Escola de teatro licenciatura em teatro


TRAJETÓRIA DE UMA ARTE-EDUCADORA



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2. TRAJETÓRIA DE UMA ARTE-EDUCADORA

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.


Toquinho (1983).
Neste capítulo, destaco os aprendizados de teatro que contribuíram com a minha formação como pessoa e como artista educadora, desde o meu ingresso, quando criança, no Centro de Artes da Hora da Criança, até o curso de Licenciatura da Escola de Teatro. Uma trajetória marcada pelas possibilidades da arte como educação sensível, voltada para o desenvolvimento do pensamento complexo, nos contextos de educação pública na cidade de Salvador-BA.

2.1 OS PRIMEIROS PASSOS


Foi a partir das brincadeiras da minha infância que aflorou a vontade de estar em cena e o desejo pelas artes em geral. Mas quem sou eu? Responder a esta pergunta neste Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Teatro, reflete os meus estudos e aprendizados, que tiveram como objetivo maior o fazer teatral e, portanto dizem de minha presença, memória, sensibilidade e responsabilidade com a minha própria história e com a história e desenvolvimento de crianças, que como eu têm o direito de crescer amparadas pela arte.

Começarei, pois, do princípio: sou filha de José Jorge Gonçalves dos Santos, oriundo do município baiano de São Felipe e de Iolanda dos Santos Silva, nascida em Salvador. Pertencente a uma família de baixa renda, sou a segunda filha de cinco irmãos, e, por enquanto, a primeira integrante da família a ter acesso à universidade. Aos sete anos de idade iniciei um novo momento. Tive a sorte de ser abençoada e receber de presente da vida mais uma família, através de Clara, uma criança vizinha com quem passei a brincar constantemente, e de seus pais, Léo Toniolo e Joilma Oliveira, que se tornaram meus padrinhos e me receberam em sua casa de braços abertos.

Nesse novo contexto pude vivenciar novas experiências, tendo acesso a novos brinquedos, livros e a um novo contexto sociocultural que se somou ao meu mundo.

Considero que a junção destes “dois mundos” se constituiu em uma grande riqueza de vida e em uma soma interessante de aprendizados. Ser parte de uma família negra, de baixa renda, onde a conquista do básico tantas vezes se fez de forma esforçada e sofrida, trouxe-me grandes lições de luta, resistência e resiliência. Por outro lado, fazer parte de outra família com outro padrão socioeconômico me abriu portas para uma realidade que provavelmente eu não teria fácil acesso, e pelas características dos envolvidos, essa convivência se fez no respeito às ambas realidades. Nessa troca de saberes, crescemos juntos.

Dentro de mim havia uma menina que prezava pela vontade de ser artista; no meu pequeno mundo uma luz insistia em querer brilhar e meus dois mundos viam irradiar essa luz.

A partir das descobertas que fui vivenciando nessas novas experiências de diversidade cultural, fui experimentando o fazer teatral no contato com outras crianças, percebia onde o uso da imaginação dentro e fora das brincadeiras me levava – a liberdade de expressão e o imaginar me possibilitam criar sem medo e me ajudava a romper com as barreiras da insegurança e da timidez.



Através de duas amigas que freqüentavam a minha casa, entrei no Centro de Artes Hora da Criança, em 1999, quando tinha apenas 10 anos de idade. Ao saberem da existência desse projeto, meus padrinhos me estimularam, porque acharam que esta poderia ser uma boa oportunidade para a minha vida. Concordei com entusiasmo e então comecei a freqüentar a instituição, juntamente com Clara.

Figura 5- Brincando com a imaginação


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

O Centro de Artes Hora da Criança é um espaço que recebe alunos da rede pública e da rede privada; e ao meu entender, essa diversidade de classe social, de raça e de crenças, proporciona uma vivência humana rica e inclusiva que alarga os horizontes de todos os envolvidos. É por meio desta abrangência de público do centro, que destacamos o 6º saber elaborado por Morin que se refere a “Ensinar a compreensão por meio do diálogo e do entendimento”, valorizando e respeitando as diferenças em detrimento das “verdades absolutas”.

O fato de participarmos desse projeto, juntas (nossas vizinhas, algumas amigas, Clara e eu), fez com que a arte seguisse conosco durante toda a semana; era um transbordar de criatividade e imaginação.

Acredito que a imaginação desenvolvida durante a vida alimenta a fonte de criação que nos é inerente, auxiliando a nossa capacidade de compreender a vida e a nos realizar como pessoas. Recordo-me que havia um palco em casa que usufruíamos com constância e intensidade: inventávamos coreografias, cantávamos, produzíamos pequenas cenas teatrais... Como a minha casa é um espaço comum de moradia e trabalho2e havia sempre o movimento da família e da clientela, logo, tínhamos o nosso público garantido!



Na casa havia também aulas de dança do ventre e muito cedo me iniciei nessa arte através da professora Joilsa Ferraz, uma amiga próxima da família, que desenvolvia suas atividades dentro do espaço em nossa casa. Segui com a dança do ventre em paralelo aos cursos do Centro de Artes Hora da Criança, e hoje, começo a experimentar a minha primeira turma como professora.

Figura 6 –Exercitando a criatividade com amigas e vizinhas


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

Figura 7– Experimentando a dança

Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).
Recordo-me que no primeiro dia tudo era muito intenso, havia o nervosismo em chegar ao Centro de Artes Hora da Criança, conhecer os outros alunos e professores, participar das aulas e experenciar a arte em suas diversas formas, algo que “aquela menininha” tanto desejou e sonhou. Trago, nessa narrativa, o termo experenciar, a partir da formulação de Spolin (2000), justamente porque essa vivência com as artes correspondia ao ato de “penetrar no ambiente”. “Se o ambiente permitir pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo o que ele tem para ensinar” (SPOLIN, 2000, p.03).

No Centro usufruíamos de um ambiente acolhedor através de aulas de Coral, Instrumentos Musicais, Artes Plásticas, Dança e Teatro. Destaco a importância da música dentro da escola que impulsionava nossos momentos de aprendizagem.

A música, sendo uma arte essencial para a manifestação dos sentimentos, nas aulas de coral era um elemento único no qual todos os alunos vivenciavam juntos as expressões, estimulando nas práticas:a memória, sensibilidade, criatividade, senso crítico, percepção auditiva e o respeito ao próximo.

Louvores a quem os merece

Alegres vamos cantar

Nesta data alviçareira

Que não podemos olvidar
Louvores a nossa Rainha

Que vê o tempo passar

Sempre jovem, sempre linda

Porque o filho sabe amar
Lá, rá, lá, lá, rá, ra...

Lá, rá, lá, lá, rá, ra...
Viva o Rei que sabe reinar

E ser pai como pai deve ser

Que vive a pensar no povo

E ao filho proteger
Ao dono do aniversário

Louvores vamos cantar

Parabéns a Monetinho

Penhor da sorte deste lar
E que nunca mais aconteça

Malefício a este reino voltar

Nunca mais a felicidade

Chorando abandone este lar
Lá, rá, lá, lá, rá, ra...

Lá, rá, lá, lá, rá, ra...
(Música composta pelo Prof. Adroaldo Ribeiro Costa e Agnor Gomes – Trecho da canção a Marcha do Monetinho espetáculo doCentro de Artes Hora da Criança, 1954, p.01).

As minhas aulas eram no período da tarde nas Terças e Quintas das 13h30min às 17h30min. Nesse tempo poderia sentir a liberdade da infância, o poder do trabalho em grupo e a deliciosa sensação das brincadeiras que vivenciava junto aos colegas e amigos. As experiências como os jogos levados pelos professores me faziam refletir sobre a necessidade de exprimir a espontaneidade, a liberdade e o meu desenvolvimento enquanto criança; naquele momento o que reverberava em mim, era a capacidade de aprendizagem junto às outras crianças.

O encontro no campo artístico de pessoas, experiências e realidades, defendo, é um fenômeno onde o principal dado a ser perseguido é a reciprocidade: de atração, de rejeição, de excitação, de indiferença de distorção. E a prática de aulas de teatro com as crianças e adolescentes deflagra, exatamente, as possibilidades de reciprocidade para com o outro (LANDIM, 2012, p.15).

Nesse percurso diário fui criando laços e aprendendo a dialogar com as experiências adquiridas na escola. Os jogos se tornaram um grande facilitador na minha aprendizagem ajudando-me a abraçar e enfrentar os meus medos. Fui formando a minha identidade como adolescente e artista durante esse trajeto.

No Centro de Artes Hora da Criança, a minha primeira professora de teatro foi a Profª. Débora Landim. Inicialmente eu era muito tímida, porém bastaram os primeiros estímulos para que eu pudesse liberar toda a minha espontaneidade e vivacidade. O fato de termos o mesmo nome dava um “quê poético” ao nosso vínculo e sentia aquele nome vibrar no meu peito.

A professora Débora Landim foi uma incentivadora marcante na minha trajetória. Naquele período, conversou com a minha família reconhecendo a minha aptidão para a interpretação, o que para mim foi de suma importância. Neste momento foi plantada a semente que me levou à escolha do meu curso universitário. Nas aulas em que praticávamos o teatro com a professora, o nosso potencial criativo era posto totalmente em prática.

Rememoro que nos exercícios e jogos improvisacionais experenciados em sala, a professora Débora Landim buscava estimular a criação no uso do fazer coletivo, no qual todos os participantes eram atuantes. Dentro daquele processo era muito interessante, poder exercer o nosso papel como seres autônomos, inclusive porque, nas nossas conversas,durante as aulas,podíamos manifestar livremente os nossos sentimentos e pensamentos, explorando a liberdade e a capacidade argumentativa.Esse incentivo à expressão de nossas ideias, sem medo dos julgamentos, colaborou significativamente para a melhorada minha autoconfiança e para o desenvolvimento de minha criatividade. Hoje, vejo que a professora em sua educação sensível estava nos “ensinando a ser”.

“[...] na proposta metodológica o processo criativo não poderia ser apenas coadjuvante ou degrau para se chegar ao final da obra, mas sim, um momento de criação e descoberta individual e coletiva, de estimulo do imaginário” (LANDIM, 2012, p.77).

Muitos estudiosos referem-se às artes como desencadeadores de habilidades, atitudes e valores necessários à educação plena dos indivíduos, sublinhando o prazer como uns de seus elementos fundamentais como podemos verificar nesta afirmação abaixo:
A educação deve ser vista como um processo global, progressivo e permanente, que necessita de diversas formas de estudos para seu aperfeiçoamento, pois em qualquer meio sempre haverá diferenças individuais, diversidade das condições ambientais que são originários dos alunos e que necessitam de um tratamento diferenciado. Neste sentido deve-se desencadear atividades que contribuam para o desenvolvimento da inteligência e pensamento crítico do educando, como exemplo: práticas ligadas à música e a dança, pois a música torna-se uma fonte para transformar o ato de aprender em atitude prazerosa no cotidiano do professor e do aluno (ONGARO; SILVA; ROCCI, 2006, p.20).
O teatro desenvolvido pela artista educadora Débora Landim, como de outras educadoras do Centro de Artes Hora da Criança, era uma conjunção de várias atividades, e linguagens artísticas, integrando elementos de dança, música e artes visuais, sempre com a preocupação de estarmos todos envolvidos em uma atmosfera de alegria e companheirismo.

A criança era respeitada em sua condição essencial que é a de brincar, pois quando jogamos no teatro, estamos brincando e desenvolvendo a nossa capacidade natural. O Brincar está relacionado à espontaneidade e à liberdade. Experenciando a liberdade nos arriscamos no desconhecido, e no prazer da descoberta de nós mesmos e do mundo ao nosso redor, aprendemos a conhecer, a fazer, a conviver e a ser, ou seja, ao exercitar a nossa complexidade como seres humanos nos desenvolvemos de forma plena. Essa complexidade está relacionada à transformação.

Acredito no teatro como instrumento de transformação, possível de aprimorar a nossa capacidade crítica, criativa e sensível, auxiliando significativamente no nosso crescimento como ser humano. Desde modo, comungo com os pensamentos da professora Maria Eugênia Milet, quando afirma que:

O teatro, como toda a experiência artística, é um processo de transformação, portanto, de educação, educação para sensibilidade - educação estética, que faz a vida tomar outros sentidos. Nessa Educação para a sensibilidade-educação estética, que faz a vida tomar outros sentidos. Nessa Educação para arriscar é preciso prazer(DOURADO; MILET, 1998, p.18).


Trabalhávamos em paralelo, a todas as práticas artísticas dentro da escola, os elementos experenciados nas aulas, relevantes para a nossa aula aberta3, que aconteciam em dois períodos do ano letivo.

Todos os professores elaboravam uma experiência artística com cada turma, evidenciando um tema específico, era um processo gradativo e elaborado durante os períodos das aulas. Os professores nos direcionavam a trabalhar com o tema pré-selecionado por eles e a partir dele construíamos a nossa aula aberta. Era o momento mais esperado para mostrar aos pais o resultado do nosso trabalho. Sentíamos naquele momento uma importância de evidenciar o nosso potencial criativo, tudo era organizado detalhadamente para que na aula as práticas diárias a serem apresentadas se mostrassem de maneira leve e natural. A presença dos pais era um elemento importantíssimo para nós e a platéia exercia um significado relevante para a nossa auto-estima.

Para Spolin (2000, p.11) “Cada técnica aprendida pelo ator, cada cortina, e plataforma do palco, cada análise feita cuidadosamente pelo diretor, cada cena coordenada é para o deleite da platéia”. A presença da platéia abarcava um valor imprescindível para o nosso senso de responsabilidade e compartilhamento de experiência.

Além de todos os trabalhos que construímos para as aulas abertas, no Centro de Artes Hora da Criança participei também da montagem da peça “A Fabulosa Opereta do Príncipe Monetinho”, texto escrito pelo professor Adroaldo Ribeiro Costa, em 1954, remontada em 2006/2007, na qual fui a rainha, um papel bastante significativo, pois carregava a responsabilidade de ser um dos elementos mais representativos dentro da cena.

Este trabalho ficou não apenas em cartaz durante um período dentro do teatro do centro, como também fomos convidados para nos apresentar na cidade de Santo Amaro da Purificação-BA em homenagem à matriarca da família Veloso, Dona Canô.

Acredito que esse trabalho de difusão do Teatro realizado pelo Centro de Artes Hora da Criança foi e é extremamente relevante não apenas pela matéria, mas também para a auto-estima das crianças, inclusive a minha, pois nos sentimos importantes no desempenho de um papel na sociedade. O Centro de Artes Hora da Criança me deu um lugar de rainha, o que para mim, representava vivenciar um lugar de poder, visibilidade, sentia que ao representar a rainha me tornava um indivíduo importante e que dentro daquele universo ser importante significava ser vista.



Figura 8 – Espetáculo “A Fabulosa Opereta Príncipe Monetinho” - 2007


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).
Foi um momento de afirmação importante na história da minha vida, uma experiência de fortalecimento na minha formação enquanto aprendiz e futura arte-educadora. Esta experiência tornou-se a base para a construção e maior conscientização dos meus valores éticos e morais. Na medida em que fui aprendendo a lidar com as situações desafiadoras da vida fui aprendendo na experiência com os outros a conviver com as diferenças, de forma que pudesse conhecer contribuir e melhorar a mim mesma, além minha relação interpessoal com o mundo e com o fazer teatral.

Em diálogo a respeito da importância do Centro de Artes Hora da Criança, amigas e ex-integrantes do centro afirmam que: Mônica Silva (2017)–“A Hora da Criança me proporcionou muitas coisas maravilhosas para a minha vida, foi aqui que conheci amigos que estão comigo até hoje, temos uma amizade muito forte, aqui eu aprendi o teatro que eu levo até hoje para a minha vida, em relação ao me dar bem com as pessoas, o teatro me ajudou muito a me relacionar com as pessoas”. E para Natália de Melo (2017) – “A Hora da Criança é uma escola de artes maravilhosa, onde fiz grandes descobertas. Primeiramente me encantei pela aula de dança, depois veio o teatro, uma nova paixão na época! Aprendi a tocar flauta e na aula de artes plásticas fiz minha primeira escultura. Além das aulas fiz amigos que levo comigo até hoje, amigos esses que nunca irei esquecer... minha família HC. Só quem teve a sorte de estudar nessa escola, sabe a importância que ela teve em nossas vidas”.



Eu me sentia acolhida junto à turma e àquele espaço, acreditava fielmente que os vínculos de amizade construídos no percurso vivido no Centro de Artes Hora da Criança permaneceriam durante toda a vida, e hoje, constato que não estava errada, pois, após mais de dez anos de amizade pude perceber que o fruto gerado por meio dessa experiência tão significativa agregou ao meu caminho uma descoberta para o amadurecimento pessoal, permitindo desenvolver meu potencial criativo e cognitivo dentro desse processo coletivo; Além de ter como presente de vida a criação de mais um laço de família.

Figura 9 – Amigos do Centro de Artes Hora da Criança


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

Neste contexto, percebo a importância do meu envolvimento na condição de educanda no Centro de Artes Hora da Criança. Este caminho possibilitou meu encontro com o teatro, e me preparou para ingressar na Escola de Teatro da UFBA.

2.2 NOVAS DESCOBERTAS

Após esse trajeto encantante no Centro de Artes Hora da Criança, destacarei meus aprendizados na universidade. Minha história com a Escola de Teatro da UFBA iniciou-se no ano de 2011, quando me inscrevi para prestar o vestibular e cursar Bacharelado em Interpretação Teatral. Na época, fazer bacharelado significava meu maior sonho e estava ligado achegar à Rede Globo de Televisão e me tornar atriz.

Consegui fazer a prova escrita e passar na prova de habilidade específica, porém, não consegui aprovação nas outras provas, mas, não permiti que a tristeza me desestimulasse. Dei início então à busca pela Licenciatura, que representava para mim, a capacidade viva de fazer e transmitir o teatro como instrumento educativo. Vivi dentro da universidade a procura da potência transformadora que o teatro desenvolve para a contribuição plena do ser humano.

No curso tive a oportunidade de ampliar os meus conhecimentos históricos e críticos sobre o teatro de animação com a professora Sônia Rangel e discutir a transposição pedagógica de toda a experiência dentro da universidade e nas situações de aprendizagem no cotidiano educacional. Pude também conhecer, a partir das referências abordadas pela professora Maria Eugenia Viveiros Milet, pensadores que pensam a educação e o teatro, e a partir deles, e como um professor de teatro pode construir domínios fundamentais para a sua prática estando sempre em processo de transformação, dando significação a minha aprendizagem e à importância de uma educação contínua. Dentre esses autores está Paulo Freire (2011, p.45). Que me trouxe a reflexão que direciona as nossas capacidades de aprender:

“[...] ação livre, criadora que determina as condições de existência é o desenvolvimento de consciência, capaz de apreender criticamente a realidade em contraposição a educação bancáriaque vemos prevalecer, onde as crianças são estimuladas a memorizar conteúdos, e não a conhecê-lo, já que não realizam nenhum ato cognitivo do objeto de conhecimento, além do caráter verbal, dissertativo e/ou narrativo.
Com a professora Maria Eugênia eu também pude associar os conteúdos teóricos às atividades artísticas em sala de aula que nos prepararam, como estudantes licenciandos, para os Estágios, quando em contato com crianças e adolescentes de comunidades e escolas públicas, aprenderíamos a ser artistas educadores.

2.2.1 Jogos e Improvisação

Uma das experiências importantes na vivência teatral na universidade foi a Mostra do I Semestre de Jogos e Improvisação, ministrada pela professora Maria Eugênia Milet. Nesta disciplina tínhamos como embasamento o estudo da teoria e a prática das diversas técnicas de improvisação e jogos teatrais utilizados nos exercícios em sala, que visavam a livre criação de textos e personagens no fazer coletivo, além de trazer o estudo de um repertório diversificado dos conhecimentos e fundamentos do teatro.

Recordo-me que essa experiência foi muito válida como início de processo para o estudo da Educação Teatral. Criamos nos nossos processos diários um forte vínculo de amizade. A professora Maria Eugênia nos proporcionava liberdade contínua no fazer o teatro em sala e éramos incentivados a trazer o nosso diário de bordo para a sala de aula e expormos as nossas dificuldades e o que aprendíamos coletivamente nessa experiência.



O diário de bordo foi um instrumento muito significativo para mim, e acredito que para todos os colegas, pois utilizávamos este elemento como possibilidade de revermos o nosso papel enquanto futuros educadores


Figura 16 – Mostra Jogos e Improvisação 1º semestre
Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).
A mostra cênica foi muito relevante para toda a turma, pois estávamos todos dando início ao trabalho e à experiência com a licenciatura e queríamos mostrar um belo resultado nessa primeira etapa. A turma era composta por alunos de diferentes culturas, idades e lugares do Brasil. Lembro-me de Ingrid que vinha do Rio de Janeiro com seu sotaque carioca e a sua vontade de estar junto a nós nessa empreitada, ela dizia se sentir orgulhosa de estar fazendo parte daquele grupo tão bonito e de tantos saberes, sentia-se feliz por estar em uma universidade de referência no país. Estas palavras trago comigo até hoje, pois elas simbolizam a importância de também fazer parte desse processo.

Trabalhamos o seguinte texto de Eduardo Galeando, do livro “Os Nascimentos”:


O Falar

O Pai primeiro dos guaranis ergueu-se na escuridão,

iluminado pelos reflexos de seu próprio coração,

e criou as chamas e tênue neblina.

Criou o amor, e não tinha a quem dá-lo.

Criou afala, mas não havia quem o escutasse.

Então encomendou às divindades que construíssem o mundo

e que se encarregasse do fogo, na névoa, da chuva e do vento.

E entregou-lhes a música e as palavras do hino sagrado,

para que dessem vida às mulheres e aos homens.

Assim o amor fez-se comunhão, e a fala ganhou vida

e o Pai Primeiro redimiu sua solidão.

Ele acompanha os homens e as mulheres que caminham e cantam:
Já estamos pisando esta terra,
Já estamos pisando essa terra reluzente.

(Trecho do livro: Os Nascimentos de Eduardo Galeano, 1996, p.33).

Exploramos o nosso potencial criativo e desenvolvemos o nosso experenciar em comunhão, trouxemos o texto para a cena e dialogamos com a proposta de trabalharmos a natureza como meio norteador, trazendo os elementos da água, do fogo, da terra e do ar.

Abordamos também nesse mesmo processo, a questão da poluição, levando como proposta reflexiva o lugar do homem nesse mundo e de como se estabelece a sua relação com o mesmo, partindo das referências discutidas em sala, a partir das leituras propostas pela professora. Discutimos textos que abordavam a condição da educação no Brasil, dialogamos e discutimos textos de autores como Flavio Desgranges, Paulo Freire, Edgar Morin, conceitos ligadas a criatividade com a autora Fayga Ostrower, Viola Spolin, Lydia Hortélio, referencia sobre o teatro e de como a se trabalhar o fazer teatral dentro da sala de aula.

Todas essas leituras e discussões em sala se tornaram elementos importantes para a nossa aprendizagem e entendimento, poder considerar que o teatro é um instrumento de formação do sujeito, é um instrumento não apenas ligado ao entretenimento me fez entender o papel importante que estávamos construindo como educadores. Compreendia que aprender a ocupar esse lugar é muito mais do que exercer uma profissão, é uma missão, um dos mais importantes ofícios dos quais depende o futuro de uma nação, essa percepção me estimulou a permanecer nesse caminho.

Apresentamos a Mostra para os nossos convidados e para os alunos do 3º semestre. Recordo-me que após a apresentação, os licenciandos do 3º semestre se sentiram emocionados com a nossa força e determinação em cena, eles abordaram como era encantadora essa primeira fase na Escola, e como era importante aquela apresentação de chegada, também para quem estava se formando. Hoje percebo esse final de curso que os nossos primeiros passos me trouxeram até aqui; essa longa caminhada foi desafiadora e precisei de força e determinação como colocadas pelos alunos que assistiram à nossa primeira Mostra.




Figura 17 – Mostra Jogos e Improvisação 1º semestre II
Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

2.2.2 Aprendendo com as Dificuldades


O meu primeiro contato enquanto futura professora e pesquisadora, em uma a sala de aula, ocorreu através do estágio correspondente ao quarto semestre. A experiência foi promovida por meio da disciplina Didática e Práxis Pedagógica II, com uma carga horária de 68h, ministrada pelo professor Cláudio Cajaíba. Um dos objetivos da disciplina era promover a vivência em um ambiente escolar em que pudéssemos exercitar a nossa prática enquanto estudantes de teatro e futuros educadores. O espaço escolhido para essa prática de ensino e aprendizagem foi a Escola da Rede Municipal de Ensino Zulmira Torres. Situada, no beco da cultura, no bairro Nordeste de Amaralina, um bairro com alto índices de violência. Encaramos essa condição específica desta comunidade como uma oportunidade única de estreitar através das artes o diálogo da escola com a comunidade.

Trabalhamos em trio, juntamente comigo, estavam os colegas estagiários Filemon Cafezeiro e Jamile Cruz. Observamos que, durante as aulas, os educandos se comportavam com falta de atenção e violência. Percebemos que tinham muita energia e pouca concentração para as atividades propostas. Como as tentativas de jogos levados para a sala no primeiro encontro não surtiram resultados, resolvemos desenvolver um trabalho voltado para a concentração, utilizando como meio o corpo e a energia expressiva dos educandos.



O trabalho inicial tinha o objetivo maior de aprimorar o poder de concentração, a confiança mútua, a cumplicidade e a disciplina. Infelizmente por conta da diferença do calendário da rede municipal de ensino, com o calendário acadêmico, realizamos apenas quatro encontros, o que não foi suficiente para montarmos um trabalho de finalização de processo.


Figura 10 – Prática na escola
Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

Tentamos buscar diferentes meios para solucionar os problemas, a agitação, as risadas, as manifestações de falta de interesse, as inseguranças, as críticas, tentando compreender aos poucos o processo de aprendizagem individual. Acredito que a dispersão e o pouco interesse dos educandos podia ser também fruto das constantes mudanças dos docentes e de sua pouca permanência.

Dentre as minhas observações a respeito desta experiência, destaco que a partir deste momento pude perceber que era preciso desenvolver a capacidade de ver a mim mesma em ação, distanciar-me do meu ponto de vista, compreender os interesses e pontos de vista dos alunos e orientá-los da melhor forma possível.

Nesta experiência pude perceber de perto as necessidades e as deficiências que o ensino básico possui na realidade. A falta de estrutura, a má recepção da disciplina arte, tanto pela parte dos alunos quanto quantos por alguns profissionais dentro da própria escola. A maior dificuldade encontrada dentro dessa experiência foi poder articular junto à escola o interesse dos alunos a participarem da disciplina com os estagiários. Poder elaborar nesse pouco tempo com os alunos aulas que estimulassem o interesse pela prática teatral foi desafiador, pois os mesmos não demonstravam interesse e essas quatro aulas que tivemos contato com os alunos não foram suficientes para aprimorar o gosto pela prática

Esses fatores associados ao elemento da violência dentro dessa estrutura social em que vivemos traz um desafio enorme para os educadores. Estas dificuldades foram úteis, pois me fizeram refletir sobre a nossa realidade social e sobre o meu papel como futura artista-educadora.

2.2.3 Uma Experiência pela Nossa História de Afirmação Étnico-Cultural

Outra experiência relevante para mim, no papel de Arte-Educadora, foi a bolsa do Programa de Iniciação à Docência (PIBID), durante o ano letivo de 2015, no Colégio Estadual Álvaro Augusto da Silva Calmon, localizado no bairro do IAPI, sob a supervisão do professor de teatro, Tássio Ferreira Machado. Nesta experiência ministrei a disciplina de Artes para a turma do 8° ano, no período matutino.

Dentre as propostas do planejamento pedagógico do professor Tássio Ferreira, estava a montagem de uma cena a ser apresentada ao final do ano letivo no festival de Teatro promovido pela escola. O meu trabalho estava relacionado à Lei 10.639/03, que regulamenta o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas públicas e particulares em todos os níveis de ensino.

Nas aulas que ministrei tive abertura para propor atividades que dialogassem com o lugar questionador do aluno. O objetivo era explorar com os discentes o senso crítico, estimulando desenvolvimento artístico e criativo,criando relação de suas histórias pessoais com histórias afro-brasileiras.

Nesse trajeto como estagiária, pude elaborar elementos para que pudessem investigar de forma prática as principais reflexões sobre nossa história que contribuíram significativamente para a construção do lugar reflexivo e do lugar de pertencimento enquanto cidadãos. O processo de reconhecer e valorizar as nossas identidades contribuiu no fazer presente da participação ativa e questionadora dos estudantes. Diante dessas possíveis reflexões e questionamentos durante essa prática, alimentei dentro de mim, essa busca pelo meu próprio crescimento.

Motivada pelas sugestões do Professor Tássio Ferreira, construí relações nesse espaço que me levaram a explicitar questionamentos, conflitos, incertezas, angústias, convicções e ideias que incrementaram meu aprendizado enquanto docente, proporcionando a construção da experiência cooperativa em sala de aula.

Desenvolvemos durante as aulas questionamentos a respeito da importância da nossa identidade, como forma de valorizar nossa cultura e nossas raízes. Eles trouxeram elementos da música, que é um elemento importante de pertencimento.

Nas aulas a turma escolheu trabalhar com a música “Sou Negão” do grupo de pagode Fantasmão, da Bahia, que aborda a valorização do ser negro. Nas aulas discutimos sobre a música sobre importância da letra na vida individual de cada um, o que representava aquela letra para eles. Dialogamos sobre a importância e valorização pessoal de ser negro, e os alunos trouxeram exemplos pessoais de vida, falaram sobre a discriminação que sofrem por também por viverem em bairros que são considerados como inferiores, trouxerem a violência como um elemento forte dentro das comunidades em que vivem, e de como está ligada a cor da pele. Então, partir dessas discussões propus em sala elaborar em dois grupos uma pequena cena em que os alunos (a partir das reflexões e a letra da música) pudessem expressar na prática teatral o que a música trazia de mensagem.

Cada grupo mostrou a sua cena, e o que ficou evidenciado grupos foi o fato de viverem dentro de uma favela, e a dificuldade de conseguirem um e serem abordados de forma violenta, por serem pertencentes àquela comunidade.



Senti que como educadora levar temas que dialogassem com a realidade dos alunos e fazê-los refletir sobre a importância do nosso lugar como cidadãos, pertencentes a uma cidade historicamente negra, com valores, identidade e lutas, colaborou para o entendimento e valorização de suas identidades. Falar sobre a nossa força, permanente luta e conscientização dos nossos deveres e direitos como cidadão negro (a), só veio fortalecer nossa consciência de pertencimento.

Figura 11 – Turma 8º ano Escola Álvaro SilvaFigura 12 – Turma 8º ano no processo criativo


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).

2.2.4Coletivo Pretas Flor

O “Coletivo Pretas Flor” foi construído ao longo da minha trajetória acadêmica, foi um trabalho importantíssimo enquanto estudante negra na Escola de Teatro. Surgiu da união de três mulheres negras, Natalyne Santos, Francislene Salys e eu, que desde os primeiros semestres nos unimos para conseguir trazer discussões a respeito do nosso papel enquanto mulheres, atrizes e educadoras negras, tendo como objetivo maior procurar meios de se fazer existir gerando laços para nos apropriar da nossa história, criando dentro daquele espaço a nossa identidade.

Juntas, unimos forças para a criação deste coletivo que tinha por finalidade encontrar formas de nos inserirmos como mulheres negras dentro da estrutura do ensino de Teatro moldadas com princípios que não nos representam em relação a nossa identidade. Nas oportunidades que eram criadas sempre que possível, desenvolvíamos nossos trabalhos acadêmicos coletivamente.



Uma das disciplinas que marcou a nossa trajetória foi a Criação Coletiva de Texto, ministrada pelo professor João Sanches no 5º semestre, onde deveríamos elaborar como resultado parcial para o componente a criação de um texto dramático coletivo e apresentá-lo na mostra final do semestre. Nossa obra intitulou-se como “Enquadro Negro”.

Figura 13 – Ensaio “Enquadro Negro”


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).
Na cena, procuramos enfatizar os percalços e a rejeição sofridos pelas atrizes negras que buscam seu lugar dentro mercado de trabalho. Utilizamos como recurso os anúncios de divulgação ofertados por algumas agências de moda, que em sua maioria só contemplavam mulheres brancas. Essas divulgações geralmente desconsideram a mulher e atriz negra no momento de elaboração de anúncios, vetando continuamente possibilidades de nós, termos lugar e realizarmos os testes. Essa questão nos inspirou a criar a cena, porque além de mulheres negras, batalhadoras e educadoras, também somos artistas. E por já termos passado, muitas vezes por situações semelhantes a estas, queríamos definir nosso lugar.

A partir dessa união e após essa primeira apresentação dentro da escola de teatro, permanecemos com vigor e determinadas a continuar a dialogar com outros públicos, buscando fazer refletir sobre o lugar de perecimento da mulher negra, o lugar de mulheres atrizes que buscam o seu lugar no mercado de trabalho.

Foi então que surgiu a oportunidade de apresentarmos nossa criação na escola em que atuava como bolsista Pibid, na escola Estadual Álvaro Augusto Silva, como planejamento pedagógico do dia Nacional da Consciência Negra, no ano de 2015 no pátio da escola. Neste dia foi surpreendente ver o interesse de todos os alunos e a concentração. No diálogo após a apresentação com o público, discutimos e refletimos sobre a importância da luta constante das mulheres. Os alunos abordaram sobre os assédios que as mulheres sofrem nas ruas, e como buscar trabalho é difícil para as mulheres negras, onde a maioria só consegue emprego como doméstica, em função do racismo existente no Brasil.

Poder levar a cenas Enquadro Negro e poder dialogar com os alunos a respeito do empedramento da mulher negra e do lugar que merecemos estar foi agregador para o nosso trabalho como artistas educadoras, pois fortaleceu a nossa vontade de continuarmos na luta, e mostramos a nosso objetivo de fazer refletir sobre o nosso lugar e o nosso poder feminino.




Figura 14 – Cena “Enquadro Negro” Figura 15 – Coletivo Pretas Flor


Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017). Fonte: Arquivo pessoal da autora (2017).



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