E Revista do Rádio



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Introdução

O artigo visa apresentar uma análise da cobertura da separação de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins feita pelas revistas O Cruzeiro1 e Revista do Rádio2, além dos jornais Diário da Noite3, Diário de Notícias4, Jornal do Brasil5 e O Globo6. Todos os veículos pesquisados fazem parte do grupo de impressos de maior circulação e relevância da época. Foram resgatadas as publicações dos meses de janeiro e fevereiro de 1951, ano seguinte ao anúncio oficial do fim do casamento dos artistas.

A escolha do período se deu também por causa dos textos veiculados entre os dias 13 de janeiro e 12 de fevereiro daquele ano, quando o vespertino Diário da Noite publicou o total de 22 artigos escritos a quatro mãos por Herivelto e pelo jornalista David Nasser7. A coluna que abrigava estes artigos tinha o título de “Porque abandonei Dalva de Oliveira” e levou a público a versão do ex-marido para o fim do matrimônio.

O estudo foi feito sobre as publicações veiculadas entre os dias 1º de janeiro de 1951 e 28 de fevereiro do mesmo ano, por meio do acervo digital da Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro8, cujo acesso é gratuito. A única exceção é o Jornal O Globo, pois conta com acervo virtual no próprio site, mas apenas para assinantes. Anexo, há recortes dos veículos. A escolha se deu por amostragem.

O artigo pretende mostrar quais critérios de noticiabilidade, de acordo com a Teoria do Newsmaking, foram utilizados para veicular a repercussão dos fatos após a assinatura da separação9. Pretende-se ilustrar ainda se, entre Dalva e Herivelto, alguém foi privilegiado pela cobertura da imprensa e analisar se um dos dois tinha poder de definição sobre o que seria veiculado. Enquanto ele era compositor e contava com o apoio de um jornalista de trânsito livre pelas redações dos veículos que faziam parte dos Diários Associados10, Dalva era a cantora que, aparentemente, não exercia influência direta na imprensa, contando apenas com os amigos que compunham repostas musicais às acusações sofridas no Diário da Noite. Tudo isso gerando a elevação do faturamento tanto das gravadoras quanto dos periódicos. Foram contabilizadas notícias, notas e matérias dedicadas a um e a outro enquanto artistas e ao assunto do fim do casamento em si, quais eram as fontes mais ouvidas e quais vieses tiveram as reportagens da imprensa escrita.

Os artistas

Dalva de Oliveira e Herivelto Martins são duas personalidades que merecem um longo capítulo na história da música popular brasileira. Pela arte se conheceram e com a arte marcaram o fim de um casamento vivido em cima dos palcos. Protagonizaram uma separação que ultrapassou as paredes da casa da família, ganhando as páginas dos jornais dos anos 50.

Herivelto de Oliveira Martins (1912-1992), carioca de Paulo de Frontin, e Vicentina de Paula Oliveira (1917-1972), nome de batismo de Dalva, paulista de Rio Claro, eram de origem humilde e se encontraram em 1936. Ele, artista autodidata, viu na menina recém-chegada do interior um talento vocal incomum. Ela, filha de um boêmio que tocava clarineta, conhecia as notas musicais mesmo sem nunca tê-las estudado.

De acordo com o Almanaque da Rádio Nacional (2007), ainda em 1937, Herivelto e Nilo Chagas davam vida à dupla batizada de Branco & Preto. Assim, com a entrada de Dalva na vida de Martins, formaram o Trio de Ouro, nome dado pelo locutor Cesar Ladeira, da extinta Mayrink da Veiga, rádio na qual o Trio se apresentou em curta temporada, sendo logo contratado pela Rádio Tupi. O Trio de Ouro daria a eles uma vida relativamente confortável, pois proporcionava moradia própria, automóveis e despensas cheias. Era justamente o oposto da vida que tinham antes de se firmarem como um dos maiores sucessos das rádios, dos palcos e dos cassinos, permitidos pelo governo da época.

Em 1946, Eurico Gaspar Dutra, então presidente do Brasil, proibiu o funcionamento das casas de jogos em todo o território nacional. Nelas, trabalhavam cantores, músicos, bailarinos e profissionais de produção e, com a ordem da presidência, precisaram mudar suas rotinas e buscar novos palcos para atuar. Nasciam aí os nightclubs e, com eles, os espetáculos criados para estes espaços. Os mais famosos no Rio de Janeiro, na segunda metade da década de 40, eram o Night and Day, o Grill do Copacabana Palace e o Cassino Atlântico. Além destes espaços, os espetáculos montados eram apresentados também nos teatros João Caetano, Carlos Gomes e Recreio.

No ano de 1939 e já com um filho, fruto da relação, Dalva casou-se com Herivelto. Trabalhavam juntos e juntos viviam em uma situação nada tranquila, dividindo quartos com outras famílias. Em seu livro, Pery Ribeiro (2009), o filho em questão, conta que moravam em uma casa miserável, dormiam todos juntos, ele, pai, mãe, avó materna e uma tia, no chão, sendo lonas de circo o que serviam de divisórias dos cômodos.

Ubiratan, o segundo filho, nasceu em condições melhores. Dalva e Herivelto já moravam próximo ao Cassino da Urca, onde atuavam. Após as noites de trabalho, era na casa deles que os amigos se reuniam e Dalva cozinhava para todos. Com a vida doméstica mais organizada, e com Herivelto à frente de sua carreira e organização financeira, os ciúmes de Dalva, aliados ao gênio forte do marido, tiravam o lugar da paixão e davam espaço para as brigas. Conforme Ribeiro e Duarte (2009), “o trabalho, o Trio, a música, tudo era impecável, quase perfeito. Só não era perfeita sua vida em comum. Nem tudo era tão cor-de-rosa como parecia”.

O machismo pintava de cinza a sociedade da época. Não era incomum que os homens tivessem esposa em casa e amantes na rua ou até mesmo no próprio círculo de amigos. Com mais dinheiro fazendo parte da rotina, ele começou a procurar outras mulheres, pois não via problema nisso. Ribeiro e Duarte (2009) conta que as brigas se tornaram frequentes e, em uma delas, Herivelto agrediu a esposa a socos e pontapés e Dalva, que estava grávida, rolou pela escada, tendo o fim da gravidez que lhe traria o terceiro filho. O feto ficou exposto no banheiro, dentro de um pote de vidro. Era uma forma de Dalva punir Herivelto pela perda.

Separação, até então, era algo inimaginável. Dalva, nascida em 1917, acreditava que casamento era para a vida inteira e que os problemas conjugais deveriam ser superados. E tinha ainda o Trio de Ouro, que era um produto cultural e meio de vida que a todos sustentava. Parecia impossível, como depois a história comprovou, que a separação do casal não interferisse na união de trabalho. Porém, os casos extraconjugais de Herivelto ficavam cada vez mais evidentes e Dalva flagrava provas das traições e os intervalos entre as brigas só diminuíam.

Em uma das viagens para fazer shows, Herivelto se encantou por uma aeromoça, posição hoje conhecida como comissária de bordo. Nos anos 1940, esta função era ocupada por mulheres tão bonitas quanto as misses. Lurdes era uma gaúcha que contrariava o conservadorismo da época, já era desquitada e tinha um filho pequeno. Herivelto descobriu tudo isso depois de dar plantões em sua porta e fazer serenatas para conquistá-la, o que acabou conseguindo.

Dalva descobriu a relação e Herivelto não mais escondia que estava levando uma vida dupla, passava os dias com o novo amor e as noites com a esposa. A separação, já inevitável, ganhou força antes de viajarem em turnê pela Venezuela. O pedido da separação foi protocolado antes da partida e consolidado no retorno. Após uma temporada conturbada fora do país, Herivelto deixou Dalva com amigos, retornando sozinho para o Rio de Janeiro, mudando-se em definitivo para a casa de Lurdes, de onde nunca mais saiu até a sua morte.

Era 1949 quando Dalva voltou para casa e não mais havia o companheiro. Porém, tinha uma carreira e precisava tocá-la em frente, até para manter o padrão de vida que alcançara para seus filhos, para a mãe e para as duas irmãs que moravam também na sua casa. A primeira música que gravou após sair do Trio de Ouro foi “Tudo acabado”, um samba-canção composto por Jota Piedade e Oswaldo Martins, cujos versos desenham uma desdita amorosa:


Tudo acabado entre nós, já não há mais nada. Tudo acabado entre nós, hoje de madrugada. Você chorou e eu chorei, você partiu e eu fiquei. Se você volta outra vez, eu não sei”. (PIEDADE e MARTINS, 1949)
Logo em seguida, o bolero “Que será?”, de Marino Pinto e Mário Rossi. Esta segunda foi responsável por apelidar Dalva como “a dama do abajur lilás”, termo contido nos versos da letra que perguntava:
Que será da minha vida sem o teu amor? Da minha boca sem os beijos teus? Da minha alma sem o teu calor? Que será da luz difusa do abajur lilás, se nunca mais vier a iluminar outras noites iguais?”. (PINTO e ROSSI, 1949)
Segundo Fonseca (1987) e Ribeiro e Duarte (2009), o sucesso solo de Dalva foi o estopim musical responsável pelo rompimento do clima de separação amigável, pois Herivelto não conseguia lidar com o sucesso que Dalva fazia sem ele. Em parceria com o jornalista David Nasser, Herivelto compôs “Caminho certo”, cuja letra dá a entender que a culpa da separação era de Dalva, que transformava o lar na ausência do marido “em qualquer coisa abaixo da decência”. Iniciava-se aí o que ficou conhecido como a polêmica musical e pública. De um lado, Herivelto compondo músicas que feriam Dalva profundamente. Do outro, um conjunto de compositores doando seus versos à voz de Dalva, afim de fazê-la dar o troco ao ex-marido. No ano seguinte, já 1950, Dalva cantava “Errei, sim”, de Ataulfo Alves. Em seus versos, ela assumia os possíveis erros, mas culpava o ex-companheiro por tê-los cometido.

O artigo “Briga de marido e mulher: Dalva e Herivelto cantam e o público ‘mete a colher’ – o rádio como ‘palco’ de performances sociais” de Cunha, Fonseca e Carmo (2015), traz a lista de músicas que fizeram parte da disputa do casal que aumentava os lucros das gravadoras. São elas: Segredo (1947), Cabelos brancos (1949), Tudo acabado (1950), Que será? (1950), Caminho certo (1950), Errei, sim (1950), Teu exemplo (1950), Calúnia (1951), Consulta o teu travesseiro (1951), Não tem mais jeito (1951), Palhaço (1951), Fim de comédia (1951), A grande verdade (1951), Perdoar (1951), Poeira do chão (1952) e Bandeira branca (1972). As gravadoras chegavam a lançar três discos de Dalva por ano, já que ela, cada vez mais, caía no gosto do público e, claro, dava lucro. Já no Trio de Ouro, outras cantoras tentaram, em vão, ocupar o lugar da ex-mulher de Herivelto, pois era relativo o sucesso, nada que se comparasse aos tempos de Dalva como a voz feminina do grupo. E, para o controlador Herivelto, isso não era fácil de aceitar. De acordo com Conde Aguiar (2007), Hupfer (2009) e Ribeiro e Duarte (2009), o sucesso de Dalva fez Herivelto unir-se a David Nasser para lançar uma série de 22 artigos em uma coluna cujo título era “Porque abandonei Dalva de Oliveira”. O veículo era o Diário da Noite.



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