Erich maria remarque



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Encontro05.08.2020
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Já conheço o acampamento nas landes. Aqui, Himmelstoss educou Tjaden; mas agora não
conheço mais ninguém, tudo mudou, como sempre. Só alguns dos homens eu já vira antes, de
passagem.
Faço o meu serviço mecanicamente. À noite, estou quase sempre no Lar do Soldado, onde há
revistas que não leio; no entanto, há um piano que gosto muito de tocar. O atendimento é feito por
duas mulheres: uma é muito jovem.
O acampamento é cercado de altas redes de arame farpado. Se voltamos muito tarde do Lar do
Soldado, temos de apresentar um passe, mas é claro que quem faz camaradagem com o sentinela
também consegue passar.
Entre tufos de zimbros e bosques de bétulas, todos os dias fazemos exercícios de companhia. É
suportável, quando não se é exigente. Corremos, atiramo-nos no chão, e a nossa respiração faz a
grama e as flores ondularem. A areia clara, vista de tão perto, é limpa como se fosse de laboratório,
feita de milhares de grãos minúsculos. Dá uma estranha vontade de cavar e nela enterrar as mãos.
Mas o mais belo são os bosques, com suas fileiras de bétulas. A todo instante, mudam de cor.
Agora, os galhos polidos resplandecem, e, como seda, flutua entre eles o verde das folhas como se
fossem pintadas a pastel. Momentos depois, tudo se transforma em um azul opalescente, que se
propaga a partir da orla da floresta e faz esmaecer o verde; mas já em alguns lugares a escuridão é
quase total, quando uma nuvem cobre o sol. E esta sombra corre como um fantasma por entre os
troncos já com seus contornos difusos até transpor todo o terreno e mergulhar no horizonte. Então, as
bétulas destacam-se como alegres estandartes, tingidos pelo brilho vermelho-ouro da folhagem de
outono.
Perco-me, muitas vezes, neste jogo de luzes delicadas e sombras transparentes, tão distraído que
quase não ouço as vozes de comando; quando se está só, começa-se a contemplar e amar a Natureza.
E não tenho muitas amizades aqui; aliás, não faço muita questão delas. Conhecemo-nos muito pouco
para fazer outra coisa senão conversar, à noite, jogar cartas ou damas.
Ao lado do nosso alojamento, fica o grande Campo de Prisioneiros dos Russos. Como separação,
instalaram redes de arame, mas, apesar disto, os presos conseguem chegar até nós. Parecem muito
tímidos e medrosos, embora quase todos sejam muito altos e tenham longas barbas — parecem cães
são-bernardo, temerosos e acuados. Rondam nossas barracas, revistando as latas de lixo. Pode-se
bem imaginar o que encontram lá! A comida, além de não ser boa, já é escassa para nós: há nabos
cortados em seis pedaços e cozidos em água, cenouras com a terra e tudo; batatas mofadas são
deliciosas iguarias, e o luxo maior é uma sopa rala de arroz, onde devem nadar nervos de carne de
vaca, mas que estão cortados em pedaços tão pequenos que não os encontramos. Apesar disso, é
claro que se come tudo. Quando, na verdade, há alguém tão rico que não precise raspar o prato, já se
apresentam dez outros prontos para ajudá-lo a livrar-se dos restos.
Apenas as sobras que a colher não alcança são despejadas nas latas de lixo.
Às vezes, juntam-se a elas algumas cascas de nabo, crostas de pão mofadas e sujeira de toda a
espécie.
E este ralo, sujo e miserável lixo é o objetivo dos prisioneiros. Eles o retiram avidamente,
colocando-o em latas fedorentas, que levam escondidas debaixo das camisas.
É estranho ver esses nossos inimigos tão de perto. Têm rostos que nos fazem refletir: são rostos
bonachões de bons camponeses, testas largas, narizes largos, lábios grossos, mãos grandes e cabelos
crespos. É gente para arar a terra e ceifar e colher maçãs. Têm um ar ainda mais inofensivo que os

nossos camponeses da Frigia.
É triste ver seus movimentos e o modo como mendigam um pouco de comida. Estão todos um
tanto enfraquecidos, porque recebem apenas o indispensável para não morrerem de fome. Há muito
tempo que nós mesmos não recebemos o bastante para nos satisfazermos. Eles têm disenteria, seus
olhares são medrosos, alguns mostram furtivamente as fraldas da camisa ensanguentadas.
Suas costas, suas nucas estão recurvadas, os joelhos dobram-se; olham obliquamente de baixo
para cima, quando estendem a mão para mendigar, agradecendo com as poucas palavras que sabem
de alemão — mendigam com as vozes suaves, baixas e musicais, que evocam as lareiras quentes e os
quartos aconchegantes de casa.
Há homens que lhes dão pontapés até caírem no chão; mas estes são uma minoria. A maior parte
dos nossos deixa-os em paz.
É bem verdade que, às vezes, ao vê-los se humilharem tanto, a gente fica com raiva e distribui
alguns pontapés... Se ao menos eles não nos olhassem desta maneira — quanta miséria cabe nestes
dois pontinhos negros, nestes olhos que apenas um polegar conseguiria cobrir!
À noite, vêm até os alojamentos e procuram fazer barganhas. Trocam tudo que têm por pão. Às
vezes, são bem-sucedidos, porque suas botas são de muito boa qualidade, ao passo que as nossas
nada valem. O couro de suas botas de cano longo é macio como a camurça. Nós, os filhos de
camponeses que recebem as comidas gostosas de casa, podemo-nos dar ao luxo de fazer negócio: o
preço de um par de botas é de mais ou menos dois ou três pães, ou um pão e uma salsicha defumada.
Mas quase todos os russos já se desfizeram há muito tempo daquilo que tinham. Vestem apenas
roupas miseráveis e tentam trocar pequenos entalhes e objetos que fizeram de estilhaços de granadas
e pedaços de cobre das anilhas.
Estes objetos, naturalmente, não rendem muito, mesmo que lhes tenham custado muito trabalho-
conseguem, no máximo, algumas fatias de pão. Nossos camponeses são teimosos e espertos quando
pechincham. Seguram o pedaço de pão ou a salsicha durante muito tempo sob o nariz dos russos, até
que empalideçam de desejo e os olhos se revirem; então, nada mais importa para eles.
Quanto aos prisioneiros, embrulham com toda a cerimônia aquilo que conquistaram, tiram seus
grossos canivetes e, como num rito, cortam lentamente uma fatia de pão para si mesmos; para cada
bocado, oferecem a si próprios um pedaço de boa salsicha como recompensa. É irritante vê-los
comer assim; dá vontade de dar-lhes boas pancadas nas grandes cabeças. Raramente nos dão alguma
coisa. É bem verdade que quase não nos conhecemos.
 
Fico frequentemente de sentinela, vigiando os russos. Na escuridão, veem-se os seus vultos se
moverem como cegonhas doentes, como enormes pássaros.
Aproximam-se da rede, na qual encostam os rostos, com os dedos agarrados às malhas. Muitas
vezes, comprimem-se uns contra os outros, respirando o vento que vem das flores.
Falam pouco, e quando o fazem é só para dizer algumas palavras. São mais humanos, e, segundo
me parece, mais fraternais entre si, do que nós. Mas talvez seja apenas porque se sentem mais
infelizes. De qualquer forma, para eles, a guerra terminou. É claro que esperar pela disenteria
também não é vida.
 
Os milicianos das tropas territoriais que os vigiam contam que, no princípio, eram muito mais
animados. Como sempre acontece, tinham relações entre si, e dizem que, às vezes, atracavam-se com
murros e facadas. Agora, já estão todos apáticos e indiferentes, a maioria nem se masturba mais, tão
fracos se acham, embora, às vezes, as coisas fiquem tão sérias, que todos na barraca o façam em

conjunto.
Ficam de pé, junto à rede; às vezes, um deles sai, cambaleando, e logo outro ocupa o seu lugar. A
maioria fica em silêncio; ocasionalmente, um ou outro mendiga uma ponta de cigarro.
Observo seus vultos sombrios, com as barbas flutuando ao vento. Nada sei sobre eles, só que são
prisioneiros, e é exatamente isto que me impressiona. Suas vidas são anônimas e sem culpa; se
soubesse algo mais a seu respeito, como se chamam, como vivem, o que esperam, o que os
atormenta, talvez o meu sentimento tivesse um objetivo concreto e pudesse tranformar-se em
compaixão.
Mas, agora, vejo por trás deles apenas a dor anônima da criatura humana, a terrível melancolia
da vida e a falta de piedade dos homens.
Uma voz de comando fez destes vultos silenciosos nossos inimigos; uma outra ordem poderia
convertê-los em amigos. Em alguma mesa, é assinado um documento, por pessoas que nenhum de nós
conhece, e então, durante anos, o nosso objetivo supremo é aquilo que, em tempos normais, é objeto
da abominação universal e da mais enérgica reprovação. Mas quem ainda consegue fazer esta
distinção, vendo estes seres silenciosos, com seus rostos infantis e suas barbas de apóstolos? Todo
cabo é um inimigo pior para o recruta, todo professor é um inimigo pior para o estudante do que eles
para nós. E apesar disso atiraríamos neles novamente e eles em nós, se estivessem livres.
Fico assustado, não posso continuar a pensar assim. É um caminho que leva ao abismo. Ainda é
cedo para isto, mas não quero perder estes pensamentos, quero guardá-los, conservá-los com
cuidado, para quando a guerra terminar. Meu coração palpita: este é o objetivo, o grande e único
objetivo em que pensei nas trincheiras, aquele que busquei como razão de ser depois desta catástrofe
que desabou sobre toda a humanidade. É uma missão que fará a vida futura digna destes anos de
horror.
Tiro meus cigarros, parto cada um deles em dois pedaços e dou-os aos russos. Eles inclinam-se e
os acendem. Agora ardem pequenos pontos vermelhos em alguns rostos. Consolam-me; parecem
pequenas janelas brilhando nas escuras aldeias, indicando que, por trás delas, há quartos cheios de
paz.
 
Os dias passam. Numa manhã de neblina, mais um russo é enterrado.
Morrem, agora, quase todos os dias. Estou de sentinela quando vão enterrá-lo. Os prisioneiros
cantam um hino religioso, as várias vozes lembram um órgão, ao longe, na charneca: é como se mal
fossem vozes.
O enterro é rápido.
À noite, lá estão de novo, junto à rede, e o vento chega até eles da floresta de bétulas. As estrelas
estão frias. Conheço, agora, alguns dos russos que falam razoavelmente o alemão. Um deles é
músico: conta-me que era violinista em Berlim. Quando eu lhe digo que toco um pouco de piano, vai
buscar seu violino e começa a tocar. Os outros sentam-se e encostam-se na rede. Ele toca de pé; às
vezes, tem a expressão perdida dos violinistas, quando fecham os olhos; depois, balança o
instrumento ao ritmo da música e sorri para mim.
Talvez toque canções populares, porque os outros o acompanham a meia-voz. São como colinas
escuras, que parecem vibrar com uma profundidade subterrânea. O violino domina-os como uma
moça delgada, e é claro e solitário.
As vozes param e apenas o violino continua: tem um som agudo que se prolonga na noite, como
se estivesse arrepiado de frio. A gente tem de se aproximar para ouvir; seria melhor, certamente,
numa sala. Aqui, ao ar livre, fica-se triste, diante deste som vago e solitário.

 
Não tenho direito à folga no domingo, porque ainda há pouco estive de licença. Por isso, no
último domingo antes da partida, meu pai e minha irmã mais velha vêm me visitar. Passamos o dia
todo sentados no Lar do Soldado. Para onde deveríamos ir, já que não queremos, de modo algum,
ficar na barraca? Por volta de meio-dia, vamos dar uma volta.
As horas são como uma tortura, não sabemos o que dizer. Por isso, falamos da doença de minha
mãe. Agora, os médicos têm certeza de que é câncer. Ela já está no hospital e, em breve, será
operada. Os médicos têm esperanças de curá-la, mas nunca ouvimos dizer que o câncer tenha cura.
— Onde está ela? — pergunto.
— No Hospital Santa Luísa — responde meu pai.
— Em que classe?
— Na terceira. Temos de esperar para saber quanto custa a operação. Foi ela própria quem quis
ficar na terceira. Disse que lá teria um pouco de distração.
Além disso, é mais barato.
— Mas, assim, ela fica com muitas pessoas na enfermaria... Se ao menos conseguisse dormir à
noite!
Meu pai balança a cabeça. Está abatido, com o rosto cheio de rugas. Minha mãe já esteve doente
muitas vezes; é bem verdade que só ia para o hospital quando era forçada a isso: no entanto, custou-
nos muito dinheiro, e a vida de meu pai, a bem dizer, foi sacrificada por esse motivo.
— Se ao menos soubéssemos quanto custa a operação — diz ele.
— Vocês não perguntaram?
— Não posso perguntar diretamente ao médico: ele poderia ficar melindrado, e, afinal, é ele
quem vai operar mamãe.
Sim, penso amargurado, assim somos nós, assim são os pobres. Não se atrevem a perguntar o
preço, mas preocupam-se terrivelmente com isto; no entanto, os outros, para quem esse detalhe não é
importante, acham muito natural combinar previamente o preço. E, nestes casos, o médico nunca se
melindra.
— Os curativos depois da operação também são muito caros — diz meu pai.
— Mas o Fundo para Invalidez não paga uma parte? — pergunto.
— Mamãe já está doente há muito tempo para isto.
— Vocês têm algum dinheiro?
Ele sacode a cabeça.
— Não. Mas posso fazer horas extraordinárias.
Já sei: ele ficará de pé junto a sua mesa até a meia-noite, dobrando, colando e cortando. Às oito
horas da noite, comerá um pouco dessas coisas sem substância que se obtêm com cartões de
racionamento. Em seguida, tomará algo contra sua dor de cabeça e continuará a trabalhar. Para
distraí-lo um pouco, conto-lhe algumas histórias que, por acaso, me vêm à mente: piadas sobre
soldados, anedotas sobre generais e sargentos.
Depois, acompanho-os até a estação. Dão-me um vidro de geleia e um embrulho com bolinhos de
batata, que minha mãe ainda preparou para mim.
Então eles partem e eu volto para o acampamento.
À noite, passo a geleia nos bolinhos e como alguns. Mas não têm para mim o mesmo sabor, e
então saio para dá-los aos russos. Logo me lembro de que foi minha própria mãe quem os fritou e que
talvez estivesse sentindo dores enquanto cozinhava. Ponho o embrulho novamente na mochila e levo
apenas dois bolinhos para os russos.

9
Viajamos durante alguns dias. No céu, aparecem os primeiros aviões.
Cruzamos com trens de carga. Canhões e mais canhões. Tomamos o trem militar.
Procuro meu regimento. Ninguém sabe ao certo onde está. Passo a noite em um lugar qualquer; de
manhã recebo alimento e umas vagas instruções. Assim, ponho-me a caminho novamente com
mochila e fuzil.
Quando chego, não há mais nenhum dos nossos na aldeia destruída pelo bombardeio. Ouço dizer
que nos transformamos em uma das divisões volantes, que são mandadas para os lugares onde houver
mais perigo. Isso não é muito alentador. Falam-me das grandes perdas que tivemos e procuro Kat e
Albert.
Ninguém sabe nada a seu respeito.
Continuo a busca, vagando de um lado para o outro, é uma estranha sensação. Mais uma noite, e
depois outra: acampo como um índio. Então, finalmente, consigo uma informação precisa e, à tarde,
apresento-me na secretaria da minha Companhia.
O sargento-mor me detém lá. A Companhia volta à retaguarda daqui a dois dias, e não vale mais
a pena mandar-me para a frente.
— Que tal a licença? — pergunta ele. — Tudo bem?
— Mais ou menos — digo.
— Sim, sim — suspira. — Se não fosse preciso voltar! Isto sempre estraga a segunda metade da
licença.
Fico sem fazer nada, até a manhã em que a Companhia chega, cinzenta, imunda, cansada e triste.
Então dou um salto e precipito-me para eles, procuro com os olhos, lá está Tjaden, lá está Müller, e
lá estão também Kat e Kropp.
Arrumamos nossos colchões de palha um ao lado do outro. Ao olhar para eles, sinto-me culpado,
e, no entanto, não há motivo para isto. Antes de dormirmos, tiro o resto dos bolinhos de batata e da
geleia, para que eles recebam a sua parte.
Os dois bolinhos da extremidade estão um pouco mofados, mas ainda se pode comê-los. Eu os
pego para mim e dou os mais frescos para Kat e Kropp.
Kat mastiga e pergunta:
— Foi a sua mãe quem fez?
Respondo afirmativamente com a cabeça.
— Bom — diz ele -, isto se vê logo pelo gosto.
Sinto vontade de chorar. Não me reconheço mais.
Mas tudo vai melhorar, agora que encontrei Kat, Albert e os outros. Meu lugar é aqui.
— Você teve sorte — murmurou Kropp, antes de adormecer. — Dizem que vamos para a Rússia.
Para a Rússia?! Mas lá não chega a haver guerra.
Ao longe, a frente troveja. As paredes da barraca estremecem.
Faz-se uma limpeza em regra no equipamento. Uma inspeção sucede à outra. Revistas e mais
revistas. Troca-se tudo que está rasgado por coisas em bom estado. Consigo uma túnica nova e
irrepreensivelmente limpa, e é claro que Kat arranja um uniforme completo. Surge o boato de que foi
assinada a paz, mas há uma outra corrente mais verossímil... vamos ser mandados para a Rússia.
Mas por que precisaríamos de coisas novas na Rússia? Até que, finalmente, a notícia infiltra-se
até nós: o Kaiser vem fazer uma inspeção. Eis a origem de todos os preparativos.
Durante oito dias, parece que estamos num quartel de recrutas, tantos são os trabalhos e

exercícios. Todos estão nervosos e mal-humorados, pois esse exagero na limpeza e, sobretudo, as
paradas nos exasperam; são estas coisas que desgostam o soldado mais do que as trincheiras.
Por fim, chegou o momento. Ficamos imóveis, em posição de sentido, e o Kaiser surge. Estamos
curiosos para saber que aspecto tem. Na verdade, fico um tanto desapontado: pelos retratos, eu o
imaginava mais alto, e mais imponente e com uma voz mais ressonante.
Distribui medalhas e dirige-se a um ou outro.
Em seguida, retiramo-nos, marchando.
Depois, começamos a conversar. Tjaden diz, admirado: — Então, este é o mandachuva?! E,
diante dele, todos são obrigados a ficar em posição de sentido! — Pondera: — Então, até mesmo
Hindenburg tem de ficar em posição de sentido diante dele, não é?
— É claro — confirma Kat.
Tjaden ainda não terminou. Pensa durante algum tempo e depois pergunta: — Um rei também tem
de ficar em posição de sentido em frente a um imperador?
Ninguém sabe ao certo, mas achamos que não. Ambos têm cargos tão importantes que, neste caso,
não deve ser exigida uma verdadeira posição de sentido.
— Você só inventa besteiras! — diz Kat. — O importante é que você mesmo fique em posição de
sentido.
Mas Tjaden está totalmente fascinado. Sua imaginação, geralmente tão árida, lança-se em altos
voos:
— Veja só — declara -, simplesmente não consigo entender que um imperador tenha de ir à
privada exatamente como eu.
— Não tenha a menor dúvida de que é a verdade — diz Kropp, rindo. ―
Pode botar a mão no fogo que sim.
— Você é mesmo um imbecil — completa Kat. — Tem alguns parafusos a menos nessa cabeça,
Tjaden; vá logo à latrina, para esclarecer as ideias, e não fique aí falando como um bebê de fraldas.
Tjaden desaparece.
— Mas uma coisa eu gostaria de saber — diz Albert.
— Teria havido guerra, se o Kaiser se tivesse oposto? — Acredito que sim — afirma. — Dizem
que ele, na verdade, não a desejava.
— Bem, talvez ele sozinho não fosse suficiente, mas bastaria que umas vinte ou trinta pessoas no
mundo tivessem dito “não”.
— É provável — admito -, mas eram justamente essas pessoas que queriam a guerra.
— Pensando bem, é curioso — continua Kropp. -Estamos aqui para defender a nossa pátria. Mas
os franceses também estão aqui para defender a deles. Quem tem razão?
— Talvez ambos estejam certos — digo, sem muita convicção.
— Sim — prossegue Albert, e vejo que ele quer me envolver -, mas nossos professores,
sacerdotes e jornais dizem que só nós temos razão, e espero que seja verdade; mas os professores,
sacerdotes e jornais franceses afirmam que a razão está do lado deles. Como é possível?
— Não sei — digo. — De qualquer maneira, o certo é que há guerra e que cada vez mais países
aderem a ela.
Tjaden reaparece. Continua agitado e mete-se imediatamente na conversa, perguntando como
começa na realidade uma guerra.
— Geralmente, é assim: um país ofende gravemente o outro — responde Albert, com um certo ar
de superioridade.
Mas Tjaden faz-se de bobo e finge não compreender.

— Um país? Não entendo isso. Uma montanha na Alemanha não pode ofender uma montanha na
França. Nem um rio, nem uma floresta, nem um campo de trigo.
— Você é mesmo tão ignorante, ou está só fingindo? — pergunta Kropp, irritado. — Não quis
dizer isto. Um povo insulta o outro...
— Então, não tenho nada a fazer aqui — responde Tjaden -, porque não me sinto ofendido!
— Bem, deixe que lhe diga uma coisa — declara Albert, com agressividade ―, isto não se
aplica a você, seu caipira.
— Mas, então, eu posso ir logo para casa! — replica Tjaden.
Todos começam a rir.
— Mas que burrice! Ele está se referindo ao povo em conjunto, isto é, ao Estado — grita Müller.
— Estado, Estado — diz Tjaden, estalando os dedos. — Polícia, impostos... é isto que vocês
chamam de Estado. Se se interessam por este Estado... podem ficar com ele, e bom proveito.
— Concordo — diz Kat. — É a primeira vez que diz alguma coisa certa, Tjaden; Estado não é
pátria... há, na verdade, uma diferença entre eles.
— No entanto, estão ligados — observa Kropp. — Não pode haver pátria sem Estado.
— É verdade, mas pense um pouco; somos quase todos gente do povo. E, na França, a maioria
das pessoas também é gente do povo: operários, trabalhadores e pequenos empregados. Por que,
então, deveria um serralheiro ou um sapateiro francês nos agredir? Não, são só os governos. Antes
de vir para a guerra, nunca tinha visto um francês; e deve ter ocorrido o mesmo com a maioria dos
franceses em relação a nós. Pediram a sua opinião tanto quanto a nossa.
— Mas, então, para que serve a guerra? — indaga Tjaden.
Kat dá de ombros.
— Deve haver gente que tira proveito dela.
— Bem, eu não faço parte deles — ri Tjaden, irônico.
— Nem você, nem nenhum de nós aqui.
— Então, quem se beneficia com ela? — insiste Tjaden. — O Kaiser também não lucra com a
guerra. Na realidade, ele já tem tudo que deseja.
— Não diga isto — replica Kat. — Até agora, ele não teve uma guerra. E
todo imperador, para ser grande, precisa de pelo menos uma guerra, senão não fica famoso. Dê
uma olhada nos seus livros de escola.
— E os generais também ficam célebres com as guerras — acrescenta Detering.
— Ainda mais famosos do que os imperadores — confirma Kat.
— Certamente, há outras pessoas por trás da guerra, que com ela querem lucrar — resmunga
Detering.
— Acho que é uma espécie de febre — diz Albert. — Ninguém a quer, na verdade, e, de repente,
lá está ela. Nós não a desejávamos; os outros afirmam a mesma coisa e, no entanto, meio mundo está
metido na guerra.
— Mas, do outro lado, mentem mais do que nós — replico. — Lembrem-se dos panfletos que
encontramos entre os prisioneiros, afirmando que comíamos as crianças belgas. Os patifes que
escrevem estas coisas deveriam ser enforcados. Estes é que são os verdadeiros culpados!
Müller levanta-se: — De qualquer maneira, é melhor que a guerra seja aqui do que na Alemanha.
Olhem só esses campos devastados!
— Está certo — afirma Tjaden -, mas melhor ainda seria não haver guerra nenhuma.
Afasta-se orgulhoso, pois, desta vez, nos deu uma lição. Sua opinião, na verdade, é típica, e nós a
encontramos a todo momento, mas nada se pode fazer contra ela, porque os que a emitem não

compreendem muitos outros fatos e causas. O sentimento nacionalista do simples soldado resume-se
no fato de estar na linha de frente, e mais nada. O resto ele julga do ponto de vista prático e segundo
sua própria mentalidade.
Albert estende-se na grama.
— O melhor é não falar deste maldito negócio.
— É claro, pois não vai adiantar nada — confirma Kat. Quanto aos nossos presentes
inesperados, temos de devolver quase todas as roupas novas e, em troca, receber nossos velhos
trapos. Tudo era só para a inspeção.
Em vez de partir para a Rússia, voltamos para a frente de batalha. No caminho, atravessamos um
bosque devastado, com troncos quebrados e o solo revolvido. Em alguns lugares, há enormes
crateras.
— Mas, que diabo, acertaram em cheio por aqui — digo a Kat.
— Minas — responde e aponta para cima.
Dos galhos, pendem mortos. Um soldado nu parece dobrado sobre a forquilha de um galho; ainda
conserva o capacete na cabeça; do resto, está inteiramente despido. Apenas uma metade do corpo, o
tronco, está lá em cima: faltam as pernas.
— Que teria acontecido? — pergunto.
— Este foi arrancado da roupa — murmura Tjaden.
Kat observa: — É estranho, já vimos isto algumas vezes. Quando uma destas minas apanha
alguém, é como se realmente lhe arrancassem a roupa. É resultado da pressão do ar.
Continuo a procurar. De fato, é verdade o que ele diz. Aqui e lá estão pendurados apenas
farrapos de uniformes; mais adiante, colou-se uma massa sangrenta, que já foram membros humanos.
Vemos um corpo estendido com uma só perna, enrolada num pedaço de ceroula, tendo, à volta do
pescoço, o colarinho da túnica. Está nu, a farda espalhada pela árvore. Faltam-lhe os dois braços, é
como se tivessem sido desatarraxados. Descubro um deles, que foi cair a uns vinte metros do corpo,
no meio do mato.
O morto está de bruços. Lá, onde há as feridas dos braços, a terra está preta de sangue. Sob os
pés, a grama está esmagada, como se o homem tivesse ainda esperneado.
— Isto não é brincadeira, Kat — digo.
— E um estilhaço de granada na barriga também não — responde, dando de ombros.
— Não comecem a ficar moles — diz Tjaden.
Tudo isto deve ter acontecido há pouco tempo, pois o sangue ainda está fresco. Já que todos os
homens estão mortos, não nos demoramos, mas registramos o acontecimento no próximo Posto de
Socorro Médico. De mais a mais, não é nossa obrigação fazer o trabalho destes idiotas carregadores
de macas.
Recebemos ordem para sair numa patrulha, a fim de confirmar até onde a posição inimiga
avançou. Desde a minha licença, sinto uma estranha obrigação em relação aos outros e, por isso,
apresento-me como voluntário para o serviço.
Combinamos um plano, arrastamo-nos até o arame farpado e nos separamos, para avançar um por
um. Depois de algum tempo, descubro uma cratera de granada.
Rastejo para dentro do buraco e, de lá, observo a área.
O setor está sob o fogo moderado de metralhadoras, batido em todas as direções, sem muita
intensidade, mas o bastante para que eu não me exponha excessivamente.
Um foguete luminoso abre-se no ar. O terreno é banhado pela luz pálida e, em seguida, a
escuridão volta muito mais tenebrosa. Nas trincheiras, andaram dizendo que havia tropas negras na

nossa frente. Isto é desagradável, pois não se consegue vê-los; além disso, são muito hábeis em
patrulhas. É estranho, mas, frequentemente, também cometem imprudências. Tanto Kat quanto Kropp,
quando estavam de sentinela, atiraram numa contrapatrulha de pretos, porque eles, na sua avidez de
cigarros, estavam fumando enquanto marchavam. Kat e Albert tiveram apenas de fazer mira nas
pontas acesas dos cigarros.
A uma pequena distância, cai uma granada. Não a ouvi aproximarse e levei um susto terrível. No
mesmo momento, um medo insano apodera-se de mim. Aqui estou, sozinho e quase perdido na
escuridão. Talvez dois olhos me estejam observando, há muito tempo, de uma outra vala, e uma
granada de mão esteja esperando, pronta para ser lançada e fazer-me em pedaços. Tento controlar-
me. Não é a minha primeira patrulha, nem a mais perigosa. Mas é a primeira depois da licença e,
além disto, ainda não conheço bem o terreno.
Explico a mim mesmo que minha agitação é infundada, que provavelmente ninguém me espreita
na escuridão, porque, do contrário, os projéteis não seriam tão rasteiros.
É tudo em vão. Desorganizados, meu pensamentos zumbem pela cabeça; ouço a voz de minha mãe
advertindo-me; vejo os russos, com as barbas ao vento, encostados à rede; vejo a imagem clara,
maravilhosa de uma cantina com cadeiras, de um cinema em Valenciennes. Na minha imaginação,
vejo, atormentado, a pavorosa boca cinzenta e implacável de um fuzil que me ameaça
silenciosamente e que acompanha os movimentos de minha cabeça; o suor irrompe por todos os
poros.
Continuo deitado na minha vala. Vejo as horas: passaram-se apenas alguns minutos. Minha testa
está molhada, as órbitas úmidas, as mãos tremem e minha respiração é ofegante. Nada mais é do que
um terrível acesso de medo, um medo simples e animal de levantar a cabeça para fora e de avançar.
Todos os meus esforços desfazem-se em um único desejo: poder continuar deitado ali. Meus
membros colaram-se ao chão, faço uma tentativa inútil: eles não querem se soltar. Comprimo-me
contra a terra, não consigo avançar; resolvo ficar onde estou.
Mas logo nos invade novamente uma nova onda de vergonha e de arrependimento, que vem
confundir-se com desejo de segurança. Levanto-me um pouco, para observar o que se passa. Meus
olhos ardem, de tal modo tenho o olhar fixo na escuridão. Um foguete luminoso sobe no espaço;
encolho-me de novo.
Debato-me numa luta furiosa e irracional, quero sair da cratera e, no entanto, deslizo novamente
para dentro e digo: “Você tem de fazê-lo, é pelos seus companheiros e não por uma ordem idiota
qualquer”; e, logo depois, acrescento: “Que me importa tudo isto? A vida é uma só ...”. Eis o
resultado da licença, penso amargamente, como desculpa. Mas não consigo me convencer, sinto-me
terrivelmente deprimido; ergo-me lentamente e estendo os braços para a frente; arrasto-me e em
seguida deito-me no rebordo da cratera, com metade do corpo para fora.
Então, ouço qualquer coisa e recuo. Apesar do barulho da artilharia, ouvem-se ruídos suspeitos.
Fico na escuta: o barulho está atrás de mim. São soldados nossos que passam pela trincheira. Agora,
ouço também vozes abafadas.
A julgar pelo tom de uma delas, parece ser Kat quem fala.
Um calor bom me invade bruscamente. Estas vozes, estas poucas palavras suaves, estes passos na
trincheira atrás de mim arrancam-me de um só golpe da terrível solidão do medo da morte a que
quase me entregara.
Estas vozes são mais do que a minha vida, são mais do que o amor materno, mais do que o medo,
são a coisa mais forte e protetora que há no mundo: são as vozes dos meus companheiros.
Não sou mais uma trêmula centelha de vida, sozinho na escuridão — pertenço a eles e eles a

mim, compartilhamos o mesmo medo e a mesma vida, somos unidos como amantes, de uma maneira
simples e profunda. Gostaria de mergulhar meu rosto nelas, nestas poucas palavras que me salvaram
e que me sustentarão.
Deslizo cuidadosamente para fora do buraco de granada e avanço, rastejando. De quatro,
continuo a me arrastar; tudo vai bem: oriento-me, olho à volta e observo a direção do fogo de
artilharia para poder achar o caminho de volta. Em seguida, procuro comunicar-me com os outros.
Ainda tenho medo, mas é um medo mais racional, uma espécie de cautela aguçada. A noite é de
vento, e as sombras surgem e desmaiam, sob o clarão das bocas de fogo. É uma luz que revela pouco
e, ao mesmo tempo, demais. Muitas vezes, fico imóvel, olho à frente, alerta, mas não se vê nada.
Assim, avanço bastante, e depois regresso, descrevendo um arco de círculo. Não encontrei nenhum
dos companheiros. Cada metro que me aproxima da nossa trincheira enche-me de esperança, mas
também de uma grande pressa. Seria muito azar pegar agora uma bala perdida.
É então que um novo medo apodera-se de mim. Não consigo mais orientar-me na direção certa.
Sem um ruído, agacho-me numa vala e procuro localizar-me.
Não seria a primeira vez que alguém salta alegremente para dentro de uma trincheira, para só
então descobrir que é a do inimigo.
Depois de algum tempo, ponho-me novamente à escuta. Ainda não estou no caminho certo. A
confusão de crateras parece-me agora um labirinto tão indecifrável, que, na minha agitação, não sei
mais para que lado devo me voltar.
Quem sabe se não me arrastei em linha paralela às trincheiras, o que poderia durar uma
eternidade? Por isso, volto a rastejar, descrevendo um novo círculo.
Esses malditos foguetes luminosos! Parecem arder durante uma hora inteira e não se pode fazer
um só movimento sem que um projétil comece no mesmo instante a sibilar à volta da gente.
Mas não adianta, tenho de sair. Hesitante, avanço, arrasto-me como um caranguejo pelo chão
afora, esfolando as mãos nos estilhaços pontiagudos, que são afiados como navalhas. Às vezes, tenho
a impressão de que o céu está ficando um pouco mais claro, mas, naturalmente, deve ser minha
imaginação. Então, aos poucos, chego à conclusão de que minha vida depende de eu rastejar na
direção certa.
Uma granada explode e, logo em seguida, mais duas — o bombardeio começa para valer.
Metralhadoras crepitam. Por enquanto, nada mais há a fazer, senão ficar deitado e esperar. Parece
que se trata de um ataque.
Por toda parte, sobem foguetes luminosos, sem intervalos.
Estou deitado, enrolado como um novelo, dentro de um grande buraco, com as pernas na água, até
a barriga. Quando o ataque começar, deixar-me-ei deslizar para dentro da água, com o rosto na lama
até onde for possível sem sufocar.
Preciso fingir que estou morto.
De repente, ouço o fogo tornar-se mais curto. Imediatamente, deslizo para baixo, na água espessa,
o capacete na nuca, a boca levantada apenas o suficiente para poder respirar.
Então, fico imóvel, pois, em algum lugar não muito distante, ouço ruídos metálicos, passos
pesados e vagarosos, que se aproximam; meus nervos retesam-se e tornam-se gelados. Os ruídos
passam acima de mim, a primeira vaga de assalto passou. Um único pensamento desesperado me
domina: que fazer se alguém pular para dentro do buraco? Rapidamente, tiro meu pequeno punhal da
bainha, seguro-o com firmeza e escondo-o na lama, sem soltá-lo da mão. Se alguém saltar aqui
dentro, será imediatamente esfaqueado (isto fica martelando na minha cabeça) — será bem na
garganta, para que não possa gritar. Não há outro recurso: estará tão assustado quanto eu e cheio de

medo, e atirar-nos-emos um ao outro — portanto, tenho que ser o primeiro.
Agora, nossas baterias atiram. Uma granada cai perto de mim. Fico furioso: era só o que faltava:
ser atingido pelos nossos! Praguejando, agito-me na lama: é um autêntico acesso de raiva; por fim,
consigo apenas gemer e implorar.
O estrondo das detonações ecoa em meus ouvidos. Se os nossos companheiros fizerem um
contra-ataque, estarei salvo. Aperto a cabeça contra o chão e ouço um trovejar surdo, semelhante a
longínquas explosões de pedreiras, e levanto-a novamente, para ficar atento aos ruídos lá de cima.
As metralhadoras matraquejam. Sei que nossas defesas de arame farpado são sólidas e estão
quase intatas; têm partes eletrificadas com uma poderosa corrente de alta tensão. A fuzilaria aumenta.
O inimigo não conseguiu passar e é obrigado a recuar.
Afundo de novo, com o corpo estendido ao máximo.
Torna-se audível um crepitar, um ruído de pessoas se arrastando e um tilintar metálico. Um único
grito ressoa no meio de tudo isto.
Eles estão sob fogo cerrado, o ataque é repelido.
Agora está um pouco mais claro. Há passos apressados perto de mim. Os primeiros já se foram.
Seguem-se outros. O crepitar das metralhadoras transforma-se numa corrente ininterrupta. Justamente
quando procuro levantar-me um pouco, rola por cima de mim um corpo, que cai estendido.
Não penso em nada, não tomo decisões; atiro-me furiosamente sobre ele e sinto apenas que o
corpo subitamente estremece, torna-se flácido, dobra-se sobre si próprio e cai.
Quando recupero a consciência, minha mão está pegajosa e molhada.
O homem agoniza. Parece-me que grita, que cada respiração é como um bramido, mas são apenas
minhas veias que latejam assim. Gostaria de tapar-lhe a boca, entupi-la de terra, apunhalá-lo
novamente, para que se cale, ele precisa ficar quieto, está me denunciando; por fim consigo
controlar-me, mas fico tão fraco que não consigo mais erguer a mão contra ele.
Então, arrasto-me até o outro extremo da cratera, onde me mantenho com os olhos fixos nele,
apertando o punhal, pronto a precipitar-me sobre ele ao menor movimento; mas não fará mais nada,
sua respiração já é um estertor.
Vejo-o indistintamente. Tenho apenas um desejo: sair daqui. Se não o fizer logo, ficará claro
demais; mesmo agora, já é difícil. Mas, quando tento levantar a cabeça, vejo que é impossível: o
fogo das metralhadoras é tão cerrado, que ficaria crivado de balas antes de poder dar um salto.
Eu o comprovo quando ergo o capacete, um pouco acima do chão, para verificar a altura dos
tiros. Um instante depois, ele me é arrancado da mão por uma bala. O fogo, portanto, é rasteiro. Não
estou afastado da posição inimiga o suficiente para não ser logo alvejado pelos bons atiradores, caso
tentasse fugir.
A claridade aumenta. Espero ansiosamente por um ataque do nosso lado.
Os nós dos dedos estão brancos de tanto apertar as mãos, de tal modo imploro que o fogo cesse e
meus companheiros cheguem.
Os minutos escoam-se lentamente. Já não ouso olhar para o vulto escuro que está comigo na
cratera. Faço um grande esforço para olhar à volta dele e espero; espero. Os tiros zunem, formam
uma rede de aço; isto não para, isto não acaba mais!
Então, vejo minha mão ensanguentada e sinto uma náusea repentina.
Apanho um pouco de terra e esfrego-a na pele; pelo menos agora a mão está suja e não se vê mais
o sangue.
O fogo não diminui. Tem a mesma intensidade dos dois lados. É provável que meus
companheiros já me considerem perdido há muito tempo.

O dia nasce cinzento. O estertor continua. Tapo os ouvidos, mas logo retiro os dedos, pois assim
não poderia ouvir o que se passa lá em cima.
O vulto se mexe. Estremeço e, sem querer, olho na sua direção. Meus olhos então ficam como que
colados a ele. É um homem com um pequeno bigode, estendido ali, com a cabeça caída para o lado;
um braço está meio dobrado, e a cabeça repousa nele, inerte. Tem a outra mão, ensanguentada, sobre
o peito.
Está morto, digo a mim mesmo, deve estar morto, já não sente mais nada; é apenas o corpo que
está ali, agonizando. Mas a cabeça tenta erguer-se; por um instante, os gemidos tornam-se mais
fortes; depois, sua testa cai de novo sobre o braço. O homem não está morto: está morrendo, mas
ainda vive. Rastejando, aproximo-me dele; paro; apoio-me nas mãos e torno a rastejar mais um
pouco; espero, torno a avançar; é uma dolorosa jornada de três metros, uma longa e terrível jornada.
Finalmente, estou a seu lado.
Agora, abre os olhos. Deve ter me ouvido, e me olha com uma expressão de absoluto pavor. O
corpo está imóvel, mas, nos olhos, a expressão de fuga é tão intensa que, por um instante, chego a
pensar que teriam força para arrastar o corpo com eles para centenas de quilômetros de distância,
com um único impulso.
O corpo está imóvel, sua imobilidade é total: não se ouve um só ruído, cessou o estertor, mas os
olhos gritam, urram: neles, juntou-se toda a vida que ainda resta, num esforço sobre-humano para
escapar, um pavor atroz diante da morte, diante de mim.
Minhas pernas cedem, e caio sobre os cotovelos.
— Não, não — sussurro.
Os olhos seguem-me. Sinto-me incapaz de fazer um movimento sequer, enquanto estiverem
cravados em mim. Então, lentamente, uma mão desliza do peito, afastando-se apenas alguns
centímetros, mas este gesto basta para enfraquecer a violência de seu olhar. Inclino-me para a frente,
abano a cabeça e murmuro:
— Não, não, não! — levanto a mão, preciso mostrar-lhe que quero ajudá-
lo; passo a mão em sua testa.
Os olhos estremecem quando a mão se aproxima deles, mas, depois, perdem sua fixidez, as
pálpebras baixam mais, a tensão diminui. Desaperto-lhe o colarinho e ajeito a cabeça numa posição
mais confortável.
A boca está entreaberta: tenta formar algumas palavras. Os lábios estão secos. Não trouxe o meu
cantil, mas há água na lama do fundo da vala. Desço, tiro meu lenço, abro-o bem e o aperto,
recolhendo a água amarela que escorre para a concavidade da minha mão.
Ele bebe, e eu apanho mais. Depois, desabotoo sua túnica para enfaixá-lo, se for possível.
Preciso fazer isto de qualquer maneira, para que os do outro lado vejam que queria ajudá-lo, caso me
façam prisioneiro, e não atirem em mim. Ele tenta impedi-lo, mas sua mão está muito fraca para isto.
A camisa colou-se ao corpo, e não há meio de afastá-la para o lado, é abotoada nas costas. Assim, só
me resta cortá-la.
Procuro a faca e encontro-a novamente. Mas, quando começo a cortar a camisa, os olhos abrem-
se mais uma vez e reaparece a expressão de terror, como se quisesse gritar. Sou obrigado a fechá-
los, sussurrando: — Quero ajudar você, companheiro, 
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