De Malas Prontas


"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando



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De Malas Prontas - Danuza Leao
"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."


S ÃO  PAULO
B ERLIM
LO ND RES
4
9
12
15
18
20
23
26
B UENO S
AIRES
32
38
42
45
48
53
59
63
68
72
79
83
87
90
94
99
103
108
115
117
122
124
128
131
135
S UM ÁRIO
São Paulo — meca
Feijoada light
Deixa a vida te levar
Foie gras com pera e chips de jiló
São Paulo 24 horas
Um giro pela arte
As lichias da Malásia
São Paulo by night
Maradona é Deus
Carne e champã
Evita
Bife de Kobe argentino
Panelaços
Tango e solidão
Cilada para turista
La Concepción
Tango zen
Os alemães são bons de cama
Ninguém em cima do muro
De um tudo
A bela de Berlim
Casa e comida para todos
Habite-se
Comendo no escuro
À noite, vale tudo
Perdidas na noite
Auf Wiedersehen
Um pouquinho de Paris
How are you today?
Well, well, well
London, London
Ternos eternos
De botar no chinelo


141
148
156
Very British
Endereços
Ficha Técnica


S ÃO P AULO
S ÃO P AULO — M E C A
Quando pinta um feriado que emenda com um fim de semana, vem logo a
vontade de viajar; mas para onde? Pois seja original: esqueça Salvador, aonde você
já foi tantas vezes, o Nordeste inteiro, com seu mar maravilhoso, o Pantanal,
Miami, e vá para São Paulo, onde terá belas surpresas. Você não sabe — como
eu não sabia — o que é a cidade em feriados. Não há trânsito, viva!, os
restaurantes estão mais vazios; São Paulo na Semana Santa é o paraíso (e o
comércio praticamente não fecha).
Houve um tempo em que eu ia a São Paulo com uma certa frequência; ainda
muito jovem, com dezesseis, dezessete anos, não perdia um Grande Prêmio no
Jockey Club, pois, na semana que o antecedia, eram coquetéis, jantares e festas
todos os dias, e uma turma de garotas do Rio, daquelas que gostavam de um agito
— como eu —, não ia perder o GP São Paulo. E logo um paulistano se encantou
comigo, e namoramos um pouquinho — só um pouquinho. Seu nome era Carlão
Mesquita, e sua família, dona do jornal O Estado de S. Paulo.
Um dia ele me convidou para ir ver as obras do novo edifício do jornal, perto do
antigo Hotel Jaraguá. Lá fomos nós, e subimos seis ou sete andares de escada, já
que os elevadores ainda não estavam funcionando. Carlão, entusiasmado, me
mostrava onde ia ser a redação, a oficina, a sala do editor, e eu prestando a maior
atenção. A imprensa sempre foi meu fraco, como se vê. Quando terminamos a
visita, eu, garota, carioca e totalmente alienada, perguntei, com grande interesse:
“E quando é que o jornal vai começar a sair?”. Essa era a pior ofensa que podia
ser feita a um Mesquita. Pois foi a partir daí que Carlão se apaixonou por mim;
claro, uma menina como eu não saber que o poderoso Estadão existia tinha que
fazer aquele efeito.
Mas Carlão era paulistano demais para a minha cabeça; voltei para o Rio e
para minha praia, e só nos encontramos de novo em Paris, no Bar Anglais do
Plaza Athénée, eu já casada com Samuel Wainer. Ficou muito claro que ele
ainda era sensível a meus charmes, digamos assim. E nesse encontro eu até já
sabia o que era o Estadão, que não poupou Samuel, na tentativa de acabar com
Getulio e com a Última Hora. Mas essa é outra história.
São Paulo era bem diferente do que é hoje: havia os quatrocentões, de


sobrenome Prado, Alves Lima, Penteado, os italianos, que eram olhados meio de
banda, e os libaneses — turcos, como eram chamados —, que não tinham
nenhum acesso ao dito society.
Mas São Paulo mudou, e eu praticamente não conhecia essa nova São Paulo.
Ia num dia e voltava no outro, às vezes até na mesma noite, sempre a trabalho, e
desperdiçava quase todo o meu tempo dentro de um táxi, em engarrafamentos
colossais. Mas quis o destino que na última Sexta-Feira da Paixão eu pegasse um
avião e fosse passar uns dias na cidade. Foi quando pude conhecê-la melhor e
entender por que os paulistanos gostam tanto dela — apesar de tantos estarem se
mudando para o Rio.
Foi difícil escolher em que hotel ficar. As pessoas só me indicavam ou os
famosos, modernos e luxuosíssimos, ou os do tipo americano, com duzentos
andares e quinhentos apartamentos por andar, ou apart-hotéis. Eu gosto de luxo,
porém não preciso dele para viver; sou até bem simples, mas tenho verdadeiro
pavor a qualquer apart-hotel do mundo — e não existe cidade no planeta que
tenha mais aparts do que São Paulo. Aquele clima de homens de negócios de
pastinha na mão que foram para uma reunião e que voltam na manhã seguinte
me deprime. E não há um só que tenha um quarto quadrado, um banheiro
quadrado; num apart tudo é meio torto, e todos têm cheiro de mofo.
Resolvi arriscar: peguei um táxi no aeroporto e dei o endereço de um dos
“hotéis” que tinham me indicado. O motorista não sabia onde era, claro, porque
nenhum motorista de São Paulo conhece endereço algum, embora quase todos
tenham GPS. Quando paramos e vi que se tratava de um apart, disse logo: “Nem
pensar”. E fomos indo de hotel em hotel, com a maior dificuldade, eu ligando do
celular para os amigos para saber os endereços e ver de qual gostava mais.
Comecei pelo Fasano, que é de um enorme bom gosto, com um hall na
entrada, e um bar que dá a impressão de que ali você vai encontrar o homem de
sua vida. Sentei numa cadeirinha do bar e pedi uma vodca tônica, para festejar
minha chegada à cidade. Só lamentei não estar com uma ótima companhia, no
entanto nada é perfeito. Mas o Fasano, apesar do seu indiscutível requinte, não era
exatamente o que eu estava procurando. Meus amigos mais alternativos poderiam
ser olhados de banda naquele bar fantástico.
De pergunta em pergunta chegamos ao Emiliano, todo moderno, com cadeiras
dos irmãos Campana na entrada. Mas tão vazio — portaria, bar e restaurante —
que parecia ainda não ter sido inaugurado. Pedi para ver um quarto, e me
mostraram algo realmente inusitado: apertando um botão, você pode regular a
temperatura da tábua do vaso sanitário, o que quase me matou de medo. E se eu


apertasse o botão errado e saísse toda queimada, sem poder sentar durante
meses? É nesse hotel que Gisele Bündchen se hospeda; quando a top toma o
elevador, ele sobe para seu andar ou desce para a portaria, sem parar no
caminho, para não tirar a paz da bela. E, quando Beth Lagardère esteve lá, havia
uma camareira à sua disposição 24 horas por dia, para ajudá-la
a tirar os sapatos, desabotoar a blusa, essas coisas que nenhuma mulher que se
preze sabe — ou deve — fazer sozinha. Não, também não era o hotel dos meus
sonhos.
Rumei então para o Unique, cujo bar é o must dos candidatos a playboy da
cidade. Entrei na portaria — toda negra, chão e paredes — e resolvi subir direto
para o bar, no último andar, com uma vista deslumbrante de São Paulo, para
tomar um drinque e sentir o clima, também dominado pela cor negra. O lugar é
tão moderninho, as pessoas tão jovens, os garçons tão escolhidos a dedo, pela
simpatia, a música tão modernamente insuportável, que pedi uma vodca com a
conta junto e saí correndo, com medo de que um vampiro ou um morcego me
atacassem. Decididamente, aquela não era minha praia.
Havia também o Hyatt, onde ficaram Madonna e Elton John, mas não pertenço
à turma do show business. E o Tivoli, que eu conhecia por ter ido uma ocasião
visitar uma amiga e cujo hall de entrada será, um dia, ponto turístico da cidade.
Lembro que a cama era tão grande, mas tão grande, que nela caberiam cinco ou
seis pessoas, e eu era uma só. Não, não era bem o que eu procurava.
Já estava à beira do desespero quando meu anjo da guarda me lembrou de um
lugar onde eu tinha me hospedado muito tempo antes e que havia adorado: o
L’Hotel, que faz parte da cadeia não dos Leading Hotels of the World, mas dos
Leading Small Hotels of the World. Ele é cosy, elegante e discreto, decorado por
Jorge Hue, um dos arquitetos de maior bom gosto do país. Fui recebida com
todas as gentilezas possíveis, e o melhor de tudo: eles tinham conservado minha
ficha; por isso, bastou uma assinatura, ou seja, não tive que preencher aquele
cadastro igual ao que você preenche nos bancos quando quer abrir uma conta.
Oas outros hotéis custavam em torno de mil reais por dia, e o meu, tudo o que eu
queria na vida, a metade. Nada como saber das coisas.
Gracinhas do hotel: quando você chega à noite, além dos chocolatinhos de
praxe, encontra debaixo da porta do quarto o boletim meteorológico anunciando
qual a temperatura do dia seguinte (como se adiantasse; em São Paulo, o tempo
muda a cada quinze minutos). No café da manhã — uma mesa tão grande e
repleta de coisas gostosas que você se sente na casa de Dona Canô, mãe de
Caetano Veloso —, uma moça delicada e cheia de boas intenções me explica que
até um certo ponto da mesa tudo é light; eu, que costumo tomar no café da


manhã um iogurte com adoçante, comi todos os bolos, queijos e presuntos, e senti
a delícia que é um pãozinho fresco com manteiga. Comi, e depois só fiz me
arrepender, claro. Foi assim todos os dias: comer e me arrepender, mas a carne
é fraca — a minha, pelo menos, é. Ah, e te oferecem champanhe para misturar
no suco de laranja.
Outra gracinha: quando o hotel recebe árabes, a direção põe no quarto deles
uma pequena bússola, para que esses hóspedes possam se posicionar
corretamente na hora de rezar. E me forneceram uma lista de 72 países (só dos
Estados Unidos, havia noventa cidades) — alguns eu nem sabia que existiam: se
eu quisesse um jornal de qualquer um desses lugares, bastava fazer uma cruzinha
do lado, como nas churrascarias. Achei isso o máximo, e quis ver para crer; pedi
um jornal do Kuwait e um da República Dominicana, e não é que eles chegaram?
Na minha ronda pelos hotéis não cheguei a tocar nos lençóis — que deviam ser
de algodão egípcio, claro —, para ver com quantos fios eram feitos; aliás, nem
saberia contar, só sei que quanto mais fios melhor. Aprendi ainda que não é
apenas uma questão de quantidade de fios, mas da região do Egito em que o
algodão foi colhido, e existem jogos de cama que custam a bagatela de 15 mil
dólares. Frescura é uma delícia, mas também não é preciso exagerar.


FE IJOADA LIGHT
Os cariocas voltam de São Paulo deslumbrados, dizendo: “É outro país”. Pois
estão enganados: não é outro país, são vários outros países, com diversas culturas,
e quem demorar muito tempo para ir novamente à cidade vai levar um susto.
Aquela região que não era nada pode ter se transformado num point
badaladíssimo, e é isso que está acontecendo pela cidade inteira. Bairros que não
tinham charme algum passam a ser disputados por variados tipos de gente,
porque o que não falta em São Paulo são tribos. Elas são muitas, dezenas,
centenas mesmo, e nenhuma toma conhecimento da outra.
Já eram umas dez horas da noite; achei um pouco tarde para dar início aos
telefonemas, mas os horários de São Paulo são completamente diferentes dos do
Rio. As festas começam às duas da manhã, algumas às quatro, nenhuma
discoteca que faça sucesso abre as portas antes da meia-noite, portanto dez horas
era até muito cedo. Mas ousei, e no primeiro telefonema já ficou combinado um
almoço no Massimo, no dia seguinte, à uma hora.
Foi difícil chegar, porque é claro que o motorista de táxi deu voltas nos
quarteirões próximos durante uns bons quinze minutos. Cheguei atrasada, mas o
restaurante não estava muito cheio. Lá tive uma experiência inédita: comi uma
feijoada absolutamente light. O maître me explicou que as gorduras, mesmo as
mínimas, de todas as carnes, linguiças, paio etc. são retiradas, o que faz com que
ela fique leve como um suflê. Vivendo e aprendendo. Saí me sentindo uma
borboleta, e fui dar um passeio nas famosas ruas Oscar Freire, Bela Cintra, na
Alameda Santos, enfim, no quartier chic da cidade, onde estão todas as lojas de
grife — ou quase todas.
E me senti como na Avenue Montaigne no seu pior sentido, pois eram tantas as
lojas de bolsas com tachas e fivelas enormes, tantas as lojas de sapatos
praticamente iguais, e as de vestidos, e as de suéteres, e as de coisas totalmente
inúteis mas lindamente dispostas nas vitrines, mais as moças que passavam por
mim, todas de cabelo comprido e liso, todas de salto alto, que foi como se eu
tivesse comido uma feijoada cheia de gordura. Fiquei tonta, e nunca tive tão
pouca vontade de comprar alguma coisa.
Mas fui obrigada a visitar a loja da qual todos falam na cidade, a NK Store, da
Natalie Klein (neta do dono das Casas Bahia), uma multimarcas que vende uma
camiseta por setecentos reais (perua chique não quer mais ser vista na Daslu).


Dentro, nem uma alma, só a glória de ser acoplada à Marc Jacobs. Nada me deu
taquicardia, mas na-da. Fui gentilmente colocada num táxi e, chegando ao hotel,
caí na cama como se tivesse voltado de uma guerra.
As lojas de grife estão para as mais populares assim como os antiquários para
os brechós. Acho bem mais divertido garimpar num monte de coisas velhas e
encontrar um objeto maravilhoso do que ver aquele mesmo objeto lavado e
lustrado, num pedestal de mármore. Quando alguém me diz: “Mas que saia
incrível”, eu prefiro poder responder: “Comprei na Galeria Ouro Fino” a dizer: “É
da Daslu”. Nessa hora me sinto mais criativa, mais engraçada, mais esperta.
Saber que paguei cinquenta reais em lugar de 5 mil me faz bem.


DE IX A A VIDA T E  LE VAR
Fiquei impressionada ao ver como os paulistanos respeitam os sinais de trânsito,
pedestres inclusive. Quando fui, cariocamente, atravessar uma rua deserta, minha
amiga segurou meu braço e disse: “Não, o sinal está fechado”. Evitei responder
com o carioquíssimo “e daí?”, e a partir desse momento comecei a me
comportar civilizadamente, como todos deveriam fazer. Nas ruas por onde
passei, nem um papelzinho do tamanho de um selo. As pessoas que saem com
seus cachorros levam um saquinho de plástico e uma pazinha. Tudo limpo, tão
limpo que dá gosto. E outra coisa: em certos bairros, a cidade está mais verde.
Para onde quer que você olhe, vê árvores, algumas até floridas. Nesses lugares,
São Paulo mudou.
A cidade é imensa e toda “espalhada”, e isso leva aqueles que não a conhecem
a não ter noção do lugar onde estão ou para onde vão. As pessoas são divididas em
várias classes sociais; as chiquérrimas, que têm pelo menos dois sobrenomes
(compostos), não vão a nenhum lugar da moda. Só se dão entre si e frequentam
clubes não acessíveis ao comum dos mortais (no Helvetia tem até estacionamento
para helicópteros). Também não vão a Miami, só a Nova York, Londres e Paris.
Tem a enorme comunidade gay, com todas as suas subdivisões; as drags; as
peruas discretas, as peruas que aparecem na Caras; os famosos tipo Jô Soares,
Arnaldo Jabor; os playboyzinhos que só namoram modelos, as modelos que só
namoram playboyzinhos; os artistas amigos da Hebe, e a turma da moda,
também com todas as suas subdivisões. E São Paulo tem uma coisa maravilhosa:
as pessoas cumprem os horários, os orçamentos e os prazos. Ah, como isso deve
ser bom.
A partir desse primeiro dia, minha cabeça virou um turbilhão, e, como Zeca
Pagodinho, deixei a vida me levar; não parei mais um único minuto, e minha
grande dificuldade foi com a meteorologia. Apesar do que dizia o boletim do
hotel, podia perfeitamente fazer frio de manhã, calor à tarde e gelar à noite — ou
tudo ao contrário. O clima é tão pitoresco, que às vezes faz sol de um lado da rua
e chove do outro, uma alucinação. Se você for passar um só dia em São Paulo, é
fundamental levar uma roupa de verão, uma de meia-estação e uma jaquetinha
básica de pele (para não se arriscar a pegar uma pneumonia). Ah, e uma
pashmina também.
E, por falar em shopping, fui visitar o mais novo e luxuoso, o Cidade Jardim. Lá


estão as marcas mais famosas do planeta: Chanel, Armani, Hermès — esta,
segundo me informaram, demorou a abrir porque a mercadoria é feita em vários
lugares do mundo, vem para o Brasil, daqui é mandada para a França, a fim de
passar pelo controle de qualidade, volta, e só então a loja tem permissão para
vender. Depois de tantas viagens, quanto custará uma agenda, que em Paris já é
tão cara?
As únicas coisas que me interessaram foram um vestidinho Chanel azul-
marinho, o básico do básico, que custava 8500 reais; um blazer de 12 mil reais; e
um vestido preto de lã de 19 mil reais, que tal? No shopping, o aroma que se
respira foi criado especialmente para o Cidade Jardim. E lá existe uma linda
livraria, a da Vila, que é quem está se dando bem. Como ninguém compra nada,
as clientes, para não irem embora com as mãos abanando, entram na livraria e
saem com seu pacotinho, e viva a literatura!
O shopping é bonito, vamos reconhecer, e no centro há um jardim com árvores
de todos os tamanhos, algumas altíssimas. Fui saber e soube: quando as obras
começaram, todas as árvores do terreno foram removidas e colocadas num
viveiro; quando o Cidade Jardim ficou pronto, elas foram replantadas, e lá estão,
lindas e fortes. Até jabuticabeiras tem, e já dando frutos. O estacionamento custa
vinte reais, e os cinemas são seis. Um deles é o vipérrimo, com cadeiras de couro
onde você pode se deitar como na primeira classe de um avião (cinquenta reais o
ingresso). Antes de entrar, você faz seu pedido no bar, e o garçom leva pipocas no
azeite de trufas, docinhos e salgadinhos, com um copo de champanhe ou de
vinho. Chique, não?
Mas o melhor vem agora: quando madame chega com seu cachorrinho,
alguém se encarrega de levá-la ao fraldário, no terceiro andar, onde outro alguém
põe uma fralda no lulu, para que não aconteçam episódios previsíveis no chão do
lindo shopping. E, na saída, mais uma passada para tirar a fralda, que pode ser de
dois tipos: um para os garotos e outro para as garotas. Ah, São Paulo, só você.


FOIE  GRAS  C OM  P E RA E  C HIP S  DE  JILÓ
A cidade tem a fama — merecida — de dispor de bons restaurantes. Bons e
tantos, que não se sabe a qual deles ir; são 12 500, com setenta tipos diferentes de
cozinha, o que só complica a vida dos forasteiros. Existem os tradicionais
imperdíveis, com menção especial para o La Casserole, que envelheceu bem,
sem nunca trocar seu décor nem inovar suas receitas, e onde se come um coelho
de babar, de tão delicioso. Quem estiver inspirado na saída poderá comprar umas
flores no quiosque e oferecer à sua dama; ir ao La Casserole é uma viagem no
tempo.
Tem o Arabia, que aos sábados serve um cuscuz marroquino inesquecível, o
Rodeio, churrascaria de alto respeito, o Terraço Itália, onde, à noite, você toma
um drinque vendo a cidade inteira iluminada; divino, esse programa meio brega.
E tem o La Tambouille, com sua original trilogia de cordeiro — filé, contrafilé e
costeletas —, o La Brasserie, e tantos outros que fui aos que pude (afinal, não se
pode almoçar e jantar duas vezes por dia) e voltei com cinco quilos a mais. Mas
valeu.
Na região dos Jardins, há dezenas de pequenos cafés onde você pode fazer um
lanchinho rápido tendo a certeza de que vai se dar bem. No Santo Grão os ovos
Benedict são tão bons quanto os do brunch do Waldorf Astoria (ou melhores), e no
Le Buteque — restaurante prêt-à-porter do chef Erick Jacquin, dono do La
Brasserie — a sauce béarnaise que acompanha o maravilhoso entrecôte é tão boa
quanto a melhor de Paris. Preço para duas pessoas, tomando Coca-Cola, 130
reais. E, se for início de mês, vá ao La Brasserie e peça o foie gras fresco com
pera caramelada, é de comer rezando.
Em matéria de restaurantes chiques e caros, um jantar para dois no Fasano,
cada um tomando três margueritas e comendo uma vitela à milanesa — sem
vinho, sem sobremesa —, sai por 530 reais. Caro, mas desde quando o bom é
barato? O top, no entanto, foi o Jun Sakamoto, restaurante japonês onde cabem,
em mesinhas, dezesseis pessoas, e mais umas dez no bar. Você pode pensar que
todos os sushis são iguais: ledo engano; os do Jun Sakamoto, com sua elegante
simplicidade, Miles Davis tocando baixinho ao fundo, fizeram com que eu me
sentisse no nirvana. É caro, muito caro, mas inesquecível; um evento, eu diria.
Valeram os 630 reais (com quatro saquês), valeram mesmo.
E as cantinas? São centenas; a Famiglia Mancini, na Rua Avanhandava, é talvez


a mais famosa, e aos domingos tem fila na porta. A família é muito caprichosa:
recuperou a pequena rua, encheu-a de verde e ela ficou linda.
Mas não é só nesses lugares chiques e caros, ou mais tradicionais, que se come
bem. No Mocotó, em Vila Medeiros, foi difícil escolher entre um atolado de
bode, um sarapatel, uma carne de sol e uma favada, e saber que cachaça pedir
para acompanhar. São mais de 350 marcas, um pecado. A rua fica cheia de
gente esperando por uma mesa.
E no Bar da Dona Onça, no térreo do Edifício Copan, provei uma saborosa
comidinha de casa: fígado acebolado, e depois galinha ensopada com quiabo e
angu (mas também tinha carne de onça, que é o steak tartare), chips de jiló e
caldo de mocotó. O menu, em que um dos itens é “arroz soltinho” — que delícia,
um menu que explica que o arroz é soltinho —, é de onça, a geladeira é forrada
de onça, e em todas as fotos nas paredes tem uma oncinha — uma na mão do
nosso Cristo Redentor, outra no Vaticano. Ah, e o célebre Edifício Copan voltou à
moda. Os 1200 apartamentos, que têm desde trinta metros quadrados (vinte por
andar) até 250 metros quadrados (dois por andar), são todos regidos pela mão de
um só síndico; um quase prefeito, eu diria. Aliás, o Copan é o oposto do que pensa
o arquiteto Paulo Mendes da Rocha: que um prédio não deve ser tão alto que
impeça o filho de ouvir a voz da mãe chamando para o almoço.
Mas, voltando aos bares, é impossível não mencionar a coxinha de galinha do
Frangó, na Freguesia do Ó, que, segundo o menu, é “a mais premiada e mais
famosa do planeta”. Para acompanhar, uma cerveja — e eles têm trezentas
marcas à escolha do freguês.
E ainda tem a noite com Lilian Gonçalves, filha do grande Nelson Gonçalves.
Lilian, sempre que passava por uma rua e sentia cheiro de churrasquinho, morria
de vontade de comer mas não tinha coragem. Um dia ela resolveu abrir um
restaurante na Rua Canuto do Val, em Santa Cecília, onde só servia churrasquinho
e cobrava de cinquenta centavos a um real. Hoje ela é dona de seis
estabelecimentos, todos nessa mesma rua, um ao lado do outro. Quatro nomes:
Siga La Vaca, Biroska, a Casa dos Artistas, Frango com Tudo e, é claro, Bar do
Nelson. Ela dirige todos com mão de ferro, e sozinha; no total, recebe 5 mil
pessoas por dia.
E também tem o Bar dos Cornos, onde, quando entra alguém desconhecido,
um sino bate e ouve-se um grito: “Olha um corno novo chegando”. São Paulo tem
mesmo de tudo.


S ÃO P AULO 24 HORAS
Aos sábados e domingos o paulistano sai para fazer seu brunch na rua, sempre
com amigos. Esse brunch pode ser feito em pequenos cafés ou nas padarias —
uma tradição da cidade —, que são absolutamente maravilhosas.
A Galeria dos Pães, aberta 24 horas, serve o melhor pão, a melhor manteiga, a
melhor mortadela, o melhor presunto, e ainda conta com uma enorme variedade
de produtos para você escolher e levar para casa, tipo bolos e biscoitos, queijos,
vinhos, azeites, frios, em embalagens para uma pessoa, duas ou três, o que facilita
a vida do cliente. Na madrugada tem um bufê de sopa para os notívagos, quebra-
galho para quem está sem comida em casa, e, quando o dia começa a raiar, esse
bufê se transforma em mesa de café da manhã, com sucos, ovos mexidos, bolos,
cereais, doces, tudo o que você conseguir comer antes de ir dormir.
O Pandoro também oferece um ótimo brunch; por volta do meio-dia, uma
hora, está lotado, e quem se atrasar vai ter que esperar por uma mesa. E ainda
tem o Pasta & Vino, que não fecha nunca, como o Paris 6. Nesses lugares que
funcionam full time, não é raro encontrar bêbados recém-saídos da balada
comendo um filé e bebendo uma cerveja ao lado de pessoas que tomam seu café
da manhã.
A Bella Paulista, uma excelente padaria que fica aberta dia e noite e está
sempre cheia, serve sete tipos de café. E alguns points têm até menus só de cafés,
alguns com grife, aliás, a grande moda da cidade, quase tão em alta quanto os
vinhos.
E tem a turma dos charuteiros, que vivem trocando informações sobre novas
marcas de charuto. As charutarias mais famosas e consideradas pelos
conhecedores são a Ranieri, a Lenat e o Esch Café.
Mas São Paulo tem muitas outras coisas que também funcionam em tempo
integral. Os pronto-socorros dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês são um
conforto para quem sente uma dor de madrugada ou leva um tombo. Em ambos
se fazem todos os exames de laboratório — com resultados na hora —, até
tomografias, e a filosofia é não deixar o paciente sair com dor. Neles você
encontra banco 24 horas, floricultura, lanchonete (boa) e farmácia.
Abertos full time existem ainda pet shops, e nada mais útil: e se você tiver
vontade de comprar um gato às três horas da manhã? Academias de ginástica,


claro, supermercados, floriculturas, tatuadores, e, para as moças que trabalham à
noite e dormem de dia, cabeleireiros e manicures. E tem até uma loja de
material de construção que funciona 24 horas, a Telhanorte.
E São Paulo é a cidade dos grafites, que são feitos quando ninguém vê —
quando a cidade dorme. Há um beco, na Vila Madalena, que se chama Beco do
Batman, que é inteiramente coberto por grafites, e a Fundação Cartier, em Paris,
inaugurou uma exposição em julho de 2009 só sobre grafites, com grande
destaque para São Paulo.


UM  GIRO P E LA ART E
O paulistano é ávido por fazer e ver coisas, e está sempre cheio de ideias e
projetos para espetáculos, exposições etc.; afinal, São Paulo não tem praia. Assim,
a cultura na cidade vai bem.
A Sala São Paulo, situada onde antes havia uma estação de trens, além de ser a
maior e mais moderna sala de concertos da América Latina, tem uma das
acústicas mais perfeitas do mundo. Seu teto se move de acordo com o tamanho
do espetáculo a que se vai assistir. Os espetáculos, variados, acontecem sempre às
quintas e sextas-feiras; nas tardes de sábado, idosos e estudantes pagam a metade
do preço, e domingo de manhã o ingresso custa dois reais.
No quesito arte, é fundamental conhecer a extremamente charmosa Galeria
Vermelho, que transformou três casas de vila num espaço como um cubo. E
impressionante é o poderoso galpão de 2 mil metros quadrados que abriga o
acervo da Fortes Vilaça, galeria que representa no exterior artistas como Adriana
Varejão, Beatriz Milhazes e Ernesto Neto.
E tem o belíssimo MASP, na Avenida Paulista, que recebe em média 2 mil
pessoas por dia.
Aliás, pertinho do MASP, há um grande estacionamento onde antes era a casa
do conde Matarazzo. Para quem não sabe, quando Luiza Erundina foi prefeita de
São Paulo, ela desapropriou a mansão para construir ali o Museu do Trabalhador.
Conta a lenda que os herdeiros mandaram pôr fogo na casa, onde brevemente
será erguido um shopping. Soube que um jornalista pegou alguns tijolos da
demolição, mandou envernizar, colocou em cada um deles uma plaquinha
dizendo “Este tijolo pertenceu à mansão Matarazzo”, distribuiu a alguns amigos e
botou um em sua estante. Simpático, não?
Depois de ter ido ao MASP, vale atravessar a avenida e dar uma volta no
Parque Trianon, 40 mil metros quadrados da Mata Atlântica que sobrou,
milagrosamente, no meio dos arranha-céus; depois atravesse a avenida de novo e
entre no Banco Safra para ver o piso de mármore feito por Burle Marx, no térreo
e no subsolo, uma beleza. E depois atravesse de novo a avenida para visitar a
Livraria Cultura, uma das mais importantes do país e que ferve, cheia de gente, já
de manhã.
O Museu do Futebol é dividido em salas; os nomes de algumas: Exaltação,


Origens, Heróis e Rito de Passagem. Quatro mil pessoas visitam esse museu
maravilhoso, em dias normais. Aliás, a paixão do paulistano pelo futebol supera, e
muito, a dos cariocas. Conheço um rapaz de quase trinta anos que é fanático pelo
Santos, time cujo apelido, para quem não sabe, é Peixe. Pois até o dia de hoje ele
jamais comeu qualquer coisa do mar, isso é que é.
Voltando aos museus, o da Língua Portuguesa recebe 2 mil pessoas por dia, a
Pinacoteca — linda, ao lado do Parque da Luz —, 3 mil, e ainda fica uma fila de
gente esperando que os outros saiam para poder entrar.
E uma coisa muito, mas muito simpática: na Estação da Luz vi, debaixo de
uma marquise, um piano aberto, com um cartaz em que está escrito “Toque-me,
sou teu”. E notei com que curiosidade pessoas que talvez nunca tenham visto um
piano de perto tocavam uma tecla ou outra, e às vezes alguém que sabia tocava
uma música inteira — e juntava gente em volta para assistir. Isso cria uma grande
relação entre a cidade e a população, e soube que existem vários outros,
espalhados por São Paulo. O máximo, essa ideia.
No Parque da Luz, cheio de estátuas e coretos como os das praças do interior,
moram confortavelmente três preguiças. Esse parque de 80 mil metros quadrados
é frequentado por casais de velhinhos, domésticas com ou sem namorado, e
pessoas sós. Dizem que presidiários sem rumo, quando são libertados, vão
passear no Jardim da Luz. E é impossível olhar para esse lindíssimo jardim sem
pensar no filme de Suzana Amaral baseado no romance de Clarice Lispector, A
hora da estrela, que conta a pungente história de Macabéa.
Na última Virada Cultural, em que houve mais de oitocentas apresentações
entre as seis da tarde de um sábado e as seis da tarde do domingo, o Parque da
Luz foi todo iluminado com tochas, trabalho de um grupo de artistas franceses
que trouxeram até o combustível da França. Nessa Virada, que acontece uma vez
por ano, 4 milhões de pessoas vão para a rua para ver as atrações, que tal? É
preciso ter saúde para acompanhar a Virada, mas, quando bate o cansaço, é
fundamental ir tomar uma caipirinha no Bar Brahma, aquele que fica na célebre
esquina da Ipiranga com Avenida São João; o Brahma não fecha nunca, e lá
costumam cantar Cauby Peixoto, Angela Maria e os Demônios da Garoa.
Programa mais paulistano, impossível.


AS  LIC HIAS  DA M ALÁS IA
A vida para alguns vai bem; a diarista de uma amiga tem tantos clientes que
contratou uma empregada, e outra comprou o carro da patroa, que estava dura.
Legal, não?
Os salões de cabeleireiro são um luxo e parecem boates, ou são as boates que
parecem salões de cabeleireiro: geralmente pretos, com muito mármore,
espelho d’água e orquídeas brancas. O champanhe rola, e a conta nunca é menos
do que quinhentos reais. Supla frequenta o salão C. Kamura, onde se lava a
cabeça deitado e tem uma sala para as noivas, e é ao MG Hair que vão as peruas
e celebridades. Um colorista finlandês foi importado para cuidar da cor dos
cabelos das madames, e na Vila Madalena existe um cabeleireiro que só corta
num determinado dia do mês, dependendo da lua. Preço do corte: oitocentos
reais.
Na Rua Santa Efigênia, as lojas, todas elas, só vendem aparelhos eletrônicos. Já
na Avenida Europa, dos dois lados da rua, só carros importados, tipo Ferrari,
Porsche, Maserati, Jaguar, BMW, Audi, Mini Cooper, e as mais fantásticas
motos. São umas cinquenta lojas, e, segundo me contaram, os donos dessas
possantes e caríssimas máquinas passam o sábado e o domingo rodando pelas
ruas dos Jardins para se exibir; não há nada neste mundo que se compare a um
playboy rico e paulistano.
E no Jardim Paulistano há um colégio inglês chamado St. Paul onde os
meninos estudam de gravata. Dizem que é um programão sentar na loja em
frente para comer pão de queijo e ver a saída da garotada. Só tem seguranças, os
da escola e os dos alunos, e carrões. Num carro vai a criança com a babá, e atrás
outro carro, com quatro seguranças. Mick Jagger já foi fotografado na porta do St.
Paul, esperando o filho, e ali pertinho fica a igreja São José, onde se encontram na
missa de domingo os muito, muito ricos. Isso também é São Paulo.
E tem as feirinhas, a do MASP, a da Benedito Calixto, a do Bixiga e a da
Liberdade, bairro japonês. Nelas você encontra de tudo — de copos de cristal a
roupa de cama bordada, de candelabros de prata a liquidificador quebrado —,
mas o que mais gostei foi de um limpador de língua, de madeira, na Liberdade.
Limpador de língua; nisso eu nunca tinha pensado. Nessa feira comi espetinhos de
camarão a 1,50 real, um pratinho de sushi a cinco reais, e me senti no coração de


Tóquio, pois os velhos japoneses só se comunicam entre si na sua língua natal.
Eu andei tanto em São Paulo, mas tanto, que nem o metrô, que transporta 3,5
milhões de pessoas por dia, me escapou; um luxo, aliás, esse metrô. As estações
parecem um free shop, e têm até bibliotecas, de onde você pode levar um livro
para ler em casa e depois devolver — e de graça.
E tem um ótimo programa: ir ao Mercado Municipal, o Mercadão, que é
lindo. As barracas são tão bem-arrumadas que parecem feitas por um artista — e
artistas eles são. Existem barracas especializadas em tudo o que pode entrar
numa feijoada, as só de bacalhau, as só de azeitonas (quinze qualidades), as de
queijos, as de legumes (e tudo se belisca), aquela onde você pode comer o
melhor sanduíche de mortadela, a do melhor pastel de bacalhau, e as mais belas
de todas: as barracas das frutas.
Nossas frutas já são o máximo, agora imagine-as misturadas a outras
desconhecidas, estranhas e lindas, vindas, a maioria, da Colômbia. Além de
miniabacates e miniabacaxis, que são nossos mas eu nunca tinha visto, descobri as
pitorescas pitaya, granadilla, a lichia da Malásia (toda cabeluda), a pera crocante,
que parece coco, e muitas outras. Por cinco reais você faz uma degustação e
come um pedacinho de cada. Não é maravilhoso?
E, no bairro do Brás, quem tiver um bom olho — e saúde e disposição — pode
fazer seu guarda-roupa completo por dez, quinze, vinte vezes menos do que
gastaria nos Jardins.
Tem também a famosa Rua 25 de Março, que recebe aos sábados cerca de 1
milhão de pessoas — e não estou falando de véspera de Natal nem de Dia das
Mães. São edifícios inteiros com lojas em todos os andares, e, na rua, um
formigueiro. Lá tudo é mais barato, e os ônibus chegam do interior lotados de
donos de lojas que vêm só para comprar; cada pessoa gasta em torno de 2 mil
reais. E me garantiram que um ponto na Vinte e Cinco custa mais caro do que
nos Jardins, e sabe por quê? Porque na Vinte e Cinco as pessoas compram, e nos
Jardins, não.
E quem está a fim de bijuteria vai encontrar seu paraíso na Ladeira Porto
Geral, travessa da Vinte e Cinco, onde se vende todo tipo de contas, pedras,
pérolas, tudo já pronto; ou avulso, para que você exerça sua criatividade em casa.
A Vinte e Cinco agora tem concorrência: é o Bom Retiro, antigo bairro judeu, que
está sendo ocupado pelos coreanos.


S ÃO P AULO BY N IGHT
Em São Paulo, os alternativos não têm de que se queixar. Na Vinte e Quatro de
Maio, bem no centro, fica a Galeria do Rock, imperdível se você tem uma gota
de sangue nas veias que ainda vibra quando você ouve Rolling Stones. Os
alternativos transitam com cabelo roxo, verde, vermelho, vestidos da maneira
mais — como dizer? — alternativa possível. Na galeria você encontra de tudo
para se transformar numa punk de verdade. Além de fazer suas tatuagens e
colocar seus piercings, vai enlouquecer com o que pode comprar. As lojas de
tênis são fascinantes; já pensou um All Star de salto alto bem fino? Houve um
momento em que balancei com um brinco de acrílico que acendia e apagava,
mas tive juízo. Meus filhos agradeceram.
Mas aonde vai essa turma à noite? Pois procurei e descobri: à baixa Rua
Augusta, que era um centro de prostituição e se transformou num point para
jovens que não querem ser playboys nem modelos. Dezenas de barezinhos foram
abertos, e também clubes totalmente trash, que fazem a delícia da garotada. Ali,
até tarde, funciona um salão de cabeleireiro só para meninas do bairro, e existe
uma butique que poderia ser confundida com uma de Versace, com seus vestidos
de onça, de cobra, de zebra, seus manequins de peruca loura longa, igual aos
cabelos de Donatella, botas altíssimas, sandálias de salto e plataforma, enfim,
roupa de trabalho.
Lá, os clubes são assim: uma portinha estreita e mal pintada, geralmente preta,
onde nada está escrito. A decoração é péssima, a bebida é péssima, a comida é
péssima, mas a música é ótima, e é isso que eles querem. E a noite rende; nada
mais parecido com Berlim do que a noite de São Paulo. Existem lugares pré-
baladas (o esquenta), que é para se ficar até duas da manhã, e só então ir para a
festa; e tem festa de domingo a domingo.
No meio dessa fauna, há os emos, uma dissidência do movimento punk; têm
esse nome porque são muito, muito emotivos. Eles usam uma franja de lado,
longa e lisa, caída no olho, não se drogam e, apesar do que dizem, são chegados
num banho. Só vestem, basicamente, preto, só ouvem rock que fala de amor, e
choram por qualquer coisa. São vegetarianos; suas festas, onde não entra bebida,
se chamam verduradas, e viva São Paulo.
A noite na cidade começa tarde, mas tomei coragem e resolvi encarar. Fui
primeiro ao Blue Space, clube gay na Barra Funda, que abre mais cedo e às dez


horas já estava fervendo. São três andares e duas pistas de dança, o preço para
gays é dezessete reais e para mulheres — que eram poucas — 25 reais, e héteros
são raros. A casa existe há treze anos e recebe uma média de 1500 pessoas por
noite; na porta ficam mais mil, esperando a chance de poder entrar.
Depois de atravessar corredores, subir três degraus e descer cinco — todos de
altura diferente —, cheguei ao escritório da direção, igual ao dos filmes
americanos, de onde nunca sabemos se vamos sair vivos ou mortos. Sobrevivi,
voltei por outro caminho, e o que aconteceu? De repente me vi numa salinha de 2
m × 2 m, com cinco go-go boys de sunga vermelha e mais nada, se preparando
para o show. Que susto, ver cinco go-go boys de perto, e como eu gostaria de
saber que cara eu fiz, mas como. Fui para o camarote real, e lá embaixo, na
pista, não cabia mais ninguém. Todos dançavam freneticamente, muitos sem
camisa, muitos de boné, alguns beijos na boca, e dança, dança, dança. No fim do
ano há um campeonato de futebol na rua, bem em frente ao clube, que dizem ser
im-per-dí-vel.
Como já estava embalada, fui em frente, ao D-Edge, que só abre à meia-noite.
Lá o ingresso é quarenta reais, sexta-feira é a noite GLS (era sexta), e de sábado
para domingo o fechamento é ao meio-dia. As pessoas são cuidadosamente
revistadas na entrada, e o clube se dedica a “novos estilos”, seja lá isso o que for.
Tudo preto, é claro, mas ali o público estava mais a fim de se exibir do que de
namorar; faziam grandes coreografias, com direito a muitas caras e bocas, e
ninguém ficava parado, era uma animação só. Aí já era madrugada alta, e no dia
seguinte estava combinado irmos à Hell’s, do clube Vegas, que de sábado para
domingo abre às cinco da manhã, e à The Week, que só abre aos sábados a partir
das quatro horas, também da manhã.
A The Week é um fenômeno da noite gay paulistana. A boate — ou clube — é
gigantesca e recebe milhares de gays de todo o Brasil. Eles vêm de cidades do
interior para conhecer a maior referência entre clubes gays do país. Ela mudou o
conceito da noite gay de massa: não há shows, a música é house/eletrônico, sem
nada a ver com as disco/pop/oldies de antigamente.
A casa importou um modelo americano como o das fervidas noites gays de
Miami e Los Angeles, que é mais frenético mas também mais frio. Os
frequentadores são, em sua maioria, Barbies, gíria muito comum entre os gays
moldados em academias e loucos por sexo. Eles se vestem como garotos, e na
pista ficam sem camisa, se esfregando loucamente. O clube tem vários
ambientes, uma pista de dança gigantesca e uma piscina na área externa, onde
acontecem as pool parties, festas diurnas. E há um enorme dark room, que não
consigo imaginar para que serve.


Ah, fechando o capítulo gay, tem também o restaurante Spot, que depois da
uma hora da manhã é o ideal para os mais tranquilos, que procuram um
maridão.
Voltando: já que estávamos na rua, era melhor aproveitar. Será que não dava
para ir a outro lugar? Dava, e fomos. Ao Love Story, famoso clube entre a Praça
da República e a Avenida Ipiranga, que começa a animar mesmo depois das
quatro horas, pois “A casa de todas as casas”, como é conhecida, é para onde vão
as prostitutas de São Paulo depois do trabalho, só para namorar. Na fachada, três
enormes corações vermelhos dão o clima; afinal, a casa se chama Love Story.
A Love Story é o maior barato; abre à meia-noite, vai até nove, dez da manhã, e
mulher não paga. Já na entrada um porteiro me perguntou: “Quer guardar sua
bolsa? É mais seguro e não paga nada”. Tremi, agradeci, mas segurei a bolsa
com mais força. Lá as profissionais podem estar vestidas convencionalmente, isto
é, saia com fenda, meia preta, maquiagem carregada, ou como uma mocinha
que trabalha num escritório, de calça comprida e blazer. Mas têm em comum o
fato de serem todas alegres, comunicativas; conversam com todo mundo, e estão
ali só para dançar e namorar: o expediente já terminou, e que ninguém venha
falar de trabalho. É nessa casa que se veem mais pessoas se divertindo de verdade
em São Paulo. De manhã, quando o clube fecha, os garçons saem juntos e ainda
encaram uma pelada.
Já era bem tarde quando entrou um homem muito bem-vestido no Love Story
— terno, gravata, foulard; careta porém elegante. Logo se aproximou uma moça
que estava sem dúvida esperando por ele, e lá ficaram, sozinhos a uma mesa,
namorando. Isso me lembrou uma história que eu presenciei desde o início e que
foi muito divertida. Eu tinha uma amiga que era superboêmia; saía todas as noites,
ia a todas as boates, e terminava sempre no Zum-Zum, em Copacabana. Estou
falando do tempo em que se ia a boates, claro. Numa dessas noites ela conheceu
um homem charmoso, começaram um namoro, se apaixonaram, mas havia um
pequeno problema: ele era casado. Casado e coronel do exército, entrava no
quartel às seis da manhã. O que eles inventaram? Ah, nada como a imaginação
dos corações apaixonados.
O coronel, que costumava acordar às cinco horas — a mulher ficava dormindo,
bem entendido —, passou a acordar às duas. Tomava banho, botava a farda,
chegava ao Zum-Zum antes das três horas, tirava a farda, botava uma camisa
esporte que já estava à sua espera, sentava-se e pedia o primeiro uísque. E lá
ficava até as cinco e meia, quando se vestia de novo e ia para o quartel. O
romance durou um tempão, os dois acabaram se casando; e o coronel, que
chegava ao quartel cheirando a uísque, teve que mudar de profissão.


De volta à noite de São Paulo: agora tem a novidade dos lugares secretos, que
não têm placa, porteiro, nada que indique que ali está acontecendo alguma coisa.
Tem restaurante japonês secreto, maquiador secreto, cabeleireiro secreto, bar
secreto. E tem também os restaurantes secretos, que, na data que escolherem,
preparam um jantar maravilhoso e passam e-mails para sua clientela dizendo que
dia tal vai ter jantar e contando o que vão servir. Quem quer responde e reserva, e,
quando o restaurante já está lotado, está lotado e pronto. Esses se chamam “de
portas fechadas”.
São Paulo é uma cidade tão rica, tem tantas coisas a serem exploradas, que há
gente que diz que o melhor é não sair de casa, pois, se você pedir por telefone,
tudo chegará às suas mãos, pontualmente, na hora marcada.
Como vocês perceberam, não deu para ir no sábado às duas boates gays, mas
fica para a próxima, quando vou tomar um remédio para dormir às seis da tarde e
acordar às três da manhã pronta para o que der e vier.
Porque, se São Paulo não pode parar, também ninguém pode parar em São
Paulo.


BUE N OS  AIRE S
M ARADON A É  DE US
A primeira vez que saí do Brasil foi para conhecer Buenos Aires. Eu tinha uma
grande amiga, Elvirita Amaral, cuja mãe era uma argentina muito rica, lo mejor
de lo mejor, o que significa: de uma família da alta aristocracia. Imagine eu, com
quinze anos, já fazendo uma viagem internacional; fiquei louca pela cidade, e
com razão. Buenos Aires é lindíssima, e nessa época a Argentina era um país
extremamente rico. Conforme diz a história, o segundo mais rico do mundo.
Alguns anos depois, quando fui a Paris, achei que a cidade se parecia com
Buenos Aires — e meus companheiros de viagem riram, me considerando
ingênua e, talvez, ignorante. Hoje vejo que estava certa. As mansões de Buenos
Aires foram projetadas por arquitetos franceses, os jardins e o parque de Palermo
— os Bosques de Palermo —, desenhados pelo mesmo paisagista que fez o Bois
de Boulogne, Carlos Thais.
Naquele tempo os argentinos ricos eram tão ricos que, quando se queria falar
de riqueza em Paris, se dizia “riche comme un argentin”. E o país era tão próspero
que o parque de Palermo — equivalente ao Parque do Flamengo, no Rio, ou ao
Ibirapuera, em São Paulo — já tinha vários campos de polo e golfe, esportes na
época tão populares na Argentina quanto o futebol no Brasil; e na Calle Florida
havia a única filial da loja londrina Harrods, que só vendia artigos ingleses mas
não suportou as crises e fechou. A Harrods de Londres hoje pertence ao
milionário Al Fayed, que a comprou em 1985 por 615 milhões de libras. Muitas
vezes pensei em voltar a Buenos Aires, mas a troco?
Um dia, o destino veio em meu socorro. Ia eu muito distraída pela rua quando
alguém me abraça pelas costas e diz: “Chérie, quanta saudade; vamos
imediatamente tomar alguma coisa e falar da vida”. Era minha amiga Linda
Imaculada, que encontrei em Sevilha há dois ou três anos e queria porque queria
namorar um toureiro. Escrevi a história no volume anterior desta série, mas não
citei seu nome, e a primeira coisa que ela fez foi reclamar; Linda adora ver seu
nome impresso.
Nós nos conhecemos há séculos, mas eu não a via fazia anos; uns trinta, talvez.
Ela continua muito bonita, e se comporta como se o tempo não tivesse passado.
Acho que é porque não há nada que esquente a cabeça de Linda e tire dela a


esperança de encontrar o amor de sua vida e ser feliz para sempre. Impossível
saber sua idade, pois esse assunto está mais bem guardado que a caixa-preta do
Senado. De cirurgia plástica ela não fala, é como se não existisse, mas no seu
banheiro vi vários potes com unguentos estranhos de odores estranhos, em
grandes vidros sem rótulo, que ela deve ter trazido de algum país estranho. Esse é
apenas um dos mistérios da vida de Linda.
Outro mistério é: de que ela vive? Linda nunca foi rica; o pai, quando morreu,
lhe deixou um dinheirinho (pouco), mas ela sempre se virou para poder fazer o
que mais gosta: viajar. Trabalhou esporadicamente em moda, jornalismo,
turismo, e sempre trazia coisas belíssimas de países aonde ninguém costumava ir;
quando precisava de dinheiro, vendia. Como tem muitos amigos, às vezes
descolava uma passagem de graça, e, mesmo que fosse para o Zimbábue, ela ia.
Outras vezes conseguia um upgrade e entrava na classe executiva com ares de
princesa árabe.
De tanto correr o mundo, se casou algumas vezes e, a cada vez, de forma
definitiva. Para Linda, o amor é sempre eterno. Com o grego viveu um verão em
que foi feliz com dois biquínis e duas camisetas, numa ilha; com o francês morou
num vinhedo até que o vinho se transformou em vinagre; com o professor de
esqui, o tempo de um inverno em Megève; com um marroquino modificou o jeito
de se vestir e aceitou que ele tivesse mais duas esposas. Ainda houve outros
casamentos, mas me esqueci (e ela também).
Linda Imaculada é livre, independente, ética e moralista à sua maneira, muda
de casa, de cidade, de país e de marido como quem muda de camisa; é pura,
ingênua, romântica, incapaz de namorar um homem casado ou um político,
acredita em tudo o que ouve, e tem sempre 3 mil euros na gaveta para uma
eventualidade. Uma viagem, por exemplo. Mas é um peixe ensaboado, e não
consigo ter com ela uma relação estável, já que nunca sei onde está vivendo.
Depois de dez minutos de conversa ela contou que iria a Buenos Aires na
semana seguinte. Fazer o quê? Nada, mas soube que a Argentina está
baratíssima, os homens são os mais lindos do mundo, e já está na hora de arranjar
um marido e sossegar. E emendou com um “por que não vem comigo?”. Eu não
podia; tinha compromissos, seria impossível sumir por tanto tempo, só que os
convites de Linda são em geral irresistíveis, e respondi, sem pensar muito:
“Fechado”. Ia ser uma semana maravilhosa, eu tinha certeza. Linda foi logo
dizendo que ficaríamos em quartos separados, pois nunca se sabe. Sempre sábia,
essa minha amiga.
A chegada a Buenos Aires prometia. A tentação começou no free shop, em


frente ao banco onde se compram pesos (sempre com a pior cotação), com todos
os cremes, todas as marcas de óculos escuros e todas as inutilidades que são
oferecidas com preços ótimos. Depois de contratar um remise (que é o que se
deve fazer em Buenos Aires, onde os táxis comuns não são de confiança; também
se pode chamar um radiotáxi), tomamos o caminho da cidade. O céu estava azul,
o sol, frio, e tínhamos a chance de usar nossas roupas de inverno, felicidade total.
Mal largamos as malas no hotel, Linda disse: “Vamos ao La Biela, é o Café de
Flore de Buenos Aires”. É mesmo, e logo em frente fica outro café simpático, um
pouco mais moderno, o Café de La Paix. Igualzinho a Paris, com o Flore e o
Deux Magots.
O La Biela é o café mais charmoso de Buenos Aires, em plena Recoleta, com
um pequeno reservado para os fumantes, e cheio o dia inteiro: de manhã, na hora
do almoço, depois do almoço, na hora do chá, do drinque, do jantar. Aberto das
sete às três da madrugada, lá se lê jornal, se come, se bebe, se toma café, chá; é
frequentado por velhos, moços, muito moços, muito velhos, isso num bairro
chique e badalado. Fica a duas quadras da Avenida Alvear, onde estão todas as
lojas, aquelas: Cartier, Vuitton, Hermès, Ralph Lauren, e do hotel Alvear, um dos
mais lindos que já vi, o melhor da América do Sul, e que guardou todo o estilo dos
tempos em que a Argentina era riquíssima: seus porteiros usam cartola, e os
garçons, fraque; um luxo.
Mas a cidade não precisa das lojas internacionais para ser muito chique: as
nativas, digamos assim, sobretudo as que vendem artigos masculinos, podem
competir com as melhores do mundo, e os preços são uma brincadeira. Eu, se
fosse homem, iria todos os anos a Buenos Aires refazer meu guarda-roupa, e seria
elegantíssimo. E, antes que me esqueça, figurinha fácil no La Biela é o ator
Robert Duvall, que se casou com uma argentina, comprou um apartamento em
Buenos Aires e uma estância, e é fascinado por tango. Outro ator apaixonado
pelos bons ares da cidade é Tommy Lee Jones, que também tem casa lá.
Um pequeno parágrafo para falar dos argentinos em geral; os homens são de
uma elegância de cair o queixo, e mesmo os mais modestos se vestem de
maneira correta, sempre de gravata, blazer, cachecol e até sobretudo, conforme
a temperatura. E vamos confessar: eles costumam ser bonitos, e ainda tem os
lindos. Estes nos fazem parar na rua e ficar olhando, sem acreditar no que
estamos vendo. São de tirar uma pessoa do sério, ai, ai. As mulheres têm todas
um quê de Cristina Kirchner: longos cabelos muito bem cuidados — devem fazer
escova dia sim e o outro também; a única diferença é que a maioria usa mechas,
muitas mechas. E, por falar em La Kirchner, consta que, desde que foi eleita, a
presidenta nunca repetiu uma só roupa, isso é que é.


Chegamos ao La Biela e, para festejar, pedimos um copo de champã, como
dizem os portenhos. O La Biela é um café bem grande, com um ar meio antigo,
e do qual você gosta imediatamente. Os argentinos adoram champã — vinte pesos
o copo: tomam antes do almoço e do jantar, e também durante e depois (quando
não estão bebendo vinho), e nos intervalos, quando não sabem o que pedir.
E nesse café tem uma coisa inusitada: engraxates que entram com um
banquinho e uma caixa com seus instrumentos de trabalho, mas atenção: tanto o
banquinho como a caixa são revestidos de um couro belíssimo, preso na madeira
por tachas que brilham feito ouro. Eles dão uma volta no salão, e, se alguém
chama, se acomodam e engraxam — muito bem — seus sapatos ou botas por
cinco pesos, ou dez, dependendo da cara do freguês.
Aproveitamos a ida ao La Biela e estipulamos algumas regras para a viagem.
Como nossos interesses não seriam sempre os mesmos, combinamos assim:
cada uma faria o que quisesse, e só sairíamos juntas se o programa interessasse
às duas; mas, mesmo indo cada uma para um lado (que foi o que fizemos a
maior parte do tempo), de qualquer maneira nos encontraríamos para jantar — a
não ser que surgisse numa esquina o grande amor da vida de Linda, claro.
Depois do segundo copo nos despedimos, desejando um feliz dia uma para a
outra, e saí pela Recoleta à procura de uma coisa que adoro: empanadas (Linda
não ia comer para não engordar). Empanadas são um tipo de pastel de forno,
recheado de frango ou carne e ovos cozidos, temperado com curry, que se
encontra em qualquer ponto da cidade. É um petisco típico, como o acarajé na
Bahia, e não custa praticamente nada: de quatro a dez pesos, conforme o lugar, e
com duas se está almoçada.
Fui andando sem rumo e sem pressa, lembrando que a Argentina é o país dos
mitos; e os três maiores são — não pela ordem, porque cada um tem a sua —
Gardel, Evita e Maradona. Parei numa livraria e vi uma infinidade de livros sobre
os três, todos repletos de fotos. Indiquei ao livreiro um dos livros e perguntei se
tinha a foto de Maradona fazendo o célebre gol com a mão, gol que o jogador
declarou, com a maior audácia, ter sido feito com a mão de Deus, e o livreiro me
disse: “Não; e quem fez o gol foi Maradona mesmo, pois ele é Deus”. Diante
disso, só me restou concordar e comprar o livro.
Aliás, a grande conversa com os motoristas de táxi é sobre quem é o melhor,
Maradona ou Pelé. Não houve um, mas nem unzinho, que tivesse dito Pelé. Eles
são alucinados por Maradona, e há uma geração na Argentina que se chama
“geração dos Diegos”, pois toda criança que nascia era registrada com o nome do
craque. Por mais loucuras que tenha feito, Maradona é considerado, no seu país,


um deus.


C ARN E  E  C HAM P Ã
Bem, ao almoço; descobri um restaurante supersimpático, na esquina de Vicente
López com Ayacucho, chamado Rodi. Gostei e entrei. Adoro descobrir
restaurantezinhos assim na aventura, sem nenhuma recomendação, e a primeira
coisa que faço é ver se está cheio ou vazio. Se está cheio, é porque vale a pena, e
era o caso. Já era tarde, por isso encontrei mesa; pedi minhas empanadas (duas) e
me regalei. Acompanhando, uma jarrinha de Malbec. Como não sou expert em
vinhos, vou falar do assunto só uma vez, e pronto. O garçom (no Rodi não tinha
sommelier, é claro) me disse que o Malbec é um ótimo vinho; naturalmente,
existem vários tipos de Malbec, de diferentes anos, mas, para facilitar minha vida,
ficou sendo o único vinho da viagem. Paguei por esse delicioso e simplíssimo
almoço quarenta pesos e saí de lá mais leve que uma borboleta, olhando as
portarias dos edifícios, de um luxo e bom gosto fora do comum.
Que bom seria se os nossos incorporadores dessem um pulinho a Buenos Aires
para ver o que é um prédio com estilo, e nunca mais botassem espelho azul nas
fachadas. Lá, muitos edifícios têm as portas enormes, douradas, e acho que todos
os dias elas são limpas com Kaol, de tanto que brilham.
Continuei andando e passei por vários restaurantes que são chamados de
asador criollo; logo na entrada, há um fogo de chão, feito com carvão e com fogo,
claro, onde se colocam os espetos com todos os tipos de carne. Como nesses
lugares os pratos são imensos, basta pedir um para duas pessoas. A carne é
sempre boa, e os preços variam, mais pelo décor do que pela gastronomia. Nos
mais caros, entrada, prato principal e sobremesa custam em torno de sessenta
pesos. Já nos mais baratos, o mesmo pedido sai por dez pesos, dá para acreditar?
Ah, o vinho é à parte.
Depois de muito passear e ver vitrines, me dei conta de que já eram cinco
horas e resolvi ir descansar, pois, apesar de a viagem ter sido curta — três horas e
meia, Rio-Buenos Aires, sem escala —, eu não tinha parado ainda, e precisava
pelo menos desfazer a mala. Quando cheguei ao quarto do hotel, encontrei um
bilhete de Linda debaixo da porta, dizendo que ela havia dado vários telefonemas,
que íamos jantar no Mirasol, a convite de sua amiga Márcia Carmo, jornalista
brasileira que se mudou para Buenos Aires há onze anos, desde que se apaixonou
por Jorge, jornalista argentino, e que eu estivesse pronta às nove em ponto (Linda
é muito pontual). Ah, me esqueci de falar do nosso hotel, o Ulises. Não é o luxo
dos luxos, mas custa apenas 165 dólares por dia. Simpático, nada de mais nem de


menos, mas num ponto ótimo.
Uma das boas coisas de viajar com Linda é que ela tem amigos no mundo
inteiro, e todos a adoram. E, no fundo do seu coração, ela viajou, claro, pensando:
“Se Márcia se casou com um argentino bonitão, por que não pode acontecer a
mesma coisa comigo?”. Ah, Linda. Às nove horas estávamos na portaria e, como
o encontro era às nove e meia já no restaurante, fomos tomar um drinque no bar
do hotel Alvear, a vinte metros do nosso. Ah, que bar lindo! Que clima! Que bom
gosto! Um dos melhores bares do planeta, eu diria. Decidimos que todas as noites
tomaríamos um drinque lá, antes do jantar, e no hotel Alvear teríamos ficado se a
diária não fosse 440 dólares.
O Mirasol é especializado em carnes, o que para um primeiro dia em Buenos
Aires é a perfeição. Esperamos no bar por uma mesa, e logo nos ofereceram una
copa de champã. O restaurante cheio de gente elegante, as mulheres como
sempre muito bem penteadas, e os homens como sempre lindos. Muito lindos
mesmo.
Na hora de escolher foi aquele problema, tal a variedade de carnes. Tinha até
uma que se chamava ojo de bife, e cheguei a pensar que era o próprio olho do boi
— e por que não? —, mas não passava de uma simples entrecôte. Do famoso bife
de chorizo, o mais popular, não gostei, achei a carne dura; em compensação, a
morcilla (linguiça de sangue, equivalente ao boudin francês) era uma maravilha,
as papas fritas, de primeiríssima, tudo acompanhado por um Malbec — só não
me pergunte de que ano nem de que vinícola.
E chegamos ao capítulo sobremesa. É claro que fazemos parte da confraria
que não quer engordar um grama, mas como resistir às panquecas recheadas de
dulce de leche, uma instituição do país da qual não se pode abrir mão? Caímos de
boca, três panquecas para cada, e, depois, mais una copita de champã, oferta da
casa. O jantar foi convite do casal, mas botei um olho para saber dos preços, e
fiquei espantada. A conta de toda aquela comilança para quatro pessoas foi 210
pesos, com bebida e sobremesa. Pelo câmbio do dia, 130 reais: uma brincadeira,
se compararmos esse valor aos preços do Brasil.
Depois de ter pedido a Márcia várias dicas sobre aonde ir, o que ver, o que e
onde comprar, fomos dormir animadíssimas, fazendo planos para o dia seguinte.
Como sempre, cada uma para um lado, e jantar juntas, a não ser que…


E VITA
Vou logo confessar minha fascinação por Evita Perón, e resolvi dedicar a essa
mulher tão forte e de tanta personalidade meu primeiro dia em Buenos Aires. E
comecei indo ao cemitério da Recoleta, em que — presume-se — está o corpo
de Evita. Antes, quero dizer que na cidade os cemitérios são pontos turísticos,
onde as pessoas passeiam e até visitas guiadas acontecem, duas vezes por dia. Os
grupos são grandes, e a maior parte deles é composta de turistas.
O cemitério é todo cruzado por ruas, de tempos em tempos há um banco para
descansar, e lá não existem sepulturas, só mausoléus — e cada um mais suntuoso
e importante que o outro. Uns em estilo art déco, outros, em art nouveau, e muitos
em estilo livre; mas todos grandes, feitos de diferentes tipos de mármore, com
estátuas e adornos. Os mausoléus são tão ricos, que alguns chegam a custar 1
milhão de dólares, e dizem que, na Recoleta, é mais barato viver do que morrer.
O de Evita é o mais procurado, e diante dele sempre há uma pequena multidão
olhando e fotografando. É o único cheio de flores, e em cima, em letras douradas,
se lê FAMILIA DUARTE. Nas laterais estão as placas de metal oferecidas à Mãe
dos Descamisados pela Confederação Geral dos Trabalhadores da Argentina,
pela associação das mães da Plaza de Mayo, e pelos muitos que Evita ajudou.
Mas ninguém tem realmente certeza de que seu corpo esteja ali, já que durante
catorze anos ele perambulou pelo mundo; os não peronistas sabiam que, se ele
fosse trazido de volta, multidões se formariam para visitar o local onde o
abrigassem. Quando Evita morreu, aos 33 anos, o país parou, e o velório durou
catorze dias.
Já o corpo de Perón — sem as mãos, que foram cortadas — está no La
Chacarita, repleto de árvores e também ponto turístico da cidade. As pessoas vão
visitar esse cemitério menos por Perón e mais por Carlos Gardel, em cujo túmulo
há uma estátua em tamanho natural, com o tradicional chapéu e segurando um
cigarro (de verdade). Quando o cigarro desaparece, sempre vem alguém e
coloca um novo entre os dedos do artista. Numa das placas, os dizeres: “El mundo
entero te quiere y nunca te olvidará”.
O mundo inteiro, não sei, mas a Argentina nunca o esqueceu, e há quem diga
que Gardel está cantando melhor que nunca; ele é um fenômeno como talvez não
exista outro igual. Alguns dizem que ele nasceu na França, outros, que nasceu no
Uruguai; o próprio cantor afirmava: “Nasci na Argentina com dois anos e meio”.
Não se casou, e morou com sua mamã, a francesa Berthe Gardés, até morrer


num desastre de avião, em 1935, com 45 anos. A casa onde viveram é hoje o
museu Carlos Gardel, e vamos deixar bem claro: apesar das aparências, Gardel
não era gay, e ai de quem ousar insinuar tal infâmia, pois será escorraçado em
praça pública.
Mas voltemos a Evita Perón; já que eu estava no seu rastro, do cemitério fui ao
museu Evita: um pouco abandonado, um pouco pobrinho, com algumas fotos, uns
poucos vestidos, e onde não para de ser exibido o vídeo em que ela faz seu famoso
discurso se recusando a ser candidata a vice-presidente da nação. Apesar de tanto
tempo ter passado, sua figura ainda arrepia. Nunca houve, pelo menos na
América do Sul — nas Américas, talvez —, uma mulher como Evita.
Depois de visitar o museu — menos do que ela merecia —, fui a uma livraria e
comprei um monte de livros sobre Evita; uns que contam a história da sua vida, e
outros só de fotos. Ela era elegantíssima, só se vestia em Dior e tinha os mais
lindos casacos de pele que você possa imaginar.
Que a oligarquia argentina odiava Evita, todo mundo sabe, e ela não era fácil.
Uma noite em que haveria espetáculo no Teatro Colón, com a plateia lotada, o
casal Perón se atrasou mais de uma hora; alguns contam que a culpa foi do avião
que trazia o vestido dela de Paris, outros, que Evita fez de propósito, para irritar,
como ela dizia, “estes oligarcas de mierda”. A verdade é que, quando ela — divina,
com um vestido e capa deslumbrantes — e Perón chegaram ao camarote
presidencial, tocou o hino nacional, como era de hábito. Os “oligarcas de mierda”
se levantaram mas ficaram de costas para as autoridades, virados para o palco; e
os Perón tiveram que engolir. Assim era a Argentina: ou as pessoas adoravam
Evita ou a odiavam. Se morasse lá naquela época, eu a adoraria.


BIFE  DE  KOBE  ARGE N T IN O
Eu e Linda havíamos combinado nos encontrar todas as noites às nove horas no
hall do hotel, mas, depois da experiência da véspera, mudamos o lugar do
encontro para o bar do Alvear. Nessa noite, quando cheguei, Linda já estava
diante de um martíni, e cheia de novidades; de compras, claro.
Tinha passado o dia na Calle Florida, que, na sua opinião, já não era o que
havia sido (e não era mesmo, dessas coisas Linda entende). Com o comércio um
pouco decaído, o que valeu foi ir até o fim da rua para ver o tradicional hotel
Plaza (que agora é Marriott Plaza), passear na Plaza San Martín, em frente, e
lembrar que foi lá que ela viu pela primeira vez um baobá, aquela árvore enorme,
da qual só sabia o nome porque havia lido O pequeno príncipe. Linda adora esse
livro, é um dos seus prediletos, e ela não está nem aí se é o preferido das misses.
Em compensação, adora também Terre des hommes e Vol de nuit, do mesmo
autor, Saint-Exupéry, livros que leu no original. E pensa que, se tivesse conhecido
Saint-Exupéry,teria se apaixonado por ele loucamente. Linda é muito romântica.
Depois de me contar em detalhes o que havia feito, e de mostrar suas botas
novas, disse que tinha reservado mesa para jantar num restaurante da moda ali
pertinho, na Calle Posadas, mas que precisava absolutamente tomar outro martíni
para ficar mais uns minutos naquele que era o bar de sua vida e contar detalhes
do que tinha visto nas Galerías Pacífico. Linda comprou ponchos, cintos, sacolas,
cuias de chimarrão, tudo o que encontrou do artesanato argentino, e só faltou
levar uma sela para cavalos. Mas pra que tudo isso, Linda? “Ora, quando eu não
quiser mais, eu vendo.”
Fora um lado totalmente comercial, ela tem também um lado sentimental, e
afinal contou: íamos jantar num restaurante chamado Fervor, que foi escolhido
porque ela havia lido o livro de poemas Fervor de Buenos Aires, de Jorge Luis
Borges, ficara encantada, e achou que isso devia ser um sinal. Linda acredita
muito em sinais (menos nos de trânsito, quando está dirigindo).
Na verdade, era um sinal; chegamos tão atrasadas, que já haviam cedido nossa
mesa, e o jeito foi procurar outro restaurante. Eu tinha ouvido falar muito bem do
Oviedo, e a recepcionista do Fervor foi gentil; ligou, reservou, e ainda chamou um
táxi para nós. Meia hora depois estávamos instaladas num dos melhores
restaurantes de Buenos Aires.


O Oviedo é bom, bonito, tem um serviço de primeira, mas é sem graça. As
pessoas são sem graça, o clima, um tanto desanimado; um restaurante para
casais de namorados que não convencem, para casais malcasados, não para duas
brasileiras querendo confusão. Querendo pelo menos ver um pouco de confusão.
Mas foi lá que vi no menu: bife de Kobe.
Para quem não sabe, essa carne vem do Japão, da cidade de Kobe, onde o boi
é massageado todos os dias com saquê, óleo e cerveja, e é alimentado
praticamente só com cerveja, além de um capim muito especial; durante sua
curta vida de três anos, ouve música clássica dia e noite, para não se estressar.
Sua carne, que tem veios de gordura, é tida como a melhor do mundo e, segundo
me contou Boni — considerado o homem que mais entende de gastronomia e
vinhos no Brasil —, custa mil dólares o quilo; e só existe no Japão, ou em raros
restaurantes nos Estados Unidos.
Pedi, é claro, não sem antes perguntar ao garçom de que se tratava, se era
autêntico; ele me explicou que estavam fazendo uma experiência na Argentina
para chegar ao verdadeiro bife de Kobe, e, apesar de ser apenas uma experiência,
achei das melhores carnes que já comi. Porque o que dá gosto à carne é a
gordura, e nada pior do que um filé-mignon, macio mas sem gosto de nada. O
jantar foi maravilhoso, no entanto caro para os padrões — 250 pesos para duas
pessoas, com vinho. Saímos de lá felizes, só faltava concluir a noite botando o
papo em dia. No La Biela, claro.
O café estava animadíssimo, como sempre, e lá ficamos até duas horas da
manhã, olhando quem entrava e quem saía, e comentando. É preciso lembrar
que em Buenos Aires normalmente se janta entre dez e onze horas, por isso duas
da manhã ainda é bem cedo — e olha que não caímos na balada. Aliás, me
contaram que os jovens argentinos voltam do trabalho, jantam, dormem, acordam
à meia-noite e só aí vão para a “naite”. Não, eu e Linda não temos mais idade
para isso (ela talvez tenha). No dia seguinte, iria cada uma para seu lado, e nos
veríamos apenas às nove da noite. Eu adoro Linda, mas o dia inteiro com ela não
dá. Quando cheguei ao quarto, fiz meus planos.


P AN E LAÇ OS
No dia seguinte iria tomar meu café no Alvear — algum luxo na vida às vezes é
artigo de primeira necessidade —, e sozinha, pois Linda é um pouco espaçosa.
Fui, e meu lado deslumbrado se deslumbrou com a prataria antiga, as xícaras
de porcelana, as medias lunas mais gostosas da cidade, os biscoitinhos, as torradas
quase transparentes, a manteiga que parece ter chegado na mesma manhã
diretamente da Normandia, as três qualidades de geleia, o mel; tudo é uma
maravilha.
Aconselho a todos que vão a Buenos Aires a não perder o chá do Alvear, que vai
das quatro às sete horas e nos leva ao século retrasado, com bolinhos, docinhos,
sanduichinhos, tudo o que pode haver de melhor, em matéria de chá para pessoas
de finíssimo trato. Saí andando sem destino, olhando as vitrines, e notei que,
quanto mais perto do Alvear, mais caras são as coisas.
Quando vi, estava em frente ao Patio Bullrich, o shopping mais requintado, mais
chique e mais caro de Buenos Aires. É de fato mais luxuoso que as Galerías
Pacífico, e os preços, bem mais altos. No Bullrich há duas entradas: pela Avenida
Libertador e pela Calle Posadas. O shopping pertenceu a uma grande família
argentina, os Bullrich; e naquele local, um dos mais sofisticados e valorizados da
cidade, funcionava uma casa de leilões de seus touros, vacas e cavalos.
Não podemos esquecer que, nos áureos tempos da Argentina, os melhores
cavalos do mundo, de polo e de corrida, eram os desse país. Aí os americanos
foram chegando e comprando todos, por quantias astronômicas; e o hipódromo
de San Isidro, que era o máximo de elegância, só comparável a Longchamps e
Eaton, perdeu seu esplendor.
Voltando ao Patio Bullrich: como felizmente eu não estava numa onda de
compras, deu para subir e descer pelas escadas rolantes olhando tudo mas sem
enlouquecer com nada, a não ser com as delicatéssen. Ah, como deve ser bom
morar em Buenos Aires e fazer umas comprinhas para o fim de semana.
Antes de começar a delirar, saí do shopping e continuei andando; de repente, vi
uma belíssima casa com a bandeira brasileira hasteada. Era a embaixada do
Brasil, só podia ser. Parei e fiquei olhando, com a leve impressão de que já tinha
visto aquele filme. A memória foi voltando aos poucos, até que lembrei: na minha
primeira viagem à Argentina, estive muitas vezes naquele hotel particulier, que


pertencera à família Pereda, estancieiros e exportadores riquíssimos, cujos filhos,
Bubby e Vicente, por coincidência eram meus amigos. Não sosseguei enquanto
não consegui, sob os auspícios de Márcia, fazer uma visita à embaixada, que
estava exatamente igual ao que havia sido. Os jardins e a piscina nos fundos da
casa, é claro, para não serem vistos pelos passantes.
A história é incrível: Celidônio Pereda, pai dos meus amigos, encomendou o
projeto da casa a um arquiteto francês, e as obras começaram em 1919. A casa,
cópia de um prédio parisiense, só ficou pronta em 1926, e os arquitetos mandaram
maquetes detalhadas dos cômodos, com indicações precisas de cores, ao célebre
muralista catalão José Maria Sert. Sem sair da Europa, Sert pintou cinco telas do
tamanho exato de cada teto. As telas só chegaram em 1932, e o señor Pereda não
pôde vê-las, pois já estava cego.
A família mais tarde vendeu a casa para o governo brasileiro e se mudou para
outra, não muito longe, também adquirida depois por um governo estrangeiro, o
da Rússia. Nossa embaixada é deslumbrante, e rivaliza com a de Roma em
beleza — cada uma em seu estilo. Saindo dali, passei pela porta da sede do
Jockey Club, que não permite a entrada de mulheres, a não ser se estiverem
acompanhadas por um sócio do sexo masculino. Dá para acreditar? (Quando
contei a Linda, ela ficou indignada.)
Aliás, não é só na arquitetura que Buenos Aires se parece com Paris. Não
conheço nenhuma cidade, além das duas, que tenha tantas livrarias e tantos cafés.
E sabe por quê? Elementar, meu caro Watson: porque os argentinos leem muito.
E leem porque não existe argentino analfabeto — o jornal El Clarín vende 1
milhão de exemplares aos domingos.
Até mesmo os bolivianos que chegam aos montes para tentar a vida na
Argentina têm direito a educação e saúde — eles e qualquer imigrante de
qualquer país. Informação cultural: Buenos Aires é a segunda cidade com mais
bolivianos no mundo.
E quem lê tem sobre o que falar, o que discutir, por isso os cafés vivem lotados,
com pessoas lendo jornais ou livros, com grupinhos discutindo filmes (os cinemas
têm sessão à meia-noite) ou política. São superpolitizados, os argentinos, e
qualquer motorista de táxi sabe de tudo o que está se passando no Congresso.
As livrarias são esplêndidas. A mais linda e luxuosa de todas é El Ateneo, na
Avenida Santa Fe, antigo teatro do qual se conservaram os camarotes, as frisas, e
até o palco, onde funciona um café. As pessoas tiram um livro da estante e
sentam-se para ler — ou usam a internet, sem pagar nada —, e nisso podem


passar o dia inteiro. As livrarias são uma festa, ficam abertas até alta madrugada e
estão sempre cheias de gente.
E o café mais bonito, não de Buenos Aires mas talvez do mundo, é o Tortoni, na
Avenida de Mayo, inaugurado há quase duzentos anos. O Tortoni é inseparável da
história da cidade, e visita obrigatória para todos os estrangeiros de passagem. Os
Clinton, por exemplo, estiveram lá, e frequentadores assíduos foram Borges e
Gardel. Com seu estilo fim de século, pesadas cortinas de veludo cor de vinho,
madeiras e bronzes bem tratados, o Tortoni conta ainda com uma bela biblioteca,
uma sala de bilhar, uma de exposições e outra de espetáculos no subsolo, onde à
noite tem show de tango a sessenta pesos por pessoa. Mas você pode também ir lá
à tarde, para tomar um chocolate quente e comer churros recheados de dulce de
leche (1 milhão de calorias); depois, pode tirar da bolsa seu baralho e jogar um
biribinha mano a mano com seu/sua acompanhante.
Linda tinha resolvido passar aquela tarde andando comigo pelas ruas, e
cruzamos com vários passeadores de cachorros, coisa que não conhecíamos. Os
que vimos eram jovens, fortes e bonitos, alguns usavam patins, e levavam dez,
doze animais de variadas raças e tamanhos. Os cães se comportavam muito bem,
nunca latiam, e no verão o espetáculo ainda tem uma atração a mais: os
passeadores trabalham de jeans e torso nu, torso esse que parece um tanque.
Linda não aliviou: se dirigiu a um deles dizendo que tinha um cachorro etc. etc.
e perguntando quanto custaria passeá-lo. Dependendo do tamanho, ele respondeu,
entre 280 e trezentos pesos mensais por um passeio diário de quatro horas, das
dez às catorze — nada caro. Linda não tem cachorro, claro, mas pediu a cada
um dos passeadores um cartão, e também para fazer uma fotinho no celular. Ela
é capaz de tudo, até de comprar um cachorro para poder marcar um encontro e
combinar o trabalho.
Fomos andando e de repente nos vimos na Avenida 9 de Mayo, a mais larga do
mundo, com 140 metros de largura e dez pistas para carros. Como a cidade é
plana, foi fácil, com um mapinha na mão, chegar à Plaza de Mayo, que fica em
frente à Casa Rosada. Nessa praça, se reuniam — e se reúnem até hoje — as
mães da Plaza de Mayo, que clamam por seus filhos desaparecidos durante a
ditadura. O número de mães diminuiu, mas elas continuam a se encontrar às
quintas-feiras, às três horas da tarde; na cabeça, o lenço branco, que representa
uma fralda. É lá também que acontecem com grande frequência os panelaços,
pois os argentinos todos os dias vão para a rua reclamar de alguma coisa. Se nós,
brasileiros, fizéssemos o mesmo, o país parava. Em uma semana em Buenos
Aires, vi dois panelaços; contra o quê, não cheguei a saber.


Uma curiosidade: em 2001 houve na Argentina o famoso corralito, que congelou
as contas bancárias e poupanças — nas contas em dólares, que eram permitidas,
40 bilhões foram congelados; durante pouco mais de um ano, cada argentino
tinha direito a sacar apenas 250 pesos por semana, quantia que mal dava para as
compras do supermercado. Nessa época, os panelaços eram realizados dia e
noite, sem trégua.
A partir daí, os argentinos perderam a confiança e resolveram guardar o
dinheiro em casa; lá ninguém usa cheques, e, quando a atual presidenta deu uma
anistia geral, autorizando os cidadãos a repatriar as somas depositadas em bancos
no exterior sem ter que pagar um centavo de imposto por isso, ninguém se mexeu;
o dinheiro de todos os argentinos continua guardado ou bem longe do país ou em
casa, e todas as transações são feitas com cartão de crédito ou cash. Os bancos já
não têm cofres para alugar, e o negócio que mais prospera é o da fabricação de
cofres — para guardar o dinheiro em casa.


TAN GO E  S OLIDÃO
Buenos Aires tem mais de quinhentos restaurantes e uma infinidade de hotéis. O
mais famoso e elegante é, como não me canso de dizer, o Alvear; depois, na
mesma linha, há o Caesar Park, o Four Seasons, o Sheraton, o Faena, todos com
diária entre trezentos e quatrocentos dólares, todos com piscina.
O Four Seasons, moderníssimo, com treze andares, louça de Limoges e lençóis
de algodão egípcio, foi construído em frente a uma mansão tipicamente francesa.
Quando compraram o terreno, em lugar de demolir a magnífica residência,
optaram por conservá-la. Você pode, se quiser, fazer como Madonna e os Rolling
Stones: alugar a mansão inteira (preço a combinar). E, aos domingos, o brunch
do Four Seasons, servido na mansão, rivaliza com o do Alvear, ambos
absurdamente maravilhosos. O preço é fixo — dependendo do câmbio do dia,
entre cem e 130 reais —, o horário é do meio-dia às quatro, e é preciso reservar;
mas que brunch!
Para começar, champã, que não param de servir, e vinhos, branco e tinto, às
cascatas. Na imensa mesa, salmão defumado, salmão caramelado, vieiras,
ostras, aspargos verdes cozidos no ponto, todos os queijos que existem, carnes,
peixes, frangos; e detalhe: o limão, cortado, vem dentro de um saquinho de filó,
uma coisa. Esquecemos de qualquer dieta, e entre dezenas de sobremesas
escolhi uma bem de época: crêpes Suzette. Claro que não dá para falar de tudo o
que tinha nesses brunches — talvez fosse mais fácil falar do que não tinha —, mas
prefiro mudar de assunto porque estou escrevendo às três horas da tarde e minha
geladeira está vazia, ah, que saudade.
O problema é que o brunch é aos domingos, e a feira de San Telmo também.
Eu resolvi a questão fazendo cedo o brunch, já que a feira dura o dia inteiro e não
dá para não ir — e, de preferência, com dinheiro no bolso. O precioso bairro, o
mais antigo da cidade, agora abriga mais de quinhentos antiquários que vendem
absolutamente tudo, de liquidificadores a velhas malas de crocodilo e vestidos das
aristocratas que empobreceram e tiveram que se desfazer até das roupas,
algumas ainda com etiquetas Christian Dior.
É de pirar, e, se você tiver pouco juízo como eu, talvez o melhor seja não ir a
essa feira. Linda, que em matéria de juízo é zero, comprou o que podia e não
podia, e detonou no cartão de crédito. Quando perguntei o que ela ia fazer com
todas aquelas coisas, respondeu o de sempre: “Ah, se eu enjoar, eu vendo”. Foi


então que esclareci a dúvida que me perseguia havia anos: é disso que Linda vive.
De usar, enjoar e depois vender, o que para ela, aliás, é perfeitamente natural.
O tango rola no asfalto o dia inteiro, e, se você em algum momento, mesmo
depois do brunch, quiser comer algo inusitado, vá ao La Brigada provar o búfalo, o
javali ou, quem sabe, o baby-beef de 850 gramas. A partir das oito da noite, o tango
começa a ficar sério, e, se você for ao tradicional El Viejo Almacén ou ao
Michelangelo, não vai se arrepender. Mas, se preferir uma milonga, opte pelo
Club Gricel, uma das melhores milongas da cidade.
O hotel Faena, decorado por Philippe Starck, de quem eu decididamente não
gosto, tem um show de tango no seu Cabaret que é um espetáculo mas custa
duzentos dólares por pessoa — o que em Buenos Aires é escandaloso. Aliás, o
Faena fica em Puerto Madero, num antigo armazém remodelado pelo mesmo
Philippe Starck, e é fundamental visitar — só visitar — seu restaurante, o Bistro,
em cujas paredes há cabeças de unicórnio branco. O local parece um barracão
de escola de samba feito por Joãosinho Trinta.
Puerto Madero foi construído para ser o porto da cidade, mas não deu certo, e
ele se transformou num importante polo de turismo, com vários restaurantes, um
colado no outro, nenhum ruim e nenhum excepcional. Uma coisa sem muita
graça, para turistas não muito exigentes. Em compensação, tem cassino; como o
jogo não é permitido em Buenos Aires, deram um jeitinho e fizeram o cassino
num barco que, apesar de atracado, não está no território da cidade. As apostas
começam com 25 reais — o público é quase todo de brasileiros —, e o clima não
tem nada a ver com aquele dos grandes cassinos. E jogar ficou tão fora de moda,
não é?
No dia seguinte fiz um programa que me encantou; comprei o jornal El Clarín
e fui tomar café no La Biela; fiquei horas lendo, me sentindo uma verdadeira
argentina. Lendo pouco e olhando muito o movimento. Pedi um chá com
sanduíches de pão de miga, que são sanduíches comuns mas com um pão
cortado fininho, uma delícia. E mal acreditei num anúncio que vi no jornal: no
Teatro Arlequino aconteceria na semana seguinte “o primeiro evento cultural
nudista”, com a peça A casa de Bernarda Alba, de García Lorca; o “traje
obrigatório” seria estar inteiramente nu, não se admitiriam intrusos vestidos, e a
ideia era repetir o evento a cada quinze dias.
Foi nessa hora que Linda chegou, de surpresa, e, apesar de odiar teatro — por
falta de paciência e por ter de ficar calada —, quase me implorou para irmos ao
Arlequino. Eu me recusei; se ela quisesse, que fosse sozinha. Mas Linda no fundo
é tímida, disse que não estava lá uma Brastemp para enfrentar uma nudez, assim


de repente, e confessou sua carência: queria ficar o dia inteiro comigo, mesmo
que eu fosse a um museu — e ela detesta museus.
Disse que ia visitar o bairro popular La Boca, e ela respondeu que era tudo o
que queria na vida. Pegamos um táxi, um remise, e ele nos levou diretamente à rua
principal do bairro, que tem duzentos metros e se chama Caminito, a coisa mais
portenha que existe na cidade. Como tinham me avisado que a Boca, depois que
escurece, é francamente perigosa, pedi que o motorista nos esperasse.
Continuando: como fazia muito frio, as janelas do táxi estavam todas fechadas,
e, quando a porta se abriu para descermos, um tango tocava bem alto. Eu estava
mais em Buenos Aires do que nunca. E quem cantava? Carlos Gardel, é claro.
Fiquei zonza, de tanta emoção.
No Caminito, que é uma festa permanente, tem barracas e lojas, todas de
artigos típicos, alguns muito interessantes e originais, e casas bem pequenas,
improvisadas com chapas de aço, cada uma de uma cor. Lá moravam os
imigrantes italianos, que, como não tinham dinheiro, pintavam as casas com os
restos de tinta que os navios deixavam.
Como entender este universo misterioso e impenetrável que é o do tango? Não
se pode falar de tango, é preciso ouvir, ver as estonteantes coreografias e entender
as letras, todas tristíssimas, terminando frequentemente com “en mi pobre
corazón”.
Soube depois a origem de tanta tristeza: nos idos de 1900, quando começaram
a chegar os imigrantes italianos, os homens vinham com seus filhos mais velhos e
as mulheres ficavam esperando que eles melhorassem de vida para vir encontrá-
los. Sem mulheres, os homens dançavam entre si — nada a ver com
homossexualismo — ou com as prostitutas, e aí entraram em cena o bandoneón e
a guitarra.
No início era apenas a melodia, depois vieram as letras, que falavam das
mulheres que permaneceram na Itália e da madrecita. A maioria dos que
chegavam eram homens jovens e solteiros, e nas letras dos tangos eles choravam
a saudade do mundo feminino. Alguns anos antes, com o objetivo de comprar
cavalos para a Guerra dos Bôeres, na África do Sul, tinham vindo os ingleses,
muitos dos quais ficaram no país. Dessa mistura de povos, associada a uma
excelente alimentação, surgiram os argentinos, bonitos e elegantes, que, segundo
dizem, se acham os ingleses da América do Sul.
Voltando ao Caminito: quando o casal de dançarinos acabou sua performance,
veio outro, e na Boca é assim; são profissionais que por uns trocados passam o dia


dançando. Continuamos a passear, e vimos uma porta com um cartaz onde
estava escrito “Aulas de tango”. Linda logo se assanhou, e entramos; eu, um pouco
inibida, mas fui. Quem sabe não tomava coragem e aprendia alguns passos desse
ritmo misterioso? Talvez até conseguisse compreender melhor a sedução do
tango.
Havia professores homens e mulheres, todos simpáticos e interessados em
ensinar ao menos o básico do tango, mas qual. É difícil, e os passos que eles
executam são tão fantásticos que logo o aluno desanima. Não, o tango não é para
qualquer um. Linda se animou e disse que ia ficar. Recomendei que voltasse
enquanto estava dia claro, e me conformei em ver o tango dançado por quem
sabe.
E aos domingos, tanto na Recoleta como em San Telmo, casais de dançarinos
volteiam em pleno asfalto, ao som do rádio. O tango é coisa séria, e, se você
mergulha nesse mundo, como fez Robert Duvall, nenhuma outra música ou
dança tem graça.
É impossível aprender, e só me restou comprar posters de Evita, Gardel e
Maradona, ir conhecer o estádio do Boca Juniors, La Bombonera, onde os
torcedores ficam a poucos metros do gramado, e prestar uma homenagem muda
a Maradona, pois foi lá que o craque surgiu para as glórias do mundo. Não dá
para sair de Buenos Aires sem conhecer o mítico estádio, que ganhou esse nome
por se parecer com uma caixa de bombons; ele treme ao grito da torcida, que
tem paixão por Maradona (como eu). E, se você nunca foi a um prostíbulo e tiver
curiosidade de ver como é — e quem não tem? —, vá comer alguma coisa no
Bar La Perla, antigo bordel, ali pertinho, para sentir o clima.


C ILADA P ARA T URIS TA
Existem todos os tipos de restaurante em Buenos Aires. Desde El Globo, no bairro
dos italianos, aonde se costuma ir aos domingos para comer um puchero — quase
o nosso cozido, só que sem pirão e sem banana —, ao novíssimo Casa Cruz, em
Palermo, também conhecido como Villa Freud, tal a quantidade de psicanalistas
que lá têm seus consultórios. Sabendo que se tratava de um restaurante tipo
chique, Linda pôs até umas pestanas postiças. Palermo é um bairro elegante,
onde há um comércio moderno, mas, não sei bem por quê, não faz muito a
minha cabeça. Reservamos para as dez horas, tomamos nosso drinque no Alvear
e seguimos para a Calle Uriarte, que fica um pouquinho longe da Recoleta.
O restaurante é um show, apesar de um tanto cafona: logo na entrada, um bar
oval, preto, sofás de veludo, paredes escuras e carpete de oncinha. Oncinha é uma
coisa perigosa; mesmo em almofadas, biquínis, camisas, vestidos etc., é preciso
tomar cuidado com ela. Mas a luz é tão boa, a trilha musical, tão bem escolhida,
que eu ficaria morando no Casa Cruz para sempre. O garçom mais velho acho
que ainda não completou 25 anos; todos usavam calça preta, camisa branca,
colete e tênis All Star preto; a comida, um sonho.
Pedi de entrada um crème brûlée de foie gras, e depois umas costeletas de
cordeiro que vieram impecáveis,
cor-de-rosa como a boquinha de um recém-nascido. Um sonho, repito. Cada uma
de nós tomou dois drinques no bar, e vinho durante o jantar, e a conta foi 330
pesos. Lembrei dos preços do Rio e de São Paulo, e me deu vontade de nunca
mais sair de casa quando voltasse ao Brasil. Um escândalo, o que cobram nossos
restaurantes.
A noite tinha sido tão incrivelmente luxuosa, que dispensamos o La Biela e
fomos direto para o hotel. No táxi, comentei com Linda que pretendia fazer um
passeio turístico — ir de barco até o Uruguai, uma hora de viagem —, e ela logo
se alvoroçou. Disse que não ia perder essa por nada no mundo, que adorava
carimbos em seu passaporte e queria porque queria ter o da República Oriental
del Uruguay, apesar de termos perdido para eles a Copa de 50. “E você já era
nascida quando isso aconteceu, Linda?”, perguntei. Ela se engasgou, tossiu um
pouquinho (para ter tempo de pensar) e respondeu: “Claro que não, mas cansei
de ouvir essa história de meu pai”. OK, Linda, eu acredito em tudo o que você diz.
No dia seguinte fui a uma agência da Buquebus comprar os bilhetes para nossa


excursão. O barco sairia na manhã do outro dia, às onze e meia, mas seria
preciso estar no local combinado às dez horas. Claro; mesmo sendo tão perto, o
Uruguai é outro país, então passaríamos pelo controle de passaportes, alfândega,
e ainda teríamos que preencher um formulário do Ministério da Saúde, devido à
gripe suína. Estávamos indo para uma cidade chamada Colonia, que nos
disseram ser muito bonita. Depois de uma hora ouvindo as reclamações de Linda
— que tinha dormido pouco, que a água do rio era marrom e ela estava
acostumada a águas cristalinas, e por aí vai —, enfim chegamos, e passamos por
tudo de novo: controle de passaportes, alfândega etc. etc. No barco, pensei o que
sempre penso em algum momento de qualquer viagem: o que é que estou
fazendo aqui? Bem, já que estávamos ali, era lembrar de Marta Suplicy: relaxar e
aproveitar.
Entramos num ônibus daqueles bem de excursão — era a primeira experiência
no gênero para Linda — e nos deparamos com uma cidade de 100 mil habitantes,
com tão poucos carros que nas ruas não havia sinais de trânsito. Alguns cachorros
sem dono vagavam pelas calçadas e de vez em quando se deitavam para pegar
um pouco de sol. Graça, zero. Fomos direto para um restaurante (o almoço
estava incluído no pacote, que tinha custado o equivalente a uns cem reais), e
encaramos uma mesa de frios e um prato quente abaixo da crítica.
Mas Linda viu uma imobiliária com anúncios nas vitrines e, como não resiste
ao assunto, me arrastou para dar uma olhada. E logo disse: “E por que não
compramos uma casa aqui?”. O preço de uma casa modesta é 85 mil dólares, e o
de uma mais transada, de frente para a praia (aquela praia do rio de água
marrom), 250 mil. Arrastei Linda de volta para o ônibus, que rodou por cinco
minutos pela cidade, vimos de longe uma praça de touros, e paramos outra vez
para ir às lojas.
Sabe o que fez a sábia Linda e eu imitei na hora? Dobrou seu casaco, que virou
travesseiro, se espichou e dormiu. Depois, tudo de novo: passaportes, alfândega
etc. etc., e tomamos o barco de volta para Buenos Aires jurando que nunca mais
faríamos programas turísticos, a não ser os muito bem recomendados. Detalhe:
no barco, os homens bebiam chimarrão, e levavam sacolas de couro com garrafa
térmica para água quente, um pacote de mate e a cuia. Mais gauchos, impossível.
Para salvar o dia, decidimos trocar de roupa e ir correndo tomar um drinque
no Alvear — um, não, dois — e jantar num restaurante bem legal e que não fosse
muito longe. Márcia tinha indicado o Sottovoce, na Avenida Libertador, lá
pertinho. Do Alvear ligamos para reservar, e fomos a pé. O restaurante era do tipo
para gente fina, porém sem muitos fru-frus. Pedi um fígado à veneziana
inesquecível, pois, além de delicioso, era fígado de vitela: aquele clarinho, não


vermelho escuro, quase preto. Será que no Brasil vitela não tem fígado? Então por
que não se encontra fígado de vitela nem nos açougues nem nos restaurantes?
Mistério. Não me lembro do que Linda comeu, mas tomamos vinho e a conta foi
140 pesos.
Fomos dormir cedo; afinal, tínhamos feito uma viagem internacional, ida e
volta, num dia só. E no dia seguinte eu pretendia visitar o Teatro Colón, que
infelizmente estava em obras; mas mesmo assim valia a pena rever aquela
entrada inacreditável, com mármores de todas as cores, o lustre de sete metros
de diâmetro com setecentas lâmpadas, e os sete andares de camarotes. O teatro
acomoda 2500 pessoas sentadas e quinhentas em pé, é o maior e mais importante
de toda a América do Sul, sua acústica é das mais perfeitas do mundo, e o palco,
imenso, um quadrado de
32 m × 32 m.
Eu adoraria levar Linda para ver um espetáculo lá, mas para isso teremos que
voltar a Buenos Aires em 2010, quando o Colón estará pronto. Não faz mal, a
gente volta, disse ela. Claro, a gente volta. Eu queria saber também como fazer
para ir a uma estância, daquelas que só existem mesmo na Argentina, pois me
lembrava de, muitos anos antes, ter passado um fim de semana em uma
fantástica e da qual nunca me esqueci; chamava-se La Concepción.


LA C ON C E P C IÓN
La Concepción pertencia aos Blaquier, uma das famílias mais lo mejor de lo
mejor. Nascido em 1915, Juan José Blaquier, bonito, sedutor, jogador de polo,
tenista, corredor de automóveis, piloto amador, casou-se com uma das mulheres
mais lindas da Argentina, Malena, vinte anos.
Nos primeiros onze anos de casamento, tiveram nove filhos, dois homens e sete
mulheres. Com eles, o casal passava seis meses por ano na Europa, e a paixão
pelo esporte era tão grande, que La Concepción tinha três campos de polo, e
quatro das filhas formaram um time feminino. Detalhe: as selas, os arreios, tudo o
que dizia respeito aos cavalos da estância, os melhores do mundo, vinha da
Maison Hermès, de Paris. Aos 43 anos, Juan foi aos Estados Unidos buscar seu
novo avião; veio pilotando, mas não chegou a seu destino, e seu corpo nunca foi
encontrado.
Aos domingos La Concepción recebia para um asado (churrasco) em volta da
piscina, regado a Dom Pérignon, cerca de cem pessoas, e os campeonatos de
polo aconteciam todos os anos. Os maiores jogadores do planeta, políticos e
milionários cruzavam os oceanos para participar dos torneios ou apenas para
desfrutar a hospedagem royale dos Blaquier. Entre eles, o príncipe Philip de
Edimburgo, o marajá de Jaipur, Elie de Rothschild, Edward Kennedy, Henry Ford
e Robert de Balkany.
A vida é muito engraçada, mesmo. Conheci Robert da primeira vez que estive
em Paris; ele era um jovem playboy, que circulava nas noites e nas festas, mas o
mundo rodou, ele se envolveu em negócios imobiliários e na construção de Parly
2, uma espécie de Barra da Tijuca de Paris, ficou rico e se casou com Maria
Gabriella di Savoia, filha do último rei da Itália. Aí, Robert Balkany tornou-se
Robert de Balkany. Para quem não sabe, esse de antes do sobrenome dá nobreza
aos personagens, veja que coisa séria. Quando o príncipe Philip esteve na
Concepción, os jornais de fofocas não se inibiram de mencionar um caso entre
ele e a já viúva Malena; desmentido, é claro.
Na pequena cidade Lobos, ao lado da Concepción, Perón nasceu, e lá viveu
toda a sua juventude. Diz a lenda que o ódio do general à oligarquia vem da
proximidade da estância, e da comparação entre os grandes estancieiros e a
pobre população de Lobos. O tempo passou, a Argentina mudou, as famílias
ficaram menos ricas. A Concepción foi dividida entre os herdeiros, que


conservaram a casa principal, seu anexo e um belo campo em volta; no total a
estância pode hospedar sessenta pessoas, e, para mantê-la, a família a aluga para
casamentos, convenções etc., e também para grupos que queiram passar uma
temporada ali.
Descobri, enfim, como me conectar com alguém que pudesse me levar a La
Concepción, que fica a uns 150 quilômetros de Buenos Aires, e marcamos para a
manhã seguinte. O guia, cujo nome era Fito, viria me buscar às onze horas. É
claro que Linda se assanhou toda quando soube da minha programação, e disse
que ia também. Ótimo, assim dividiríamos a despesa: seriam duzentos dólares
pelo dia, cem para cada uma.
Qual a minha surpresa quando um carro desses bem grandões que estão na
moda chegou, conduzido pelo homem mais lindo que vi nos últimos anos: Fito,
apelido de Adolfo, Adolfito. Minha amiga teve logo uma paixão fulminante, me
botou no banco de trás e foi na frente, fazendo caras e bocas, que disso ela
entende. Não posso culpá-la; Fito é, realmente, um deus de beleza, e elegante —
tem aquela elegância que não se aprende, já se nasce com.
Papo vai, papo vem, fiquei sabendo que ele é neto do casal Blaquier, filho de
uma das sete irmãs, que se casou com um suíço. E ficamos sabendo de muitas
coisas mais. Malena, hoje com 95 anos, tem cinquenta netos e 37 bisnetos. E,
pelo que sei e ouvi falar, todos lindos.
Como a casa é de todos, foi feita uma planilha com as datas em que cada um
tem o direito de ocupar a propriedade por uma semana, durante o ano. Cada um
tem a sua planilha, claro, mas, para que não haja a menor dúvida, há uma colada
na parede da cozinha. Uma vez por ano vão todos ao mesmo tempo, e me
pergunto como é possível que se reconheçam e saibam os nomes de todos os
primos, sobrinhos, tios, tias, netos, bisnetos; afinal, são quase cem pessoas! No
entanto, parece que sabem, e que o encontro é uma grande alegria para todos.
É claro que eu não lembrava muito bem como era La Concepción; mas,
quando nos aproximamos, tive a sensação de rever alguma coisa, e com muita
emoção. Para começar, o campo na Argentina é deslumbrante, e o ar é tão
fresco e puro que pode intoxicar os que estão acostumados a respirar o ar poluído
das cidades. O pampa é plano, não existe uma só montanha no horizonte. Na área
em volta da casa há um lago com ilha e cascata, e deve ser fantástico ver a
família toda reunida na imensa piscina.
A casa-grande é ampla, confortável, mas simples, nada de decoração; apenas
várias salas com sofás, mesas, poltronas, uma sala de jantar com mesa para mais


de vinte pessoas, enfim, uma casa normal, de bom gosto, de uma família grande
— grande, não, enorme —, e cheia de fotos nas paredes. Fotos da família, dos
hóspedes, dos momentos felizes, que foram muitos.
Nesse dia, estavam na Concepción duas tias de Fito, e uma delas contou do
espanto causado por uma família americana que tinha alugado a estância por
uma semana. Um dos hóspedes perguntou por que não construíam dois banheiros
no andar térreo, um para mulheres e outro para homens. Sabe a razão do
espanto? Ela não entendia por que, numa casa em que cada quarto tem o seu
banheiro, as pessoas não iriam ao seu próprio, onde encontrariam seu sabonete,
sua escova de cabelo etc. Os americanos não entenderam, claro. E como pode
um americano entender o pensamento da mais fina flor da aristocracia rural da
Argentina?
Passamos um belo momento na estância — Linda já queria viver lá para
sempre (com Fito, é claro) —, e na volta paramos em Lobos. Lá, as casas são
estranhas, com o teto horizontal sem telhas, sem o caimento das nossas. No
restaurante em que almoçamos, tinha um grande asador no meio da sala, onde as
carnes estavam sendo grelhadas; uma delícia, o cheiro da carne em cima do
fogo.
Para chegar a La Concepción, toma-se o caminho do aeroporto de Ezeiza, e
durante a viagem Fito foi nos apontando diversas entradas que levam a estâncias
famosas por seu tamanho e importância. E eu soube também que muitos
executivos de São Paulo pegam um avião para Buenos Aires — duas horas de voo
— na sexta-feira à tarde, e de Ezeiza vão direto para suas estâncias. Domingo à
noite voltam, sem enfrentar trânsito, tendo passado dois dias divinos em pleno
campo.
Aliás, Buenos Aires está se tornando cobiçada por empresários europeus e por
universitários que sonham com uma cidade elegante, civilizada, fascinante, sem
violência, com excelente gastronomia e qualidade de vida, onde ainda se pode
viver muito confortavelmente sem pagar os preços dos países do Primeiro Mundo
— ou até do Brasil.


TAN GO Z E N
Buenos Aires é mesmo surpreendente: nem todos os turistas têm a sorte que eu
tive de conhecer a peña, uma tradição portenha. Na sala de um café, digamos, as
pessoas sentam-se normalmente, pedem uma bebida, e de repente, numa mesa,
alguém pega a guitarra e começa a tocar e cantar; daí a pouco, em outra mesa, e
interrompendo o primeiro, outra guitarra, outro cantor, outra canção. E por aí vão
indo, um se intrometendo na performance do outro, e o local se transforma numa
grande cantoria; as músicas são as mais tradicionais criollas, o equivalente — mas
nada a ver — às nossas canções sertanejas.
Ainda mais interessantes do que as peñas musicais são as peñas políticas. O
princípio é o mesmo: num dia certo (todas as semanas), num café, as pessoas
tomam chimarrão ou um copo de vinho e discutem… política, e várias dessas
peñas existem há anos. Exemplos: a peña del general, onde se reúnem os peronistas
para falar de política mas sobretudo de Perón; as peñas judias, para discutir
judaísmo; as peñas de raiz criolla, as mais radicais; as peñas dos imigrantes
italianos, e, como não podia deixar de ser, a peña Evita.
Ah, Evita está lá, presente em muitos corações como se estivesse viva. A mulher
que rompia as madrugadas atendendo pessoalmente os pobres e necessitados e
sendo adorada por eles não era sopa. Nos tempos em que ainda era atriz — e
parece que má atriz —, ela teve uma discussão, por ciúmes, com a mais famosa
artista da época: Libertad Lamarque. Quando Perón foi eleito, Evita praticamente
obrigou Lamarque a sair do país, já que ninguém lhe dava trabalho, por
imposição da primeira-dama. Arrasada, a atriz foi para o México, onde tentou o
suicídio se jogando por uma janela; só não morreu porque um toldo a amparou.
Depois da queda de Perón ela voltou à Argentina, e foi aclamada pelos inimigos
de Evita.
Buenos Aires é uma cidade de machos — ao menos é o que eu acho —, mas
isso não quer dizer que o mundo gay não exista por lá. Existe, e tanto, que uma
noite, depois do jantar, fui (sozinha, porque Linda não se interessou) ver a
finalíssima do Campeonato de Tango Gay. Fiquei olhando os casais dançarem, e
concluí que o tango não é para ser dançado por dois homens de terno e gravata —
simplesmente porque não combina. Mesmo assim vou dar o endereço de onde
aconteceu o campeonato, pois pode interessar a muita gente. Na Calle Maipú,
444, sobe-se uma escada e cada um dança com quem quer, e ainda pode tomar
aulas de tango.


Lá ganhei um folheto que anunciava aulas de tango zen, onde se ensina a
dançar o tango desfrutando grande calma, e também aulas de tango zensual, que
é o chamado tango milongueiro. Não acreditei no primeiro, porque tango e
meditação zen para mim são absolutamente opostos; mas nunca se sabe. Duas
aulas saem por 25 pesos, e por esse preço não custa tentar.
Quando cheguei ao hotel, havia um bilhete de Linda debaixo da porta do quarto:
“Querida, encontrei uma amiga que não via há anos, e ela nos convidou para
jantar amanhã. Disse para irmos de jeans, que somos só nós. Na portaria do hotel,
às oito e meia, ok? Não posso te ver antes porque ainda tenho que fazer umas
comprinhas”. Fiquei imaginando que amiga seria aquela, encontrada numa rua
de Buenos Aires. Mas, como ia ser nossa última noite, entreguei a alma a Deus e
passei o dia tranquila, fazendo as malas, tomando chá no La Biela, tudo relax, que
é bem como eu gosto em véspera de viagem.
À noite, Linda foi logo contando: a amiga que tinha encontrado era Camila,
uma inglesa que havia conhecido em Nova York e que agora estava casada com
um diplomata argentino. “E você não sabe, querida, ela é lady, lady de verdade.”
Linda é deslumbrada, mas não costuma mentir.
Chegamos a uma casa linda, pequena, a cara daquelas casas de Londres, num
bairro chamado La Isla, a dois passos da embaixada britânica. Camila —
bonitíssima e elegantíssima, dois metros de altura e vestida de jeans — e Roberto
nos receberam efusivamente. O casal nos ofereceu champanhe; mais tarde
Roberto foi para a cozinha e fez um risoto de trufas que a própria Camila serviu,
depois uma salada, queijos e sorvete.
Tudo chiquérrimo, aquele chique de verdade — e sem empregada. Passamos
uma noite agradabilíssima, e Camila, que gosta muito de Linda, disse que ela
devia ir a Londres, que daria os telefones de vários amigos e amigas que
adorariam conhecê-la e passeá-la. Os olhos de Linda brilharam: Londres, com os
amigos de Camila, talvez um lorde, sabe-se lá. Saímos dali trocando juras de
amor e prometendo voltar breve; chegando ao hotel, pedimos que nos
acordassem às sete horas. A vida é dura.
No aeroporto, depois de uma geral no free shop, Linda caiu em depressão.
Senti que, mais que de um antidepressivo, ela precisava de um objetivo, e o
objetivo, para Linda, é sempre o mesmo: uma nova viagem. Retocou a
maquiagem e me disse, toda melosa: “Buenos Aires foi tão bom; e Londres, você
topa?”. Eu disse sim, porém sem refletir e sem lembrar que, a partir desse sim,
nunca mais ia ter sossego. Ela pegou seu iPod e começou a ouvir “El día que me
quieras”, seguido de “Mi Buenos Aires querido”, cantados por Gardel, e seus olhos


estavam cheios de água quando o avião subiu. Mas Linda esquece fácil, e minutos
depois dormia como um anjo; foi quando pensei: “E por que não?”.
Linda conseguiu passagens com desconto, um hotel maravilhoso que estava
fazendo uma promoção, e me avisou: tinha que passar em Paris para resolver um
assunto, se eu não quisesse ir que não fosse. Como passar em Paris, para mim,
nunca chegou a ser um sacrifício, topei, e, quando me dei conta, a data da viagem
já estava marcada. Não vou dizer que não tenha gostado; adoro Linda, mesmo
que, se me distraio, acabe fazendo tudo o que ela quer. Agora, como tudo o que
ela quer costuma ser alegre, divertido, e melhor companhia de viagem não existe,
relaxei e me animei. Mas atravessar o oceano para ir só a duas cidades, nem
pensar. E fiquei matutando: quem sabe não poderíamos dar um pulo a Berlim,
que não conheço? Afinal, é tudo tão pertinho.
Pronto, agora eu também tinha um objetivo, aliás, três: Berlim, Paris e
Londres.


BE RLIM
OS  ALE M ÃE S  S ÃO BON S  DE  C AM A
Depois de uma viagem de onze horas Rio-Paris, eu e Linda procuramos o portão
de embarque da Eurowings, para fazer a conexão Paris-Berlim, e aconteceu o
primeiro susto: o painel anunciava voo “com atraso”, o que não era exatamente
uma boa notícia. Procurei saber de quanto tempo seria o atraso, e me
informaram: cinco minutos. É, cinco minutos. Foi nosso primeiro contato com a
pontualidade alemã.
No fim da curta viagem em que só fizemos dormir, ouvimos o anúncio —
primeiro em alemão, depois em inglês: em poucos instantes estaríamos
aterrissando. Foi quando me fiz mais uma vez a pergunta: o que é que estou
fazendo aqui? Nessa hora vi o valor de uma amizade; afinal, eu é que tinha
inventado aquela ida a Berlim, e Linda me acompanhou por solidariedade, nada
mais. É verdade que ela estava adorando a ideia de ter um carimbo novo no
passaporte, e as despesas na Alemanha correriam por minha conta, mas mesmo
assim é preciso ser justa: ela foi bem legal. Como sempre, aliás.
Mas por que Berlim? Afinal, nunca fui especialmente ligada na Alemanha, e o
que até então sabia daquele país era o óbvio: a guerra, Marlene Dietrich, Kurt
Weil, Brecht, Wagner, e pouco mais. Mas também tinha ouvido muito falar que
de uns tempos para cá Berlim virou uma cidade incrível: moderna, avançada,
cosmopolita, que é lá que as coisas acontecem, lá que a vida noturna é a mais
fantástica, que em nenhum outro lugar do mundo há mais liberdade, e por aí vai.
Estava muito, mas muito curiosa, querendo saber que liberdade tão grande era
essa.
Quando vi no aeroporto os primeiros letreiros em alemão, fiquei muito feliz de
estarmos levando apenas uma mala de rodinhas, que nem foi preciso despachar
(deixamos as grandes no guarda-malas do aeroporto de Paris). Como seria
possível descobrir onde pegar a bagagem, com aquela língua tão estranha?
Inacessível, eu diria. A felicidade começou no táxi, um lindo Mercedes novinho
em folha. Tentei trocar umas palavras em inglês com o motorista, e soube que ele
era... francês, de pais quenianos. A vida ficou mais fácil. Linda nem prestava
atenção na conversa; como quase sempre, estava sonhando, se achando a própria
Marlene Dietrich no Anjo azul e Liza Minnelli em Cabaré.


O trânsito estava péssimo — o que é raro na cidade —, e soubemos a razão:
nos últimos cinquenta minutos 25 aviões sobrevoaram Berlim sem poder descer
(quando puderam, desceram todos juntos), devido a uma tempestade violenta.
Tão violenta que, ao sairmos para jantar, vimos um carro de polícia parado e
alguns policiais serrando uma árvore que havia caído. Íamos atravessar a rua,
mas o chefe do grupo apitou, mandou parar a serra e, com um gesto elegante,
nos deu passagem. Linda começou a adorar Berlim.
Como tenho uma amiga, Vera, que morou anos na cidade, perguntei se ela não
conhecia alguém que pudesse nos dar um help. Vera me pôs em contato com a
Emília, que vive lá, e combinamos que ela seria nossa cicerone. Como conseguir
me mexer naquele lugar em que as ruas têm nomes enormes, com quarenta
consoantes e quatro vogais? Com Linda não podia contar, já que, apesar da
mordomia, ela estava um pouco antipática, pois não tinha visto ainda nem uma
boa vitrine nem um homem bonito, e só pensava em ir para Paris, onde precisava
“resolver um assunto”. Que assunto? Mistério.
Na primeira noite reservamos um restaurante bem alemão, e fomos ao mais
antigo da cidade, o — atenção — ZUR LETZTEN INSTANZ, que significa “Até a
última instância”. Lá, todos os pratos típicos têm nomes jurídicos, como
“declaração da testemunha”, ou “interrogatório”; o restaurante, uma Kneipe
(adega) de estilo tradicional, é popular, e foi lá que o ex-presidente Gerhard
Schröder levou o então presidente da França, Jacques Chirac, para jantar. Linda
pediu uma água com gás, e eu e Emília, uma cerveja, para entrar logo no clima.
O copo era tão grande que deu até medo; meio litro em cada, dá para acreditar?
E a temperatura da cerveja era quase ambiente; essa história de estupidamente
gelada, só no Brasil.
Eu queria provar um prato típico, e escolhi um que, quando chegou, me
assustou de verdade — e, por favor, não me perguntem o nome. Era um pé (ou
joelho) de porco tão grande, mas tão grande, que parecia a pata de um cavalo.
Acompanhando, uns seis bolinhos de batata, cada um do tamanho de uma laranja,
e um estranho patê. Não, não posso chamar aquilo de patê; era uma misteriosa
pasta, meio branca, mas feita de quê? Passei um pouquinho no pão, não consegui
identificar (nem comer), e foi preciso perguntar à garçonete de que se tratava.
Simples: gordura de porco misturada a salsinha picada, para ajudar a esquentar o
corpo no inverno. A gastronomia alemã é muito, muito curiosa.
Na mesa em frente, dois casais já estavam no segundo copo de cerveja
(portanto, se aproximando do primeiro litro da noite), e fiquei prestando atenção
no que comiam. O prato de um dos homens veio parecido com o meu, mas com
um pedaço de carne ainda maior, do tamanho de um abacaxi. Pois o alemão


devorou tudo. Linda beliscou um pedaço de um bolinho, e só tomou sua água
(cerveja engorda). O jantar custou, por pessoa, dezenove euros; barato, pela
quantidade, porém muito esquisito para nosso paladar. Afinal, estamos
acostumados a comidas singelas, como feijoadas, vatapás, moquecas com dendê,
e fico imaginando como deve ser para um germânico encarar um acarajé ou um
sarapatel. O que ele deve pensar de nós? Horrores, claro.
Depois de um primeiro dia tão emocionante, nada como tomar um chá no
lobby do luxuoso Westin Grand Hotel, onde ficamos, e olhando para o pedaço do
Muro que colocaram na calçada, como se fosse um painel, para satisfazer a
curiosidade dos hóspedes. Linda foi correndo lá fora pegar um pedacinho para
levar de lembrança, sem saber que isso não era permitido; ouviu logo um não do
porteiro. Mas, para mim, ver aquele metro e meio de muro não foi suficiente;
quem assistiu pela televisão à derrubada do Muro precisa mais do que daquela
amostra para matar a fome. O hall do hotel é enorme, há um bar e uma
escadaria imensa, muito maior do que a de …E o vento levou (é nele que se
hospedam os Rolling Stones, quando passam pela cidade). Linda subiu para ver
não sei o quê, mas o que ela queria mesmo era descer, sem olhar para o chão,
como as grandes vedetes. E detalhe: de sapato alto; isso ela sabe fazer. Acho que
Linda usa sapato alto até para ir à praia.
Finalmente subimos para o quarto, onde caí pela primeira vez numa cama
alemã; elas são consideradas as melhores do mundo, e com razão. Só tem uma
coisa estranha: não existe o lençol de cima; o edredom, dentro de uma capa, fica
direto sobre o corpo. Para quem não está acostumado, ele escorrega durante a
noite e acaba caindo, e não esquecerei jamais dos travesseiros, mais leves e
macios do que devem ser as nuvens. Na mesa de cabeceira, como acontece em
diversos hotéis, um cartão dizendo que, se o hóspede quiser que a roupa de cama
seja trocada, que ponha o cartão na cama; se for a toalha de banho, ela deve ser
deixada na banheira. E sabe por quê? Está escrito no cartão: “Juntos, podemos
reduzir o uso do cloro e dos detergentes, e economizar milhões de litros de água”.
A água é o bem mais precioso do planeta, e a Alemanha é o país mais ecológico
que existe.
E, por falar em água, em cima de uma mesinha do quarto, uma garrafa de
meio litro de água mineral chamada Silence, com o preço: 8,50 euros.
Realmente, a água é ainda mais preciosa do que eu imaginava. Linda nem se
tocou: “Não há de ser por causa de uma toalha de banho, um lençol e duas
fronhas que o meio ambiente vai se dar mal. Quero minha cama bem limpinha”.
Foi difícil acordar Linda na manhã seguinte (estávamos no mesmo quarto);
“Levantar pra quê? Pra ver uns pedaços de muro?”. Mas depois de algum esforço


consegui.
A cidade está incentivando o turismo: quem comprar uma passagem de avião
pela Air Berlin, e reservar hotel com quarenta dias de antecedência, paga por
essa passagem (ida e volta) apenas 49 euros, não importa a cidade europeia de
onde venha. A única exigência é que se chegue numa sexta-feira, mas pode-se
ficar até uma semana. A demanda é tanta, que a média às sextas-feiras é
chegarem quatro voos de cada capital da Europa. E, quando Linda viu um pedaço
do Muro de verdade, caiu na real e me fez tirar várias fotos dela, e dos dois lados.
Do lado oriental, ela fazia uma cara triste; do ocidental, a cara mais alegre que
existe. Que atriz o mundo perdeu.
Berlim é verde. São dezenas, quem sabe centenas, de bosques, uns pequenos,
outros enormes, e lá a ecologia faz parte da vida de todos como uma segunda
natureza; ou primeira, talvez. Saímos cedo para fazer turismo a sério. E qual a
maneira de conhecer, mesmo que superficialmente, uma cidade em que você vai
passar seis dias, se não fizer mais ou menos o óbvio, isso quando não há aquela
enxurrada de turistas? E qual era o primeiro óbvio? O portão de Brandemburgo,
naturalmente, na Pariser Platz, onde foi festejada a queda do Muro.
Das dezoito antigas portas da cidade, é a única que resta. Construída antes de
1800 e praticamente destruída durante a guerra, foi mais tarde recuperada, e,
depois da queda do Muro, a cidade se transformou no delírio das construtoras e
no maior canteiro de obras que já existiu, um verdadeiro festival de guindastes.
Berlim é plana, mas tem uma montanha, chamada de A Montanha do Diabo, de
115 metros de altura, feita apenas com os escombros das casas e edifícios que
sobraram após a guerra. Não sei o nome do responsável pelo planejamento da
nova Berlim, mas o que aconteceu foi, em alguns pontos, desastroso.
Logo adiante, o famoso hotel Adlon Kempinski, de onde Michael Jackson exibiu
seu filho pela janela. Quem estava hospedada lá era a banda U2, e a tietagem na
porta era a de sempre quando aparece uma banda de rock. Para completar,
alguns falsos soldados vestidos com o uniforme da DDR (Deutsche
Demokratische Republik), ou seja, da Alemanha Oriental, se deixavam fotografar
com os turistas, por alguns trocados; quadro meio deprimente, na minha opinião.
Ali pertinho, mas muito pertinho mesmo, as embaixadas dos Estados Unidos, da
Grã-Bretanha e da Rússia, a maior que o país tem na Europa, todas muito bem
guardadas por soldados, e a americana com aquele tipo de postes baixos em
torno, para se defender de ataques terroristas. Fomos, claro, ver a estátua do anjo
dourado — a Siegessäule —, eternizada no filme Asas do desejo, de Wim
Wenders.


Em Berlim, decidi ser surda e muda. Impossível entender uma só palavra, uma
palavrinha só, e não tentei, em nenhum momento, pronunciar nenhuma. Emília
perguntou a Linda o que ela fazia, e Linda teve dificuldade em responder, já que
nem ela sabe direito; minha amiga então disse: “Já sei, você é uma
Lebenskünstlerin”. Sabe o que significa isso? “Artista da vida”, pode ser mais
poético? Linda adorou; escreveu Lebenskünstlerin num papelzinho e passou o dia
tentando decorar com a pronúncia certa. Enfim ela sabia o que era, e disse que ia
mandar fazer cartões de visita com a palavra escrita debaixo do seu nome — e,
como ninguém vai entender, será um ótimo começo de conversa.
Passamos numa rua onde havia um brechó que, além de velhos cenários e
roupas de cinema, teatro e televisão, vendia cadeiras antigas de aviões da
Lufthansa; ao lado, um bom pedaço do Muro. Do lado russo, cinza e sombrio; do
outro, grafitado em cores. No asfalto das ruas de Berlim foi colocada uma via de
cerca de cinquenta centímetros de largura, toda de paralelepípedos, fazendo o
percurso do Muro, que era de quase quarenta quilômetros. E uma amiga que
estudava em Berlim quando o Muro ainda estava de pé e que fazia uns bicos para
ganhar uma grana me contou que recebia do governo 10% a mais do que ela
faturava, pelo fato de morar numa cidade da qual não podia usufruir totalmente, já
que esta era dividida por um muro.


N IN GUÉ M  E M  C IM A DO M URO
Estávamos em pleno verão, que em Berlim é a melhor época do ano; os dias são
mais longos do que em outros lugares da Europa, porque a cidade fica mais ao
norte. Os berlinenses adoram tanto o sol que, se você passar por uma rua com
cafés nas calçadas, uns na sombra, outros no sol, os na sombra estarão vazios, e
os ensolarados, cheios. As pessoas vão para os parques e se deitam na grama só
para terem o prazer de se expor ao sol. E podem estar vestidas, de calcinha e
sutiã ou nuas, tanto faz. Uma amiga foi tomar sol de biquíni e um alemão lhe
perguntou: “Está com frio?”. Já uma alemã entrou de maiô num lago e, quando
voltou para o sol, se despiu, e com toda a razão; nada mais desagradável do que
ficar com uma roupa molhada. Linda, que nunca tinha feito nenhuma experiência
como nudista, achou que aquela era a hora, mas foi puxada pela orelha e levada à
força para longe dali.
Na história mais recente, Berlim mudou três vezes: em 1933, com o nazismo;
em 61, quando o Muro foi construído, e em 89, quando caiu o Muro. E nessa
cidade não dá para nos esquecermos da guerra. Os alemães querem esquecer,
mas ao mesmo tempo não querem que ninguém esqueça. Não há um dia em que
algum canal de televisão não exiba um documentário sobre os horrores da guerra
— todos os horrores.
Mas a Copa de 2006 maravilhou o mundo; quem quer fumar enrola seus
próprios cigarros (e alguns misturam o fumo com maconha); foi inaugurada
agora uma linha de metrô para turistas, que só cobre três estações; as calçadas
são largas para dar lugar às bicicletas; se você der uma palmada em seu filho
pode ser denunciada à polícia, e quem mora em Berlim diz que a cidade tem a
melhor qualidade de vida do planeta e não quer sair de lá por nada. Segundo o
prefeito, Klaus Wowereit, Berlim é pobre mas sexy. Pobre em termos, mas sexy
com certeza.
Berlim tem uma mentalidade hippie; houve um tempo em que cada bairro se
vestia de um jeito, mas agora tudo se misturou, e não existe nenhum tipo de
ostentação. Aliás, não vi uma só pessoa com cara de rica (ou vestida como tal), e
ninguém com cara de pobre (ou vestido como tal). As prioridades dos alemães
são, pela ordem, o carro, as viagens, e depois o resto.
Em uma semana em Berlim, batendo pernas por todos os lugares todos os dias,
não me entusiasmei por loja alguma; talvez por ser verão, e porque as pessoas


mais sofisticadas estivessem viajando, não vi nenhuma mulher na rua com ar de
quem se interessasse por moda. E, no dia em que deu uma aflição em Linda e ela
precisava porque precisava comprar alguma coisa senão morria, percorremos as
boas lojas em volta do hotel (as de sempre), Zara, Armani, uma mini-Galeries
Lafayette, Max Mara, e outras tão conhecidas quanto, e não encontramos
rigorosamente nada que desse vontade de ter. Nem um tênis branco que eu
procurava, achei, e ainda tive que suportar os olhares de Linda e o comentário
sutil, porém venenoso: “Se fosse em Paris, você encontrava”.
Resolvemos fazer um passeio de bicicleta, não pedalando, claro, mas numa
bicicleta que se chama rikscha e é daquele tipo que tem na Ásia; um condutor
dirige e você vai atrás no bem-bom, com direito a explicações sobre o que vê
(cinquenta euros a hora). Numa praça linda, a Bebelplatz, vimos algo assustador:
no chão, um buraco coberto de vidro e, no fundo dele, estantes vazias. Foi lá que
houve a primeira queima de livros pelos nazistas, liderada por Goebbels.
Entramos no Memorial às Vítimas da Guerra e da Tirania, um espaço vazio com
uma única escultura no meio, de Käthe Kollwitz, uma espécie de Pietá moderna,
uma mãe com o filho morto no colo, muito emocionante. Não adianta: a gente
fala de coisas alegres, de coisas bonitas, mas, quando vê, está falando da guerra.
Berlim é uma cidade que tem um rio, diversos canais e algumas ilhas; numa
delas estão concentrados vários museus e por isso é chamada de A Ilha dos
Museus. Essa ilha é linda, e os nomes dos museus são dificílimos, mas vou tentar.
O Altes Museum tem no térreo uma coleção de esculturas, armas e joias da
Antiguidade grega e, quando estávamos na cidade, no andar superior, guardava a
coleção do Museu Egípcio, que passou para o Neues Museum, com direito ao
busto de Nefertiti e tudo. O Neues Museum estava quase terminado — ficou
pronto, afinal, e já está aberto e funcionando — e, além do acervo do Museu
Egípcio, abriga objetos da pré-história. No Pergamonmuseum há esculturas
gregas e romanas, e 6 mil anos de história, arte e cultura da Ásia, e mais o museu
de arte islâmica. Ele é principalmente famoso por causa do Altar de Pérgamo e
também do Portão de Ishtar, um dos portões da Babilônia de Nabucodonosor. A
Alte Nationalgalerie guarda esculturas e pinturas do século XIX, e o Bode-
Museum, arte bizantina do século III ao XIX, artes plásticas e esculturas da Idade
Média ao século XVIII, coleção de moedas desde o século VII e uma de pinturas
de mestres antigos. A Berliner Dom, também na ilha, é a catedral de Berlim,
uma das mais belas da cidade, destruída durante a guerra e hoje totalmente
reconstruída; tem uma acústica perfeita, e muitos concertos são realizados lá. E,
entre todos os museus, um belo gramado.
Da ilha fomos para um lugar que poderia ser definido como um pequeno bairro
da cidade — o Hackescher Markt, o antigo bairro judeu; seria um micro-


Montmartre, felizmente não recuperado, com paredes descascadas que ainda
exibem marcas de bala, vielas mínimas, becos, pátios chiques, pátios alternativos,
um pequeno cinema onde tinha acabado de estrear Tropa de elite, restaurantes,
lojinhas, jarros de plantas no chão, jarros de plantas nas sacadas, uma feira de
artesanato bem charmosa — lá eu bem poderia ter comprado alguma coisa, mas
estava distraída e me esqueci.
Em frente a algumas casas, uma pequena placa de metal cravada no chão com
o nome do antigo morador e a menção a Auschwitz. Apesar dessas tristes
lembranças, é nesse bairro que eu gostaria de morar em Berlim. Ali há um teatro
de Varietés, o Chamäleon, e fomos ver o espetáculo, às sete horas. O teatro
repleto e, na velha tradição do cabaré berlinense, misturando um pouco de
acrobacia, circo, humor e nudez. E quem chegar atrasado tem que entrar pelo
palco. Eu me diverti muito; o ingresso custou sessenta euros, e o copo de vinho,
vinte. E soube que existe um teatro de verão onde só levam peças de Shakespeare
e de Brecht.
Duas vezes por ano há a longa noite dos museus, que abrem suas portas, e por
um preço único todos eles podem ser visitados entre dezoito horas e duas da
manhã. O bilhete permite usar qualquer transporte, e há ônibus especiais que
fazem rotas especiais de um museu para outro. O sucesso dessa iniciativa foi tão
grande, que hoje existem as longas noites dos palácios, das sinagogas, que
permitem ao público o livre — e raro — acesso à religião judaica, dos shoppings,
dos döner kebab, o sanduíche turco-berlinense. O kebab é turco, mas foi criado
em Berlim; agora virou alemão e é altamente popular. Trata-se de um sanduíche
enorme de pão árabe, com carne, legumes, pasta de grão-de-bico, alface, cebola,
enfim, uma boa refeição — e bem baratinha. Existe ainda em Berlim “o dia das
portas abertas”; uma vez por ano o governo abre todas as suas portas, as empresas
também podem abrir as delas para mostrar seu trabalho, há música nos pátios, e
entra quem quiser. Linda ideia a ser copiada em Brasília, não?


DE  UM  T UDO
Em Berlim só se brinda olhando nos olhos: se for com vinho, se diz zum Wohl (“ao
seu bem-estar”); se com cerveja, Prost (“tomara que seja útil”). E, apesar de não
nos deixarem esquecer da guerra — em algumas esquinas se veem placas com
os nomes dos campos de concentração —, há também coisas adoráveis na
cidade, como uma praça chamada Lustgarten, que significa “praça do desejo, da
vontade de viver”. E eles reverenciam seus mortos ilustres: existe um museu
Helmut Newton, dedicado a um dos maiores fotógrafos de moda que já houve, e
uma rua Marlene Dietrich. O fotógrafo e a atriz estão enterrados no mesmo
cemitério.
Existem também parques só para cachorros e, na entrada dos shoppings,
gaiolas para guardar os cachorros enquanto seus donos fazem compras. O
sistema é como o do pedágio na Europa: coloca-se num lugar determinado uma
moeda cujo valor corresponde ao tempo que se vai ficar no local. Civilizadíssimo,
não?
Resolvemos então fazer um chiquérrimo brunch, domingo, no hotel Adlon, o
mais luxuoso da cidade. Dei uma caprichada no visual, Linda botou um salto 8 e
um vestido que, se ela se descuidasse, deixava aparecer até a calcinha, mas nem
adiantou; as pessoas estavam vestidas no maior à vontade. O brunch — 68 euros
por cabeça — era divino, e o Adlon foi o primeiro lugar onde comi bem em
Berlim.
Tinha de tudo: ostras, cinco tipos de salmão, diversas e desconhecidas
variedades de camarão de todos os tamanhos, pato, carneiro, aves, ovas de
salmão, dezesseis tipos de pão, doze de queijos, doze sobremesas. Sucos,
inclusive de maracujá, o que em Berlim é o exótico dos exóticos, o luxo dos luxos,
vinhos e champanhe; só não tinha aspargos, pois eles acabam no final de junho.
Agora, a quantidade de morangos daria para pavimentar a Friedrichstrasse (uma
rua enorme) do início ao fim, sem deixar um só espacinho. Um aniversário estava
sendo comemorado numa das mesas, e eu soube que isso é frequente: grande
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