De Malas Prontas


parte das datas é comemorada no café da manhã, em lugares públicos



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De Malas Prontas - Danuza Leao

parte das datas é comemorada no café da manhã, em lugares públicos.
Em matéria de produtos para alimentação, a Alemanha não dá muita escolha.
No longo inverno não há praticamente legumes nem verduras (no verão também
não); parece que só se veem batatas e maçãs, mais nada. Em compensação, se
você for à KaDeWe, uma loja de departamentos, nem pare nos andares: vá


diretamente ao sexto andar, e verá a mais rica e completa praça de alimentação
que jamais viu, isso incluindo o Bon Marché, Fauchon e Hediard de Paris, o
Harrods e Fortnum & Mason de Londres.
Que espetáculo: nunca tinha visto nada igual nem parecido em minha vida,
produtos do mundo todo, e passaria lá o resto dos meus dias para poder ver o
andar inteiro e não perder nada — e provando de tudo, é claro (menos dos
alimentos orgânicos, grande mania dos alemães).
Vi coisas nessa KaDeWe que nunca imaginei que existissem; outras, eu sabia
que existiam mas nunca tinha visto. Por exemplo, duas enguias enormes, que
pareciam duas jiboias, nadando num tanque — isso eu preferia não ter visto.
Peixes que não conhecia nem de fotos, crustáceos que também não, camarões tão
grandes que pareciam lagostas, lagostas tão grandes que pareciam nem sei o quê,
mas com patas imensas (na minha terra essas patas são chamadas de puãs), tudo
não só para comprar e levar como também para comer sur place, em
banquinhos tipo de bar.
Eu me regalei; comecei no bistrô francês com um copo de vinho branco e
ostras — isso Linda comeu, mas foi só —, depois fui para onde estavam as
salsichas, e provei de todas que pude: a da Baviera, a vermelha, a de sangue, com
mostarda e acompanhadas de um copo de meio litro de cerveja, uma das 5 mil
marcas que existem no país. (Será que eles não têm copos menores?) De lá
rumei para a pâtisserie e experimentei vários tipos de tortas — e os alemães são
bons nisso —, com bastante creme, e fui ao balcão do champanhe, onde tomei
um copo para encerrar a tarde com chave de ouro. O champanhe Linda também
tomou. “Quero chegar magra em Paris, e champanhe não engorda”, disse ela.
Os alemães, como já contei, enrolam seus cigarros. Na tabacaria havia — e
estou sendo breve — fumo com sabor de: trufas, melão, baunilha, rum e maple,
abacaxi, champanhe, diversos vinhos, manga e kir Royal. E a prateleira dos chás
tinha cinco andares e media uns dez metros; você comprava o chá pronto ou fazia
seu próprio blend. Mas a sensação do dia foi uma jaca; as pessoas paravam para
olhar, cheiravam, ninguém sabia do que se tratava. A preciosidade custava 120
euros.
Saí de lá zonza, mais pela comida do que pela bebida. Já era fim de tarde, boa
hora para uma sesta. Chegamos ao hotel, eu e Linda, e caímos duras na cama;
ela, sempre misteriosa. Mas eu sabia: assim que o avião pousasse em Paris, ela ia
desandar a falar, e pobre de mim. Enquanto eu tomava banho, Linda deu uns
telefonemas; para quem, não sei, só sei que falou em francês; com algum
namorado, provavelmente.


Naquela noite eu só queria descansar, mas o tempo era tão curto, tinha que ser
aproveitado. Depois de comer tanto, ainda fomos jantar num restaurante ali perto,
o Borchardt, aonde costumam ir executivos e políticos. Lá comi uma coisa que já
conhecia, o wiener Schnitzel, um bife à milanesa austríaco, redondo, que devia ter
uma circunferência de um metro, e vi dois homens de gravata, os únicos, mas
nenhuma mulher grifada. O acompanhamento? Salada de batatas, claro. Com
dois copos de vinho, 77 euros. Deixei mais que a metade no prato e fui direto para
a cama. O dia tinha sido punk.


A BE LA DE  BE RLIM
No dia seguinte saímos cedo e fomos ver — por fora — a Gedächtniskirche, uma
igreja que foi bombardeada e que agora se chama Igreja da Memória, pois não a
reconstruíram, deixaram os estragos à vista — a guerra, sempre a guerra. De lá
fomos à rua mais chique do lado ocidental, Kurfürstendamm, onde não vi
ninguém especialmente elegante, todo mundo igual a todo mundo, e depois ao
FraRosa, restaurante que funciona assim: as pessoas comem e bebem, e pagam o
que quiserem; já existe há quatro anos e parece que vai indo muito bem. Soube
que foi recentemente copiado no Rio, mas temo pelo sucesso do
empreendimento.
Ele fica numa pracinha linda, a Zionskircheplatz. Falemos sobre a decoração.
Na calçada, um sofá de veludo laranja desbotado e, logo adiante, outro,
estampado com fundo azul, todo rasgado; uma mesinha com duas cadeiras de
praia, de alumínio, com o tecido de plástico estampado bem gritante, e duas
cadeiras de plástico, cada uma de uma cor. No interior do restaurante, um bar
velho, que desconfio ter sido achado no lixo, pintado de cor-de-rosa; as paredes,
grafitadas, e as mesas, todas diferentes umas das outras, de fórmica; e não penso
que essa decoração faria sucesso no Casa Cor.
Foi na igreja da praça em frente, cujo nome não vou escrever de novo, que se
iniciaram os movimentos de protesto e resistência ao regime comunista da
Alemanha Oriental, os quais culminaram com a queda do Muro. De meia em
meia hora, no meio daquele verde e daquela paz, o sino da igreja toca. Demos
dez euros por dois copos de vinho, e a moça que atendia ficou toda feliz.
Esse restaurante faz fronteira com Prenzlauer Berg, o bairro mais cool de
Berlim atualmente, mas que, para quem não conhece, é igual a todos os outros.
Foi lá que Emília perguntou, a um homem que estava estacionando seu carro,
onde poderia encontrar uma farmácia e ouviu como resposta: “Neste bairro
somos todos ricos e saudáveis”. OK, não vamos discutir. Tínhamos programado ir
ao museu erótico, o Beate Uhse, e à rua dos bares gays, cheia de bandeiras, mas
eu estava tão cansada que dispensei. Afinal, esses filmes são sempre os mesmos.
Trümmerfrauen é como são chamadas as mulheres dos escombros — as que
tiveram de recolher os destroços dos bombardeios. Grande parte dos homens
morreu na guerra, e Berlim foi reconstruída sobretudo pelas mulheres. Até hoje,
às vezes uma dona de casa chama um bombeiro ou um pedreiro para fazer um


conserto e ele encontra, dentro da parede da casa, uma bomba, e uma bomba
que às vezes explode. Não dá para esquecer da guerra.
A crise está chegando à próspera indústria da prostituição. Os clubes
resolveram propor um custo fixo, com direito a bebidas, bufê e mulheres à
vontade: durante o dia, setenta euros; à noite, cem. Vender o corpo é
perfeitamente legal na Alemanha, e as prostitutas têm os mesmos direitos que
todos os trabalhadores, inclusive em matéria de seguro social e seguro-
desemprego. Elas ganham entre cem e 250 euros por dia, e, apesar da crise, se
recusam a reduzir os preços, o que baixaria a qualidade do serviço e da imagem
delas. E dizem que as coisas estão ficando difíceis porque os clientes não querem
mais pagar pelos “extras”.
Ninguém anda depressa em Berlim, ninguém parece inquieto ou nervoso. No
verão os berlinenses escolhem um parque cheio de árvores e botam ali mesas e
cadeiras; o lugar se transforma logo numa cervejaria de verão, e, ao chegar o
outono, ela acaba por si só. Nos bosques e nas praças se veem, além dos bares
espontâneos, dezenas de espetáculos e peças de teatro. Os alemães são uma
mistura de hippies, punks, góticos, emos, alternativos, ecológicos, e se tem a
impressão de que todos compram suas roupas nos brechós da cidade, que, aliás,
são dezenas, talvez centenas. As araras ficam nas ruas, e existem desde os
brechós mais chiques, de grife, até os mais bagaceiras, onde se compra por cinco
euros um vestidinho que dá bem para usar no verão. Linda comprou uns dez —
dos baratinhos — e uma sacola, já que na mala não caberiam. Mas uma sacola
ecológica, pois em Roma como os romanos.
Numa coisa eles não mudam, homens, mulheres, crianças: entra ano, sai ano,
usam as mesmas sandálias, aquelas que fecham fazendo troc troc, e às vezes
ainda com meias. É que, quando começa o outono, eles guardam as roupas de
verão até o verão seguinte, quando todas saem das malas e são usadas de novo —
inclusive as sandálias. Ao saber disso, Linda disse que, se passasse um verão sem
comprar pelo menos três pares, morria. As crianças alemãs são as mais bonitas
do mundo, as jovens adolescentes são também belíssimas, mas acho que na idade
adulta as Claudia Schiffer vão todas para Milão para ser modelos.


C AS A E  C OM IDA P ARA T ODOS
Um pouquinho de política, só um pouquinho: na Alemanha, existe o Sozialstaat
(Estado social), que visa à segurança e à justiça social para todos os seus
cidadãos. Para os estrangeiros em geral, e os brasileiros em particular, o conforto
proporcionado pelo modelo é inacreditável, mas para os germânicos é mais do
que natural, pois o Sozialstaat está ancorado há décadas na mentalidade deles.
Os alemães consideram como necessidades básicas casa — se possível própria
—, carro e férias. Urlaub são as férias de quem trabalha, e Ferien, as dos
estudantes em geral, dos pequenos aos jovens que estão na faculdade; a pobreza
começa quando não há dinheiro para viajar nas férias. Se um garoto quer estudar,
o governo empresta a ele uma quantia para que possa fazer isso sem precisar
trabalhar demais. O empréstimo pode ser restituído em prestações, mas só depois
que o estudante se formar e tiver um emprego que lhe permita pagar, em
primeiro lugar, suas contas. Se ele preferir fazer um Ausbildung (“estudo
profissionalizante”), a ajuda é a mesma.
Quem quiser fundar uma família contará com o amparo do governo em várias
áreas; nos primeiros dois anos, se o homem ou a mulher precisar se afastar do
emprego para cuidar do bebê, receberá uma espécie de salário cuja base será o
que ele/ela ganha por mês. Se uma mulher se tornar — por convicção ou por
acidente — mãe solteira, terá apoio material do governo até conseguir trabalho e
matricular a criança numa creche.
Pessoas doentes ou impossibilitadas de trabalhar por alguma deficiência física,
mental ou psíquica também podem contar com o apoio governamental. Se o
cidadão não tem emprego, formação escolar média ou superior, se não tem
talento para o trabalho nem para uma vida regrada, receberá ajuda social e oferta
de serviços eventuais por seis meses ou até um ano inteiro, ou, ainda, poderá
frequentar cursos de formação profissional na área de sua preferência.
É possível, assim, em diferentes fases da vida, depender do Estado sem que isso
signifique fracasso pessoal. A aspiração em geral não é depender do Estado, mas
viver uma vida digna por esforço próprio, ter algum conforto material, sem
necessariamente ostentar, e assegurar uma velhice financeiramente tranquila.
Aliás, ostentação não existe na Alemanha.
Mas existem aqueles que vivem do Estado social, se acomodam e contentam-se


com o mínimo, a cerveja e a TV nossa de cada dia. Essas pessoas sofrem um
enorme preconceito e são chamadas de associais. Associais são também os
cidadãos mal-educados, que falam alto demais, bebem demais ou têm muitos
filhos.
Para diminuir o número de desempregados, o governo apoia quem quer se
tornar autônomo. Atores, cantores, acrobatas, palhaços de circo, ou seja, artistas
em geral, podem dispor da Künstlersozialkasse — Caixa Social dos Artistas. Cada
um inventa uma coisa para fazer, cada um exerce a criatividade à sua maneira,
contando com a ajuda do governo, que financia o seguro social e a aposentadoria
para artistas autônomos. Por isso, Berlim é a cidade mais moderna da Europa, e a
mais procurada pelos jovens.
E há também o seguro-desemprego, pago por prazos variáveis e que pode
chegar a 90% do salário anterior da pessoa. No entanto, é preciso provar que se
necessita da ajuda. Existem ovelhas negras que exploram o Estado, mas são uma
porcentagem mínima. E a qualquer momento qualquer um pode alegar que está
doente e pedir para ir a um lugar a fim de se desestressar; é de lei. E de graça,
claro.
A Alemanha cuida dos seus cidadãos desde que eles são pequenininhos, e a lei
condena toda forma de violência — física, psíquica ou sexual — na educação de
crianças e jovens. Se alguém vir uma mãe dando uma palmada no filho na rua,
pode ir à polícia com a certeza de que providências serão tomadas.
Resumindo: com tantas facilidades, a juventude europeia está indo para a
Alemanha, e quem vive em Berlim tem motivos para não temer o grande
pesadelo de todo ser humano, o futuro, pois sabe que estará sempre amparado.
Mas, como nada é perfeito, os moradores da cidade enfrentam oito meses de um
tenebroso inverno, em que a temperatura chega a vinte ou trinta graus abaixo de
zero.
Existem três bairros em Berlim onde há uma concentração enorme de
estrangeiros, entre os quais muitos árabes e turcos. (Uma curiosidade: as
mulheres turcas andam três passos atrás dos maridos, e os filhos, três passos atrás
da mãe.) São eles: Kreuzberg, Wedding e Neukölln. O mais interessante dos três
é Kreuzberg, um bairro bastante alternativo, onde convivem pessoas muito
politizadas, muitos hippies, punks, bem como turcos, africanos, árabes e outros
estrangeiros. Os imigrantes foram chamados para ajudar na reconstrução da
cidade, e vieram, mas não quiseram ir embora. Aliás, Kreuzberg é o mais
célebre, por ser o bairro em que todo Primeiro de Maio acontecem festas e
manifestações políticas. Nessa data, os famosos autônomos fazem passeatas, e


alguns mais radicais acabam incendiando carros e brigando com a polícia.
Nos cafés, há mantas de lã dobradas no encosto das cadeiras, pois a qualquer
momento o tempo pode mudar; se mudar, os clientes logo se enrolam nelas.
Berlim é a imagem da paz, mas tem sempre polícia na porta dos museus e das
sinagogas.


HABIT E -S E
Digamos que você queira viajar mas esteja sem dinheiro; então vai a um
escritório especializado em viagens comunitárias, diz para onde quer ir e
aproximadamente em que data. E digamos que alguém que tem carro e pretende
ir para a cidade que você escolheu vá ao mesmo escritório e deixe suas
coordenadas. O escritório põe vocês em contato, e o dono do carro viaja com dois
ou três caronas que nunca viu na vida; todos ajudam nas despesas com o
combustível, as estradas ficam mais vazias, o ar, menos poluído, e pode pintar até
uma amizade. Legal, não?
Por falar nisso, os alemães não gostam de passar as férias em Berlim, porque
acham a cidade pouco sexy; sexy, para eles, é a Alemanha profunda, com os
homens de short curtinho e as mulheres de blusinha branca bordada, tomando
muita cerveja e dançando aquelas danças de roda.
Berlim não é uma cidade para visitar, é para morar. Trata-se de um lugar
muito, muito especial. Infelizmente o teatro da Filarmônica de Berlim, a melhor
do mundo, estava em obras, mas, em compensação, visitamos a Neue Synagoge,
enorme e dourada, que foi destruída, em parte pelos nazistas, em parte pelas
bombas aliadas, e reconstruída em 1988. Do lado direito da edificação, fica o
memorial, local onde milhares de judeus berlinenses eram obrigados a se reunir
antes de ir para os campos de concentração. No interior da sinagoga, uma área
protegida por vidro abriga as ruínas do santuário, e as pedras que compõem a
réplica de trinta metros do Muro das Lamentações foram todas trazidas de Israel.
Atrás do memorial, há um parque que foi o mais antigo cemitério judeu. O único
túmulo que resta é o do fundador da primeira escola judaica, em 1927, que até
hoje é mantido sob permanente segurança.
Andamos de barco, 8,50 euros por um passeio de uma hora, fomos ao
verdadeiro Checkpoint Charlie, hoje no Alliierten Museum (o que fica no
cruzamento da rua Kochstrasse com a Friedrichstrasse é uma cópia), símbolo de
uma cidade dividida — de um país dividido. E retornamos, como era inevitável, à
guerra: bem no centro de Berlim se situa o Memorial aos Judeus Mortos na
Europa (não confundir com o Museu Judaico de Berlim); é uma imensa área
coberta de centenas de blocos de cimento de alturas variadas, organizados em
fileiras voltadas para diferentes direções, onde as pessoas param e ficam olhando
em silêncio, recordando. E um pouco adiante, onde ainda se pode ver um grande
pedaço do Muro, um terreno vazio chamado a Topografia do Terror: dali, do


quartel-general da Gestapo e da elite da SS, o Holocausto foi dirigido. Lá não há
nada, só a lembrança — e é o bastante.
Ouvimos dizer que havia um Botequim Carioca, e para lá fomos. Aliás, a
presença brasileira se faz sentir através das sandálias havaianas, da tanga e dos
institutos de depilação carioca, que pululam pela cidade. Linda, que não fala
inglês nem alemão, logo se animou, pois ia ter com quem conversar. O
proprietário, Victor Rodrigues, está feliz; seu botequim fica numa esquina e faz
muito sucesso, com brasileiros e alemães. Tomamos caipirinha feita com Pitu e
adoçada com Assugrin, e ainda tinha, no menu, guaraná Antarctica, empadinhas,
rissoles e pães de queijo, daqueles que você abre e sai fumaça; tem melhor, em
plena Berlim? Pagamos por esse banquete 35 euros e, como ainda era dia claro
— em julho é dia até as 23 horas —, pegamos um táxi e fomos visitar o maior
bosque da cidade, o Grünewald, onde fica o bairro dos ricos, o Zehlendorf. As
casas são bonitas, deve ser uma maravilha viver num bosque, mas a maior e mais
luxuosa das casas não chega aos pés da menor e mais modesta do Jardim Europa,
em São Paulo. Os alemães realmente não ostentam.
No dia seguinte, a primeira coisa que fizemos foi ir à exposição Bauhaus, no
museu Martin-Gropius-Bau, construído pelo tio-avô de Walter Gropius, o fundador
da Bauhaus, a mais importante escola de arquitetura, design e arte do século XX.
É claro que os móveis e objetos, que agora são de domínio público, não provocam
o mesmo impacto que causavam quando foram criados, mas Linda foi logo
dizendo: “Quem desenhou esses móveis e cadeiras — com algumas poucas
exceções — podia ter muito bom gosto, mas não tinha a menor noção de
conforto; prefiro uma boa rede”; e ela não deixa de ter sua razão. Era a
vanguarda, o futuro, porém muito incômodos.
Para relaxar, fomos ao Mercado das Pulgas. Linda teria comprado montes de
coisas (e eu também), pois tudo era interessante e barato, mas nossas malas
eram tão pequenas que saímos de lá frustradas. Nesse mercado, que só abre aos
domingos, reúnem-se jovens para chillen (“relaxar”). Ali acontecem festas
espontâneas, ou músicos improvisam um som, simplesmente; às vezes tem
karaokê. Vendo o mercado e o tipo de gente que o frequenta, caiu a ficha: o povo
alemão adora programas bucólicos, paisagens, lagos e bosques, onde poderia
passar o dia inteiro. Se não fosse o inverno, eles comemorariam tudo ao ar livre;
mas, como eles mesmos dizem: “Não existe tempo ruim, apenas roupas
inadequadas”. E o ar fresco é tão importante para o alemão quanto a água.
Estava anunciada em todos os postes e árvores de Berlim uma exposição de...
corpos. Um professor universitário e anatomista, Gunther von Hagens,
aperfeiçoou uma técnica chamada plastinação — uma forma de preservar


corpos, uma espécie de mumificação. Desde 1996 ele expõe corpos plastinados
sob o título Körperwelten, com um público considerável. Mas nem todos foram a
favor: Hagens foi acusado de ferir a dignidade humana, no entanto não parou com
seu trabalho. Plastinados de sua autoria foram mostrados pela primeira vez no
filme Casino Royale (James Bond). A exposição já esteve no Brasil, e me pergunto
quem se interessa por esse tipo de arte.
O estarrecedor Jüdisches Museum — Museu Judaico de Berlim — é muito
mais do que se possa imaginar. Depois de atravessar um túnel de concreto,
chega-se ao subsolo, um clima sombrio; paredes também de concreto e, nelas,
nem uma foto, uma pintura. Andar por aqueles espaços e corredores é uma
experiência que deixa marcas: é o nada total. São três eixos, o do Holocausto, o do
exílio e o da continuidade. O piso, propositalmente, é um pouco inclinado para um
lado, o que dá uma sensação de desorientação, desamparo. Algumas aberturas
estreitas deixam passar a luz do dia, mas a arquitetura é sufocante, labirintosa,
sisuda, soturna.
No fundo, uma grande e pesada porta metálica: por ela se chega à torre do
Holocausto, uma sala toda de concreto, fechada, com um pé-direito de vinte
metros. Lá em cima, um feixe de luz — e só. O silêncio oprime, parece que se
ouve o ar, e qualquer murmúrio cria um eco fortíssimo; a sensação é de ausência,
ausência de tudo o que significa vida. E não há o que murmurar, porque não há
nada a dizer.
Depois de passar pelo eixo do exílio, chega-se a um jardim de concreto; são 49
colunas pequenas, quadradas, e, em cima de cada uma delas, alguma vegetação.
Eu me senti como exilada, desnorteada, sem chão, sem equilíbrio. Aí já se escuta
o som das ruas, e com ele vem a sensação de paz e alívio.
Na saída, o chão é coberto por um mar de rostos de ferro enferrujado, todos
diferentes, todos soltos. E vem a última sensação que se experimenta no museu:
dor. Mas não uma dor que dê vontade de chorar; é uma dor muito mais profunda,
e poucas coisas emocionam tanto. Como já disse alguém, aquele não é um
museu para se ver, e sim para se pensar. Seu arquiteto, Daniel Liebeskind, é
quem está fazendo a reconstrução do World Trade Center, em Nova York.
Dali fomos visitar, ao lado do museu, a exposição permanente de objetos
pertencentes a judeus que estiveram em campos de concentração: embrulhos
amarrotados que foram entregues a parentes que tinham conseguido escapar,
objetos pessoais e fotos das famílias, quase todas iguais, com o pai e a mãe
sentados e os filhos em volta, uma desolação. Não foi uma tarde fácil.


C OM E N DO N O E S C URO
Fomos tomar uma cerveja, mas não tínhamos nada para falar, diante do que
acabáramos de ver. E lá teríamos ficado, mudas, por horas, se Emília, nosso anjo
da guarda de todos os momentos, não tivesse nos tirado daquele estado deplorável
dizendo: “Que tal irmos à praia?”. Praia? Praia em Berlim? Topamos, mais para
sair daquele clima do que por qualquer outra razão.
Tomamos um táxi e descemos em frente a um canal; é lá o
BundesPresseStrand; para facilitar, os alemães juntam as palavras: bundes quer
dizer “federal”, Presse, “imprensa”, e Strand, “praia”. Como vocês perceberam,
trata-se da praia da imprensa federal, considerada a melhor de Berlim. Vamos a
ela.
Num terreno de uns cinquenta metros de frente, uma ponte de bambu nos leva
à “praia”, com um deck de cada lado e duas áreas de cerca de 20 m × 20 m
cobertas de areia. Outro deck leva ao restaurante, onde há enormes sofás de
veludo — sim, veludo — laranja, pufes grandes, mesas rústicas com bancos, e um
bar todo pintado com temas tropicais, isto é, moças de biquíni, praias, mar,
homens morenos de bigode, palmeiras.
Na praia, digamos assim, vários coqueiros artificiais cheios de cocos; imensos
lustres de palha imitando os de cristal; duas piscinas, cada uma pouco maior que
uma mesa de pingue-pongue, com um repuxo no meio, e, para completar,
bananeiras, muitas bananeiras, com muitos cachos. Claro que mulheres de botas
descombinavam perfeitamente com o ambiente.
Não vou comentar sobre a melhor praia de Berlim, mas juro que já vi
melhores. Linda é que não deixou barato: “Entre a praia de Berlim e a de Paris,
na margem do Sena, fico com o piscinão de Ramos”. Demos a primeira risada do
dia.
Como ainda era cedo, decidimos ir a um restaurante chamado
Dunkelrestaurant Unsicht-Bar (“restaurante invisível no escuro”). Sabíamos que se
tratava de algo diferente, mas não nos disseram exatamente no quê. Chegamos a
uma ruazinha simpática e entramos num bar tipo moderno, onde pedimos um
drinque. Dali a pouco veio a garçonete com o menu, que só tinha três opções:
aves, peixes ou carnes. Cada uma fez a sua escolha, mas botei o olho para ver o
nome dos pratos: Aquatic friends making love on a bed of flowers, ou Arieles little


friends has fled from his prison and jump into the heart of Italy, ou The fall off man
in asian superfruit meets a germain tradition. Lembrei do Chacrinha: ninguém
estava lá para explicar, e sim para confundir.
Uns dez minutos depois, a garçonete trouxe uma mulher já madura, cega
(todas as garçonetes do restaurante eram cegas), com uma voz fortíssima, quase
masculina, e que só falava alemão; disse que se chamava Ânguela (e ponha força
no Ânguela) e que nos levaria à mesa. E, estranhamente, nos instruiu a
segurarmos nos seus ombros, depois nos ombros da que estivesse atrás dela, e
assim por diante, como um trenzinho. Antes, ela quis saber se alguma de nós
estava usando relógio com ponteiros fosforescentes. Não entendemos a pergunta,
mas dissemos que não; obedecemos — quem ousaria desobedecer a Ânguela? —
e fomos andando, uma com as mãos nos ombros da outra, como quatro idiotas.
Linda disse no meu ouvido que estava morrendo de medo de Ânguela, que não
queria ficar perto dela. Num determinado momento, Ânguela anunciou que não
encontraríamos nenhum obstáculo e nenhum degrau. Continuamos andando,
viramos à esquerda, foi escurecendo, viramos à direita, e escureceu totalmente.
Não sabíamos onde estávamos, e Ânguela era nosso único guia.
Aí ela parou, pegou minhas mãos e me fez passá-las numa cadeira, para que
eu entendesse que era uma cadeira, e me fez sentar. Fez a mesma coisa com
Emília e com Linda — que deu um grito —, explicou que o garfo estava à
esquerda, a faca, à direita, disse que logo seríamos servidas e que, se
precisássemos de alguma coisa, era só gritar “Ânguela” bem forte.
E ficamos, as três, no escuro mais escuro que já vi na minha vida, atônitas,
estarrecidas, sem saber o que dizer e, naturalmente, sem poder fazer nada.
Inventamos umas histórias de infância, para não falar do que estava acontecendo,
e uns dez minutos depois apareceu Ânguela avisando que ia servir, que tirássemos
as mãos da mesa.
Dali a pouco cada uma tinha um prato na frente, com uma comida não
identificável; na sala, havia pessoas que pareciam estar se divertindo muito, rindo
às gargalhadas, me pergunto de quê.
Depois veio uma sobremesa, e, para conseguir acertar com a colher, tivemos
que usar os dedos; uma lambança, eu diria. O clima foi de terror, já que não
víamos o que estávamos comendo, e ver o que se está comendo é fundamental.
Quando terminamos, gritamos bem alto: “Ânguela!”, e lá veio ela nos tirar
daquele buraco negro. É estranho, mas a saída foi muito pior do que a chegada:
deu um medo horrível. Refizemos o trenzinho, e não dá para descrever a


sensação de alívio quando começamos a ver a luz, até porque eram dez da noite
e o dia ainda estava claro. Linda disse que achou que a estavam levando para uma
prisão, e que nunca mais entraria num lugar escuro, nem em Berlim nem em
nenhuma parte do mundo.


À N OIT E , VALE  T UDO
Mas faltava a noite de Berlim, a famosa noite de Berlim, que começava
tardíssimo e acabava, em certos lugares, dois dias depois. Eu não seria capaz de
encarar, Emília também não; então como fazer? Estava sem saber, e quem me
salvou? Linda Imaculada, é claro. Ela disse que estava exausta de dormir cedo e
sugeriu que Emília a apresentasse a alguém da “naite”; afinal, depois de 22 anos
vivendo na cidade, ela devia ter uma amiga festeira, que conhecesse tudo, e
poderiam sair as duas juntas.
Emília lembrou de Marie, uma brasileira que sai todas as noites, e que achou
ótimo carregar Linda com ela, mas alertou: “Vê lá como ela vai vestida, porque,
se fizer a linha elegantezinha, não vai entrar em lugar nenhum”. Linda foi
correndo comprar uma roupa num brechó, uma peruca e um sapato salto 12.
Combinamos nos encontrar às onze e meia de sexta-feira no bar do hotel para
apresentá-las, pois, segundo Marie, nada acontece antes da meia-noite numa
cidade que se preze; elas logo se deram muito bem, tomaram duas cervejas
cada, viraram amigas de infância e saíram animadíssimas, enquanto eu e Emília
nos recolhemos. Fomos avisadas de que elas não teriam nem hora nem dia para
chegar, aviso mais do que supérfluo. É preciso dizer que Marie é DJ, portanto
para ela a qualidade do som conta muito.
Na manhã de sábado, vi Linda dormindo por umas horas, e depois só a vi na
noite de domingo, quando começou a falar sem parar; exausta, mas
excitadíssima, disse que nunca tinha visto nada igual na vida — e contou.
Primeiro foram ao Berghain, que é o paraíso; foi eleito pela revista inglesa DJ
Mag o melhor clube do mundo, e tem várias coisas interessantes: o prédio é
imenso, uma antiga usina termoelétrica da Berlim Oriental. Há uma pista grande,
chamada o caldeirão, e uma menor, no andar de cima, o Panorama Bar, onde
ainda se podem ver megadisjuntores e fusíveis; segundo Marie, a qualidade do
som é inacreditável; são caixas enormes cujos baixos vão direto ao estômago. O
som é alto, poderoso, jamais distorcido, cristalino, e mesmo assim você consegue
conversar na pista. O local parece o cenário de um filme de Leni Riefenstahl, todo
em concreto e aço, sombrio.
Linda morreu de medo de ser barrada, porque o controle da porta é severo.
Patricinhas e mauricinhos não entram mesmo, assim como quem vai muito bem-


vestidinho, caretinha demais. Os seguranças têm faro para gente babaca ou que
pensam que não vai ter a ver com o lugar, mas Linda caprichou no figurino, e
acertou: o clube ainda não estava cheio, porém as pessoas pareciam
interessantes, com jeito de quem não se assusta nem se embasbaca com nada.
Linda achou que tinha sido paquerada por um homem divino, mas logo o viu
dançando com outro homem; ela demorou a entender o espírito da coisa, que era
um pouco o de “Vale tudo”, de Tim Maia, só que valia dançar homem com
homem e mulher com mulher.
Para se refazer das emoções e retocar a maquiagem, ela foi ao banheiro, mas
quase desmaiou quando viu que lá não existem espelhos. Como viver sem
espelhos, se as paredes da casa dela são quase todas forradas com eles? A ideia é:
“Se joga! Esquece a vaidade”. Linda bem que tentou, mas sem espelho?
Se pudesse, Linda teria tirado várias fotinhos dos personagens estranhos que viu
por lá, mas no Berghain câmeras nem entram, são logo confiscadas na entrada e
devolvidas na saída. É a proteção de privacidade, pois ali podem acontecer — e
acontecem — coisas impublicáveis. Klaus Wowereit, o prefeito, gay assumido e
casadíssimo, já foi visto e aplaudido lá dentro. Como era muito cedo — duas da
manhã —, a animação ainda não havia começado, e as meninas resolveram ir
ver o que rolava nos outros clubes, mas com a intenção de voltar.
Vamos combinar: a noite em Berlim, pelo que me contou Linda, é basicamente
gay, ou melhor, queer, que é como eles falam; mas tão diversificada, que tudo
pode acontecer, até mesmo você encontrar uma boate hétero. Na véspera, Marie
tinha ido ao Chantal’s House of Shame — como diz o nome, um lugar para
perder a vergonha e se soltar, que acontece sempre às quintas — e disse que viu
duas bichinhas magrelas se arrastando nuas pelo chão, e ninguém se importa. Ela
então propôs irem a uma festa breeeeeeeega até não poder mais, na Haus B;
bem bagaceira, à velha moda onde bichinha é bichinha e sapatão é sapatão, o que
não causou grandes emoções.
Como o preço da entrada dos clubes nunca passa de doze euros, a dupla teve
tempo — e $$$ — de sobra para conhecer a noite. Linda quis entender o que
existe de tão especial na noite de Berlim, e Marie explicou que lá as pessoas
podem ser o que elas são, que as opções são infinitas, há muita diversidade e para
todos os gostos. Linda não parava de perguntar: por que um clube que não é gay,
como o Berghain, é o preferido dos gays e tem um dark room frequentadíssimo?
Marie se limitou a responder: “Isso é Berlim, e por isso é interessante”. E
acrescentou, a título de informação, que havia dois anos a cidade tinha,
oficialmente, duzentos clubes noturnos. Tem melhor?


Dali as duas foram para o Freitagsbar, lugar esquisitíssimo. Como pode um
bar-clube só abrir às sextas? Tratava-se de um buraco berlinense, buraco ilegal,
aliás, numa rua pacatinha e escura chamada Mulackstrasse. O único movimento
era o dos perdidos procurando o tal bar, e foi assim: primeiro elas entraram num
jardim, ou melhor, um terreno coberto de mato, e depois chegaram a um prédio
antigo, semivazio e caidaço. No fundo, velas no chão sinalizavam a entrada do
buraco, quer dizer, o portão. Elas desceram por uma estreitíssima, ingremíssima
escada escurérrima, tateando para não cair; no final dela, um sujeito com cara de
cucaracha cobrava um euro de entrada, socorro.
Lá dentro você encontrava o mundo, e o lugar estava socado de gente. Era
como se toda a galera cool, descolada e ao mesmo tempo “esculhambation-style”
do planeta estivesse reunida ali, impressionante. Linda chocou.
O tal do Freitagsbar era tipo um emaranhado de pequenas salas interligadas
por corredorezinhos, com paredes de tijolos aparentes e teto baixíssimo, ou seja,
não dava para dançar pulando — mas todo mundo pulava. Para ficar mais à
vontade, Linda e Marie resolveram deixar os casacos na chapelaria, onde eram
simplesmente jogados no chão, uns em cima dos outros. O fato é que, na saída, os
delas foram achados, sem muita dificuldade.
O som da pista correspondia à multiplicidade étnica da galera. Informações de
Marie: world music? que termo careta! Era electro francês, drum’n’bass indiano,
reggae made in Angola, rock argentino e... Chico Science & Nação Zumbi. Linda
e Marie se esbaldaram, e acabaram com vários galos na cabeça. Foi a última
noite do Freitagsbar, pois a polícia fechou o bar no dia seguinte.
Marie contou a Linda que toda sexta-feira tem a festa Lab.Oratory na Alte
Kantine do Berghain, para homens — só homens, pois não é permitida a entrada
de mulheres — que querem literalmente transar na boate; o povo chega, tira a
roupa se quiser, e manda brasa sem repressão nenhuma, mas ninguém é
obrigado a fazer nada; pode ficar só olhando ou, se preferir, se masturbando.
Linda, metida a moderna, disse que teria gostado de dar uma passada lá, mas eu
a conheço bem e acho que ela não ia segurar a barra.
Minha amiga tem horror de passar por careta, mas, no fundo, no fundo, bem
que é. E nessa noite ela compreendeu, ajudada por Marie, que é por tudo isso que
a noite de Berlim é chamada de selvagem, e o que acontece de diferente é que na
cidade rola o que está na ponta das novas tendências da música eletrônica, e a
maioria dos principais djs é de lá. E a mistura de pessoas é incrível, ninguém está
aí pra nada, ninguém tem medo de ser feliz. E, segundo Marie, o techno é o funk
carioca dos berlinenses.


P E RDIDAS  N A N OIT E
A noite era uma criança — e elas ainda estavam no início. Marie disse que Linda
não podia deixar de ir ao SO36, o clube mais tradicional do underground
berlinense, lendário, pois já existe há trinta anos. O clube, um antigo cinemão, fica
no Kreuzberg, o bairro carinhosamente chamado de Pequena Istambul, e nele
turco-descendentes, punks e a comunidade GLBT — gays, lésbicas, bissexuais e
transgêneros — convivem pacificamente. As noites do SO36 são as mais variadas
possíveis. Shows de punk e hard-core, bingo, mercado das pulgas, sebo de discos,
festas de reggae e até um tea-dance gay aos domingos, onde se dança coladinho ao
som dos mais bregas hits da música pop e de Schlager. “Ah, o Schlager”, Marie
explicou, “para entendê-lo, é só imaginar Odair José cantando em alemão.”
Quando Linda olhou para a pista lotada, viu gays, lésbicas, bis e trans de
inúmeras nacionalidades. As pessoas em êxtase, desde a menininha árabe de saia
rodada cheia de moedinhas fake, botas militares e xador, até o rapaz turco com
correntinha de pingente de espada turca que levantava a camisa e mostrava o
corpo malhado. Ferveu, e qual a surpresa quando tocou Solange Tô Aberta!, que
faz funk carioca! Foi o que bastou para a casa ir abaixo, mesmo que ninguém
entendesse as letras. Não adianta, ninguém resiste ao funk, nem em Berlim.
Linda dançando funk? Pois ela dançou e se acabou.
E, no calor do relato, Linda me pediu quase de joelhos que voltasse com ela a
Berlim para a noite mensal gay-lésbica-oriental no SO36, a Gayhane. É a essa
festa que vai a comunidade gay turca e árabe em peso, e se requebra ao som de
oriental-pop/house/electro; ainda por cima, há go-go boys ou girls que dançam a
dança do ventre. A seleção na porta é séria, pois eles não querem problemas tipo
o irmão mais velho da sapinha turca indo catá-la à força para depois desmoralizá-
la diante da família, mas Linda só pensava em ver os machões turcos e árabes,
talvez de bigodes, dançando a dança do ventre; ah, isso ela não ia perder por
nada.
Depois a dupla foi ao Roses, bar colado ao SO36. O teto do Roses é forrado de
plush rosa-shocking, e a decoração é brego-barroca, repleta de imagens coloridas
de santos, bonecos com sexo inflável, luminárias cujas cores mudam a um toque
dos dedos, milhões de adereços brilhantes, cadeiras Luís XV, e não é preciso nem
beber para se sentir totalmente alcoolizado, o que não quer dizer que as duas não
tenham bebido.


Cinco da manhã, e o bar abarrotado de bichinhas, turistas, gente que tinha
vindo do SO36, e um grupo de turcos e árabes héteros cuja única função é vender
maconha e quiçá outras coisas, e cuja única diversão é ficar largado, de pernas
abertas, vendo a loucura que se passa naquele salão. A bartender mais famosa do
lugar, uma gorda saída de um filme de Fellini, naquela noite usava uma blusa de
filó azul-claro, de mangas compridas, deixando à mostra os seios imensos furados
com piercings.
Você sempre vai conhecer alguém no Roses, e sempre vai poder sair dali com
alguém, é de praxe. O povo se joga na pista, todo mundo canta junto, com os
braços para cima, a partir das cinco da manhã ninguém responde por seus atos, e
aí, já viu. Marie percebeu que era hora de levar Linda embora, antes que ela
desaparecesse para sempre.
Se Linda queria conhecer mesmo a noite de Berlim, não podia deixar de ir ao
Rote Rose, que é um verdadeiro fecha-nunca, ponto de encontro de todos os
perdidos na noite de todas as cores, todos os bolsos, todas as tribos, todas as idades
— depois dos dezoito, é claro. Segundo Marie, o lugar mais sórdido da cidade, o
que significa que a sordidez não deve ser pouca. O som vem de uma jukebox que
parou no tempo faz uns dez anos, o carpete é velho, há um jogo de dardos
eletrônicos e uns caça-níqueis para os otários perderem dinheiro. O Rote Rose
fica na rua mais bagaceira de Berlim, e a cerveja custa 1,50 euro a caneca de
meio litro.
Ali você encontra, tomando suas últimas ou as suas primeiras: faxineiras,
estudantes, drag queens, intelectuais, traficantes, putas e putos, senhores de
família, empresários engravatados, cubanos exilados, músicos ciganos, enfim,
uma fauna mais rica que a amazônica. A misturada é o verdadeiro teatro do
absurdo.
Exaustas, as meninas abandonaram o Rote Rose e foram tomar o café da
manhã na padaria turca da esquina; lembro que ainda era a manhã de sábado e
que a “noite” só terminaria no domingo à tarde — e, em alguns lugares, na
segunda de manhã. Linda estava uma ruína, e propôs a Marie uma trégua: três
horas de sono. Marie topou, e marcaram às dez da manhã na portaria do hotel,
para continuarem a “noite”. Encontraram-se pontualmente, tomaram outro café
da manhã, bem mais luxuoso que o da padaria turca, e lá se foram para o
KitKatClub.
Famoso no mundo inteiro, o KitKat é dedicado à sensualidade e à sexualidade.
Não é um clube de swing, mas um lugar aonde se vai para dançar, e
eventualmente transar. As duas estavam apreensivas, sem saber se iam passar


pelo crivo cruel da porta, mas deram o seu melhor; Marie de calça de couro e
camisa de sargento de polícia americano, e Linda de minissaia de látex e blusa
vermelho sangue de lurex. Passaram normalissimamente, e a simpática hostess
ofereceu cabides caso quisessem se despir logo. As moças, muito finas, não
aceitaram.
Quando chegaram à pista principal, Marie não acreditou no que viu; se aquele
era o célebre KitKat, estava em franca decadência. A música era pavorosa,
estudantes de piercing no umbigo dançavam de cueca, e louras com a cara
amarela resultante de bronzeamento artificial dançavam com os peitos de fora ao
lado de quarentões que nunca malharam, e foi aí que Marie deu um grito. Ela
reconheceu um homem de uns sessenta anos que tinha visto na fila da bilheteria
de um cinema — lá estava ele, na pista, nu em pelo, cabelos longos e um
barbante amarrado na cintura. Foi demais, até para Marie.
Logo a música parou, e teve início o show erótico no palco, entre sofás e uma
cama de casal. Um homem e uma mulher seminus começaram a brincar de
amarra aqui, solta ali, poses indizíveis, mas tudo muito chato. Depois de exaustivos
quarenta minutos, duas mulheres do público adentraram o palco e foram fazer
sexo num dos sofás, enquanto um sujeito se dirigiu à cama e lá ficou, olhando e se
masturbando. Ninguém merece. Linda e Marie saíram lamentando não terem
dormido mais uma hora; entediadas, pensavam: o que é que ainda pode nos
chocar hoje em dia?
E foram para o Maria am Ostbahnhof, um dos clubes mais badalados da
cidade, não só por suas festas de música eletrônica, aonde vão tocar os melhores
DJS do mundo, mas também por seus shows e festivais. Marie contou que meses
antes os paulistanos da Cansei de Ser Sexy, badaladíssimos em Berlim e
conhecidos como CSS, se apresentaram no Maria.
O Maria é enorme, devem caber umas mil pessoas lá dentro, e tem também o
Josef — a pista adjacente à principal. Maria e Josef... só faltava Jesus. Marie
contou que, no dia em que ela viu a css, a casa estava lotada de jovens de no
máximo trinta anos, todos no melhor estilo moda — ou antimoda. Marie sabia
que a css fazia sucesso na Europa, mas não sabia quanto. De repente, ela ouviu o
Olodum saindo das caixas de som. Não acreditou. Era muuuuuuita ironia, porque,
afinal, a css é uma banda de electro-rock vinda da Pauliceia Desvairada; como
assim, gostando do Olodum? Vai ver, quiseram dizer que o Brasil é
definitivamente muito maior que axé music ou samba, estilos que os gringos
identificam como os “típicos brasileiros”.
No momento em que a banda entrou no palco, foi uma euforia geral, parecia


show dos Beatles. A moçada pulava e cantava junto todas as letras, todas.
Impressionante. Quando Lovefoxxx, a vocalista, disse que jogaria um grampo de
cabelo para a plateia, as pessoas simplesmente se descabelaram para consegui-
lo. Os meninos estão realmente brincando de pop stars. A história do grampo —
um grampo disputado? — foi de rolar de rir, porque o público levou a sério. Sério!
E, se umas bandas estrangeiras mixurucas podem fazer sucesso em São Paulo,
por que uma banda antenada brasileira como a css não pode lotar um megaclube
europeu? Pode. Quem pode, pode.
Do Maria, a dupla foi ao Bar 25, ao lado do rio Spree. O 25 é queridíssimo pelos
berlinenses e pelos turistas antenados. A música é sempre boa, mas o principal é
o visual. É um bar-praia, com areia e tudo. Bares-praia estão muito na moda no
verão de Berlim, e esse é cheio de atrações; um pequeno parque de diversões
para adultos. Tem cinema ao ar livre, lounge psicodélico, cavalinho de shopping
center, máquina automática de fotos, balanços nas árvores, e um restaurante
excelente, que pena que eu não conheci. Entrada baratinha — seis euros —, não é
à toa que as filas são homéricas.
As meninas entraram na fila do 25, mas a impressão era de que ela não se
mexia. Os rapazes que estavam na frente disseram que fazia uma hora e meia
que não andavam nem um centímetro, ah, não. Tudo bem que aquele era o
último verão do 25, mas fila, nem pensar.
E lá foram elas para o Watergate, onde estão a badalação e o “biutiful pipol”
berlinense. A essa altura já estavam mortas, mas queriam porque queriam
dançar, e pronto. O Watergate também se localiza à beira do Spree, e o visual é
lindo, deslumbrante. A pista principal do clube fica acima das águas, os janelões
vão de alto a baixo, e a pista inferior dá direto para a correnteza do rio. A
iluminação é primorosa, as luzes cobrem o teto em ondas paralelas e se movem
no ritmo das batidas da música eletrônica. Um escândalo, de tão maravilhoso.
Mais uma vez a fila, a eterna fila. O Watergate também é famoso por causa de
suas filas. Mesmo quando o clube está vazio e não há motivo para que a fila não
ande, eles dão uma de gostosos e te fazem esperar por charme, porque
aparentemente é chique. Decididas a entrar, elas esperaram, esperaram,
passaram pela revista de costume e foram paradas — ou melhor, barradas —
pelo door-man, que simplesmente olhou para a cara delas e disse que ali elas não
entrariam.
Como assim, não entrariam? Sujeitinho mais ordinário, o door-man magrela,
óculos de John Lennon, malvestido, mal-amado, se achando o deusinho da
“naite”? Nunca, jamais Marie tinha sido barrada na porta de nenhum clube, e


agora ia ser barrada por aquele tipinho na porta de um clube que ela, aliás, já
conhecia? Ela perguntou por quê, e ele disse que não faziam o perfil do local.
Hein? Aí Marie resolveu dar uma olhada nas pessoas atrás.
É, Berlim mudou mesmo, e foi invadida pelos filhinhos de papai do sul da
Alemanha. Era um show de moda careta, rapazes de camisa polo e calças bem
passadas, meninas maquiadérrimas, afetadas e brilhosas. Nossa, foi aí que ela se
deu conta de que estava tentando entrar na versão berlinense das discotecas dos
riquinhos paulistanos e cariocas. OK, agora era Marie que fazia questão de ser
barrada. E ela disse a Linda: “Vamos ao Club der Visionäre. Lá não tem fila, nem
se paga entrada”.
O Visionäre é um bar-clube que também fica à beira d’água; parece um bar
flutuante, e uma parte é mesmo. Todo em madeira, abre à tarde e não tem hora
para fechar. De dia os salgueiros fazem sombra, e à noite o lugar é iluminado por
tochas. Os frequentadores são definitivamente internacionais: ouve-se tudo que é
língua, se duvidar até aramaico, menos alemão. O público parece que faz um
concurso não dito para ver quem é mais cool, mais diferentão, quem usa os
adereços mais exóticos. E tem quem use óculos de vovó sem lente, vê se pode.
O clube estava lotado — aliás, que clube não estava lotado naquela noite? A
dupla entrou direto, a música estava baixinha, e na pista de dança não cabia nem
uma mosca.
O cansaço e um certo tédio estavam chegando nas meninas, naquela babel
inacreditável, quando aconteceu o que todo mundo sempre teme no Visionäre:
alguém se desequilibrou e caiu — ui! — naquela água sujinha; e o coitado nem
sabia nadar! Cai um para salvá-lo mas não consegue. Cai outro, também nada. O
pânico se alastra, e aí foi um mergulho em massa, uns querendo salvar os outros;
tanto estilo, tantas caras e bocas, tantos óculos da vovó foram parar naquelas
águas. Foi tragicômico, talvez mais cômico do que trágico, pois, afinal, o caso
acabou sem mortos nem feridos. Quando o primeiro afogado chegou em terra
firme, teve até torcida gritando. Deram-lhe logo uma vodca dupla, e dali a cinco
minutos ele estava na pista, a mil. O DJ botou o volume no máximo para
comemorar, e vivam os heróis da noite berlinense.
Depois dessa maratona disco-to-disco, Linda e Marie também estavam se
sentindo duas heroínas, e foram comemorar tomando uma vodca no bar do hotel;
era a hora da despedida, não se veriam mais. Abraçaram-se com lágrimas nos
olhos e juras de amor eterno, Linda jurando que ia voltar, Marie jurando que ia
procurá-la no lugar onde ela estivesse, e que os e-mails seriam diários.


Eram quatro e meia da madrugada de domingo.


AUF WIE DE RS E HE N
Bem, era nossa última noite, e Linda, que se encarregou de marcar as passagens,
deu a trágica notícia: o avião sairia às 7h05 da manhã, o que significava que
teríamos que acordar às quatro e meia — ninguém merece. Quando eu quis
saber por que tão cedo, ela respondeu que era para aproveitar o dia em Paris.
Claro: como é que eu não tinha pensado nisso antes?
Às quatro horas Linda já estava de banho tomado, vestida, e me apressando. No
táxi para o aeroporto ela foi cantarolando, e no avião fez questão de ir na
janelinha, para não perder nada da viagem — e não dormiu nem um minuto.
Quando anunciaram a aterrissagem no Charles de Gaulle, ela já estava maquiada
e com a cara mais feliz do mundo.
Íamos passar dois dias em Paris, e eu também estava radiante. E desde quando
chegar a Paris não é a melhor coisa que existe? Fomos para o nosso hotel, o de
sempre, em Saint-Germain, onde ficaríamos em quartos separados. Ótimo,
porque Linda, apesar de adorável, às vezes fala demais. Combinamos nos
encontrar dali a uma hora no Chez Paul para tomar um chocolate com creme e
comer todos os croissants que desse vontade. No primeiro dia é sempre assim:
liberdade gastronômica total.
Quando comecei a falar sobre Berlim, escrevi que essa é uma cidade para
morar, não para visitar. Mas, à medida que fui lembrando, no avião, mudei de
ideia, tanto que pretendo voltar assim que puder, para ver as coisas que não vi. O
busto da bela rainha Nefertiti, por exemplo; tem sentido eu não tê-la visto porque a
reconstrução do Neues Museum ainda não tinha terminado? Na minha volta, vou
unir o útil ao agradável: vou ver tudo o que faltou ver desta vez, e ao mesmo tempo
não vou comer nada, só beber água, o que, aliás, não será sacrifício algum.
Quando Linda soube, foi logo dizendo: “Mas eu só vou se Marie estiver lá; senão,
te espero em Paris, tá?”.


LON DRE S
UM  P OUQUIN HO DE  P ARIS
Estava tudo combinado: dois dias em Paris e depois Londres, pelo Eurostar. E
uma informação sobre esse trem: ele sai de Paris, da Gare du Nord, de onde
saem também dezenas de trens para diversos destinos na França, já viu a
confusão. E chegava a Londres em Waterloo, outra grande confusão, pelos
mesmos motivos. Pois os ingleses construíram uma nova estação, St. Pancras,
para atender ao Eurostar. Além da calma e do conforto total, isso encurtou a
viagem em vinte minutos, tem melhor?
Nós duas estávamos excitadíssimas por todas as razões, e, quando nos
encontramos para tomar nosso chocolate com bastante creme, comer nossos
vinte e cinco croissants e combinar nossa programação, Linda disse que precisava
falar comigo seriamente e pediu que não a repreendesse. Fiz todas as juras,
claro, e ela começou a contar, bem aos pouquinhos.
Eu lembrava que ela havia estado em Paris uns oito meses antes? Não
lembrava muito bem, mas disse que sim. Pois nessa viagem ela foi à Hermès para
encomendar uma bolsa Birkin cor de laranja mas não conseguiu, já que um
vendedor antipático informou que isso só poderia ser feito se Linda fosse
recomendada por uma cliente da loja. Ela quase se desesperou, porém, quando
quer uma coisa, é como criança: quer porque quer, porque quer. Pensou, ligou
para um amigo francês bem relacionado, esse amigo disse que tinha uma amiga
que era amiga de uma moça que trabalhava na Hermès, e a bolsa foi finalmente
encomendada. Preço: 5640 euros.
Aquilo me irritou demais, esqueci todas as minhas juras de não repreendê-la e
fui logo dizendo: “Linda, você é louca; não tem dinheiro para essas
extravagâncias, e, mesmo que tivesse, ter uma Birkin nos dias de hoje não pode
ser mais brega; ligue para sua amiga e pergunte se não dá para cancelar a
encomenda, qualquer coisa, mas nem pensar em pagar esse preço por uma bolsa
que está ficando tão banal quanto uma Vuitton”. Linda fez cara de coitada e disse
que tinha entrado numa fila — francamente! — para comprar a bolsa, que a tal
amiga que trabalhava na Hermès tinha conseguido que ela furasse a fila, que
agora a bolsa estava pronta (daí os telefonemas misteriosos de Berlim), que era
seu sonho de consumo, que sem ela não poderia viver, e que iria buscá-la naquele
dia mesmo.


Fiz tudo, tudo o que pude, para Linda desistir, mas não houve hipótese; assim,
fomos direto para a loja do Faubourg Saint-Honoré. A bolsa realmente era linda,
apesar de um pouco pesada; cor de casca de tangerina bem madura, continha
um cartãozinho dizendo que aquela cor não tolerava nenhum líquido, por isso
vinham junto duas capas de plástico transparentes, exatamente no tamanho e na
forma da bolsa, para o caso de alguma gota de chuva cair sobre a preciosidade.
Em matéria de frescura, nunca vi maior. Linda puxou do cartão de crédito e
assinou com a cara mais feliz deste mundo. Era muito dinheiro, mas dizem que
mais vale um gosto do que seis vinténs; só que não eram seis vinténs, eram 5640
euros!
Bem, já estava feito; é claro que Linda saiu da loja com a Birkin no braço, e,
como declarou que não ia mais comer porque tinha estourado suas finanças,
achei que devia convidá-la para almoçar num lugar digno da bolsa. Fomos ao
Benoit, um dos melhores bistrôs de Paris, e nos regalamos com umas costeletas
de carneiro inesquecíveis e, de sobremesa, framboesas com creme. Para
completar, a moça da mesa ao lado estava com uma bolsa igual à de Linda, só
que de um azul um pouco desbotado. Linda não deixou barato: botou a dela num
lugar em que pudesse ser vista o tempo todo, e a moça não parou de olhar — e
dava para perceber que o almoço tinha perdido a graça para ela.
Saímos dali e fomos comprar a encomenda de uma amiga querida: um
passarinho empalhado, na Deyrolle, no 46, Rue du Bac. Quem quiser pode
também comprar uma girafa ou um urso, pois na loja tem, e foi lá que ouvi uma
história estranhíssima: que existe uma borboleta que só aparece três ou quatro
dias antes de acontecer uma grande desgraça no mundo: a morte de um papa, ou
uma guerra, por exemplo. Em seguida ela some de novo, e tem até nome:
Isabela.
Linda não largava a bolsa nem um minuto, e acho que até dormia com ela.
Foram dois dias da mais feliz lua de mel de que se tem notícia, e do que ela mais
gostava era quando passava uma mulher e olhava para a bolsa. Não pelo modelo,
que é um clássico há anos, mas pela ousadia da cor. Passeamos, comemos
croque-monsieur no Flore, gigô frio com salada e vinho rosé na Lipp, tivemos o
prazer de ver, no menu dos restaurantes, o preço anterior riscado, e o preço novo
— mais baixo, desde que o governo reduziu um imposto. Compramos (eu
comprei) umas bobagens — estava tudo em liquidação, com descontos de 50% a
70% —, enfim, não saímos do quartier, e chegou o dia de ir para Londres.
Era a primeira vez que íamos viajar no Eurostar (260 euros ida e volta, na
primeira classe), e estávamos animadíssimas. Fizemos uma viagem de sonho —
eu adoro um trem — e chegamos a Londres tipo dez da noite. Fomos direto para


o hotel, que, apesar de estar situado num local ótimo — Regent Street —, era de
quinta.
Eu não tenho nada contra hotéis modestos, mas tem que haver algum charme
nessa modéstia, o que não havia naquele hotel; me senti tão infeliz que quase
chorei. Aliás, são dois os tipos de hotel onde não me hospedo, prefiro dormir na
calçada: aparts e pousadas. Mas era hora de dormir; Linda me ofereceu uma
bolinha mágica, que foi o que me salvou, e no dia seguinte pensaríamos no
assunto.
Antes de falar sobre Londres, e para não confundir as coisas, vou terminar a
história da bolsa de Linda, que é eletrizante, e eu juro, juro que é verdadeira.
Saímos, ela achando que ia arrasar. Só que, se você sair nua em Piccadilly, as
pessoas nem te olham. Por razões que depois eu conto, andamos só nas ruas mais
elegantes, entramos nas lojas, e ninguém olhou para a bolsa — e, se olhou, foi
com um certo desprezo. Mas Linda é esperta e intuitiva, e, quando no dia
seguinte aconteceu a mesma coisa, ela sacou.
Sacou que em Londres é tudo diferente, a elegâcia é absolutamente discreta,
você pode comprar uma coisa caríssima mas ninguém percebe, só você, e que
essa história de muita grife, de as mulheres se prestarem a ficar numa fila durante
um ano para poder ter uma bolsa, é ridícula, cafona. E concluiu que ela própria,
Linda, era muito cafona; que a verdadeira sofisticação não permite que se faça
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