenerados nos batistas ingleses e do landmarkismo norte-americano) é 
completamente igreja e depositária única das verdades do Novo Testamento. 
   
Recentemente, o pastor Soren chegou a dizer que o individualismo batista é uma 
expressão legítima, que a sociedade está voltando a valorizar, como os batistas vêm fazendo 
há séculos. [806] 
   
O individualismo, afirmado como expressão máxima da vida cristã e eixo em torno 
do qual se cingem as demais expressões, perpassou as doutrinas, a moralidade, a ética e a 
teoria política. Ele subjaz à valorização do esforço próprio, [807]da liberdade de consciência 
[808]e o Onipotente respeita a livre vontade do homem e certamente ele não entrega a 
qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos autoridade de violar a consciência da criatura feita 
à imagem divina. [809]e do acesso direto a Deus. [810] 
   
  
   
2. Lido sob as luzes do liberalismo primitivo, o pensamento batista brasileiro não 
comunga com ele a idéia da soberania da razão, própria mas não exclusiva do liberalismo, 
mas também não acha que a negue. Há aqui uma ambivalência. O teólogo batista Roque 
Monteiro de Andrade, que afirmava que Deus é "a suprema razão", [811]escreveu: 
   
  
   
" revelação divina encontra-se registrada nas Escrituras Sagradas. Ela não contraria 
nenhum dos requisitos da racionalidade humana. Pelo contrário, é a revelação que explica a 
racionalidade humana, pois constitui-se em ponto de partida para que essa racionalidade se 
exercite". [812] 
   
  
   
O racionalista John Toland (1670-1722), com quem Andrade não concordaria em 
quase todos os pontos, escreveu praticamente a mesma coisa, ao dizer que as doutrinas do 
Evangelho não podem ser contrárias à razão, pois, se fossem, não seriam a palavra de Deus. 
Antes, "a razão não pertence menos a Deus do que a revelação; ela é a lâmpada, o guia, o juiz 
que Ele colocou dentro de cada homem que vem a este mundo". [813] 
   
O elogio da razão aparece permanentemente na teologia batista, como na obra de 
Reynaldo Purim, especialmente quando analisa a atuação do Espírito Santo no cristianismo 
apostólico: 
   
"atuação do Espírito Santo criou e expressou-se nos cristãos primitivos como 
espontaneidade para a formação de uma comunidade espiritual cujos aspectos essenciais 
eram reais. Na continuação do progresso do cristianismo histórico, porém, o aspecto 
espontâneo e emotivo ia decrescendo gradativamente e o aspecto moral e voluntário na 
conduta dos crentes precisou crescer e predominar. (...) O apóstolo Paulo ensinou também 
aos coríntios que na sua vida cristã seguissem este mesmo processo, que deixassem para trás 
as emoções e que desenvolvessem em si a vida cristã baseada no entendimento. A conduta do 
crente espiritualmente desenvolvido não deve basear-se ou depender apenas de motivações 
empíricas. (...) Antes deve basear-se na consciência própria, maturidade na compreensão 
racional e vontade espontânea motivada pelo amor, que o Espírito Santo estabelece como 

ideal e padrão permanente para o crente em quem ele habita e tem atuação livre". [814] 
   
  
   
A fé, que não é a antípoda da razão, consiste em realizar o que é possível e não em 
querer "realizar o que seja absurdo e até desnecessário". [815]Essa mesma razão, no entanto, 
é vista como insuficiente. Nunca, porém, é negada frontalmente. A ambivalência permanece. 
Em outras palavras, ela está subjugada à "fonte suprema da autoridade cristã", que é Jesus 
Cristo, a quem devem estar sujeitas todas as esferas da vida. Essa autoridade "exige a 
obediência aos mandamentos de Cristo, dedicação ao Seu serviço, fidelidade ao Seu reino e 
máxima devoção à Sua Pessoa, como o Senhor vivo". [816] 
   
O princípio da livre-interpretação mantém a ambivalência. Por um lado, a revelação 
bíblica pode ser vista como a razão escrita de Deus. Não há lugar para outras revelações. Por 
outro, cabe interpretar esta revelação, mas de modo fiel. Por modo fiel, entenda-se: de modo 
racional (sem lugar para "luzes interiores") e consensual (segundo a tradição batista). Cabe 
principalmente vivê-la. "O que devemos ser ou não ser; o que devemos falar ou não falar, 
fazer ou não fazer, crer ou não crer, tudo em nossa vida, há se aferir pelo ensino da Bíblia. 
[817] 
   
Por outro lado, como o seu exame é livre e ela deve ser interpretada por ela mesma, o 
controle é teoricamente tênue, ficam afirmados seu valor como instrumento da razão (mesmo 
que a razão de Deus) e sua interpretação segundo regras racionais (mesmo que fixadas pela 
igreja). 
   
  
   
3. Mais ainda, o pensamento batista, como o protestante em geral, não aceita o 
otimismo antropológico do liberalismo, com a subjacente crença no progresso humano. 
Enquanto os liberais afirmam que o homem nasce ignorante, mas não mal, [818]os batistas, 
calvinisticamente, afirmam sua pecaminosidade de origem. 
   
No entanto, é preciso não esquecer, mesmo essa pecaminosidade é 
arminianisticamente suavizada, para permitir algum lugar para o homem na realização do 
projeto de Deus para a história. 
   
De fato, há um ponto em que a filosofia batista da história se aproxima daquele 
ideário liberal do século 19, radicalmente recusado pelos batistas. O liberalismo teológico 
afirma(va) otimisticamente que o envolvimento das igrejas na educação, por exemplo, 
resultaria numa nova sociedade, a nova terra, desejada por Cristo, que dispensaria sua volta. 
Enfim, a realização do Reino de Deus é uma obra humana. 
   
De modo paradoxalmente semelhante, para os batistas, a parousia será conseqüência 
dos atos humanos, mantida, porém, a radical transcendência. Como ensina um 
contemporâneo, "a proclamação do evangelho no mundo todo é condição para a volta do 
Senhor". [819]O encontro entre o liberalismo teológico e o conservadorismo batista fica 
evidente nesta asserção arrebatada (e, parece, esquecida) de um dos pais da teologia batista 
(Mullins): 
   
  
   
"Os axiomas batistas da religião são uma estalactite descendo do céu à terra, formada 
pelos depósitos na água da vida manando do trono e Deus para a humanidade, ao passo que a 
nossa sociedade política americana é a estalagmite com a sua base sobre a terra, erguendo-se 
para se encontrar com a estalactite, e formada pelos depósitos da mesma corrente doadora da 
vida. Quando as duas se puserem em contato, o céu e a terra hão de unir-se e o reino de Deus 
há de vir para junto dos homens. É este o processo que se vai operando através dos séculos". 
[820] 

   
Evidentemente, o liberalismo batista não esposa   
   
  
   
4. A democracia, que os batistas também propugnam, é uma forma de crença no 
homem. Os batistas começaram defendendo a tolerância religiosa, mas a desenvolveram para 
alcançar a liberdade de consciência e incorporar a idéia de um governo constitucional. A 
revolução inglesa de 1688, em cuja gênese os batistas estiveram, foi o primeiro levante que 
conseguiu derrotar um governo despótico e estabelecer um novo sistema de governo, 
construindo um estado liberal. [821] 
   
No auto-elogio dos batistas, eles são os campeões da democracia representativa e se 
orgulham de a praticar no dia-a-dia da sua igreja, cujo "governo é uma pura democracia". 
[822]Essa democracia -- ensina Watson -- "é garantida pela soberania de Deus" e efetivada 
"mediante a Palavra Divina e a atuação do Espírito Santo no coração de cada crente". 
[823]Langston resume a posição: "a democracia, que se baseia no respeito pela liberdade do 
indivíduo, é o verdadeiro gênio e valor da denominação batista". [824] 
   
Realmente, há uma preocupação com a representatividade. As decisões na igreja 
local, seja exclusão de um membro, a escolha de um pastor ou a compra de um imóvel, são 
tomadas em assembléias em que todos têm direito a voz e voto. No plano regional ou 
nacional, quando as igrejas enviam delegados (pastores e membros) às assembléias 
associacionais ou convencionais, eles têm plenos direitos de representação, podendo opinar, 
eleger e ser eleito. Para esses encontros, elaboram-se regras de procedimentos (chamadas 
"Regras Parlamentares") sobre o uso da palavra e da proposição de moções. 
   
O ideal, no entanto, é a democracia pura, que consiste numa monarquia absoluta 
exercida por Deus. No fundo, permanece o ideal teocrático do Velho Testamento, que 
inspirou também a Reforma genebrina. A democracia faz parte do ínterim humano, entre a 
presença de Jesus Cristo, entre os homens e a sua volta no final dos tempos. Afinal, 
   
  
   
"O progresso humano chegará ao seu termo, quando estiver constituída a sociedade 
eterna, em que uma democracia absoluta estará aliada a uma monarquia absoluta, sendo Deus 
Pai o monarco e o seu povo uma numerosa família de homens e mulheres livres". [825] 
   
  
   
Não há propriamente uma teologia das relações econômicas neste democracia, mas 
alguns autores batistas chegaram a propalar seu liberalismo. Um exemplo é o do deputado 
Adrião Bernardes que, num discurso, no início dos anos 60, afirmou: 
   
"Esposo o liberalismo que busca a emancipação dos homens de qualquer forma de 
pressão e restrição externa, venha de onde vier. Liberdade de pesquisa, de expressão, de 
convicção religiosa, de reunião, de empreendimento econômico e de defesa pessoal e legal 
são frutos do liberalismo que creio e devem vicejar no regime capitalista. Só assim o homem 
descobre a si mesmo e aplica suas habilidades em empreendimentos que venham trazer 
benefícios a todos". [826] 
   
  
   
5. Se é verdade que o pensamento liberal não cabe dentro do pensamento batista, este 
também não cabe dentro do liberalismo. Em ambos há outras dimensões. No entanto, como 
está na hipótese central que se perseguiu, os batistas organizam seu pensamento a partir do 
grande movimento liberal europeu. 
   
Os desdobramentos posteriores (como a interação com a experiência colonizatória 
norte-americana e dos seus embates contra o catolicismo nos Estados Unidos e no Brasil) se 
deram no interior deste quadro geral. A posição da experiência religiosa individual como 

balizadora da vida como um todo e aferidora da reflexão e da ação é uma decorrência da 
afirmação liberal do indivíduo. 
   
O modo protestante batista de pensar, portanto, é um modo majoritariamente liberal 
de pensar. 
   
6. Desde o século 16, o espectro do indivíduo ronda o pensamento ocidental. [827]A 
celebração do indivíduo, no pensamento protestante em geral e do protestantismo batista em 
particular, é uma resposta moderna ao problema do lugar no homem na sociedade. 
   
No entanto, esta resposta convive com valores pré-modernos. 
   
Entre os batistas, a autonomia (rejeição a qualquer axiologia de origem exterior e 
transcendente) convive com a teonomia e mesmo com a eclesionomia. O individualismo 
batista é uma afirmação da soberania do indivíduo e, ao mesmo tempo, a afirmação da 
soberania de Deus, que criou o indivíduo. 
   
A mentalidade da "interrogação sem fim" que o livre-exame deveria estimular é 
substituída pela palavra de Deus, encontrada de forma acabada na Bíblia, verdade absoluta 
que deve ser fielmente interpretada. No entanto, o livre-exame continua afirmado e de tal 
modo que o controle é tênue, pois há sempre a possibilidade de ampliação da pluralidade, 
com a formação de uma nova igreja, ainda que batista. 
   
  
   
 
 
   
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
   
  
   
FONTES PRIMÁRIAS 
   
  
   
Autores Batistas 
   
ANDRADE, Roque Monteiro de. 
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