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Então o camarada Pillai, com uma voz agressiva, citou o presidente Mao. Em
malayalam. A expressão do rosto curiosamente parecida com a da sobrinha.
“A  Revolução  não  é  um  banquete.  A  Revolução  é  uma  insurreição,  é  um  ato
de violência em que uma classe derruba outra.”
E  assim,  uma  vez  acertado  o  contrato  para  os  rótulos  de  Vinagre  Sintético
para Cozinha, ele habilmente expulsou Chacko das fileiras dos Insurrectos para a
ala traiçoeira A Ser Derrubada.
Os  dois  sentados  lado  a  lado  nas  cadeiras  de  aço  dobráveis,  na  tarde  do  Dia
em  Que  Sophie  Mol  Chegou,  bebendo  café  e  comendo  flocos  de  banana.
Deslocando com as línguas a polpa úmida que lhes grudava no céu da boca.
O Homem Pequeno Magro e o Homem Grande Gordo. Adversários de revista
em quadrinhos numa guerra ainda por vir.
 
 
Acabou sendo uma guerra que, infelizmente para o camarada Pillai, terminaria
quase  antes  de  ter  começado.  A  vitória  lhe  foi  dada  de  presente  embrulhada  e
amarrada com fita, numa bandeja de prata. Só então, quando já era tarde demais
e  a  Paraíso  Picles  despencava  suavemente  para  o  chão  sem  nem  um  murmúrio,
nem mesmo um arremedo de resistência, foi que o camarada Pillai se deu conta
de que o que ele realmente precisava era do processo da guerra mais do que da
vitória. A guerra teria sido o cavalo em que ele trilharia, senão todo, pelo menos
parte do caminho para a Assembléia Legislativa, enquanto a vitória o deixava no
mesmo ponto em que tinha começado.
Ele quebrou os ovos, mas queimou a omelete.
Ninguém jamais soube a natureza exata do papel desempenhado pelo camarada
Pillai  nos  eventos  que  se  seguiram.  Nem  mesmo  Chacko,  que  sabia  que  eram
hipócritas  os  discursos  ardentes,  agudos,  pronunciados  pelo  camarada  Pillai,
defendendo  os  direitos  dos  intocáveis  (“Casta  é  Classe,  camaradas”)  durante  o
cerco do Partido Marxista à Paraíso Picles, nem mesmo Chacko jamais soube a
história  inteira.  Nem  se  deu  ao  trabalho  de  descobrir.  Na  época,  entorpecido
pela  perda  de  Sophie  Mol,  ele  olhava  tudo  com  uma  visão  toldada  pela  dor.
Como uma criança tocada pela tragédia, que cresce de repente e abandona seus
brinquedos,  Chacko  jogou  fora  seus  brinquedos.  O  sonho  de  ser  o  Barão  do

Picles  e  a  Guerra  do  Povo  foram  se  juntar  aos  montes  de  aeromodelos
quebrados no armário de porta de vidro. Quando a Paraíso Picles fechou, foram
vendidos  alguns  campos  de  arroz  (junto  com  as  hipotecas)  para  cobrir  os
empréstimos  bancários.  Na  época  que  Chacko  emigrou  para  o  Canadá,  a  única
renda da família vinha da plantação de seringueiras junto da Casa Ayemenem e
dos  poucos  coqueiros  da  propriedade.  Era  disso  que  Baby  Kochamma  e  Kochu
Maria viviam depois que todo mundo morreu, foi embora, ou foi Devolvido.
Para fazer justiça ao camarada Pillai, ele não planejou o curso que os eventos
tomaram.  Ele  simplesmente  deslizou  os  cinco  dedos  na  luva  que  a  História  lhe
estendeu.
Não era inteiramente culpa sua viver numa sociedade em que a morte de um
homem podia ser muito mais proveitosa do que sua vida jamais fora.
A  última  visita  de  Velutha  ao  camarada  Pillai,  depois  de  seu  confronto  com
Mammachi e Baby Kochamma, e o que se passou entre eles, ficou para sempre
em segredo. A última traição que levou Velutha a cruzar o rio, nadando contra
a corrente, no escuro e na chuva, bem a tempo de seu encontro com a História.
 
 
 
 
 
 
V
ELUTHA PARTIU
 no último ônibus de Kottayam, onde tinha levado a máquina
de enlatamento para consertar. No ponto do ônibus, encontrou outro operário da
fábrica,  que  lhe  disse,  com  um  sorriso  malicioso,  que  Mammachi  queria  falar
com  ele.  Velutha  não  fazia  idéia  do  que  tinha  acontecido  e  ignorava  por
completo a visita de seu pai, bêbado, à Casa Ayemenem. Não sabia também que
Vellya  Paapen  estava  sentado  fazia  horas  na  porta  da  cabana,  ainda  bêbado,  o
olho  de  vidro  e  o  fio  do  machado  brilhando  na  luz  do  lampião,  esperando
Velutha voltar. Nem que o paralítico Kuttapen, morto de apreensão, fazia já duas
horas falava continuamente com o pai, tentando acalmá-lo, aguçando o ouvido o
tempo  todo,  alerta  para  o  som  de  um  passo  ou  o  roçar  do  mato,  de  forma  a
poder gritar um alerta ao irmão que não sabia de nada.
Velutha não foi para casa. Foi direto para a Casa Ayemenem. Se, por um lado,
foi  pego  de  surpresa,  por  outro  lado,  sabia,  sempre  soubera,  com  um  instinto
antigo,  que  um  dia  a  História  lhe  daria  o  troco.  Durante  toda  a  explosão  de
Mammachi ele ficou contido e estranhamente composto. Uma compostura nascida
da extrema provocação. Brotada de uma lucidez que fica além da raiva.
Quando Velutha chegou, Mammachi perdeu a compostura e cuspiu cegamente
seu  veneno,  seus  insultos  crassos,  intoleráveis,  na  direção  de  um  dos  painéis  da
porta  corrediça,  até  que  Baby  Kochamma,  com  muito  tato,  virou-a  e  apontou
sua  raiva  na  direção  certa,  para  Velutha,  parado,  muito  quieto,  na  penumbra.

Mammachi  continuou  sua  tirada,  os  olhos  vazios,  o  rosto  contorcido  e  feio,  a
raiva  impulsionando-a  na  direção  de  Velutha,  até  que  estava  gritando  na  cara
dele,  e  ele  sentia  os  borrifos  de  saliva  e  o  cheiro  de  chá  velho  no  hálito  dela.
Baby Kochamma ficou perto de Mammachi. Não disse nada, mas usou as mãos
para  modular  a  fúria  de  Mammachi,  para  atiçá-la.  Um  tapinha  encorajador  nas
costas.  Um  braço  carinhoso  sobre  os  ombros.  Mammachi  não  tinha  a  menor
consciência dessa manipulação.
Exatamente onde uma senhora como ela, que usava sáris engomados passados a
ferro  e  tocava  a  Suíte  Quebra-Nozes  no  violino  de  noite,  tinha  aprendido  a
linguagem  baixa  que  Mammachi  usou  naquele  dia  era  um  mistério  para  todo
mundo que estava ouvindo (Baby Kochamma, Kochu Maria, Ammu trancada no
quarto).
“Fora!”, ela acabou gritando. “Se encontrar você na minha propriedade amanhã,
mando castrar como o cachorro pária que você é! Mando matar você!”
“Isso nós vamos ver”, Velutha disse, baixo.
Foi  tudo  o  que  disse.  E  foi  isso  que,  na  sala  do  inspetor  Thomas  Mathew,
Baby Kochamma enfatizou e bordou como ameaça de assassinato e rapto.
Mammachi cuspiu na cara de Velutha. Saliva grossa. Que se espalhou na pele
dele. Na boca, nos olhos.
Ele ficou ali. Tonto. Depois, virou-se e foi embora.
Enquanto  se  afastava  da  casa,  percebeu  que  seus  sentidos  estavam  afiados,
aguçados. Como se tudo à sua volta estivesse chapado em uma ilustração nítida.
Uma  planta  de  máquina  com  um  manual  de  instruções  que  lhe  dizia  o  que
fazer.  Sua  cabeça,  precisando  desesperadamente  se  ancorar  em  alguma  coisa,
agarrava-se a detalhes. Rotulando cada coisa que encontrava.
Portão, pensou ao atravessar o portão. Portão. Estrada. Pedras. Céu. Chuva.
Portão.
Estrada.
Pedras.
Céu.
Chuva.
A chuva estava morna em sua pele. A laterita irregular debaixo de seus pés. Ele
sabia aonde estava indo. Atento a tudo. A cada folha. Cada árvore. Cada nuvem
no céu sem estrelas. Cada passo que dava.
 
Koo-koo kookum theevandi
Kooki paadum theevandi
Rapakal odum theevandi
Thalannu nilkum theevandi
 
Essa era a primeira lição que tinha aprendido na escola. Um poema sobre um
trem.

Começou a contar. Alguma coisa. Qualquer coisa. Um dois três quatro cinco seis
sete oito nove dez onze doze treze catorze quinze dezesseis dezessete dezoito dezenove vinte
vinte e um vinte e dois vinte e três vinte e quatro vinte e cinco vinte e seis vinte e sete
vinte e oito vinte e nove...
A  planta  da  máquina  começou  a  ficar  borrada.  As  linhas  nítidas  foram  se
esfumaçando.  As  instruções  não  faziam  mais  sentido.  A  estrada  subiu  ao  seu
encontro  e  a  escuridão  ficou  mais  densa.  Grossa.  Seguir  em  frente  virou  um
esforço. Como nadar debaixo da água.
Está acontecendo, uma voz o informou. Começou.
Sua mente, de repente incrivelmente velha, flutuou para fora do corpo e pairou
muito acima dele, no ar, de onde pronunciava avisos inúteis.
Olhou  para  baixo  e  viu  o  corpo  de  um  jovem  caminhando  no  escuro  e  na
chuva  pesada.  Mais  do  que  qualquer  outra  coisa,  aquele  corpo  queria  dormir.
Dormir e acordar em outro mundo. Com o cheiro do corpo dela no ar que respirava.
O corpo dela no dele. Talvez nunca mais a visse. Onde ela estava? O que tinham feito
com ela? Teria sido ferida por eles?
Ele continuou andando. O rosto nem virado para a chuva, nem inclinado por
causa da chuva. Nem a recebia, nem se defendia da chuva.
Embora  a  chuva  tivesse  limpado  a  saliva  de  Mammachi  do  rosto  dele,  não
tinha  eliminado  a  sensação  de  que  alguém  levantara  a  sua  cabeça  e  vomitara
dentro  do  seu  corpo.  Vômito  empelotado  escorrendo  por  dentro  dele.  Por  seu
coração.  Pelos  pulmões.  O  líquido  grosso  caindo  lento  da  boca  do  estômago.
Todos os seus órgãos cobertos de vômito. A chuva nada podia contra aquilo.
Ele sabia o que tinha de fazer. O manual de instruções o instruíra. Tinha de
chegar ao camarada Pillai. Não sabia mais por quê. Seus pés o levaram à Gráfica
Fortuna,  que  estava  fechada,  e  depois,  através  do  jardinzinho,  para  a  casa  do
camarada Pillai.
O mero esforço de levantar o braço para bater na porta o exauriu.
 
 
O  camarada  Pillai  tinha  acabado  o  seu  avial  e  estava  esmagando  uma  banana
madura,  deixando  a  pasta  escorrer  de  seu  punho  fechado  para  o  prato  de
coalhada,  quando  Velutha  bateu  na  porta.  Ele  mandou  a  mulher  atender.  Ela
voltou  emburrada  e,  o  camarada  Pillai  pensou,  repentinamente  sexy.  Sentiu
vontade  de  tocar  os  seios  dela  imediatamente.  Mas  estava  com  a  mão  suja  de
coalhada  e  havia  alguém  na  porta.  Kalyati  sentou-se  na  cama  e,  abstraída,
acariciou Lenin que dormia ao lado da avó minúscula, chupando o polegar.
“Quem é?”
“Aquele paravan filho de Paapen. Disse que é urgente.”
O camarada Pillai terminou sua coalhada sem pressa. Sacudiu os dedos sobre o
prato. Kalyani trouxe água num recipiente de aço inoxidável e despejou para ele.
Os  restos  de  comida  em  seu  prato  (chile  seco  vermelho  e  rígidos  pedaços  de

pernas de galinha chupados e cuspidos fora) flutuaram. Ela lhe trouxe uma toalha
de mão. Ele enxugou as mãos, arrotou seu prazer e foi até a porta.
“Enda? A esta hora da noite?”
Ao responder, Velutha sentiu a própria voz atingi-lo de volta como se tivesse
batido numa parede. Tentou explicar o que tinha acontecido, mas podia ouvir-se
deslizando para a incoerência. O homem com quem falava estava longe, pequeno,
por trás de uma parede de vidro.
“É  uma  aldeia  pequena”,  o  camarada  Pillai  estava  dizendo.  “As  pessoas  falam.
Eu escuto o que dizem. Não que eu não soubesse o que estava acontecendo.”
Mais  uma  vez  Velutha  ouviu  a  si  mesmo  dizendo  alguma  coisa  que  não  fez
nenhuma  diferença  para  o  homem  com  quem  falava.  Sua  voz  se  enleava  nele
próprio como uma cobra.
“Talvez”,  disse  o  camarada  Pillai.  “Mas,  camarada,  você  devia  saber  que  o
Partido não foi constituído para dar apoio à indisciplina de trabalhadores em sua
vida pessoal.”
Velutha  viu  o  corpo  do  camarada  Pillai  desaparecer  da  porta.  Sua  voz
flauteada,  sem  corpo,  continuava  dizendo  slogans.  Faixas  flutuando  numa  porta
vazia.
Não é do interesse do Partido assumir questões desse tipo.
O interesse individual é subordinado ao interesse da organização.
Violar a Disciplina do Partido é a mesma coisa que violar a Unidade do Partido.
A voz continuava. Parágrafos se desagregando em frases. Em palavras.
Progresso da Revolução.
Aniquilação da Classe Inimiga.
Agente Capitalista.
Tempestade de verão.
E ali estava de novo: mais uma religião que se voltava contra si mesma. Mais
um edifício construído pela mente humana, dizimado pela natureza humana.
 
 
O  camarada  Pillai  fechou  a  porta  e  voltou  para  a  mulher  e  para  o  jantar.
Resolveu comer mais uma banana.
“O que ele queria?”, a mulher perguntou, dando a ele a banana.
“Descobriram tudo. Alguém deve ter contado. Mandaram ele embora.”
“Só isso? Ele tem sorte de não ter sido dependurado da primeira árvore.”
“Eu notei uma coisa esquisita...”, disse o camarada Pillai descascando a banana.
“O sujeito estava com as unhas pintadas de vermelho...”
 
 
De  pé,  na  chuva,  na  luz  fria  e  molhada  do  poste  único,  Velu-tha  foi
subitamente  dominado  pelo  sono.  Teve  de  fazer  força  para  manter  os  olhos
abertos.

Amanhã, disse a si mesmo. Amanhã, quando a chuva parar.
Seus pés o levaram para o rio. Como se fossem a guia e ele o cachorro.
A História levando o cachorro a passear.

15.
 A TRAVESSIA
 
 
 
 
 
P
ASSAVA  DA  MEIA-NOITE.
  O  rio  tinha  subido,  as  águas  rápidas  e  negras,
serpenteando para o mar, levando com elas o céu noturno e nublado, a fronde
de uma palmeira inteira, parte de uma cerca de palha e outros presentes que o
vento tinha lhe dado.
Rapidamente a chuva diminuiu até virar uma garoa, e parou. O vento sacudia
a água das árvores e durante algum tempo só choveu debaixo das árvores, onde
antes era abrigo.
Um  luar  fraco,  aquoso,  filtrou-se  das  nuvens  e  revelou  um  jovem  sentado  no
primeiro  dos  treze  degraus  que  levavam  para  a  água.  Ele  estava  muito  quieto,
muito molhado. Muito jovem. Logo depois, se pôs de pé, despiu o mundu branco
que estava usando, torceu o pano para tirar a água e enrolou-o na cabeça, como
um turbante. Nu, desceu os treze degraus de pedra até a água e continuou até
onde o rio batia no peito. Depois, começou a nadar com braçadas fáceis, fortes,
indo  na  direção  onde  a  corrente  era  rápida  e  direta,  onde  começava  o  Fundo
Mesmo.  O  rio  enluarado  pendia  de  seus  braços  como  mangas  de  prata.  Levou
alguns  minutos  para  fazer  a  travessia.  Quando  chegou  ao  outro  lado,  emergiu,
reluzente,  e  subiu  para  a  margem,  negro  como  a  noite  que  o  cercava,  negro
como a água que tinha atravessado.
Entrou na trilha que atravessava o pântano na direção da Casa da História.
Ele não deixava ondulações na água.
Nem pegadas na praia.
Levava  o  mundu  estendido  acima  da  cabeça  para  secar.  O  vento  o  enfunava
como  uma  vela  de  navio.  Ele  estava  subitamente  alegre.  As  coisas  vão  piorar,
pensou  consigo  mesmo.  Depois  melhorar.  Estava  andando  depressa  agora,  na
direção do Coração das Trevas. Sozinho como um lobo.
O Deus da Perda.
O Deus das Pequenas Coisas.
Nu, a não ser pelo esmalte das unhas.

16.
 POUCAS HORAS DEPOIS
 
 
 
 
 
T
RÊS CRIANÇAS NA MARGEM
 do rio. Dois gêmeos e uma outra, cujo avental de
veludo cotelê cor de malva dizia Férias! Em letras alegres, inclinadas.
As folhas molhadas das árvores faiscavam como metal batido. Densas touceiras
de bambu amarelo pendiam para o rio, como se lamentassem antecipadamente o
que ia acontecer. O próprio rio estava escuro e quieto. Uma ausência mais que
uma presença, sem trair o quanto estava cheio e forte.
Estha  e  Rahel  arrastaram  o  barco  do  meio  dos  arbustos  onde  costumavam
escondê-lo.  Os  remos  que  Velutha  fizera  estavam  escondidos  no  oco  de  uma
árvore.  Eles  colocaram  o  barco  na  água  e  seguraram  para  Sophie  Mol  poder
subir  a  bordo.  Pareciam  confiar  na  escuridão  e  subiam  e  desciam  os  degraus
reluzentes com a segurança de cabritos.
Sophie Mol era mais insegura. Um pouco assustada com o que podia haver nas
sombras  à  sua  volta.  Trazia  uma  bolsa  de  pano  cruzada  no  peito,  cheia  de
comida surrupiada da geladeira. Pão, bolo, biscoitos. Os gêmeos, sobrecarregados
pelas palavras da mãe, Se não fosse por causa de vocês, eu estaria livre! Eu devia ter
enfiado  vocês  num  orfanato  no  dia  que  nasceram!  Vocês  são  como  pedras  amarradas  no
meu  pescoço!,  não  levavam  nada.  Graças  ao  que  o  Homem  do  Refrescodelaranja
Refrescodelimão  tinha  feito  com  Estha,  sua  Casa  Longe  de  Casa  já  estava
equipada.  Nas  duas  semanas  que  se  passaram  desde  que  Estha  havia  remado  a
geléia  e  pensado  Dois  Pensamentos,  tinham  surrupiado  Provisões  Essenciais:
fósforos,  batatas,  uma  panela  amassada,  um  ganso  inflável,  meias  com  dedos
multicoloridos,  canetas  esferográficas  com  ônibus  londrinos  e  o  coala  da  Qantas
com olhos de botão soltos.
“E se Ammu encontrar a gente e implorar para a gente voltar?”
“A gente volta. Mas só se ela implorar.”
Estha, o Misericordioso.
Sophie  Mol  tinha  convencido  os  gêmeos  de  que  era  essencial  que  ela  fosse
também. Que a ausência de crianças, de todas as crianças, intensificaria o remorso
dos  adultos.  Ia  deixá-los  realmente  arrependidos,  como  os  adultos  de  Hamelin
quando o flautista levou embora todos os seus filhos. Eles iam procurar por toda
parte e só quando estivessem convencidos de que todos estavam mortos é que os
três voltariam para casa em triunfo. Valorizados, amados e mais indispensáveis do
que nunca. O argumento definitivo que ela usou foi que, se a deixassem em casa,
ela podia ser torturada e forçada a revelar o esconderijo deles.
Estha  esperou  Rahel  subir,  depois  tomou  seu  lugar,  montando  no  barquinho
como se fosse uma gangorra. Ele usou a perna para empurrar o barco para longe

da  margem.  Quando  chegaram  em  águas  profundas,  começaram  a  remar  rio
acima em diagonal, contra a corrente, do jeito que Velutha tinha ensinado. (“Se
quer chegar ali, tem de mirar lá.”)
No escuro, não conseguiam ver que estavam indo na pista errada, numa estrada
silenciosa  cheia  de  tráfego  abafado.  Que  galhos,  troncos,  partes  de  árvores,
estavam correndo na direção deles com certa velocidade.
Tinham passado pelo Fundo Mesmo, estavam a apenas alguns metros do Outro
Lado,  quando  colidiram  com  um  tronco  flutuante  e  o  barquinho  virou.  Isso  já
havia  acontecido  com  eles  várias  vezes  em  expedições  anteriores  ao  rio,  e  eles
então nadavam atrás do barco, que usavam como bóia, nadando de cachorrinho
até a margem. Dessa vez, não podiam ver o barco no escuro. Ele foi arrebatado
pela corrente. Nadaram para a margem, surpresos com o esforço necessário para
cobrir distância tão curta.
Estha  conseguiu  agarrar  um  ramo  baixo  que  fazia  um  arco  para  dentro  da
água. Ele olhou rio abaixo, no escuro, para ver se conseguia enxergar o barco.
“Não estou vendo nada. Foi embora.”
Rahel,  coberta  de  lama,  arrastou-se  margem  acima  e  estendeu  a  mão  para
ajudar  Estha  a  sair  da  água.  Levaram  alguns  minutos  para  recobrar  o  fôlego  e
registrar a perda do barco. Para lamentar a sua morte.
“E  a  nossa  comida  toda  estragou”,  Rahel  disse  para  Sophie  Mol,  e  só
encontrou o silêncio. Um silêncio corredio, fluido, de peixe nadando.
“Sophie Mol?”, ela sussurrou para o rio que corria. “Estamos aqui! Aqui! Perto
da árvore de Illimba!”
Nada.
No coração de Rahel, a mariposa de Pappachi desdobrou as asas sombrias.
Abriu.
Fechou.
E mexeu as pernas.
Para cima.
Para baixo.
Eles  correram  ao  longo  da  margem  chamando  por  ela.  Mas  ela  havia  ido
embora. Levada pela estrada abafada. Cinza-esver-deada. Com peixes dentro dela.
Com o céu e árvores dentro dela. E, de noite, uma lua amarela quebrada dentro
dela.
Não houve música de tempestade. Nenhum redemoinho surgiu das profundezas
tintas do Meenachal. Nenhum tubarão supervisionou a tragédia.
Apenas uma calada cerimônia de entrega. Um barco derramando sua carga. Um
rio  aceitando  a  oferenda.  Uma  pequena  vida.  Um  breve  raio  de  sol.  Com  um
dedal de prata apertado na mãozinha, como um talismã.
Eram quatro da manhã, ainda escuro, quando os gêmeos, exaustos, perturbados
e  cobertos  de  lama,  atravessaram  o  pântano  e  foram  para  a  Casa  da  História.
Hansel  e  Gretel  num  horrendo  conto  de  fadas  em  que  seus  sonhos  seriam

capturados  e  ressonhados.  Deitaram-se  na  varanda  dos  fundos,  num  colchão  de
crina  com  um  ganso  inflável  e  um  coala  da  Qantas.  Dois  anões  molhados,
entorpecidos de medo, esperando o mundo acabar.
“Acha que ela já está morta?”
Estha não respondeu.
“O que é que vai acontecer?”
“Nós vamos para a cadeia.”
Ele Sabia Muito Bem. O Homem Pequeno. Ele morava numa cara-van. Dum
dum.
 
 
Eles não viram que havia alguém mais dormindo nas sombras. Solitário como
um lobo. Com uma folha marrom nas costas negras. Que fazia as monções virem
na data certa.

17.
 A ESTAÇÃO DE TRENS DE COCHIN
 
 
 
 
 
E
M SEU QUARTO LIMPO
 na suja Casa Ayemenem, Estha (nem velho, nem moço)
estava  sentado  na  cama  no  escuro.  Muito  ereto.  Os  ombros  retos.  As  mãos  no
colo. Como se fosse o próximo da fila em algum tipo de inspeção. Ou esperando
para ser preso.
Tinha acabado de passar a ferro. As roupas estavam numa pilha bem arrumada
em cima da tábua de passar. Tinha passado as de Rahel também.
Chovia  uma  chuva  uniforme.  Chuva  noturna.  O  baterista  solitário  praticando
seu repique muito depois de o resto da banda ter ido dormir.
No  mittam  lateral,  junto  da  entrada  independente  das  “Necessidades
Masculinas”,  o  rabo-de-peixe  cromado  do  Plymouth  cintilou  momentaneamente
num  relâmpago.  Durante  anos,  depois  de  Chacko  ter  mudado  para  o  Canadá,
Baby Kochamma mandara lavar o carro regularmente. Duas vezes por semana, o
cunhado de Kochu Maria, que dirigia o caminhão de lixo amarelo da prefeitura
de  Kottayam,  vinha  para  Ayemenem  (escoltado  pelo  fedor  dos  refugos  de
Kottayam,  que  permaneciam  muito  tempo  depois  de  ele  ter  ido  embora),  para

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