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(2). Para que o espírito seja na castidade um fiel guardião, deve — também ele — suportar as suas mortificações, que consistem : 1.° em extin­guir o orgulho; 2.° reprimir a curiosidade.





  • I. — EXTINGUIR O ORGULHO



  • Os Santos Padres fazem observar que os animais mantiveram-se submissos ao homem e os seus sentidos dóceis ao espírito, durante to­do o tempo em que ele próprio foi humilde e obediente servo de Deus. Não tendo «no corpo nenhuma fraqueza, nenhuma espécie de con-



  • (1) Santo Agostinho. (2) S. Lucas, VI, 30.

  • cupiscência no espírito, o homem não era aces­sível ao mal senão pela complacência consigo mesmo, pelo orgulho» (3). Foi por aí que o demónio tentou os nossos primeiros pais. Eles prestaram-lhe atenção e «ele fez nascer no seu coração um secreto prazer de se deleitarem em si mesmos, de se comprazerem na sua própria perfeição» (4). Logo «o homem se precipitou do alto, e, extraviado de Deus, cai primeiramente sobre si mesmo» (5). Então, perdendo a sua força, ele cai, de necessidade, ainda mais bai­xo : os seus desejos dispersam-se por entre os objectos sensíveis e inferiores» (6). Tais como aquelas belas toalhas de água que, tendo par­tido tão puras do céu, se quebram primeiro so­bre os cimos dos montes, depois pulvarizam-se ali e deslizam até aos vales e às profundezas da terra. 0 que chegou para o género humano; infectado em Adão, como um rio na sua nascen­te, reproduz-se em cada um dos seus infelizes descendentes. «Os que conhecem Deus e não o glorificam e se perdem — pelo orgulho— nos seus próprios pensamentos, entrega-os Deus aos desejos do seu coração e as más paixões» (7).

  • (3) Bossuet. (4) Bossuet.

  • (5) Santo Agostinho. (6) Bossuet.

  • (7) Rom., I, 21, 24, 26.

    1. 8. Castidade.

    1. «Para muitos, o orgulho é uma raiz venenosa que tem como fruto o pecado dos sentidos» (8). «O orgulho é incompatível cem a, castidade» (9).

    2. A medicina das almas, diz um grande papa, segue as mesmas leis que as dos corpos: assim como se reaquece um sangue arrefecido para curar certas doenças, assim se substituirá aqui ao orgulho cuja punição é o pecado humi­lhante, a humildade de que a castidade é a glo­riosa recompensa. Diz-se que ela é «a virginda­de do espírito» (10). Se portanto queres ser casto, sê humilde; se queres ser muito casto, sê muito humilde» (11); não se pode conquis­tar a graça da castidade, sem se terem lança­do no coração os fundamentos da humilda­de» (12).

    3. O castigo do orgulhoso consiste em «Deus subtrair-lhe os seus dons e em só lhe deixar o fundo do ser; nele nada ficou senão o que ele pode ter sem Deus, isto é, o pecado e a desor­dem» (13). O humilde, pelo contrário, descon­fiando de si próprio, procura em Deus o seu apoio e a sua luz: quanto mais foge de si mes-

      1. (10) Lacordaire. (12) Cassiano.

    4. (8) S. Gregório

    5. (9) S. "Vicente de Paulo.
      (11) P.e Saint Jure.
      (13) Bossuet.

    6. mo, mais encontra Deus; mais também se pu­rifica nele. Assim, os lírios deixam o solo, lan­çam-se por sobre a sua folhagem e tomam, mais perto do céu, a sua deslumbrante brancura. Nes­sa humildade, reconhece se que se ivcebe de Deus a graça da castidade; desconfia-se de si próprio, seja qual for o grau de virtude que se tenha atingido; finalmente, permanece-se in­dulgente e bom para todos os pobres pecado­res. Uma religiosa lembra-se com fruto «de que uma mulher humilde vale mais do que uma virgem orgulhosa» (14).



    7. II.—COMBATER A CURIOSIDADE



    8. São João previne-nos, no mesmo versículo, contra «a concupiscência da carne, a concu­piscência dos olhos e o orgulho da vida» (15). Aqui temos reunidas as três raízes do mal. «Que tem pretendido o demónio senão tornar-me so­berbo como ele, esperto e curioso como ele, e por último sensual?»; o homem seduzido «tor­nou-se soberbo, tornou-se curioso, tornou-se sensual» (16). O orgulho é uma estrada larga

    1. Santo Agostinho.

    2. I, S. João, II, 16. (16) Bossuet.

    1. que conduz aos pecados dos sentidos; a curio­sidade leva ao mesmo fim por diversos ata­lhos. A tentação começa pelo orgulho, conti­nua pela curiosidade e «termina como que no lu­gar mais baixo, pela corrupção da carne» (17).

    2. Primeiramente é o desejo de saber. «Vós se­reis como deuses, disse Satanás, conhecendo o bem e o mal». Excessivamente escutadas, «es­tas palavras levaram uma curiosidade infinita ao fundo dos nossos corações» (18). Este vasto apetite de saber é um sinal da excelência do nos­so espírito; oculta porém escolhos perigosos. O que se passa em volta de nós e em nós mesmos faz-nos sonhar, procurar, interrogar. Em ma­téria de castidade, há tantos mistérios a rodear--nos, tantos fenómenos a excitar as nossas in­vestigações; se alguém se não precaver contra eles> perde, dentro em pouco, aquela feliz igno­rância que é a melhor guardiã da inocência. Certas religiosas são excessivamente ávidas de novidades mundanas, interrogam, para além dos limites, as visitas, as externas dos pensionatos, vão longe demais nas perguntas que fazem às suas antigas almas ou no que lhes permitem di­zer, inquirem sobre certas minudências dema-



    3. (17) Bossuet. (18) Bossuet.

    4. siado profanas, interessam-se demasiado livre­mente por uma multidão de coisas que dissi­pam o espírito e povoam a imaginação de qui­meras malsãs.

    5. Depois vem o desejo de ver. Ainda aqui «em que se abrem os olhos para os saciar com a vista das belezas mortais, ou mesmo deleitar--se em vê-las, ou em ser visto, é-se dominado pela concupiscência da carne» (19). A alma que está toda ocupada na contemplação de Deus e das coisas eternas, não tem dificuldade em fechar os olhos sobre a criatura» (20); pelo contrário, «toda a alma curiosa é vã e super­ficial» (21) e como sente a sua indigência inte­rior, mendiga aos objectos exteriores algo para preencher o vazio do seu espírito. A religiosa prudente «mergulha tão intimamente no seio de Deus, que os olhos mortais não a podem se­guir até ali; por sua vez, ela não pode desviar--se de um tão digno, de um tão doce objec­to» (22).

    6. Por último, a curiosidade leva a um decli­ve mais perigoso pelo desejo de experimentar, de sentir. Eva olhou para o fruto, achou-o be-



    7. (19) Bossuet. (20) Santo Hilário.

    8. (21) Bossuet. (22) Bossuet.

    9. lo, apetecível: foi então que o comeu (23). Se­ria também muito difícil, a uma imprudente, discernir se não experimentou já uma deleita­ção culpável nesse último género de curiosidade. A privação, a austeridade combatem «essa mo-ieza e essa delicadeza espalhada por todo o cor­po» (24); e, para se conservarem castas, as consagradas renunciam corajosamente a todo o pensamento, a todo o desejo que as reconduz à terra; elas renegam de tudo o que lhes lison-geia o corpo e o espírito, procuram tudo o que é princípio de morte para a vida carnal» (25).



    10. Afectos. — «Colocai a minha vida, ó Jesus, sob a guarda do vosso Santo Espírito. Absor­vei o meu espírito no vosso, tão profundamen­te que eu esteja submersa em vós. Que nesta união convosco eu escape a mim mesma e que saia de mim para viver em vós e que eu perma­neça assim sob a vossa guarda durante a eter­nidade» (Santa Gertrudes).



    11. Exame. — Ponho eu a minha castidade sob a guarda de uma humildade profunda, constan-



    12. (23) Gen., III, 6. (24) Bossuet.

    13. (25) S. Gregório Magno.

    14. te, prática? Não sou levada a elevar-me acima das minhas irmãs de inferior condição, de ocu­pação inferior, de virtude pouco aparente, aci­ma das pessoas piedosas que vivem no mun­do? — Fecho cuidadosamente os meus olhos à vaidade, os meus ouvidos às novidades, o meu coração aos desejos vãos e perturbadores? — Não sou questionadora? indiscreta?



    15. Resolução.

    16. Ramalhete espiritual. — «Ó Senhor, ponde os meus olhares em vós; que eu não veja as vaidades» (Bossuet).





    17. XV

    18. MORTIFICAÇÃO DO CORAÇÃO



    19. Disse o Divino Mestre: «Bem-aventurados os limpos de coração». É do coração, efectiva­mente, que parte a pureza, para irradiar em todo o ser; o coração seria também o lugar de partida de tudo o que mancha a alma (1). «Aquele que quer resistir às seduções da car-



    20. il) S. Mateus, XV, 18.

    21. ne deve pois exercer em redor do seu coração uma constante vigilância» (2). De resto, que lu­gar pode sobrar nas nossas afeições, quando nós amamos a Deus de «todo» o nosso coração? Ponhamos a ordem nas nossas relações: 1.° com os seculares; 2.° com as nossas irmãs.





    22. I.—PERIGOS DAS RELAÇÕES COM OS SECULARES



    23. «Deixa-te estar à porta do teu coração, di­zia um antigo monge, como uma sentinela vi­gilante, e não permitas, àquele que passa, o en­trar nele» (3). Quando Deus faz sair uma elei­ta «da sua terra, da sua parentela, da casa de seu pai (4), subtrai-a às perturbações do sé­culo, aos negócios mundanos, aos cuidados ab­sorventes. Além disso, arranca-a ao contágio que corrói o mundo e faz dele um «universo de malícia» (5).

    24. Que seria pois, se o povo escolhido procu­rasse reatar relações com aqueles estrangeiros com quem está, de futuro, proibido de se mis-

    1. S. Gregório Magno.

    2. Vida dos Padres. (4) Gen., XII, 11. (5) I, S. João, V, 19.

    1. turar? (6)- «Todas as amizades fundadas na simpatia e num afecto sensível para com um objecto que agrada, se não fazem outro mal à alma, são pelo menos obstáculos à perfeição. A alma corre, além disso, grandes perigos nes­sas espécies de afeições fundadas sobre as qua­lidades exteriores. Elas parecem, a princípio, indiferentes; mas a pouco e pouco tornam-se culpáveis» (7). Se se trata de pessoas de sexo diferente, podemos compará-las ao fogo e à palha sobre os quais o demónio não cessa de so­prar para provocar o incêndio (8). Santa Teresa viu-se um dia no inferno, e Deus disse-lhe que aquele lugar estava-lhe destinado, se ela não acabasse com determinada amizade ou inclina­ção simplesmente natural que ela sentia por um dos seus parentes (9). Observemos muito since­ramente o nosso coração. «Se vós sentirdes al­guma afeição deste género, o único remédio é cortá-la prontamente e de um só golpe. Não di­gais que nada de mau se passou entre vós; o demónio, a princípio, não impele aos excessos; ele conduz pouco a pouco os imprudentes à bei­ra do abismo, depois um simples toque basta

    1. Números, XVIII, 4.

    2. Santo Afonso de Ligório. (8) S. Jerónimo. (9) Santo Af. de Ligório.

    1. para os fazer cair. Se estais livre de todo o apego, conservai-vos sempre de atalaia, por­que estais sujeita, também vós, a cair naquelas armadilhas em que tantas outras se têm deixa­do prender por negligência» (10).

    2. «Não deixeis de usar a mesma reserva com os religiosos e os eclesiásticos. Seria bom que não tivésseis relações com o vosso confessor, a não ser no confessionário. Sede mais circuns­pecta ainda com o vosso director; a confian­ça que existe entre vós e ele poderia dar ori­gem a uma simpatia que, não sendo moderada, se convertesse num fogo do inferno» (11). Não digais que não há perigo, pelo facto desse padre ser santo. Quanto mais santa é uma pes­soa, tanto mais devemos receá-la, porque o sen­timento da sua bondade no-la tornará ainda mais querida (12). «Quantas dessas ligações que se julgavam fundadas na piedade, no ser­viço de Deus, na salvação das almas, degenera­ram pouco a pouco, passando de colóquios mís­ticos a culpáveis passatempos» (13). Há temeri­dade em esquecer praticamente este facto de fre­quente experiência: que «muitos, depois de te-

    1. Santo Af. de Ligório.

    2. Santo Af. de Ligório. (12) S. Tomás (13) S. Boaventura.

    1. rem começado pelo espírito, acabaram pela car­ne» (14).





    2. II. — AS AMIZADES PARTICULARES



    3. «É uma glória do cristianismo ter sido tão bem instruído, tão bem dirigido o coração do homem, que fez esse coração, ao mesmo tempo tão virginal e tão forte, capaz de amar, mais e melhor do que nunca, tudo o que se deve amar sobre a terra, e capaz de o amar sempre menos do que a Deus. A santidade e a perfeição não destroem nem prejudicam em nada as puras afeições da terra; os santos não vão amar só a Deus, à força de não amarem ninguém, mas sim amar toda a gente mais do que a si próprios, à força de amarem mais a Deus do que a tu­do» (15). Não se trata pois de matar o cora­ção nos castos, mas de regularizar os seus mo­vimentos, de o conduzir à rectidão que ele con­servará no céu.

    4. «Amemo-nos no coração de Jesus Cristo co­mo se amam os bem-aventurados; em Deus, que é o centro da sua união; por Deus que é




    1. todo o seu bem. Tenhamos um coração de Je­sus Cristo, um coração amplo que não exclui ninguém» (16). «Sede a amiga de todas as vos­sas irmãs e íntima de nenhuma» (17).

    2. Qualquer outro é o resultado das amizades particulares. Os autores espirituais assinalam os seus inconvenientes sob o aspecto da cari­dade fraterna e do bom espírito. Santa Teresa combate-as, porque elas formam «linhas e par­tidos»; Santa Joana de Chantal, porque «tra­zem a desunião»; S. Vicente de Paulo, porque são «uma injustiça pois dão a uma o que deve ser de todas». Mas «não é menos certo que há muito a recear, mesmo para a castidade» (18). Em primeiro lugar, elas são opostas à «casti­dade espiritual», que consiste em se deleitarem na união espiritual com outras coisas, contra­riamente à ordem divina (19). Não é todavia o único mal; há alguma coisa mais a recear. «Se as amizades do exterior causam mais es­cândalo, as do interior, entre religiosas, são mais perigosas. Deus não permita jamais que uma religiosa tenha a infelicidade de cometer

    1. Bossuet.

    2. S.to Af. de Ligório.

    3. R. P. Meynard.

    4. S. Tomás.

    1. alguma falta grave contra a castidade na casa do Senhor» (20). Não se insiste neste ponto; es­te facto é raro, basta assinalar esse perigo ao zelo das superioras e às salutares reflexões de todas as religiosas (21). Era a este propósito que dizia uma venerável superiora: «Em reli­gião, devemos amar-nos como anjos e evitar--nos como demónios» (22).

    2. Eis os sinais das amizades perigosas: «con­versas demasiado extensas e inúteis, inúteis lo­go que são demasiado extensas; olhares e elo­gios recíprocos; indulgência excessiva para com os defeitos; certas invejazinhas; a inquietação do afastamento» (23); «o apego às graças ex­teriores; o desejo de uma afeição correspondi­da; o receio de que as outras vejam, oiçam, escutem o que se passa» (24). Examinemo-nos: são pendores para um pecado mais rigorosa­mente punido quando se comete «na terra dos santos» (25).

    3. Afectos. — «Dulcíssimo Jesus, fostes Vós só que eu escolhi para companheiro preferido

    1. S.to Af. de Ligório.

    2. R. P. Meynard.

    3. Fundadora das dominicanas de Bordeaux.

    4. S. Boaventura. (24) S.to Af. de Ligório. (25) Isaías, XXVII, 40.

    1. da minha vida. Ofereço-vos o meu corpo e a minha alma para vos servir; porque sou pro­priedade vossa e vós sois meu. Imprimi o vos­so sinal tão profundamente na face da minha alma, que nenhuma criatura obtenha a minha escolha nem receba o meu amor que é todo vos­so». (Santa Gertrudes).



    2. Exame. — Sou eu escrupulosamente pru­dente nas minhas relações exteriores? Vigio eu o mínimo pulsar do meu coração e a aproxima­ção mais afastada? — Não tenho apego nem ilusões? — Tenho rupturas que se impõem, pe­lo menos sacrifícios a fazer: porque esperar?

    • Não tenho nenhuma preferência natural, ne­nhuma afectação pueril, nenhuma amizade de­masiado sensível, demasiado sensual com al­gumas das nossas irmãs ou das nossas alunas?

    • Nada que não seja verdadeira caridade?



    1. Resolução.

    2. Ramalhete espiritual. — «Deus marcou a minha face com um sinal para que eu não acei­te outro amor além do seu» (Ofício de Santa Inês).



    3. DA TRISTEZA



    4. «Há um espírito que persegue a alma re­ligiosa e a inquieta de todas as maneiras para lhe fazer perder a castidade: é a tristeza» (1). É pois necessário pormo-nos de atalaia contra este novo género de tentação, que constitui de resto «uma das enfermidades espirituais mais perigosas e mais rebeldes para se tratarem» (2). Meditaremos: 1.° Diferentes espécies de triste­za; 2.° remédios da tristeza.



    5. I.—DIFERENTES ESPÉCIES DE TRISTEZA



    6. O Apóstolo menciona duas espécies de tris­teza, «uma segundo Deus, a outra do sécu­lo» (3). Os santos chamam à segunda «a tris­teza da carne» (4), um nome característico que mostra suficientemente aos castos quanto de­vem temê-la. «Produto do amor de Deus, a primeira desabrocha na alma com todos os fru-

    1. S. João Clímaco.

    2. Rodriguez. (3) II, Cor, VII, 10. (4) S. Gregório.

    1. tos do Espírito enumerados por São Paulo (5) : a caridade, a alegria, a paz, a bondade, a fé, a modéstia e a castidade» (6).

    2. «No coração do sábio reside uma tristeza» (7) excelente, aquelas «lágrimas beatificadas», de que fala o Salvador na montanha, «aquele lamento da pomba que diz adeus aos risos e diversões profanas, às alegrias carnais e que, indo para a eterna felicidade, faz seu caminho através do vale de lágrimas» (8). Esta boa e salutar tristeza «é exercida pelos bons na com­paixão pelas misérias temporais do próximo, e pelos perfeitos no condoerem-se das calami­dades espirituais das almas» (9). Jesus associa as suas lágrimas às das irmãs de Lázaro, sobre o túmulo; chora a teimosia dos Judeus; no Gethsémani, as suas lágrimas pelos pecados do mundo convertem-se em sangue. Esta compai­xão passa pelo coração de todos os santos e, em todos os penitentes, surge «uma tristeza de arrependimento que opera a salvação» (10); «as lágrimas de amor a Deus e de ódio contra o pecado» (11). Há ainda suspiros daqueles

    1. Gálat, V, 22.

    2. Rodriguez. (7) Ed., VII, 5.

    1. (8) Belarmino. (9) S. Francisco de Sales.

    2. (10) II, Cor., VII, 10. (11) Belarmino.

    3. que acham «o exílio demasiado longo», a quem «a vida pesa», e que desejam «a sua dissolu­ção para estarem com Cristo». Finalmente, se­gundo um escritor de autoridade incontestada, os consagrados encontram «uma fonte de lá­grimas inconsoláveis ao verem que, no estado religioso, ao lado de santas almas, há relaxa­dos» (12).

    4. Esta «tristeza segundo Deus não é aborrecida nem penosa; não atrofia o espírito nem abate o coração; dá força e coragem, aumenta a con­fiança em Deus e faz invocar a sua misericór­dia. A má tristeza perturba o espírito, agita a alma, causa-lhe inquietação; aparece como o granizo, sem razão nem fundamento; perde o coração, endurece-o, enlanguesce-o, torna-o inú­til; tira o gosto da oração e cria a falta de con­fiança na bondade de Deus. É como um inver­no rigoroso que destrói o brilho da natureza e se faz sentir em todos os animais; porque tira toda a suavidade à alma e torna-a quase inu­tilizada e impotente em todas as suas faculda­des» (13). Que admira que, nesse estado de fraqueza e de miséria, se desça a mendigar sa­tisfações de ordem inferior? «Os castos delei-



    5. (12) Belarmino. (13) S. Francisco de Sales.

    1. 9. — Castidade.

    1. tes das alegrias eternas tornam-se fastidiosos; a alma religiosa encontra-se fraca; o demónio apressa-se a apresentar-lhe as taças dos praze­res imundos e, seduzida pela esperança de en­contrar neles um lenitivo para o seu mal, in­gere o veneno e encontra a morte» (14). Tal é «a tristeza carnal», que se deve banir para sempre, porque tem matado muitos» (15).





    2. II. —REMÉDIOS PARA A TRISTEZA



    3. «A tristeza do século deve ser expulsa do nosso coração com tanto cuidado como o espí­rito impuro; porque ela chega a destronar a alma do estado de pureza e a dar-lhe a mor­te» (16). Para sabermos remediar o mal, ve­jamos as suas causas. «A tristeza provém às vezes do inimigo infernal que enlanguesce a vontade e perturba a alma, à semelhança de um nevoeiro espesso que constipa a cabeça e o peito, torna difícil a respiração e causa per­plexidade no viandante. Outras vezes, a tris­teza procede da condição natural; esta não é



    4. (14) Rodriguez. (15) Ed., XXX, 24, 25.

    5. (16) Raban Maur.

    6. viciosa em si mesma, mas o nosso inimigo ser­ve-se dela para urdir mil tentações nas nossas almas, como as aranhas fazem as suas teias, quando o tempo está abafado e nebuloso. Há finalmente uma tristeza que nos é trazida pela variedade dos acidentes humanos. Nos bons, é moderada pela aquiescência e pela resignação à vontade de Deus: Job bendiz o Senhor nas suas adversidades; David transforma as suas dores em cânticos. Quanto às pessoas do mun­do, essa tristeza transforma-se em desgosto, de­sespero, confusão de espírito» (17).

    7. Eis os remédios. Em primeiro lugar, «a ora­ção é soberana, conforme a advertência de S. Tiago: Se alguém está triste, esse que reze! Fazei frequentes e repetidas orações a Deus; não obstante a tristeza esforçai-vos em profe­rir palavras de confiança e amor» (S. Francis­co de Sales). «Uns momentos de conversa com um amigo bastam para restituir à nossa alma a serenidade e a paz; que doçura e consolação nós devemos esperar, se expandirmos o nosso cora­ção no d'Aquele que a si mesmo se chama o Deus de toda a consolação e amparo! A pomba, símbolo da pureza, não encontra onde pousar os



    8. (17) S. Francisco de Sales.

    9. pés, e volta para o pombal: assim o servo de Deus, paira acima das voluptuosidades terrenas e volta, ele também para o seu abrigo» (18), isto é «para o seu coração, para ali orar; Cristo habita ali e faz brotar a fonte de todas as ale­grias» (19).

    10. A meditação, as boas leituras continuam este delicado tratamento. Colocados em grandes tri­bulações, os melhores de Israel recusavam pro­curar compensações nas alianças estrangeiras. «Para nos consolarmos, diziam eles, temos os livros santos, e é por intermédio dessa leitura que nos vem o socorro do alto» (20). Ê bom, para a religiosa, ler os seus títulos à protec­ção de Deus, lembrar-se de que lhe é prome­tido o cêntuplo e a vida eterna» (21), que «a felicidade é para os corações puros; que ela procedeu sabiamente conservando-se vir­gem» (22); «que às suas tribulações de um momento sucederá uma eternidade de gló­ria» (23).

    11. Finalmente, «procurai divertir-vos, fazendo crer ao vosso espírito que ele não tem desgos-

    12. (18) Rodriguez. (19) S.to Agostinho.

    1. I, Macab, XII, 9-15.

    2. S. Mateus, XIX, 29.

    3. I, Cor., VII, 38. (23) II, Cor, 17.

    1. tos» (24). Deveis defender-vos, ocupar-vos, tra­balhar, sair de vós mesmos, libertar-vos dos vos­sos próprios pensamentos, «procurar a conver­são de pessoas espirituais; quando puderdes, cantar alguns cânticos próprios para elevar o es­pírito» (25). Acima de tudo, amai a vontade de Deus, amai a função que vos é confiada pela obediência, «vivei santamente para estardes sempre na alegria» (26).



    2. Afectos. — «Concedei-nos, Senhor nosso Deus, a nós, vossos servos, um corpo e uma alma sempre sãos e, pela intercessão da bem--aventurada Virgem Maria, livrai-nos das tris­tezas presentes e dignai-vos reservar-nos as ale­grias eternas. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Assim seja» (Missal romano).



    3. Exame. — Qual é a causa das minhas tris­tezas? temperamento, luto de família, prova­ções providenciais? — ou antes pretextos fúteis, orgulho ferido, obediência difícil? — Esforço--me por amar a vontade de Nosso Senhor, o meu cargo, as minhas provações? — Rezo eu

    1. S. Francisco de Sales.

    2. S. Francisco de Sales.

    3. S. Bernardo.

    1. para ser mais forte ?; recorro ao pensamento do Céu, ao pensamento da penitência? — Sou ta­citurna ou procuro em companheiras carido­sas, principalmente na minha superiora, algu­mas palavras e conselhos que elevem e conso­lem?— Está a minha consciência em paz? — Gosto dè alimentar uma tristeza vaporosa, em vez de santamente a dissipar?



    2. Resolução.

    3. Ramalhete espiritual. — «Se vós não que­reis, por coisa nenhuma deste mundo, ofender a Deus, isso basta para viverdes alegres». (S. Francisco de Sales).





    4. XVII

    5. DO ESPIRITO DO MUNDO



    6. «Ê próprio do demónio tentar-nos» (1). «Es­tende armadilhas, estimula os corpos, arrasta as almas, sugere pensamentos, dissipa afeições, faz amar o vício e odiar a virtude» (2). Mas o demónio é um chefe que tem legiões de espí­ritos maus à sua disposição. Ele é «o príncipe do mundo» (3) e é por meio do mundo que ele seduz, na maior parte do tempo, os castos; de tal modo que «aquele que pisa aos pés o mundo, tem algo a recear do demónio» (4). Meditemos: 1.° Que é o mundo; 2.° Sinais do espírito do mundo nas consagradas.





    7. I. — QUE É O MUNDO?



    8. «O mundo, no sentido evangélico, é tudo aquilo que, por pensamentos, palavras e acções, protesta contra Deus, contra a sua lei, contra a sua graça, contra a vida superior que Ele nos comunica, contra as esperanças que nos dá, contra os destinos que nos marcou» (5). O mundo «é o inimigo de Jesus Cristo, o inimigo do evangelho. É aquele conjunto de pessoas que, presas às coisas sensíveis, e pondo nelas a sua felicidade, as têm por verdadeiros bens, e baseiam na aquisição e na fruição desses bens todos os seus princípios, toda a sua moral, todo o seu programa de conduta. Por conseguinte



    1. (1) S. Tomás.



    2. (2) Conrenson.



    1. S. João, XII, 31.

    2. Cassiodore. (5) R. P.e Monsabré.

    1. Jesus Cristo e o mundo condenam-se e repro­vam-se reciprocamente» (6).

    2. «Jesus desonrou o mundo» (7); demonstrou e revelou as suas tendências, as suas máximas, os seus vícios. «Acusou-o de pecado»; decla­rou-o «inimigo da verdade»; «não orou por ele», «amaldiçoou-o por causa dos escândalos», separou os seus do mundo. Os discípulos parti­lharam a respeito do mundo as severidades do seu mestre. «Meus filhinhos, diz S. João, não ameis o mundo; tudo nele é concupiscência dos olhos, concupiscência da carne, orgulho da vi­da» (8). Estas palavras revelam-nos um inimi­go dos castos. Lembrais-vos de como o mundo acolhe a notícia de uma vocação para a virgin­dade? Quanto as mães são largas, precipitadas, até mesmo imprudentes em entregarem a uma criatura qualquer as suas filhas, quanto as ve­mos desconfiadas, tristes, por vezes injustas, quando se trata de as darem a Jesus Cristo. E no entanto elas sabem de que perigos a casti­dade as livra. S. Paulo explica a razão desta diferença; a sua linguagem é enérgica : Tornado «animal» pelos seus pensamentos e gostos, «o



    3. (6) P.e Grou. (7) Bossuet.

    4. (8) II, S. João, II, 16.

    5. homem não tem o sentido das coisas divi­nas» (9). Ponde diante de um boi um feixe de erva e uma moeda de ouro ou um diaman­te; o instinto fá-lo precipitar-se sobre a erva.

    6. Este mundo, que recusou reconhecer o Sal­vador (10) é, ao mesmo tempo, corrompido e corruptor. Obliteram-se nele as noções que ele­vam o espírito, que salvaguardam a dignidade humana, que criam o respeito à alma e ao cor­po. A fé obscurece-se, a esperança limita-se a enganadoras felicidades, e fazem seu fim e seu Deus aquilo que têm de menos nobre em si (11); «o mundo torna-se um sarcófago cheio de cadáveres em putrefacção» (12); quando muito, conserva as aparências de um «sepul­cro caiado»; «o próprio ar que se respira não é mais do que prazer e vaidade» (13).

    7. Depois, o mundo tem o seu apostolado des­truidor; vai à caça das almas, «como um cavalo montado pelo demónio» (14), «como uma tor­rente que arrasta águas impuras» (15). As suas máximas são o inverso das bem-aventuranças

    8. (9) I, Cor, II, 14.

    9. (10) S. João, I, 10. (11) Filip., III, 19.
      (12) Hugues, card. (13) Bossuet.

    1. Gerholus, primaz de Reich.

    2. Hugues, card.

    1. proclamadas pelo Salvador; resumem-se nestas três palavras: ter, poder, parecer. Tudo, nas suas ideias, costumes, modas, usos, festas, con­tradiz o Evangelho. O contágio é tão grande que «nem os corações religiosos escapam à poeira mundana» (16). Assim «as roseiras que crescem no meio das urtigas, têm a sua seiva como que seca» (17). Que recurso podem ter os castos, senão «fugir do meio de Babilónia», ou então, se a sua vocação os prender no sé­culo, «estarem no mundo, sem serem do mun­do?».





    2. II. — SINAIS DO ESPIRITO DO MUNDO NAS CONSAGRADAS



    3. O livro da Sabedoria contém uma página pungente. Os infernos parecem abrir-se, e ouve--se exteriorizar o desespero dos condenados. Ti­nham troçado dos justos, enquanto eles viviam na loucura e morriam na desonra. Vêem os san­tos coroados e choram as suas alegrias tão fal­sas, tão passageiras, tão laboriosas, tão crimi­nosas. Então exclamam, numa suprema angús-



    4. (16) S. Gregório. (17) Alain de Lisie.

    5. tia: «Afinal enganámo-nos, o sol da inteligência não se ergueu sobre nós» (18). Tal será a úl­tima palavra do mundo e das suas vítimas: «Enganámo-nos».

    6. Assim «se afastaria do caminho da verda­de», e se «fatigaria na senda da perdição», e «cairia sem honra» a religiosa que, «separada do mundo pelo corpo e pelo hábito, tendesse ain­da para ele pelo espírito, coração e actos» (19). «Ela morreu para o mundo, porque não é o mundo um morto para ela?» (20). Não, ela continua a ocupar-se do mundo. Ela quer sa­ber o que se diz, o que se passa nele; procura estar ao corrente dos acontecimentos públicos, da história das famílias, dos factos e gestos de cada pessoa. Ao entrar em religião, «ela punha os pés sobre este mundo e fazia dele o primeiro degrau da escada que a elevava na região dos santos» (21); depois, olhou para baixo, desceu, e de boamente fala do que vê. As conversas piedosas não encontram eco nela; sobre os as­suntos profanos, está informada; torna-se elo­quente, sente-se que ela «fala da abundância

    1. Sabedoria, V, 1-14.

    2. S. João Crisóstomo.

    1. (20) Santo Isidoro de Sevilha.
      (21) S. Jerónimo.

    2. do coração» (22). Ai! S. João adverte que «os que falam do mundo são do mundo» (23). De resto, ela pensa e ama como os mundanos. A fortuna, a beleza, o espírito, as boas maneiras, as casas bem mobiladas, as pessoas ricas, são as suas preferencias. Ela tem uma dificuldade incrível em se humilhar, em obedecer, em so­frer, em perdoar, em se calar, em ser ignorada. De boamente procura o olhar, a estima, os lou­vores, a afeição; tem um fraco por tudo o que vem de fora e que dá alguma satisfação aos seus desejos de ver, de saber, de parecer. Tal­vez ela seja daquelas «que se renderam ao amor do mundo e a quem Jesus Cristo já não pode suportar no seu coração» (24).

    3. Como quereis vós que, com uma cabeça, um coração, uma imaginação e hábitos seme­lhantes, a castidade esteja segura? Num dia ou noutro precipita-se um turbilhão que arrasta essa imprudente; de resto, «amar o mundo, é já sinal de que se descaiu da pureza» (25). «Não se pode amar a Deus e ao mundo. Deus quer tudo, e por pouco que vós lhe tireis, o que

    1. S. Lucas, VI, 45.

    2. S. João, V, 5. (24) S. João Grisóstomo. (25) Santo Agostinho.

    1. vós derdes ao mundo, por fim, arrastará o vos­so coração e será o tudo para vós» (26). Pos­samos nós ver sempre «nas carícias do mundo o anzol que o demónio nos estende» (27), e ficar no caminho da humildade e da renúncia, lembrando-nos de que «se alguém agradar ao mundo, esse não é o servo de Cristo» (28).



    2. Afectos. — «Já basta de me terdes suporta­do, Senhor, eu não quero mais hesitar em me dar a vós. Vós convidastes-me muitas vezes pa­ra acabar com o mundo e para me dedicar to­da inteira a vós. Que objecto posso eu encon­trar no mundo que me tenha amado mais? Vós, meu Redentor, sois todo o meu tesouro. Só Deus, só Deus, não quero senão a Deus» (Santo Af. de Ligório).

    3. Exame.—Tenho eu, a respeito do mundo, os sentimentos de Jesus e dos santos? — É tudo evangélico, religioso nos meus juízos e nas mi­nhas afeições? — Qual é o pendor dos meus pensamentos, das minhas conversas, das minhas actividades? — A minha vida é interior, oculta,

    1. Bossuet.

    2. S. Francisco de Assis. (28) Gál, I, 10.

    1. cheia de renúncia? — Amo eu a pobreza, o so­frimento, as ocupações baixas, tudo o que fa­vorece a humildade, o que me rouba ao mundo?

    2. Resolução.

    3. Ramalhete espiritual. — «Para se ser todo de Deus, não basta abandonar o mundo, é preciso desejar que o mundo nos abandone e nos es­queça» (Santo Af. de Ligório).





    4. XVIII

    5. DO AMOR DA SOLIDÃO



    6. «A solidão é o sinal do desprezo do mun­do» (1); «a prisão das paixões más e o triunfo da castidade» (2). «A clausura e as grades, que são a sua expressão mais enérgica, inspi­ram tal horror aos filhos do século, que não era preciso mais para justificar aos nossos olhos me­didas que o mundo condena, por encontrar ne­las a sua própria condenação» (3). Temos por­tanto, como remédio, contra o espírito do mun­do: 1.° o amor da solidão; 2.° a clausura-

    7. (1) Hugo de S. Victor. (2) S. Cesário. (3) P.e Gautrelet.

    8. I. — O AMOR DA SOLIDÃO



    9. A solidão é útil a duas classes de religiosos. «É na solidão que aqueles que conservaram a inocência do baptismo recebem o prémio da sua fidelidade. Como o mundo nunca teve lugar no seu coração, eles não conservam memória da­quilo que não amaram. Purificam-se continua­mente e trabalham para se tornarem dignos de jamais perderem o que amam» (4); «a solidão é a sua defesa mais segura» (5). Para os que chegam feridos ou convalescentes, «a divina misericórdia condu-los à solidão, a fim de que, pelo afastamento dos lugares e das pessoas que foram a causa das suas quedas, eles recuperem mais facilmente a justiça que tinham perdi­do, ou readquiram um vigor que os torne, de algum modo, iguais àquelas cuja santidade ja­mais recebeu danos (6); de nenhum modo os penitentes realizam melhor a sua purifica­ção» (7).

    10. De resto, todas as almas que amam a Deus procuram a solidão; ela é branca de inocên­cia como os lírios» (8); «ela favorece o desa-

    11. (4) De Rance. (5) S. Boaventura.

    12. (6) De Rance. (7) S. Pedro Damião.

    13. (8) S. Af., de Ligório.

    1. brochar das virtudes» (9); ela é o instrumento da perfeição» (10). Toda a religiosa foi condu­zida por Nosso Senhor para uma solidão mais ou menos completa. As almas sobrenaturais, re­colhidas, interiores, amam tudo o que as man­tém ocultas e solitárias; «reservam-se para o Único que escolheram» (11); «e nunca estão menos sós do que quando estão sós com Deus» (12). As que não compreendem a serie­dade e a austeridade da vida religiosa, procu­ram o que as põe em contacto com o exterior, isto é, a dissipação, o ruído, o mundo, esque­cendo-se de que «se está tanto mais afastado de Deus, quanto mais aproximado dos mun­danos» (13).

    2. Estas amam imoderadamente as saídas ou o palratório. É nisso que reside o espírito da sua vocação? «A verdadeira esposa de Jesus Cristo não aprecia nem procura a conversa dos que poderiam prejudicar o seu voto de casti­dade; evita-os como a serpentes venenosas. Quantas colunas derrubadas, por terem querido sair das suas celas, sem a isso serem obrigadas,



    3. (9) S. João Crisóstomo. (10) S. Tomás.
      (11) S. Bernardo. (12) Santo Ambrósio.

    4. (13) S. Maurício, abade.

    5. por ligeireza de coração ou mesmo por carida­de mal entendida» (14).

    6. «As visitas, diz S. Vicente de Paulo, devem, muitas vezes, ser suprimidas ou moderadas, mesmo tratando-se de pessoas sensatas que vi­vem no mundo».

    7. Pelo menos deve-se estar acompanhada de uma outra irmã e rodeada de modéstia, de pru­dência e de um santo temor.

    8. Não se deve usar de menos vigilância nas visitas a receber. «Ninguém é mais digno de compaixão do que uma religiosa que ama o mundo e que, não podendo ir para ele, o man­da vir para ela, e passa um tempo considerável no locutório, em conversas vãs, em distracções, em críticas, em passatempos, a informar-se do que se passa no exterior. Ó minha irmã, Deus, na sua bondade, livrou-vos dos perigos do mun­do e deu-vos força para os deixardes; porque vos expondes a esses perigos de que fugis­tes?» (15). Talvez haja matéria para um sério exame nas religiosas que estão ocupadas em funções exteriores, principalmente na educação das crianças: é fácil a ilusão, e ao fim de pouco

    1. Santa Catarina de Sena.

    2. S.to Af. de Ligório.

    1. 10. Castidade.

    1. tempo «a esposa de Jesus Cristo já não será o jardim fechado que se não deve abrir a nin­guém senão a Ele» (16).



    2. II. — A CLAUSURA



    3. «Foi principalmente para favorecer a casti­dade, de que as pessoas religiosas fazem pro­fissão, que se introduziu a lei da clausura; ela deve ser «considerada como uma dependência do voto de castidade» (17). A clausura é a salvaguarda dos votos. É indubitável que a fa­cilidade de sair, de ver a família, de conservar relações lá fora, cria certos perigos para a prá­tica da pobreza, maiores ainda para o voto de castidade. Bem defendida, a clausura protege esses votos, e torna mais imediata, mais cons­tante a dependência e a obediência. Além dis­so, ela é a consagração do sacrifício religioso: colocar os selos numa casa, é atestar a posse daquele que os manda colocar; assim, a clau­sura consagra a propriedade exclusiva de Deus. A clausura é ainda uma barreira entre a alma religiosa e o mundo; preserva-a do seu espírito,

    1. S.ro Af. de Ligório.

    2. P.e Gautrelet.

    1. das suas máximas, da sua frivolidade, do seu brilho sedutor, das suas promessas falazes, da sua crónica escandalosa. Ela restringe a vida dos sentidos, a evaporação dos sentimentos, os voos da imaginação e, do mesmo modo, de­senvolve e aperfeiçoa a vida da graça, a vida divina, a vida interior, a doçura e a intimidade das relações com Deus. Por estas razões, Santa Teresa, antes da sua reforma, exclamava: «Foi para mim uma desgraça não ter entrado num mosteiro em que se observasse, com exactidão, a clausura» (18).

    2. Contudo, as religiosas que desempenham as funções de Marta, ou alternam com as de Ma­ria, nada têm a lamentar. Fazendo a vontade de Deus, elas fazem o que há para elas de me­lhor e de mais perfeito. Imitam propriamente a vida d'Ele; porque «Ele está infinitamente separado de tudo pela pureza do seu ser, e é infinitamente comunicativo por um efeito da sua bondade» (19). Resta-lhes fazerem «no próprio seio do seu coração um claustro misterioso e profundo, ou então uma montanha alta e de­serta em que a sua alma se retire, se recolha, no meio das mais agitadas ocupações, e se en-



    3. (18) Santa Teresa. (19) Bossuet.

    4. tretenham secretamente com Deus, dedicando--se com ardor às funções que a obediência lhes confiou» (20). Quantas tempestades e abalos se podem experimentar numa caverna muda, e que turbilhões nós podemos enfrentar no mun­do, sem deixarmos contaminar a nossa alma?!

    5. É portanto «a solidão de espírito que é ne­cessária; sem ela, a solidão do corpo não pro­duz efeito algum» (21). As boas religiosas cum­prem redondamente, energicamente os seus de­veres de estado; fazem para si um claustro in­terior de modéstia, de prudência, de recolhi­mento» (22); «não procuram, nas suas funções exteriores, ocasiões de distracção, mas unica­mente o serviço das almas e a glória de Deus, e, logo que podem, saem do mundo e voltam pa­ra Jesus Cristo» (23). Nestas condições, elas parecem-se com a abelha que sai para libar no campo, mas volta imediatamente para o cor­tiço, fabricar o seu mel. Fora disso, não se tem direito à protecção divina; «a mistura com o mundo é prejudicial à pureza; o espírito es­vazia-se do santo pensamento de Deus e en­che-se do amor das criaturas» (24).

    6. (20) Möns. Plantier. (21) S. Gregório. (22) Möns. Plantier. (23) S.to Af. de Ligório. (24) S. Vicente de Paulo.

    7. Afectos. — «Morre, ó minha alma, morre in­cessantemente para todas as criaturas que te desviam do Criador; sê solitária, foge deste mundo; se o procurares, ele seduzir-te-á. On­de podes tu estar melhor do que com Jesus Cristo, onde podes tu estar bem sem Ele? Sê portanto, ó minha alma, um jardim fechado, que seja somente Jesus a ter a chave dele» (P.e Avrillon).



    8. Exame. — Amo eu a solidão, a vida ocul­ta, o espírito interior? — São, porventura, a necessidade, a obediência e a caridade as úni­cas razões que me põem em contacto com o mundo? — Não me iludo sobre a utilidade que há em ver, receber seculares, em conviver com eles ? — Mostro-me verdadeira religiosa pela re­serva, modéstia, prudência, austeridade? — Termino as visitas e conversas logo que posso?



    9. Resolução.

    10. Ramalhete espiritual. «Fujamos, fujamos, escondamo-nos; evitemos os próprios santos que nós não encontramos no refúgio sagrado do Es­poso» (Bossuet).



    1. DA VIGILÂNCIA



    2. «Vigiai e orai, para não cairdes em tenta­ção» (1). Tal é a recomendação que Nosso Se­nhor faz aos seus discípulos, Ele que conhece tão bem a argila de que somos feitos (2). Ela é dirigida igualmente a nós que temos, como eles, «um espírito pronto, mas um corpo frágil» (3). A vigilância é bem necessária, porque, uma vez perdida «a bem-aventurada integridade, só à custa de duros trabalhos pode voltar a ser cas­ta» (4). Meditemos: 1.° o dever da vigilância; 2.° as regras da vigilânca.



    3. I. — O DEVER DA VIGILÂNCIA



    4. «Tomai a peito conservar a virgindade da vossa alma, estai de olhar sempre atento às astúcias e às carícias do dragão; desde o mo­mento em que deixardes de vigiar, os vossos cinco sentidos, que são como outras tantas vir­gens, serão corrompidos pela serpente». (5) Di-

    5. (1) S. Mateus, XXVI, 41. (2) Job, X, 9.

    6. (3) S. Marcos, XIV, 38. (4) S. Cipriano.

    7. (5) Santo Agostinho.

    8. zia o Salvador: «Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora» (6). Falava da sua vinda; esta advertência pode entender-se também do assalto do demónio que vem muitas vezes de improviso e sem que nada faça suspeitar da sua aproximação. O grande talento numa guer­ra, é saber surpreender o inimigo; o erro e a desgraça é deixar-se o exército surpreender: de­pois de um dia de batalha, os soldados fatiga­dos que repousam no campo estão sempre sob a vigilância das sentinelas. Nos combates inces­santes, no meio dos quais decorre laboriosamen­te a nossa vida espiritual, a vigilância é também a nossa primeira segurança e o nosso primeiro dever.

    9. «A vigilância é uma atenção perseverante da alma sobre si mesma e sobre tudo aquilo que a rodeia. Toda a virtude que teme uma derro­ta, deve considerar-se como uma praça sitia­da. Que faz aquele que tomou uma cidade cercada, agora confiada à sua guarda, e que jurou morrer, de preferência a render-se? De dia e de noite, ele olha e escuta. Observa os movimentos e escuta os ruídos de dentro e de fora. Ao primeiro grito de alarme, ao menor ruído suspeito, lá está ele de pé, a multiplicar

    10. (6) S. Mateus, XXV, 13.

    11. as suas ordens, e a mandar marchar as suas forças para onde se pressente o perigo» (7). Eis «o forte armado, a guardar a sua própria casa; aquilo que ele possui, está em seguran­ça» (8).

    12. Os apóstolos tinham adormecido, quando o Salvador lhes deu de conselho que vigiassem. Há o sono «daqueles que estão sentados à som­bra da morte» (9), os pobres pecadores. O peca­do e uma rede de malhas apertadas, em que o demónio os tem cativos. «A primeira vigilân­cia é a vigilância do estado de graça, ou en­tão o regresso da alma ao dia cristão, mantido o olhar interior, capaz de ver a verdadeira luz» (10). «Marchai como convém a pessoas a quem o sol ilumina» (11).

    13. Mas não basta poder abrir os olhos, é pre­ciso conservá-los abertos, defendermo-nos mes­mo da sonolência, e não nos parecermos com aquelas sentinelas de que fala o profeta, «seme­lhantes a gafanhotos engordados nas sarças». Que resistência pode opor ao inimigo «a alma preguiçosa, mole, covarde, pusilânime, à qual todo o sacrifício espanta, que se poupa em tu-

    14. (7) R. P.e Monsabré. (8) S. Lucas, XI, 21.

    15. (9) Salmo CVI. 10. 10) Mons. Gay.


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