Exportação de Bens Primários e Apreciação do Câmbio Real: há uma ligação?



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Exportação de Bens Primários e Apreciação do Câmbio Real: há uma ligação?
Nelson Marconi – Professor da EESP-FGV e da PUC-SP.

E-mail: Nelson.marconi@fgv.br

Marcos Rocha – Professor da PUC-SP e Doutorando pela EESP-FGV.

Email: marcosrocha@gvmail.br
RESUMO

A taxa real de câmbio (TCR) pode ser considerada o preço relativo mais importante da macroeconomia, dadas as ramificações de influência que ela tem sobre inúmeros outros preços agregados, e pode se encontrar sobrevalorizada, dentre outros fatores, como sintoma de um processo de doença holandesa. Assim, buscando comprovar esta última afirmação, investigamos neste trabalho se há uma relação entre concentração de exportações de commodities e apreciação da taxa de câmbio real. Para isso, construímos a partir de um painel cointegrado para 102 países, um índice de desalinhamento da TCR, com o intuito de relacioná-lo ao tipo de pauta de exportação dos países. Primeiramente foram feitos testes para definir os determinantes da taxa real de longo prazo e, posteriormente, para identificar aqueles que concorrem para a sua sobre-apreciação. Os resultados demonstram que uma pauta de exportações concentrada em produtos primários contribui para apreciar a taxa real de câmbio, enquanto uma pauta com maior participação de manufaturados não exerce o mesmo efeito, o que é condizente com os efeitos esperados nos modelos teóricos de doença holandesa.


ABSTRACT

The real exchange rate (RER) can be considered the most important relative price of macroeconomics, given the ramifications of the influence it has on numerous other aggregate prices, and can be found to be overvalued, among other factors, as a symptom of a Dutch disease process. In order to prove this point, this study investigates whether there is a relationship between the concentration of commodity exports and the appreciation of real exchange rate. For this, we construct an index of RER misalignment from a cointegrated panel of 102 countries, in order to relate it to the type of each country export basket. At first tests were undertaken to define the determinants of long-term real rate and, subsequently, to identify those that contribute to its over-valuation. Results show that an export basket focused on primary products contributes to appreciate the real exchange rate, while an export basket with a higher share of manufactured products does not have the same effect, what is consistent with the expected effects on the theoretical models of Dutch disease.


JEL: F10; F32; F41

Palavras-chave

Taxa real de câmbio; exportações; doença holandesa
JEL:

Key-Words

Real exchange rate; exports; dutch disease
Área de Concentração 6 - Economia Internacional

Exportação de Bens Primários e Apreciação do Câmbio Real: há uma ligação?
1. Introdução
A taxa real de câmbio (TCR) pode ser considerada o preço relativo mais importante da macroeconomia, dadas as ramificações de influência que ela tem sobre inúmeros outros preços agregados. Por isso mesmo, muitos economistas convivem com a preocupação de que a TCR que prevalece no mercado seja um sinal correto que torne sustentável, no longo prazo, o equilíbrio dos “fundamentos” macroeconômicos que ela afeta e são afetados por ela. Além disso, a história mostrou que sustentar uma taxa de câmbio sobrevalorizada por longos períodos pode levar a crises de moeda que deixam traumas macroeconômicos indeléveis: o México, o Leste Asiático e o Brasil experimentaram esse tipo de crise.

A taxa de câmbio pode se encontrar sobrevalorizada, dentre outros fatores, como sintoma de doença holandesa. A doença holandesa pode ser definida como a sobre-apreciação crônica da taxa de câmbio causada pela abundância de recursos naturais e humanos baratos, compatíveis com uma taxa de câmbio inferior àquela que viabilizaria as demais indústrias de bens comercializáveis. É um obstáculo que inviabiliza investimentos e cuja principal causa será a tendência à sobre-apreciação da taxa de câmbio que existe nos países em desenvolvimento. Assim, pode-se dizer que o comportamento pelo qual se manifesta o processo de desindustrialização tem como ponto central a relação entre apreciações sistemáticas da taxa de câmbio real de um país e sua pauta de exportações concentrada em commodities, por exemplo. É essa conexão que é investigada nesse trabalho: há relação entre concentração de exportações de commodities e apreciação da taxa de câmbio real?

Debates nos círculos acadêmicos e políticos sobre os efeitos da liberalização financeira sobre o desempenho econômico ou sobre a capacidade de condução de políticas monetárias independentes têm tido grande repercussão, em especial no que se refere às políticas praticadas pelos países emergentes. Na medida em que permanece popular a idéia de que controles de capitais podem ensejar certa influência sobre a taxa de câmbio real, o estudo sobre o desalinhamento cambial e Dutch Disease necessariamente deverá passar por um estudo sobre a influência dos controles sobre a trajetória de ajuste do câmbio.

No que se refere a um estudo para um painel de países, não é, em geral, a TCR em nível o que interessa para o policy-maker; o seu comportamento de sobrevalorização, por outro lado, é muito importante, porque pode ser fruto de práticas políticas inadequadas, tais como déficits permanentes, ou de desequilíbrios estruturais persistentes como Dutch Disease; ambos os efeitos adversos podem pedir uma ação corretiva por parte da sociedade e governo. Por isso, nesse trabalho, construímos, a partir de um painel cointegrado para 102 países, um índice de desalinhamento da TCR, com o intuito de relacioná-lo ao tipo de pauta de exportação dos países, num segundo exercício empírico.

Este trabalho, além desta introdução, é composto da seguinte forma: na próxima seção, é feito uma revisão da discussão sobre apreciação cambial, exportação de commodities e Dutch Disease. Na Seção 3, o conceito de taxa real de câmbio de equilíbrio de longo prazo é explicado, e sua metodologia de estimação. Na Seção 4 as bases de dados utilizadas são descritas em detalhes. A Seção 5 apresenta o modelo econométrico. A Seção 6 finaliza o trabalho com alguns comentários conclusivos.

2. Estratégias de desenvolvimento, doença holandesa e câmbio
A doença holandesa é um fenômeno decorrente da existência de recursos naturais abundantes que geram vantagens comparativas para esse setor e, por decorrência disso, gera diferencial de produtividade em commodities ao país que os possui. Deixando os mecanismos de mercado operar livremente, o país pode ser levado a experimentar subseqüentes apreciações de sua taxa de câmbio real.

O primeiro modelo de doença holandesa foi desenvolvido por Corden e Neary (1982) e aprimorado por Corden (1984). Nele, existem três setores: o de produtos não comercializáveis, o de produtos comercializáveis que cresce rapidamente (extração de produtos naturais ou produção de grãos, por exemplo, nos quais o país possui vantagens comparativas) e o de comercializáveis que cresce mais lentamente (indústria e demais setores da agricultura e extração). O setor que produz recursos naturais (comercializáveis que cresce à frente dos demais) tende a expandir rapidamente suas receitas de exportação, o que leva à apreciação da taxa de câmbio. Ambos os fatores, seja a expansão da comercialização dos recursos naturais abundantes, seja a apreciação do câmbio, contribuem para elevar a renda, incluindo a dos assalariados, e a demanda interna. Entretanto, há nesse processo desestímulo à exportação do setor de manufaturados comercializáveis, que tem o crescimento de suas exportações tornado mais lento. Uma parcela dos fatores produtivos é deslocada para o setor que produz recursos naturais e para o setor de não comercializáveis (neste caso, devido ao aumento da renda interna) e, ainda que a produção de manufaturados se desloque para o mercado interno, pode ocorrer um processo de desindustrialização em virtude da redução das vendas externas deste último e do aquecimento dos demais setores.

Para Bresser-Pereira (2008), a doença holandesa é uma grave falha de mercado porque implica a coexistência de duas taxas de câmbio de equilíbrio: a TCR de equilíbrio corrente, que equilibra intertemporalmente a conta corrente do país, e a TCR de equilíbrio industrial, que viabilizaria a produção no país de outros bens comercializáveis distintos dos que dão origem à doença holandesa. A taxa de câmbio de equilíbrio corrente é inferior à industrial devido à doença holandesa – isto é, o equilíbrio em conta corrente é viabilizado com uma taxa de câmbio inferior à que estimularia as exportações de manufaturados e, por conseqüência, estimula a produção de uma série de produtos industriais. O resultado é a geração de sucessivos superávits comerciais de commodities primárias e de produtos derivados delas que estimulam a valorização cambial e, ao mesmo tempo, propicia a manutenção deste superávit com uma TCR sobrevalorizada. Essa dinâmica inviabiliza o superávit comercial em outros setores que não possuem a mesma vantagem comparativa. A vantagem comparativa, porém, não é um conceito estático, mas dinâmico: os países emergentes que efetivamente se desenvolveram, argumenta o autor, investindo na capacitação de suas vantagens comparativas na produção de bens manufaturados cujas externalidades em termos de emprego da força produtiva e de expansão do conhecimento da produção de bens intensivos em tecnologia tem sido positiva e benéfica. A discussão sobre a tendência à sobrevalorização do câmbio compreende o que os países podem fazer, e alguns fazem, para evitá-la. Nesse sentido, do ponto de vista dos países emergentes, a análise de estratégia mais fundamental é observar as experiências internacionais como exemplo.

Os asiáticos iniciaram e aceleraram seus processos de desenvolvimento em períodos diferentes, de forma que temos na seqüência: Coréia, Taiwan, Singapura, Malásia e Tailândia; posteriormente, Indonésia, China e Índia e mais recentemente Vietnã e Cambodja. A expressão “depois”, de alguma forma ligada à hipótese dos gansos voadores, sugere que o catch up ocorreu em ondas sucessivas.1

Existe alguma coisa em comum no processo de desenvolvimento econômico desses países? Lidar com os processos de sobre-apreciação do câmbio real, neutralizando-o, é uma resposta ao sucesso no crescimento destes países que têm tomado relevância na literatura (Eichegreen, 2008; Gala, 2008; Rodrik, 2008). Pode-se dizer que existe uma estratégia nacional de desenvolvimento, ou de competição internacional, em cada um dos episódios de neutralização da tendência à apreciação da taxa de câmbio real, em que se ressalta o cuidado com políticas cambiais.

Eichengreen (2008) chama atenção para o fato de que a literatura de crescimento orientado às exportações foca as vantagens por diversos veículos teóricos, em geral recomendando manter-se os preços das exportações altas o suficiente para tornar atrativo o deslocamento dos recursos à sua produção. Isso significa o aumento da produção de manufaturas leves que promoveria um estímulo ao crescimento, desde que haja condições para que haja maior produtividade na manufatura do que na agricultura. Esses países com crescimento orientado às exportações podem continuar sua extensão de produção sem que os preços caiam, uma vez que a demanda externa é inelástica, ao contrário dos non-tradables, cuja demanda é doméstica e relativamente inelástica. Isso permite que a estrutura de produção seja desconectada da estrutura de consumo. Se maior renda e rápido crescimento permitem maiores taxas de poupança, então será possível financiar maiores níveis de investimento dos recursos domésticos. Além disso, se o learning-by-doing ou transferência de tecnologia é relativamente rápido nos setores produzindo para exportação, então haverá maior estímulo para a taxa de crescimento. Como evidência do funcionamento desses veículos aponta os países que tiveram sucesso com export led growth: Japão, Honk Kong, Singapura, Coréa do Sul, Taiwan, e por último, a China (na ordem).

Eichengreen (2008) argumenta que manter o câmbio em níveis competitivos e evitar excessiva volatilidade permite que o país explore crescimento – formando uma forca de trabalho qualificada, altas taxas de poupança, ou seu status quanto a se tornar um destino para investimento estrangeiro. Ausente esses fundamentos, a política cambial não funciona, e traz custos e benefícios, com os custos crescendo à medida que aumentam o nível geral econômico e o desenvolvimento financeiro. Porque os fundamentos são diferentes entre os países, as correlações entre o nível e a volatilidade da RER produzem resultados estatísticos diversos.

Nesse contexto, cabe questionar se a taxa de câmbio real pode ser mesmo usada como variável de política. A resposta do autor é que A política monetária não pode ser usada para sustentar uma RER particular, outra que a ditada pelos fundamentos eternamente. Embora a política cambial seja eficiente no curto prazo, por conta dos ajustes defasados do mercado de bens e rápido ajuste no mercado de ativos, no longo prazo a inflação reage, e o preço dos bens não comercializáveis se ajusta. Claro, o longo prazo pode ser suficiente para que a política imprima um início virtuoso de crescimento.

Mas outros canais são apontados. Política fiscal pode tem um impacto duradouro, com uma política restritiva reduzindo o preço dos bens domésticos e desvalorizando o câmbio. O quão restritiva deve ser a política fiscal depende de quanta pressão é dada sobre o mercado de bens não comercializáveis por outras formas de gastos. Se as poupanças das famílias e as corporativas são altas, como as da China, o governo não precisa pressionar muito. Se o investimento é relativamente fraco, como tem sido na Ásia desde 1997-8, então um dado nível de gasto público estará associado poderá associar-se com cambio competitivo: os países Asiáticos experimentaram substancial depreciação cambial depois da crise sem que a política fiscal fosse fortemente contracionária (exceto por um período curto).

Analogamente, a fraca demanda privada explica porque a Argentina experimentou uma sustentável depreciação real depois da crise 2001-2. Similarmente, a menor experiência de crescimento pela maioria da América Latina e Caribe nas mesmas décadas tem chamado a atenção para a possibilidade de sobrevalorização cambial na região. Alguns desses países passaram por uma grande crise de balanço de pagamentos em 1997 (Coréia, Tailândia, Malásia, Cingapura), mas em seguida voltaram a crescer.

A estratégia é distinta da adotada na América Latina, principalmente no Brasil e no México, que a partir da década de 1980, com a crise da dívida externa, pararam de crescer e resolveram financiar seus déficits no balanço de pagamentos, principalmente, através da atração de capitais externos. Não houve uma estratégia de promoção das exportações que poderia levar estes países, a exemplo dos asiáticos, a equilibrar suas contas externas de forma sustentável, criando poupança interna e praticando taxas de câmbio competitivas. A estratégia na maioria dos países latino-americanos foi de, a princípio, controlar a inflação usando o câmbio como uma âncora cambial e, posteriormente, para financiar o desenvolvimento. A estratégia de sobrevalorização cambial traz vantagens no curto prazo, pois torna o consumo e o investimento baseado em produtos estrangeiros mais barato, provocando uma elevação efêmera do poder de compra da população, mas em médio prazo gera sérias restrições à produção de bens que necessitam de uma taxa de câmbio mais elevada para se tornarem rentáveis (por não possuírem as mesmas vantagens comparativas dos setores que produzem bens primários) e ao balanço de pagamentos do país2.

3. A taxa real de câmbio de equilíbrio de longo prazo: teoria e metodologia de estimação
A taxa de câmbio real é um preço não só relativo, mas macroeconomicamente estratégico, guiando a alocação da produção e gastos de uma economia entre dois tipos de bens, os comercializáveis e não-comercializáveis. Devido a esse papel importante da TCR, as economias emergentes em particular são muitas vezes encorajadas a conduzirem em suas políticas esse preço relativo à sua posição “correta”. Essa posição “correta” é muitas vezes indicada como aquela que não está muito distante de seu valor de equilíbrio, dados a sustentabilidade das contas internas e externas.

A definição tradicional da TCR de equilíbrio é aquela que é consistente com o balanço macroeconômico interno e externo, condicionado a valores sustentáveis de variáveis exógenas e de política (ou seja, ao equilíbrio intertemporal dos fundamentos). O balanço interno refere-se à situação em que os mercados de bens comercializáveis e não-comercializáveis estão em equilíbrio, e corresponde ao equilíbrio macroeconômico com pleno emprego. O balanço externo, por outro lado, refere-se a uma situação em que o déficit em conta corrente da economia é igual ao valor intertemporal sustentável de entrada de fluxos de capitais que se espera receber. Assim, quando se aponta uma TCR de equilíbrio, não se refere a uma TCR obtida de qualquer equilíbrio arbitrariamente escolhido, mas sim de um equilíbrio sustentável intertemporalmente. Econometricamente, a TCR de equilíbrio pode ser obtida regredindo-se a TCR com seus fundamentos como regressores. A regressão, assim, é capaz de tornar visível como os fundamentos agem para estabelecer o equilíbrio da taxa de câmbio; a posição externa líquida, por exemplo, age naturalmente como um fundamento apreciador da TCR. O que a maioria das estimações de taxa de câmbio não contempla é o papel dos recursos naturais no nível de equilíbrio de longo prazo da TCR. A estratégia empírica deste trabalho é justamente fazer essa inclusão, utilizando como proxy da riqueza relativa em recursos naturais de um pais o índice da participação percentual de commodities nas exportações do país. Assim, além dos fundamentos, temos uma variável “Commodity” procurando esclarecer se há uma relação entre o comportamento da TCR e a abundância relativa de recursos naturais de um país. Uma relação positiva e significante da TCR com esse índice pode ser interpretado como evidência de que o fenômeno de Dutch disease implique em sobrevalorização. Para investigar esse problema, nós construímos taxas de equilíbrio de longo prazo que incluem a “Commodity” – e, de acordo com esta lógica, embutem apreciação causada por exportação de produtos primários – com uma taxa de equilíbrio convencional, que não captaria esse fenômeno e tende a ser relativamente desvalorizada com relação à TCR de equilíbrio que embute a apreciação decorrente da Dutch disease.


3.1 Modelos para taxas de câmbio de equilíbrio. A definição tradicional da TCR de equilíbrio, a Fundamental Equilibrium Exchange Rate (Taxa de Câmbio de Equilíbrio, FEER), é aquela que é consistente com o balanço macroeconômico interno e externo, condicionado a valores sustentáveis de variáveis exógenas e de política (ou seja, ao equilíbrio intertemporal). O balanço interno refere-se à situação em que os mercados de bens comercializáveis e não-comercializáveis estão ambos em equilíbrio, e corresponde ao equilíbrio macroeconômico com pleno emprego. O balanço externo, por outro lado, refere-se a uma situação em que o déficit em conta corrente da economia é igual ao valor intertemporal sustentável de entrada de fluxos de capitais que se espera receber. Ele pode ser caracterizado por estimações empíricas de balanços de poupança-investimento ou por valores que são consistentes com a sustentabilidade do equilíbrio externo. Assim, quando se aponta uma TCR de equilíbrio, não se refere a uma TCR obtida de qualquer equilíbrio arbitrariamente escolhido, mas sim de um equilíbrio sustentável intertemporalmente, o que exige estimações das elasticidades de comércio. Esse enfoque foi utilizado de forma pioneira por Williansom (1994) e ainda é utilizado pelo FMI.

A abordagem FEER, embora intuitiva, traz alguns problemas aos pesquisadores. Primeiro, os resultados são muito sensíveis às elasticidades de comércio, que são comumente usadas como dadas por uma média de uma grande quantidade de países (Isard, 2007). Em segundo lugar, os balanços internos, usualmente calculados por hiatos de produtos, são difíceis de computar para países emergentes, e os métodos empregados em geral carecem de fundamentos teóricos (Isard e Faruqee (1998)). De forma geral, pode-se dizer que o cálculo dos hiatos de produtos não são apropriados para economias emergentes ou em transição porque suas transformações econômicas ainda estão em processo (Coudert e Couharde, 2007). E terceiro, estimar o equilíbrio externo sustentável não é tarefa fácil. Por um lado, a hipótese de sustentabilidade do débito externo usualmente termina por ser a manutenção do nível anterior de débito (IMF, 2007), qual seja o tamanho, o que leva a grandes desvios entre os países que são inexplicados. Por outro lado, rodar uma regressão cross-country para estimar a conta corrente de equilíbrio pode resultar em grande diferenças com os dados obtidos e nos informar graves desalinhamentos.



Dado esses problemas, a literatura empírica de determinação da TCR têm utilizado técnicas de estimação diretas. Este enfoque é muitas vezes chamado de Behavorial Equilibrium Exchange Rate (Taxa de Câmbio de Equilíbrio Comportamental, BEER), seguindo Clark e MacDonald (1998). Este enfoque econométrico foca em estimar uma forma reduzida relacionando a TCR e seus fundamentos (Edwards, 1997; Montiel, 1999; Chinn, 2000). Nestes modelos, a taxa de câmbio de equilíbrio é definida como o preço relativo de comercializáveis e não-comercializáveis que, tudo o mais constante, resulta na manutenção dos equilíbrios internos e externos: na prática, o método consiste em estimar uma forma reduzida da TCR com suas variáveis fundamentais:


Onde  são as J variáveis fundamentais,  é o termo erro da equação, e  são os coeficientes a serem estimados.

Como observa Montiel (2003), se a TCR não for estacionária, modelos teóricos de determinação da TCR sugerem que um subconjunto de fundamentos não deve ser estacionário também. Essa constatação sugere que o uso de equações de cointegração ligando a TCR com um subconjunto relevante de "fundamentos", baseando-se nos valores correntes observáveis da TCR e dos fundamentos. A teoria econométrica sugere que quando nem a TCR nem um subconjunto de determinantes "fundamentais" é estacionário, os parâmetros que ligam a TCR de longo prazo aos valores permanentes dos fundamentos não-estacionários pode ser estimado desses valores observáveis. Esses parâmetros estimados revelariam a relação de longo prazo entre a TCR e seus determinantes fundamentais, permitindo assim a estimação de uma TCR de longo-prazo. O Apêndice I traz um modelo simples de determinação do câmbio real de longo-prazo.

Uma vez decidido qual o arcabouço teórico para lidar com a TCR, a aplicação dos conceitos relevantes do modelo necessita de uma medida empírica da TCR. A escolha mais comum é a chamada taxa de câmbio real efetiva (TCRE). Para construir um índice de desalinhamento da TCRE, são usadas as estimativas de longo prazo dos fundamentos econômicos obtidos com DOLS (Dynamic Ordinary Least Squares) para computar os valores previstos da que seria a TCRE de equilíbrio.

Como aponta Alberola (2003), encontrar a relação de cointegração de longo prazo entre a TCRE e seus fundamentos daria uma estimação da taxa de equilíbrio se fosse possível observar o nível de equilíbrio dos fundamentos: ou seja, aqueles valores para fundamentos da TCR (como produtividade ou passivos externos) que seriam sustentáveis como uma trajetória de equilíbrio intertemporal. Entretanto, só é possível observar os valores conhecidos (correntes e do passado) destas variáveis. Assim, para calcular a TCRE de equilíbrio faz-se necessário isolar os valores permanentes dos fundamentos macroeconômicos da influência de suas flutuações de curto prazo.



Há várias técnicas para filtrar e decompor séries de tempo. Neste trabalho foi utilizado o filtro Hodrick-Prescott (HP) para obter os valores permanentes ou de equilíbrio das variáveis fundamentais. Assim, as estimativas da TCRE de longo prazo são obtidas substituindo-se os valores do componente permanente na equação de cointegração. Os índices de desalinhamento da TCRE computados correspondem à diferença entre a TCRE observada e a de equilíbrio, tomadas em logaritmos.

A idéia é caracterizar a TCRE de equilíbrio de longo prazo como aquela que corresponde aos valores sustentáveis dos fundamentos macroeconômicos. Assim, é possível identificar grandes episódios de desalinhamento e prover um apontamento quantitativo da extensão na qual a TCRE está em conformidade com seus fundamentos econômicos sustentáveis de longo prazo. Uma vez obtido o índice de desalinhamento, é possível buscar seus determinantes em variáveis de política econômica a causa da persistência dos desalinhamentos da TCR, na linha da argumentação explicada a seguir.


3.2. Determinantes de desalinhamento da TCR.
Para propósitos de política e análise, é útil distinguir as causas de desalinhamentos que a literatura tem sublinhado, além da discussão já estabelecida entre exportação de bens primários e sobre-apreciação cambial.

Há também desalinhamento induzido pela macroeconomia, que ocorre devido às inconsistências entre as políticas macroeconômicas, especialmente a monetária, e o sistema oficial de taxa de câmbio nominal, ou o regime cambial (Edwards, 1988). Por exemplo, quando temos uma política monetária expansiva – seja devido a um déficit fiscal ou por outras razões – e excede a trajetória compatível com a de uma taxa de câmbio nominal no âmbito de um regime fixo, o preço dos bens domésticos tenderão a crescer a uma taxa maior do que a inflação mundial. Como resultado, a TCR experimentará uma apreciação real que pode ser persistente e nociva. A inflação tem aí sua contribuição para a existência do desalinhamento3.

É comum a ocorrência de desalinhamentos estruturais de curto prazo, que existe quando há mudança nos determinantes reais ou fundamentais da TCR de equilíbrio que não é no curto prazo traduzido em reais mudanças na TCR (choques de produtividade, como o efeito Balassa-Samuelson, por exemplo). Esse desalinhamento é temporário, fruto de mudanças nas variáveis de equilíbrio dos fundamentos, que tomam certo prazo de ajuste e não persiste no longo-prazo4 (Montiel, 2008), mas podem servir como variáveis de controle para estudar os determinantes da persistência eventual de desalinhamentos, por exemplo.

Desde os modelos simples Mundell Fleming a modelos mais sofisticados, os economistas enunciam que a abertura à fluxos de capitais de um país detém forte influência sobre o nível de determinação TCR. Historicamente, muitos países tem se apoiado em diversas formas de restrição das suas contas de capitais aos fluxos financeiros. Como aponta Edwards (1999), enquanto a maior parte do mundo no período pós Segunda Guerra Mundial tinham por objetivo evitar a flutuação do capital, mais recentemente os países têm tentado evitar ou reduzir grandes influxos de capitais: controles da taxa de câmbio, seja para impedir sobrevalorizações, seja como parte de estratégias de crescimento orientadas às exportações, são o que muitas vezes estão subjacente a estas políticas. Há, entretanto, muitos analistas que apontam que os impedimentos legais na mobilidade dos capitais nem sempre são exitosos em se tornar reais restrições de movimentos nesses fluxos. Portanto, existe uma distinção razoável entre a mobilidade de capital observada e a efetiva, que tem sido sujeita a muito debate entre os economistas. Este trabalho inova ao buscar entender se esses fluxos têm algum impacto no desalinhamento da taxa de câmbio real, utilizando séries históricas de facto como índice: a KAOPEN, de Chinn e Ito (2005).




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