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entrar  na  épica  batalha  com  seus  cem  primos.  Era  a  eles  que  Kunti  queria
proteger  revelando  a  Karna  que  era  sua  mãe.  Tinha  de  arrancar  dele  uma
promessa.
Ela invocou as Leis do Amor.
São seus irmãos. Sua própria carne e sangue. Prometa que não vai guerrear contra eles.
Prometa.
Karna, o Guerreiro, não podia fazer aquela promessa, porque, se fizesse, estaria
desrespeitando  uma  outra.  Amanhã  ele  iria  guerrear,  e  seus  inimigos  seriam  os
Pandavas. Eles, Arjuna principalmente, que o ultrajaram em público por ser filho
de  um  humilde  cocheiro.  Foi  Duryodhana,  o  mais  velho  dos  cem  irmãos
Kaurava,  quem  veio  em  seu  socorro,  dando-lhe  um  reino  próprio.  Em  troca,
Karna havia jurado eterna vassalagem a Duryodhana.
Mas  Karna,  o  Generoso,  não  podia  recusar  o  que  sua  mãe  lhe  pedia.  Então,
modificou  a  promessa.  Ambiguamente.  Fez  um  pequeno  ajuste,  um  juramento
levemente alterado.
Isto eu prometo, Karna disse a Kunti. Você terá sempre cinco filhos. Yudhishtira eu

não ferirei. Bhima não morrerá por minha mão. Os gêmeos, Nakula e Sahadeva, nada
sofrerão de mim. Mas Arjuna, quanto a ele nada prometo. Será morto por mim, ou eu
por ele. Um de nós morrerá.
 
 
Algo alterou-se no ar. E Rahel sabia que Estha tinha chegado.
Ela  não  virou  a  cabeça,  mas  um  fulgor  espalhou-se  dentro  dela.  Ele  veio,
pensou. Ele está aqui. Comigo.
Estha  ficou  encostado  num  pilar  distante  e  os  dois  assistiram  assim  à
representação,  separados  pela  largura  do  kuthambalam,  mas  ligados  por  uma
história. E pela lembrança de outra mãe.
O ar ficou mais quente. Menos úmido.
* * *
 
Talvez  aquela  noite  tenha  sido  particularmente  ruim  no  Coração  das  Trevas.
Em  Ayemenem,  os  homens  dançavam  como  se  não  pudessem  parar.  Como
crianças numa casa quente abrigadas da tempestade. Recusando-se a sair e admitir
o  mau  tempo.  O  vento  e  o  trovão.  Os  ratos  correndo  na  paisagem  arruinada
com cifrões de dólares nos olhos. O mundo ruindo em torno deles.
Saíam de uma história para mergulhar fundo em outra. De Karna Shabadam, O
juramento  de  Karna,  para  Duryodhana  Vadham,  A  morte  de  Duryodhana  e  seu
irmão Dushasana.
Eram quase quatro da manhã quando Bhima saiu à caça do vil Dushasana. O
homem  que  tinha  tentado  despir  em  público  a  mulher  do  pandava,  Draupadi,
quando  os  Kauravas  a  ganharam  num  jogo  de  dados.  Draupadi  (estranhamente,
zangada apenas com os homens que a ganharam e não com os que a apostaram)
tinha  jurado  nunca  mais  prender  os  cabelos  enquanto  não  fossem  lavados  no
sangue de Dushasana. Bhima tinha jurado vingar sua honra.
Bhima encurralou Dushasana num campo de batalha já pontilhado de cadáveres.
Durante  uma  hora  os  dois  lutaram.  Trocaram  insultos.  Desfiaram  todas  as
ofensas  que  um  tinha  feito  ao  outro.  Quando  a  luz  do  lampião  de  latão
começou  a  tremer  e  morrer,  fizeram  uma  trégua.  Bhima  colocou  mais  óleo,
Dushasana  limpou  o  pavio  queimado.  E  voltaram  à  guerra.  A  batalha
emocionante  transbordou  os  limites  do  kuthambalam  e  foi  para  fora  do  templo.
Os  dois  se  perseguiram  pelo  conjunto  de  edifícios,  brandindo  suas  maças  de
papier mâché. Dois homens com saias bojudas e blusas de veludo careca, saltando
luas de lixo e montes de estrume, circundando a massa do elefante adormecido.
Dushasana cheio de bravata um momento. Recuando no outro. Bhima brincando
com ele. Os dois pirados.
O  céu  era  uma  abóbada  rosada.  O  buraco  cinzento  em  forma  de  elefante  no
Universo  agitou-se  no  sono  e  tornou  a  dormir.  A  aurora  estava  começando

quando  o  bruto  que  havia  dentro  de  Bhima  despertou.  Os  tambores  tocaram
mais alto, mas o ar ficou quieto e ameaçador.
Na  primeira  luz  da  manhã,  Esthappen  e  Rahel  viram  Bhima  cumprir  o  voto
feito  a  Draupadi.  Ele  abateu  Dushasana  com  sua  maça.  E  eliminou  cada  vago
tremor  do  corpo  moribundo,  batendo  até  que  se  extinguisse.  Um  ferreiro
aplainando  uma  folha  de  metal  recalcitrante.  Nivelando  sistematicamente  cada
saliência  e  reentrância.  E  continuou  matando  até  muito  depois  de  ele  estar
morto. Depois, com a mãos nuas, rasgou e abriu o corpo. Arrancou para fora as
vísceras  e  curvou-se  para  lamber  o  sangue  diretamente  da  tigela  da  carcaça
dilacerada,  os  olhos  enlouquecidos  vigiando  acima  das  bordas,  rebrilhando  de
raiva e ódio e louca satisfação. Borbulhando sangue rosa-pálido pelos dentes. Pelo
rosto  pintado,  pelo  pescoço  e  queixo.  Quando  bebeu  o  bastante,  levantou-se,
intestinos sangrentos em volta do pescoço como um cachecol, e foi à procura de
Draupadi e banhou os cabelos dela em sangue fresco. Ele ainda tinha à sua volta
a aura de ira que nem mesmo o assassinato pode aplacar.
Havia  loucura  ali  naquela  manhã.  Debaixo  da  abóbada  rosada.  Não  era  uma
representação.  Esthappen  e  Rahel  sabiam  disso.  Tinham  visto  acontecer  antes.
Numa  outra  manhã.  Num  outro  palco.  Um  outro  tipo  de  frenesi  (com
centopéias  nas  solas  de  sapatos).  A  brutal  extravagância  disto  rivalizando  com  a
selvagem economia daquilo.
Ficaram  ali  sentados,  Quietude  e  Vazio,  fósseis  bivitelinos  imobilizados,  com
galos  na  testa  que  não  tinham  virado  chifres.  Separados  pela  largura  do
kuthambalam. Presos no lodaçal da história que era e não era a deles. Que tinha
principiado  com  toda  a  semelhança  de  estrutura  e  ordem,  e  depois  disparado
para a anarquia, como um cavalo apavorado.
Kochu Thomban despertou e delicadamente abriu o seu coco matinal.
Os  Homens  do  Kathakali  removeram  a  maquiagem  e  voltaram  para  casa  para
bater em suas mulheres. Até mesmo Kunti, o suave, com seios.
* * *
 
Lá fora, em toda a volta, a pequena cidade mascarada em aldeia se sacudia e
despertava. Um velho acordou e foi mancando até o fogão para aquecer seu óleo
de coco apimentado.
O camarada Pillai. O quebrador de ovos e fazedor de omeletes de Ayemenem.
Podia  parecer  estranho,  mas  ele  é  que  tinha  apresentado  os  gêmeos  ao
kathakali.  Contrariando  Baby  Kochamma,  ele  é  que  levava  os  dois,  junto  com
Lenin, para apresentações de noite inteira no templo, e que se sentava com eles
até de manhã, explicando a linguagem e os gestos do kathakali. Com a idade de
seis  anos,  os  dois  tinham  assistido  junto  com  ele  a  essa  mesma  história.  Ele  os
apresentara  a  Raudra  Bhima,  o  enlouquecido  e  sanguinário  Bhima  em  busca  de
morte e vingança. “Ele está à procura da fera que vive dentro dele”, o camarada

Pillai dissera a eles, crianças assustadas, de olhos arregalados, quando um Bhima
normalmente bem-humorado começou a grunhir e rosnar.
Qual fera em particular, o camarada Pillai não disse. Em busca do homem que
vivia dentro dele era provavelmente o que queria dizer, porque decerto nenhuma
fera  experimentou  a  arte  sem  limites,  infinitamente  inventiva  do  ódio  humano.
Nenhuma fera pôde rivalizar sua amplitude e poder.
A  abóbada  rosada  perdeu  a  cor  e  começou  a  despejar  uma  quente  garoa
cinzenta. Quando Estha e Rahel atravessaram o portão do templo, o camarada K.
N. M. Pillai entrou, reluzente de seu banho de óleo. Tinha pasta de sândalo na
testa.  As  gotas  de  chuva  grudavam  como  contas  em  sua  pele  untada.  Nas  mãos
em concha, trazia um montinho de jasmins frescos.
“Oho!”,  ele  disse  com  a  voz  flauteada.  “Vocês  estão  aqui!  Então  continuam
interessados na sua cultura indiana? Bombom. Muito bom.”
Os gêmeos, nem rudes, nem gentis, nada disseram. Voltaram para casa juntos.
Ele e Ela. Nós.

13.
 O PESSIMISTA E O OTIMISTA
 
 
 
 
 
C
HACKO PASSARIA A DORMIR
 no escritório de Pappachi para que Sophie Mol e
Margaret  Kochamma  pudessem  ficar  em  seu  quarto.  Era  um  quarto  pequeno,
com  uma  janela  que  dava  para  a  pequena  plantação  de  seringueiras  um  tanto
negligenciada que o reverendo E. John Ipe tinha comprado de um vizinho. Uma
porta  ligando  o  escritório  com  a  casa  e  outra  (a  entrada  independente  que
Mammachi  mandara  instalar  para  que  Chacko  satisfizesse  com  discrição  suas
“Necessidades Masculinas”) levava diretamente para o mittam lateral.
Sophie  Mol  estava  dormindo  no  catrezinho  de  campanha  feito  especialmente
para ela, ao lado da cama grande. O zumbido do ventilador do teto lhe enchia a
cabeça. Olhos cinza-azulados azuis se abriram de súbito.
A Cordada.
A Tenta.
A Lerta.
O sono sumariamente dispensado.
Pela primeira vez desde a morte de Joe, não era ele a primeira coisa em que
pensava ao despertar.
Olhou  o  quarto  em  volta.  Sem  se  mexer,  só  girando  os  olhos.  Um  espião
capturado em território inimigo, planejando a escapada espetacular.
Sobre a mesa de Chacko havia um vaso de hibiscos desajeitadamente ajeitados,
já  murchando.  As  paredes  cobertas  de  livros.  Um  armário  com  portas  de  vidro
cheio  de  aeromodelos  de  madeira  balsa  danificados.  Borboletas  quebradas  com
olhos  suplicantes.  Esposas  de  madeira  de  um  rei  mau  definhando  por  causa  de
um feitiço de madeira.
Presas.
Só uma, sua mãe, Margaret, tinha escapado para a Inglaterra.
O  quarto  girava  em  torno  do  calmo  centro  cromado  do  ventilador  de  teto
prateado.  Uma  lagartixa  bege,  cor  de  biscoito  mal  assado,  olhou-a  com  olhos
interessados. Ela pensou em Joe. Alguma coisa agitou-se dentro dela. Ela fechou
os olhos.
O calmo centro cromado do ventilador de teto prateado girou dentro de sua
cabeça.
Joe  sabia  andar  sobre  as  mãos.  E  quando  descia  a  ladeira  de  bicicleta,  sabia
prender o vento dentro da camisa.
Na cama ao lado, Margaret Kochamma ainda dormia. Estava deitada de costas,
com as mãos juntas logo abaixo das costelas. Os dedos inchados e a aliança de
casamento parecendo incomodamente apertada. A pele das bochechas caía de cada

lado  do  rosto,  fazendo  os  malares  parecerem  salientes,  repuxando  a  boca  para
baixo num sorriso sem alegria que continha um mero lampejo de dentes. Havia
depilado  as  sobrancelhas,  antes  grossas,  na  forma  de  arcos  finos  como  um  risco
de lápis, atualmente em moda, que lhe davam um ar de ligeira surpresa, mesmo
no  sono.  O  resto  de  suas  expressões  estava  nascendo  outra  vez  na  forma  de
pequenas  pontas  pretas.  Tinha  o  rosto  afogueado.  A  testa  brilhava.  Debaixo  do
vermelho, havia uma palidez. Uma tristeza adiada.
O  tecido  fino  de  algodão-poliéster  de  seu  vestido  azul-marinho  com  flores
brancas  tinha  murchado  e  se  colado  aos  contornos  do  corpo,  subindo  com  os
seios, afundando ao longo da linha entre as pernas compridas, fortes, como se ele
também não estivesse acostumado ao calor e precisasse de uma soneca.
Na  mesa-de-cabeceira  havia  um  porta-retratos  de  prata  com  uma  foto  em
preto-e-branco do casamento de Chacko e Margaret Kochamma, tirada na frente
da  igreja  de  Oxford.  Estava  nevando  um  pouco.  Os  primeiros  flocos  de  neve
fresca espalhados na rua e na calçada. Chacko vestido como Nehru. Com churidar
branco  e  shervani  preta.  Tinha  os  ombros  polvilhados  de  neve.  Uma  rosa  na
botoeira, e a ponta do lenço, dobrado em triângulo, espiando para fora do bolso
do peito. Nos pés, sapatos estilo Oxford brilhantes. Ele parecia estar rindo de si
mesmo e da maneira como estava vestido. Como alguém num baile à fantasia.
Margaret Kochamma usava vestido comprido, espumoso, com uma tiara barata
no cabelo curto, crespo. Tinha o véu levantado do rosto. Era da mesma altura
dele. Os dois pareciam felizes. Magros e jovens, as testas franzidas por causa do
sol  nos  olhos.  As  sobrancelhas  grossas  e  escuras  dela  estavam  quase  juntas  e
faziam  uma  espécie  de  contraste  adorável  com  o  branco  esvoaçante  e
matrimonial. Uma nuvem carrancuda com sobrancelhas. Atrás deles, uma mulher
alta  e  matronal,  de  tornozelos  grossos  e  o  sobretudo  comprido  com  todos  os
botões fechados. A mãe de Margaret Kochamma. Com duas netas, uma de cada
lado  dela,  usando  saias  pregueadas  de  escocês,  meias  e  franjas  idênticas.  Ambas
rindo com a mão cobrindo a boca. A mãe de Margaret Kochamma olhava para
o outro lado, para fora da foto, como se preferisse não estar ali.
O pai de Margaret Kochamma se recusara a comparecer ao casamento. Ele não
gostava  de  indianos,  achava  que  eram  gente  dissimulada,  desonesta.  Não  podia
acreditar que sua filha estava se casando com um deles.
No  canto  direito  da  fotografia,  um  homem  que  passava  de  bicicleta  tinha  se
virado para olhar o casal.
 
 
Margaret  Kochamma  estava  trabalhando  como  garçonete  num  café  de  Oxford
quando conheceu Chacko. A família dela morava em Londres. O pai era dono de
uma  padaria.  A  mãe  era  assistente  de  uma  modista  de  chapéus.  Margaret
Kochamma tinha se mudado da casa dos pais um ano antes, por nenhuma outra
grande  razão  além  da  afirmação  juvenil  de  independência.  Pretendia  trabalhar  e

economizar  o  suficiente  para  fazer  um  curso  de  professora  e  depois  arrumar
emprego  numa  escola.  Em  Oxford,  ela  dividia  um  pequeno  apartamento  com
uma amiga. Outra garçonete em outro café.
Tomada  a  atitude,  Margaret  Kochamma  descobriu  que  estava  se  tornando
exatamente  o  tipo  de  garota  que  os  pais  queriam  que  fosse.  Diante  do  Mundo
Real,  ela  se  apegava  nervosamente  a  velhas  regras  memorizadas,  e  não  tinha
ninguém  além  de  si  mesma  com  quem  se  rebelar.  Portanto,  mesmo  ali  em
Oxford,  em  vez  de  ligar  o  toca-discos  um  pouco  mais  alto  do  que  lhe  era
permitido em casa, ela continuava a viver a mesma vidinha estreita de que tinha
imaginado escapar.
Até que, uma manhã, Chacko entrou no café.
Era  o  verão  de  seu  último  ano  em  Oxford.  Ele  estava  sozinho.  A  camisa
amassada  abotoada  errado.  Os  cordões  do  sapato  desamarrados.  O  cabelo,
cuidadosamente escovado e alisado na frente, se arrepiava numa auréola de pontas
duras  atrás.  Ele  parecia  um  ouriço  amarrotado,  beatificado.  Era  alto  e,  debaixo
da confusão de roupas (gravata inadequada, paletó surrado), Margaret Kochamma
podia ver que seu corpo era bem-feito. Ele tinha um ar divertido e um jeito de
apertar os olhos como se estivesse tentando ler uma placa distante e esquecido de
trazer  os  óculos.  As  orelhas  se  projetavam  de  ambos  os  lados  da  cabeça  como
alças  de  chaleira.  Havia  algo  contraditório  entre  o  corpo  atlético  e  a  aparência
desmazelada. O único sinal de que havia um gordo adormecido dentro dele eram
as bochechas brilhantes, alegres.
Ele não tinha nada daquela indefinição ou falta de jeito cheia de desculpas que
se  associa  geralmente  a  homens  desarrumados  e  distraídos.  Parecia  alegre,  como
se estivesse com um amigo imaginário cuja companhia apreciava. Sentou-se perto
da janela, com um cotovelo na mesa e o rosto na palma da mão, sorrindo para
o café vazio como se estivesse pensando entabular uma conversa com a mobília.
Pediu  café  com  aquele  mesmo  sorriso  simpático,  mas  sem  dar  sinal  de  ter
realmente  notado  a  garçonete  alta,  de  sobrancelhas  grossas,  que  anotou  seu
pedido.
Ela  reagiu  quando  ele  colocou  duas  colheres  cheias  de  açúcar  no  café  com
muito leite.
Depois, pediu ovos fritos com torrada. Mais café, e geléia de morango.
Quando ela voltou com o pedido, ele disse, como se estivesse retomando uma
conversa anterior: “Sabe aquela do homem que tinha filhos gêmeos?”.
“Não”,  disse  ela,  servindo  o  café-da-manhã.  Por  alguma  razão  (prudência
natural, talvez, e uma reticência instintiva com estrangeiros), ela não demonstrou
o intenso interesse que ele parecia esperar despertar com o Homem que Tinha
Filhos Gêmeos. Chacko pareceu não se importar.
“Um homem tinha filhos gêmeos”, disse a Margaret Kochamma. “Pete e Stuart.
Pete era um Otimista e Stuart era um Pessimista.”
Ele  catou  os  morangos  da  geléia  e  colocou-os  de  lado  no  prato.  Espalhou  o

resto da geléia numa camada grossa sobre a torrada com manteiga.
“No  dia  que  fizeram  treze  anos,  o  pai  deu  para  Stuart,  o  Pessimista,  um
relógio muito caro, um jogo de ferramentas de carpinteiro e uma bicicleta.”
Chacko  olhou  para  Margaret  Kochamma  para  ver  se  ela  estava  prestando
atenção.
“E encheu de estrume de cavalo o quarto de Pete, o Otimista.”
Chacko  pôs  os  ovos  sobre  a  torrada,  rompeu  as  gemas  moles  e  brilhantes  e
espalhou-as sobre a geléia de morango com as costas da colher de chá.
“Stuart abriu os presentes e ficou resmungando a manhã inteira. Ele não queria
um jogo de ferramentas de carpinteiro, não gostou do relógio e a bicicleta tinha
os pneus errados.”
Margaret  Kochamma  havia  parado  de  escutar  porque  estava  fascinada  com  o
curioso  ritual  que  se  desenrolava  no  prato  dele.  A  torrada  com  geléia  e  ovos
fritos  foi  cuidadosamente  cortada  em  quadradinhos.  Os  morangos  tirados  da
geléia foram convocados um a um e fatiados em delicados pedaços.
“Quando  o  pai  foi  até  o  quarto  de  Pete,  o  Otimista,  não  viu  o  filho,  mas
ouviu  o  barulho  de  alguém  trabalhando  tenazmente  com  uma  pá  e  uma
respiração ofegante. Estrume de cavalo voando para todo lado.”
Chacko tinha começado a se sacudir num riso silencioso, antecipando o fim da
piada. Com mãos risonhas, colocou um fragmento de morango em cima de cada
quadradinho  vermelho  e  amarelo  de  torrada,  fazendo  tudo  ficar  parecendo
lúgubres canapés que alguma velha serviria numa reunião de bridge.
“‘Em nome do céu, o que está fazendo?’, o pai gritou para Pete.”
Sal  e  pimenta  polvilhados  sobre  os  quadrados  de  torrada.  Chacko  fez  uma
pausa antes da chave de ouro, rindo para Margaret Kochamma que ria do prato
dele.
“Uma  voz  veio  do  fundo  do  estrume.  ‘Olhe,  pai’,  Pete  disse,  ‘se  tem  tanta
merda por aqui, deve ter um cavalo em algum lugar!’”
Segurando o garfo numa mão e a faca na outra, Chacko inclinou-se para trás
na cadeira do café vazio e riu a sua risada de gordo, alta, soluçada, contagiante,
até  as  lágrimas  rolarem  pelo  rosto.  Margaret  Kochamma,  que  tinha  perdido  a
maior parte da piada, sorriu. Depois começou a rir da risada dele. A risada de
um alimentava a risada do outro e os dois chegaram à histeria. Quando o dono
do café apareceu, viu um cliente (não particularmente desejável) e uma garçonete
(só medianamente desejável) uivando numa risada irresistível.
Enquanto  isso,  outro  cliente  (dos  regulares)  tinha  chegado  discretamente  e
esperava ser servido.
O dono limpou alguns copos já limpos, batendo um no outro ruidosamente, e
empilhou a louça no balcão com muito barulho para demonstrar sua insatisfação
com  Margaret  Kochamma.  Ela  tentou  se  controlar  antes  de  tomar  o  outro
pedido. Mas tinha lágrimas nos olhos e teve de abafar um novo ataque de riso,
que fez o homem faminto que ela atendia levantar os olhos do menu, os lábios

finos apertados em silenciosa censura.
Ela  deu  uma  olhada  para  Chacko,  que  retribuiu  e  sorriu.  Era  um  sorriso
loucamente simpático.
Ele terminou o café-da-manhã, pagou e foi embora.
Margaret  Kochamma  foi  repreendida  pelo  patrão  e  ouviu  um  sermão  sobre  a
Ética dos Cafés. Ela se desculpou. Sentia muito, de verdade, pela maneira como
havia se comportado.
Nessa  noite,  depois  do  trabalho,  ela  pensou  no  que  acontecera  e  ficou
incomodada consigo mesma. Geralmente não era frívola e não achava direito ter
tido um ataque de riso incontrolável com um estranho total. Parecia uma coisa
tão  íntima,  excessivamente  familiar  para  se  fazer.  Ficou  pensando  no  que  podia
tê-la feito rir tanto. Sabia que não era a piada.
Pensou  na  risada  de  Chacko,  e  um  sorriso  ficou  por  longo  tempo  em  seus
olhos.
 
 
Chacko começou a visitar o café com freqüência.
Vinha  sempre  com  o  companheiro  invisível  e  o  sorriso  simpático.  Mesmo
quando  não  era  Margaret  Kochamma  quem  o  servia,  ele  a  procurava  com  os
olhos, e os dois trocavam sorrisos secretos que invocavam a lembrança conjunta
do Ataque de Riso.
Margaret  Kochamma  se  descobriu  esperando  pelas  visitas  do  Ouriço
Amarrotado.  Sem  ansiedade,  mas  com  uma  espécie  de  excitação  insidiosa.  Ela
descobriu que Chacko era um Bolsista Rhodes da Índia. Que lia os Clássicos. E
que remava por Balliol.
Até o dia em que se casou com ele, ela nunca acreditou que aceitaria um dia
ser sua mulher.
Poucos  meses  depois  de  começarem  a  sair  juntos,  ele  começou  a  levá-la  às
escondidas  para  o  seu  apartamento,  onde  vivia  como  um  príncipe  desamparado
no  exílio.  A  despeito  de  todos  os  esforços  da  faxineira  zelosa,  o  quarto  estava
sempre imundo. Livros, garrafas de vinho vazias, roupa de baixo usada e tocos de
cigarro jogados pelo chão. Os armários eram perigosos de abrir porque roupas e
livros  e  sapatos  vinham  abaixo  e  alguns  livros  eram  pesados  o  bastante  para
machucar de verdade. A vidinha ordeira de Margaret Kochamma se abandonava a
essa  loucura  realmente  barroca  com  o  suspiro  calado  de  um  corpo  quente
entrando num mar gelado.
Ela  descobriu  que  por  baixo  do  aspecto  de  Ouriço  Amarrotado,  um  marxista
torturado estava em guerra com um impossível romântico incurável que esquecia
velas  acesas,  que  quebrava  copos  de  vinho,  que  perdia  o  anel.  Que  fazia  amor
com ela com uma paixão que lhe tirava o fôlego. Ela sempre tinha pensado em
si mesma como uma moça um tanto desinteressante, de cintura grossa, tornozelos
grossos. Não feia. Nem especial. Mas quando estava com Chacko, seus limites se

abriam. Os horizontes se expandiam.
Ela  nunca  tinha  encontrado  antes  um  homem  que  falasse  do  mundo,  do  que
era, de como veio a ser o que era, ou do que achava que iria acontecer com ele,

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