Escola de teatro licenciatura em teatro



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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE TEATRO
LICENCIATURA EM TEATRO

DÉBORA PATRÍCIA SILVA DOS SANTOS

APRENDERBRINCANDO: Trajetórias para uma educação sensível na Hora da Criança

SALVADOR

2017

DÉBORA PATRÍCIA SILVA DOS SANTOS

APRENDERBRINCANDO: Trajetórias para uma educação sensível na Hora da Criança

Trabalho de Conclusão submetido ao curso de graduação em Licenciatura em Teatro, da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção de grau de Licenciatura em Teatro.

Orientadora: Profª. Ms. Maria Eugênia Viveiros Milet.

SALVADOR

2017

DÉBORA PATRÍCIA SILVA DOS SANTOS

APRENDERBRINCANDO: Trajetórias para uma educação sensível na Hora da Criança

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia – UFBA, como requisito para obtenção do título de Licenciado em Teatro, sob a orientação da Professora Ms. Maria Eugênia Viveiros Milet.



Dedico este trabalho ao meu padrinho Vitório Leo Agostinho Toniolo, um grande mestre que me ensinou o valor do sorriso, ao seu coração iluminado pelas graças de Deus e pelo amor ao próximo que enche o seu espírito de leveza e um carinho paternal.E ao meu grandioso pai, José Jorge Gonçalves dos Santos, um homem em forma de amor.

Amo-os eternamente.

É no brincar, e somente no brincar que o indivíduo, criança ou o adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu.

(Winnicott)

SANTOS, Débora Patrícia Silva. APRENDER BRINCANDO: Trajetórias para uma educação sensível na Hora da Criança. 55f. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Escola de Teatro, Universidade Federal da Bahia.



RESUMO

Este Trabalho de Conclusão de Curso tem por objetivo geral, compreender a experiência do teatro que desenvolvi como professora-diretora junto às crianças - alunos e alunas do Centro de Artes da Hora da Criança, durante o Estágio Supervisionado, integrante do componente curricular Didática e Práxis do Ensino de Teatro II, do curso de Licenciatura - destacando meus próprios aprendizados e descobertas, como aluna, desta mesma instituição e também como estudante da Escola de Teatro da UFBA. O Trabalho entrecruza memórias, afetos e metodologias de teatro, trazendo para o centro da narrativa, os sonhos de meninos e meninas da cidade de Salvador-BA e as possibilidades da manutenção e desenvolvimento de propostas de educação sensível em espaços públicos, a partir de abordagens e pedagogias de teatro improvisacional, que valorizam o direito das crianças de brincar, criar, opinar e conviver, inventando suas próprias histórias.


Palavras Chaves: Teatro; Memória; Criação.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES


Figura 01 -Os sete saberes de Morin.............................................................................

12

Figura 02 –Folder da escola..........................................................................................

14

Figura 03 -Prof. Adoraldo Ribeiro Costa.....................................................................

14

Figura 04 – Educação integral........................................................................................

17

Figura 05 - Brincando com a Imaginação......................................................................

20

Figura 06 - Exercitando a criatividade com amigas e vizinhas.....................................

21

Figura 07 - Experimentando a dança..............................................................................

22

Figura 08 - Espetáculo “A Fabulosa Opereta Príncipe Monetinho” – 2007..................

26

Figura 09 - Amigos do Centro de Artes Hora da Criança..............................................

27

Figura 10 - Prática na escola..........................................................................................

30

Figura 11 - Turma 8º ano Escola Álvaro Silva...............................................................

31

Figura 12 - Turma 8º ano no processo criativo..............................................................

31

Figura 13 - Ensaio “Enquadro Negro”...........................................................................

32

Figura 14 - Cena “Enquadro Negro”..............................................................................

33

Figura 15 - Coletivo Pretas Flor.....................................................................................

33

Figura 16 - Mostra Jogos e Improvisação 1º semestre...................................................

34

Figura 17 - Mostra Jogos e Improvisação 1º semestre II...............................................

35

Figura 18 - Capa do livro utilizado para a apresentação................................................

38

Figura 19 - Exercício de improvisação coletiva – Jogo do Quem, acrescentando o Onde e O quê...................................................................................................................

44

Figura 20 - Ensaio: Percepção espacial dentro do espaço teatral (palco italiano).........

46

Figura 21 - De partida para a apresentação da Tribo Sol...............................................

47

Figura 22 - Apresentação da Peça – Tribo Sol...............................................................


49


SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO.........................................................................................................

08







1 EDUCAÇÃO SENSÍVEL E A EXPERIÊNCIA DO TEATRO..............................

11

1.1 UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO SENSÍVEL: CENTRO DE ARTES HORA DA CRIANÇA..........................................................................................................

13







2 TRAJETÓRIA DE UMA ARTE-EDUCADORA.....................................................

19

2.1OS PRIMEIROS PASSOS................................................................................

19

2.2NOVAS DESCOBERTAS.................................................................................

28

2.2.1 Jogos e improvisação...............................................................................................

29

2.2.2 Aprendendo com as dificuldades ..........................................................................

31

2.2.3 Uma experiência pela nossa história de afirmação étnico-cultural.........................

33

2.2.4 Coletivo Pretas Flor.................................................................................................

35







3 TRIBO DO SOL: A HORA DA CRIANÇA..................................................................

38

3.1 BASES TEÓRICAS E POÉTICAS PARA A EXPERIÊNCIA CRIATIVA.......

37

3.2 O PROCESSO CRATIVO......................................................................................

39

3.3 A CENA, A TRIBO E O SOL...............................................................................

47







4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................................

52







REFERÊNCIAS................................................................................................................

54









APRESENTAÇÃO

O teatro nos possibilita criar uma experiência com o nosso crescimento pessoal, auxiliando no nosso processo na relação com o aprender a viver o coletivo. Leva-nos a refletir e a questionarmos sobre a nossa complexidade como seres humanos viventes no Planeta Terra e capazes de nos relacionar uns com os outros e com o meio que nos cerca.

E neste cenário o ensino por meio do teatro e da expressão corporal permite que se estabeleça na criança um vínculo, um laço com os ensinamentos transmitidos, obtendo-se uma educação mais sensível ao educando e sua complexidade. O brincar é próprio da criança e, na medida em que propicia estados lúdicos pode ser utilizado como ferramenta legítima de ensino, proporcionando meio eficaz de desenvolvimento integral do ser, estimulando suas múltiplas capacidades.

Portanto, se o processo de aprendizagem infantil é mais eficaz através da ação cabe ao educador buscar meios e alternativos, criativos e lúdicos que auxiliem a criança no caminho para aprender e fazendo o uso da linguagem teatral, a criança aprende a desenvolver suas capacidades cognitivas, a se relacionar com o outro e o mundo além de construir sua percepção diante dos desafios apresentados pela vida.



O processo pedagógico está marcado pela interação individual-coletivo, a análise das práticas cotidianas indica que um mesmo processo coletivo pode dar margem a diferentes procedimentos individuais, marcados pela singularidade das experiências (ESTEBAN, 2003, p. 129-130 apud ONGARO; SILVA, RICCI, 2003, p.45).

Nas vivências adquiridas no percorrer das atividades estabelecidas durante todo esse trajeto, o teatro e a infância sempre foram temas que se tornaram cada vez mais instintivos na busca pessoal do meu conhecimento. Acredito que o papel importante que essa experiência abarcou para minha vida, abriu portas para um novo conhecimento, agregando valores e gerando outras possibilidades de ensinar e aprender mutuamente.

Diante dessa necessidade de auxiliar a criança a se desenvolver plenamente utilizando-se do teatro, chega-se à pergunta que vem nortear este estudo: De que forma o ensino do teatro contribui na construção de uma educação sensível no Centro de Artes Hora da Criança?

Como objetivo geral, podemos destacar: Analisar como o ensino do teatro contribui para a construção de uma educação sensível através da experiência no Centro de Artes Hora da Criança.

Assim, os objetivos específicos formulados foram:

Descrever características de uma educação sensível e a necessidade do experenciar para o alcance de uma educação integral.

Demonstrar a história do Centro de Artes Hora da Criança, mostrando sua importância para a irradiação de uma proposta de educação sensível.

Descrever a experiência da autora como educanda e como educadora no Centro de Artes Hora da Criança, avaliando os pontos positivos e as dificuldades superadas em sua trajetória.

Quando a educação formal se utiliza do teatro, com seus jogos teatrais e suas expressões corporais, torna-se mais fácil o caminho do desenvolvimento pleno do ser, na medida em que fornece suporte para sua trajetória social e emocional, proporcionando novas experiências que contribuam para o seu crescimento e a sua formação saudável como indivíduo.

Acredito que a inclusão do ensino das artes, e em especial a do teatro nas escolas, proporciona aos educandos o aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e por fim, aprender a ser, levando em consideração a prática de uma educação sensível que aceite os erros e ilusões que fazem parte do processo, as diferenças através da compreensão e do diálogo, e que não aceite verdades absolutas e que pregue a ética em suas relações com eles mesmos, com a sociedade e com a espécie humana.

A contribuição do teatro, com ênfase nos jogos, o que inclui a expressão corporal como recurso didático, proporciona à criança uma experiência de liberdade e transformação que envolve cultivo de valores, sentimentos e emoções, tais como: respeito, justiça, ética, inclusão, gentileza, amor, retidão de ações, de relações entre o indivíduo e o coletivo.

Essa pesquisa é de caráter descritivo e qualitativo baseada no relato da minha experiência individual enquanto docente no Centro de Artes Hora da Criança, experiência esta que foi muito importante para o meu aprendizado enquanto aluna, pesquisadora e futura educadora.

Este estudo se divide basicamente em três partes: na primeira são descritas informações sobre a educação sensível a partir do pensamento do filósofo Edgard Morin, trazendo como exemplo o Centro de Artes Hora da Criança, partindo das ideias de seu precursor e idealizador, com os seus objetivos no processo de educar através da arte, incluindo a minha experiência como educanda. Na terceira, descrevo minha experiência como artista-educadora em escolas públicas, como estagiária do Curso de Licenciatura da UFBA, na mesma instituição que me acolheu tempos atrás, o Centro de Artes Hora da Criança. Por fim, são realizadas as considerações finais e elencadas as referências de todos os autores que me auxiliaram a confeccionar este trabalho.



1 EDUCAÇÃO SENSÍVEL E A EXPERIÊNCIA DO TEATRO

Neste capítulo traremos a ideia e possibilidade de uma Educação Sensível através do teatro, a partir das reflexões de Edgard Morin que nos propõe uma reforma na educação a partir de nossa responsabilidade de mantermos a vida no planeta.

Em seus trabalhos, o filósofo aponta a educação como eixo principal para “enfrentar a incerteza” que impera nesta era civilizacional, nos alertando que a redução da educação à instrução, centrada na transmissão de conteúdos fragmentados e descontextualizados, e que iguala o conhecimento ao acúmulo de informações, não é suficiente à complexidade de nossa época, fato que reduz a nossa capacidade como seres humanos. A proposição do filósofo se baseia na necessidade de proporcionar aos educandos o desenvolvimento do pensamento complexo. Vejamos:

[...] o desafio da globalidade é também um desafio de complexidade. Existe complexidade, de fato, quando os componentes que constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) são inseparáveis e existe um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre as partes e o todo, o todo e as partes. Ora, os desenvolvimentos próprios de nosso século e de nossa era planetária nos confrontam, inevitavelmente e com mais e mais frequência, com os desafios da complexidade (MORIN, 2003, p.14).


Em minha experiência como educadora pude presenciar como os componentes descritos por Morin (2003) nos mostram como indivíduos tão complexos. Em algumas atitudes das crianças era difícil reconhecer sua causa que poderia estar na questão econômica, sociológica, psicológica, afetiva e até mesmo mitológica.

Partindo desta ideia, Morin (2000), defende que a ciência e a educação devam ser multifocalizadas e polidimensionais, por meio do trabalho paralelo às abordagens e aos entendimentos de outras áreas, a fim de proporcionar o desenvolvimento da cooperação, da policompetência e da troca. Para o filósofo (2000), o ensino atual precisa “ensinar a viver”, muito mais do que apenas servir para reproduzir conteúdos. Este “ensinar a viver”, com bases na condição humana, deve ser interiorizado pelo sujeito, possibilitando sua orientação, capacitação e auto-organização a fim de que ele se perceba como agente influenciador e influenciado pela vida.

Neste sentido, compreendo que diante do contexto atual de sociedade, a educação precisaria ser vivenciada de forma plena. Percebo que seria necessário criar uma relação paralela aos outros conteúdos aprendidos na relação cotidiana com o nosso próprio saber, apropriando e se relacionando com todos esses saberes adquiridos,assim, aprendemos de modo natural a agregar e a influenciar nosso cotidiano.

A dupla função da educação consistiria, portanto, em articular necessidades básicas de formação e competência profissional/técnica com atitudes metaprofissionais e metatécnicas sintonizadas com a natureza, a cultura e o cosmo. Essa postura esbarra sempre na cretinização, uma forma virótica de contaminação que investe na fragmentação e disciplinarização institucionais, fundadas em modelos de conhecimento deterministas e causais, que nada têm a ver com as indeterminações que marcam a ebulição científica contemporânea (CARVALHO, 2003, p.69 apud CELORIO, 2012, p.9-10).



Segundo Morin (2000, p.19-20), o ensino complexo deve compreender sete saberes: “Considerar erros e ilusões constantes nas concepções– os erros e ilusões são parte natural do processo; Considerar o conhecimento pertinente –necessidade de contextualizar o global, o multidimensional e o complexo, levando-se em consideração questões multidisciplinares; Reaprender a nossa própria condição humana – o indivíduo é um ser multidimensional, formado por aspectos físicos, culturais, naturais, psíquicos, sociais, históricos, míticos e imaginários, capaz de ser situado no universo;Reconhecer nossa identidade terrena – a ideia da identidade terrena está ligada à sustentabilidade do planeta Terra; Enfrentar as incertezas constantes no conhecimento científico – o conhecimento científico nunca é um produtor de certezas absolutas (princípio da incerteza); Ensinar a compreensão por meio do diálogo e do entendimento – a comunicação humana deve ser voltada para a compreensão; Discutir e exercitar a ética do gênero humano – a antropoética deve ser ensinada nas instituições de ensino, com o objetivo de religar o indivíduo, a sociedade e a espécie”.


Figura 01 – Os sete saberes de Morin

Fonte: Google (2017).
Compreendemos que a arte é de suma importância para a reorganização do modelo pedagógico vigente em direção à reforma do pensamento, à complexidade necessária que implica na valorização da dimensão afetiva, poética e cognitiva dos educandos.

Morin (2003, p.20) diz que: “A reforma do ensino deve levar à reforma do pensamento, e a reforma do pensamento deve levar à reforma do ensino”. Existem experiências de educação pública inovadora através das artes, em nossa cidade, que são referências para outras localidades, que vão ao encontro dessa proposição de Edgard Morin e têm contribuído com a mudança de nossa forma de ver e agir no mundo, e conseqüentemente, com a diminuição das violências e desigualdades. Dentre elas, podemos destacar a Escola Parque1 e o Centro de Artes Hora da Criança, a partir do engajamento de seus criadores, e de seus artistas educadores.

Entendo que a arte em geral em sua plenitude de possibilidades, viabiliza o conhecimento de nós mesmos quando aprendemos e dialogamos com as incertezas e com erros nesse caminho ao encontro do nosso eu. No papel de educanda, percebo que nessa importante condição humana de aprendiz, ao reformularmos o nosso pensamento, a nossa educação passar a ser vista e vivida de maneira concreta e agregadora, nos possibilita criar formas mais eficazes e prazerosas no fazer e no educar, colabora com o nosso senso de responsabilidade, potencializando as nossas capacidades cognitivas e criativas na relação pessoal e social com a natureza e o mundo.

1.1 UM EXEMPLO DE EDUCAÇÃO SENSÍVEL: CENTRO DE ARTES HORA DA CRIANÇA


A Hora da Criança foi criada originalmente como programa da rádio Sociedade pelo Professor Adroaldo Ribeiro Costa que percebeu o poder da arte-educação e seu benefício sobre os jovens desinibindo-os, dando-lhes mais segurança e desenvoltura. Contudo, a escola foi fundada fisicamente em 25 de julho de 1943 (HORA DA CRIANÇA, 2017).

Prof. Adroaldo Costa compreendia que a construção do conhecimento não poderia estar desvinculada dos elementos da vida pessoal, social e cultural do indivíduo, para ele o aprendizado advinha das pontes construídas entre o cotidiano e o que se aprendia nas aulas. O olhar interdisciplinar do Professor era percebido na sua maneira de pensar o educador como o ser que dialoga com mundo, gerando assim uma autonomia para levar para as crianças o poder de pensar o mundo como um todo, nos fazendo refletir sobre os vários aspectos da vida (HORA DA CRIANÇA, 2017).





Figura 02 – Folder da EscolaFigura 03 – Prof. Adoraldo Ribeiro Costa

Fonte: A Hora da Criança (2017).Fonte: A Hora da Criança (2017).



As crianças da escola apresentaram-se teatralmente pela primeira vez em 1947, com a "Opereta Narizinho" inspirada no livro "A menina do narizinho arrebitado" de Monteiro Lobato, com a co-autoria musical do maestro Agenor Gomes, co-fundador da escola. Foi era a primeira vez no Brasil que se encenava uma peça teatral com elenco infantil. Ao todo foram 120 crianças no palco, contando com a presença de Monteiro Lobato, que muito incentivou o Prof. Adroaldo Costa nessa empreitada.Outra grande realização da Hora da Criança foi o jornalzinho A Tarde Infantil, que por vários anos circulou semanalmente.
Após a morte do Prof. Adroaldo Costa, em 1984, a Escola Hora da Criança continuou com o trabalho educativo mantido pelos profissionais da Instituição, funcionando em sede provisória. Vivenciou um período de muita dificuldade, até que, reconhecendo a importância de sua proposta educativa, a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, através do Serviço de Assistência ao Educando, Gerência de Ações Sócio-Educativas, iniciou em 1992 um projeto envolvendo Unidades Escolares, do bairro do Rio Vermelho, intitulado "Crescendo com a Arte" (HORA DA CRIANÇA, 2017, p.01).
A Hora da Criança desenvolveu suas atividades utilizando uma técnica própria que transforma os risos do teatro infantil em inquestionáveis fatores positivos de educação (HORA DA CRIANÇA, 2017).

Na Hora da Criança se incentiva a integração entre as linguagens artísticas do teatro, dança, música e artes plásticas, tendo como resultado dos conhecimentos aplicados em sala de aula uma mostra cênica. Nessa proposta metodológica o processo criativo não poderia ser apenas coadjuvante ou degrau para se chegar ao final da obra, mas sim um momento de criação e descoberta individual e coletiva, de estímulo do imaginário (LANDIM, 2012, p.77).

Em 1994, o Centro de Artes Hora da Criança funciona em prédio próprio construído pelo Governo do Estado com convênio específico por tempo indeterminado, o que garantiu o total uso da Instituição. Hoje, com convênio também com a Prefeitura de Salvador-BA, o Centro de Artes Hora da Criança, continua no trabalho constante de inclusão social por meio do teatro, música, dança e das artes visuais. O professor Adroaldo deu o nome ao maior e mais importante centro artístico de Salvador, o Teatro Castro Alves em homenagem ao poeta baiano Castro Alves.

Neste ano de 2017, comemora-se o centenário do nascimento do Prof. Adroaldo Costa, e essa seguinte nota foi retirada do Jornal A Tarde:

Foi encenada uma peça formada pelos ex-integrantes do centro. Além da peça, a programação do centenário contou com uma missa e com a apresentação de um vídeo durante o torneio BA xVI, pois além de torcedor fervoroso do Esporte Clube Bahia, Prof. Adroaldo Costa também compôs o hino do time (JORNAL A TARDE, 2017, p.01).

O Centro de Arte Hora da Criança, foi a instituição que inspirou a proposta de educação integral, defendida por Dewey e acolhida por Anísio Teixeira, e motivou posteriormente a criação do Teatro Castro Alves.

Anísio Teixeira (1900-1971) foi o pioneiro na implantação de escolas públicas de todos os níveis, que tinham o objetivo de oferecer educação gratuita para todos. Como teórico da educação, Anísio Teixeira concordava com as ideias de John Dewey (1852-1952).

Para Dewey (1959, p.159 apud Cavaliere, 2002, p.258)“a educação era uma constante reconstrução da experiência”. Foi esse pragmatismo que motivou Anísio Teixeira a atuar também como filósofo da educação. Anísio Teixeira considerava a verdade não como algo definitivo, mas que se busca continuamente. 

Para melhor entendimento de seu pensamento Dewey (1959, p.164 apud Cavaliere, 2002, p.259), define “experiência” como sendo a própria vida, não existindo separação entre ela e natureza. A experiência seria um modo de existência da natureza. No âmbito da vida humana, a experiência gera modificações de comportamento, ou seja, proporciona aprendizagens mais ou menos conscientes, que modificam as experiências subseqüentes. Em outras palavras, experiências ensejam mudanças que são transformações mútuas nos elementos que agem uns sobre os outros. Por isso, o autor considera que experiência é aprendizagem, é transformação, é um modo de existência, não sendo possível dissociar tais elementos (DEWEY, 1959, p.165 apud Cavaliere, 2002, p.260).

A experiência nos direciona a vivenciar momentos de transformações. Dialogar com essa experiência é se transformar e aprender diariamente. Relacionar-se com esse aprendizado em sala de aula associa-se nas minhas percepções enquanto educadora, na compreensão e troca contínua do saber e aprender mutuamente, levando em consideração nesse trajeto de vida as mudanças para o nosso crescimento.

A vida humana é uma repleta de experiências e, portanto, de aprendizagens variadas. Contudo, para Dewey (1959, p.165 apud Cavaliere, 2002, p.260), há vários tipos de experiência. A conexão entre a sua fase ativa, ou seja, a fase em que ela é tentativa, e a fase passiva, em que ela sofre alguma coisa, é o que dará a medida de seu valor.

O valor da experiência reside na percepção das relações ou continuidades a que nos conduz, enfim, nas possibilidades que abre para o pensamento. E as experiências que levam ao pensamento são as mais significativas para a vida humana (DEWEY, 1959, p.165 apud Cavaliere, 2002, p.261). Percebi por minha prática em sala de aula que a experiência do teatro dentro das escolas leva todos os envolvidos para essa abertura de pensamento, tanto os educadores quanto os educandos.

Dewey (1959, p.167 apud Cavaliere, 2002, p.263), propõe transformar a escola em uma “micro-sociedade”, sugerindo uma prática escolar onde as experiências sejam reais, com fins em si mesmas, e não apenas “preparatórias”; onde as relações interpessoais se estabeleçam em diversos níveis e os aprendizados científicos e para as vidas pública e privada aconteçam de maneira integrada.

Acredito que a prática do teatro na escola contribui para essa visão de Dewey, pois através dos jogos teatrais e da encenação, projetamos experiências do nosso cotidiano e essa “micro-sociedade” nos auxilia a entender melhor nosso ambiente que nos cerca.

Segundo Dewey (1959, p.167 apud Cavaliere, 2002, p.263), a aprendizagem é sempre indireta e se dá através de um meio social. No caso da escola, um meio social intencionalmente preparado, simplificado e purificado.



Essa noção da aprendizagem através do meio, o que significa através de vivências e não da transmissão direta e meramente formal de conhecimentos, é uma das características típicas das diversas concepções de educação integral que tem por objetivo maior o desenvolvimento pleno do indivíduo, devidamente preparado para relacionar-se com si mesmo e com o outro.

Para Teixeira (1994), o mundo em transformação requer instituições que preparem um novo tipo de homem consciente e resoluto de seus próprios problemas acompanhando a tríplice revolução da vida atual: intelectual, pelo incremento das ciências; industrial, pela tecnologia; e social, pela democracia.

Figura 04 – Educação integral



Fonte: Google (2017).
Segundo Teixeira (1994), as novas responsabilidades da escola eram, portanto, educar ao invés de apenas instruir; formar homens livres em detrimento de homens dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência, mais tolerância e mais felicidade.

Conforme o autor supracitado não se aprende apenas ideias ou fatos, mas também: atitudes, ideais e senso crítico - desde que a escola disponha de condições para exercitá-los.

Assim, uma criança só pode praticar o respeito em uma escola onde haja condições reais para desenvolver o sentimento pelo outro e por si mesmo. A nova psicologia da aprendizagem obriga a escola a se transformar num local onde se vive e se convive. Como não aprendemos tudo o que praticamos, e sim aquilo que nos dá satisfação, o interesse do aluno deve orientar o que ele vai aprender. Portanto, é preciso que ele escolha suas atividades (TEIXEIRA, 1994). 

Por tudo isso, na escola progressiva as matérias escolares - Matemática, Ciências, Artes etc. - são trabalhadas dentro de uma atividade escolhida e projetada pelos alunos, fornecendo a eles formas de desenvolver sua personalidade no meio em que vivem. Nesse tipo de escola, estudo é o esforço para resolver um problema ou executar um projeto, e ensinar é guiar o aluno em uma atividade (TEIXEIRA, 1994). 

Quanto à disciplina, Teixeira (1968), afirmava que o homem educado é aquele que sabe ir e vir com segurança, pensar com clareza, querer com firmeza e agir com tenacidade. Numa escola democrática, mestres e alunos devem trabalhar em liberdade, desenvolvendo a confiança mútua, e o professor deve incentivar o aluno a pensar e julgar por si mesmo. "Estamos passando de uma civilização baseada em uma autoridade externa para uma baseada na autoridade interna de cada um de nós", diz ele em seu livro Pequena Introdução à Filosofia da Educação. 

Em minhas experiências nos Estágios supervisionados percebi na prática a necessidade dos educadores estimularem seus educandos a pensarem e julgarem por si mesmos, ou seja, tornarem-se autônomos em suas opiniões e ideias a respeito de quem são e do mundo que os cerca.

De acordo com Teixeira (1968), para ser eficiente, a escola pública para todos deve ser de tempo integral para professores e alunos, como a Escola Parque por ele fundada em 1950 em Salvador, que mais tarde inspiraria os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPS) do Rio de Janeiro e as demais propostas de escolas de tempo integral que se sucederam.

Essas escolas cuidariam desde a higiene e saúde da criança até sua preparação para a cidadania, essa escola é apontada como solução para a educação primária. Além de integral, pública, laica e obrigatória, ela deveria ser também municipalizada, para atender aos interesses de cada comunidade. O ensino público deveria ser articulado numa rede até a universidade. Anísio propôs ainda a criação de fundos financeiros para a Educação, mas, infelizmente, mesmo com o atual Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), os recursos são insuficientes para sustentar esse modelo de escola.

Integrando ideias de educação integral, educação sensível, e dos quatro pilares para a Educação do século XXI proposto no relatório da UNESCO (aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser), Débora Landim (2012) nos conta sua trajetória de teatro junto às crianças e adolescentes na Hora da Criança, no Teatro Vila Velha e de sua Companhia de Teatro Novos Novos.

Neste percurso fica evidente que a prática das artes e em especial do Teatro na Educação contribui de forma maciça para o desenvolvimento pleno do ser que é o objetivo maior da educação sensível pelos parâmetros do pensamento complexo:

Na companhia esse aprender se traduz como ato/efeito inerente à capacidade de sonhar, de criar, de estar no percurso, de poder arriscar e riscar novos caminhos, de aventurar-se pelas trilhas que levam ao conhecimento. Como toda experiência artística, esse fazer teatro com e para as crianças, adolescentes e jovens é um processo de transformação, portanto de educação para a sensibilidade – de uma educação estética, que faz a vida tomar outros sentidos, percorrer outros caminhos (LANDIM, 2012, p.154).

 

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