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Encontro05.08.2020
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Fala-se numa ofensiva. Vamos para o front dois dias antes do que fora previsto. No caminho,
passamos por uma escola destruída pelas granadas. Ao longo de sua extensão forma-se um muro alto
de pilhas duplas de caixões claros e novos, sem polimento. Ainda cheiram a resina, a pinheiros e a
floresta. São, pelo menos, cem.
— Eles preveem tudo para a ofensiva — diz Müller, admirado.
— São para nós — resmunga Detering.
— Não diga asneiras — protesta Kat, com irritação.
— Pode se dar por muito feliz se conseguir um caixão — sorri Tjaden. — Para esse seu corpo de
boneco de tiro ao alvo, arranjarão apenas uma lona, se tiver sorte.
Os outros também fazem piadas, piadas de mau gosto, mas que outra coisa poderíamos fazer? Os
caixões são realmente para nós. Nestas coisas a organização é perfeita.
Por toda parte, a frente de batalha ferve. Na primeira noite, tentamos nos orientar. Como tudo está
relativamente tranquilo, podemos ouvir os transportes rolarem atrás da linha de frente do inimigo,
sem parar, até o amanhecer. Kat diz que eles não estão em retirada, mas que trazem tropas, munições
e canhões.
A artilharia inglesa recebeu reforços, ouvimos isso imediatamente. À direita de uma fazenda, há
pelo menos quatro baterias de 205, e atrás dos choupos instalaram lança-minas. Também há muitos
daqueles monstros franceses, que chamamos de morteiros de trincheira. Nosso estado de espírito é o
pior possível: depois de estarmos duas horas nos abrigos, começam a chover tiros de nossas
próprias tropas na trincheira. É a terceira vez que isto acontece, em quatro semanas. Se fosse só erro
de pontaria, ninguém diria nada, mas a verdade é que os tubos dos canhões estão gastos demais; isso
torna os tiros tão irregulares, que, muitas vezes, atingem nosso próprio setor. Esta noite, temos dois
feridos por causa disto.
A frente é uma jaula, dentro da qual a gente tem de esperar nervosamente os acontecimentos.
Estamos deitados sob a rede formada pelos arcos das granadas, e vivemos na tensão da incerteza.
Acima de nós, paira a fatalidade.
Quando vem um tiro, posso apenas esquivar-me e mais nada; não posso adivinhar exatamente
onde vai cair, nem influir em sua trajetória.
É este acaso que nos torna indiferentes. Há alguns meses, eu estava sentado num abrigo jogando
cartas; muito tempo depois, levantei-me e fui visitar uns amigos que estavam em outro abrigo.
Quando voltei, já não existia o primeiro: fora completamente destruído por uma granada. Voltei ao
segundo abrigo e cheguei no exato momento de ajudar a desobstruí-lo, pois, nesse ínterim, também
havia sido soterrado.
No abrigo à prova de bombas, depois de dez horas de bombardeio posso ser estraçalhado e
posso não sofrer um único arranhão; só o acaso decide se sou atingido ou fico vivo. Cada soldado
fica vivo apenas por mil acasos. Mas todo soldado acredita e confia no acaso.
Temos de vigiar nosso pão. Os ratos têm-se multiplicado muito ultimamente, desde que as
trincheiras deixaram de ser conservadas. Detering afirma que é um sinal certo de que a coisa vai
esquentar.
Os ratos aqui são particularmente repugnantes, pelo seu grande tamanho. É
o tipo que se chama “ratazana de cadáver”. Têm caras horríveis, malévolas e peladas. Só de ver
seus rabos compridos e desnudos nos dá vontade de vomitar.
Parecem muito esfomeados. Já roeram o pão de quase todos. Kropp mete o dele embaixo da

cabeça, bem embrulhado num pedaço de lona, mas, mesmo assim, não consegue dormir, porque eles
correm por sobre o seu rosto para alcançar o pão. Detering quis ser mais esperto: amarrou um arame
fino no teto e pendurou nele o seu pedaço de pão. Durante a noite, quando acendeu a lanterna, viu o
arame oscilar de um lado para o outro. Montada no pão, balançava-se uma gorda ratazana.
Até que, finalmente, tomamos uma decisão. Cortamos, cuidadosamente, a parte do pão roída
pelos animais; não podemos nos dar ao luxo de jogar fora o pão, porque, neste caso, amanhã nada
teríamos para comer.
Colocamos os pedaços cortados no chão, no meio do abrigo, todos juntos.
Cada um agarra sua pá e deita-se, vigilante. Detering, Kropp e Kat seguram as lanternas, atentos.
Poucos minutos depois, ouvimos os primeiros ruídos dos ratos mordiscando o pão; esperamos até
que aumentem os ruídos das patas: agora devem ser muitos.
Então as lanternas brilham, e todos batem como podem nas manchas negras, que se desfazem,
guinchando. O resultado é bom. Com as pás, apanhamos os restos dos ratos e os jogamos por cima do
parapeito e deitamo-nos novamente, de sentinela.
A caçada é bem-sucedida ainda algumas vezes. Mas, no fim, os animais notam algo, ou sentem
cheiro de sangue. Não voltam mais. E, apesar disso, na manhã seguinte os restos de pão não estão
mais lá.
No setor vizinho, os ratos atacaram, morderam e roeram dois grandes gatos e um cachorro até
matá-los.
No dia seguinte, recebemos queijo holandês: quase um quarto de queijo para cada um. Em parte,
é bom, pois o queijo holandês é gostoso...; por outro lado, é um mau indício, pois, para nós, as bolas
grandes e vermelhas têm sido, sempre, prenúncio de violentos combates. Nossa desconfiança
aumenta quando nos dão aguardente. Por enquanto, bebemos, mas sem grande alegria.
Durante dias, fazemos competição de tiro aos ratos e vagamos de um lado para o outro. Os
cartuchos e reservas de granadas de mão aumentam. Nós mesmos inspecionamos as baionetas.
Existem algumas que são preparadas com o gume em serra. Quando, do outro lado, eles pegam
alguém com isto, massacram-no sem piedade. No setor vizinho, acharam gente nossa com estes fuzis-
serra que tiveram os narizes cortados e os olhos arrancados. Depois lhes encheram a boca e o nariz
com serragem até sufocarem.
Alguns recrutas ainda têm algumas destas baionetas: nós as fazemos desaparecer e arranjamos
algumas do tipo comum para eles.
Na verdade, a baioneta já perdeu praticamente sua importância. Durante o ataque, a moda agora é
avançar só com granadas de mão e uma pá. A pá, bem afiada, é uma arma mais leve e mais versátil,
pode-se não só aplicá-la por baixo do queixo, mas ainda dar pancadas muito violentas; tem mais
impacto, especialmente quando o golpe é oblíquo, entre o ombro e o pescoço, ela desce facilmente
até o peito. Às vezes, a baioneta, ao penetrar, fica encravada, e então temos de dar outro golpe forte
contra a barriga do inimigo para soltá-la, e enquanto isso pode-se facilmente ser atacado. Além
disso, às vezes, a lâmina se parte.
À noite, dão o alarma de gás. Esperamos o ataque, estendidos no chão, com as máscaras
colocadas, prontos, no entanto, a arrancá-las logo que apareçam as primeiras sombras.
Amanhece sem que nada aconteça — apenas este rolar incessante, por trás das linhas inimigas,
que acaba com os nervos; são trens, trens e mais trens, caminhões e mais caminhões. Que está se
concentrando do outro lado? Nossa artilharia dispara sem cessar na sua direção, mas o movimento
não acaba, não tem fim.
Temos os rostos cansados e evitamos olhar um para o outro.

— Vai ser igual ao Somme: foram sete dias e sete noites de bombardeio seguido — diz Kat,
sombrio.
Desde que estamos aqui, perdeu o bom humor, e isto é mau sinal, pois Kat é um “macaco velho”
da frente de batalha e tem um sexto sentido para o perigo.
Só Tjaden deleita-se com as boas porções de rum; chega a dizer que talvez voltemos para a
retaguarda sem que nada de extraordinário aconteça.
Até parece que podemos acreditar nisto. Os dias sucedem-se sem novidades. À noite, estou
sentado num abrigo de sentinela. Acima de mim, os foguetes e paraquedas luminosos sobem e descem
flutuando. Cauteloso e tenso, meu coração bate apressadamente. Olho mais uma vez para o mostrador
luminoso do meu relógio; os ponteiros não querem avançar. O sono pesa-me nas pálpebras e mexo os
dedos dos pés dentro das botas para ficar acordado. Não acontece nada até que somos substituídos,
apenas o rolar contínuo do outro lado. Aos poucos, tranquilizamo-nos e jogamos cartas sem parar.
Talvez tenhamos sorte.
Durante o dia, a atmosfera está carregada de ameaças. Há um boato de que o inimigo vai apoiar
os ataques da artilharia com tanques e aviões. Mas isso nos interessa menos do que o que se comenta
sobre os novos lança-chamas.
Acordamos no meio da noite. A terra ribomba. Por cima de nós um terrível bombardeio.
Agachamo-nos pelos cantos. Conseguimos distinguir projéteis de todos os calibres.
Cada um apalpa seus pertences para assegurar-se, a todo momento, de que continuam ali, à mão.
O abrigo estremece, a noite parece feita de rugidos e clarões. Nos lampejos momentâneos,
entreolhamo-nos e, com rostos pálidos e lábios apertados, sacudimos as cabeças.
Todos sentem como na própria carne os projéteis da artilharia pesada destruírem os parapeitos
das trincheiras, enterrarem-se nas depressões e despedaçarem os blocos superiores de concreto. Às
vezes, o estrondo é mais surdo e mais violento, como uma fera que ruge, quando a granada acerta na
trincheira.
De manhã, alguns recrutas estão lívidos e vomitam. São ainda muito inexperientes.
Lentamente, uma luz pardacenta e desagradável infiltra-se pelas galerias e toma mais fosco o
clarão das granadas que explodem. A manhã chegou. Agora, misturam-se as explosões das minas ao
fogo de artilharia. O abalo que produzem é a mais horrível convulsão que existe. O lugar onde
arrebentam transforma-se em um único túmulo. As sentinelas são substituídas e os observadores
cambaleiam para dentro, cobertos de lama, tremendo.
Um deles deita-se silenciosamente no chão e começa a comer; outro, que veio da reserva, soluça:
foi lançado duas vezes por cima do parapeito pelo deslocamento de ar causado pela explosão, sem
sofrer nada, além de um choque nervoso.
Os recrutas olham-no. O contágio é rápido, precisamos tomar cuidado, porque vários lábios já
começam a crispar-se. É bom que já seja dia; talvez o ataque ocorra ainda esta manhã.
O bombardeio não cede. Estende-se, também, para a nossa retaguarda. Até onde a vista alcança,
elevam-se jatos de lama e terra. Uma vasta zona está sendo coberta, assim, pela artilharia.
O ataque não se realiza, mas o bombardeio continua. Aos poucos, vamos ensurdecendo. Quase
ninguém fala; aliás, ninguém seria mesmo ouvido.
Nossa trincheira quase desapareceu. Em muitos lugares, tem apenas meio metro de altura; está
cheia de buracos, de crateras, de montes de terra. Bem na frente da nossa galeria, explode uma
granada. Imediatamente, tudo escurece.
Ficamos soterrados e temos de cavar. Uma hora depois, a entrada foi desobstruída, e estamos
mais calmos, porque tivemos um trabalho para nos ocupar.

O comandante da nossa companhia vem nos falar, arrastando-se para dentro, e informa que dois
abrigos foram destruídos. Os recrutas tranquilizam-se quando o veem. Esta noite — segundo diz —
tentarão trazer-nos comida.
É uma notícia reconfortante. Ninguém, exceto Tjaden, pensara nisto.
Agora, o mundo exterior parece aproximarse um pouco de nós; se vão trazer comida, a situação
não pode estar tão ruim, pensam os recrutas. Nós os deixamos com as suas ilusões; sabemos que a
comida é tão importante quanto a munição, e é somente por isso que vão buscá-la.
Mas não dá certo. Uma segunda turma sai, mas também volta sem nada.
Por fim, Kat vai junto, e até mesmo ele retorna de mãos vazias. Ninguém passa, nem um rabo de
cachorro é bastante fino para escapar a este fogo.
Apertamos nossos cintos e mastigamos cada bocado três vezes. Mas isto não basta; afinal, temos
uma fome miserável. Guardo uma casca de pão na mochila, depois de comer o miolo; de vez em
quando, eu a roo um pouco.
A noite está insuportável. Não podemos dormir, nossos olhos fixam-se num ponto de frente.
Cabeceamos. Tjaden lamenta que tenhamos desperdiçado nosso pão com os ratos. Deveríamos tê-lo
guardado para comê-lo agora. Também a água faz falta, mas, por enquanto, ainda não é grave.
De madrugada, ainda na escuridão, há um tumulto. Pela entrada do abrigo precipita-se uma
multidão de ratos que fogem, correndo pela parede acima. As lanternas iluminam a confusão. Todos
gritam, praguejam e espancam as ratazanas. Damos vazão à raiva e ao desespero acumulados durante
muitas horas e que agora transbordam. Os rostos estão desfigurados, os braços desferem golpes, os
animais guincham; paramos a tempo de evitar que uns ataquem os outros.
Esta agitação nos esgotou. Deitamo-nos e voltamos a esperar. É um milagre que a nossa
trincheira ainda não tenha sofrido perdas. É um dos poucos abrigos que ainda subsistem.
Um cabo arrasta-se para dentro. Traz consigo um pão. Três soldados tiveram a sorte de conseguir
atravessar a linha de fogo à noite e trazer algumas provisões. Contaram que o bombardeio prossegue
com a mesma intensidade até as posições da artilharia. É um enigma: de onde os inimigos tiram
tantos canhões?
Temos que esperar, esperar. Por volta de meio-dia, acontece o que eu temia. Um dos recrutas tem
um acesso. Já o vinha observando há tempo, como ele rangia os dentes sem parar, abrindo e fechando
os punhos. Conhecemos muito bem esses olhos acuados, esbugalhados. Nas últimas horas, sua calma
era apenas aparente.
Então, abateu-se dentro de si próprio, como uma árvore podre.
Agora, levanta-se e, sorrateiramente, rasteja pelo abrigo; detém-se por um momento e, depois,
esgueira-se para a saída. Viro-me e pergunto: — Onde vai?
— Volto já — diz e tenta passar por mim.
— Espere mais um pouco, o bombardeio vai diminuir logo.
Seus olhos tornam-se claros e lúcidos por um momento, mas depois retomam seu aspecto opaco,
como os olhos de um cão raivoso. Ele se cala e procura afastar-me.
— Um momento, companheiro — chamo.
Kat está atento, e, no instante em que o recruta me empurra, ele o agarra, e ambos o seguramos
com força.
Imediatamente, começa a esbravejar:
— Soltem-me, deixem-me sair! Quero sair daqui!
Não ouve nada, esperneia, a boca está molhada, e cospe as palavras, palavras pela metade, sem
nexo. É um ataque de claustrofobia, ele tem a impressão de que vai sufocar aqui, e sente apenas um

desejo: chegar lá fora. Se o deixássemos, correria, sem cobertura, para qualquer lado. Não é o
primeiro.
Seus olhos já se reviram, porque está muito enfurecido, e não há outro remédio: temos de
esbofeteá-lo para que recupere o controle. Fazemo-lo rapidamente, sem piedade, e, finalmente, ele
senta-se e acalma-se. Os outros ficam pálidos com o acontecimento; tomara que os tenhamos
intimidado! O bombardeio é demais para os pobres rapazes; acabam de chegar do depósito de
recrutas para cair num inferno destes, que faria mesmo um velho soldado ficar de cabelos brancos.
Além disso, o ar irrespirável, espesso e vicioso afeta nossos nervos.
Estamos como que sentados no nosso próprio túmulo e esperamos apenas que desabe sobre nós,
enterrando-nos. De repente, há um silvo e um clarão monstruoso; o abrigo estoura em todas as juntas,
sob uma explosão que o pegou em cheio. Felizmente, era um projétil de artilharia ligeira, ao qual os
blocos de cimento resistiram. Foi um terrível ruído metálico, as paredes vacilaram; fuzis, capacetes,
lama, terra e poeira voam por todos os lados. Um vapor de enxofre penetra no abrigo. Se
estivéssemos sentados agora num desses abrigos leves que se constroem hoje em dia, nenhum de nós
estaria vivo.
Mesmo assim, os efeitos são bastante lamentáveis. O recruta de há pouco começa novamente a
delirar, e mais dois o imitam. Um deles consegue livrar-se e foge. Ocupamo-nos dos outros dois.
Precipito-me atrás do fugitivo e pergunto a mim mesmo se devo atirar em suas pernas; ouve-se,
então, um silvo por perto, atiro-me ao chão e, quando me levanto, a parede da trincheira está coberta
de estilhaços fumegantes, de pedaços de carne e de farrapos de uniforme. Rastejo de novo para
dentro do abrigo.
O primeiro dos rapazes parece ter efetivamente enlouquecido. Corre e bate com a cabeça na
parede como um bode, quando consegue soltar-se. À noite, seremos obrigados a tentar levá-lo para a
retaguarda. Por enquanto, nós o amarramos de forma a poder soltá-lo rapidamente no caso de um
ataque.
Kat sugere que joguemos cartas; é mais fácil quando se tem o que fazer.
Talvez nos ajude a enfrentar os acontecimentos. Mas não dá certo: estamos à escuta, e, a cada
granada mais próxima, contamos errado, ou não prestamos atenção ao naipe. Desistimos.
Estamos como que sentados num caldeirão que ferve ameaçadoramente, batido por todos os
lados.
Mais uma noite. Já estamos abatidos pela tensão, uma tensão mortal, que nos raspa ao longo da
espinha como uma faca cheia de dentes. As pernas recusam-se a nos obedecer, as mãos tremem, o
corpo é apenas uma pele fina que recobre a loucura malcontida, mascarando um rugido sem fim que
quase não se pode controlar. Já não temos mais músculos nem carne; não nos atrevemos mais a olhar
um para o outro por medo de qualquer coisa incalculável. Assim, mordemos os lábios e procuramos
pensar: “Vai passar... isto vai passar... talvez escapemos”.
Repentinamente, os obuses deixam de cair nas imediações. O bombardeio continua, mas dirige-se
para a retaguarda; nossa trincheira está livre. Pegamos as granadas de mão, jogamo-las para a
entrada do abrigo e saltamos para fora. O bombardeio parou, mas, em contrapartida, atrás de nós, há
um pesado fogo de barragem. É o ataque que vai começar.
Ninguém acreditaria que nestas horríveis ruínas ainda existissem homens; mas, de todos os lados
da trincheira, começam a aparecer agora os capacetes de aço e, a quarenta metros de nós, uma
metralhadora já está em posição e pipocando.
As proteções de arame farpado são destroçadas; mesmo assim, ainda servem como obstáculo.
Vemos as tropas de assalto avançarem. Nossa artilharia abre fogo. As metralhadoras matraqueiam,

os fuzis crepitam. Do outro lado, os inimigos fazem esforços para avançar. Haie e Kropp começam a
atirar granadas de mão. Lançam-nas o mais rápido possível, recebem-nas com o pino já retirado.
Haie joga a sessenta metros, Kropp a cinquenta; tudo isto foi estudado e medido, pois a distância
é muito importante. O inimigo, ocupado em correr, não pode fazer grande coisa, enquanto não chega
até os trinta metros.
Reconhecemos os rostos contraídos, os capacetes lisos: são franceses.
Quando alcançam os restos das redes de arame farpado, já tiveram sensíveis perdas. Uma fileira
completa foi abatida por nossas metralhadoras; depois, temos várias dificuldades com os tiros, e eles
conseguem aproximarse.
Vejo um que cai de pé num cavalo de frisa, o rosto voltado para cima. O
corpo abate-se sobre si mesmo, como um saco, as mãos ficam juntas, como se quisesse rezar.
Então, o tronco destaca-se inteiramente; apenas as mãos, decepadas pelos tiros da metralhadora,
ficam penduradas, com uns farrapos de braços, no arame farpado.
No momento em que começamos a recuar, três rostos emergem do chão à nossa frente. Embaixo
de um dos capacetes, um cavanhaque escuro e dois olhos que me fitam com firmeza. Levanto a mão,
porém não consigo atirar nestes olhos estranhos. Durante um momento de loucura, toda a matança
gira como um turbilhão à minha volta, e os dois olhos são a única coisa imóvel em todo o quadro;
então, a cabeça se mexe, vejo uma mão, um movimento, e logo minha granada de mão voa pelo ar,
quase que independente de mim. Recuamos correndo, atiramos os cavalos de frisa para dentro das
trincheiras e deixamos granadas de mão já sem o pino caírem atrás de nós, o que nos assegura uma
retirada explosiva. Da segunda linha, as metralhadoras atiram.
Tornamo-nos animais selvagens. Não combatemos, defendemo-nos da destruição. Sabemos que
não lançamos as granadas contra homens, mas contra a Morte, que nos persegue, com as mãos e
capacetes. Pela primeira vez em três dias, conseguimos vê-la cara a cara; pela primeira vez em três
dias, podemos nos defender contra ela. Uma raiva louca nos anima, não esperamos mais indefesos,
impotentes, no cadafalso, mas podemos destruir e matar, para nos salvarmos... e para nos vingarmos.
Escondemo-nos, abaixados atrás de cada canto, por trás de cada defesa de arame farpado, e, antes de
corrermos, atiramos montes de granadas aos pés dos inimigos que avançam. O estampido das
granadas de mão repercute poderosamente nos nossos braços e pernas. Corremos agachados como
gatos, submersos por esta onda que nos arrasta, que nos torna cruéis, bandidos, assassinos, até
demônios; esta onda que aumenta nossa força pelo medo, pela fúria e pela avidez de vida, que
procura lutar apenas pela nossa salvação. Se seu próprio pai viesse com os do outro lado, você não
hesitaria em atirar-lhe uma granada em pleno peito.
As primeiras trincheiras são abandonadas. Ainda são trincheiras? Estão destroçadas, aniquiladas;
são apenas restos de trincheiras, buracos unidos por caminhos, ninhos de cratera, nada mais. Mas as
baixas do inimigo aumentam.
Não contavam com tanta resistência.
É meio-dia. O sol queima, asfixiante. O suor irrita-nos os olhos e o limpamos com as mangas; às
vezes há sangue junto. Chegamos agora a uma trincheira em condições um pouco melhores. Está
ocupada pelas nossas tropas e preparada para o contra-ataque. Nossa artilharia intensifica o fogo e
impede o ataque inimigo, aferroando a posição.
As linhas da retaguarda param. Não conseguem avançar. O ataque é paralisado pela nossa
artilharia.
Ficamos à espreita. O fogo salta cem metros à frente — retomamos a ofensiva. Ao meu lado, a
cabeça de um cabo é arrancada. Ainda corre mais alguns passos, enquanto o sangue jorra-lhe do

pescoço, como um repuxo.
Não chega a haver combate corpo a corpo, porque os outros são obrigados a recuar. Alcançamos
novamente nossos restos de trincheira e até a ultrapassamos.
Oh! Esta reviravolta! Alcançamos as posições abrigadas da reserva, gostaríamos de rastejar para
dentro delas e desaparecer; em vez disso, somos obrigados a voltar e mergulhar novamente no
horror. Se não fôssemos autômatos nesses momentos, continuaríamos ali, deitados, exaustos, inertes.
Mas somos de novo arrastados para a frente, sem forças, mas ainda selvagens e furiosos; queremos
matar, pois aqueles que estão à nossa frente são nossos inimigos mortais; seus fuzis e suas granadas
estão apontados para nós; se não os exterminarmos, seremos destruídos por eles.
A terra escura, rasgada, destroçada, com seu brilho gorduroso sob os raios do sol, é o cenário
desse mundo agitado e sombrio de autômatos; nosso ofegar é o ranger das molas do mecanismo; os
lábios estão ressequidos, a cabeça dói mais do que depois de uma noite de pileque. É nesse estado
que avançamos cambaleantes; em nossas almas, crivadas e arrasadas, penetra, torturante e
insistentemente, a imagem da terra escura sob o sol gorduroso, com os soldados mortos e os que
ainda estremecem, como se assim tivesse que ser, e que gritam. Querem agarrar nossas pernas,
enquanto pulamos por cima de seus corpos.
Perdemos toda a noção de solidariedade; quase não nos reconhecemos, quando, por acaso, a
imagem do outro cai sob nosso olhar de fera acossada.
Somos mortos insensíveis que, por um feitiço trágico, ainda conseguem correr e matar.
Um jovem francês fica para trás e é alcançado pelos nossos. Levanta as mãos: numa delas ainda
segura o revólver. Não se sabe se ele quer atirar ou render-se; um golpe de pá abre-lhe o rosto ao
meio. Um outro vê a cena e tenta fugir, mas, um pouco adiante, uma baioneta é enterrada em suas
costas como um raio. Ele salta no ar e, com os braços abertos, a boca escancarada, gritando,
cambaleia, com a baioneta oscilante cravada em suas costas. Um terceiro joga fora o fuzil, agacha-se,
cobrindo os olhos com as mãos. Fica para trás, com mais alguns prisioneiros, para transportar os
feridos.
Repentinamente, na perseguição que se processa, chegamos às posições inimigas.
Estamos tão próximos dos adversários em retirada que conseguimos chegar às suas trincheiras
quase ao mesmo tempo que eles. Graças a isto, temos poucas baixas. Uma metralhadora atira, mas é
silenciada por uma granada. Estes poucos segundos, porém, foram suficientes para que cinco dos
nossos fossem atingidos no ventre. Kat dá coronhadas no rosto de um dos atiradores da metralhadora,
que ainda não fora ferido, até amassá-lo. Os demais, nós matamos a baioneta, antes de poderem
servir-se das granadas de mão. Depois, bebemos, sedentos, a água de refrigeração da metralhadora.
Por toda a parte, ouve-se o ruído dos alicates cortando o arame farpado; pranchas são atiradas
sobre o emaranhado das defesas e saltamos para as trincheiras pelas entradas estreitas. Haie enterra
sua pá no pescoço de um francês alto como um gigante; e atira a primeira granada de mão;
escondemo-nos por uns segundos, atrás do parapeito, depois a parte retilínea da trincheira fica
desguarnecida. O próximo arremesso sibila diagonalmente por cima de um canto, e abre o caminho;
enquanto corremos, atiramos granadas para dentro dos abrigos por onde passamos. A terra treme,
explode, crepita e geme, tropeçamos em escorregadios pedaços de carne, em corpos que cedem.
Caio por cima de uma barriga arrebentada, sobre a qual está colocado um gorro novo e limpo de
oficial.
A batalha abranda. Perdemos o contato com o inimigo. Uma vez que não poderemos manter-nos
por muito tempo aqui, recebemos ordem de voltar para nossas posições primitivas, sob a proteção da
artilharia. Logo que sabemos da notícia, precipitamo-nos para os abrigos próximos, a fim de nos

apoderarmos de todas as latas de comida que conseguimos apanhar, principalmente manteiga e carne
em conserva, antes de regressarmos.
Recuamos relativamente bem. Por enquanto, o inimigo não contra-ataca.
Durante mais de uma hora, ficamos estendidos, ofegantes, descansando, sem falar.
Nossa exaustão é tanta que, apesar da terrível fome, nem pensamos nos enlatados. Só pouco a
pouco vamos nos transformando novamente em algo parecido com seres humanos.
Esta carne em conserva é famosa em toda a frente de batalha. Às vezes, chega a ser a principal
razão das investidas do nosso lado, porque nossa alimentação em geral é péssima; estamos sempre
com fome.
Pegamos um total de cinco latas. Os do outro lado são bem tratados, a comida, comparada à
nossa, parece excelente; estamos sempre famintos com a nossa geleia de nabo.
Eles têm carne à vontade; basta estender a mão para apanhá-la. Haie apoderou-se também de um
pão francês, comprido, e enfiou-o no cinturão como se fosse uma pá. Uma das extremidades está um
pouco ensanguentada, mas é fácil cortá-la.
É uma sorte termos algo de bom para comer agora; ainda precisaremos de nossas forças. Comer
até à saciedade é tão importante quanto um bom abrigo: pode salvar-nos a vida, é por essa razão que
estamos tão ávidos de alimento.
Tjaden arrecadou ainda dois cantis de conhaque e nós os passamos de mão em mão.
A “bênção noturna” nos é administrada pela artilharia. A noite chega, e das trincheiras sobem
neblinas. Parece que estes buracos estão cheios de misteriosos espectros.
O vapor branco rasteja aqui e ali, cautelosamente, antes de ousar erguer-se além das bordas das
crateras. Depois, compridas faixas de vapor espalham-se de trincheira em trincheira.
Faz frio. Estou de sentinela e contemplo fixamente a escuridão. Sinto-me fraco, como sempre
acontece depois de um ataque, e, por isso, é difícil ficar a sós com meus pensamentos. Nem
pensamentos são, mas lembranças que me perseguem na minha fraqueza, afetando-me estranhamente.
Os foguetes luminosos elevam-se no espaço e vejo uma imagem à minha frente: é uma tarde de
verão e estou no claustro da catedral, admirando as roseiras que florescem no meio de pequeno
jardim da igreja, onde são enterrados os frades. Ao redor, veem-se as Estações da Cruz esculpidas
em pedra. Não há ninguém; reina um grande silêncio neste quadrilátero florido, o sol brilha quente
nas enormes pedras acinzentadas; ponho as mãos sobre elas e sinto o seu calor.
No canto direito do telhado de ardósia, ergue-se a torre verde da catedral, para o azul-pálido e
suave do céu do anoitecer. Entre as pequenas colunas polidas do claustro, armazenou-se a doce e
fresca penumbra que só as igrejas têm. Fico ali, imóvel, pensando que, quando tiver vinte anos,
conhecerei as emoções perturbadoras que vêm das mulheres.
A imagem é tristemente real; está perto de mim, emociona-me, antes de desfazer-se sob o clarão
do próximo sinal luminoso.
Pego o meu fuzil e verifico se está em boas condições. O cano está úmido, envolvo-o com minha
mão e, friccionando-o, limpo a umidade com os dedos.
Entre os prados, nos arrabaldes de nossa cidade, erguia-se uma fileira de velhos choupos,
margeando um riacho. Podiam ser vistos de longe e, embora flanqueassem apenas um lado, tinham o
nome de alameda dos Choupos. Desde criança, atraíam-nos inexplicavelmente. Passávamos dias
inteiros junto deles, escutando seu leve murmúrio. Sentávamos à sua sombra, na margem do riacho, e
balançávamos os pés na água clara e rápida.
O aroma puro da água e a melodia do vento nos choupos dominavam nossa imaginação. Nós os
amávamos tanto! A imagem daqueles dias ainda faz meu coração palpitar, antes de extinguir-se.

É estranho que todas as recordações que evocamos têm estas características. Estão sempre
envolvidas em tranquilidade: é a sua marca predominante. Embora as impressões daquela época não
fossem silenciosas como hoje se manifestam, produzem agora esse efeito. São aparições mudas, que
me falam por olhares e gestos, sem recorrer a palavras, silenciosamente. E o seu silêncio
impressionante é o que me obriga a apertar o meu braço e o fuzil, para não me entregar a esta
sedução a que meu corpo desejaria suavemente abandonar-se, para desfazer-se nas forças secretas
que há para além das coisas.
Elas são tranquilas, porque a tranquilidade é agora tão inatingível para nós.
No front, nunca há silêncio, e a sua maldição é tão extensa que estamos sempre dentro dela.
Mesmo nos depósitos mais afastados, nos acampamentos de repouso, o zunido e o ribombar abafado
do fogo chegam sempre aos nossos ouvidos.
Nunca estamos suficientemente longe para deixar de ouvi-los. Mas, nestes últimos dias, tem sido
insuportável.
A paz dessas recordações de outros tempos é a razão pela qual elas nos despertam menos o
desejo do que a tristeza: uma estranha e desconcertante melancolia. Existiram, mas não voltam mais.
Passaram, pertencem a um mundo diferente, que, para nós, terminou. No acampamento, despertavam
um desejo rebelde e selvagem, porque ainda estavam muito próximas de nós, pertencíamos a elas e
elas a nós, embora já estivéssemos separados. Brotavam das canções de soldados que cantávamos,
enquanto marchávamos para o exercício, entre o vermelho da aurora que despontava e as silhuetas
negras da floresta; constituíam uma poderosa lembrança que guardávamos dentro de nós e que de nós
emanava.
Mas aqui, nas trincheiras, nós as perdemos. Já não emanam de nós; estamos mortos, e surgem
apenas remotamente no horizonte: são uma aparição, um misterioso reflexo que nos atrai, que
tememos e que amamos sem esperança. São poderosas como poderoso é o nosso desejo, mas
inacessíveis, como bem o sabemos — tão inúteis quanto a nossa esperança.
E, mesmo se essa paisagem de nossa juventude nos fosse devolvida, mal saberíamos o que fazer
dela. As forças temas e secretas que suscitavam não podem mais renascer. De novo, poderíamos
permanecer e passear neste cenário; lembrar-nos-íamos dele e ama-lo-íamos; ficaríamos comovidos
ao vê-lo, mas seria o mesmo que olhar a fotografia de um companheiro morto: as feições são suas, os
traços são seus e é o seu rosto; são os dias que passamos juntos que ganham uma sombra de vida na
nossa memória, mas já não é mais ele.
Nunca mais poderemos participar dessas cenas como antes. Não era o reconhecimento de sua
beleza nem o seu significado que nos atraíam, mas uma comunhão, a harmonia de uma fraternidade
com as coisas e os acontecimentos da nossa existência, que nos isolava e fazia do mundo de nossos
pais algo de incompreensível; de alguma forma, nós nos deixávamos subjugar por acontecimentos e
nos perdíamos neles — as coisas mais insignificantes terminavam infalivelmente às portas do
infinito... Talvez fosse apenas o privilégio de nossa juventude; ainda não tínhamos vislumbrado
nenhum limite e jamais admitíamos um fim; tínhamos a esperança no sangue, que nos identificava com
a marcha dos nossos dias.
Hoje, passaríamos pela paisagem de nossa juventude apenas como viajantes. Os fatos nos
consumiram; como os comerciantes, sabemos distinguir as diferenças e, como os carniceiros,
sabemos reconhecer as necessidades. Já não somos despreocupados; vivemos numa terrível
indiferença. Se estivéssemos lá, será que viveríamos? Desamparados como crianças e experientes
como velhos, somos primitivos, tristes e superficiais... Acho que estamos perdidos.
Minhas mãos ficam frias e minha pele arrepia-se; mas a noite está quente.

Só a neblina é fresca, esta neblina sinistra, que ronda os mortos à nossa frente, e deles suga o
último sopro de vida. Amanhã, estarão pálidos e esverdeados, e seu sangue, coagulado e negro.
Os foguetes luminosos ainda sobem e derramam sua luz impiedosa sobre a paisagem petrificada,
cheia de crateras, como uma fria paisagem lunar. O sangue que corre embaixo de minha pele leva
medo e inquietação aos meus pensamentos: eles se enfraquecem e tremem, precisam de calor e vida.
Não resistem, sem o consolo e sem a ilusão; confundem-se diante do quadro nu do desespero.
Ouço o ruído de panelas e sinto imediatamente um violento desejo de comida quente, que me fará
bem e me acalmará. Com dificuldade, obrigo-me a esperar o momento de minha substituição.
Depois, desço para o abrigo e encontro à minha espera uma marmita com mingau. Foi preparado
com gordura e parece apetitoso. Como lentamente e em silêncio, embora os outros mostrem-se mais
bemhumorados, porque o bombardeio diminuiu.
Os dias se sucedem, e cada hora é ao mesmo tempo incompreensível e natural. Os ataques
seguem-se aos contra-ataques, e, lentamente, nos espaços livres das trincheiras, os mortos se
empilham. Geralmente, conseguimos trazer de volta alguns feridos; no entanto, alguns ficam
estendidos por muito tempo, e nós os ouvimos morrer.
Procuramos um deles em vão durante dois dias. Deve estar deitado de bruços e não consegue
mais virar-se. Não há outra explicação para o fato de não o acharmos, pois somente quando se grita
com a boca colada ao chão é difícil determinar a direção do grito.
Deve ter levado um mau tiro, um desses ferimentos traiçoeiros, que não são tão graves a ponto de
enfraquecer o corpo com rapidez e deixá-lo entorpecido, e nem tão leves que permitam suportar as
dores com a esperança de ficar curado.
Kat diz que deve ser um esmagamento da bacia ou um tiro na espinha.
Provavelmente, o peito não está ferido, pois, se assim fosse, não teria forças para gritar tanto. E
se estivesse ferido em outro lugar qualquer veríamos seus movimentos.
Aos poucos, ele vai enrouquecendo. A voz tem um som tão débil que não se consegue distinguir
de onde vem. Na primeira noite, alguns dos nossos homens saíram três vezes para procurá-lo. Mas
quando julgaram tê-lo localizado e já começavam a arrastar-se até lá, na próxima vez em que o
escutaram, a voz parecia vir de outro lugar.
Procuramos em vão até o amanhecer. Durante o dia, o campo é vasculhado com o auxílio de um
binóculo, mas nada se descobre. No segundo dia, a voz fica mais fraca e sente-se que os lábios e a
boca ressecaram.
Nosso comandante de companhia prometeu prioridade de licença e mais três dias suplementares
a quem o encontrasse. É um prêmio estimulante, mas faríamos o possível, mesmo sem ele, pois é um
clamor terrível. À tarde, Kat e Kropp saem uma vez mais da trincheira. Em consequência disto o
lóbulo da orelha de Albert é arrancado por um tiro. E foi tudo inútil — voltaram sem ele!
Apesar de tudo, compreende-se claramente o que diz. No princípio, gritava somente por ajuda; na
segunda noite, deve ter tido febre, pois, em seu delírio, falava com a mulher e os filhos; muitas vezes
escutamos o nome Elisa. Hoje, chora, apenas. À noite, a voz diminui, até tomar-se um gemido rouco.
Mas ainda continua durante toda a noite. Ouvimos tudo claramente, porque o vento sopra na direção
de nossas trincheiras. De manhã, quando julgávamos que tudo já tivesse terminado, ainda chega até
nós um estertor.
Os dias são quentes, e os mortos jazem desenterrados. Não podemos ir buscar todos, não
saberíamos para onde ir com eles.
Não precisamos, porém, nos preocupar: são enterrados pelas granadas.
Alguns têm as barrigas inchadas como balões, assobiam, arrotam e mexem-se.

São os gases que se agitam neles.
O céu está azul e sem nuvens. As noites são sufocantes, e o calor sobe da terra. Quando o vento
sopra na nossa direção, traz o vapor de sangue, que é pesado e de um doce repugnante; esta exalação
mortal das trincheiras parece uma mistura de clorofórmio e de podridão, que nos causa mal-estar e
vômitos.
As noites são calmas, e começa a caça às anilhas de cobre das granadas e aos paraquedas de
seda dos foguetes luminosos franceses. Ninguém sabe ao certo por que estas anilhas são tão
cobiçadas. Os colecionadores afirmam, simplesmente, que são valiosas. Há gente que arranja tantas
que anda curvada sob o seu peso.
Haie, pelo menos, oferece uma razão: quer mandá-las para sua noiva para substituir as ligas.
Com esta piada, explodem naturalmente de rir os valentes soldados da Frigia, que, dando palmadas
nas coxas, exclamam: “Que boa ideia, esse Haie é mesmo um gozador!”. Tjaden, principalmente, não
se controla; segura as anilhas maiores na mão e a toda hora enfia nelas a perna para mostrar quanto
espaço livre ainda há.
— Haie, meu velho, que pernas ela deve ter, deve ser um bom par de pernas! — e seus
pensamentos sobem um pouco mais — e que rabo ela deve ter, como um elefante...
Ele não consegue parar.
— Gostaria de brincar com ela de casinha, meu Deus...
Haie está radiante com o sucesso de sua noiva e afirma, contente e sucinto: — É um pedaço de
garota — diz, orgulhoso.
Os pequenos paraquedas de seda têm uma finalidade mais prática. Três ou quatro dão para fazer
uma blusa, conforme as dimensões do busto. Kropp e eu os usamos como lenços. Os outros mandam-
nos para casa. Se as mulheres soubessem o perigo que se corre para ir buscar esses trapos finos,
ficariam horrorizadas.
Kat surpreende Tjaden a bater, com toda calma, numa granada não-deflagrada, para tirar os anéis.
Se fosse outro, a granada teria explodido, mas Tjaden, como sempre, tem sorte. Durante uma manhã
inteira, duas borboletas brincam em frente à nossa trincheira. Têm as asas amarelas, com pontinhos
vermelhos. Que as terá atraído para cá, se não se veem plantas e flores em lugar nenhum? Pousam
nos dentes de um morto. Igualmente despreocupados, os pássaros, que há muito se acostumaram à
guerra, todas as manhãs, esvoaçam entre as duas frentes inimigas. Há um ano, chegamos a ver
cotovias chocarem os ovos e, depois, alimentarem os filhotes.
Nas trincheiras, os ratos não nos perturbam. Estão lá na frente... nós sabemos por que engordam;
logo que vemos um, nós o abatemos. À noite, tornamos a ouvir do outro lado o ruído dos caminhões e
dos tanques. De dia, há apenas o bombardeio normal; assim, conseguimos reparar as trincheiras.
Divertimento não falta, pois temos os aviadores para nos distrairmos. Todos os dias, um sem-
número de combates aéreos tem sua plateia garantida.
Gostamos dos aviões de combate, mas detestamos como a peste os de observação, porque atraem
para nós o fogo da artilharia. Poucos minutos depois de surgirem, explode um dilúvio de granadas.
Com isto, perdemos onze homens num só dia, inclusive cinco enfermeiros. Dois ficaram tão
esmagados, que Tjaden afirmou poder raspá-los da parede da trincheira com uma colher e enterrá-los
nas marmitas. Um outro teve o abdome arrancado juntamente com as pernas. Está morto, com o peito
encostado na trincheira, seu rosto está verde como um limão, e no meio da barba cerrada ainda arde
um cigarro, que continua queimando até apagar-se nos seus lábios.
Por ora, colocamos os mortos numa grande cratera. Até o momento, já empilhamos três camadas.
De repente, o fogo recomeça. Em breve, estamos novamente sentados na fixidez tensa da espera

inativa.
Ataque, contra-ataque, ofensiva, contra-ofensiva... Que significam, na verdade, estas palavras?
Perdemos muitos homens, sobretudo recrutas. No nosso setor, preenchem as vagas com reforços. É
um dos novos regimentos; são quase todos jovens, dos últimos contingentes. Quase não receberam
instrução; só puderam fazer exercícios teóricos, antes de vir para o campo de batalha. Sabem o que é
uma granada de mão, mas não têm a menor ideia de como aproveitar o terreno como cobertura. Uma
depressão tem que ter pelo menos meio metro para que reparem nela.
Embora precisemos de reforços, os recrutas nos dão mais trabalho do que propriamente ajuda.
Estão despreparados para esse tipo de ataque e caem como moscas. A luta de posições que hoje se
faz exige conhecimentos e experiência; tem que se conhecer o terreno, é necessário ter ouvido para
os tiros, seus ruídos e seus efeitos; é preciso saber de antemão onde vão acertar, saber como se
dispersarão os estilhaços e como se proteger deles.
Estes jovens substitutos naturalmente ignoram quase tudo isto. São abatidos porque, cheios de
medo, ouvem o estrondo das granadas de grosso calibre que caem longe e não escutam o zunido
ligeiro e vibrante dos pequenos monstros que se estilhaçam rente ao chão. Como as ovelhas,
comprimem-se uns contra os outros, ao invés de se dispersarem, e os próprios feridos são abatidos
como lebres pelos aviadores.
Ah, as pálidas caras de nabo, as mãos crispadas, a valentia lamentável desses pobres coitados,
que, apesar de tudo, avançam e atacam; esses pobres-diabos corajosos, tão atemorizados que não
ousam gritar e que, com o peito, o ventre, os braços e as pernas dilacerados, soluçam baixinho pelas
suas mães e calam-se assim que se olha para eles!
Seus rostos mortos, púberes, afilados têm a terrível inexpressividade das crianças mortas.
Sente-se um nó na garganta ao ver como saltam, correm e caem. Tenho vontade de bater neles
porque são tão bobos, mas, ao mesmo tempo, gostaria de pegá-los no colo e levá-los para longe
daqui: este não é o seu lugar. Vestem suas túnicas, calças e botas cinzentas, mas, para a maioria, a
farda é larga demais, flutuando-lhes ao redor dos membros; os ombros demasiado estreitos, os
corpos demasiado pequenos. Não havia uniformes feitos para estas medidas de criança.
Para cada veterano, morrem de cinco a dez recrutas. Um ataque inesperado de gás ceifa a vida de
muitos. Nem chegaram a aprender o que fazer. Achamos um abrigo cheio de homens com os rostos
azulados e lábios negros. Numa trincheira, tiraram cedo demais as máscaras; não sabiam que o gás se
mantém mais tempo no chão; vendo os outros lá em cima sem as máscaras, arrancaram as suas e
engoliram gás suficiente para queimar os pulmões. Seu estado é desesperador, engasgam com
hemorragias e têm crises de asfixia, até morrer.
Numa parte da trincheira, vejo-me repentinamente diante de Himmelstoss.
Escondemo-nos no mesmo abrigo. Ofegantes, todos se juntam e esperam o momento de atacar.
Apesar de muito agitado, quando saio do abrigo, ocorre-me um pensamento: não vejo mais
Himmelstoss. Rápido, salto de volta para o abrigo e encontro-o deitado a um canto, com um pequeno
arranhão, fingindo estar gravemente ferido. Sua cara é a de quem levou uma surra. Tem um acesso de
medo, ainda é novo aqui. Mas irrita-me o fato de os jovens recrutas estarem lá fora, e ele aqui,
deitado.
— Saia! — esbravejo.
Ele não se mexe, os lábios crispam-se e o bigode estremece.
— Para fora! — repito.
Retesa as pernas, comprime-se contra a parede e mostra os dentes como um cão.
Pego-o pelo braço, para obrigá-lo a levantar-se. Ele começa a choramingar.

Então, perdendo o controle, agarro-o pelo pescoço e sacudo-o como um saco, de tal forma que a
cabeça oscila para lá e para cá, e grito-lhe na cara: — Seu canalha, já para fora... seu cachorro;
carrasco! Então, queria esconder-se?
Fica como que vidrado; atiro sua cabeça de encontro à parede.
— Sua besta! — dou-lhe um pontapé nas costas. — Porco imundo! — empurro-o para a frente e o
faço sair de cabeça.
Um grupo dos nossos está passando e com eles um tenente, que nos vê e grita: — Avançar,
avançar... cerrar fileiras, cerrar fileiras!
E o que minhas bofetadas não conseguiram, conseguem estas palavras.
Himmelstoss ouve o seu superior, olha ao seu redor, como quem acorda, e junta-se aos outros.
Sigo-o e vejo-o saltar. Já é novamente o garboso Himmelstoss do quartel; chegou até a
ultrapassar o tenente.
Bombardeio, fogo cerrado, fogo de barragem, gás, minas, tanques, metralhadoras, granadas de
mão... são apenas palavras, mas encerram todo o horror do mundo.
Nossos rostos estão cobertos por uma crosta, nosso pensamento, aniquilado; estamos exaustos.
Quando vier o ataque, será preciso despertar alguns a murro para que avancem com os outros; nossos
olhos estão inchados, as mãos rasgadas, os joelhos sangram, os cotovelos estão esfolados.
Quanto tempo passou? Semanas? Meses? Anos? Dias, são apenas dias.
Vemos o tempo ao nosso lado desaparecer no semblante pálido dos que morrem, entupimo-nos de
alimentos, corremos, atiramos granadas, disparamos tiros, matamos, deitamo-nos nos abrigos,
estamos exaustos e embrutecidos. Só uma coisa nos conforta: ver que há outros mais fracos, mais
abatidos, mais desamparados, que nos olham com os olhos esbugalhados, como se fôssemos deuses
que, muitas vezes, conseguiram escapar à morte.
Nas poucas horas de descanso, damos aulas aos recrutas.
— Lá, está vendo aquele projétil que avança cambaleando? É uma mina que se aproxima. Fique
deitado, ela vai cair mais adiante. Mas se vier para cá, saia correndo! É possível escapar dela, se se
correr logo.
Treinamos os seus ouvidos, no sentido de distinguirem o zumbido pérfido dos pequenos projéteis
que quase não se ouvem: têm de reconhecer, no meio de todo o barulho, o seu zumbido de mosquito;
ensinamos-lhes que estes são mais perigosos que os grandes, que se escutam com antecedência. Nós
lhes mostramos como se esconderem dos aviões, como se fingirem de mortos, quando vêm as tropas
de assalto; como se tem de retirar o pino das granadas de mão, de maneira a explodirem meio
segundo antes de caírem. Ensinamos-lhes a cair rapidamente nas trincheiras, quando um morteiro se
aproxima; demonstramos como se acaba com uma vala usando um feixe de granadas de mão.
Explicamos-lhes a diferença de tempo entre o explodir das bombas inimigas e das nossas, devido à
diferença entre os detonadores, e os alertamos para o som das granadas de gás. Enfim, mostramos-
lhes todas as formas de se salvarem da morte.
Ouvem, são dóceis e obedientes... mas, quando a luta começa, atrapalham-se e fazem tudo ao
contrário.
Haie Westhus é levado com as costas dilaceradas; a cada respiração, o pulmão pulsa através da
ferida. Ainda consigo apertar sua mão: — Acabou-se, Paul — geme e, de dor, morde o próprio
braço.
Vemos homens ainda vivos que não têm mais a cabeça; vemos soldados que tiveram os dois pés
arrancados andarem, tropeçando nos cotos lascados até o próximo buraco; um cabo arrasta-se dois
quilômetros de quatro, levando atrás de si os joelhos esmagados; Outro chega até o Posto de

Primeiros Socorros e, por sobre as mãos que os seguram, saltam os seus intestinos. Vemos homens
sem boca, sem queixo, sem rosto; encontramos um homem que, durante duas horas, aperta com os
dentes a artéria de um braço, para não ficar exangue. O sol se põe, vem a noite, as granadas
assobiam, a vida chega ao fim.
No entanto, o pedacinho de terra revolta em que estamos deitados foi conservado, apesar das
forças superiores; apenas algumas centenas de metros foram sacrificadas. Mas, para cada metro, há
um morto.
Chegam reforços da retaguarda, e somos substituídos, as rodas dos caminhões que nos levam à
retaguarda rolam sob nossos pés. Apáticos, de pé, quase adormecemos, e, quando vem a chamada:
“Atenção! Fios!”, abaixamo-nos.
Era verão quando passamos por aqui, as árvores ainda estavam verdes; agora, já têm um aspecto
de outono, e a noite é cinzenta e úmida.
Os caminhões param, descemos... um pequeno grupo de vivos, atirados para lá, confusamente,
restos de uma multidão de nomes. Pelos lados, há gente chamando pelos números dos regimentos e
das companhias. E, a cada chamada, destaca-se um pequeno grupo, um punhado insignificante de
soldados sujos, pálidos, um número terrivelmente reduzido e um remanescente terrivelmente
pequeno.
Agora, alguém chama o número de nossa companhia, reconhecemos a voz do comandante da
companhia; então, ele escapou! Seu braço está numa tipoia.
Aproximamo-nos dele, e reconheço Kat e Albert; ficamos juntos, apoiamonos um no outro e nos
entreolhamos.
E mais uma vez ouvimos chamar os números. Ele pode chamar durante muito tempo, mas nos
hospitais e nas trincheiras eles não o ouvirão.
Novamente: — Segunda Companhia, por aqui! Depois, mais baixo: — Mais ninguém da Segunda
Companhia?
Faz-se silêncio, e sua voz está embargada, quando pergunta: — Estão todos aí? E comanda: —
Numerar!
A manhã é cinzenta. Era ainda verão quando partimos, éramos cento e cinquenta homens. Agora,
faz frio, é outono, as folhas murmuram, as vozes erguem-se, cansadas: um, dois, três, quatro... e, aos
trinta e dois, calam-se.
Após um longo silêncio, uma voz pergunta: — Mais alguém? — espera, e diz baixinho: — Por
pelotões!
Mas interrompe-se e só consegue completar: — Segunda Companhia... — e, com dificuldade —
Segunda Companhia, em frente, marche!
Uma fileira, uma curta fileira avança naquela manhã.
Trinta e dois homens.

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