Faculdade teológica do brasil "Entidade Educacional Com Jurisdição Nacional"



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V. Dia da Renovação da Aliança
Devemos ainda acrescentar um parágrafo sobre as lições espirituais que emanam desse período, à luz das Escrituras? Calvino certa vez disse o seguinte sobre aqueles que querem tirar uma série de aplicações de um texto bíblico: "A Escritura é frutífera em si mesma." Parece que as lições históricas neste caso são óbvias. E cada um de nós deve aplicá-las à vida, dependendo da nossa posição no processo histórico atual. Oremos para que aprendamos a andar em humildade, a fim de não perdermos o verdadeiro avivamento, não promovendo um avivamento pelo esforço próprio, nem rejeitando as bênçãos incontáveis da obra do Senhor.

"Avivamento" é uma palavra muito bíblica, significando reviver. Não deveríamos perdê-la por causa de abusos. O conceito de avivamento também é muito bíblico: retornar ao Senhor, humilhar-se e começar a ter uma vida purificada, produzindo mais frutos do Espírito Santo.(27) Não devíamos perder o conteúdo por causa de uma palavra. Se não quisermos usar a palavra "avivamento," para nós da tradição reformada uma expressão como "Renovação da Aliança" ajudaria muito a entender o que o Senhor quer de nós. Aquela súplica — "Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos" — é uma oração ensinada pelo próprio Espírito Santo. E o Senhor nos convoca a renovarmos a aliança que ele estabeleceu conosco, renová-la em todos os seus aspectos. Um dia especial para enfatizar essa renovação da aliança pode ser para nós presbiterianos o dia do aniversário da nossa igreja, 12 de agosto. Ou talvez o dia de Pentecoste, o dia do aniversário da igreja universal. Mas, qualquer dia que seja, seria um dia de oração e jejum para que o Senhor não nos lance fora, ao contrário, nos use, não para o nosso próprio triunfalismo oco, e sim para a sua glória, para a salvação de muitos perdidos, e para a santificação e edificação da igreja, a fim de que ela seja sal da terra e luz neste mundo tenebroso, como é o desejo profundo de todo verdadeiro presbiteriano.



Notas

1 Habacuque 3.2 (Almeida Revista e Atualizada).

2 Para um resumo sobre religião na América do Norte, ver W. S. Hudson, Religion in America (New York: Scribner’s, 1993). Para o período colonial, ver W. W. Sweet, Religion in Colonial America (New York: Scribner’s, 1942).

3 Sobre Makemie, ver I. M. Page, The Life Story of Rev. Francis Makemie (Grand Rapids: Eerdmans, 1938).

4 Adotado pela Igreja Presbiteriana da Escócia em 1635. Os Estados Unidos tornaram-se independentes em 1776, e em 1789, o ano em que a França sangrava por causa da revolução, realizou-se a primeira Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, incorporando muitos dos antigos huguenotes.

5 Assim também Philipp J. Spener, o grande líder do pietismo na Igreja Luterana da Alemanha, em seu famoso livro Pia Desideria ("desejos piedosos"), publicado em 1675.

6 Sobre Tennent e sua escola, ver M. A. Tennent, Light in Darkness: The Story of William Tennent, Sr. and the Log College (Greensboro, NC: Greensboro Printing Co., 1971).

7 Ml 3.3; absolutamente necessário, senão Deus amaldiçoará até as nossas bênçãos (Ml 2.2)!

8 Como eram chamados os ministros da Igreja Reformada Holandesa: dominie, do latim dominus, "senhor."

9 Sobre a posição oficial, o crescimento e os problemas dessas igrejas reformadas (inclusive depois da conquista de Nova Amsterdã pelos ingleses em 1664), ver Gerald F. De Jong, The Dutch Reformed Church in the American Colonies (Grand Rapids: Eerdmans, 1978).

10 Wilhelm Goeters, Die Vorbereitung des Pietismus in der Reformierten Kirche der Niederlande bis zur Labadistischen Krisis, 1670 (Amsterdam: T. Bolland, 1974).

11 L. J. Trinterud, The Forming of an American Tradition (Philadelphia: Westminster Press, 1949).

12 Jonathan Edwards, Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, 3a. ed. (São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, c.1993).

13 Sobre Whitefield, ver A. A. Dallimore, George Whitefield, 2 vols. ([London]: Ed. Banner of Truth Trust, [1970]).

14 A. Alexander, comp., Sermons and Essays by the Tennents and their Contemporaries (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, [1855]).

15 Os congregacionais dividiram-se em "Old Lights" e "New Lights," os batistas em "Regulars" e "Separatists."

16 Se houve também uma dupla lealdade por causa de ligações maçônicas, não ficou claro até agora. Nesse século XVIII de racionalismo, a maçonaria era uma espécie de reação mística contra o árido deísmo. Começou em Londres em 1717 e trinta anos depois já era influente na colônia americana.

17 "The Old and New Side" do século XVIII não devem ser confundidos com "The Old and New School" do século XIX.

18 Ver Jonathan Edwards, A Vida de David Brainerd (São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 1993). Para essa biografia do seu genro, Edwards baseou-se em grande parte no diário de Brainerd.

19 "Almighty grace, my soul inspire, and touch my lips with heavenly fire."

20 Dessas escolas paroquiais nasceram instituições educacionais conhecidas, como a Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

21 Valeria a pena um estudo aprofundado sobre as congregações da IPB que foram perdidas.

22 Exigência incluída também na Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, no seu Art. 32.

23 Cf. o seu sermão publicado, "Irenicum Ecclesiasticum" (1749).

24 O mesmo fenômeno de crescimento numérico ocorreu entre os congregacionais: na região de Boston havia nessa altura quase três vezes mais pastores avivados do que tradicionalistas.

25 Trinterud, Forming of an American Tradition, cap. 8: "The Withered Branch."

26 Ruy dos Santos Pereira, Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e Universidade Federal de Pernambuco, 1980), 23.27 2 Cr 7.14. Existem muitos exemplos históricos, como Js 5, 24; 2 Cr 29-30; Ne 8, etc
Fonte: Revista Fides Reformata

AS QUATRO INDISPENSÁVEIS QUALIDADES DE
UMA IGREJA MISSIONÁRIA
ESTUDO SOBRE A IGREJA
TEOLOGIA GRÁTIS PARA TODOS


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"E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram" (At 13.2,3).

Como deve ser caracterizada a igreja evangélica brasileira em seu propósito de ser uma igreja verdadeiramente missionária no Brasil e no mundo? Biblicamente falando, todo campo missionário deveria se tornar, obrigatoriamente, numa base missionária. Mas por uma série de fatores que lamentamos, nem sempre é essa a realidade em termos de igreja brasileira. Já a igreja de Antioquia era, sem sombra de dúvida, um exemplo de igreja missionária. A igreja que outrora foi campo, que o Espírito Santo preparou para receber a boa semente do evangelho, cresceu e frutificou, passando a ser oficialmente o portal da missão entre os gentios; pois quando o Espírito Santo disse em Atos 13.2, "Separai-me agora ..." a partir daquele momento a igreja de Antioquia não seria mais a mesma em termos de visão e ação missionárias.

Os princípios que nortearam a vida da igreja de Antioquia, e que, com certeza, deveriam inspirar todas as igrejas, foram cuidadosamente observados e registrados por Lucas em Atos 13.



Igreja missionária é igreja adoradora

Atos 13.2 inicia assim: "E, servindo eles ao Senhor...". O particípio presente leitourgountwn (servindo [ARA], workshiping [NIV]), do verbo leitourgéw, é empregado por Lucas em Atos 13.2 com o mesmo significado de latréw, isto é, "servir em adoração"; "prestar culto a Deus". O particípio presente indica ação contínua.

Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente adoradora e vice-versa. Orlando Costas estava certo quando disse que "o culto está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a conversão das nações ao Deus trino e uno".

E ainda:

O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e mulheres em Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de Deus.

Talvez um dos piores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja brasileira em nossos dias seja os constantes debates em torno da tarefa prioritária da igreja. E não estamos nos referindo à questão da evangelização e responsabilidade social, outro assunto desnecessariamente polarizado. Ao contrário, estamos falando da dicotomia existente entre culto e missões. E a discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às vezes é o que de fato acontece), mas sim, o que deve ser considerado em primeiro lugar.

As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado temos os que insistem que "missões são a segunda mais importante atividade no mundo", ou que "missões existem porque o culto não existe". Do outro lado, tem quem afirme ser "um absurdo dizer que muitas são as responsabilidades da igreja. Igreja é missões". Para os defensores da primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a Deus e as missões aos homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da igreja. Os defensores da segunda posição argumentam, por sua vez, que é preciso mais que adoração. "É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao ide de Jesus". Será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da outra, como temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais importante que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento equilibrado de Orlando Costas:

Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a reunião do povo enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está fazendo mediante a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão é a culminação e antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade redimida dá evidência concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de oração e testemunho".

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47), e missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf. At 13.44-49). Pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa de mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. "A liturgia sem missão é como um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado".



Igreja missionária é igreja de oração

José Martins disse corretamente: "A oração é a essência da obra missionária. Não é só uma atividade necessária ao sucesso da obra - é a obra em si. É a prática mais missionária possível, quando vivida de maneira bíblica". É evidente que Martins não quer dizer que oração e missões são a mesma coisa, e sim, que essas duas atividades devem vir interligadas uma na outra. Nunca é demais enfatizar a importância da prática da oração na obra missionária.

Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Esta verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente.

Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: "E, servindo eles ao Senhor, e jejuando...". O fato da igreja estar jejuando subentende-se que ela estava também orando.

Seria incoerente pensar que uma igreja que estava adorando a Deus e jejuando não estivesse em oração. Nem toda oração é feita em jejum, mas todo jejum bíblico é feito com oração. Além disso, temos uma evidência explícita de que a igreja de Antioquia realmente orava naquela ocasião: "Então, jejuando e orando..." (v3). Não sabemos ao certo se o jejum do verso 3 é o mesmo do verso 2. Pela urgência do chamado do Espírito, tudo indica que sim. Mas se é o mesmo ou deixa de ser, não é tão importante sabermos. Basta saber que a igreja de Antioquia era uma igreja de oração e que fazia da oração a base de sua missão.

É provável que o exemplo da igreja de Antioquia tenha marcado positivamente o ministério de Paulo. Paulo foi um homem de oração e recomendava às igrejas que orassem por ele e pela expansão do evangelho de Jesus Cristo.

Agora, mais do que simplesmente orar, a igreja de Antioquia era uma igreja que exercia a prática do jejum. É impressionante a ênfase que Lucas dá ao jejum na igreja de Antioquia. Em Atos 13.2 ele diz que a igreja jejuava, e não menciona a oração, embora sabemos que ela também orava, conforme dissemos acima. No verso 3, do mesmo capítulo 13, Lucas coloca a palavra "jejuando" na frente de "orando". No texto grego é a mesma coisa: nestéusantes kai proseuxamenoi. A ordem das palavras é significativa e não pode ser menosprezada, como tem feito a maioria dos autores que consultamos.

A ênfase de Lucas é importante por duas razões pelo menos: 1) Não devemos pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo. Esta não seria uma forma inteligente de pensar, primeiro porque Lucas era gentio (provavelmente da cidade de Antioquia da Síria) e, por isso mesmo, qual o interesse dele em dar tanta ênfase a uma prática estritamente judaica? Segundo, a igreja de Antioquia foi uma das igrejas mais anti-judaicas do passado, naquilo que se refere às práticas religiosas do judaísmo. Direta ou indiretamente o Concílio de Jerusalém de Atos 15 aconteceu em razão desse anti-judaísmo-cerimonialista. 2) Acreditamos que Lucas fez questão em enfatizar a prática do jejum pela igreja de Antioquia, primeiramente para mostrar que jejum e oração não são incompatíveis na vida de uma igreja e, em segundo lugar, mostrar como esta prática era (e deve ser) valorizada no meio de uma igreja verdadeiramente missionária.

Se muitas de nossas igrejas têm falhado na prática da oração, e falhado mais ainda em rogar ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara, em interceder pelos missionários e orar pela obra missionária de um modo geral, o que dizer então da prática do jejum em nossas igrejas?

Acredito que as igrejas históricas têm falhado até agora em subestimar a importância do jejum na vida do povo de Deus. Quantos são os membros destas igrejas que jejuam? Quantos de seus pastores jejuam? Muitos de nós mal oramos, diga-se de passagem.

Na minha própria denominação, Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), aprendi: "Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças" (Princípios de Liturgia, XI). Se o povo de Deus tiver que jejuar "em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc.", conforme prescrevem os princípios de liturgia da IPB, nunca existirá um dia de jejum neste país! Que o jejum deve ser praticado em dias de calamidades públicas não questionamos, pois a Bíblia nos dá vários exemplos disso. Mas será que devemos jejuar somente em casos muito excepcionais de calamidades públicas? Da forma como foi redigido o princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de estimular o crente a praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o princípio fora escrito com o objetivo de desestimular quem quer que seja, porém, na prática é o que tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum deveria ser revisto pela IPB, primeiro porque ele não expressa corretamente a realidade brasileira e também por não apresentar uma definição mais completa do verdadeiro conceito bíblico de jejum.

Apesar da Igreja Primitiva ter vivido momentos de muitas provações, nada indica que naquela ocasião especial de Atos 13 a igreja de Antioquia estivesse jejuando e orando porque passava por momentos difíceis. Pelo contrário, o contexto próximo (cap. 12) indica que a Igreja Primitiva, de modo geral, estava vivendo um dos seus melhores dias. Pedro havia sido libertado milagrosamente da prisão e um dos maiores inimigos da igreja, o rei Herodes Agripa I, foi morto mediante a intervenção de um anjo do Senhor. Enquanto isso, "a palavra do Senhor crescia e se multiplicava" (At 12.24).

A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus pelo simples prazer de estar servindo a Deus.

E continuou assim quando enviou seus missionários e os sustentou com fervorosas orações.

Que Deus conceda à igreja brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em estar em Sua presença, intercedendo dia após dia pela obra missionária do Brasil e do mundo.



Igreja missionária é igreja que ouve a voz do Espírito Santo

Enquanto a igreja orava, é provável que o Espírito Santo falou pelos profetas que ali estavam, tornando Sua vontade conhecida. Não sabemos ao certo como o Espírito Santo falou aos profetas da igreja de Antioquia. Seja como for, Ele falou e a igreja ouviu.

O verbo "ouvir" é empregado em mais de um sentido nas Escrituras. Pode significar: captar, entender, abraçar e obedecer o que se ouve. Alguém pode escutar e ouvir, no sentido literal, o som das palavras, entender as palavras, mas ser totalmente surdo quanto à prática dessas palavras.

A igreja de Antioquia era uma igreja sensível à voz do Espírito, e mais do que aguçar os ouvidos para ouvir a Sua voz, ela ouviu, principalmente, obedecendo. E é exatamente nesse sentido de fazer o que Deus ordena que a igreja brasileira hoje deve ouvir, através da Escritura, o que "o Espírito diz às igrejas".

O Espírito Santo continua falando e ouvimos a Sua voz, mas lamentavelmente, este "ouvir" nem sempre tem sido traduzido em termos de "obediência". O Espírito Santo falou à igreja de Antioquia e ela imediatamente colocou Paulo e Barnabé no mundo. Eis aí a voz do Espírito que muitas vezes tem sido ignorada pelos crentes: A igreja no mundo e para o mundo. É nisso que Deus espera ser ouvido e obedecido.

Se ouvir o Espírito Santo significa obedecê-lo, uma das grandes expressões dessa obediência é estar no mundo para ouvir o mundo. E o que significa ouvir o mundo? John Stott responde: "O mundo de hoje está repleto de clamores que refletem ira, frustração e sofrimento. Mas muitas vezes nós nos fazemos de surdos diante dessas vozes de angústia". Stott nos lembra, ainda, que existem dois grupos de pessoas no mundo que, além de precisarem ouvir o que a igreja tem a lhes dizer, precisam, antes, ser ouvidos pela igreja. Diz ele:

Primeiro, temos o sofrimento daqueles que nunca ouviram o nome de Jesus, ou que, embora tenham ouvido falar nele, ainda não o aceitaram e, portanto, em sua alienação e perdição, estão sofrendo terrivelmente. Neste caso, o que costumamos fazer é sair correndo com o evangelho nas mãos, subir no nosso poleiro e vomitar a nossa mensagem, sem a mínima consideração para com a situação cultural ou as verdadeiras necessidades dessas pessoas. O resultado é que, com muito mais freqüência do que gostaríamos de admitir, nós afastamos as pessoas e até mesmo aumentamos sua alienação, pois a forma como apresentamos a Cristo é insensível, desajeitada e até irrelevante. De fato, "responder antes de ouvir é estultícia e vergonha".

A melhor coisa é ouvir antes de falar, procurar penetrar no mundo das idéias e pensamentos da outra pessoa, tentar descobrir quais são as suas possíveis objeções ao evangelho e então compartilhar com ela as boas novas de Jesus Cristo de uma maneira que fale às suas necessidades. Esta atividade desafiadora, humilde e perspicaz é chamada, e com razão, de "contextualização". Mas é essencial acrescentar que contextualizar o evangelho não é de maneira alguma manipulá-lo.

... Em segundo lugar, temos o sofrimento dos pobres e dos famintos, dos despossuídos e dos oprimidos. Muitos de nós só agora é que estão despertando para a obrigação que a Escritura sempre colocou sobre o povo de Deus, de preocupar-se com a justiça social. Nós deveríamos ouvir com mais atenção os clamores e os suspiros daqueles que estão sofrendo. Quero compartilhar aqui um versículo bíblico que nós temos negligenciado e que, em se tratando deste assunto, quem sabe deveríamos destacar. Ele contém uma solene palavra de Deus para aqueles que, dentre o seu povo, carecem de consciência social. Encontra-se em Provérbios 21.13: "O que tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará e não será ouvido.

Complementando Jonh Stott, lembramos ainda de Orlando Costas, que também costumava chamar o compromisso da igreja para com a sociedade e o mundo de dimensão diaconal ou encarnacional, isto é, "a intensidade de serviço que a igreja presta ao mundo, como prova concreta do amor de Deus". E mais:

Esta dimensão envolve o impacto que o ministério reconciliador da igreja exerce sobre o mundo, o seu grau de participação na vida, conflitos, temores e esperanças da sociedade e a medida em que seu serviço ajuda a aliviar a dor humana e a transformar as condições sociais que têm condenado milhões de homens, mulheres e crianças à pobreza. Sem esta dimensão a igreja perde sua autenticidade e credibilidade, pois somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade à sua vocação de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada.

Se a igreja brasileira der ouvidos à voz do Espírito, com certeza ouvirá a voz dos que precisam ser ouvidos.

Igreja missionária é igreja compromissada com os missionários

O que determina, de certo modo, se uma igreja é ou não missionária é o seu envolvimento e compromisso com os missionários. Este compromisso mostrará até onde a igreja está engajada em missões e, principalmente, até onde ela tem sido obediente à voz do Espírito de Deus, mesmo quando atua na retaguarda.

A igreja de Antioquia era uma igreja de compromissos. Ela estava compromissada com Deus (servindo a Deus, jejuando e orando, Atos 13.2,3) e com os missionários (impondo sobre eles [Barnabé e Saulo] as mãos, os despediram, Atos 13.3).

É importante destacar, antes de tudo, que o envolvimento missionário da igreja de Antioquia não estava limitado àqueles cinco nomes de Atos 13.1. E mesmo se a imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé tivesse sido realizada por apenas três deles, nem por isso deixaria de ser o trabalho da igreja toda. Comentando o envio dos missionários pela igreja de Antioquia, Kistemaker diz com razão que "toda a igreja de Antioquia estava envolvida em comissionar Barnabé e Saulo, pois quando os missionários retornaram, eles relataram à igreja o que Deus tinha feito (14.27)". E ainda, "o Espírito Santo movimenta a igreja e não meramente cinco pessoas para se engajarem na obra missionária".

A imposição de mãos sobre Paulo e Barnabé não deve ser entendida, conforme observa Liefeld, como "uma ordenação para ensinar (Paulo e Barnabé já tinham estado no ministério cristão, e Paulo considerava que a sua autoridade vinha diretamente de Deus, e não dos homens, nem sequer por intermédio dos homens, Gl 1.1)". E ainda: "O certo é que Paulo e Barnabé foram enviados para uma obra específica numa atmosfera de adoração, oração e jejuns (At 13.1-3), uma ação que, segundo Atos 14.26, os 'recomendou à graça de Deus'".

A interpretação de Liefeld quanto à imposição de mãos em Atos 13.3 é boa mas poderia ser melhorada. É que, além do que Liefeld diz, houve naquela ocasião um "pacto" entre a igreja de Antioquia e os missionários, no qual a igreja ficaria definitivamente vinculada aos missionários e os missionários à igreja.

Uma palavra grega que expressa muito bem o vínculo do relacionamento e do compromisso cristãos entre missionário e igreja é koinwnéw (associar). Certa vez o apóstolo Paulo expressou sua gratidão para com os filipenses, pelo cuidado a ele dispensado e, depois de observar que "tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4.13), acrescentou: "Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros" (Fp 4.14,15, grifos nossos). Por duas vezes o apóstolo usa o verbo "associar" nesta passagem. Comentando este texto de Filipenses 4.14,15, Edison Queiroz destaca:

A palavra que Paulo está usando aqui para "associar-se" é uma palavra comercial, usada quando duas pessoas decidem formar uma sociedade. Assim como eles se tornam sócios, em um projeto missionário um dos sócios é o missionário e sua família, e o outro é a igreja local; a igreja e a família estão indo juntas ao campo.

Lucas registra que a igreja de Antioquia "acompanhou" as viagens missionárias de Paulo e este, por sua vez, relatava a ela as coisas que Deus fazia por seu intermédio. Em Atos 14.26-28, por exemplo, a primeira viagem missionária termina com o retorno de Paulo e Barnabé à igreja enviadora para repartir os "lucros" com os "sócios", para compartilhar os frutos do trabalho com ela: "... navegaram para Antioquia, onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a obra que haviam já cumprido. Ali chegados, reunida a igreja, relataram quantas cousas fizera Deus com eles e como abrira aos gentios a porta da fé. E permaneceram não pouco tempo com os discípulos".

A igreja de Antioquia tomou para si a responsabilidade da obra missionária. E por que? Porque ela se propôs a ser co-participante do Espírito no envio e sustento dos missionários. A missão do Espírito seria a missão da igreja.

Em Atos 13.3 não aconteceu o que vemos hoje em dia. Paulo e Barnabé não foram lançados num campo e deixados "ao deus dará". A igreja não se esqueceu daqueles que enviou e os missionários, por outro lado, não se lembraram da igreja somente quando o dinheiro da missão encurtou. Não queremos generalizar, mas não é, infelizmente, o que muitas vezes temos visto? Além disso, a igreja de Antioquia não entregou Paulo e Barnabé aos cuidados da igreja de Jerusalém e muito menos os deixou por conta de uma agência missionária. De maneira nenhuma! A igreja de Antioquia tinha responsabilidade missionária. Havia nela o que Queiroz chama de "personalização".

Atualmente, o que temos visto com freqüência são as agências ou juntas de missões ocupando o lugar da igreja local. Não que as agências não tenham seu devido valor, é claro que têm. Ademais, as agências de missões, em si, não tiram a responsabilidade missionária das igrejas. Contudo, se hoje elas estão ocupando o lugar das igrejas, indo além de suas atribuições, é porque as igrejas estão aquém de sua vocação.

Del Pino complementa o conceito da responsabilidade missionária da igreja dizendo: Um grande número de igrejas espalhadas por este nosso Brasil precisa ver-se como vocacionadas por Deus para exercerem a tarefa missionária como um fator de peso em seu ministério, precisa ver-se como a força missionária de Deus nesse mundo e em nosso país.

Falando ainda acerca da importância da igreja local em missões, Del Pino destaca quatro coisas que, segundo ele, deveriam acontecer em nossas igrejas. Em resumo, são elas:

1. A igreja local como um todo precisa receber, compreender e assumir a visão de seu lugar na obra missionária, além de compreender as dimensões bíblica, espiritual, cultural e financeira desta tarefa.

2. A igreja local, compreendendo sua importância para missões, não pode transferir esta responsabilidade.

3. A igreja local, ainda, precisa assumir por completo a sua responsabilidade missionária. O que mais comumente vemos é que a igreja muito se alegra com o despertar de uma vocação em seu meio, ora por aquele irmão e diz para ele ir. Mas quando chega o momento de assumir o compromisso financeiro regular e decente, ela se silencia, como se isso não fosse problema dela.

4. Por fim, a igreja local precisa conscientizar-se e ver-se como a principal agência missionária da face da Terra. Orar tendo isso em mente, agir tendo isso em mente, pregar tendo isso em mente, trabalhar tendo isso em mente.

Para Deus só existem duas coisas: Ou somos campo, ou somos base missionária. Se somos campo, precisamos ser evangelizados, mas se somos base, então está na hora de trabalhar. A omissão não pode ser a missão de uma igreja vocacionada pelo Espírito Santo de Deus.




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