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MONTIBUS SANCTIS

F. Maucourant
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àSTIDADE

EDIÇÕES PAULISTAS

P. F. MAUCOURÂNT

ENSAIO SOBRE A CASTIDADE

EDIÇÕES PAULISTAS


Nihil obslal

Olisipone. die 25 Me|i 1959

P. Antonius Pelrus da Anunciação, O. F. M.

Censor depulalus

Imprimatur Olisipone. 27 - V - 1959

T Em. Archpus Milylenensis


DIREITOS RESERVADOS

PREFACIO


da sexta edição francesa

Oferecemos às almas religiosas a sexta edi­ção do Ensaio sobre a Castidade, com o qual completámos a série dos nossos opúsculos so­bre os votos de religião.

O nosso método é suficientemente conhecido e, graças a Deus, bastante apreciado para que nos demoremos mais a apresentar este novo tra­balho.

Torna-se, no entanto, necessário fazer algu­mas observações:

1.° Empenhámo-nos, com um cuidado escru­puloso, em banir toda a ideia, toda a imagem, toda a expressão que fosse, em semelhante as­sunto, de natureza a perturbar, mesmo super­ficialmente, as almas mais facilmente impressio­náveis; julgamos ter escrito castamente sobre a castidade.

2.° Este livro foi composto, muito especial­mente, para as almas religiosas. Parece-nos to



davia que ele pode ser lido e meditado, com pro­veito, por toda a alma desejosa de viver em to­da a delicadeza, seja qual for a vocação que a Providência lhe tenha feito sentir.

3.° Será particularmente útil para esclarecer e confirmar as vocações nascentes.

Recomendamos novamente a nossa pessoa e os nossos trabalhos às piedosas orações das al­mas eleitas, que Nosso Senhor nos permite evan­gelizar.
Varzi, 15 de Agosto de 1921 F. M.

CONSELHOS PRELIMINARES

1.° No dia em que se tiver de começar este ensaio, recite-se o Veni, Creator Spiritus e confie-se o seu resultado ao Sagrado Coração. Colocai-vos sob a protecção de Maria Imacu­lada, de S. José, dos Santos Anjos e implorai o socorro das Virgens, de todos os santos e san­tas que têm amado Jesus com mais pureza e se desprenderam o mais generosamente possível das criaturas.

Pedir todos os dias, nas orações, na sa­grada comunhão, na acção de graças, na visi­ta ao Santíssimo Sacramento, no terço, a in­teligência, o amor e a prática da perfeita cas­tidade.

3.° Vigiar, com uma atenção calma, sobre o espírito, o coração e todo o próprio exterior, para ver se realmente não há pensamentos e afeição senão a Deus e aos seus interesses.

4.° Vigiar mais especialmente a imaginação, os olhares, a atitude, as palavras.


5.° Fazer o exame particular sobre a perfeita castidade, segundo a indicação das meditações.

6.° Repetir frequentemente, sob a forma de orações jaculatórias: «Bem-aventurados os co­rações puros, porque eles verão a Deus». «Tu­do por Jesus, Jesus por ele só».



7." Fazer, se possível, a leitura espiritual se­gundo as indicações seguintes:

Novo Testamento. — S. Mateus, cap. XXV. —• S. Paulo, l.a Epístola aos Coríntios, cap.

VII, vers. 25 a 40. — Apocalipse, cap. XIV.


Imitação de Cristo. — Livro I, cap. VI,

VIII, X, XI, XIII, XX, XXIV, XXV; liv. II,


cap. IV, VII, VIII; liv. III, cap. V, VI,
XII, XVI, XX, XXI, XXVI, XXXI, VLII,
LIII, LV.

S. Francisco de Sales. — Introdução à vida devota, III.1 parte, cap. XII, XIII, XVII, XIX, XXIV; IV parte, cap. III a X, XII. — Passatempos Espirituais, entr. IV da Cordia­lidade, da Modéstia.

Santo Afonso de Ligório. — A verdadeira Esposa de Jesus Cristo, cap. VIII, X, XVI, XXIV, art. 6 e 8.

Rodriguez. — Prática da perfeição cristã, II parte, 1.° tratado, da Mortificação; II tra­tado, da Modéstia; III tratado, das Tentações;

VI tratado, da Tristeza e da Alegria; III parte, IV tratado, da Castidade.

Saint Jure. — O homem religioso, liv. I, cap. VI, do Voto de castidade.

Mons. Gay. — Vida e virtudes cristãs. — Tratados VII, da Mortificação; VIII, da Ten­tação; X, da Castidade.

R. P. Bouchage. — Prática das virtudes, liv. VI, a Casndade.

Autor das Palhetas de ouro. — O Livro das professas, III vol., cap. II; cap. III, art. I, 4; art. 4.


L— NATUREZA DA CASTIDADE

I

NATUREZA DA CASTIDADE


Jesus, mestre e doutor das almas, disse um dia: «Bem-aventurados os corações puros (1)». Toda a palavra de Deus é eficaz: ela cria o que diz (2); nós mesmos somos uma palavra de Deus» (3). No dia em que o mundo ouviu esta celestial palavra, pareceu despertar para ideias novas, adquirir gostos superiores; com­preendeu a castidade, a virgindade, as delica­dezas do chamamento divino. Nós desejaría­mos aprofundar e saborear este particular desa­bafo do Salvador, para o deixarmos realizar plenamente o seu pensamento e para lhe darmos a alegria de cumprir em nós a sua promessa. Comecemos: 1.° Natureza da castidade; 2.° Graus da castidade.

  1. S. Mateus, V, 8.

  2. Salmo XXXII, 9.

  3. Santo António.

Um célebre místico dá da castidade esta be­la definição : «O movimento pelo qual a cria­tura escapa à criatura, para se fixar em Deus. As coisas criadas existem só para nosso servi­ço. Só Deus é o lugar do nosso repouso, o cen­tro das nossas alegrias. A castidade mantém o corpo e a alma na sobriedade ; de um pulo, ela ultrapassa tudo o que pode impressionar a inteligência, a vontade ou a experiência; ela paira acima dos dons divinos e vem repousar somente em Deus (4)».

«Deus é espírito» (5), e criou o homem à sua imagem e semelhança» (6). Banhada na luz do Verbo, rica dos dons do Espírito Santo, a alma de Adão estava amorosamente entregue a Deus. Tudo nela era recto, ordenado, pací­fico. Livre e senhora de si própria, ela punha a sua glória e encontrava a sua felicidade em permanecer dependente da divindade. Quanto ao seu corpo, dócil instrumento de uma von­tade sempre razoável, estava submetido à al­ma, como a alma a Deus. Por isso o homem todo inteiro era um hino vivo ao Criador.

(4) Ruysbroeck. (5) S. João, IV, 24.

(6) Gen., I, 27.

Aqui se dá, na terra, a primeira tentação : uma luta, uma fraqueza, uma falta. Seduzido e vencido por Satã, o homem violou ciente­mente a sua lei, abandonou Deus, traiu o seu ministério. É ferido, cai. Os seus olhos são obs­curecidos, a sua vontade enervada, o seu amor perdido, a sua liberdade comprometida. Escor­rega pelos pendores obscuros da sua própria ra­zão e, de servo que era, o corpo torna-se seu tirano; o concidadão dos anjos é relegado para o estado dos irracionais (7). De modo que es­te filho do Espírito que «devia ser espiritual mesmo na sua carne, tornou-se carnal até no seu espírito» (8).

Pela nossa regeneração em Cristo, o espí­rito retoma o seu lugar em nós: mas ele não recupera a rectidão e a paz originais. De fu­turo é a guerra no estado permanente : a carne revolta-se contra o espírito, e o espírito contra a carne» (9). Este ser que nós chamamos «o homem velho» (10) é instintivamente orientado do lado da terra, faminto dos seus bens, ávido dos seus prazeres; ele encontra no mundo um foco de lisonjas e de sedução; finalmente, mes-


(7) Salmo XLVIII, 13. (8) S.to Agostinho.
(9) Gálat., V, 17. (10) Efés., IV, 22.

mo expulso, Satã deixa ainda nele os seus vestígios e mantém com ele secretas afinidades.



O papel da castidade é restabelecer a or­dem primeira, «amar suficientemente Deus pa­ra triunfar do mundo, da carne e de Satã (11)»; levantar o corpo da sua queda, curar-lhe as fe­ridas, restituí-lo aos seus primitivos destinos. Ela tem um lugar aparte nessa grande virtude cardeal que se chama a temperança. Virtude moral, ela submete o corpo à alma, redu-lo a esperar as suas ordens ou pelo menos a subme-ter-se-lhe, quando ele as previu. Virtude cristã, ela pede reservas mais delicadas, faz obras não apenas sábias mas santas; torna-se «como a mão de Deus que governa o homem e que leva a pureza aos membros do corpo e até aos pen­samentos do espírito e aos desejos do cora­ção (12)».
II. —GRAUS DA CASTIDADE
A castidade, como tudo o que está confiado à actividade humana, tem, na prática, dife­rentes graus. O primeiro é objecto de dois man-

  1. S. Boaventura.

  2. Mons. Gay.

  1. damentos do Decálogo, e é o grau necessário. Todo o ser racional deve submeter à razão os apetites inferiores, e o Apóstolo adverte cada um dos cristãos de que ele é «o templo de Deus; que os nossos corpos são os membros de Cris­to; que não ser casto é pecar contra o seu cor­po; que Deus perderá aquele que profana esse templo» (13). Essas profanações, diz S. João, são banidas do céu, pela mesma razão que os cães e os homicidas» (14). No inferno, quantas vítimas há, dessa humilhante chaga produzida pelo pecado original! quantos feridos na luta; como são verdadeiramente «felizes aqueles cujo caminho permanece imaculado!» (15).

  2. A castidade, no grau necessário, exige que se ame bastante a Deus e que se respeite sufi­cientemente o seu domínio para se renunciar a todo o pensamento, desejo ou acção grave­mente proibida pelos dois preceitos que prote­gem os direitos da alma contra os assaltos da carne. Antes a morte do que esse crime e essa desonra! Além disso, como o foco do mal se ateia mais facilmente com os contactos estra­nhos, tem de se estar resolvido a sacrificar todo o prazer honesto, toda a afeição natural, toda a relação que possa tornar-se ocasião de peca­do mortal. «Quando a consciência está inte­ressada, não há amizade que deva subsistir; devo mais a Deus do que a ninguém (16). Por isso os mártires preferiam «uma morte glorio­sa a uma existência miserável, (17) principal­mente na época das perseguições, em que «se procurava arrebatar aos cristãos mais a inocên­cia do que a vida» (18).

  3. Quando se está estritamente estabelecido «naquela sobriedade da alma e do corpo que pro­duz a castidade» (19), passa-se aos graus da per­feição. Na castidade, como em toda a virtude, cumprida rigorosamente a obrigação, fica o cam­po aberto a todas as ambições, a todos os he­roísmos, a todas as delicadezas. A fonte das virtudes é a divina bondade que semeia nas al­mas um reflexo das suas perfeições, propondo--lhes imitarem «o ideal mostrado no cume» (20) da santidade. Como o humilde e o manso, co­mo o obediente e o pobre voluntário, o casto «se-



  1. S. Paulo, I, II, ad Cor. passim.

  2. Apoc, XXII, 15.

  3. Salmo CXVIII, 11.

  1. (16) Santa Teresa.

  2. (18) Tertuliano.

  3. (20) Êxodo, XXV, 40.

  4. (17) II, Mac, VÍ, 19. (19) Ruysbroeck.

  1. 2. Castidade.

  1. gue Jesus Cristo», até onde a graça o impele e a sua coragem o arrasta.

  2. São primeiro aquelas almas piedosas que, «começando a tornar-se felizmente escravas do amor de Deus» (21), põem reservas no dom de si às criaturas, e usam de moderação na sua re­ciprocidade : castas, seja qual for a vocação que a Providência lhes tenha marcado. Depois as que, possuídas de admiração pela angélica vir­tude, renunciam às alianças humanas para que «os seus sentidos e o seu coração permaneçam puros e para que nelas nada sofra um contacto estranho» (22). De facto, as virgens que Deus chama e que a Igreja consagra, procuram to­das, mesmo sem o saberem, no santuário, um abrigo contra os perigos e um asilo mais seguro para a sua castidade; mais felizes por passarem a sua vida à sombra dos tabernáculos divinos do que um só dia sob a tenda dos pecado­res (23).

  3. Afectos — «Recebei, Senhor, a oferta de to­do o meu ser. Aceitai a minha memória, o meu entendimento, a minha vontade. Tudo o que

  1. Santa Teresa.

  2. Santa Cecília.

  3. Salmo LXXXIII, 11.

  1. tenho, tudo o que sou, fostes vós que mo destes; está à vossa disposição, ao vosso arbítrio o abandoná-lo para sempre. Dai-me a vossa gra­ça e o vosso amor, isso só me basta» (Santo Inácio).

  2. Exame. — Começo eu porventura estes exer­cícios com o sincero desejo de me aperfeiçoar no conhecimento e na prática da castidade ? — no cumprimento do meu voto?— Estou resol­vida a todos os sacrifícios que a Deus aprouver pedir-me ? — Implorei as luzes do Espírito San­to?— Coloquei-me particularmente sob a pro­tecção de Maria rainha das Virgens? — Diviso já defeitos a corrigir, lacunas a preencher?

  3. Resolução.

  4. Ramalhete espiritual. — «Amemos a castida­de mais do que a todas as outras virtudes; é ela que torna o coração puro». (Bossuet).



  5. II

  6. O CONSELHO EVANGÉLICO DA PERFEITA CASTIDADE



  7. Há uma castidade peculiar a cada uma das vocações, e a santidade pode adquirir-se em to­dos os estados. Mas em face de vários cami­nhos que conduzem ao mesmo fim, é sobrema­neira interessante para nós, conhecerem-se as preferências d'Aquele que veio ensinar-nos em toda a verdade, os caminhos divinos» (1). Je­sus, no Evangelho, e S. Paulo seguindo-lhe o exemplo, aconselham a perfeição da castidade que é a virgindade. Sem diminuir a vocação co­mum que Deus abençoa e à qual tantos santos têm honrado, meditemos: 1.° o estado de per­feita castidade; 2.° as obrigações deste estado.





  8. 1.—O ESTADO DE PERFEITA CASTIDADE



  9. «O reino de Deus não receberá nada man­chado» (2); porque está escrito que «no seu povo todos são santos» (3). «Seja qual for por­tanto o estado em que a nossa vocação nos co­locar, devemos guardar escrupulosamente a cas­tidade que lhe corresponde» (4).

  10. Mas o Apóstolo quer que estejamos anima-

  1. S. Lucas, XX, 27.

  2. Apoc, XXI, 27.

  3. Isaías, LX, 21.

  4. Santo Agostinho.

  1. dos «de uma santa emulação pelos melhores dons» (5), uma vez que somos chamados, uns a admirar, outros a receber as riquezas ce­lestes, todos a beneficiar das divinas genero­sidades. Há, por conseguinte, uma castidade mais excelente! Assim como Jesus dá, no seu evangelho, o conselho de renunciar, por Ele, a todos os bens que se chamam riquezas, Ele aconselha igualmente (6) a repudiar, por Seu amor «o próprio uso daqueles prazeres sensuais, de que basta, nos estados menos santos, usar com sobriedade» (7). Ê precisamente o que se chama a castidade perfeita, e quando se guar­dou sempre, ela constitui aquela santa virginda­de que é como que a pérola preciosa da nova aliança. «Do Senhor, diz S. Paulo, não recebi preceito concernente à virgindade, mas é um conselho que dou» (8); transmito-o da parte do Amigo celeste àqueles que Ele quer reservar para o Seu serviço e aproximar mais de perto da Sua pessoa.

  2. Quando uma alma ao percorrer, com o fa­cho da fé na mão, o campo do Pai de família,

  1. I, Cor., XII, 31.

  2. S. Mateus, XIX, 12.

  3. Mons. Gay. (8) I, Cor., VII, 25.

  1. descobriu esse tesouro, nada admira que ela venda tudo o que tem e se venda a si mesma para o comprar (9). A partir desse momento, se ela for bem avisada, sente a necessidade de o colocar em boa guarda; e que melhor guarda do que um voto, «essas cadeias voluntárias que nos retêm longe do mal e nos conservam no bem» (10). Ali se detêm aquelas almas que têm o gosto da virgindade, sem terem a vocação re­ligiosa, ou aquelas a quem certos deveres e obstá­culos obrigam a ficar no século: Deus guarda­is ali muitas vezes pela edificação que elas dão e pela dedicação que exercem.

  2. Para alguém se encontrar no estado de per­feita castidade, é preciso que o voto seja rece­bido pela Igreja: as religiosas dão-se e são ofi­cialmente aceites no dia da sua profissão. Co­mo colocaram, entre si mesmas e os bens ex­teriores; a parede indestrutível do voto de po­breza, defendem-se contra as solicitações da car­ne com o voto de castidade. Dão-se para sem­pre Àquele que é para sempre; subtraem-se à sua própria enfermidade e colocam-se sob a doce influência «daquele Deus da paz incum-



  3. (9) S. Mar., XIII, 46.

  4. (10) S. Beda.

  5. bido de nos santificar em tudo, para que o nos­so espírito, a nossa alma e o nosso corpo se conservem sem mancha para a vinda de Jesus Cristo Nosso Senhor» (11). E que alegria para as consagradas, no presente, que solidez de es­perança o poderem repetir consigo sinceramen­te a palavra que um santo doutor gostava de dizer frequentemente: «Tal como me fez o meu baptismo, assim estou e estarei para sem­pre» (12).



  6. II. —OBRIGAÇÕES DO ESTADO DE PERFEITA CASTIDADE



  7. «Deus quer que um religioso seja de tal mo­do d'Ele, que tenha dito adeus a todas as coisas e que todas as coisas Lhe tenham dito adeus» (13). Por isso os religiosos que se li­bertaram, pelos votos, da soberba da vida e da concupiscência dos olhos, completam a sua li­bertação com o voto de castidade, cujo objecti­vo é preservá-los da concupiscência da carne. Não são religiosos senão com a condição de fazerem esse voto, e é a sua segurança, a sua

  8. (11) I, Tess, V, 23. (12) Santo Hilário.

  9. (13) S. João da Cruz.

  10. felicidade: «possui-se tanto mais Deus quanto se possui somente a Ele» (14).

  11. Este voto tem como primeiro objectivo a própria matéria da virtude da castidade. «A castidade religiosa é uma virtude pela qual se renuncia voluntariamente e por voto a todos os prazeres carnais, mesmo permitidos» (15). A religiosa que faz este voto, obriga-se primeira­mente a viver na continência. Desposa Jesus Cristo e renuncia a toda a outra união. Se fal­tar à sua palavra, depois do seu voto simples, ela não transgride, ao menos por esse facto, a virtude da castidade; mas peca contra a cas­tidade religiosa, o que é sempre uma grande desgraça. Em que razões pode ela apoiar o seu regresso à criatura livre, e que dirá ela, um dia, a esse esposo livremente escolhido, depois deixado, quando Ele vier a ser o seu juiz? O voto de castidade obriga, em segundo lugar, a evitar todo o acto exterior e interior proibido pelos sexto e nono mandamentos. Aqui, o ob­jecto da virtude e do voto é o mesmo; o voto não faz mais do que acrescentar uma mais ri­gorosa obrigação: violando-se a virtude, viola--se igualmente o voto.

  1. Bossuet.

  2. R. P. Meynard.

  1. Quanto uma noviça precisa de reflectir e quanto se torna necessário a uma professa exer­cer sobre si mesma uma perpétua vigilância! Porque o voto de castidade, ao mesmo tempo que dá um mérito superior às acções daquele que fez o voto, assim também faz incorrer em terríveis responsabilidades: «Aquela que des­posou Cristo, torna-se escrava da morte, se por­ventura desfizer o voto» (16). «Uma religiosa que não guarda a castidade que prometeu a Deus, comete dois pecados, por vezes três e até mesmo quatro: 1.° um pecado contra a virtu­de da castidade; 2.° um pecado contra a vir­tude de religião, isto é, um sacrilégio; 3.° por vezes também um pecado contra a virtude da caridade ou contra a virtude da justiça» (17).

  2. É muito desejável que aquelas que solicitam a honra de serem esposas de Cristo, tratem de conhecer bem a extensão das suas obriga­ções, que são muito rigorosas e muito delica­das: não há matéria leve nos pecados que le­sam directamente a castidade; pensamentos e desejos, assim como as acções, são graves, quan­do há plena deliberação e completo consenti-

  1. Santo Ambrósio.

  2. R. P. Meynard.

  1. mento. As faltas que ofendem indirectamente a castidade, olhares demasiado livres, leituras perigosas, familiaridades, outros actos semelhan­tes, interiores ou exteriores, são mais ou me­nos graves, conforme expõem ao perigo mais ou menos próximo de consentir nos prazeres carnais. Concluamos por este pensamento do Espírito Santo : «Não façais votos que ultrapas­sem as vossas forças; se os tiverdes feito, pensai em cumpri-los bem» (18). Seguidamente, en­contramos a nossa consolação nestas palavras de Santo Agostinho : «Aquele que vos convidou a fazer votos, há-de ajudar-vos a bem os ob­servar».

  2. Afectos. — Quando será, meu Deus, que, ajudada pela vossa graça, eu seguirei no meu caminho, segundo toda a extensão das minhas obrigações; que as palavras dos meus votos es­tarão sempre diante dos meus olhos, a fim de que, evitando a divagação, a imortificação dos sentidos, as inúteis ocupações de espírito, eu não aspire senão a vós e não respire senão em vós; que as coisas deste mundo se me conver­tam em amargura e que só Vós sejais doce pa­ra a minha alma?» (Santa Joana de Chantal).

  3. (¡18) Ed., VIII, 16.

  4. Exame. — Estou eu bem intruída sobre as minhas obrigações? — Conheço exactamente a extensão do meu voto? — Estou bem resolvida a praticá-lo nas suas últimas delicadezas? — São o meu espírito de fé e o meu amor de Deus suficientemente fortes para me levarem a uma verdadeira perfeição, relativamente à castida­de? — Está tudo desligado, mortificado, puri­ficado, consagrado no meu espírito e no meu coração?



  5. Resolução.

  6. Ramalhete espiritual. — «Ofereço a Jesus Cristo o meu corpo e a minha alma; quero ser toda d'Ele, para o tempo e para a eternidade» (S.ta Fare de Champigny).





  7. III

  8. DA VOCAÇÃO



  9. «É preciso, diz S. Francisco de Sales, que uma rapariga seja bem chamada por Deus, para ser recebida em religião». Nosso Senhor, efectivamente, falando dos dois estados em que se guarda a castidade, proclama a necessidade da vocação. Dizia ele aos seus padres: «Não fostes vós que me escolhestes; fui eu vos esco­lhi» (1). De resto, Ele declarou que «nem to­dos compreendem a palavra», que cria as vir­gens, «mas aqueles a quem o dom foi conce­dido» (2). Peçamos a graça de meditar: 1." A necessidade da vocação; 2.° A correspondên­cia à vocação.





  10. I.—NECESSIDADE DA VOCAÇÃO



  11. «A Providência divina tem os seus desígnios eternos sobre todas as criaturas. É a ela que compete chamá-las e dar a vocação a que ela as destinou desde toda a eternidade» (3). A palavra vocação significa chamamento, convi­te, destino. A vocação para tal ou tal estado de vida consiste pois em ser chamado e destinado para esse estado pelo soberano Mestre. Ele mo­dela a cada um o seu corpo, adorna a alma, dota o coração, abre o espírito segundo o fim que lhe deve marcar. Os caminhos estão prepa­rados, os socorros assegurados, os aconteci-

  1. S. João, XV, 16.

  2. S. Mateus, XIX, 11.

  3. Santa Joana de Chantal.

  1. mentos ordenados na medida útil ao êxito das suas intenções. Ele tem o direito de dispor de nós como senhor, «como o artista faz com a sua obra» (4); e segue o pendor do seu cora­ção em assistir-nos do alto, como o melhor dos pais. Por seu lado «a vocação que nos previne e a perseverança que nos coroa é um efeito da Sua bondade gratuita e toda pura» (5). «Sois vós, o meu verdadeiro amante, exclama San­ta Teresa, que começais esta guerra toda de amor».

  2. Há em primeiro lugar uma vocação comum a todos os homens: «Deus quer a salvação de todos» (6). Todos nós temos a «vocação de ser­mos santos» (7), ao menos daquela santidade sem a qual «ninguém pode ver Deus» (8). De­pois deste primeiro acto que planta os cristãos em Jesus Cristo, há um segundo que os faz florir e frutificar, cada um na sua medida (9) : toda a alma tem o seu grau particular de san­tidade a atingir. Finalmente resta a vocação pa­ra um estado especial, no posto que cada um deve ocupar na Igreja militante, em vista do



  3. (4) Jerem., XVIII, 6. (5) Bossuet.
    (6) I, Tim., II, IV. (7) Rom., VIII, 28.
    (8) Hebr., XII, 14. (9) Efés., IV, 7.

  4. lugar que lhe está reservado na Igreja triun­fante; porque Deus tem sempre em vista, no governo do mundo e das almas, «a perfeição dos santos e a edificação do corpo de Cris­to» (10).

  5. Para os religiosos e para as virgens, é bem de Deus que vem «esse sentimento de amor que os solicita a viver em pobreza perfeita, em hu­milde obediência e em puríssima pureza» (11); Ele «foi o primeiro a amar, e o seu amor é a fonte daquele que nós lhe tributamos» (12). Umas vezes arrebata almas que ainda mal en­treviram as coisas do mundo e que as ultra­passam pelas intuições da fé e do amor, como a meiga Inês «que Cristo escolheu para esposa, antes que a idade lhe permitisse, a ela mesma, escolher um noivo» (13). Outras vezes torna--se vencedor depois das desilusões e das feridas, vibrando «golpes de surpresa nos corações en­cantados do amor do mundo» (14). Faz pas­sar sempre a sua ternura num dos seus olha­res (15) e «arranca-nos a nós mesmos para nos

  1. Efés., IV, 12.

  2. Santa Joana de Chantal.

  1. (12) Bossuet. (13) Santo Ambrósio.
    (14) Bossuet. (15) S. Marcos, X, 21.

  2. consumir no amor» (16). Uma alma religiosa não pode profundar estes graves pensamentos sem gostar de recordar a hora em que o ce­leste Esposo lhe apareceu e lhe falou; como ela o reconheceu e se deixou encantar pelos seus «divinos encantamentos» (17); finalmente por esses caminhos misericordiosos, quebrou os la­ços do caçador e preparou a sua liberta­ção (18).





  3. II. — CORRESPONDÊNCIA Ã VOCAÇÃO



  4. Grande questão é a da vocação! É tudo para uma criatura o estar no seu lugar na cria­ção e manter-se nele. «A vocação é uma ques­tão capital; é o princípio de um caminho feliz ou infeliz» (19). No caminho, encontramos obri­gações, perigos e dificuldades: em cada volta do caminho, a Providência prepara-nos a luz, a força e a consolação; mas se passarmos por atalhos em que ela não nos espera, ficamos en­tregues à nossa fraqueza, às nossas obscuri­dades, à solidão. Que coisa há mais triste e

  5. (16) Ruysbroeck. (17) S. Justino.

  1. Salmo CXXIII, 6.

  2. S. Greg. de Naz.

  1. mais debilitante do que duvidar se se está na situação e nas obras em que a Providência o queria? «Antes portanto de correr, diz Santo Ambrósio, escolhe bem o teu caminho»; e o profeta declara que «é uma desgraça urdir al­guém a sua tela sem ser pelo movimento do Espírito Santo» (20).

  2. «Uma vez que a estrela veio mostrar-vos o caminho, apressai-vos; é para temer que a luz se extinga» (21). «Onde fostes chamado, lançai a âncora e fixai os calabres; o alto mar ameaça arrebatar-vos» (22). Tais são os con­selhos que os santos dão aos chamados, adver­tindo-os de que se corre um verdadeiro peri­go, se se desprezarem «estes conselhos que no entanto não obrigam como os preceitos» (23).

  3. Não se deve exagerar. Pode-se evitar o mal e alcançar a salvação em qualquer altura, cir­cunstância e profissão que não é por si mesma criminosa, mesmo quando se seguiu contra a vontade de Deus claramente conhecida. Con­tudo quem não corresponde à sua vocação, en­contra-se numa posição falsa perante Deus e o próximo.

  4. (20) Isaías, XXX, 1. (21) S. João Clímaco.

  1. S. Efrém.

  2. S. Greg. de Naz.

  1. Há talentos não aplicados, obrigações para as quais se não está divinamente preparado, tentações contra as quais se não está especial­mente armado; sofre e faz sofrer. O olhar de Jesus deve ser para ele uma recordação ine­xorável que não lhe permite ser feliz. Para a aquisição das virtudes, ele lembra aquelas plan­tas dos climas quentes cujas folhas parecem tiritar, mesmo nas nossas estufas; não atingem nunca o seu tamanho natural ; dão apenas flores diminuídas e raramente conduzem à maturida­de o seu fruto. Compreende-se que muitas ve­zes «a graça da salvação está ligada à voca­ção» (24). Assim o entendia a nossa santa Joana d'Arc, e, em face das suas vozes, exclamava : «Era Deus que o ordenava ! Ainda que eu ti­vesse tido cem pais e cem mães e tivesse sido filha de rei, eu teria partido».

  2. Todas nós «temos defendido os nossos di­reitos ao amor» (25) e «sem nos deixarmos entorpecer pelos prazeres terrenos, deixámos a nossa terra e os nossos parentes» (26). Mas pode acontecer, acontece seguramente a algu­mas, terem dúvidas sobre a sua vocação ou

  1. Bourdaloue.

  2. Ruysbroeck.

  3. S. Francisco de Sales.

  1. 3. — Castidade.

  1. sobre os motivos que a determinaram. A res­posta é tão simples! Fornecem-no-la dois san­tos. «A Providência íaz belas obras-primas com essas intenções torcidas; há-as que não eram bem-chamadas e cuja vocação foi ratificada e valorizada por Deus; tornam-se bons servos da divina Majestade» (27). De resto, se vós não vos julgais «chamada, vivei de maneira que façais dar a vós mesma a vocação» (28).

  2. Afectos.—«Ó Jesus, meu Redentor e meu Deus, como mereci eu ser chamada, eu pobre pecadora, para viver neste mundo na vossa morada, enquanto vós deixáveis expostas às tempestades do mundo tantas outras jovens mais inocentes do que eu? Senhor, fazei que eu co­nheça todo o preço deste alto favor, que eu vos seja reconhecida e que eu responda com o meu amor ao que Vós me mostrastes. Sim, Jesus, eu amo-Vos acima de tudo e não quero amar se­não a Vós só» (S. Afonso de Ligório).

  3. Exame. — Sou eu reconhecida a Deus pela minha vocação? — Penso eu por vezes no que ela custou a Jesus? — Fiquei eu na humildade,

  1. S. Francisco de Sales.

  2. S. João Crisóstomo.

  1. no temor, no sentimento das minhas responsa­bilidades? — É a minha vida a de uma eleita, esposa de Jesus? — Se tenho dúvidas e tenta­ções, combato-as eu, esforçando-me por viver mais santamente ? — Tenho eu o hábito de orar para que Deus multiplique as vocações?



  2. Resolução.

  3. Ramalhete espiritual. — «Feliz da alma que ouve a voz de Deus e a segue; ela fará uma fe­liz viagem ao porto da salvação» (Santa Joana de Chantal).





  4. IV

  5. DAS VANTAGENS DA PERFEITA CASTIDADE



  6. Santo Hilário, exilado pela fé, preocupa-se com a vocação de sua filha Abra. Ao con­trário dos mundanos, ele ambiciona acima de tudo dá-la só a Cristo. Então escreve-lhe uma admirável carta na qual lhe propõe adquirir «o mais belo manto que há, a pérola incom­parável»; morria de boamente, diz ele, para lhe proporcionar esse tesouro. Cioso «da sua

  1. salvação e da sua perfeição», ele convida-a à castidade perfeita, instiga-a a consagrar-se sem reserva a Deus. A virgindade, efectivamente, como vamos ver:


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