Israel belo de azevedo



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A CELEBRAÇÃO DO INDIVÍDUO 
   
  
   
A formação do pensamento batista brasileiro 
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
ISRAEL BELO DE AZEVEDO 
   
  
   
  
   
3ª ediÇÃo 
   
 
 
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
para 
   
Rita 
   
  
   
e igualmente para 
   
Rachel 
   
  
   
pelas razões 
   
que nossos corações 
   
conhecem 
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
  

   
  
   
  
   
  
   
  
   
  
   
"O cuidado da alma de cada homem pertence a ele próprio e deve ser deixado por 
conta dele. (...) Além disso, mesmo Deus não salvará os homens contra a vontade deles". 
   
(John Locke) 
   
  
   
 
SUMÁRIO 
   
  
   
1. VARIAÇÕES EM TORNO DE UM TEMA 
   
  
   
2. PROTESTANTISMO: A CONTINUIDADE DE UMA RUPTURA 
   
Entre o velho e o novo 
   
O mundo como ele é 
   
A síntese do novo 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
3. AS (RE)FORMAS DA REFORMA 
   
A justificação pela fé 
   
A segunda reforma 
   
A experiência batista 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
4. A GRANDE TRANSFORMAÇÃO 
   
A formação americana 
   
Mudando o novo 
   
A formação batista 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
5. O MODO PROTESTANTE BRASILEIRO DE PENSAR 
   
Para uma tipologia genética do protestantismo 
   
locus do pensamento protestante brasileiro 
   
Momentos da teologia protestante no Brasil 
   
A teologia nos arcanos do inconsciente 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
6. A CONSTRUÇÃO DO MODO BATISTA DE PENSAR 
   
A presença batista no Brasil 
   
A produção do pensamento 
   
A autocompreensão 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
7. UM DISCURSO QUASE LIBERAL 
   
A afirmação da diferença 

   
Uma (quase) suma teológica 
   
Primeira conclusão 
   
  
   
8. ESSE LIBERALISMO BATISTA 
   
No mesmo lugar 
   
Um modo de pensar 
   
Que liberalismo? 
   
  
   
  
   
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
   
  
   
 
LISTA DE QUADROS 
   
  
   
1. OS EIXOS DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ 
   
2. PRINCÍPIOS DO CALVINISMO PURITANO 
   
3. EIXOS DO CALVINISMO PURITANO E DO ARMINIANISMO 
   
4. PRINCÍPIOS DA TEOLOGIA BATISTA NO SÉCULO 17 
   
5. TEOLOGIA PROTESTANTE AMERICANA NO SÉCULO 17 
   
6. TEOLOGIA PROTESTANTE AMERICANA NO SÉCULO 19 
   
7. PRINCÍPIOS DA TEOLOGIA BATISTA AMERICANA   
   
8. MOMENTOS DA TEOLOGIA PROTESTANTE BRASILEIRA 
   
9. CARACTERÍSTICAS DO OLHAR PROTESTANTE BRASILEIRO 
   
10. POPULAÇÃO BATISTA 
   
11. PRODUÇÃO TEOLÓGICA DOS BATISTAS BRASILEIROS (1994)   
   
12. PRINCIPAIS TEÓLOGOS BATISTAS BRASILEIROS 
   
13. AUTORES BATISTAS E SUAS PRINCIPAIS OBRAS 
   
14. PRINCÍPIOS DA TEOLOGIA BATISTA BATISTA BRASILEIRA 
   
15. QUADRO COMPARATIVO DAS CRENÇAS BATISTAS 
   
  
   
 
LISTA DE TABELAS 
   
  
   
1. ORIGEM DAS EDITORAS EVANGÉLICAS 
   
2. BIBLIOGRAFIA TEOLÓGICA BRASILEIRA 
   
3. PRODUÇÃO TEOLÓGICA PROTESTANTE (1994) 
   
 

   
VARIAÇÕES EM TORNO DE UM TEMA 
   
  
   
"A palavra batista nos sai do período apostólico como significação rica, autorizada, 
permanente no cristianismo puro. 
   
Os batistas modernos são os únicos que atualmente conservam na sua inteireza esta 
permanente, gloriosa e vital contribuição do Espírito Santo ao nosso conhecimento da 
verdade e vontade de Deus. 
   
(...) 
   
Não admiramos a mera tolerância. Insistimos na liberdade de crença, a separação da 

igreja e o estado, a voluntariedade em religião, na família, no estado, na escola e em toda a 
vida cristã. 
   
  Morreremos para que outros tenham a liberdade de anunciar seus princípios 
religiosos, embora discordemos dos mesmos princípios".   
   
(W.C. TAYLOR [1]) 
   
  
   
  
   
 
Não dá para ignorar o pensamento de um grupo religioso como os batistas, nascidos na 
Inglaterra elizabetano, desenvolvidos nas colônias e estados norte-americanos e inseridos no 
Brasil imperial. 
   
Não dá para ignorar um pensamento inscrito nas próprias origens do liberalismo 
europeu, gestado no interior do voluntarismo [2] do individualismo norte-americano e 
autopensado como força capaz de introduzir o Brasil à modernidade barrada pelo catolicismo 
romano. 
   
Não dá para ignorar um pensamento esposado por mais 800 mil pessoas 
(adolescentes e adultas) no Brasil e mantido coesa por meio de dezenas publicações 
periódicas e centenas de livros nas mais diversas áreas. 
   
Assim, os batistas como tópico de estudo se justificam em si mesmos, pela sua 
antigüidade e presença no Brasil, marcadas por um certo tipo de compromisso social e por 
uma certa regularidade em termos de crescimento e institucionalização. Eles são hoje a maior 
denominação (823 mil membros registrados) do protestantismo de missão no Brasil, mas seu 
pensamento não foi ainda objeto de estudos. Ademais, internamente, não tem feito parte da 
reflexão deste grupo religioso refletir sobre sua reflexão. Não se busque uma história da 
teologia batista, porque o esforço será imenso pela sua ausência na bibliografia 
denominacional. 
   
Mais especificamente, registre-se o lugar dos batistas no pensamento cristão em geral 
e no protestante em particular, tanto em termos de produção de reflexões quanto no plano da 
sua contribuição para a expansão das idéias cristãs. 
   
Os batistas fazem parte da gênese do pensamento liberal inglês. Não se pode dizer 
que sejam tributários do liberalismo, porque é mais verdadeiro dizer que integram o mesmo 
movimento que se consolidou no liberalismo primitivo, embora não tenha ido para o deísmo, 
por exemplo, entre outros racionalismos. De qualquer modo, com certeza, a ênfase na 
liberdade individual e no princípio da separação entre igreja e estado são uma evolução do 
puritanismo ou uma apropriação do liberalismo. 
   
Quando alguns batistas emigraram para as Treze Colônias americanas, o ideário 
permaneceu e esteve onipresente na sua relação com o novo mundo. O modo de pensar se 
transformou mas conservou e consolidou o espírito inglês. Se a ênfase à liberdade era uma 
necessidade de sobrevivência na Inglaterra, nos Estados Unidos também o seriam. Se a 
ênfase à separação do estado era, na Inglaterra, uma questão de vida, nos Estados Unidos o 
era de morte. Por isto, esses valores permaneceram intocados. 
   
A expansão batista pelo mundo deve ser creditada aos norte-americanos, mas em 
diálogo com os europeus. Isto é: o pietismo germânico fez retornar ao cenário a preocupação 
com os outros, esquecida do protestantismo de estado, em que se tornaram o luteranismo e o 
presbiterianismo. Esse pietismo inspirou os batistas norte-americanos acerca dessa tarefa, 
embora tenha sido um inglês (William Carey) o primeiro a tomar o "ide por todo o mundo" 
como uma tarefa para sua igreja e sua geração. 

   
Os batistas no Brasil são tributários dessa visão salvacionista. Os primeiros (e por que 
não dizer? todos os) missionários designados para a América do Sul vieram para salvar o 
continente, que era considerado pagão, já que estava catolicizado, mas não cristianizado. 
Evidentemente, todo arcabouço teológico herdado trazia este anticatolicismo, preexistente 
nos Estados Unidos. [3] 
   
De resto, é preciso considerar que a teologia batista como um todo é, erroneamente, 
considerada muito pobre. Os manuais de história da teologia protestante praticamente a 
ignoram, talvez por achá-la escrava de um didatismo, que lhe furta toda originalidade. No 
entanto, repita-se, há uma especificidade no seu pensamento, conquanto, evidentemente, o 
substrato cristão e o substrato protestante são maiores, se se pudesse quantificar idéias. 
   
No início deste século, um batista norte-americano, E.Y. Mullins, escreveu 
apologeticamente que o que distingue os batistas é a sua "doutrina da competência da alma 
em matéria de religião, em subordinação a Deus", ênfase que "une e concentra em si" três 
princípios da modernidade: o princípio intelectual da Renascença, sobre a "capacidade e 
direito do homem" para o exercício da liberdade"; o "princípio anglo-saxônico da liberdade 
mental", e o princípio reformado da justificação pela fé. 
   
Segundo esse mesmo autor, os batistas têm transformado e modificado estas 
tendências, dando-lhes estruturas mais nobres e tornando-as mais frutíferas. Ao insistir na 
"competência religiosa do homem", os batistas têm, a um tempo, "livrado a liberdade 
intelectual de todas as espécies de repressão humana", e, a outro, guiado essa liberdade a 
meta do homem, que é alcançar a Inteligência por trás do universo visível. É o que diz 
Mullins: 
   
  
   
"A intelectualidade humana iluminada pela intelectualidade divina, eis o ponto de 
vista batista. Defendendo o individualismo, têm livrado o princípio anglo-saxônio de uma 
tendência desumana e egoísta, definindo-o como um impulso moral e religioso sob a direta 
tutela do guia moral da humanidade -- Jesus Cristo. Têm, outrossim, levado o princípio da 
Reforma, da justificação pela fé, para além dos sonhos de Lutero e dos outros reformadores. 
Têm apoiado tudo o que está implícito no princípio da justificação. 
   
A grande luta pela liberdade religiosa e pela separação entre a Igreja e o Estado, que 
os batistas iniciaram, tem sido o desabrochar coerente de um ideal maior do que o que Lutero 
acariciou, o qual tem ajuntado, de forma a constituir uma perfeita unidade, todos os tesouros 
morais e espirituais da própria Reforma. 
   
(...) 
   
Este princípio da competência da alma, subordinado a Deus em assuntos religiosos, 
tem (...) a sua oculta filosofia. (...) O princípio da competência presume que o homem é feito 
à imagem de Deus, e que Deus é uma pessoa apta para se revelar a si mesmo ao homem, o 
que constitui o teísmo cristão. O homem tem capacidade para Deus, e Deus pode 
comunicar-se com o homem. Esta filosofia (...) é a base de todo o movimento cristão. A 
encarnação de Deus em Cristo é a grande prova histórica que temos disso". [4] 
   
  
   
Esta percepção por si justifica um estudo para verificar a natureza desta 
especificidade. Eis o que se pretende fazer. 
   
Antes, porém, de se adentrar ao objeto da análise empreendida, é necessário 
considerar os vocábulos "protestante" e "batista", se se pretende um pouco mais de precisão 
conceitual. Será preciso discutir o conceito de liberalismo adotado. 
   
Conquanto o protestantismo hoje designe diversas confissões, estritamente só deveria 

descrever os luteranos, uma vez que o termo surgiu popularmente para designar os príncipes 
que, minoritários na Dieta de Speier de 1529, protestaram contra a ab-rogação do princípio 
"Cujus regius, cujus religius", aprovado na Dieta anterior. 
   
Pelo uso na história, passou a ser aplicado a todos os grupos religiosos decorrentes 
dos movimentos reformadores (cisores) do século 16: os matrizes (luteranos, presbiterianos 
[calvinistas e zwinglianos], anglicanos e anabatistas; os herdeiros (congregacionais, batistas 
e metodistas) e os vice-herdeiros (adventistas e pentecostais, entre os principais). O traço de 
genericidade é dado pela afirmação dos três princípios de Martinho Lutero (1483-1546): 
"solus Christus", "sola Fide" e "sola Scriptura". 
   
No Brasil, o adjetivo tem sua história entre os próprios protestantes, marcada pela 
aceitação majoritária e pela recusa parcial do termo, trajetória sempre dependente do tipo de 
relações mantidas com a religião cristã hegemônica. Os grupos matrizes aceitam o 
designativo sem problemas, com alguns deles usando-o pouco pela coloração (possível) 
polêmica que pode assumir; dos herdeiros, os metodistas utilizam-no sem receios, mas 
congregacionais e batistas preferem o genérico "evangélicos", o mesmo ocorrendo com os 
vice-herdeiros. 
   
"Evangélicos" e "protestantes" referem-se a seguidores de qualquer dessas 
confissões. Pode-se, porém, observar uma tendência pelo segundo, para evitar uma confusão 
(própria da língua inglesa) possível: como designar aqueles evangélicos de posição 
ético-teológica conservadora inaugurada por uma conversão pessoal súbita? Pode-se 
comparar um evangélico para quem sua confissão de fé tem um sentido vagamente cultural 
com um cuja afirmação religiosa tem um significado densamente moral e existencial (mesmo 
que numa igreja de extração majoritariamente étnica, por exemplo)? Como traduzir o termo 
evangelical, que é como os norte-americanos têm epitetado os fiéis desse segundo grupo? [5] 
   
Quanto aos batistas, surgidos na Inglaterra do século 17 para responder a 
necessidades específicas, ultrapassaram os séculos e as fronteiras. São hoje no Brasil mais de 
800 mil crentes batizados, cifra que exclui, como os batistas o fazem, seus filhos e familiares, 
bem como outros freqüentadores habituais. 
   
Entender o que pensam eles exige esforços específicos, a começar pela fixação de 
uma tipologia. 
   
Desde Max Weber e Ernst Troeltsch, acostumou-se a olhar os fenômenos religiosos 
com o auxílio da tipologia religião/igreja/seita. Os chamados novos movimentos religiosos 
(ultra-cristãos, extra-cristãos e para-cristãos), aparecidos no cenário após a segunda guerra 
mundial e com mais nitidez nos anos 60, como parte do movimento conhecido como 
contra-cultura, tornaram ainda mais insuficiente essa tipologia. 
   
Tradicionalmente, tem-se pensado nas religiões como grandes sistemas, bem 
elaborados, e que comportam igrejas (pode-se falar em igreja com referência a movimentos 
religiosos orientais bem cristalizados?) e seitas. As igrejas são a formalização 
hierárquico-jurídica de um conjunto doutrinário no interior de uma religião, enquanto as 
seitas são movimentos no interior de uma igreja e que exigem de seus fiéis uma radicalidade 
maior de opção. 
   
Numa tentativa de recuperar esta tipologia e de abarcar outros fenômenos, uma 
tipologia possível, a partir da experiência cristã, é a seguinte: 
   
  
   
- religiões 
   
- igrejas 
   
- movimentos 

   
- seitas 
   
- agências 
   
- denominações 
   
  
   
Assim, religiões são sistemas antigos, bem elaborados e universais, com 
divindade(s), cosmogonias, teodicéias e soteriologias próprias, todas expressas num livro 
sagrado absoluto. 
   
Por sua vez, igrejas são instituições que, através de cânones conhecidos, rotinizam as 
crenças e práticas dos fiéis de uma determinada religião. 
   
No outro pólo, movimentos religiosos são manifestações de religiosidade paralela e 
tributárias das grandes religiões. Eles canalizam e satisfazem necessidades que transcendem 
o plano das carências meramente religiosas. Enquanto movimentos, não se preocupam muito 
em ser uma organização burocrática. [6] 
   
Seitas são manifestações religiosas centralizadas em torno de um líder e de um 
conjunto de regras doutrinárias e práticas bem definidas. Grupos de associação voluntária 
surgem no interior de uma religião e/ou igreja estabelecida [7]e recrutam adeptos pela 
conversão ou conhecimento/aceitação da doutrina do grupo. Além disso, dão ênfase à reta 
doutrina, cuja defesa é tarefa de todos (daí, motos como "defesa da sã doutrina"), impõem um 
código de ética (escrito ou não) rígido, afirmam o sacerdócio universal dos crentes, pelo que 
incentivam a participação dos leigos e destacam a irmandade pessoal, e mantêm uma atitude 
de afastamento da sociedade (do Estado, da política, etc.), constituindo-se numa espécie de 
contra-cultura ou sub-cultura auto-sitiada. [8] 
   
Agências não governamentais de origem religiosa são organizações de serviço social 
ou de serviço religioso. Estas têm seus integrantes recrutados geralmente nas igrejas e que 
atuam por meio delas ou ao longo delas. 
   
Essa tipologia não é suficiente para o entendimento das várias manifestações 
protestantes. Se algumas delas podem ser classificadas como seitas, a maioria não pode, entre 
outras razões porque não têm um líder e nem se comportam como se estivessem sitiados no 
seu meio. Também não são igrejas, porque não são tão inclusivas, no sentido que Troeltsch 
deu ao termo, já que alguns dos seus grupos se constituem à parte dos outros, embora sigam 
as mesmas linhas gerais doutrinárias e administrativas. [9] 
   
No caso dos batistas, a insuficiência da tipologia é evidente. Não centralizam suas 
práticas em função de um líder, embora sejam uma associação voluntária. Se recrutam 
adeptos pela conversão ou aceitação tácita da doutrina do grupo, cada vez mais sua 
membresia é formada por filhos de batistas, que refletem mais em termos existenciais e 
menos doutrinários. Com isto, até mesmo o código de ética, antes estrito, torna-se frouxo. 
   
De igual modo, o sacerdócio universal dos crentes vai se tornando letra morta, com o 
profissionalização dos servidores da comunidade local. Se mantêm uma atitude de separação 
entre igreja e estado, não se pode dizer que constituam uma contracultura ou subcultura. 
   
A seita do século 17 inglês torna-se a partir do século 19 norte-americano uma 
denominação, que pode ser caracterizada pela tomada de posse dos valores cristãos como se 
lhes fossem exclusivos. Assim, no interior do cristianismo, as denominações podem ser 
vistas como conjuntos de tradições seguidas por igrejas. 
   
Denominação, portanto, é a forma específica e histórica que uma igreja toma. No 
interior do cristianismo, as denominações podem ser vistas como conjuntos de tradições 
seguidas por igrejas. Os batistas integram uma denominação. 
   
Nessa condição, seu pensamento será analisado como parte do quadro geral do 

liberalismo, essa utopia que "comporta uma larga variedade de valores e crenças" [10]e 
"penetra em toda a estrutura vital do mundo moderno". [11]Aqui, por agora, esse fenômeno, 
de difícil definição, [12]será conceituado genericamente como um sistema de pensamento 
que valoriza a livre expressão da personalidade individual, a capacidade humana em tornar 
essa expressão em algo útil para o indivíduo e a sociedade e que defende as instituições e 
práticas que protejam e nutram a livre expressão e a confiança nesta liberdade. [13] 
   
Dito de outro modo, o liberalismo é "uma nova filosofia, uma nova ética, uma nova 
teoria jurídica e uma nova política" pela qual, "explorando as profundezas de sua 
subjetividade", o homem firma, a partir do século 17, "o princípio da liberdade de 
consciência, indispensável à sua salvação e realização plena". [14]Foi, portanto, um 
movimento em defesa do indivíduo contra o arbítrio dos governos. [15]Seus postulados 
básicos se cingiram em torno do naturalismo, do racionalismo, do individualismo, do 
progressismo e do relativismo, entre outros aspectos. 
   
Esse liberalismo se pluralizou em vários focos, segundo a tipologia de Roque Maciel 
de Barros: o clássico, o romântico, o cientificista e moderno. [16]Interessa aqui só o 
primeiro, que é demarcado por grandes quatro etapas na sua constituição: liberalismo 
religioso, liberalismo político, liberalismo econômico, sistematizado por Adam Smith, e 
liberalismo ético, pensado por Rousseau e Kant. [17]A estes deve ser acrescentado o 
liberalismo teológico, também chamado de modernismo teológico, que consistiu num 
esforço de submeter a teologia aos crivos da razão e da experiência. [18] 
   
Assim, as origens do liberalismo devem "ser buscadas nas mesmas raízes de que 
nasce o moderno pensamento ocidental", vale dizer, "naquela época que se convencionou 
designar por Renascimento e que se espraia, sem fronteiras nitidamente definidas", pelos 
séculos seguintes. Em síntese, o liberalismo está intimamente associado à nova concepção do 
mundo, ao novo posto do homem no cosmos e ao novo sentimento da vida, "típicos do 
nascente homem moderno, em contraposição ao homem medieval". [19] 
   
O protestantismo integra esse novo sentimento que converteu o homem em 
"indivíduo espiritual", que só poderia florescer como consciência livre. "Essa reivindicação 
de liberdade de consciência constitui a primeira peça na constituição do sistema do 
liberalismo clássico". [20] 
   
O princípio da liberdade religiosa foi formulada genericamente por Lutero e Calvino 
(1509-1564), a partir de duas grandes idéias-forças: a fé (como confiança em Deus e também 
em si mesmo), pela qual o indivíduo adquire um íntimo sentido de confiança e de 
responsabilidade, e o livre-exame (da Bíblia e também das faculdades mentais e das 
atitudes), que remove os obstáculos da tradição escolástica e da dogmática. [21] 
   
Esses princípios foram radicalizados pelos puritanos ingleses não-conformistas, ao 
ponto de William E. Gladstone (1809-1898) ter-lhes considerado "a espinha dorsal do 
liberalismo", especialmente pelo fato de seu sucesso estar ligado à iniciativa, à propaganda e 
à concorrência. [22]De fato, por necessidade de sobrevivência, os não-conformistas, entre os 
quais os batistas, organizaram-se a partir do princípio de liberdade de consciência, cuja 
decorrência foi a idéia de igrejas livres em sociedades livres, proposta que servia de modelo 
também para a organização política. [23] 
   
Depois, Locke integrou o princípio de liberdade de consciência ou de religião ao 
sistema geral da liberdade, [24]contribuindo para que a revolução puritana desenvolvesse, 
estendesse e oferecesse seus princípios como uma "orientação aos tempos modernos em 
termos dramáticos e inesquecíveis". [25] 
   
É deste liberalismo que se ocuparão as páginas seguintes. 

   
 

   
  
   
PROTESTANTISMO: A CONTINUIDADE DE UMA RUPTURA 
   
  
   
"O protestantismo se entende como o espírito da liberdade, da democracia, da 
modernidade e do progresso. O catolicismo, por oposição, é o espírito que teme a liberdade e 
que, como conseqüência, se inclina sempre para soluções totalitárias e se opõe à 
modernidade. (...) 
   
Se perguntarmos à história: 
   
-- De que lado estás? Qual o teu destino? 
   
Ela responderá: 
   
-- O catolicismo é o passado de onde venho. O protestantismo é o futuro para onde 
caminho". 
   
(RUBEM ALVES   [26]) 
   
  
   
  
   
 
Os batistas são protestantes. 
   
A afirmação, tautológica, tem tantas dificuldades de passar pelo crivo desse grupo 
denominacional quanto uma corda perpassar o fundo de uma agulha. 
   
Apesar desta negativa, não há como considerá-los exceto como parte deste 
movimento religioso moderno. 
   
Entender suas idéias e seus compromissos no Brasil demanda o mesmo 
procedimento. 
   
Por isto, será preciso começar pelo protestantismo, mesmo que isto represente uma 
incursão mais etnográfica do que filosófica. A pressuposição que subjaz a esta análise é que, 
no interior de cada denominação, há um protestantismo completo, que não admite reparos. 
Há diferenças. Umas denominações as absorvem. Outras as toleram. E ainda outras as 
expulsam. Os batistas sorvem-lhe o veio, destacam-lhe algumas marcas, convivem com 
outras e rechaçam umas poucas. 
   
Obviamente, o cristianismo é a fonte, localizada quilômetros de anos atrás. Formado 
na funda do tempo, farto de águas, fecundo de formas, firme de curso, forte de correnteza e 
fundo de leito, o rio acabou por se fender no século 16. O catolicismo europeu tornou-se 
fonte. Só que o protestantismo começou como uma negação. Por isto, protestantismo... 
   
No Brasil, o que chegou foi o protestantismo norte-americano, transplantado da 
Europa. O transplante de um transplante é o que se tem aqui. E nem por isto ele é um 
protestantismo menor. 
   
Se não desbancou o catolicismo brasileiro em termos numéricos, alcançou dos seus 
seguidores um grau de fidelidade diferente da fidelidade católica. Rural quando o Brasil era 
rural e urbano quando o Brasil se fez urbano, o protestantismo brasileiro tornou-se uma 
alternativa religiosa para o homem brasileiro, oferecendo símbolos mais decodificáveis, 
entendido como mais racionais, para consumo do grupo de fé, o qual está ao alcance do olhar, 
diferentemente da multidão na missa ou na procissão... católica. 
   
Mesmo quando o pentecostalismo trouxe a multidão para o templo, estes símbolos 
continuaram acessíveis, por serem apresentados como uma repetição viva dos ritos do Novo 
Testamento. Logo, são passíveis de exame pelo fiel. Esta volta ao passado longínquo, 

codificado num livro à mão (a Bíblia), representa, paradoxalmente, diferentemente do 
catolicismo, sempre comprometido com a manutenção da tradição, cuja origem é 
apresentada como mistério numa língua (o latim) que pouca gente conhece, uma revolução. 
   
Este protestantismo se constituiu também numa forma de pensar e de ser para os 
brasileiros. Nos seus inícios, foi, pelo menos para um intelectual, a possibilidade de conciliar 
as exigências da modernidade com os caminhos da fé. O liberalismo religioso de Rui Barbosa 
(1849-1923) é emblemático. Conquanto continuasse católico na prática até o fim de sua vida, 
sua teologia esteve mais próxima do pensamento protestante, tanto no que se refere à relação 
entre igreja e estado quanto à natureza do relacionamento homem-Deus. Por isto, não é 
casual que os protestantes tenham eleito Rui seu maior tribuno. [27] Também não foi por 
acaso que o clero brasileiro o elegeu como seu inimigo quando ele se fez candidato à 
presidência da república. 
   
Esta oferta de cidadania se mostrou outra vez no Brasil urbano da segunda metade do 
século 20. O evangélico, especialmente o pentecostal, se traja diferente. Este seu vestir, um 
tanto exótico para o resto da população, dá-lhe a certeza de ser alguém, não apenas um rosto 
na multidão anônima. Na igreja, os cargos não são preenchidos necessariamente conforme a 
escolaridade ou a condição financeira do fiel. Em princípio, qualquer um pode ser o 
presidente da igreja. No caso dos cultos ultra-pentecostais, qualquer um pode ser pastor, 
missionário, presbítero ou diácono. Até mesmo as mulheres. [28] 
   
Uma demonstração do papel deste tipo de percepção está na recorrência de um 
fenômeno. Quando essas igrejas adotam posturas em direção a um desenho mais confortável 
e mais sofisticado dos seus templos, a uma educação teológica formal de seus pastores, a uma 
profissionalização dos seus líderes, a uma secundarização das restrições impostas no campo 
da chamada moral dos costumes e a uma elevação da qualidade editorial e gráfica das suas 
publicações, entre outros aspectos, do seu interior irrompem outros grupos, a pretexto de 
retomar a vocação originária da igreja. 
   
Richard Niebuhr (1894-1962) já tinha observado este movimento, ao descrever a 
passagem das seitas a igrejas: 
   
  
   
"O tipo sectário de organização é válido apenas para uma geração. Os filhos nascidos 
dos membros voluntários da primeira geração começam a fazer da seita uma Igreja, muito 
antes de chegarem à maturidade. Com o advento deles a seita deve assumir o caráter de 
instituição educacional e disciplinar com o propósito de levar a nova geração à conformidade 
com os ideais e costumes que se tornaram tradicionais. Raramente a segunda geração assume 
as convicções no calor do conflito e sob o risco do martírio. Como as gerações se sucedem, o 
isolamento da comunidade em relação ao mundo torna-se mais difícil. (...) Assim, a seita se 
transforma em Igreja". [29] 
   
  
   
Como no interior das novas igrejas, as insatisfações voltam e se cristalizam em novas 
tendências sectárias, o protestantismo vive uma espécie permanente do mito do eterno 
retorno. No interior de cada igreja, teologia e prática verdadeira são as consideradas fiéis às 
suas próprias origens, identificadas com as origens do próprio cristianismo. 
   
Sob certo aspecto, os primeiros protestantes propuseram-se precisamente a recriar 
uma igreja fiel ao Novo Testamento. Se é verdade que os anabatistas colocaram 
explicitamente o ideal da restauração como meta do seu movimento, [30]Lutero fez o 
mesmo, ao restaurar o princípio paulino da justificação pela fé. De igual modo procedeu 
Calvino, ao centrar sua concepção de igreja na doutrina também paulina da amplitude do 

pecado original. 
   
  
   
ENTRE O VELHO E O NOVO 
   
Uma pergunta que os historiadores do pensamento se têm feito é se o protestantismo 
pode ser considerado um fenômeno moderno ou ainda medieval. [31]Em outras palavras, seu 
ideário diz respeito a perguntas modernas ou antigas? A pergunta se aplica à própria natureza 
do humanismo/renascentismo. 
   
Como pressuposto à resposta a este problema, pode-se afirmar, com James Adams, 
que "a era moderna com sua tremenda criatividade resultou da fé protestante com a 
humanista", [32]daí decorrendo as noções de tolerância, educação e democracia, das quais o 
protestantismo se considera fundador. 
   
Problemas de precedências, paradoxos e semelhanças à parte, a Renascença e o 
humanismo são aqui tomados como duas dimensões de uma mesma 

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