De Malas Prontas


parte do rebanho das que só pensam nessa moda globalizada que se encontra em



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De Malas Prontas - Danuza Leao

parte do rebanho das que só pensam nessa moda globalizada que se encontra em
Los Angeles, Cingapura, Tóquio — tudo igual. Mas agora já era; só chorando, e
Linda só não chorou para não estragar a maquiagem. Eu queria fazer alguma
coisa por ela, mas o quê?
Fomos passeando e nos habituando à elegância londrina; quando passamos por
uma loja italiana, Linda deu um grito: tinha visto na vitrine uma bolsa
deslumbrante, daquele couro marrom que só mesmo na Itália, tudo o que ela
queria na vida. E ficou nervosa: era a bolsa que ela devia ter comprado. Namorou
a vitrine durante longos minutos e decidiu entrar na loja. Havia dois vendedores,
um rapaz e uma moça, que descobrimos serem franceses e da maior simpatia.
Linda ficou logo íntima e foi contando seu drama.
Tinha comprado a bolsa fazia cinco dias, viu que tinha cometido um erro, o
sonho dela era ter a que estava na vitrine, e precisava desabafar; não havia nada a
fazer, e ela não podia comprar uma segunda bolsa. O rapaz perguntou a ela por
que não vendia a Hermès, e Linda riu, mas de nervoso, dizendo que nunca se
consegue vender o que não se quer mais; o rapaz disse que conhecia a dona de
uma loja vintage e que talvez ela se interessasse pela Birkin.


Linda logo pediu o endereço e pensou: “Se ela por acaso se interessar, quanto
será que vai me oferecer, uns 4 mil euros? Perder 1640 é de matar, mas ficar
olhando a bolsa pelo resto da vida no armário, com ódio de ter sido tão idiota, e
ainda mais depois da abertura da loja Hermès em São Paulo, quando
absolutamente todas as peruas e peruinhas vão comprar uma igual porque viram
nas revistas, nem pensar”. Não, Linda não quer fazer parte dessa turma, aliás, não
quer fazer parte de turma nenhuma. E fez um juramento: se conseguisse vender a
bolsa, grifes nunca mais. Nervosíssima, acabou pedindo que o rapaz sondasse a
moça por telefone mesmo.
Ele obedeceu, e voltou dizendo que a dona da loja vintage queria a bolsa, sim, e
que daria por ela um cheque de 6 mil libras. Linda quase desmaiou — e eu
também. Afinal, aquele valor era bem maior que 5640 euros. O rapaz — um
santo — explicou que havia mulheres que não queriam esperar um ano por uma
bolsa, e que sua conhecida venderia facilmente a Birkin por 30% ou 40% a mais, e
até já devia saber a quem. Mas havia o problema do cheque. O que é que Linda
ia fazer com um cheque de Londres? Mais um telefonema, e a moça disse que
pagaria cash.


HOW ARE  YOU T ODAY?
Em cinco minutos já estávamos dentro de um táxi, mudas, mal ousando acreditar
que aquilo pudesse ser verdade. Na loja, mostramos a bolsa, a moça examinou,
tirou da gaveta dois maços de 3 mil libras cada, presos por elástico, contamos e
saímos, sem palavras além de thank you. A partir desse dia, passei a crer em
milagres. Fomos direto ao Dorchester tomar um copo de champanhe, em
homenagem à venda da bolsa e a Chaplin, que costumava se hospedar lá com a
família.
Quando estávamos chegando, surgiu um Rolls-Royce branco e dele saltou uma
indiana deslumbrante, com um sári preto e, no dedo, um brilhante de causar
vertigem. O porteiro, que usava cartola, logo nos esqueceu, e quase desmaiamos
com a quantidade de flores no lobby do hotel, lindas, imensas, luxuosas.
O bar era um bar de respeito, feito por quem entende do assunto. Um
simpático inglês, vestindo terno e gravata, veio perguntar o que queríamos beber
— champanhe, claro — e no final disse que, se quiséssemos mais alguma coisa,
era só chamar por ele. “Meu nome é Sam”, apresentou-se. A partir daí me senti
inteiramente em casa; adorei o balcão do bar, sinuoso, onde todos podem se ver,
e a luz rosa, como convém às mulheres.
No segundo copo de champanhe — a flûte tinha uns vinte centímetros só de pé
—, pedimos um club sandwich, dos melhores que já comi na vida. O garçom
chegou, botou em cima da mesa dois guardanapos de linho branco, com a
inscrição “The bar” bordada também em branco, claro, e me perguntou: “How
are you today?”, o que adorei. Falou como um amigo que tivesse me visto na
véspera. Ao fundo, um jazz calmo e baixíssimo, tanto que nem deu para perceber
quando começou a tocar.
A conta — setenta libras —, Linda fez questão de pagar; aliás, não era mais
que sua obrigação, rica como estava. De lá, fomos a uma casa de bebidas,
compramos duas garrafas de champanhe, voltamos à loja da bolsa italiana, para
festejar, e aquela foi uma das tardes mais gloriosas de nossas vidas. Linda renovou
seu juramento: nunca mais iria atrás do que dizem as revistas de moda;
continuaria a usar coisas lindas, sim, mas muito especiais, que não aparecessem
em fotos e cuja origem só raras pessoas conhecessem. E mais: passaria a usar
todas as bolsas falsas da Hermès, não as que parecem ser autênticas, mas as
descaradamente falsas, para mostrar que não está nem aí.


Eu acreditei. Porque, se fazer uma burrice é de matar, conseguir desfazê-la e
ainda levar um troco é algo que não se esquece. E eu juro, juro mais uma vez,
que essa história é verdadeira. A gerente da loja foi chamada para festejar
conosco, e no meio da conversa disse que não deixássemos de ir ao bar do Dukes,
o melhor hotel da cidade, onde, no melhor bar da cidade, se servia o melhor
martíni da cidade. E agora, Londres.


WE LL, WE LL, WE LL
Saindo da loja, Linda já com a bolsa nova, que custou 1200 libras — uma
pechincha —, fomos para o hotel, e a primeira coisa que fizemos foi ligar para o
Dukes, para saber se tinha lugar. Tinha, e dissemos que em uma hora estaríamos
lá. Linda, que é louca e extremamente generosa, foi logo dizendo que o hotel era
convite dela, e, quando chegamos, quase desmaiamos, pois o Dukes é pequeno e
elegantíssimo; fica em St. James’s Place, em pleno coração de Mayfair; mais
chique, impossível. Na floreira da janela do meu quarto, hortênsias brancas. Eu
diria, sem medo de errar, que nunca me hospedei em hotel melhor, e para sorte
de Linda havia uma promoção: 180 libras a diária.
O Dukes é cosy, tem apenas noventa quartos, uma sala para tomar chá ou
comer uma coisinha leve, que funciona 24 horas por dia — “This is a hotel, miss”,
disse o garçom quando perguntei sobre os horários —, dá para um jardinzinho,
tem todos os jornais e revistas, um bom restaurante, o melhor bar da cidade (é
bem verdade que não conheço todos, mas o do Dukes é maravilhoso) e o melhor
martíni que já bebi na vida, disso tenho certeza.
E o quarto, ah, o quarto é um charme; e no armário tem um guarda-chuva,
uma escova de roupa e uma calçadeira de cabo comprido, feita de chifre de boi.
Será que alguém ainda sabe o que é uma calçadeira? E o boletim meteorológico,
que chega à noite, começa assim: “Pensando em como se vestir amanhã?”. Antes
que eu me esqueça, o Dukes ia dar uma aula por mês, de setembro a março,
ensinando como fazer um bom martíni. Preço da aula: 85 libras, e depois todos
degustariam os martínis feitos pelos alunos, que seriam só seis em cada aula. E
desculpe, mas não dá para não contar: o papel higiênico do Dukes é matelassê,
como as bolsas de Chanel.
Nas duas primeiras noites havíamos jantado em lugares bobos, ao acaso, pois
decidimos que definitivamente não iríamos aos que nos recomendaram dizendo
coisas como: “Era lá que a princesa Diana costumava almoçar”, ou: “É aonde
todo mundo vai”. E os restaurantes italianos que pululam pela cidade são todos
iguais. Na verdade, não sabíamos bem aonde ir, porque fazia séculos que eu não
ia a Londres, e para Linda era a primeira vez, mas não foi por falta de indicações,
e vou passar algumas:
O San Lorenzo, tradicionalíssimo, que fica em Mayfair mas do qual os ingleses
não gostam. Nesse restaurante, que dizem ser um reduto da Máfia, só recebem


cash. Os pratos são todos bons — e caros. Outro, se você for bem esnobe, bem
deslumbrado e bem rico, é o Nobu, comida japonesa com sotaque peruano. Não
deixe de pedir toro tartar com caviar Beluga on the top, yellowtail sashimi e Kobe
beef, que vem com uma rosa vermelha em cima, não sei se para comer ou não.
Ah, e oysters shootes, com saquê e molho picante, prato que levanta qualquer ser
humano na hora. E procure não chorar quando vier a conta. A comida do chef
Matsuhisa é sucesso em Nova York, Bahamas, Mikonos, Las Vegas, Los Angeles
etc. Só em Paris não deu certo e fechou, et vive la France! E tem também o bistrô
do famoso Jamie Oliver, que comanda um programa de televisão bem-sucedido.
A cozinha é regular, e todos os funcionários, treinados por ele, são ex-presidiários,
ex-delinquentes e ex-traficantes. Enfim, tudo orgânico e, como se vê, politicamente
corretíssimo.
Como Linda tinha seus planos, marcamos às sete no bar. Seus planos eram
claros: telefonar para os amigos de Camila (a amiga inglesa que ela havia
encontrado em Buenos Aires) e se enturmar. Só que se deu mal, a coitadinha.
Como estávamos nos primeiros dias de agosto, todos tinham viajado — razão
para Linda voltar em outra época. Porque ela adorou Londres e, entre suas juras
de amor à cidade, disse que nunca mais vai comprar nada em Paris, que sua
meta é trocar todo o seu guarda-roupa por coisas compradas só em Londres.
Quem viver verá.
Às sete horas, britanicamente, entrei no bar; eram quatro saletas, uma ligada à
outra, com mesinhas redondas para duas, três ou quatro pessoas, cadeiras de
veludo marinho, e gravuras, muitas gravuras nas paredes, portas de mogno, tudo
very British. E um pequeno balcão de bar, claro. O local estava cheio, animado. O
garçom se aproximou, e nem esperei por Linda: pedi logo um martíni. “De gim
ou vodca?”, perguntou ele, e resolvi radicalizar: “De gim”.
Então apareceu Linda, lamentando não ter encontrado ninguém, era verão etc.;
no meio das lamentações chegou meu martíni, ela esqueceu tudo e pediu um
também. Agora, atenção à cena: veio o garçom, impecável, empurrando um
carrinho tipo de chá, e tirou, não sei de onde, um copo de martíni congelado por
fora, o maior que já vi, jogou dentro um mínimo de Noilly Prat, só para
umedecer, rodou o copo, jogou fora o que sobrou, pegou a garrafa de gim,
levantou o braço tão alto quanto pôde e lá de cima derramou o gim no meu copo,
com uma pontaria certeira. Aí, pegou um limão-siciliano, cortou com o utensílio
apropriado uma boa lasca da casca, fez um twist, jogou dentro do copo e pôs o
martíni na minha frente.
Foi um verdadeiro evento, emocionante, repetido em seguida no copo de Linda.
Com 6 mil libras na bolsa, mesmo que não fossem minhas, naquele hotel divino,


naquele bar diviníssimo, com aquele martíni celestial na frente, me senti a mulher
mais feliz do mundo. Bebemos bem devagarzinho, para fazer durar aquele
momento de tanta felicidade. E pedimos o segundo, claro.
O ritual foi o mesmo, e, quando terminamos, Linda, sempre exagerada, pediu o
terceiro. O garçom disse, muito gentilmente, que não era aconselhável tomar
mais um, mas ela nem ouviu e insistiu. O martíni veio, e na metade do copo Linda
já não se entendia. Tínhamos reservado mesa para jantar no hotel, mas vi que não
seria possível. Pedi a nota, só que no Dukes eles perguntam o número do quarto e
não te dão nada para assinar, bem elegante. Levei Linda para o quarto — depois
de ela ter bebido a última gota do copo —, tirei seus sapatos e fui jantar sozinha. É
no que dá, ter amigas como ela. E fiquei pensando na programação para o dia
seguinte.


LON DON , LON DON
É preciso dizer que Londres ferve de novo, da mesma maneira que ferveu nos
swinging sixties; só faltam símbolos, como Mary Quant e os Beatles. Agora, essa
capital cosmopolita disputa com Berlim o título de cidade mais vibrante e
moderna da Europa, cada uma em seu estilo. Mas Londres ficou cara; de 20% a
30% mais cara que Paris. Vivem ali cinquenta nacionalidades — 200 mil
franceses —, e se falam trezentas línguas. Pessoas do mundo inteiro vão para lá,
onde se encontra absolutamente tudo o que se pode imaginar.
As possibilidades em Londres são infinitas, porém algumas coisas mudaram. O
bairro dos indianos e paquistaneses é Wembley; já não se vê o típico inglês de
chapéu- -coco e guarda-chuva, e a cidade se transformou no maior comércio do
planeta; não tem para Paris, Nova York, Los Angeles. Mas, como Londres é
grande e espalhada, todas as lojas famosas — e são muitas — abriram filiais
estrategicamente nos lugares mais in, e, se você passar por alguma delas, vai
encontrar mais umas três pela cidade.
Londres estava linda e alegre: os táxis coloridos, pintados de azul, rosa,
amarelo, outros grafitados; o céu azul; o sol brilhando, durante uma semana não
caiu nem uma gota de chuva. Mas, como nada é perfeito, os turistas infestavam a
cidade. Eu, que sou tão turista quanto, não gosto deles. Adoraria chegar aos
lugares e encontrar só os da terra, mas está cada vez mais difícil, todo mundo
com essa mania de viajar.
E na Inglaterra é pior, os turistas são mais visíveis: homens e mulheres de short,
famílias inteiras levando suas malas de rodinhas pela rua, não combina com
Londres. Vai ser preciso voltar no inverno, para encontrar a cidade com fog, ou
será que acabou? Há anos não ouço falar do tal do fog, que era um charme.
Bem, e a programação para o dia seguinte? O British Museum, nem pensar,
pois teríamos que enfrentar uma longuíssima fila. A London Eye, também nem
pensar, pelos mesmos motivos. A Torre de Londres, também não, também pelos
mesmos motivos. Piccadilly Circus, Oxford Street, Regent Street, Covent Garden:
cheios de gente, parecendo o Carnaval de Olinda.
A esses lugares todo mundo vai, e aos outros, os restaurantes e clubes dos
descolados, ainda que a turma seja outra, também todo mundo vai, e, o pior, se
achando. Pensei então que há lugares que nunca estarão na moda, outros que


ficarão por um certo tempo, e outros que sempre estiveram na moda e sempre
estarão. E que essa Londres estava a dois passos do nosso hotel mas ninguém
falava nela, a não ser os que sabiam de sua existência.
Decidi fazer uma pesquisa sobre os lugares mais inacreditavelmente chiques
da cidade — e, portanto, do mundo — e ir visitá-los. Depois contaria um pouco
dessa experiência, que eu conhecia de tanto ouvir falar mas que por certo é nova
para muita gente. Pronto, estava resolvido; tive uma grande conversa com Jessica,
da recepção do hotel, que me deu várias dicas, e fui dormir feliz, com o coração
em paz. E, como sempre falo só de moda de mulher, roupa de mulher, bolsa de
mulher, no dia seguinte iria me dedicar à moda masculina. Os rapazes vão
gostar.


T E RN OS  E T E RN OS
Foi duro acordar Linda e tirá-la da cama, mas, quando consegui, fomos direto ao
melhor alfaiate do mundo, Henry Poole. A loja fica no 15, Savile Row, tem apenas
seis metros de frente, uma pequena vitrine, e desde 1806 pertence à mesma
família. Da imensa lista de seus mais ilustres clientes, vou escolher só seis, para
não cansar: o príncipe de Gales, o xá da Pérsia, o czar Alexandre da Rússia, o
imperador Pedro II, do Brasil, o imperador Napoleão III e Winston Churchill.
Todos os ternos, smokings e casacas são confeccionados à mão, e as medidas,
o corte, as costuras, o acabamento e as provas, tudo acontece no 15 de Savile Row.
Exceções são feitas para os moradores do palácio de Buckingham, que, aliás, não
têm desconto nos ternos que compram — nem precisam.
Fomos atendidas pelo próprio mr. Poole, que com toda a gentileza me deu as
informações que pedi. Que um cliente costuma fazer uma média de quatro ternos
por ano, e a alfaiataria, cerca de 1400; que, em geral, os filhos dos clientes
ganham seu primeiro terno quando saem da universidade. O mais barato custa
2500 libras, e o mais caro (de vicunha), 12 mil.
A coisa se passa assim: o cliente vai à loja, tira as medidas, escolhe o tecido,
entre os 6 mil que existem no estoque, e diz ao alfaiate que tipo de terno gostaria
de ter. Segundo suas medidas, o primeiro molde é cortado em papel; diferentes
materiais são usados para forrar uma gola, um punho, e o terno fica pronto para a
primeira prova. Depois é devolvido ao alfaiate para que seja preparada uma
segunda prova. Então, são feitas as alterações finais. Entra em cena uma
costureira especializada em fazer as casas dos botões — à mão, é claro. E o
terno Henry Poole está pronto para sua última prova, quando o cliente receberá
todas as instruções sobre como lavá-lo, passá-lo, conservá-lo.
Um terno desses tem uma utilização média de dez anos e, se for de tweed — e
o cliente não engordar —, pode durar até trinta anos. Para quem mora em
Londres, um terno leva em torno de três meses para ficar pronto. Para quem vive
no exterior, seis meses, e detalhe: cada terno é numerado para poder ser refeito
sem necessidade de prova — e na perfeição.
Os ternos Henry Poole não saem de moda, porque nunca entram na moda.
Afinal, um Poole é um Poole. Se a tendência é estreitar as lapelas em três
centímetros, as dos ternos Poole são estreitadas em quinze milímetros. Quando os


clientes moram fora do país, vai uma equipe para fazer as provas — como faziam
com o imperador Hiroito, em Tóquio, por exemplo.
As medidas podem ser tiradas e as provas podem ser feitas em Viena, Paris,
Hamburgo, Düsseldorf, Frankfurt, Tóquio, Luxemburgo, Zurique, Genebra e em
doze cidades dos Estados Unidos. Mas, para fazer uma consulta pessoal, só
marcando hora na loja em Londres. A casa Poole não se expandiu, não abriu
filiais pelo mundo, não quer se globalizar, mas tem dois escritórios na China.
Saindo de lá, pedi a mr. Poole que me indicasse um bom restaurante nas
imediações, e ele recomendou o Wiltons, em Jermyn Street, ou o Scotts, em
Mount Street, ambos muito elegantes. No primeiro eu deveria pedir um Dover
sole — um linguado de Dover —, que na sua opinião era o melhor de Londres.
Nós duas estávamos vestidas corretamente mas de maneira simples, e perguntei
se o dress code estava apropriado para um restaurante como aquele. Mr. Poole
nos olhou demoradamente da cabeça aos pés e disse, “naquele” tom: “Well”.
Imagine se Linda estivesse com a Birkin cor de laranja, a vergonha que seria.
O restaurante era elegante, sim, sem aqueles fru-frus dos franceses. Pedimos o
sole, vinho branco, e pagamos pela brincadeira 120 libras — bem mais do que
teríamos pago em Paris, mas afinal estávamos num chiquérrimo restaurante em
Londres, indicado por mr. Poole; e isso não conta?
Depois do almoço, fomos, também por indicação vocês sabem de quem, à
melhor loja de camisas do mundo, a Turnbull & Asser, na Jermyn Street. Sobre os
balcões, expositores circulares que giravam para exibir os lenços: um com todos
os tons de rosa, outro com os azuis, outro com os violeta, outro com os amarelos.
Cashmeres em todos os tons e modelos, e você pode encomendar o modelo que
quiser, da cor que quiser. E foulards, e abotoaduras, e gravatas, e meias, e
barbatanas de todos os materiais, inclusive ouro, e todo tipo de meia, de todas as
cores — as de cashmere custavam oitenta libras.
Fomos levadas para conhecer a loja por Roberto, um simpático brasileiro de
Campo Grande. Além de camisas, a Turnbull & Asser faz sob medida pijamas,
robes, cuecas, luvas e — pourquoi pas? — gravatas. Uma camisa leva em média
seis semanas para ser feita. O cliente tira as medidas — de cada um dos braços
separadamente, pois um pode ser mais longo que o outro — e faz duas provas.
Quando a camisa fica pronta, ela é entregue, o cliente a usa, manda lavar, e volta
à loja vestido com ela, para ver se está, no mínimo, perfeita. Se está, ele escolhe
entre os mil tecidos à disposição e encomenda quantas quiser. Se não está, o
processo recomeça do início. Quando prontas, as camisas são entregues com
punhos e colarinhos extras; assim, quando estiverem gastos, podem ser trocados.


Um dos clientes mais famosos da camisaria foi Winston Churchill; numa vitrine
está exposto um robe de veludo comprido, verde-escuro, que ele usava quando
chegava em casa, por cima do terno; e ao lado, uma grande fotografia de
Churchill vestido com o robe. O príncipe Charles faz em média doze camisas por
mês, que custam cada uma 375 libras, as de duzentos fios; e alguém pensaria em
usar uma camisa com menos de duzentos fios? Outros clientes famosos são Al
Pacino, Robert Redford e todos os James Bond desde Sean Connery.
Aproveitando que estávamos em Jermyn Street, uma rua mínima, fomos
também ao Floris, onde se vendem águas-de-colônia, sabonetes, sachês para
colocar em gavetas.
Exaustas de tanta elegância, entramos num pub e pedimos uma cerveja,
qualquer uma — existem trilhões de tipos e marcas, e eu nem gosto de cerveja.
Mas foi para cair um pouco na real e conversar um pouquinho com Linda, que
estava muda desde que saímos do hotel. Em primeiro lugar, pela ressaca e, em
segundo, porque não fala uma só palavra em inglês. E ela se lamentava: “Por que
eu não fui para a Cultura Inglesa, em vez de ir para a praia?”. Mas agora era
tarde, apesar de ela jurar que ia fazer um intensivo de inglês assim que chegasse
ao Rio. ok, Linda, eu acredito em tudo o que você me diz.


DE  BOTAR N O C HIN E LO
Ainda era cedo e resolvemos encarar a loja que, segundo a revista Esquire, é a
mais bonita do mundo: a John Lobb. Uma pequena vitrine de não mais que quatro
metros, uma portinha; um pequeno escritório na frente; nos fundos, aberta, a
oficina onde artesãos de avental fazem os sapatos mais preciosos que existem. A
primeira coisa que vi foi uma caixa do mais lindo couro, com quatro latas de
graxa, duas escovas e algumas flanelas, para levar em viagem. Afinal, quem
ousaria engraxar um sapato John Lobb com outra graxa, outra escova, outra
flanela que não fossem John Lobb? E eles fornecem também cadarços de sapato,
para quando derem sinal de velhice.
Fomos recebidas por William e John Lobb na St. James’s Street,
respectivamente quarta e quinta geração da família, ambos de avental, como seus
25 funcionários, que explicaram como as coisas se passam: o cliente tira a medida
de cada um dos pés separadamente, sentado e em pé; depois, escolhe o modelo e
o couro. Faz-se então um molde de madeira de cada pé. Para o primeiro par, é
preciso que o cliente faça algumas provas. Depois de prontos, os sapatos ficam
nas estantes durante cinco dias, para descansar.
Um sapato dura entre trinta e quarenta anos. Um dos mr. Lobb me contou que
uma trilionária americana encomendou dois pares de sapato de couro de
crocodilo (12 mil libras o par) para seu filho de nove anos, com a recomendação:
“Façam rápido, antes que seus pés cresçam”.
Outra história que adorei: em janeiro de 2009, o príncipe Charles e a duquesa
de Cornualha foram fazer uma visita à John Lobb, uma espécie de homenagem a
uma loja tão tradicional e tão totalmente inglesa. Depois de ter estendido a mão a
todos os artesãos, o príncipe disse que estava usando um sapato John Lobb que
tinha havia trinta anos, e que pretendia usá-lo ainda por muito tempo. Os
proprietários se sentiram tão felizes e tão honrados que, para festejar a visita,
resolveram fazer uma promoção especial: cada cliente que encomendasse dois
pares de sapatos naquele ano, teria um desconto de mil libras — mil libras! — no
segundo par. Não é fantástico?
A John Lobb também faz sapatos para a rainha (aqueles bem ingleses), botas,
sapatilhas de verniz com laço de gorgorão para festas black-tie e pantufas de
veludo com monograma dourado para ficar em casa. Há quem diga que se pode
receber para um jantar black-tie com essas pantufas, mas há controvérsias. E o


luxo dos luxos: os sapatos são entregues em caixas cor de vinho, envoltos em papel
de seda também cor de vinho. Ah, um detalhe: uma ou duas vezes por ano uma
equipe da John Lobb agenda encontros em diversos países com os clientes que
querem encomendar novos pares, e aproveita para provar os sapatos daqueles que
não puderam ir a Londres.
Ao lado da John Lobb, há outra loja altamente recomendada, a Berry Bro’s &
Rudd, de vinhos e bebidas em geral, aberta no século XVII. A madeira do chão
nunca deve ter sido trocada, e parece que se está num navio prestes a afundar. É
desnecessário dizer que nessa loja, como em todas as outras em que estive, não
há decoração, as oficinas onde os produtos são feitos estão à vista do cliente (não
na loja de vinhos, é claro) e as fachadas, pequenas, são da mais total simplicidade,
praticamente iguais às das lojas vizinhas: uma porta, uma janela envidraçada com
esquadrias de madeira. A madeira das portas e das janelas já deve ter levado
umas oitenta mãos de tinta, uma sobre a outra, sem jamais ter sido raspada nem
lixada.
Fiquei impressionada com o preço de alguns vinhos. Um deles, o Vosne-
Romanée Magnum 1999, custava 9297,85 libras. O Vosne-Romanée é o menor
village da Borgonha (3,68 km2), e é nesse privilegiado e minúsculo terreno que
surge o vinho mais famoso da França, o Romanée-Conti. Aliás, não é mais
possível comprar esse vinho, pois as safras dos próximos anos já estão todas
vendidas aos japoneses e americanos.
Numa das paredes, há uma carta da rainha Elizabeth agradecendo a
excelência dos vinhos etc. Além dos vinhos, há também uma sala só para uísques,
outra só para champanhes.
Na loja ao lado, a Lock & Hatters, que existe desde 1676, são feitos de cartolas
a bonés de praia ou de caça, chapéus-panamá, de equitação, de feltro, de lã, todos
sob medida. Considerados os melhores chapeleiros de Londres, a loja ostenta,
discretamente, o chapéu do almirante Nelson, e entre seus clientes estão
Napoleão III, Frank Sinatra, Chaplin, De Gaulle, Winston Churchill. E são, é
claro, fornecedores da casa de Windsor, podendo ostentar a placa “by
appointment”, como aliás todas as citadas anteriormente. E as caixas, ah, as
caixas: se eu tivesse uma, poria no lugar mais nobre da minha casa, enfeitando-a.
No segundo andar é a seção feminina, com os chapéus excêntricos que só as
inglesas são capazes de usar — basta pensar nas corridas de Ascot —, e não
duvidaria que os chapéus de Audrey Hepburn, em My fair lady, desenhados por
Cecil Beaton, tenham sido feitos pela Lock & Hatters. E por falar em Cecil
Beaton, lembro de uma famosa frase que é a cara dele: “Miami é um dos lugares


mais revoltantes do universo”. Se eu fosse homem, rico e gostasse de comprar, ia
morar em Londres e não saía desse quartier. E compraria pelo menos uma coisa
por dia — ou três.
Em todas as famosérrimas e melhores casas de elegância masculina, mas em
todas elas mesmo, Winston Churchill foi citado como um grande cliente.
Desconfio que, além de grande estadista, ele foi também um grande dândi, que
pensava muito em roupas. Conta a história que Churchill tinha um bunker onde
deveria ficar durante os bombardeios. Mas, quando começavam, ele ia para o
terraço do Ritz e ficava vendo o clarão das bombas explodindo sobre sua amada
Londres.
Na esquina da St. James’s Street com a Jermyn Street, levei um susto: a loja
Davidoff é das mais deslumbrantes que já vi. É grande, e, além de charutos,
cachimbos e fumo, vende bebidas, bengalas com castão de prata ou com formato
de cabeça de animais, algumas bizarras, outras que podem ser dobradas em
quatro e guardadas dentro de um saquinho xadrez. E guarda-chuvas de homens e
mulheres, de todas as cores e tamanhos. Acabou aquela tradição do guarda-chuva
preto: eles agora são bem coloridos, estampados, e, junto com os táxis de todas as
cores, alguns com tv para os passageiros, que podem trocar de canal e regular o
som, tornaram Londres uma cidade muito, muito alegre. E em matéria de
elegância, não há nada igual.
Num dia de chuva, nada melhor do que passar o dia inteiro na Harrods, ou na
Fortnum & Mason, mas, pensando bem, lojas de departamentos são bem
parecidas no mundo todo; a diferença é que na Harrods você pode comprar o que
quiser, mas o que quiser mesmo. Se não estiver com vontade de comprar nada, o
que duvido, então vá se divertir na luxuosa seção de alimentação, uma das mais
importantes do mundo. A Harrods é considerada a maior department store que
existe porque lá você encontra de um elefante a uma Ferrari, de um jatinho a cem
gramas do melhor presunto do planeta. Ela é tão inglesa que foi considerado
quase um ultraje quando o milionário Mohamed Al Fayed, pai do namorado da
princesa Diana, comprou a loja, que tem 5 mil empregados, 28 restaurantes, e é a
única da Inglaterra que vende casacos de pele, para fúria dos defensores dos
animais. Depois da morte do filho e da princesa, Al Fayed resolveu fazer duas
homenagens ao casal na própria loja: numa mesa pequena, um porta-retratos
com fotos do casal, mais o copo em que a princesa tomou seu último gole de
vinho, ainda com a marca do batom, e o anel que Dodi teria comprado na
véspera, para oficializar o compromisso dos dois; e, na escadaria da loja, foi feita
uma grande escultura do casal dançando debaixo das asas de um albatroz,
considerado um “espírito divino” — de um gosto duvidoso, eu diria. E Al Fayed já
anunciou que está pensando em mandar fazer uma estátua de Michael Jackson


para homenageá-lo — de gosto ainda mais duvidoso. Quando Linda viu a estátua,
ficou extasiada e disse: “Bem que podia ser eu”. Juízo, Linda.
E por falar em alimentação, resolvemos almoçar num restaurante tipicamente
inglês, o Simpson’s-in-the-Strand, no 100, Strand. Trata-se de um mundo a léguas
do universo das cozinhas fusion e nouvelle. Lá você encontra a estabilidade da
culinária inglesa — pena que ela não dê muita escolha.
O Simpson’s foi aberto em 1828; inicialmente era um clube de xadrez, depois
virou uma coffee shop e tornou-se um restaurante em 1848. O Grand Divan, no
térreo, é provavelmente o único em Londres que serve a genuína boa comida
inglesa, num décor totalmente britânico que é unicamente seu. Se alguém estiver
procurando a expressão “britanismo”, não deve ir mais longe. Um carrinho de
prata passeia pela sala servindo o tradicional rost rib, de carne escocesa Angus,
considerada a melhor do mundo, rodeado de batatas assadas, e o também
tradicional yorkshire pudding. Segundo dizem, todo o rebanho Angus pertence ao
príncipe Charles. Mas não deixe de provar também o melhor salmão defumado
que existe, o escocês.
A lista de vinhos homenageia a França, e talvez a única concessão feita pelo
Simpson’s na passagem do tempo foi nos preços. Digamos apenas que agora são
mais competitivos; apesar que não se pode dizer que um jantar com dois pratos
por 29 libras seja caro, e a magnífica atmosfera é absolutamente gratuita. É
aconselhável evitar calças compridas — no caso das mulheres, claro.


VE RY BRIT IS H
Linda não conseguia entender por que alguns homens gastam 4 mil libras em
um sapato, se podem comprar um exatamente igual por quatrocentas; ainda se
fosse um modelo diferente, que só aquela loja tivesse, ela entenderia, mas, se são
iguais, qual a graça? E um homem vestido com um terno marinho Henry Poole
não é igualzinho a outro homem vestido com um terno marinho comprado
pronto? Percebendo que aquela conversa ia ser longa, levei Linda para tomar um
chá na Fortnum & Mason — onde estão os melhores sanduichinhos de pepino de
Londres — e falei que, se você vir um homem calçado com um sapato John Lobb
e outro calçado com um sapato de uma marca qualquer, comprado pronto, não
vai notar nenhuma diferença entre eles, até porque, é verdade, os modelos serão
praticamente iguais.
Por mais que você olhe para uma camisa da Turnbull & Asser e para uma outra
qualquer, vai achar as duas iguais. Quando souber da diferença dos preços, aí é
que não vai entender mesmo; mas é simples: os ingleses pagam essas verdadeiras
fortunas por seus ternos, camisas e sapatos por duas razões — uma delas, e muito
importante, é que essas compras são feitas pelo prazer pessoal, não importando a
mínima se alguém sabe que estão usando um sapato de 4 mil libras ou não. Um
John Lobb só interessa a quem usa. Na cabeça deles não existem as palavras
“exibição”, “ostentação”. Eles sabem do conforto que é andar com esses sapatos, e
isso basta. Sabem também que estão pagando caro por coisas que vão durar, e
muito, e quem passou por uma guerra dá valor ao dinheiro.
É preciso lembrar que foram os ingleses que, por necessidade, puseram na
moda aquele pedacinho de camurça costurado nos cotovelos dos casacos que
estavam puídos, pois com a guerra ninguém podia comprar um paletó novo. E, na
falta de cintos, passaram a usar a gravata em volta da cintura, coisa que todos
imitaram numa determinada época. Em Londres ainda se cultiva uma elegância
durável, e há um certo desprezo pela mudança de figurino a cada estação. Mas
numa coisa os ingleses são inflexíveis: ninguém pode viajar sem levar um
smoking.
Como burra Linda não é, ouviu tudo sem dar um pio e só disse uma frase no
final: “Então eu fiz bem de comprar minha bolsa de 1200 libras, não fiz?”. Dei um
beijo na testa dela e disse: “Fez, Linda, claro que fez”.
Londres é surpreendente: estava eu uma manhã, tipo onze horas, andando pelo


meu quartier chique, quando vejo uma loja grande, com dois gigantes na porta
vestidos de maneira estranha, de braços cruzados, com toda a pinta de
seguranças. Mais no fundo a loja ficava escura, e um garoto de jeans e sem
camisa — a barriga, um tanque — dançava ao som que vinha lá de dentro.
Curiosa, perguntei: “É uma discoteca?”, e um dos gigantes me respondeu: “Não, é
uma loja, entre”. Entrei, e era quase um breu, mas com a música a mil e aquelas
luzes de discoteca. O que vendiam? Roupas para jovens, camisetas, jeans, shorts
etc. Veio logo um rapaz perguntando: “Do you want a drink?”, mas onze horas da
manhã ainda era muito cedo. Dei uma olhada na loja, e, quando saí, havia uma
moça com uma Polaroid tirando fotos de quem entrava com o garotão que
dançava — tirei uma que ficou ótima. Linda se rasgou toda por ter preferido ficar
dormindo a sair comigo de manhã. A loja se chama Abercrombie & Fitch e fica
no 7, Burlington Gardens.
É claro que Linda, subdesenvolvida e distraída, na hora de atravessar a rua,
olhava para o lado errado e atravessava fora da faixa. Pois os carros todos paravam
para dar passagem. Não é gentilíssimo? Mas se um único daqueles simpáticos
policiais, os bobbies, estivesse por ali, teria chamado sua atenção; mas não vi
policiais em Londres ou Paris, a não ser nos aeroportos.
Ah, e quando você pede uma informação na rua e agradece, ouve como
resposta: “My pleasure”, coisa que adorei. Os ingleses são tão sweet, que a
locutora da BBC, ao anunciar a morte de um ex-jogador e ex-técnico de futebol
adorado pelos britânicos, Bobby Robson, disse: “He was a lovely, lovely man”. Muito
lindo. E por falar em futebol, não vamos esquecer que os ingleses costumavam
assistir às partidas de futebol de terno e gravata.
Mas turismo chique mesmo é o que fez um casal amigo: um Rolls foi buscá-los
na porta do hotel para fazer um piquenique nos jardins de um castelo nos
arredores de Londres. Um valet (copeiro) estendeu uma toalha na grama,
entregou a cada um uma manta de cashmere, abriu a cesta e serviu
sanduichinhos, biscoitinhos, docinhos, queijos, salmão, presuntos, frutas,
champanhe. Na varanda do castelo uma orquestra tocava, ao vivo, Mozart, Bach,
Vivaldi. Só esqueci de perguntar como ela foi vestida para a ocasião.
Mais uma coisa chique: quer receber uma cartinha do palácio de
Buckingham? Pois no aniversário da rainha, ou de um dos príncipes, mande um
presentinho — um livro, um CD, qualquer coisa. Tempos depois você receberá
uma carta da secretária da pessoa para quem você mandou o presente dizendo
que ela ficou felicíssima, agradecendo etc. E com o papel timbrado do palácio,
para você mostrar a todos os seus amigos.


Lembrei de rever a Burlington Arcade, uma galeria em Piccadilly, onde se
compravam os melhores cashmeres de Londres. Lá está ela, impávida, com seus
seguranças fardados e de cartola na porta, para impedir que alguém assobie,
cante ou corra dentro da galeria, e já foi pior: houve um tempo em que mulheres
sozinhas não podiam passar por lá, só acompanhadas. Que tal? A Burlington
Arcade tem umas coisinhas novas: uma loja de malas maravilhosas, Macintosh,
que são a cara de Londres e custam de 550 a 860 libras; a Vintage Watch
Company, com dezenas de relógios Rolex antigos, para homens e mulheres —
um dos mais baratos, de 1930, custa 20 mil libras, mas os preços podem ir a 50
mil libras. Os cashmeres continuam, as lojas de joias antigas continuam, e é
sempre uma delícia passar por lá. Mas não posso deixar de contar que estava
andando na rua quando vi uma loja chamada Beretta Gallery, de material de
caça, e a data em que havia sido aberta: 1526. Vinte e seis anos depois de termos
sido descobertos aquela loja já fabricava roupas para caçadas e estojos para levar
joias.
A New Bond Street foi tomada pelas lojas femininas — todas. E a Louis Vuitton
está construindo uma que vai ocupar um quarteirão inteiro, valha-me, Nossa
Senhora! É a rua com mais seguranças por metro quadrado do mundo — por
causa das joalherias —, e, mesmo assim, é preciso apertar a campainha para
entrar nas lojas. Numa delas havia um relógio que na verdade eram quatro, cada
um dando a hora em uma cidade do mundo, e cada um com o mostrador de cor
diferente. Como viver sem um relógio desses? Havia também dois celulares que
me interessaram muito: um de titanium, por 14 500 libras, e outro de ouro e
brilhantes, por 30 900 libras. E eu acho que as lojas que vendem roupas para
homens e mulheres odeiam as mulheres: tudo o que é para elas é no segundo
andar, já prestou atenção?
É curioso como nosso gosto vai mudando. Depois de dois ou três dias em
Londres, comecei a achar graça numas roupas louquíssimas. E fiquei entre o
clássico dos clássicos — pensando seriamente em comprar uma saia de lã xadrez
e um conjunto de cashmere para usar com um colar de pérolas, como a rainha
— e umas roupas indescritíveis, que não existem em nenhum lugar do mundo, só
mesmo em London town. São roupas incríveis, e dificilmente — raramente, eu
diria — você encontraria na mesma loja uma blusa igual a outra; na rua ou num
restaurante, eu diria impossível. No início você acha tudo louco, mas depois do
quarto dia já está querendo levar tudo — mas tudo o que seja genuinamente
inglês, nada que venha de grifes das quais você já tenha ouvido falar, aquelas. É
tudo so chic, so cher, so Mayfair!
Estava de novo exausta de tanta loja, tanta moda, e aproveitando a ausência de
Linda, que resolveu passar o dia no Hyde Park, fui fazer um programa meu, só


meu: visitar a casa onde Freud morou os últimos anos de sua vida e que hoje é um
museu.
Tomei um táxi e fui para Hampstead, que fica um pouco longe do centro.
Passei pelos parques mais lindos, de árvores com os verdes mais lindos, até
chegar a uma rua tranquila, arborizada, onde ficava a casa dele. Entrei, dei uma
volta geral e não resisti: fui logo para uma sala grande, sombria, cheia de estantes
e livros, onde estava o divã, o famoso divã onde se deitavam seus pacientes.
Éramos muitos, e todos olhávamos em silêncio, um silêncio respeitoso; em cima
da mesa seus óculos, seu charuto, e o cheiro do divã, dos livros, até do silêncio. Foi
uma emoção mais forte do que eu poderia ter imaginado. Teria ficado lá a tarde
inteira, só olhando, mas tive que sair, e fui olhar os fundos da casa.
Havia um gramado circular bastante grande, cercado por arbustos que
cobriam as casas vizinhas. Numa mesa tosca, sentada numa cadeira, uma
mulher de cabelos brancos lia um livro; um pouco mais longe, aproveitando o sol,
um enorme cachorro preto e branco dormia. Parecia um cenário, tudo fazia
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