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FATEBRA

FACULDADE TEOLÓGICA DO BRASIL

“Entidade Educacional Com Jurisdição Nacional”



TEOLOGIA GRÁTIS PARA TODOS

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APOSTILA – 15

ESTUDOS SOBRE A IGREJA

TOTAL – 192 PAGINAS

46 - ASSUNTOS!


 O Antigo Testamento e a pregação

 “Alegrei-me quando me disseram...”

 A Igreja precisa de Teologia

 As implicações da ressurreição de Cristo para a igreja

 A Igreja, corpo de Cristo

 A Igreja, corpo de Cristo II

 A Igreja, corpo de Cristo III

 A Igreja, corpo de Cristo IV

 A Igreja, corpo de Cristo V

 A Igreja que faz a Diferença

 A Liderança Cristã - E o Discipulado

 A Liderança e a Palavra de Deus

 A missão da igreja na confrontação com a opressão espiritual

 A missão integral da igreja

 A Missão da Igreja: Uma Perspectiva Latino-Americana

 Aprendendo da História dos Avivamentos

 As quatro indispensáveis qualidades de uma igreja missionária

 Atos 1.8 e a missão da igreja

 Batismo de Crianças: Algumas Considerações

 Como Membros do Corpo de Cristo

 Como se faz uma grande Igreja

 Creio na contribuição cristã

 Desafios da Liderança Cristã

 Disciplina na Igreja

 É MARAVILHOSO...

 Evangelização A ação do Evangelho

 Igreja: retomada do projeto de Deus

 Mártires Cristãos

 Ministério de Cristo: Modelo para o Ministério da Igreja Parte II

 Ministério de Cristo: Modelo para o Ministério da Igreja

 Mordomia do Dízimo

 Motivações perigosas para o Ministério

 O Anúncio da Igreja

 O Padrão Bíblico de Avivamento

 O que é ministério?

 Origens teológicas do pensamento batista

 Orlando Costas e a Igreja Brasileira

 Os Amuletos e a Fé Cristã

 Perigos sutis ao ministério pastoral

 Quase Crente

 Refletindo sobre a Liderança Cristã

 Religião ou Evangelho?

 Revitalizando a Igreja

 Um projeto de revitalização para a igreja local

 Uma Igreja Renovada

 Unidade na Variedade



O Antigo Testamento e a pregação
ESTUDO SOBRE A IGREJA
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Há quem tenha observado que pouco se prega sobre o Antigo Testamento. Possivelmente, existem pessoas que acreditam que o Antigo Testamento é uma parte superada da Bíblia, tendo se tornado peça de antiquário ou de museu. Para isso, tem contribuído chamá-lo de “Velho Testamento”, em vez de usar o nobre título Antigo Testamento, ou, como se usado contemporaneamente, Primeiro Testamento, enfatizando a sua precedência. Talvez, a idéia que o Antigo Testamento é Lei a ser substituída pela Graça do evangelho. Ou, ainda, a barreira da dificuldade de interpretação de certos livros seja a explicação.

Por essas razões, meu saudoso mestre, Dr. Page Kelley, disse hiperbolicamente que se os livros do Antigo Testamento fossem substituídos por páginas branco, a maioria dos pastores sequer notaria a diferença.

Aliás, a história da rejeição do Antigo Testamento é antiga. Marcião e os gnósticos (c. 150 d.C., Ásia Menor) o rejeitaram integralmente. Entendiam eles que a matéria é má, e se o Deus do Antigo Testamento a havia criado, criou o mundo mau, e concluíram que Ele só poderia ser igualmente mau. Para Marcião, o Deus do Novo Testamento era outro: o Pai de Jesus Cristo. É evidente que o mundo do Antigo Testamento é outro, bem diverso do contexto sociocultural em que vivemos. Nossa lógica, nosso modo de ser e pensar é ocidental do século 21. É basicamente grego, dado a abstrações. O pensar do Antigo Testamento é oriental, variando, a grosso modo, de 4000 a 2500 antes de nós. É semita, de formação concreta.

A tarefa do hermeneuta, do exegeta, do intérprete, do pregador é trazer um mundo tão diferente, tão distinto e tão distante para hoje, trazendo respostas do passado à crise, à dor, à angústia, à necessidade, à pergunta da pessoa humana de nossos dias. É aí que a pregação se torna verdadeiramente bíblica quando ouvimos o Senhor nos falando através dos séculos. Ou para usar a própria linguagem escriturística: “Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo” (Jo 1.9).

Dr. Kelley lembra, ainda, que com o Antigo Testamento podemos conhecer melhor a Deus, que é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É o Deus que é Um (cf. Dt 6.4,5; cf. Ef 4.4-6). A unicidade de Deus é fator de tanta importância e de uma solidez tão extraordinária que obrigações e princípios nascem dela, como o rígido monoteísmo hebreu, o senso de eleição e de exclusividade e o conceito de reino sacerdotal.

É o Deus que é Criador e Senhor do universo. Deus não é o universo; o universo não é Deus, mas proclama a Sua Majestade, Poder e Glória (cf. Sl 19). Pelo Antigo Testamento podemos conhecer o ser humano como deveria ser e como é fraco, e erra, e se arrepende, e entra em comunhão com Aquele que o faz forte. O Antigo Testamento apresenta suas personagens, seus heróis, seus fortes em suas fraquezas. É um Abraão medroso e mentiroso (Gn 12.11-13), um Jacó trapaceiro (Gn 27.15-20), um Davi adúltero 2Sm 11) e um Salomão fraco de personalidade (1Rs 11).

É por essas razões que o Antigo Testamento pode nos falar hoje, visto que o ser humano em seu pecado não tem mudado: continua medroso, trapaceiro, assustado ou cheio de dúvidas. Assim, o sermão há de ser bíblico em substância, doutrinário em forma, e prático em efeito para responder a essas necessidades íntimas de mudança, segurança e transformação.



A BÍBLIA DE JESUS CRISTO
O Antigo Testamento foi a Bíblia de Jesus Cristo, e a palavra do Antigo Testamento cumpriu-se ou explicou-se na palavra do Novo Testamento, porque tudo no Antigo Testamento é entendido como apontando para Jesus Cristo na relação de promessa e cumprimento, como Jesus deixou bem explícito: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir” (Mt 5.17; cf. 22.37-40; Lc 24.25, 27).

Os escritores do Novo Testamento falaram de Jesus como cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Marcos 1.1,2 deixa claro: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: Eis que envio ante a tua face o meu mensageiro, que há de preparar o teu caminho” (cf. Mc 1.15; At 1.16ss; 3.13, 18, 21; Rm 16.25, 25). A primeira pregação da ressurreição é a exposição do Antigo Testamento feita por Jesus Cristo:

“São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressurgisse dentre os mortos; e que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.44).

O kerigma, a mensagem, é realizado no evento da ressurreição, como Paulo o demonstra em Tessalônica (cf. At 17.2,3). O derramamento do Espírito Santo na Festa de Pentecostes cumpre a profecia de Joel (2.28.29). O Novo Testamento faz uso ético da história veterotestamentária. Tiago 5.11 menciona Jó. Em 5.17 faz menção de Elias, como também Lucas 4.25,26. Paulo lembra a história dos pais israelitas no deserto (cf. 1Co 10.1-13). O próprio Senhor Jesus Cristo fez uso do Tanach (Bíblia hebraica) como fonte de Sua pregação, e pedra de toque de todo o Seu ministério. Sabia que tudo o que Deus havia feito e estava realizando na História, desde o início, estava sendo consumado nEle, Cristo. O propósito divino da salvação seria realizado nEle. O êxodo, pelo qual Israel havia sido constituído povo, estava sendo cumprido em um novo e maior êxodo através do qual Israel seria reconstituído em um novo Israel no qual todas as nações seriam incluídas. A antiga aliança e seus sacrifícios apontavam para uma nova aliança e o sacrifício supremo da vida de Cristo. Assim, por uma série de correspondências, a vida de Jesus tornou-se uma grande exposição do Antigo Testamento, do Criador, e do Servo Sofredor.



A PREGAÇÃO BÍBLICA
“A pregação é, nas mãos de Deus, um instrumento importantíssimo de intervenção direta e profética na vida dos fiéis e na vida da igreja a fim de consolar, corrigir, reformar e confrontar.” Essa é uma afirmação de J.-J. von Allmen. Partindo dela, é possível afirmar que o sermão há de ser bíblico em substância, doutrinário em formato e prático no seu efeito, para repetir o que já foi afirmado.

A Palavra de Deus há de ser profética, razão porque não pode ser prisioneira da igreja. 1Coríntios 14.1 o afirma: “Que o amor seja o vosso fundamental objectivo; mas aspirem também com zelo aos dons que o Espírito Santo vos dá, e especialmente o dom de pregar a mensagem de Deus” (Versão O Livro). Lutero esclareceu que “se a Palavra de Deus não for pregada, é preferível não cantar nem ler nem reunir-se para o culto”.

Não é fácil, porém pregar o Antigo Testamento. No entanto, é preciso expor o seu texto e proclamá-lo como normativo para a fé e prática cristãs. Quando se encara com seriedade a pregação bíblica, descobre-se que já não somos quem fala, mas uma longa tradição de fiéis a Deus, profetas, apóstolos, mestres e ´pregadores desde 4.000 anos.

É ponto comum afirmar que a pregação bíblica deve começar com a Exegese e continuar com a Hermenêutica. A Exegese estuda os textos bíblicos buscando entender a intenção do autor e a compreensão dos seus ouvintes ou leitores. Daí o nome grego que significa “interpretação” ou “explicação”. Procura reconstituir o passado, e utiliza métodos históricos.

A Hermenêutica procura o sentido que o texto toma hoje. Toma em consideração a atualidade da Palavra Santa. Jesus em inúmeras ocasiões hermeneutizou como em Lucas 24.25 a 27: “Então Jesus respondeu-lhes: Mas vocês não estão a ser sensatos! É assim tão difícil para vocês crer em tudo o que os profetas escreveram nas Escrituras? Não foi claramente predito por eles que o Cristo teria de sofrer todas estas coisas antes de entrar na sua glória? E fez-lhes compreender as Escrituras, começando com os livros de Moisés e através das Escrituras, explicando o que esses textos diziam a respeito de si” (O Livro).

Então, o exegeta procura descobrir o sentido preciso do texto que pretende expor, não o que pensava que significava, não o que preferia que significasse, não o que está na superfície da tradução corrente. Utiliza-se para tanto o Método Gramático-histórico.Isso quer dizer entender a língua (que é a parte gramatical) à luz da situação quando primeiramente foi pronunciado ou escrito (é o seu lado histórico).

Não se pode, no entanto, ficar na Gramática e na História, pois isso seria fazer uma exposição técnica, acadêmica, lingüística, curiosa, talvez. John Bright alerta que a pregação bíblica requer uma exegese teológica, ou seja, não apenas o exato significado do texto, mas a teologia que o respalda. E dessa maneira, a pregação bíblica vai comunicar-se com os homens e mulheres dos dias presentes.

Lembremos que a Antiga Aliança é uma propedêutica para o evangelho. A Lei é um aio, um tutor de Cristo no dizer paulino: “Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé” (Gl 3.24, NVI). Como uma babá leva uma criança à escola, a Lei leva ao evangelho, por isso que tem a função pedagógica de levar os seres humanos para a recepção das boas novas de Cristo. Não podemos cometer o erro de criar uma dialética: AT = Lei ? NT = Graça. O Antigo Testamento contém Lei, mas também contém evangelho em forma de promessa e graça, e vice –versa em relação ao Novo Testamento.

A pregação é realmente bíblica quando a Bíblia governa o conteúdo do sermão. E, acrescentamos, quando é anunciada, não simplesmente quando se prega sobre a Bíblia, pois ela só pode ser pregada quando é compreendida. Assim, para que a igreja se sinta confrontada tem que se sentir como o povo de Israel se sentiu ao ouvir o enunciado de Moisés, os desafios de Josué, os apelos e exortações dos profetas. Cabe, neste ponto, a afirmação de Suzanne de Dietrich, “A Bíblia não nos fala sobre Deus, mas em nome de Deus.”

É preciso acentuar que o Novo Testamento confirma e referenda o valor existencial do Antigo Testamento nas exortações de Jesus Cristo, as exortações de Paulo ou da Carta aos Hebreus são claras e provam que aos olhos dos escritores do Antigo Testamento, as personagens e acontecimentos da Antiga Aliança têm mais valor existencial que nunca como apelo à imitação ou reprovação e chamada à mudança de atitude.

Ao se pregar a Palavra de Deus no Antigo Testamento, necessário se torna uma palavra de julgamento, coisa rara, aliás, na pregação contemporânea. Não é trazer fogo e enxofre (especialmente enxofre, quer dizer, para alguns pregadores, julgamento é inferno, mais do que disciplina, aprovação ou desaprovação à luz do ensino neotestamentário). Faz-se necessária uma palavra de esperança. A vida é insuportável se não há futuro. Um dito extremamente conhecido diz que “enquanto há vida, há esperança”, o que cheira à conformismo. O pregador servo da Palavra diz “enquanto há esperança, há vida”. Na realidade, a pregação bíblica oferece isso mesmo: vida, porque a esperança se baseia na fé.


O Decálogo, como lei moral, apodítica, constitui-se num campo fertilíssimo para a pregação ética. Há que lembrar que os deveres da pessoa humana para com o semelhante têm base nos seus deveres para com o Criador. Assim, quem está no relacionamento correto para com Deus, e com Ele se mantém em amor e fé, não tem dificuldades para cumprir a segunda tábua dos mandamentos. Há, ainda, que ter em mente que “as Dez Palavras” devem ser proclamadas à luz de Jesus Cristo, Que veio para cumpri-las.

Já pensou em pregar sobre um livro inteiro, o chamado Sermão Panorâmico? A chave para tanto é apresentar o livro como um todo sem a preocupação de muitos detalhes. Comece com livros simples, com os quais se sente mais à vontade. Bons exemplos são Rute ou Ester. Os livros proféticos são mais difíceis, mas têm muito material. Nesse caso, você deve explorar a linha de ênfase do projeto em questão. Use bastante os comentários. Procure se fixar mais no profeta que na profecia. Talvez os de abordagem mais fáceis sejam Jonas e Amós. Jonas é mais conhecido por causa do grande peixe (no imaginário de alguns, “a baleia”), porém, ele é o anti-herói na história. O mais atraente dos profetas é, sem dúvida, Oséias, pelo seu drama conjugal.

Que tal falar sobre situações existenciais? A receita estará mormente nos Salmos:

Cura para o temor - Salmo 27.1 Tristeza - 42.5 Preocupação - 55.22a Dúvida - 73.16,17 Nervos fracos - 91.1 Pecado - 32.1

O Salmo 9 traz lições sobre a ansiedade. Dr. Page Kelley utiliza o seguinte esboço para mostrar uma proveitosa lição:

1. ansiedade da morte (vv. 3,5,6), 2. da culpa e condenação (vv. 7,8,11), 3. de uma vida sem sentido (vv. 1,2,4).

Elizabeth Achtermeier sugere para antes do Natal, como sua preparação, Amós 4.6-12; Isaías 2.6-21; 33.7-16; 40.1-8 (também 9-11); Ezequiel 12.21-28; 37.24-28; Malaquias 4.5,6. Para o Natal, apresenta Gênesis 12.1-3; Números 24.15-19; 1Samuel 2.1-10; 2Samuel 7; Isaías 7; 8.16-9.7; 11.1-9; 42.1-9; 55; Jeremias 23.5,6; Miquéias 5.2-4.



Como ministros da Palavra, isto é, servos da Palavra Divina, temos uma grave responsabilidade sobre os ombros. Que não sejamos objetos da grave acusação de Oséias 4.6: “O meu povo é destruído porque não me conhece; e tudo por culpa vossa, sacerdotes, porque vocês mesmos não se interessam em me conhecer; por consequência recuso reconhecer-vos como meus sacerdotes. Visto que se esqueceram das minhas leis, também me esquecerei de abençoar os vossos filhos” (O Livro). Pelo contrário, sejamos alvos da bênção divina encontrada em Jeremias 3.15: “e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência” (ARA).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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BAPTISTA, Walter Santos. Contextualização Bíblica. Salvador, Monografia não publicada, 1988.
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EFIRD, James M. How to Interpret the Bible. Atlanta, John Knox, 1984.
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HAYDEN, Eric W. Preaching Through the Bible. Grand Rapids, Zondervan, 1964.
KAISER, JR. Walter C. The Old Testament in Contemporary Preaching. 3ª impr. Grand Rapids, Baker, 1979.
KECK, Leander E. The Bible in the Pulpit. 3ª impr. Nashville, Abingdon, 1979.
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NYGREN, Anders. The Significance of the Bible for the Church. 4ª impr. Philadelphia, Fortress, 1976. C.C. Rasmussen, trad.
ROWLEY, H. H. (Org.) The Old Testament and Modern Study. Londres, Oxford, 1961.
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THOMPSON, William D. Preaching Biblically.Nashville, Abingdon, 1981.
VON ALLMEN, J.J. O Culto Cristão – teologia e prática. SP, ASTE, 1968. D.G.J. dos Santos, trad.

Alegrei-me quando me disseram...”


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Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor” (Sl 122.1)



A tocante, inspiradora, edificante experiência de ver o povo de Deus chegando cada manhã ao templo é uma alegria dominicalmente renovada. Podemos, mesmo, imaginar as multidões indo à Beth haMikdash (Templo) em Jerusalém, e cantando à medida que iam se aproximando dos portões da Cidade Santa. É o que diz a nota de explicação do Salmo 122 com a expressão “cântico de degraus” (“gradual” ou “de romagem”, “de romaria” ou “de procissão” em outras traduções). O povo ia ao Templo de Jerusalém, e vem hoje ao templo. Porém, com que objetivo?

A Casa de Deus
É lugar de adoração. Está na Palavra Santa: “...aonde sobem as tribos, as tribos do Senhor, como testemunho para Israel, a fim de darem graças ao nome do Senhor” (Sl 122.4) Jesus Cristo ensina que o Senhor busca adoradores (Jô 4.23), ou como bem o expressou A. W. Tozer: “Deus salva os homens para fazê-los adoradores, fato esquecido hoje em dia por liberais, seitas e (até) cristãos bíblicos”.
Se não somos adoradores, crentes com espírito de louvor, não poderemos trabalhar aceitável e adequadamente pelo reino de Deus, pois o Espírito Santo age através do coração, das mãos, dos pés, dos lábios que se renderam ao Criador. Assim, o louvor é a nossa resposta ao amor de Deus. Cantar, orar, meditar, tudo leva à adoração. Adorar, no entanto, é mais que qualquer um desses atos.
Na verdade, é se deixar inflamar pelo Deus Pai, pelo Deus Filho e por Deus Espírito Santo; cultuar é confessar que se mantém um relacionamento com o Criador. O crente troca a independência, a auto-suficiência, a rebeldia pela rendição a Deus, pela entrega, submissão e pedido de socorro. No culto, louvamos a Deus em conjunto, confessamos nossos pecados em conjunto, recebemos a Palavra em conjunto, e saímos para servir com um só propósito embora em situações e contextos distintos.
Há, porém, que ser assim, visto que, após a salvação, o passo mais importante que o novo crente, o crente deve dar é unir-se ao povo de Deus na instituição que Ele estabeleceu para o propósito de lhe trazer crescimento: a igreja local. No dizer de Paulo, apóstolo: “Escrevo-te estas coisas, embora esperando ir ver-te em breve, para que, no caso de eu tardar, saibas como se deve proceder na casa de Deus, a qual é a igreja do Deus vivo, coluna e esteio da verdade” (1Tm 3.14,15). É nesse pensamento que o poeta exclama com tanto entusiasmo, “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!” (cf. v. 4).
No culto comunitário, há pessoas de diferentes origens, níveis sociais, raças e culturas. Todas essas distinções, no entanto, se evaporam no canto congregacional, no canto coral, na oração, na leitura bíblica, na entrega dos bens e vidas, na mesma expectativa quanto à pregação. O crente há de compreender que, ao vir ao culto, algo vai acontecer: sua vida será agraciada pela presença de Deus, pela compreensão do grande, eterno amor, e enriquecida pela comunhão dos irmãos, aquilo que é tão bem expresso na Bênção Apostólica: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13). É o senso de conjunto, de adoração conjunta em perfeito acordo com o que Paulo acentuou em Filipenses 3.5: “Pelo que todos quanto somos perfeitos tenhamos este sentimento, e, se sentis alguma coisa de modo diverso, Deus também vo-lo revelará”.
Há um popular hineto que diz:

Quando estou com o povo de Deus,


eu sinto a maior alegria;
quando estou com o povo de Deus,
eu sinto real harmonia...”

É a fé estimulada, são as energias espirituais renovadas, a coragem, a robustez, a esperança fortalecidas, por que no culto, Deus está presente: “O Senhor está no seu santo templo...” (Hc 2.20); Jesus Cristo está presente: “onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18.20); o Espírito Santo está presente: “E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a palavra de Deus” (At 4.31). E, quando o culto termina, diz o adorador-em-espírito-e-em-verdade, “Alegrei-me de verdade, alegrei-me com tudo o que eu sou, alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor!”


A casa de Deus é um lugar de oração. “Orai pela paz de Jerusalém” pede o salmista no Salmo 122.6. Assim, é ambiente de conseqüente avivamento. Por vezes, vidas são áridas num mundo árido, surgindo a necessidade de reavivar-se a chama dentro de nós. É o reaquecimento, o despertamento que buscamos, prezamos, queremos e pelo qual clamamos.
Habacuque expressou este clamor ao dizer, “Aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos anos; faze que ela seja conhecida no meio dos anos; na ira lembra-te da misericórdia” (3.2). E o Senhor nos responde: “e se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra” (2Cr 7.14).
A dinâmica do culto consiste em deixar-se o crente individualmente, e a igreja como um todo tocar pelo Espírito de Deus. Isso nos recorda o ensino bíblico de que é pecado trazer no culto divino e ao serviço do Senhor qualquer coisa que não proceda de uma vida renascida. É o fogo estranho de que fala Levítico 10.1 e Números 3.3,4. Irreverência na casa do Senhor é pecado grave, muito grave, e traz sério prejuízo espiritual para toda a igreja. Não expressa a Escritura, “Guarda o teu pé quando fores à casa de Deus” (Ec 5.1a)?
É até possível ampliar a explicação exortando a guardar os ouvidos, os olhos, a mãos, a mente e o coração. Dominados haveremos de ser por um anseio de uma maior consagração. O cristão evangélico não “assiste ao culto”: dele participa. O culto não é um drama encenado para uma platéia de espectadores, ou realizado tão somente pelo oficiante sem a presença de um auditório. É ato corporativo. Aliás, a alegria do culto divino é um sentimento antecipado, e acentuada essa alegria quando compartilhamos a adoração com outros crentes. Portanto, não basta a um cristão dizer que pode orar, cantar, ler e meditar em casa, ou ligar a TV e ter a igreja eletrônica com um pregador de estúdio “olhando” para você (?!) da tela fria do televisor, porque nada vai compensar o culto que você perdeu, e nada vai comprar as bênçãos divinas, os temores afastados, as falsas idéias e doutrinas corrigidas, e a fé revigorada na adoração coletiva.


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