F. Maucourant rmsaio



Baixar 0.86 Mb.
Página3/7
Encontro03.11.2017
Tamanho0.86 Mb.
1   2   3   4   5   6   7
o

  • Salvador; «o coração prudente possui a ciên­cia» (15), e «uma sabedoria que brilha até no seu rosto» (16). Precisamente, no filho do sé­culo, «a fascinação da bagatela perverte a ra­zão e obscurece a vista do bem» (17); «a es­tupidez é filha do pecado» (18); «a prudência da carne é a morte» (19); e as virgens impru­dentes são chamadas loucas» (20). Pelo con­trário, a alma que procura, antes de tudo, a santidade e o olhar de Deus, prevê o perigo, penetra os desejos do céu e os do inimigo, ca­minha com circunspecção, segue docilmente o Espírito Santo, ao qual ela chama «o guia da sua virgindade» (21); a castidade torna-a pru­dente.


    1. (14) S. Mateus, X, 6.

    2. (16) Prov., XVII, 24.

    3. (18) Sabedoria, IV, 12.

    4. (20) S. Mat., XXV, 2.
    A justiça faz amar e eumprir o que a pru­dência propõe: ela inspira uma firme e cons­tante vontade de dar a cada um o que lhe é devido. O amor próprio e o gozo torna natural-

  • (13) S. Tomás. (15) Prov., XVIII, 15. (17) Sabedoria, IV, 12. (19) S. Tomás. (21) Jerem., III, 4.

    1. mente egoísta e injusto, dá «uma cabeça dura e um coração feroz» (22). A alma pura, casta, virgem, é naturalmente boa; a religião e a pie­dade são o seu mais querido alimento. Ela é dedicada, reconhecida, afectuosa, afável, ge­nerosa, simples e cândida. A menor indelica­deza fá-la-ia sofrer; faz consistir a sua paz e a sua felicidade em contentar Deus e o próximo, para saciar «a fome que ela tem de justi­ça» (23).

    2. O papel da força é conquistar, em seguida defender o bem que a prudência nos propõe e para o qual a justiça nos encaminha. Ela arma-nos contra os receios, os medos, as sur­presas; faz-nos pacientes e firmes, constantes e perseverantes; as almas a que ela se comu­nica são magnânimas e desinteressadas. Que a castidade robustece, é um facto histórico : quem é que nós encontramos ao pé da cruz? Maria e João, os virgens; Madalena, a quem o arre­pendimento e o amor purificaram. Que espectá­culo mais belo do que os combates de Cecí­lia, de Inês, de Blandina, de Solange, de Co­lomba, de todas essas valentes que venceram o mundo, o inferno e até a morte, para guar-

    1. Ezequiel, II, 4.

    2. S. Mateus, V, 6.

    1. darem a sua virgindade? «Porque amastes a castidade, o vosso coração tornou-se intrépi­do» (24).

    2. Finalmente, a temperança é-nos dada espe­cialmente para reprimir os prazeres dos senti­dos, principalmente os do tacto e do gosto, pe­la abstinência, a sobriedade, a castidade e a mo­déstia : com ela se relacionam a humildade, a pobreza, a mortificação, virtudes opostas às três formas do amor desregrado de nós mes­mos. A castidade é pois uma parte da temperan­ça, e encontra justamente a sua segurança na renúncia, na austeridade, na modéstia. Um Pa­dre diz que a castidade dá à alma um tempera­mento especial, pacífico e meigo, equilibrado e harmonioso.

    3. O pródigo perdeu-se no pecado e dissipou to­dos os seus bens (25); pelo contrário, aquele que permanece casto, para ser mais livre no tra­balho da santidade, entra «naquela sabedoria à qual segue o cortejo de todos os bens» (26).



    4. Afectos. — «Senhor, governai, durante este dia, todos os meus pensamentos, palavras e ac-

    1. Judite, XV, 11.

    2. S. Lucas, XV, 13.

    3. Sabedoria, VII, 11.

    1. 5, Castidade.

    1. ções. Dai-me humildade de espírito e pureza de consciência. Plantai em mim a castidade do cor­po e da alma, a humildade, a austeridade, a paciência. Guardai os meus pés, as minhas mãos, o meu coração. Dirigi-me, hoje e sem­pre, nos caminhos da verdade, da paz e da jus­tiça, pela graça do Redentor» (Atribuído a S. Jerónimo).



    2. Exame. — Está a minha fé em relação com a minha vocação ? — Tenho eu em Deus a mes­ma confiança que tinha nos dias em que Ele me chamava? — Onde está a minha caridade, manifestada principalmente em actos? — Sou prudente, reservada, delicada, modesta? — Sou boa, afável, dedicada? — Sou austera, peni­tente, mortificada? — Desconfio de mim e re­fugio-me em Deus? — Dá-me a castidade tudo o que eu acabo de meditar?



    3. Resolução.

    4. Ramalhete espiritual. — ó castidade, tu flo­resces como uma bela rosa, e espalhas por toda a parte, no corpo e na alma, suaves perfumes». (Santo Efrém).



    5. AS PREDILECÇÕES DE JESUS PELA VIRGINDADE



    6. I. —OS SEUS EXEMPLOS



    7. «O nosso Salvador e Mestre instrui-nos ora com as suas palavras ora com as Suas acções. Aponta os Seus actos como regra dos nossos; mesmo sem falar, dá a entender o que devemos fazer» (1) quer se trate de uma obrigação a cumprir, quer simplesmente de continuar um programa de perfeição. Assim, a respeito do assunto que estamos meditando, Jesus formu­lou poucas palavras e deu grandes lições. Que­reríamos recolhê-las meditando: 1.° a virgin­dade em Jesus; 2.° a virgindade em volta de Jesus.





    8. I. — A VIRGINDADE EM JESUS

    9. O Messias, aquele que vem reparar o pe­cado e salvar o pecador, é anunciado sob vir­il) S. Gregório Magno.

    10. ginais imagens: «uma flor dos campos, um lí­rio dos vales, um lírio entre os espinhos; to­mará as suas alegrias no meio dos lírios» (2). O Deus de toda a luz e de toda a pureza, para se tornar Emmanuel, Deus connosco, faz sair da raiz de Jessé (3) a Virgem Maria, pura ver-gôntea, donde brotará uma flor, Cristo (4). As­sim se prepara a vinda do Rei das virgens. «Na plenitude dos tempos» (5) o divino media­dor aparece na terra, como «o pontífice san­to, imaculado, separado dos pecadores» (6). No meio de um mundo cheio de pecados Ele ostentou sempre a auréola de uma santidade perfeita e de uma perfeição imaculada, «san­to de Deus, terrível para os demónios, sem pe­cado algum» (7). Obriga Satanás a declarar que Ele é o santo de Deus» (8); grita ao mun­do : «Quem de entre vós me arguira de pecado ?» Desprezado ou perseguido, ele traz uma cons­ciência virgem, Ele caminha incessantemente na serenidade e na paz; a sua virtude interior não sabe conter-se e irradia à sua volta (9).

    1. Cant., II, 1, 2, 16.

    2. Isaías, XI, 1.—VII, 14.

    1. (4) S.to Ambrósio. (5) Gálat, IV, 4.
      (6) Hebr., VII, 26. (7) Pascal.

    2. (8) S. Lucas, IV, 34. (9) S. Lucas, IV, 19.

    3. O Salvador tinha em tão grande conta esta eminente pureza, que não permitiu sequer que alimentassem a esse respeito a menor suspei­ta. Sofreu todos os opróbrios, «até ao ponto de ser acusado de gostar do vinho e da boa me­sa; não quis que a sua reputação fosse jamais atingida. Admiravam-se de o verem a falar com uma mulher que Ele convertia, mas pro­cedia em tudo de uma maneira tão perfeita e tão séria, que a sua integridade, sob esse aspec­to, permaneceu sem suspeita. O simples nome de Jesus não é já de molde a inspirar pure­za»? (10). Os seus próprios inimigos sentiam por Ele essa impressão de respeito. Como o viandante atrasado que numa noite de inverno é seguido por uma alcateia de lobos, e, se dá um passo em falso, está perdido; assim Jesus atravessou a vida, rodeado dos Fariseus que procuram arrancar-lhe uma palavra, um acto imperfeito ou culpável. Ele, sempre puro e do­ce, sempre calmo, responde a todas as ciladas com esta palavra de uma real santidade: «Qual de vós me arguira de pecado?» Depois resume numa palavra os seus ensinamentos morais: «Bem-aventurados os corações puros» (11).



    4. (10) Bossuet. (11) S. Mateus, V, 8.

    5. Então Jesus funda o estado de virgindade. Encoraja a abraçá-lo «em vista do reino dos céus» (12); sugere que se reflicta para se com­preenderem as suas preferências. Finalmente «inspira ao seu apóstolo que a santa virgindade é a única que pode consagrar perfeitamente a Deus um coração incapaz de se reparar» (13). Logo acorre a falange dos castos «que querem honrar, na integridade do seu corpo, a carne puríssima de Cristo» (14). Enquanto que, antes dele, os juízes choravam a sua virgindade for­çada (15), agora alistam-se legiões nas castas milícias; elas são tão numerosas que, nas fes­tas celestes, o cordeiro «está rodeado de coros de virgens» (16).





    6. . II. — A VIRGINDADE À VOLTA DE JESUS



    7. Uma noite, quando o universo inteiro repou­sava na paz, apareceu «a estrela prometida a Jacob» (17), «a verdadeira estrela da ma-

    8. (12 S. Mateus, XIX, 12. (13) Bossuet.

    9. (14) Santo Inácio, mártir. (15) Juízes, X, 38.

    1. Hino das virgens.

    2. Números, XXIV, 17.

    1. nhã» (18), «puro e imaculado raio da eterna luz» (19). O Verbo fez-se carne, e tem o seu ber­ço rodeado das virgens da terra, Maria e José; o seu nascimento é celebrado pelos anjos, as virgens do Céu. Desde esse momento, em volta d'Ele tudo é branco, santo, virgem.

    2. É primeiro Maria. O filho mais amante e mais extremoso pode sonhar, não realizar a perfeição da sua mãe. Sozinho, Jesus prepara a sua para os seus desejos. Prevendo a parte que ela deve ter na Encarnação, preserva-a da mancha original e reveste-a de uma pureza ima­culada. «Convinha que a virgem que devia ser Mãe de Deus fosse ornada da maior pureza que se pôde conceber, depois da pureza do pró­prio Deus» (20). S. Jerónimo, com a tradição, afirma que ela fez voto de perpétua virgindade, porque era «conveniente também que esse vo­to, que pertence ao estado de perfeição, tives­se origem, sob a lei da graça, em Jesus e em Maria que são o modelo e a origem de toda a perfeição» (21). Nesta «Virgem singular», «a virgindade não é diminuída, mas sagrada pe-

    1. Apoc., XXII, 16.

    2. Sabedoria, VII, 26.

    3. S.to Anselmo. (21) S. Tomás.

    1. la maternidade» (22), e Maria é verdadeira­mente «a Princesa das Virgens» (23). Como está escrito que o Esposo caminha no meio dos lírios» (24), Deus confia Maria a José, o jus­to. «Ambos, lírios castíssimos na sua união e nas suas núpcias virginais (25) esperam «o San­to» e velam «pelo Filho da Virgindade» (26).

    2. Jesus deixa o santuário de Nazaré, e o Pre­cursor mostra ao povo «o Cordeiro de Deus». Ali, dizem santos personagens (27), encontra­va-se um Galileu cujas núpcias estavam próxi­mas e o olhar de Jesus roubou imediatamente aos seus projectos e «às ondas agitadas da vi da de família» (28). Era S. João. Haja o que houver de verdade nesta piedosa lenda, o Após­tolo virgem perde dentro em pouco «o seu no­me de um dia»; recebe «um nome de eterni­dade» (29); chama-se «o discípulo que Jesus amava» (30). Amou-o até o querer sempre a seu lado, até lhe dar o que tinha de mais caro «na sua vida, a sua cruz; na sua morte, sua

    1. Missa da Pureza de Maria.

    2. Santo Ildefonso.

    3. Cant, II, 16. (25) Rupert.

    1. (26) S. Bernardo. (27) S. Jerónimo, S. Tomás. (28) S.to Agostinho. (29) I, Macab., VI 44 (30) S. João, XXI, 7.

    2. Mãe; na Ceia, o seu coração. Aprendamos qual é a força da pureza» (31). Porque «o segredo da preferência do Salvador é verdadeiramen­te a virgindade do Apóstolo» (32).

    3. Assim, Cristo nasce de uma mãe virgem, faz do discípulo virgem o seu preferido. De­pois, todas as suas relações confirmam as suas predilecções: Marta fica virgem para O servir; Madalena reconquista a pureza para ser sua hospedeira e sua privilegiada; institui no sacer­dócio o meio de conservar ou de refazer a pu­reza; toda a sua missão a nosso respeito con­siste em fazer santos e perfeitos. Nota-se, em todo o Evangelho, o perfume daquela pureza especial que é o objecto da castidade e, no co­ração do Mestre, uma inclinação pronunciada para tudo o que é virgem.

    4. Afectos. — «Senhor Jesus, que nos instigais a subir ao céu pelos caminhos mais belos, fos­tes Vós que nos ensinastes a excelência da pu­reza : nós estamos muito abaixo da Vossa san­tidade, incapazes, sem Vós, de compreender e de receber os Vossos dons. Vós sois o inspi­rador e o guardião da castidade; conservai-nos

    1. Bossuet.

    2. S. Jerónimo.

    1. santas, puras e virgens para o dia da Vossa glo­rificação» (Liturgia moçárabe).

    2. Exame. — Medito eu por vezes a santidade de Jesus? Felicito-me por ela e regozijo-me? ■— Fixam-se muitas vezes os olhos da minha al­ma nesse belo modelo? — Tenho a ambição de me parecer, o mais possível, com esse Santo dos Santos? Não há em mim nada que possa pri­var-me das suas predilecções? — É também Maria um modelo que eu imito, um socorro que eu invoco? — Tenho recorrido por vezes a S.José, a S. João, a todos os amigos de Jesus e da Sua virgindade ?

    3. Resolução.

    4. Ramalhete espiritual. — «Jesus, pureza d?s virgens, sede misericordioso para connosco» (Ladainhas do santo Nome de Jesus).



    5. IX

    6. PREDILECÇÕES DE JESUS PELA VIRGINDADE



    7. II. — O LUGAR QUE ELE DÂ ÀS VIRGENS A perseguição recrudescia; levaram à pre­sença do juiz uma virgem, tão jovem que «os seus membros delicados deixavam deslizar as cadeias» (1). Acusada, responde vitoriosamen­te; ameaçada na virtude que lhe é a mais cara, ela permanece intrépida: «Tenho o mais podero­so dos esposos; ele jamais consentirá que tu profanes a minha virginal coroa» (2). É a vir­gem Inês que fala tão destemidamente; é Cris­to que «lhe faz com a sua cabeleira uma veste de misericórdia» (3), e fere de morte o seu in­sultador. 1.° Cristo é o esposo das virgens; 2.° Ele é o protector da virgindade.





    8. I.—JESUS ESPOSO DAS VIRGENS



    9. O Evangelho, que é a nossa regra de fé e de vida, fala muitas vezes das núpcias de Cris­to com as almas, e dá ao Salvador o nome de Esposo (4). Cristo desposa o cristão no baptis­mo. Aquela virgem casta, que S. Paulo deseju apresentar a Cristo, como «sua verdadeira e legítima esposa», são os fiéis baptizados que for­mavam a Igreja de Corinto. Deus tinha dito:



    10. (1) S.to Ambrósio. (2) Prudência.

    11. (3) S.to Ambrósio. (4) S. Mateus, IX, 15.

    12. «Desposar-te-ei na fé» (5). Crente e baptizada, a alma torna-se parente e esposa de Cristo (6). «Minha irmã e minha esposa», diz o Esposo dos Cânticos. Então Cristo e a alma já não têm senão uma alma; são dois num, até serem um só corpo, pois o fiel é um membro do corpo mís­tico de Cristo. Tudo o que é de Cristo é dele, e a morada de Cristo é a morada do baptiza­do. Tal é o crepúsculo do dia cristão; aquela aurora é já um pleno meio-dia, tão radiosa ela é. De Cristo se disse «que é fiel» (7); não faltará à sua palavra; ele ama a esposa cons­tante, espera-a perdida, recebe-a arrependida e enquanto a desposada vive neste mundo, não cessa um instante de trabalhar por apertar mais os laços da sua mútua união.

    13. Todavia, há, entre Cristo e a alma, outras uniões possíveis, mais elevadas, mais santas, mais divinas do que a união do baptismo; aci­ma dos baptizados, há os consagrados. Todos aqueles que, consagrando a Deus a virgindade ou a castidade perpétua, entram naquele esta­do eminente que se chama estado religioso, me­recem eminentemente também o título de espo-



    14. (5) Oséias, II, 20. (6) Cant., IV, 9.

    15. (7) Apoc, I, 5.

    16. sas de Cristo: naquele ponto em que, na lin­guagem usual dos cristãos, esse nome lhes es­tá como reservado. Há tanta predilecção da parte de Jesus que chama, como amor e dedi­cação da parte da eleita que responde. Ela dei­xa tudo, morre para tudo, para seguir Jesus Cristo. «Uma de um», dizia S. Francisco: eles são um do outro o objecto de um amor mútuo. O comércio dessas almas com o Esposo é mais habitual, por vezes mais terno, sempre mais santo; elas são verdadeiramente «as esposas do coração» (8). Elas vivem do Esposo e para Ele; tudo lhes é comum e indiviso. Jesus é bem o amigo, o confidente das virgens, a sua paz, a sua felicidade. Nunca as deixa: no si­lêncio, no trabalho, fala-lhes ainda, e se por ve­zes parece dormir, «o seu coração está vigilan­te» (9).

    17. «Jesus Cristo desposa verdadeiramente a religiosa na sua profissão» (10). «Ó virgens bem-aventuradas, que vos consagrastes a Je­sus, lembrai-vos de que tendes um esposo co­mo nem o céu nem a terra vo-lo podem ofere­cer!» (11). «Vós ofereceis-me um esposo, di­zia Santa Inês, eu encontrei um melhor». «Di-

    18. (8) S. Bernardo. (9) Cant., V, 2.

    19. (10) S.to Af. de Ligório. (11) S.to Eucher.

    20. zei-me, ó santa Esposa dos Cânticos, as qua­lidades desse bem-amado que vos toma feliz e afortunada. Ele é branco como o inocente, ver­melho como o amor; tão bom, tão perfeito, que é de todos o mais amável e o mais belo» (12). Que glória para nós nestas predilecções de Je­sus; mas que responsabilidade!» (13).





    21. II.— JESUS PROTECTOR DAS VIRGENS

    22. Um esposo é um protector, um defensor: é a lei da natureza. Quando Jesus Cristo quis que as virgens se tornassem suas esposas, tomou e aceitou para si mesmo a dupla obrigação de as defender e de as proteger. Não foi tanto a todos os seus fiéis amigos, foi principalmente às suas esposas que Jesus disse doces palavras: «As minhas ovelhas ouvem a minha voz, elas se­guem-me, eu dou a minha vida por elas; elas jamais perecerão, e ninguém as arrancará das minhas mãos» (14).

    23. O Esposo divino começa cedo a exercer a sua protecção sobre as virgens. «Protege-as com as bênçãos da sua doutrina e coloca-lhes sobre

    24. (12) S.to Af. de Ligório. (13) S. Cipriano. (14) S. João, X, 28.

    25. a cabeça uma coroa de pedras preciosas» (15). Que ternura e que vigilância lhe foram necessá­rias para afastar das nossas almas, desde o ber­ço, toda a poeira e toda a sombra que nos fa­riam inclinar para a terra e nos encobririam os celestes horizontes. Que misericórdias para ins­pirar às suas eleitas o «gosto das alturas» (16); que «amor na maravilhosa atracção com que Ele lhes arrasta os corações!» (17). Que poder Ele emprega em seguida para lhes dar passa­gem para a terra das promessas; assim como fez para fazer sair Israel do Egipto, «Ele es­tende o seu braço» (18) ao qual nada pode re­sistir. Uma vocação é para o Salvador a oca­sião de sustentar verdadeiros cercos: cerco con­tra a carne, contra o sangue, contra o espírito do mundo; cerco contra os que rodeiam a elei­ta; cerco por vezes contra a própria eleita, «pon­do toda a sua força em estabelecer o seu rei­no» (19) nas suas privilegiadas.

    26. Chegada «àqueles tabernáculos amados do Deus das virtudes» (20), em que ela tem de pre­parar as suas núpcias com o Cordeiro, a no-



    27. (15) Salmo, XX, 4. (16) Coloss., III, 2. (17) Jeremias, XXI, 3. (18) Deut, V, 15. (19) Apoc., XI, 17. (20) Salmo LXXXIII, 2.

    1. viça encontra ainda Jesus protector; Ele ti­nha-lhe tomado a dianteira, preparando-lhe «aquele suave ninho de pomba em que ela re­pousaria, produzindo seus frutos» (21), que ela começa a amontoar para os dias eternos» (22). Era Ele que lhe proporcionava aqueles cora­ções de mães e de irmãs, aquelas instruções, aquelas orações, aqueles bons exemplos, aque­les mil recursos que convergem, todos, para es­te fim único «adornar de jóias preciosas a noi­va» (23) de Deus. Esta terna solicitude segui--la-á durante toda a sua vida; ela «habitará sob a protecção do Altíssimo e receberá o seu socorro do Deus do Céu» (24). Na assembleia dos santos militantes «ela ocupa o primeiro lu­gar» (25); a Igreja considera a virgindade co­mo a sua flor mais suave, como a parte mais bela e mais escolhida de todo o rebanho de Je­sus Cristo» (26).

    2. No cortejo dos séculos, bastou às virgens es­perar no seu Esposo, e «mil caíam à sua direi­ta, mil à sua esquerda; nenhum inimigo se apro­ximava» (27). A história das virgens e dos már-

    3. (21) Salmo LXXXIII, 4. (22) S. João, IV, 36.

    4. (23) Apoc, XXI, 2. (24) Salmo XC, 1.

    5. (25) S.to Ambrósio. (26) S. Cipriano.
      (27) Salmo XC, 7.

    6. tires dá testemunho do seu poder e da sua de­licadeza. Houve horas em que se teria dito que, verdadeiramente, o abutre ia devorar a ino­cente pomba. Mas era a hora do amor, Jesus velava. Ele delegava um anjo, enviava a mor­te, irradiava chamas, tomava raios de estre­las e cobria as suas virgens com uma veste de luz, abria as águas ou tornava sólida a superfí­cie dos rios: nunca deixou de levar socorro à virgindade.



    7. Afectos. — «Ó Jesus, coroa das virgens, es­cutai com bondade as nossas preces. Vós que caminhais entre os lírios, rodeado dos coros das virgens, esposo brilhante de glória, e que re­compensais as vossas esposas. Nós vos supli­camos humildemente que deis aos nossos senti­dos a virtude de ignorar sempre o que pode man­char a santa pureza. Glória a Deus, Pai, Fi­lho e Espírito Santo» (Hino das Virgens).



    8. Exame. —■ Tenho eu compreendido a minha eminente dignidade como esposa de Cristo? — Corresponde a minha vida à dele ou está mal harmonizada com a dele? — Sou obrigada a ser pura e a purificar-me incessantemente: en-contrar-me-á cada dia mais santa? — O que

    1. 6. — Castidade.

    1. é que Nosso Senhor pode censurar em mim, como ideia, como sentimento, como prática? — Estou eu decidida a ocupar o meu lugar?



    2. Resolução.

    3. Ramalhete espiritual. — «Estou noiva do Es­poso mais nobre; amá-lo é ficar pura» (San­ta Inês).





    4. X

    5. DAS TENTAÇÕES



    6. I. —SUA NECESSIDADE, SEU PAPEL



    7. Nós conhecemos os nossos deveres e os nos­sos privilégios; eis o inimigo contra o qual te­mos de defendê-los. «Satã, o mundo e a carne, quando vêem uma alma desposada com o Fi­lho de Deus, enviam-lhe tentações e sugestões; mas o trabalho e o sofrimento que nós sentimos com elas vêem de Deus que tira da malícia des­se inimigo a santa tribulação, pela qual Ele afi­na o ouro que quer pôr nos seus tesouros» (1).



    8. (1) S. Francisco de Sales.

    9. É utilíssimo à paz das almas ligadas pelo voto de castidade, conhecer a história e o fim das tentações: 1.° Necessidade da tentação; 2." pa­pel da tentação.





    10. I.—NECESSIDADE DA TENTAÇÃO



    11. Não há ilusão admissível, a tentação é uma lei geral desde as feridas causadas no nosso ser pela culpa original. Nenhuma condição se lhe subtrai, nenhum grau de virtude dispensa de­la; nenhuma vitória assegura radicalmente a paz. Nada nos defende dela, nem os actos he­róicos, nem as abnegações absolutas, nem os estados superiores. Nem mesmo o véu e o claus­tro põem ao abrigo das miragens odiosas, das fascinações detestáveis, das trevas, das questões, das hesitações mais terríveis do que todo o res­to. «Meu filho, diz o Espírito Santo, desde que entres para o serviço de Deus, prepara a tua alma para a tentação» (2). Depois, quando, à força de renúncias e de generosidade, se entrar resolutamente no caminho dos perfeitos, a mes­ma voz previdente e protectora repete-vos: «Co-



    12. (2) Ecles., II, 1.

    13. mo de ora avante me és mais agradável, é ne­cessário que a tentação continue a experimen­tar-te» (3). Aqueles que têm por missão guiar e guardar os outros, não estão isentos destas hu­milhações; muitas vezes, estão até mais expos­tos a elas. «Os corsários não param para apre­sar um barquito de pescadores, no qual apenas há redes e alguns peixes; os barcos grandes é que eles perseguem, aqueles que regressam das Índias, carregados de ricas mercadorias. As­sim o demónio ataca os que estão enriquecidos de graça e de merecimentos e que arrastam os outros para o caminho do bem» (4).

    14. «Poucas almas estão ao abrigo da tentação, nem mesmo as virgens mais castas» (5). Ela sai das nossas adversidades, sobe de debaixo da terra e germina sob os nossos passos; está no ar que respiramos, no raio de sol que nos ilumina o caminho, na flor desabrochada sobre a sebe que o ladeia; ela está na cama em que dormimos, no livro por onde estudamos, no oratório em que rezamos; está nos nossos parentes, nos nos­sos amigos, nos nossos companheiros de viagem; está no que há de mais sagrado, como no que há



    15. (3) Tob., XII, 13. (4) P.e Godinez.

    16. (5) S. João Crisóstomo.

    17. de mais profano; finalmente e acima de tudo, ela é em nós inesgotável, e sê-lo-á até ao nosso derradeiro suspiro» (6).

    18. Em vez de nos perturbarmos e desanimar­mos quando chega a hora do combate, ou de adormecermos à sombra de uma falsa seguran­ça, lembremo-nos da história dos santos. Na sua solidão austera, S. Jerónimo era atormen­tado pelas recordações da Roma pagã; Santo Antão, no deserto, era supliciado por visões hor­ríveis; após oitenta anos de penitência, Santo Hilarião era visitado e importunado por Sata­nás; S. Martinho, suficientemente forte para ressuscitar mortos, nem por isso suportava me­nos o ataque dos demónios; finalmente Paulo, iluminado por Cristo, o vencedor da idolatria, o doutor do mundo, estava reduzido a pedir graça e perdão a Deus, tão violentas e tenazes eram as suas angústias íntimas: para nossa ins­trução, para santidade do apóstolo e para gló­ria do seu nome, Deus prometia-lhe o seu auxí­lio, mas negava-se formalmente a subtraí-lo a essa vergonha (7).





    19. (6) Mons. Gay. (7) II, Cor., XII, 8.

    1. II. — PAPEL DAS TENTAÇÕES



    2. Deus recusou destruir os Cananeus para im­pedir Israel de se enervar na paz, e obrigá-lo a conservar-se sempre pronto para a guerra (8). Do mesmo modo, Ele encontra a sua glória e o nosso proveito nos rudes combates que a tentação nos proporciona diariamente.

    3. «O Senhor tenta-vos, está escrito, para sa­ber se vós o amais de todo o coração» (9).

    4. De onde quer que nos venha o assalto, ou do demónio que faz guerra ao seu Senhor, ou do mundo que contradiz Jesus Cristo ou das profundezas do nosso ser chamando-nos ao egoísmo e à sensualidade, as nossas vitórias são uma resposta de adoração e de submissão. A resistência é um acto de fé na soberana autori­dade de Deus, um acto de esperança na sua bondade que nos mantém e nos recompensa, um acto de amor efectivo e laborioso por aquele que recebe os nossos sacrifícios.

    5. Pessoalmente, nós encontramos as nossas vantagens neste estado de provação. A tenta­ção revela-nos a nossa miséria e leva-nos à hu-

    1. Juízes, II, 3; III, 1-3.

    2. Deut, XIII, 3.

    1. mildade (10). Daí nasce em nós o sentimento da necessidade que temos de Deus, para afas­tarmos «o anjo de Satã» (11)- «Como uma mãe avisada, Deus põe à volta de nós, seus filhos, espantalhos que nos obrigam a chamá--lo, a recolhermo-nos junto dele» (12); quan­do a noite vem e as sombras caem, excla­ma-se instintivamente: «Ficai connosco, Se­nhor» (15). Às vezes, a tentação é «um raio que faz sair da tibieza» (14). Outras vezes ajuda a achar «dura aquela estadia no hotel em que passámos um dia, e aumenta o desejo da paz eterna na pátria» (15). Para todos ela pode ser uma ocasião de progresso: «na enfermidade, diz o apóstolo, se aperfeiçoa a virtude» (16). Com efeito, os actos enérgicos com que se re­pele a sugestão, desenvolvem o hábito contrá­rio e merecem do céu graças especiais. S. Bento obteve a castidade ao sair de uma luta san­grenta, e S. Tomás de Aquino o dom dela após uma vitória insigne. A calma insulsa deixa brotar «as virtudes franzinas» (17); os grandes

    2. (10) Imit, liv. I, cap., XIII.

    3. (11) II Cor., XII, 7. (12) Gerson.

    4. (13) S. Luc, XXIV, 22. (14) Alvarez de Paz.
      (15) S.to Agostinho. (16) II, Cor., XII, 9-

    5. (17) S. Fr. de Sales.

    6. choques e as grandes lutas formam para o he­roísmo. As árvores violentamente abaladas mer­gulham profundamente as suas raízes. Quanto mais o calor do forno activa a fusão, tanto mais o metal sai purificado dele; o ouro recebe ali o seu esplendor, só a palha se consome ali. O santo bispo de Genebra dizia que «os lírios vêm mais brancos entre os espinhos».

    7. Finalmente, as tentações dão experiência para o apostolado. É preciso coragem para conhecer as astúcias, as perfídias, as for­ças do inimigo; antes de se ter combatido, não se é mais do que «aprendiz»; depois de um sé­rio combate, fica-se «capitão» (18). «Daquele que tiver vencido, diz o Rei dos fortes, farei uma coluna no meu templo» (19). Depois das suas próprias angústias, Santo Inácio recebeu o poder de curar as almas tentadas; ao sair das suas terríveis lutas, S. Francisco de Sales reco­nhece-se um hábil director. «Assim se cumpre o desejo da divina bondade que transforma em rios de vida e de fecundidade as fontes em que o inimigo lançava veneno» (20).

    8. Afectos. — «Bendito seja para todo o sem-

    1. S. Francisco de Sales.

    2. Apoc., III, 12. (20) S. Gregòno.

    1. pre o vosso nome, Senhor, que quereis experi­mentar-me com esta dificuldade e esta tenta­ção. Uma vez que eu não poderia evitá-la, nada tenho a fazer senão refugiar-me junto de vós, para que me socorrais e ela se me torne útil. A vossa mão omnipotente pode afastar de mim esta tentação e moderar a sua violência, para que eu não sucumba inteiramente, ó meu Deus, minha misericórdia». (Imitação, liv. III, cap. XXIX).

    2. Exame. — Não sou eu porventura nem te­merária nem presunçosa, sob o pretexto de que não tenho grandes tentações? — Preparo-me eu para recebê-las, fortificando a minha vontade pela fidelidade e pelo sacrifício? — Nas horas más, não deixo perturbar a minha alma, sa­bendo que é a hora do mérito ? — Sou boa e compassiva para com as almas mais provadas do que a minha?



    3. Resolução.

    4. Ramalhete espiritual. — «Feliz daquele que sofre a tentação, porque quando ele tiver sido assediado, receberá a coroa de vida». (S. Tia­go, I, 2).

    5. XI

    6. DAS TENTAÇÕES



    7. II. — MEIOS DE TRIUNFAR

    8. «Aquele que entra na arena não é coroado, se não tiver observado as leis do combate» (1). Há regras a seguir, «uma armadura divina a revestir» (2), se se quiser sair vitorioso da ten­tação. Não tomando estas precauções, expõe-se à derrota, ou pelo menos a receber contusões cujas consequências podem ser graves. «Ora é preciso adaptar as flechas a cada espécie de inimigo, e variá-las segundo a espécie de com­bate» (3). Estudaremos dentro em pouco o gran­de meio da oração. Aprendamos primeiramente como: 1.° resistir às tentações; 2.° evitar as tentações;

    9. I. — RESISTIR ÀS TENTAÇÕES

    10. «O demónio ronda em torno de vós, como um leão rugidor que procura uma presa para devorar; resisti-lhe corajosamente» (4). A re­sistência é o primeiro dever do soldado cris-

    11. (1) II, Tim., II, 5. (2) Efés., VI. (3) S. Greg. Magno. (4) I, S. Pedro, V, 8.

    12. tão, seja qual for o inimigo cujo ataque ele tenha de suportar, para onde quer que os dar­dos sejam dirigidos : de outro modo, é cúmplice, atraiçoa e sucumbe. Ora nada espanta, nem detém, nem enfraquece tanto um adversário como um propósito decidido, uma vontade reso­luta, uma atitude inquebrantável por parte do seu antagonista. Há na Sagrada Escritura um passo que dá a entender acontecer isto com o demónio; dá-se ares de leão poderoso, quando afinal é fraco como uma formiga (5); «se lhe resistirdes, vê-lo-eis fugir» (6). «É um cão que tem o poder de ladrar; mas só são mordidos por ele os que lhe querem bem» (7).

    13. A boa regra exige que Satanás ou os seus sequazes sintam essa resistência logo no início do assalto. «O triunfo é fácil, se lhe resistir­mos, apenas ele se apresente; enfraquecer-nos--íamos, se usássemos de delongas ou de lenti­dão em repeli-lo» (8). «É uma serpente; se lhe deixarmos passar a cabeça, seguir-se-á o res­to» (9). Talvez que ele vos não peça senão um instante de atenção, talvez tenha apenas uma



    14. (5) Job,, IV, 11, 70. (6) S. Tiago, V, 7. (7) S.to Agostinho. (8) Imit., liv. I, cap., XIII, 5 (9) S.to Isidoro.

    15. palavra para vos dizer, um simples olhar a fi­xar em vós; ai! é a faísca que há-de incendiar a pólvora. Dizei portanto imediatamente: «Pa­ra trás, Satanás»; não ouçais nada, não pres­teis atenção a nada, não vejais nada, não admi­tais qualquer discussão.

    16. Uma vez por outra, será suficiente um sim­ples acto de desprezo. Outras vezes bastará pas­sar adiante, distrair, procurar uma ocupação, continuar sobrenaturalmente a obrigação actual. Quantas tentações não têm adquirido impor­tância, por se lhes ter prestado demasiada aten­ção : há almas que, ao menor pensamento, se agitam, fecham os olhos, abanam a cabeça, julgam-se obrigadas a dizer: Não, não quero. Caem na rede do demónio, que apenas queria provocar-lhes no coração a perturbação e o caos. Deixai ladrar esses cãezinhos, limitai-vos a so­prar sobre esse grão de poeira, enxotai pacifi­camente essa mosca, e pronto: mil pensamen­tos, mil imagens, mil sentimentos irreflectidos que nos perturbam os corações e os sentidos, não mais merecem a nossa atenção. As almas simples simplificam tudo; pelo contrário, as que mais dolorosa e mais perigosamente são tenta­das, sentem-se enleadas, perplexas, escrupulo­sas, pouco bem consigo mesmas e com Deus.

    17. Vêm todavia horas mais críticas; sente-se a alma invadida, entenebrecida, obsediada, co­mo que «atolada num abismo de lama» (10); de tal modo o espírito se agitou, o coração se perturbou e os sentidos se revoltaram. É o tem­po de nos lembrarmos de que há «diferença en­tre sentir e consentir; podem sentir-se as ten­tações, embora elas aborreçam; mas não se po­dem consentir que agradem» (11). Por mais enlaçada, enleada, acariciada que seja uma al­ma, quando ela reza na tentação, quando ela se esforça generosamente por escapar ao encanto, quando ela protesta a sua fidelidade a Deus e a sua vontade de permanecer pura, há lugar para crer que ela está vitoriosa. Como Santa Cata­rina de Sena, ela guarda «Jesus no seu cora­ção»; ela permanece casta como Santa Ângela, Santo António, São Francisco e tantos outros que, em semelhantes angústias «não perderam nada da graça de Deus, mas aumentaram-na em muito» (12).

    1. Salmo LXVIII, 3.

    2. S. Fr. de Sales.

    3. S. Fr. de Sales.

    1. II. — FUGIR DAS TENTAÇÕES

    2. «Nesta guerra, dizia S. Filipe de Neri, são vencedores os que parecem poltrões e tomam a fuga». Há circunstâncias em que é permitido esperar, mesmo afrontar a agressão; outras em que basta estar pronto a suportar o choque. Mas quando se trata da castidade, os autores espirituais são unânimes em declarar que a pru­dência ordena a fuga. «Embora tenhamos al­guma esperança de triunfar, nunca devemos provocar o combate. O demónio vem escoltado de prazeres e de gozos; a carne e os seus ape­tites não pedem senão para lhe dar lugar. Parar em face do perigo, é expormo-nos à sedução: o meio de triunfar é fugir sem demora» (13). De resto, «aqui, a própria fuga é uma vitó­ria» (14); porque é já um protesto contra o pecado e a prova de que se lhe quer escapar.

    3. Antes da tentação, deve evitar-se tudo o que pode inclinar ao mal, seja por cegueira do es­pírito, seja por engano do coração, seja por apetite sensual. A desconfiança é mãe da segu­rança; e está escrito que «quem ama o perigo, nele perecerá» (15). Nós sabemos quanto eram

    4. (13) Rodriguez. (14) Bossuet.

    5. (15) Ecles., III, 27.

    6. sinceros os protestos de São Pedro, e por outro lado, quão completa foi a sua negação. Na castidade, mais ainda do que em qualquer ou­tra matéria, a presunção levaria a lamentáveis quedas: a vida dos santos e a história das or­dens religiosas dão-nos disso tristíssimos exem­plos. Quantos desfalecimentos são preparados por leves imprudências, por pensamentos que se julgou não serem perigosos, por sentimen­tos demasiado naturais que se deixaram cres­cer a brincar, por uma linha lida às escondi­das, uma palavra que se deixou dizer, um olhar a princípio discreto, depois demasiado fixo, uma dúvida, uma hesitação mal combatidas. A pouco e pouco vai-se escorregando no declive, e chega-se aos abismos, por não se ter evitado «toda a aparência de mal» (16). A fuga, pelo contrário, foi a salvação do casto José; Santa Eusébia e as suas companheiras evitaram heroi­camente a ocasião, fazendo desaparecer a sua beleza; no fim de contas, que é o nosso voto de castidade, senão uma perpétua fuga da oca­sião?

    7. Existem duas espécies de tentações: umas involuntárias, outras voluntárias; umas em que



    8. (16) I, Tessa., V, 22.

    1. nos comprometemos a nós mesmos contra a or­dem de Deus, outras em que nos encontramos comprometidos por uma espécie de necessida­de ligada ao nosso temperamento, à nossa saú­de, à nossa condição, à nossa vocação, ao nos­so ministério. Nas primeiras, não devemos es­perar ser socorridos por Deus, se não evitar­mos a ocasião; e por isso não devemos contar com uma graça de combate, mas uma graça de fuga (17). Expormo-nos, é tentar a Deus e tornarmo-nos indignos do seu socorro: «a gra­ça é concedida, não para proteger os temerá­rios, mas para nos tornar circunspectos» (18). Uma religiosa está em segurança, quando a obediência lhe confia um lugar perigoso e quan­do ela cumpre a sua missão humilde, simples e fielmente, dando «a sua castidade como guar­da ,à sua caridade». Fora disso, deve temer-se tudo, tudo afastar, tudo quebrar; a ordem, o dever é dar «a caridade em guarda à castida­de» (19).

    2. Afectos. — «Ó Jesus, nosso Salvador, secai em nós a fonte do pecado e abri no campo da



    3. (17) Bourdalone. (18) S. Cipriano.

    4. (19) S. Fr. de Sales.

    5. nossa alma a fonte de água viva que leva a fe­cundidade a toda a parte. Concedei-nos que des­cubramos as astúcias do nosso adversário, que resistamos às suas carícias, que fujamos das suas armadilhas. Assim, ó Senhor, vós que co­meçastes a nossa conversão, acabareis por nos arrancar ao inimigo, e completareis a obra da nossa redenção». (Alvarez de Paz).



    6. Exame. — Qual é a minha atitude perante as tentações? — Resisto-lhes desde o princípio? — Não sou, por vezes, aérea, curiosa, impru­dente? — Não tenho eu uma conduta temerá­ria, presunçosa, em face das ocasiões? — Há alguma coisa no meu espírito, no meu coração, nas minhas relações, que seja capaz de me le­var a uma indelicadeza, talvez a um perigo? — Permaneço eu calma e simples depois das mi­nhas tentações?



    7. Resolução.

    8. Ramalhete espiritual. — «Foge da tentação; e, se ela vier, mostra que és o mais forte (São Nilo).

    1. 7. — Castidade

    1. XII

    2. A MORTIFICAÇÃO EM GERAL



    3. «Tenho estado preso à cruz com Jesus Cris­to» (1), diz o apóstolo São Paulo; e «o nosso homem velho foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído» (2). Os san­tos, os castos são «crucificados que prendem a sua carne à cruz de Cristo, com os pregos da con­tinência e com a mortificação do espírito e do coração» (3)- Toda a sua vida é uma elo­quente lição sobre a energia e o rigor com que devemos defender a nossa virtude. Somos nós mais fortes do que eles ou estaremos menos expostos? Aprendamos portanto na sua escola estas duas verdades: 1.° O inimigo é o homem velho; 2.° É preciso mortificar o homem velho.





    4. I. — O NOSSO INIMIGO É O HOMEM VELHO



    5. A primeira habilidade do comandante de um exército é reconhecer o inimigo (4), saber por

    6. (1) Gálat, II, 19. (2) Rom., VI, 6.
      (3) São Leão. (4) Alvarez de Paz.

    7. que caminho ele chega, em que ponto ele vai principiar o ataque, que forças tem à sua dis­posição. Adquiridos estes conhecimentos, mo­vimenta as suas tropas, distribui as funções, pre­para o assalto ou reserva-se para a defensiva, esperando reforços. Na guerra sem tréguas da vida espiritual e em tomo da castidade, é uti­líssimo informarmo-nos sobre a existência, os costumes, as astúcias, o poder, as cumplicida­des do inimigo: as virgens são para ele aque­las presas tanto mais apreciadas quanto mais ricas em méritos, mais elevadas em honra (5).

    8. O adversário de Deus, o semeador da cizâ­nia nos campos de puro trigo, é o demónio. Mas o seu cúmplice está sentado no nosso lar; encontra em nós o instrumento com que nos atin­ge. A Sagrada Escritura diz que há em cada um de nós «o homem velho e o homem novo» (6) «O homem velho é aquela parte de nós mes­mos que, viciada pela culpa original, corrom­pida pelas influências do demónio, se revolta contra Jesus Cristo, é levada ao pecado, às ale­grias terrenas, à vida animal» (7); «é a obra do demónio oposta à obra de Deus» (8). «O ho-

    9. (5) S. Pedro Crisólogo. (6) Efés., VI, 22, 24. (7) Mons. Ségur. (8) Bossuet.

    10. mem novo é o cristão, o homem renovado pe­la graça de Jesus Cristo, que adere às luzes da fé, que sacrifica e imola corajosamente tudo o que julga contrário à vontade de Deus. O ho­mem velho é o homem todo inteiro, enquanto foi viciado por Adão; o homem novo, é ainda o homem todo inteiro, enquanto foi regenerado, reparado em Cristo» (9).

    11. O homem velho é chamado também «a car­ne» (10) «o homem carnal», «o homem ani­mal» : tudo expressões que nos fazem suspeitar que a castidade encontra nele um inimigo pe­rigoso e o demónio um aliado natural. É o fo­co das concupiscências, das quais a mais gros­seira e a mais humilhante é a concupiscência da carne oposta à castidade. «O homem velho é a árvore; a concupiscência é a seiva; a car­ne é a substância do tronco, dos ramos, da ár­vore inteira; o pecado é o fruto; Satanás é o jardineiro de tudo isto» (11).

    12. O apóstolo S. Paulo assinala muitas vezes a presença destes dois elementos que nos arras­tam em sentidos diversos, e a existência daque­la lei de pecado nos membros, como uma cons-



    13. (9) Mons. Ségur.

    14. (10) Gen., VI, 42. (11) Mons. Ségur.

    15. piração contra a justiça e a pureza. São os «dois nós-mesmos» de que fala S. Francisco de Sales. «Há dois gritos no homem: o grito do anjo e o grito da besta» (12). Cada um sente em si esta discordância, estas oposições, estas re­voltas. Qual é a alma casta que não sentiu um dia a necessidade de gritar a Deus: «Senhor, acudi-me; de contrário, sinto que vou atrai-çoar-vos».





    16. II. —É PRECISO MORTIFICAR O HOMEM VELHO



    17. Um santo bispo emprega uma bela compa­ração para nos fazer compreender o que é o homem velho e a necessidade de o mortificar­mos: «O homem, diz ele, santuário de Cristo, é semelhante a um templo magnífico em cu­jas paredes lançou raízes uma figueira selva­gem. O arquitecto levanta as pedras e torna a colocá-las no seu lugar; a figueira destruidora seca e morre. Assim é o pecado: introduz-se, ramifica-se na nossa carne degradada; a mor­te chega, a parede desmorona-se, a figueira se-



    18. (12) S. J. B. Vianney.

    19. ca, e Cristo divino arquitecto do seu templo, é que o há-de restaurar pela ressurreição num es­tado de imutável solidez. Neste mundo, acres­centa o santo doutor, nós não podemos desen­raizar a figueira maldita, mas o que pudermos fazer devemos fazê-lo, isto é, mutilar, cortar o mais possível os ramos da árvore e, pela mor­tificação cristã, impedi-la de dar os seus frutos envenenados» (13).

    20. A castidade é uma virtude necessariamente austera e mortificada: efectivamente, restabe­lecer e manter a ordem naquele ser dividido a que o pecado nos reduziu, é positivamente sub­jugá-lo. Ela não poderia viver nem poderia de­senvolver-se sem o socorro da mortificação cris­tã, que reprime e disciplina os nossos sentidos corporais e as nossas potências interiores, ima­ginações e afectos, a fim de deixar livre expan­são à nossa alma. «A mortificação, cortando-nos os dois pés, obriga-nos a não mais nos servir­mos senão das asas» (14). O demónio vê os castos e os consagrados elevarem-se directamen­te para Deus, pela simplicidade e pela pureza. O seu trabalho maldito consiste em impedir es­sa rectidão de coração, em aviltar as almas até



    21. (13) S. Metódio. (14) Mons. Gay.

    22. à terra, em imprimir-lhes uma tendência para as afectações, a sensualidade, as comodidades. Ele sabe bem que o lírio amolecido curva-se, inclina a haste, toca na terra e, em vez de dar a sua corola branca e suave, morre e apodrece. A alma casta eleva-se e mantém-se irmã dos an­jos, com a condição de deixar a terra «dos que vivem molemente» (15), e de fazer à natureza má uma guerra sem quartel, de viver numa contínua austeridade.

    23. «Sejamos nós o que quer que seja: dotados das mais felizes disposições ou possuídos de más tendências; iniciados ou veteranos na piedade; na posse intacta da nossa veste de inocência ou não tendo mais do que farrapos maculados, todos nós temos uma indiscutível necessidade de mortificação; é um meio necessário .i todos para se adquirir ou conservar a virtude. Ao ca­valo mais educado é sempre bom manter a ré­dea um bocadinho curta e fazer sentir a espo­ra» (16). «É a cruz que se tem de levar em ca­da dia, diz S. Bernardo; mas a unção da di­vina graça torna-a tão leve !».

    24. Afectos. — «Ó Deus omnipotente, nós vos entregamos os nosso sentidos para a mortifica-

    25. (15) Job, XXVIII, 12. (16) Rodriguez.

    26. ção; concedei-nos que sintamos uma santa ale­gria; e que sendo mitigado o ardor dos nossos apetites terrenos, nós possamos saborear mais comodamente as coisas do céu. Por Jesus Cris­to, Senhor nosso. Assim seja» (Missal Romano).



    27. Exame. — Estou eu convencida da necessi­dade de me mortificar para me conservar cas­ta? — Não me tranquilizo imprudentemente, sob o pretexto de que não tenho, actualmente, grandes tentações? — Procuro tornar-me hábil para tudo aproveitar no sentido de contristar, contrariar, incomodar, arruinar a má nature­za? — O que faço eu, exactamente, com este fim? — Se eu não for corajosa e constante na mortificação, o que é que me poderá dar segu­rança ?



    28. Resolução.

    29. Ramalhete espiritual. — «Se vós viverdes se­gundo a carne, morrereis; se mortificardes pe­lo espírito as obras da carne, vivereis». (Rom., VIII, 13).

    30. XIII

    31. MORTIFICAÇÃO DO CORPO



    32. «A carne, diz S. Francisco de Sales, é minha cara metade, é minha irmã. E contudo ela faz--me uma guerra cruel. Como minha irmã, eu devia segui-la; como adversária, devo fugir de­la. Ai, se a acaricio, ela mata-me; se a ator­mento, sinto logo a aflição». Estes lamentos lembram os de S. Paulo, e são também os nos­sos. Eles indicam as verdadeiras relações que é preciso manter com o corpo, «sustentáculo ne­cessário, inimigo lisonjeador, amigo perigo­so» (1). «1.° O corpo é um inimigo a vencer; 2.° o corpo é um servo a conservar» (2).





    33. I. — O CORPO É UM INIMIGO A VENCER



    34. «O mundo e o demónio são os grandes ini­migos da nossa salvação eterna; mas o mais temível é o nosso corpo, porque é um inimigo instalado nos nossos lares» (3). Em tempo de

    35. (1) Bossuet. (2) S. João Clímaco.

    36. (3) Santo Af. de Ligório.

    37. guerra, é mais fácil defendermo-nos do estran­geiro do que do espião e do traidor. Depois do pecado original, a carne luta contra o espíri­to» (4), e é «o inimigo doméstico mais perigo­so» (5). Quantos condenados têm sido precipi­tados nos fogos eternos, por não terem castiga­do o seu corpo e não o terem reduzido à escra­vidão (6). É o lamento de todos os militantes que nós ouvimos no grito angustiado do apóstolo «Quem me livrará deste corpo de morte?» (7).

    38. A vida dos castos e a história dos Santos ensi­nam-nos como se prevêem os assaltos do inimigo, como se enfraquecem as suas forças. Primeiro, eles lembram-se da advertência do Mestre : «Es­te género de demónios», que pratica os seus ve­xames por meio da carne, «só se expulsa pelo jejum e pela oração» (8). Armados com a ora­ção, os valentes não esperam que o inimigo se tenha saciado e que desperte ardente e forte, «tornado invencível pelas nossas complacên­cias» (9). PÕem-no a ferros, como a um escra­vo, e vigiam todos os seus movimentos. Ti­ram-lhe as suas comodidades, recusam as suas exigências, racionam-lhe o repouso e o pasto,

    39. (4) Galar., V, 17. (5) S. Bernardo.

    40. (6) I, Cor., IX, 27. (7) Rom., VII, 24.

    41. (8) S. Marcos, IX, 28. (9) Bossuet.

    42. enviam-no, sem quererem saber das suas in­justas reclamações, para o castigo e para o tra­balho. Numa palavra, jejuam. É primeiro o je­jum propriamente dito, segundo as leis da Igre­ja e do Instituto. Depois, as mil privações que um zelo piedoso e discreto sabe encontrar, mes­mo na vida habitual, sem provocar a atenção, nem cair na singularidade. Sempre, sob várias formas, «aquele jejum que seca a carne e dá a sede de Deus» (10); «que torna a alma lumi­nosa, o coração puro e o coração santo» (11).

    43. Completando o pensamento do Salvador, S. Paulo, tornado sábio por uma dura experiên­cia, acrescenta: «Os que são de Cristo, cruci­ficam o seu corpo». Não se trata somente de pôr um freio a esse indócil; é preciso tomar a ofensiva, provocar-lhe lágrimas, soluços, san­gue, tudo o que o enfraquece, o torna tímido, o põe fora do estado de prejudicar. Tal é o ob­jectivo das macerações, das disciplinas, dos ci­lícios, das penitências corporais em uso entre os castos que o Espírito Santo torna vigilantes, ou entre os penitentes a quem o naufrágio fez pru­dentes. Seguindo este método, chega-se a «sub­meter o elemento terrestre à parte espiritual, ao



    44. (10) S. Bernardo. (11) Santo Atanásio.

    45. império da alma e da razão» (12). Restabelece--se a ordem divina: «O vosso apetite ser-vos-á submisso, e vós dominá-lo-eis» (13); «onde se acendia o foco do mal, elevar-se-á o palácio da castidade» (14).





    46. II. — O CORPO É UM SERVO A RESPEITAR E A CONSERVAR



    47. O Salvador adverte-nos de que «a carne é fraca» (15), e exorta-nos à vigilância e à aus­teridade. Mas «não se vê em parte alguma que o Evangelho avilte o corpo; pelo contrário, cu­ra-o, eleva-o, sagra-o. Para um grande núme­ro de almas, é o meio mais eficaz de lhes ins­pirar, com o respeito que se deve à natureza hu­mana, o sentimento e a virtude dos seus deveres para com o corpo e, por exemplo, da reser­va, da modéstia e da castidade» (16).

    48. O exemplo vem do alto. Deus trata o nosso corpo com honra. «Criou-o e formou-o com as suas mãos» (17); e já pensava no corpo que

    49. (12) Gálat, V, 24. (13) Gen., IV, 7.

    50. (14) Santo Ambrósio.

    51. (15) S. Mateus, XXVI, 41. (16) Mons. Gay. (17) Salmo CXVIII, 72.

    52. daria ao seu Cristo, o homem que devia vir». Ê o corpo humano que Jesus tomou no seio da Virgem, sua mãe; Maria e os Santos levaram num corpo a sua vida terrestre. A graça dos sacramentos vai purificar, vivificar, fortificar a alma; mas é pelo corpo que o baptismo nos lava, que o Santo Crisma nos unge, que a Eu­caristia chega até nós. Deus ressuscitá-lo-á um dia, e ele terá a sua parte na glória ou no cas­tigo. Daí a expressão do Apóstolo: «O corpo do cristão é um templo, a residência do Espí­rito Santo; os seus membros são os membros de Cristo; tem de levar e glorificar Deus no seu corpo». Nos consagrados, o corpo é, a um tí­tulo especial, a morada de Deus : o voto de cas­tidade separou-o dos usos profanos e dedicou--o ao seu culto; ele é bem, com todo o direito, a sua «hóstia viva, hóstia santa» (18).

    53. Portanto, reduzindo e afligindo o corpo de modo que «a carne fique serva e a alma senho­ra» (19), deve-se ter um grande respeito por ele e conservar «essa montada que Deus nos deu para nos conduzir à celeste Jerusalém». (20). É com espírito de temor, de reverência, de re-

    1. Rom., XII, 1.

    2. Santo Ambrósio. (20) Santo Agostinho.

    1. serva, que se deve tratar «esse templo de Deus». Depois, cortando nessa carne «o que favorece os seus ímpetos, é necessário fornecer-lhe com que cumprir a sua missão» (21). Os fundadores de ordens, iluminados do alto e apoiados no co­mando da Igreja, regulam, com sabedoria e ex­periência, a forma e a duração das mortifica­ções gerais. Em cada assunto, em particular, é bom repetir aquela palavra de uma alta expe­riência : «Tende cuidado com as ilusões da mor­tificação : sede mais obedientes neste ponto do que em todos os outros» (22). «Deus não tem por agradável a austeridade, se ela não for pra­ticada com discrição» (23). Exagerado, o jejum enfraquece o corpo; a privação de sono «en­fraquece a cabeça» (24); ultrapassando o ter­mo, rompe-se o equilíbrio, e a carne extenuada torna-se mais acessível às tentações. Outrossim, muitas almas têm, numa má saúde, num minis­tério laborioso, matéria para penitências provi­dencialmente preparadas, «como outras tantas moitas de espinhos, para as proteger e defen­der» (25).

    1. Hugo de S. Victor.

    2. Bx de la Golombière.

    1. (23) S. Tomás. (24) Santa Teresa.
      (25) Santo Af. de Ligório.

    2. Afectos. — «Nós vo-lo pedimos, Senhor Omnipotente, olhai favoravelmente para a vos­sa família, a fim de que, com a vossa graça, ela seja regida no seu corpo e defendida na sua al­ma. Nós vo-lo pedimos por Jesus Cristo, Nosso Senhor» (Missal romano).



    3. Exame. — Estou eu bem persuadida de que o meu corpo não será dócil ao meu espírito en­quanto eu o não mortificar? — Que faço eu pa­ra o manter na obediência? — Não sou eu de­masiado atenciosa, demasiado meiga para ele? — Sei, ao menos, aproveitar penitências provi­denciais : o frio, o calor, a alimentação, o re­pouso, o desconforto, as doenças? — Continuo muito delicada nas minhas relações com o meu corpo? — Estão todas as minhas austeridades submetidas à obediência?



    4. Resolução.

    5. Ramalhete espiritual. — «Conservai-me pu­ra, ó meu Deus, no meu coração e no meu cor­po, e que eu jamais seja confundida!» (Santa Cecília).

    1. XIV

    2. x MORTIFICAÇÃO DO ESPÍRITO



    3. «É o espírito que governa o corpo; quando ele se deixa dirigir pela mão de Deus, a graça presta-lhe socorro e ele tem domínio suficiente para reprimir as suas revoltas» (1). Importa pois sobremaneira que o espírito se não perca nos seus caminhos; ele formaria com o corpo aquele par de cegos que vai cair no barran­co

      Baixar 0.86 Mb.

      Compartilhe com seus amigos:
  • 1   2   3   4   5   6   7




    ©bemvin.org 2020
    enviar mensagem

        Página principal
    Prefeitura municipal
    santa catarina
    Universidade federal
    prefeitura municipal
    pregão presencial
    universidade federal
    outras providências
    processo seletivo
    catarina prefeitura
    minas gerais
    secretaria municipal
    CÂmara municipal
    ensino fundamental
    ensino médio
    concurso público
    catarina município
    Dispõe sobre
    reunião ordinária
    Serviço público
    câmara municipal
    público federal
    Processo seletivo
    processo licitatório
    educaçÃo universidade
    seletivo simplificado
    Secretaria municipal
    sessão ordinária
    ensino superior
    Relatório técnico
    Universidade estadual
    Conselho municipal
    técnico científico
    direitos humanos
    científico período
    espírito santo
    pregão eletrônico
    Curriculum vitae
    Sequência didática
    Quarta feira
    prefeito municipal
    distrito federal
    conselho municipal
    língua portuguesa
    nossa senhora
    educaçÃo secretaria
    segunda feira
    Pregão presencial
    recursos humanos
    Terça feira
    educaçÃO ciência
    agricultura familiar