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SECRETARIA DE REGISTRO PARLAMENTAR E REVISÃO – SGP.4

EQUIPE DE TAQUIGRAFIA E REVISÃO – SGP.41

NOTAS TAQUIGRÁFICAS

SESSÃO SOLENE :




DATA:







A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT ) – Está aberta a sessão. Sob a proteção de Deus, iniciamos os nossos trabalhos.

A presente sessão solene destina-se à entrega do Prêmio Heleieth Saffioti, de acordo com a Resolução 02/2012, destinado a homenagear mulheres ou entidades de mulheres que tenham se destacado no combate à discriminação e na defesa dos direitos das mulheres, que contou com a aprovação unânime dos Srs. Vereadores desta Casa.

Passo a palavra à Mestre de Cerimônias para a condução dos trabalhos.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Boa noite a todos. Senhoras, senhores, autoridades, sejam bem-vindos à Câmara Municipal de São Paulo. Esta é a quarta edição do Prêmio Heleieth Saffioti, que foi instituído para homenagear e visibilizar mulheres e entidades de mulheres que tragam em sua trajetória o combate à discriminação e a defesa dos direitos das mulheres.

Heleieth Saffioti foi pioneira na América Latina dos estudos de gênero no universo acadêmico e também uma grande militante feminista. Neste ano de 2016, o Prêmio Heleieth Saffioti homenageará o Centro Informação Mulher e a jovem Lilith Cristina Passos Moreira, representando as estudantes feministas que participaram do Movimento de Ocupação das Escolas Estaduais em 2015.

Para compor a Mesa, convidamos as Sras. Vera Machado, representando, neste ato, a Marcha Mundial de Mulheres; Sandra Mariano, representando, neste ato, a Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras de São Paulo; Rute Alonso, Presidente da União de Mulheres do Município de São Paulo; Marta Baião, Presidente do Centro de Informação Mulher; Ana Rita de Souza Prata, coordenadora auxiliar do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher, Nudem; e os Srs. Adalberto Kiochi Aguemi, Coordenador da Área Técnica de Saúde da Mulher, representando, neste ato, o Sr. Secretário Alexandre Padilha, Secretário Municipal de Saúde; Herberth Ives Bongiovanni, irmão da Sra. Heleieth Saffioti; Denise Motta Dau, Secretária Municipal de Políticas para as Mulheres; Lilith Cristina Passos Moreira, estudante secundarista que ocupou as escolas no ano passado.

Convido, para seu pronunciamento, a nobre Vereadora Juliana Cardoso, Presidente e proponente desta sessão solene.


A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT ) – Boa noite. Tudo bem? Não tão bem? Mas até a nossa Professora Heleieth sempre trazia muita esperança mesmo que as coisas não estivessem andando tão bem. Ela nos ensinava a nunca desistir da utopia. Sei que estamos passando por tempos muito difíceis. Acho que só o período da ditadura militar foi pior com tantas pessoas presas e torturadas para que hoje tivéssemos a democracia e conseguíssemos estar neste plenário fazendo uma homenagem à Professora Heleieth e também a todas as mulheres que se dedicam, se mobilizam, se organizam e amam fazer com que as políticas públicas realmente aconteçam.

Só tenho a agradecer a presença de todos. Este Prêmio foi pensado pelo Movimento de Mulheres, com a Amelinha, e, depois, foi incorporado por todos os outros movimentos. Quem está hoje na organização para a escolha do Prêmio são os movimentos que têm uma atuação específica nas regiões. Não tem como fazer de outra forma.

Vocês sabem que muitas vezes nesta Casa há prêmios que quem faz a escolha dos homenageados são os Vereadores, mas não são todos que conhecem cada pedaço da Cidade.

Hoje a homenagem será entregue para a Marta, do CIM, e para a Lilith, mas com certeza, é também uma homenagem a todas as mulheres que nunca desistem da luta.

Muito obrigada. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos todos para, de pé, ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro.
- Execução do Hino Nacional Brasileiro.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos todos para assistirem à apresentação do Yayartes Bloco Carnavalesco Casa de Dona Yayá.

Nascido em março de 2000, dentro da União de Mulheres do Município de São Paulo, o Bloco da Dona Yayá foi pensado para chamar a atenção para a Casa de Dona Yayá, patrimônio histórico da humanidade desde a década de 1970, e incentiva a discussão de seu uso pela comunidade. O bloco costuma sair às ruas no domingo que antecede ao Carnaval e, neste ano de 2016, contou com a participação dos estudantes do Mazé (EE Maria José), uma das escolas ocupadas no ano passado pelos estudantes que se manifestaram contra o fechamento de algumas unidades escolares.


(NÃO IDENTIFICADA) – O Bloco da Yayá é muito espontâneo. Então, gostamos do engajamento das pessoas. Colocamos a letra da música que cantaremos para que todos possam cantar junto.
- Apresentação musical.
(NÃO IDENTIFICADA) – Somos todas mulheres crescidas e temos a fama de ficarmos bobas quando crescemos. Mas, hoje, vamos dar uma banana para essa fama.

Cantaremos, agora, uma música de autoria da Tia Dita, uma pessoa muito querida que não está mais conosco. Esta música faz muito sucesso em nosso bloco.


- Apresentação musical.
(NÃO IDENTIFICADA) – Agora, fizemos a próxima música especialmente para os estudantes do Mazé, para relembrarmos o episódio da tentativa de retirada dos estudantes, quando da ocupação.
- Apresentação musical.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos todos para assistirem a um vídeo, que relembra a trajetória de Heleieth Saffioti e que associa as suas ideias à luta desenvolvida pelas mulheres.
- Apresentação audiovisual.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos, para o seu pronunciamento, o Sr. Herberth Ives Bongiovanni, irmão da Sra. Heleieth Saffioti.
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT) – É importante acrescentar que ele sempre está presente, desde a primeira edição deste Prêmio. Ele faz questão de estar conosco, prestigiando o nosso evento.
O SR. HERBERTH IVES BONGIOVANNI - Para seguir o protocolo, boa noite a todas e a todos. O mês de março para mim é sempre um mês de alegria e, ao mesmo tempo, de tristeza. Eu fico contente por receber o convite e, ao mesmo tempo, fico triste porque eu gostaria de vê-la presente aqui. Eu não vou seguir o protocolo lendo cada ficha, desculpe, mas quero cumprimentar a Mesa toda e quero, em especial, cumprimentar a Vereadora Juliana. Não fosse ela, esse prêmio não existiria. Foi ela que o trouxe para a Câmara e conseguiu o prêmio.

Meus cumprimentos aos homenageados nesta quarta edição do Prêmio Heleieth Saffioti, ao Centro Informação Mulher e à jovem Lilith Cristina Passos Moreira, representando os estudantes e as estudantes que participaram do Movimento de Ocupação nas Escolas Estaduais em 2015.

Eu pensei bastante sobre a mensagem que gostaria de deixar nesta cerimônia e a inspiração me ocorreu quando soube da notícia sobre o falecimento de Ray Tomlinson. No último dia 5 de março, o Sr. Ray Tomlinson faleceu aos 74 anos de idade. O acontecimento foi amplamente divulgado pelas diferentes mídias do País que o qualificaram como o inventor do e-mail - e não conseguimos viver sem ele mais. Na semana seguinte, mais precisamente no dia 11 do mesmo mês, o articulista Pedro Dória, do Jornal O Estado de S. Paulo, publicou o artigo intitulado Quem (não) inventou o e-mail - provavelmente, muita gente leu essa notícia.

No texto ele explica que tudo começou com Noel Morris, já falecido, tido como um brilhante matemático pelos seus colegas do MIT, que, na primeira metade dos anos 60, com seu colega Tom Van Vleck, ainda vivo, inventaram um sistema de comunicação através de seus terminais de computadores, na época interligados apenas por telefone. Como eles trabalhavam no MIT, tinham o privilégio de ter computadores em suas residências, o que era uma situação excepcional na época. Os mais antigos da sala talvez se lembrem. Eu digo "antigos" porque eu nunca chamo de velho. Antigo é uma coisa que só se valoriza e o velho a gente joga fora porque já está velho.

A internet ainda não existia, mas havia o consenso sobre a necessidade de um sistema para a troca de mensagens através de computadores. Só em 1971 é que Ray Tomlinson entra em cena e ele entra em cena propondo, naquele sistema que eles tinham inventado, o uso do símbolo @, que ele escolheu por ser o símbolo menos utilizado do teclado e que em inglês significa at, e que em português é “em”, para indicar de onde vinha a mensagem e, portanto, em qual servidor ela se encontrava. Acrescentou ainda o “de” para indicar o remetente, o “para” para indicar o destinatário e o “assunto” que obviamente era o objeto da mensagem - contribuições fantásticas, considerando que hoje, depois de 45 anos, usamos esse mesmo ferramental diuturnamente. Mais tarde, em 1975, John Vittal melhorou ainda mais o projeto, acrescentando o comando “responder” para não mais ser necessário digitar o endereço do remetente ao se desejar responder. Parece que estou falando grego, mas vai ter um fim que vamos ligar tudo isso. Portanto, o e-mail, tal como o conhecemos hoje, se pode dizer que foi uma criação coletiva. Ninguém ficou milionário como o Bill Gates, felizmente, porque ninguém patenteou nenhuma dessas partes da criação e muito menos a criação. E a humanidade, todos nós, ganhamos uma ferramenta muito valiosa. Houve um pioneiro sim, mas muitos aperfeiçoaram a criação pioneira.

Penso que, da mesma forma, minha irmã foi uma pioneira com muitas ideais originais, mas foi só o início. Muitas pessoas estão continuando o seu trabalho, ou o trabalho que ela desenvolveu, expandindo-o e tornando-o coletivo em benefício de homens e mulheres. A todos e a todas, um profundo agradecimento de nossa família.

Obrigado. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Agradecemos muito e agora vamos chamar as mulheres que compõem a Comissão Organizadora do Prêmio que quiserem se manifestar aqui, começando pela Sandra.
A SRA. SANDRA MARIANO – Boa noite a todas e a todos. Mais uma vez, parabéns, Juliana, por manter esse Prêmio tão importante, como bem falou o Sr. Herberth. Lembrar a Heleieth Saffioti é lembrar toda a luta das mulheres. Para mim essa noite é superimportante porque é aquilo que nós falamos: nós estamos já numa fase da nossa vida em que muito fizemos, mas homenagear a Lilith é homenagear essa juventude que está aí. Essa juventude que nos fortalece para continuar a luta. Para mim é uma honra, Lilith, tê-la junto a nós, tanto você como todas as meninas que ousaram enfrentar aquilo que falamos que é o desgoverno, principalmente quando nós vamos falar da questão da educação. Se não tivermos educação nesse país, nada se constrói. Então, parabéns! E parabéns também a minha amiga Marta Baião e a nossa história, sempre juntas na luta contra toda e qualquer violência em relação à mulher.

Parabéns a vocês duas e muito obrigada por terem me convidado a fazer parte desta Mesa com vocês. (Palmas)


MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos, para o seu pronunciamento, a Sra. Ana Rita.
A SRA. ANA RITA DE SOUZA PRATA – Boa noite a todos. O Núcleo da Mulher da Defensoria Pública tem muita honra em participar da Comissão. Gostamos de participar, de discutir e de aprender. Hoje em dia, temos discutido muito no Núcleo a questão de gênero nas escolas e o quanto há um movimento bastante fortalecido não só para retirar, mas para discutir e inclusive criminalizar esse termo. Talvez hoje o gênero seja o termo que ocupa o lugar que antigamente ocupava o termo feminismo.

Estar neste espaço de acolhimento, em que todo mundo entende o quão preciosos são esse discurso e essa luta, nos dá força para continuarmos perseguindo esse ideal.

Parabenizo vocês duas e agradeço à Vereadora Juliana. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos, para o seu pronunciamento a Sra. Rute.
A SRA. RUTE ALONSO – Boa noite a todos. É um prazer compor esta Mesa e, como representante da União de Mulheres, não poderíamos deixar de nos lembrar da Amelinha Teles. Na verdade, esta homenagem é uma “feminagem” feita à Lilith e ao CIM, na figura da Marta Baião. Acho extremamente emblemático que haja essa interação geracional entre as “feminageadas” e os grupos “feminageados”.

Que a Heleieth Saffioti esteja hoje presente aqui para que, dessa forma, possamos manter viva a sua memória por meio de toda a luta que ela encampou como militante feminista e por meio de todo seu acervo, toda sua produção acadêmica, nosso arcabouço, nossa referência.

Esta é uma noite fantástica, na qual podemos congregar várias “atrizes” e é quando podemos pensar nas nossas propostas e continuar discutindo o gênero na educação, que nos mostra o quanto de enfrentamentos ainda temos de ter na luta contra a violência em relação à mulher. Relatos de mortes são cotidianos e alarmantes, mas é no movimento feminista atual que podemos vislumbrar um respiro para continuarmos com esse enfrentamento.

Agradeço o convite para participar e parabenizo as “feminageadas”. (Palmas)


(NÃO IDENTIFICADA) – Boa noite a todos. Parabenizo a Vereadora Juliana Cardoso pela iniciativa. Este é o quarto momento da “feminagem”, palavra muito importante agora adotada no nosso vocabulário. São duas homenagens muito importantes e muito interessantes.

Primeiramente, vou falar do CIM, que representa para nós, mulheres dos movimentos, um espaço muito importante de resistência das mulheres, um espaço de articulação dos movimentos de mulheres na cidade de São Paulo. Lá foram construídos vários “8 de março”. Lá foram construídos vários momentos de resistência e de denúncia.

Esta é uma grande homenagem ao nosso espaço, ao CIM, que parabenizo na figura da nossa companheira Marta Baião.

A Lilith, um nome tão significativo para uma jovem, foi à luta, reagiu juntamente com vários estudantes e um número significativo de mulheres jovens contra o golpe em relação à educação do Estado de São Paulo. Precisamos saber que isso não foi nada mais, nada menos que um golpe contra a educação.

Parabenizo essas jovens mulheres pela reação e pela luta, que continua. Queremos nos somar a vocês. Seguiremos em marcha até que todas nós sejamos livres. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos, para o seu pronunciamento, o Sr. Adalberto.
O SR. ADALBERTO KIOCHI AGUEMI – Boa noite a todos. Agradeço o convite para representar o Secretário Municipal de Saúde Alexandre Padilha. Para nós é um prazer fazer parte deste evento, já que vários projetos e ações da Secretaria Municipal de Saúde são voltados às mulheres. Por isso também nos sentimos bastante à vontade, já que faz parte das nossas ações do dia a dia a implementação de várias políticas voltadas às mulheres, que entendemos que não podem ficar só no campo da retórica, mas que têm de ser concretizadas. Acredito, portanto, que essa parceria com a Vereadora Juliana é muito potente.

Entendo que este evento é também fundamental por existirem várias ações, sobre as quais não vou me aprofundar neste momento, como a humanização do nascimento, as casas de parto, a inserção de enfermeiras obstetrizes, a inserção da Casa Ângela no SUS, que têm se mostrado muito potentes em prol da concretização desse melhor cuidado e desse melhor acolhimento das mulheres num momento tão delicado como o nascimento.

Acredito que essa mudança do modelo do nascimento tem ocorrido, sim, no Município de São Paulo, como mostram estes dados recentes: 72% dos partos naturais são realizados no Município de São Paulo, gestão municipal, por enfermeiras obstetras e não por médicos. Na gestão estadual, 40% dos partos são realizados por enfermeiras e 60% por médicos, sendo que, na rede privada, apenas 10% são realizados por enfermeiras obstetras e 90% por médicos e 88% dos partos são cesarianas. Entendemos que isso é uma agressão ao corpo feminino e o nascimento natural, a autonomia para decidir é um resgate, uma preservação do corpo feminino e um respeito a ele.

Temos trabalhado fortemente esse cenário. A realização de concurso para enfermeiras obstetras e obstetrizes, que ocorrerá em breve, é uma mostra dessa nossa ação concreta em prol da mudança e do fortalecimento da autonomia da mulher no momento do parto. Esse cenário é muito importante no resgate de um cuidado mais respeitoso à mulher.

Um aspecto que gostaria de destacar em relação a este prêmio, além da autonomia econômica da mulher, é que ele se mostra indutor da participação social e política da mulher. No Brasil, apenas cerca de 10% das mulheres têm participação na política. É importante, no entanto, que essa participação não se dê apenas por meio de movimentos sociais, mas que a mulher se insira concretamente nos partidos políticos e mude esse cenário, que é machista. Essa evidência da participação social é importante, mas a mulher também tem de se inserir fortemente nos partidos políticos para mudar essa prática.

Vejam vocês, no Reino Unido, a participação política da mulher ocorre em torno de 29% e, na Alemanha, de 36%, ou seja, cabe a vocês mudarem esse cenário político para que tenhamos um novo tipo de cenário e um novo tipo de país.

Obrigado a todos. Boa noite. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convidamos, para o seu pronunciamento, a Sra. Denise, nossa Secretária.
A SRA. DENISE MOTTA DAU – Boa noite a todas e a todos. Quero iniciar saudando o Sr. Herberth Ives, irmão da Sra. Heleieth Saffioti e a Vereadora Juliana Cardoso pela iniciativa tão importante de implantar o Prêmio Heleieth Saffioti, que já está em sua quarta edição. Também saudar a Comissão de entidades, de companheiras, que selecionou as homenageadas, e as nossas premiadas de hoje: as Sras. Marta Baião e Lilith Cristina.

Antes de falar da importância das nossas premiadas de hoje, quero falar da importância dessa iniciativa por parte da Vereadora Juliana Cardoso e da importância que o mandato dela nos trouxe. Não sei se as jovens do movimento “Não fechem minha escola” sabem quantas Vereadoras há nesta Casa. Dentre os 55 Parlamentares, há cinco Vereadoras - e uma é do campo democrático popular, que está nesta Mesa. E falar da importância do seu mandato, porque quando uma liderança feminina faz um trabalho sério, é muito importante reconhecermos para garantir legitimidade. Muitas vezes, Parlamentares homens não têm toda essa legitimidade e são muito citados e apoiados. Por isso é muito importante citarmos a importância do mandato da Sra. Juliana e como ele veio crescendo.

Lembro que este é o seu primeiro mandato, você veio do movimento popular e trouxe muito essa questão da luta pelo parto humanizado, projetos nessa área e foi dialogando com o movimento feminista cada vez mais, agregando políticas e propostas ao seu mandato, resultando no fato de que, na trincheira de termos a questão da igualdade de gênero no Plano Municipal de Educação, você foi a Vereadora que dialogou com o movimento, que resistiu, que não votou pela proposta que estava em pauta, que excluía a igualdade de gênero de todos os temas da Educação. Como alguém disse aqui: “Foi proscrito” - em tese, porque, na nossa atuação, na nossa cabeça e nas nossas formulações, não, e até nas políticas públicas que a Prefeitura está desenvolvendo.

Por isso foi fundamental a sua atuação e a sua resistência. E você não tinha apenas essa história, mas outras tão importantes quanto. Mas você foi agregando valores, dialogando, por isso considero muito legal esse crescimento do seu mandato. Agora que estamos chegando às vésperas de mais uma eleição para Vereança, acho importante esse reconhecimento, isso ter visibilidade e ser divulgado, porque senão vamos perdendo os momentos de valorizar as nossas lideranças.

Então, esse Prêmio é uma das suas iniciativas e sua atuação veio num crescendo importante. Por isso vamos torcer e trabalhar para a sua reeleição como Vereadora. Muita gente aqui neste Plenário deseja e vai lutar por isso. Pode contar conosco. (Palmas) Temos muito orgulho do seu mandato. Fomos nos aproximando, construindo ações conjuntas e estaremos juntas no próximo período novamente.

Quero falar dessa escolha feliz feita pela Comissão, por que ela selecionou as Sras. Marta Baião e Lilith Cristina. Quem é Marta Baião? Há aqui um currículo enorme dela, de Graduação em Artes Plásticas, Especialização em Psicodrama, Doutorando em Artes Cênicas, mas ela, para mim, é assim: quando eu era jovem, lá nos anos 90, no sindicalismo, eu falava: “Gente, vamos fazer algo mais lúdico, não tanto discurso, só que politizado...”. Logo falavam para chamar a Marta Baião. Até hoje é assim, quando estou lá na Secretaria de Política para as Mulheres e pensamos em quebrar aquela coisa de sempre, tradicional, lá falam: “Chama a Marta Baião”. Até recentemente ela fez atividades conosco.

Então ela é a pessoa que traz o debate da Lei Maria da Penha, de forma lúdica; das desigualdades de gênero, interpretando em suas peças o cotidiano das mulheres; ela vai aos sindicatos, interpreta aquela coisa bem básica da agressão cotidiana, mas de um jeito que vai fazendo as mulheres refletirem, as mulheres compreenderem sua situação muitas vezes de submissão, uma submissão naturalizada que elas acham que é da vida, que faz parte, que é assim mesmo. E elas começam a questionar, por isso acho muito legal esse acerto. E representando o CIM.

Eu também frequentava o CIM, quando estava localizado na Praça Roosevelt. Quantos anos faz que mudou, Marta? Faz seis anos que mudou, mas por um bom tempo esteve ali, nesse endereço e ele significa um acervo muito grande de bibliografia e de material feminista, que é referência para muitas pesquisadoras. Então, a Marta é uma figura que tem muita tradição entre nós e tem muito o nosso respeito, porque consegue, por meio das suas artes dramáticas, problematizar o drama que as mulheres vivem, de forma um pouco mais leve, e as leva a refletirem para enfrentar essas desigualdades e a opressão.

E a Lilith, que representa um movimento muito recente, um movimento liderado por jovens - como disse a Vera, muitas jovens mulheres -, enfrentando a Polícia Militar e enfrentando uma repressão muito forte contra a desorganização escolar que o Governo Estadual pretendia fazer. E uma luta que ainda continua, não é? Como costumamos dizer: A luta continua sempre.

Eu estava com um relatório dizendo que 594 classes já foram fechadas e que podem chegar a 1.600.


A SRA. LILITH CRISTINA PASSOS MOREIRA - Já são 1.300 salas fechadas.
- Manifestação na plateia.
A SRA. DENISE MOTTA DAU – E sem merenda. E ainda essa luta toda do movimento para apurar o escândalo da merenda no Estado de São Paulo e para que essa desorganização escolar, chamada de “organização”, não avance.

Então são muitas as lutas: por um ensino público de boa qualidade e por uma série de questões. Acompanharmos e apoiarmos toda essa luta é fundamental, e sofremos muito junto com vocês. Vocês estavam lá, sentindo na pele, fazendo ocupação e como costumamos dizer: quem sabe, sente. Quer dizer, só quem está lá é que sabe.

Cadê nossa merenda? (Palmas)

O nosso respeito e a nossa alegria em saber que há sucessão de mulheres, jovens, militantes, lutadoras para ocupar os diversos espaços. Essa luta desenvolvida por vocês foi muito importante para todos e para todas nós. Vocês conseguiram acuar o Governo Estadual, que, como costumamos dizer, se blinda muito, que consegue se blindar pela mídia. Por mais que tivéssemos denunciado a falta de água em São Paulo; a falta de planejamento, depois de quase 18 anos de tucanato no Estado de São Paulo; todo esse descaso com vários direitos da população, com a Educação foi mais visível, mas vemos tanto descaso na área da Saúde: não abriram mais nenhuma unidade de saúde; mais de 60% das unidades estão gestadas por entidades privadas, por OSs; ausência de diálogo com o funcionalismo, com professores, com profissionais de Saúde; enfim, uma série de questões, e vocês conseguiram acuar esse Governo, expor esse Governo. Então, acho que foi uma luta fundamental.

Concluo dizendo que, com certeza, ouvi a Dra. Heleieth Saffioti, quando eu era do movimento sindical, falar tanto das desigualdades de gênero no mundo do trabalho. A gente olhava para ela e falava: “Nossa, ela fala com uma propriedade, com uma riqueza de detalhes”. E para colocar isso em prática? E, na negociação sindical, para inserir uma clausulazinha de igualdade para as mulheres, seja o direito à creche, seja a igualdade salarial, sejam diversas tantas outras reivindicações, ela colocava uma responsabilidade grande para nós, sindicalistas.

Eu tenho certeza de que, se estivesse viva hoje, ela que tanto lutou pela superação dessas desigualdades de gênero no mundo do trabalho e na sociedade, teria um lado, o lado da defesa da democracia; porque eu sei que quem olha para as desigualdades tem certeza e tem consciência de que não há como setores vulneráveis - os negros, as negras, as mulheres e o público LGBT - terem direito a expressar sua diversidade, se não for na democracia. Então, com certeza, ela estaria dizendo junto conosco: “Não vai ter golpe”. (Palmas)


- Pessoas, em coro, dizem: “Não vai ter golpe, vai ter luta”.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Eu queria fazer uma pequena alteração aqui na ordem, já que as meninas estão aqui, propondo que a gente assista ao vídeo que foi feito por algumas estudantes secundaristas. É um vídeo chamado “Assédio”, sobre a questão das mulheres. Vocês podem sentar para assistir.
- Apresentação de vídeo.
(NÃO IDENTIFICADA) – De todas as maneiras que o machismo acontece na nossa sociedade, uma das formas que mais me incomoda é aquela que é pequenininha, que está ali no dia a dia, que acontece o tempo inteiro e que é normal. Para todo mundo é normal. Então, a gente sofre, o tempo inteiro, assédio no ônibus e no metrô. Na balada então, meu Deus do céu. É uma loucura. Parece que, na balada, existe um senso comum, de que as mulheres estão à disposição dos homens. Eu cansei de contar as vezes em que eu chamei segurança para tirar alguma pessoa inconveniente que agiu com certa agressividade comigo, de puxar um braço, de não querer me soltar, em bar, em show. Isso é muito comum.
- Exibição de vídeo.
(NÃO IDENTIFICADA) – Impunidade. Por muito tempo, eu tinha vergonha de ser o que eu era; e o abuso está em fazer as pessoas se sentirem mal por serem quem são. Eu sou gorda, negra, lésbica, sapatão, periférica e, dentro disso, não tenho nenhuma vergonha em ser quem eu sou. Ninguém tem que me fazer menos, porque eu sou isso. É só o jeito que eu sou. É só o jeito que eu me relaciono. É só o jeito que me encontro no espaço. Essa impunidade das pessoas que me fizeram sentir mal por isso reflete até na forma que eu me relaciono com todas as outras pessoas.
(NÃO IDENTIFICADA) – Abuso é o machismo implantado na cabeça da sociedade.



- Exibição de vídeo.

(NÃO IDENTIFICADA) – Eu me lembro de que eu tinha 13 anos. Eu ia a pé para a escola onde eu fazia inglês, porque eu tinha conseguido uma bolsa. Aí, não havia muito ônibus para pegar e não havia ninguém para me levar. Eu não queria desistir de fazer, porque eu não pagar nada; e eu fui indo assim a pé mesmo. Era perto de casa, tipo, uns 15 minutos. Em Santo André, há uma avenida bem grande, com um canteiro no meio. Haviam construído um caminho para a gente passar. Eu ia pelo canteiro. Achava bonito. Tinha uma impressão bucólica de andar pelas árvores. Achava legal. Aí eu fui, na minha humildade, com 13 anos, achando que eu podia ser dona do mundo. Só que os matos em volta estavam muito grandes. Daí, do nada, saiu um cara. Os dois lados da avenida eram supermovimentados. Saiu um cara do meio do mato, com a calça abaixada.


Eu não me lembro de ter visto, mas eu me lembro de perceber que ele estava com a calça abaixada e estava vindo para cima de mim. Aí eu saí correndo, correndo, correndo. Eu não sabia para onde correr, porque eu não podia correr para os lados, porque era uma avenida. Também não podia para trás, porque ele estava atrás, onde teoricamente era a minha casa.

Eu não tinha celular. Não havia essas coisas assim. Aí eu fui correndo até à escola, porque eu não sabia onde parar para pedir ajuda, para dizer. Aí eu lembro que cheguei à escola muito assustada, tremendo. Eu corri muito esse dia. Eu devo ter corrido por uns 10 minutos. Aí eu tremia, tremia, tremia; e as pessoas me perguntavam o que havia acontecido; e eu tinha vergonha de dizer o que tinha acontecido comigo. Eu tinha vergonha de dizer que um homem tinha saído do meio do mato, com a calça abaixada, e eu tive medo de ser estuprada, porque ele podia me puxar e me segurar. Ninguém nunca ia ouvir, porque era uma avenida enorme.

Aí me perguntaram o que aconteceu. Eu lembro que eu fiquei uns cinco minutos calada, assim meio em choque; e, quando eu consegui falar, disse que tinham tentado me assaltar, porque eu tive vergonha de dizer que um cara saiu do meio do mato com a calça abaixada e tentou me agredir. (Palmas)
- Exibição de vídeo, com fundo musical. (Palmas)
MESTRE DE CERIMÔNIAS - Eu queria chamar a Laura e a Bia, que foram duas das estudantes que fizeram esse vídeo , para darem um salve para a gente.
A SRA. LAURA - Primeiramente, boa noite a todos. Somos alunas do Colégio São Domingos e queríamos agradecer pela oportunidade de estar aqui.

A SRA. BIA - Esse vídeo foi uma proposta do colégio. Eles falaram para nós fazermos um manifesto, não necessariamente em vídeo, mas escolhemos a questão do assédio e, optamos pelo vídeo, pois queríamos trazer a vivência das pessoas nessa questão, tipo: o que elas vivem todo dia e o que acham sobre isso.

E também queríamos meio que mostrar, principalmente para os meninos da nossa escola, porque tipo parece que eles não têm noção de que isso acontece. E queríamos justamente mostrar que isso é real e que acontece todo dia. Não tem uma menina que não sofreu isso na vida.


A SRA. LAURA - Exatamente. E nós usamos depoimentos de várias meninas que, inclusive, são da nossa escola, mas também de outras mulheres, para falar como isso afeta no cotidiano, enfim, o que essas palavras causaram, o que elas sentem, tipo a indignação de não poder andar na rua, sendo livre e sendo você mesma, com a roupa que você quer, porque pode ter alguém que vai fazer mal para você. Pode um homem cismar com a roupa e fazer mal para você por causa disso.

E, no nosso manifesto sobre assédio, fizemos o texto e o vídeo e é isso. Obrigada. (Palmas)


A SRA. BIA - Na verdade, não perguntamos para todo mundo se pode postar.
A SRA. LAURA - Nós pretendemos colocar, só que ainda não está. Também queremos disponibilizar o texto também.

Obrigada. (Palmas)


MESTRE DE CERIMÔNIAS – Agradecemos às meninas e a todos que contribuíram com a produção do vídeo. Acho que é uma aula para todas nós. E, agora, vamos para mais uma apresentação cultural, com o grupo Mal-Amadas – Poética do Desmonte. É um grupo de teatro feminista, criado em 1992, no CIM – Centro de Informação Mulher.
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT) – Quero ver todo mundo agitar. Vamos, parece que vocês estão dormindo aí na cadeira. (Risos)
- Apresentação musical.
A SRA. MARTA BAIÃO – É a primeira vez que estamos cantando essa música em público. Faz parte da nossa peça e ganhamos o Prêmio Zé Renato, da Secretaria de Cultura. Estrearemos em abril e a peça se chama Vulvar (no lugar dela). (Palmas)

Agora, a nossa homenagem ao Bloco da Dona Yayá. Copiamos uma música deles e vamos cantar juntos, porque somos um bloco somente. E hoje faremos a nossa homenagem à União de Mulheres e ao Bloco da Dona Yayá.


- Apresentação musical.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Marta, peço que se encaminhe ao centro da Mesa. Convido todas as integrantes da Comissão Julgadora para uma foto.
- Registro fotográfico.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Agradeço a todas as integrantes da Comissão Julgadora e a toda a equipe de eventos da Câmara Municipal de São Paulo, em nome da Raydalia, que sempre organiza essa atividade com muito carinho. Muito obrigada a toda a equipe.

Neste momento solene, faremos a entrega do Prêmio. Homenagearemos o Centro de Informação Mulher, na pessoa da Sra. Marta Baião.

Surgido em 1979, o Centro de Informação Mulher – CIM - é uma Organização Civil do Movimento de Mulheres, que desenvolve atividades e ações com o objetivo de acervar e divulgar a história das mulheres nos movimentos sociais, no cotidiano, no trabalho, nas artes, em todos os espaços.

O CIM é histórico para a luta das mulheres na cidade de São Paulo e essa homenagem não é nada menos do que muito justa. Uma salva de palmas para o CIM. (Palmas)


- Entrega de homenagem, sob aplausos.
MESTRE DE CERIMÔNIAS - Convidamos a Sra. Marta Baião, para o seu pronunciamento.
A SRA. MARTA BAIÃO - Agradeço a todas e a todos os presentes.

Agradeço à Vereadora Juliana Cardoso e a todas que compartilharam a escolha desse Prêmio para o CIM e para a representante das estudantes feministas, Lilith.

Mas, antes de tudo, quero dizer que qualquer coisa que aconteça nesse momento de tanto risco para a nossa democracia, chamamos de ato de resistência. Isso é uma celebração, mas acima de tudo, um ato de resistência.

E, como um ato de resistência, quero mencionar as figuras que gostaria de homenagear, principalmente o guerrilheiro e artista César Teles; as nossas companheiras Rosângela Arrigo; Lurdinha; Célia; a companheira Sonia Leite; a minha tia Marilda Baião, a primeira presidente de um sindicato de bancários do Espírito Santo; e tantos outros companheiros e companheiras que se foram na luta e que já fazem uma falta imensa.

É muito importante essa homenagem e me sinto muito honrada em fazer parte de um prêmio de uma mulher tão corajosa como a Heleieth Saffioti. Ela enfrentou uma academia misógina, que rompeu com os preconceitos que tratavam as mulheres a partir do corpo, do esqueleto dos homens. Rompeu com essa visão biologizante, que nos falava sempre de inferioridade e de supremacia masculina.

Devo dizer, então, que essa guerreira tem de ser homenageada todos os dias. A querida Vereadora Juliana Cardoso teve a coragem de instituir esse prêmio e é tão corajosa quanto.

Sou extremamente grata a todas as gerações que me antecederam. Jamais estaria aqui, agora, falando qualquer coisa, se antes de mim não houvesse tantas mulheres feministas e corajosas em tempos, eu não diria tão piores, do que o que estamos passando hoje.

Agradeço à União de Mulheres; à Amelinha; à Marcha Mundial das Mulheres; à Vera, que já falou do CIM; à Denise Dau; à Sandra Mariano; à companheira da Defensoria; a todas que já falaram bastante sobre o CIM.

Só quero lembrá-las de que o CIM é um espaço de resistência. É uma entidade hoje de pequeno porte, que sofre com o acirramento dessas políticas neoliberais desse capitalismo; e, entre as entidades, com certeza, as de menor porte têm sofrido muito mais com a criminalização dos movimentos sociais.

Nós somos um espaço de resistência sim, que está de pé porque temos companheiras lá dentro. Inclusive, nossa nova diretoria é composta por Rosimar, Cristina de Cássia, Neusa Brito e companheiros e companheiras que, dentro do CIM, nos ajudam na luta. Nós estamos na luta todos os dias, principalmente neste momento que oferece tanto risco para todos. Hoje não existe nenhum movimento que não seja de resistência, e vamos lutar, e vamos gritar todos os dias até que essa direita fascista entenda que este país não suporta mais nenhum tipo de política de opressão.


- Aplausos na plateia.
A SRA. MARTA BAIÃO – Não vai ter golpe, vai ter luta! Não vai ter golpe, vai ter luta! Não vai ter golpe, vai ter luta! Não vai ter golpe, vai ter luta! Obrigada. (Palmas)
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT) – Agora, peço ao pessoal da Comissão que venha compor a Mesa, pois vamos passar à próxima homenagem.

Peço agora à Lilith que se posicione perto de nós - e eu quebrando o protocolo -, porque suas companheiras querem homenagear não só você como também a luta das mulheres e dos estudantes que ocuparam as escolas.


- Apresentação de jogral.
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT) – Neste momento, convido a ativista do movimento Levante Popular da Juventude, Lira Alli, para fazer a entrega de homenagem à Lilith Cristina Passos Moreira, neste ato representando as estudantes feministas que participaram do Movimento de Ocupação das Escolas Estaduais em 2015. Parabéns a todas vocês.
- Entrega de placa de homenagem à Lilith Cristina Passos Moreira, sob aplausos.
- Registro fotográfico.
MESTRE DE CERIMÔNIAS – Convido todos e todas a virem à frente para um registro fotográfico coletivo. Tragam a faixa também. Todas as gerações de todas as mulheres lutadoras, sempre recordando Heleieth Saffioti e todas as mulheres que nos antecederam e fortaleceram todas as que vieram depois para seguiram na luta.
- Registro fotográfico.
- Manifestações com o bordão “Não vai ter golpe, vai ter luta!”.
- Palmas.
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT) – Gente, quero agradecer a todos, a todas. Dizer que o Luís Eduardo entregou a vocês convite da Cantata para Mulheres, que será na próxima sexta-feira, e eu conto com a presença de todos.

Agora tem a palavra a nossa companheira, a jovem Lilith Cristina Passos Moreira.


A SRA. LILITH CRISTINA PASSOS MOREIRA – Boa noite, gente. Quero agradecer a oportunidade de estarem reconhecendo a nossa luta.

Eu dei uma entrevista mais cedo, antes de começar a premiação, e eles usaram a palavra liderança, e essa palavra foi totalmente proibida em todas as ocupações. Sempre que a polícia chegava, era engraçado, o pessoal sempre falava: “Ah, chama a Lilith”. E aí o pessoal sempre perguntava: “Quem é o líder?”. E a gente sempre falava: “Não tem líder, não existe líder”.

O que a gente tá mostrando, o que legitimou ainda mais o movimento foi a forma autônoma de se organizar. Uma forma de mostrar que não precisa de autoritarismo para fazer Educação, não precisa reproduzir Educação em fileiras. Eu não preciso seguir o mecanismo de chegar à escola, ir pra sala, sair da sala, ir ao pátio e ir pra casa. Posso aprender de outras formas, posso aprender com a minha autonomia; posso aprender me empoderando; posso aprender discutindo política todo dia, respirando política, dormindo política, sonhando política.

O que a gente estava fazendo lá era discutir política porque o estudante de escola pública é moldado justamente pra sair da escola um adulto, um trabalhador cansado, que chega a casa sempre dizendo que política e religião não se discutem. E política e religião se discutem sim, se discute muito, se discute sempre! (Palmas) O que a gente estava fazendo lá era discutindo política toda hora, respirando política.

Mais do que isso, era uma linha de frente formada totalmente por meninas, e isso foi o mais incrível que aconteceu durante as ocupações.

A minha escola fica na região central e é claro que é uma região um pouco mais privilegiada, mas houve escolas na periferia que não tiveram tanta atenção quanto a minha; não tiveram tanto auxílio quanto a minha; não tiveram tanto apoio quanto a minha. Sofreram muito mais do que a minha escola.

Então esse prêmio não é só pra mim, esse prêmio é para todas as meninas que estavam na linha de frente das ocupações! (Palmas) Inclusive as minas da periferia, as minas que estavam na linha de frente tiveram um momento seu, e nunca tiveram voz pra falar. Era aquela mina pobre, negra e periférica que nunca teve voz para falar, ninguém nunca quis escutar. E era um momento em que elas estavam gritando muito e conduzindo o movimento.

A minha escola sofreu uma repressão supertruculenta, quando a gente estava com uma semana de ocupação. A gente estava superinexperiente, superinseguro, sofrendo ameaças todo dia.

Soubemos um dia antes, através de uma reunião que foi chamada dentro de uma igreja. Nós não fomos comunicados dessa reunião, a gente ficou sabendo de surpresa. E a gente chegou lá - nessa reunião de surpresa -, e essa reunião tinha a Direção, pais contrários à ocupação, alguns professores, alguns alunos. Quando eles viram que a gente chegou à reunião, eles ficaram malucos, ficaram totalmente exaltados. E, no final dessa reunião, eles decidiram que eles iriam para a porta do Mazé, às 8h da manhã, para nos tirar à força de lá. Só que nós pensamos que seriam somente alguns pais.

Na porta do Mazé, nós pensarmos que seria eficiente colocar uma caixa de som e um microfone para conversar com esses pais e tentar ouvir o que eles tinham para falar e mostrar o nosso posicionamento. O nosso intuito era mudar algumas ideias por meio de uma discussão política, para chegarmos a um consenso. Só que não foi isso o que aconteceu.

Estávamos em 12 pessoas, porque eram 8h da manhã. Estava somente o pessoal que tinha dormido na ocupação. E eles estavam em 80 pessoas. Eram 80 pais. Eram 10 viaturas de Polícia Militar. Então nós entramos em desespero. Pensamos que já era, que iríamos perder a ocupação, que o movimento iria acabar, que nos iríamos enfraquecer, que iríamos apanhar, e que ficaria feio para nós.

Nesse momento, em que todos estavam espalhados pela escola, tentando fazer barricada, pegando mochilas – porque tínhamos certeza de que iríamos perder a ocupação –, e porque sabíamos que eles iriam entrar na escola, nós trancamos todas as salas, para eles pegarem, não quebrarem nada, e não nos culparem. Como eu tenho uma simpatia pelo microfone, eu fiquei ao microfone conversando com os pais, na portaria, e os outros alunos ficaram espalhados pela escola. Eu pensei: “Meu, eu vou colocar a caixa de som na portaria, porque faz eco, e todo mundo que estiver na escola vai escutar o meu grito, porque eu vou gritar muito e eu vou assustar todo mundo. Porque, se eu não posso através da minha força, vai ser através do meu grito, porque eu grito muito”. Então eu coloquei a caixa de som na portaria e comecei a gritar: “Não tem arrego!”. Aí o diretor da escola conseguiu entrar e destruir as nossas barricadas, conseguiu alcançar o pátio, que era onde eu estava. Ele veio na minha direção, e eu fui afrontá-lo, porque eu não ia ter medo de autoridade nenhuma. Aí eu olhei bem para a cara dele e falei: “Não tem arrego!”. E ele veio na minha direção e me deu um tapa na cara. E, nessa hora, eu fiquei sem reação, e os meus amigos, que estavam atrás de mim, foram me defender. Só que eu percebi que não iria ser o suficiente, porque eu que levei o tapa, e eu que não tive reação, e eu estava me sentindo um nada, porque um cara, que se diz educador, estava agredindo uma aluna dele que estava lutando por educação. Qual o sentido disso? Não tem sentido.

No momento em que os meninos foram em cima dele, ele estava cercado de policiais militares, então todos os meninos apanharam, e ele ficou superprotegido. E, quando os meninos começaram a apanhar, a polícia começou a reprimir com muito spray de pimenta. E aí eu falei: “Meu, vamos todo mundo para o pátio. Vamos voltar para o pátio e sentar lá”. E aí, quando eles viram que nós estávamos sentados no pátio, eles reprimiram com mais spray de pimenta e fecharam a porta do pátio conosco lá dentro. E, como nós tínhamos trancado as salas, não tinha como nós entrarmos na cozinha para pegar água. Então nós estávamos passando muito mal, muito, muito mal. Houve uma hora que eu falei: “Meu, vamos sentar aqui e ficar até o último minuto”. E aí entraram alguns pais também falando: “Vocês têm de sair”. Eu falava: “Não, a gente não vai sair, a gente vai ficar até o último minuto, a gente vai resistir”. E aí a gente sentou e fez uma roda.

Eu lembro que tinha alguns policiais militares que abriram a porta do pátio e começaram a observar a nossa roda. Por sorte, eu estava com a minha mochila, eu a abri e peguei uma caneta. Olhei bem para a cara deles e gritei: “Está aqui a minha arma! A minha arma é esta”. Eles ficaram sem reação.

E aí começaram a entrar os vizinhos, que viram que a escola sofrendo repressão e começaram a trazer água para nós. Foi a cena mais linda, de escola pública mesmo, fazendo da escola pública uma escola pública, porque é vizinho, é professora, é comunidade, e os vizinhos estavam entrando na escola para trazer água para a gente.

Eu não sei de onde surgiu uma mãe, essa linda mãe, que entrou no meio da roda e começou a declamar uma poesia. E foi ali que se percebeu que a gente recuperou a ocupação. Foi bem irônico, porque o sinal tocou e os policiais foram embora. (Risos.)

Tem até um vídeo dos Jornalistas Livres, que está tocando o sinal e eles, os policiais, estão descendo as escadas, indo embora. Até alguns professores perguntaram para mim se era montagem. Eu falei: “Não, foi coincidência”.

A prova de tudo isso foi ali, naquele momento, que a frase “Ocupar e resistir” fazia muito sentido, que a gente percebeu o ocupar e resistir, mesmo. A gente estava resistindo.

Muita gente me pergunta o que eu fiz e tal. Depois que a gente conseguiu acalmar as coisas, fui para a delegacia, fiz Boletim de Ocorrência, exame de corpo de delito, tenho tudo registrado.

O diretor não aparece mais na escola por vergonha de ser quem ele é.

No meio do caminho, decidi que eu queria dar uma resposta, quero ler uma poesia aqui, se não tiver ultrapassando o tempo. Pode ser? Queria dar resposta para o Sr. Vladimir Fragnan.
Virgem

(Autoria de Luiza Romão)


Este texto não é um texto,

Este texto é um parto,

Tem a dor do que parte,

Do que fica, do que nasce.


Ser virgem

Está muito além de um hímen,

De a palavra ter ou não ter hífen;

É matéria-prima,

Barro úmido,

Húmus:


Human, woman, women.
Homem,

Eu não nasci da sua costela.

Vim ao mundo pelas mãos

De alguma obstetra,

Filha de mãe, mulher, donzela -

Não a


Bela-pequena-aurora-adormecida-sereia-de­chapéu-vermelho,

Não.


Sou filha da outra:

A que tem suor, sangue e leite,

A que labuta com dois filhos nas costas

E um no peito.


Tornar-se mulher

Pela perfuração de um falo?

Falácia.

Habito meu próprio corpo

Falho

Que fala e convalesce



Sob as súplicas

De outra prece:

Não à nossa-senhora-mãe-gentil-virgem-imaculada,

Não.


Mas à padroeira das putas,

Das histéricas

E tresloucadas,

Das mulheres-Medeia

E das Clitemnestras,

Das malditas

E revolucionárias,

Rosas, Marias, Joanas, Zuzus, Pagus, Fridas,

Sofridas e incansáveis,
Meninas em gestação

De ser mulher,

Meninas que sangram

Mês a mês

Possibilidades de si,

Que abortam o que não teve lugar,

O que não pode ser,

Meninas em gestação,

Mulheres em gesto

E ação.
Não colocarei o pau na mesa

Se você vem com

“Porra, porrada, caralho”.

Mostro meus peitos abertos,

Meus seios e anseios fartos

Dessa gramática de barbárie.
Porque o ser mulher

Está muito além de um artigo feminino

Definido ou indefinido,

Muito além

De um artigo feminino

Em liquidação numa loja barata de cosméticos,

De um artigo feminino

Publicado na página cinco das Novas, Cláudias, Caprichos, Tititis;

Está além dos artigos

Da lei Maria da Penha

[de qualquer lei de direitos humanos universais].
Porque o ser mulher

Está além do artigo,

Está no sujeito:

Que não se sujeita,

Que age, atua,

Direto, intransitivo;


Está no sujeito,

Independente

De gênero, número

E grau. (Palmas)


MESTRE DE CERIMÔNIAS – Gostaria de agradecer muito a presença de todas e de todos. Foi um momento muito emocionante. Acredito que esse negócio de conseguirmos juntar as gerações, dar força para as gerações estão aí há mais tempo e, também, dar um sul, para não dizer um norte, porque acho que não precisamos de norte, mas dar um oriente, dar um sul para as gerações que estão vindo também, porque é muita luta e muita estrada que temos pela frente para construir um mundo feminista em que todas sejamos livres.

Agradeço a presença do Coro das Mal-Amadas: a Neuza, a Cris, o Adão, a Samira, a Daíse, a Raíra - no pandeiro - e o Décio. Muito obrigada pela contribuição artística.

E, para finalizar, gostaria de passar a palavra para a Presidente da sessão, Vereadora Juliana Cardoso, encerrando esse momento tão bonito que tivemos aqui nesta noite.
A SRA. PRESIDENTE (Juliana Cardoso – PT ) – Não tenho muito o que dizer. A Lilith falou tudo em poesia.

Gostaria de chamar o Bloco Yayá para nos conduzir ao Restaurante-Escola.

Muito obrigada a todos pela presença.

Estão encerrados nossos trabalhos.





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