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lábios na barriga de Ammu e chupou, puxando a pele macia para dentro da boca
e  depois  afastando  a  cabeça  para  admirar  o  oval  brilhante  de  saliva  e  a  tênue
marca avermelhada de seus dentes na pele da mãe.
Ammu  ficou  pensando  na  transparência  daquele  beijo.  Era  um  beijo  límpido
como  vidro.  Desanuviados  de  paixão  ou  desejo,  aqueles  dois  cachorros  que
dormem tão profundamente dentro das crianças, esperando que elas cresçam. Era

um beijo que não exigia retribuição.
Não um beijo enevoado cheio de perguntas exigindo respostas. Como os beijos
de homens de um braço só nos sonhos.
Ammu  se  cansou  de  ser  manipulada  pelos  dois,  como  se  fossem  seus  donos.
Queria seu corpo de volta. Era dela. Afastou as crianças do jeito que uma cadela
afasta  os  filhotes  quando  enjoa  deles.  Sentou-se,  torceu  o  cabelo  num  nó  na
nuca.  Depois  jogou  as  pernas  para  fora  da  cama,  foi  até  a  janela  e  abriu  as
cortinas.
A luz inclinada da tarde inundou o quarto e iluminou as duas crianças sobre a
cama.
Os gêmeos ouviram a chave sendo virada no banheiro de Ammu.
Clique.
Ammu  olhou-se  no  espelho  grande  do  banheiro  e  o  espectro  de  seu  futuro
apareceu  no  reflexo  para  caçoar  dela.  Em  conserva.  Como  picles.  Grisalho.  De
olhos lacrimejantes. Rosas de ponto de cruz na bochecha murcha, afundada. Seios
gastos dependurados como meias pesadas. Secos como um osso entre suas pernas,
os  pêlos  muito  brancos.  Esparsos.  Quebradiços  como  uma  folha  de  samambaia
entre as páginas de um livro.
Pele que esfarelava e caía como neve.
Ammu estremeceu.
Sentindo na tarde quente aquela fria sensação de que a Vida tinha sido Vivida.
De  que  sua  taça  estava  cheia  de  pó.  De  que  o  ar,  o  céu,  as  árvores,  o  sol,  a
chuva, a luz e as trevas estavam todos se transformando lentamente em areia. De
que a areia ia encher suas narinas, seus pulmões, sua boca. Ia puxá-la para baixo,
deixando  na  superfície  um  redemoinho,  como  deixam  os  caranguejos  quando  se
enterram na praia.
Ammu tirou a roupa e colocou uma escova de dentes vermelha debaixo de um
seio  para  ver  se  ficava  presa.  Não  ficava.  Em  todo  lugar  que  tocava,  sua  carne
era firme e lisa. Debaixo de sua mão, os mamilos se enrugaram e endureceram
como nozes escuras, repuxando a pele macia dos seios. A fina trilha de penugem
descia  do  umbigo  para  a  base  da  barriga,  para  o  triângulo  escuro.  Como  uma
flecha  indicando  a  direção  para  um  viajante  perdido.  Para  um  amante
inexperiente.
Desmanchou o cabelo e virou para ver de que comprimento estava. As ondas e
cachos e caracóis rebeldes, macios por baixo, mais ásperos por fora, desciam até
pouco abaixo do ponto em que a cintura fina, forte, começava a formar a curva
dos quadris. O banheiro estava quente. Pequenas contas de suor pontilhavam sua
pele  como  diamantes.  Depois  partiam-se  e  escorriam.  Pela  linha  funda  de  sua
coluna  o  suor  escorria.  Ela  olhou  um  tanto  crítica  para  o  traseiro  redondo,
pesado.  Não  grande  propriamente.  Não  grande  per se  (como  Chacko  de  Oxford
diria, sem dúvida). Grande apenas porque todo o resto do corpo era tão esguio.
Pertencia a algum outro corpo, mais voluptuoso.

Tinha de admitir que cada um dos lados seguraria alegremente uma escova de
dentes. Talvez duas. Riu alto da idéia de sair andando nua por Ayemenem com
um conjunto de escovas de dentes coloridas espetado de cada face de sua bunda.
Calou-se  depressa.  Viu  um  vestígio  de  loucura  escapar  de  sua  garrafa  e  saltitar
triunfante pelo banheiro.
Ammu se preocupava com a loucura.
Mammachi tinha dito que havia um traço de loucura na família. Que aparecia
de repente nas pessoas e as pegava desprevenidas. Havia Pathil Ammai, que com
a idade de sessenta e cinco anos deu de tirar a roupa e correr nua pela margem
do  rio,  cantando  para  os  peixes.  Havia  Thampi  Chachen,  que  toda  manhã
examinava a própria merda com uma agulha de tricô em busca de um dente de
ouro  que  ele  tinha  engolido  anos  antes.  E  o  dr.  Muthachen,  que  teve  de  ser
removido do próprio casamento dentro de um saco. Será que as futuras gerações
iam  dizer:  “Havia  Ammu,  Ammu  Ipe.  Que  casou  com  um  bengalês.  Que  ficou
bem louca. Que morreu moça. Numa hospedaria barata por aí”?
Chacko dizia que a alta incidência de insanidade entre os cristãos sírios era o
preço que pagavam pelos casamentos consangüíneos. Mammachi dizia que não.
Ammu recolheu o cabelo pesado, enrolou-o no rosto e espiou a estrada para a
Velhice  e  a  Morte  através  das  mechas.  Como  um  carrasco  medieval  olhando  o
condenado  através  das  fendas  oculares  do  capuz  preto  e  pontudo.  Um  carrasco
esguio, nu, com mamilos escuros e covinhas fundas quando ria. Com sete estrias
devidas  a  seus  gêmeos  bivitelinos,  que  lhe  nasceram  à  luz  de  velas  em  meio  a
notícias de uma guerra perdida.
Não  era  o  que  havia  no  fim  da  estrada  que  assustava  Ammu,  mas  sim  a
natureza da estrada em si. Nenhum marco registrava seu avanço. Nenhuma árvore
crescia  às  suas  margens.  Nenhum  retalho  de  sombra  a  sombreava.  Nenhuma
neblina  rolava  por  ela.  Nenhum  pássaro  a  sobrevoava.  Nenhuma  curva,  nenhum
desvio  obscurecia,  nem  mesmo  momentaneamente,  a  clara  visão  do  fim  da
estrada.  Isso  encheu  Ammu  de  um  horror  terrível,  porque  não  era  o  tipo  de
mulher  que  queria  saber  o  próprio  futuro.  Ela  sentia  muito  horror  dele.
Portanto,  se  lhe  fosse  concedido  um  pequeno  desejo,  talvez  fosse  apenas  Não
Saber. Não saber o que cada dia lhe reservava. Não saber onde estaria no mês
que  vem,  no  ano  que  vem.  Daqui  a  dez  anos.  Não  saber  para  que  lado  sua
estrada viraria e o que haveria depois da curva. E Ammu sabia. Ou pensava que
sabia,  o  que  era  tão  mau  quanto  (porque  se  num  sonho  você  come  peixe,  isso
quer dizer que você comeu peixe). E o que Ammu sabia (ou achava que sabia)
tinha o cheiro do vapor avinagrado e choco que subia dos barris de cimento da
Paraíso Picles. Vapores que engruvinhavam a juventude e punham em conserva os
futuros.
Oculta em seu próprios cabelos, Ammu encostou-se no espelho do banheiro e
tentou chorar.
Por si mesma.

Pelo Deus das Pequenas Coisas.
Pelos parteiros gêmeos do seu sonho, polvilhados de açúcar.
 
 
Naquela  tarde,  enquanto  no  banheiro  os  fados  conspiravam  para  alterar
horrivelmente o caminho misterioso de sua mãe, enquanto no quintal de Velutha
um  velho  barco  esperava  por  eles,  enquanto  numa  igreja  amarela  um
morceguinho esperava para nascer, no quarto de sua mãe, Estha equilibrou-se de
cabeça em cima do bumbum de Rahel.
O quarto de cortinas azuis e vespas amarelas que preocupavam as vidraças. O
quarto cujas paredes logo conheceriam seus segredos torturantes.
O  quarto  em  que  Ammu  primeiro  seria  trancada  e  depois  trancaria  a  si
mesma.  Cuja  porta,  Chacko,  louco  de  dor,  arrombaria  quatro  dias  depois  do
funeral de Sophie Mol.
“Saia da minha casa antes que eu quebre todos os ossos do seu corpo!”
Minha casa, meus abacaxis, meus picles.
Depois  disso,  durante  muitos  anos,  Rahel  sonharia  este  sonho:  um  homem
gordo,  sem  rosto,  ajoelhado  junto  ao  cadáver  de  uma  mulher.  Arrancando  os
cabelos dela. Quebrando todos os ossos de seu corpo. Estalando até os menores.
Os dedos. Os ossos do ouvido partidos como ramos. Clequecleque  o  sonzinho  de
ossos  quebrados.  E  Rahel  (embora  anos  depois,  no  Crematório  Elétrico,  fosse
usar o escorregadio do suor para escapar da mão de Chacko) amava os dois. O
pianista e o piano.
O assassino e o cadáver.
Enquanto a porta era lentamente posta abaixo, Ammu ficou fazendo barras nas
fitas de Rahel, que não precisavam de barras, para controlar o tremor das mãos.
“Me  prometam  que  vocês  vão  sempre  amar  um  ao  outro”,  ela  tinha  dito,
puxando os filhos para si.
“Prometo”, Estha e Rahel disseram. Sem encontrar palavras para dizer que para
eles não existia nem Um, nem Outro.
Pedras  de  moinho  gêmeas  e  sua  mãe.  Pedras  de  moinho  entorpecidas.  O  que
eles fizeram iria voltar para esvaziá-los. Mas isso seria Depois.
De Pois. Um som grave de sino dentro de um poço cheio de musgo. Trêmulo
e veludoso como pés de mariposa.
Na  época,  houve  só  incoerência.  Como  se  todo  sentido  tivesse  deslizado  para
fora  das  coisas,  deixando-as  fragmentadas.  Desconexas.  O  brilho  na  agulha  de
Ammu.  A  cor  da  fita.  A  trama  da  colcha  de  ponto  de  cruz.  A  porta  se
quebrando  devagar.  Coisas  isoladas  que  não  significavam  nada.  Como  se  a
inteligência  que  decodifica  os  padrões  ocultos  da  vida,  que  liga  reflexos  a
imagens,  lampejos  a  luz,  tramas  a  tecidos,  agulhas  a  linhas,  paredes  a  quartos,
amor a medo, a raiva, a remorso, tivesse repentinamente se perdido.
“Arrume  suas  coisas  e  vá  embora”,  Chacko  diria,  pisando  em  cima  dos

destroços.  Pairando  acima  deles.  Uma  maçaneta  cromada  na  mão.  De  repente,
estranhamente  calmo.  Surpreso  com  a  própria  força.  O  próprio  tamanho.  O
próprio poder de agressão. A enormidade de sua própria dor terrível.
Vermelha, a cor da madeira lascada da porta.
Ammu, calma por fora, tremendo por dentro, não levantaria os olhos da barra
inútil. A lata de fitas coloridas aberta no colo, no quarto onde tinha perdido seu
Locusts Stand I.
O  mesmo  quarto  em  que  (depois  da  resposta  da  Especialista  em  Gêmeos  de
Hyderabad)  Ammu  iria  arrumar  o  bauzinho  de  Estha  e  sua  sacola  cáqui:  doze
camisetas sem manga, doze camisetas de meia manga. Estha, olhe, o seu nome está
aqui,  escrito  a  tinta.  As  meias  dele.  A  calça  apertada.  As  camisas  de  colarinho
pontudo.  O  sapato  bege  de  bico  fino  (de  onde  brotavam  os  Sentimentos  de
Raiva).  Os  discos  de  Elvis.  Os  comprimidos  de  cálcio  e  o  xarope  Vydalin.  A
Girafa Grátis (que vinha com o Vydalin). Os Livros de Conhecimento, vols. 1 a
4. Não, querido, lá não vai ter um rio para você pescar. A Bíblia encapada de couro
branco  com  zíper  com  uma  abotoadura  de  ametista  do  Entomologista  Imperial
no zíper. A caneca. O sabonete. O Presente de Aniversário Adiantado que ele não
podia  abrir.  Quarenta  aerogramas  verdes  nacionais.  Escute,  Estha,  eu  vou  escrever
nosso  endereço  em  todos.  Você  só  tem  de  dobrar.  Veja  se  consegue  dobrar  sozinho.  E
Estha  dobrou  direitinho  os  aerogramas  verdes  nacionais  nas  linhas  pontilhadas
que  diziam  Dobre  aqui  e  olhou  para  Ammu  com  um  sorriso  que  cortou  o
coração dela.
Me prometa que vai escrever? Mesmo que não tenha notícias?
Prometo,  Estha  disse.  Não  inteiramente  consciente  da  própria  situação.  O  fio
afiado  de  suas  apreensões  cego  pela  súbita  riqueza  de  posses  materiais.  Eram
coisas Dele. Que tinham seu nome escrito a tinta em cima delas. Que iam ser
embaladas no baú (com o nome dele em cima) aberto no chão do quarto.
O  quarto  ao  qual,  anos  depois,  Rahel  voltaria  para  observar  um  estranho
silencioso tomando banho. E lavando as próprias roupas com sabão azul brilhante
esfarelado.
Musculoso  e  cor  de  mel.  Com  segredos  do  mar  nos  olhos.  E  uma  gota  de
chuva prateada na orelha.
Esthapappychachen Kuttapen Peter Mon.

12.
 KOCHU THOMBAN
 
 
 
 
 

SOM DO
 
CHENDA
 era um cogumelo sobre o templo, acentuando o silêncio da
noite envolvente. Da estrada molhada, solitária. Das árvores vigilantes. Rahel, sem
fôlego,  segurando  um  coco,  entrou  no  conjunto  do  templo  pelo  portão  de
madeira do alto muro circundante.
Lá dentro, era tudo paredes brancas, ladrilhado de musgo, iluminado pela lua.
Tudo  cheirava  a  chuva  recente.  O  sacerdote  magro  dormia  num  colchão  na
varanda  de  pedra  elevada.  Um  pires  de  latão  para  moedas  ao  lado  de  seu
travesseiro  como  uma  ilustração  de  quadrinhos  daquilo  com  que  sonhava.  O
conjunto estava coalhado de luas, uma em cada poça de lama. Kochu Thomban
tinha  encerrado  suas  funções  cerimoniais  e  estava  acorrentado  a  uma  estaca  de
madeira perto de um monte fumarento de seu próprio esterco. Estava dormindo,
o trabalho feito, a bexiga vazia, uma presa pousada na terra, a outra apontando
para as estrelas. Rahel aproximou-se silenciosamente. Viu que a pele dele estava
mais  solta  do  que  na  sua  lembrança.  Não  mais  Kochu  Thomban.  Suas  presas
tinham  crescido.  Agora  era  Vellya  Thomban.  O  Presas  Grandes.  Ela  colocou  o
coco no chão ao lado dele. Uma ruga coriácea se abriu para revelar um brilho
líquido  de  olho  de  elefante.  Tornou  a  se  fechar,  e  os  cílios  longos,  curvos,
retomaram o sono. Uma presa voltada para as estrelas.
 
 
Junho era a estação baixa do kathakali. Mas existem alguns templos pelos quais
um  grupo  não  passa  sem  se  apresentar.  O  templo  de  Ayemenem  não  era  um
desses, mas naqueles dias, graças à sua geografia, as coisas tinham mudado.
Em  Ayemenem  eles  dançavam  para  aliviar  a  humilhação  que  sofriam  no
Coração das Trevas. A apresentação truncada ao lado da piscina. O recorrer ao
turismo para escapar da fome.
No  caminho  de  volta  do  Coração  das  Trevas,  eles  paravam  no  templo  para
pedir perdão a seus deuses. Para se desculpar por corromper suas histórias. Por
transformarem em dinheiro suas identidades. Por malversarem suas vidas.
Nessas  ocasiões,  uma  platéia  humana  era  bem-vinda,  mas  inteiramente
dispensável.
No amplo corredor coberto, o kuthambalam de colunas adjacente ao coração do
templo  onde  morava  o  Deus  Azul  com  sua  flauta,  os  tocadores  de  tambor
tocavam e os dançarinos dançavam, suas cores girando lentamente na noite. Rahel
sentou-se  de  pernas  cruzadas,  encostada  no  redondo  de  um  pilar  branco.  Uma
lata  alta  de  óleo  de  coco  brilhava  na  luz  bruxuleante  do  lampião  de  latão.  O

óleo alimentava a luz. A luz iluminava a lata.
Não importava que a história já tivesse começado, porque o kathakali descobriu
há muito que o segredo das Grandes His-tórias é que elas não têm segredos. As
Grandes Histórias são aquelas que você ouviu e quer ouvir de novo. Aquelas em
que  você  pode  entrar  por  qualquer  parte  e  habitar  confortavelmente.  Elas  não
enganam  você  com  truques  e  finais  emocionantes.  Elas  não  surpreendem  você
com  o  imprevisível.  Elas  são  tão  familiares  como  a  casa  em  que  se  vive.  Ou
como o cheiro da pele do amante. Você sabe como elas terminam, mas, mesmo
assim, você escuta como se não soubesse. Da mesma forma que apesar de saber
que um dia vai morrer, você vive como se não fosse. Nas Grandes Histórias você
sabe  quem  vive,  quem  morre,  quem  encontra  o  amor,  quem  não  encontra.  E,
mesmo assim, você quer ouvir de novo.
Esse é o seu mistério e a sua magia.
Para o Homem do Kathakali essas histórias são seus filhos e sua infância. Ele
cresceu dentro delas. Elas são a casa em que cresceu, os riachos em que brincou.
São sua janela e sua maneira de olhar. Portanto, quando conta uma história, ele
a  manipula  como  se  fosse  um  filho  seu.  Brinca  com  ela.  Castiga.  Solta  no  ar,
como uma bolha. Ele a domina no chão e deixa que se vá. Ri com ela porque a
ama. Ele é capaz de fazer você voar por outros mundos em questão de minutos
e é capaz de parar durante horas para examinar uma folha seca. Ou brincar com
o  rabo  de  um  macaco  adormecido.  Ele  pode  mudar  sem  nenhum  esforço  da
carnificina da guerra para a alegria de uma mulher lavando o cabelo num riacho
de  montanha.  Da  habilidosa  efervescência  de  um  rakshasa  que  tem  uma  idéia
nova  na  cabeça  para  uma  intrigante  malaiala  que  tem  um  escândalo  para
espalhar. Da sensualidade de uma mulher com um bebê ao seio para a maliciosa
sedução do sorriso de Krishna. Ele pode revelar a pepita de tristeza contida na
felicidade. O peixe da vergonha oculto num mar de glória.
Ele  conta  histórias  dos  deuses,  mas  seu  fio  é  urdido  a  partir  do  coração
humano.
O Homem do Kathakali é o mais belo dos homens. Porque seu corpo é a sua
alma.  Seu  único  instrumento.  Desde  os  três  anos  de  idade  ele  é  projetado  e
polido, aplainado, arreado todo, para a tarefa de contar histórias. Ele tem mágica
dentro dele, esse homem dentro da máscara pintada e das saias esvoaçantes.
Mas  hoje  em  dia  ele  ficou  inviável.  Impraticável.  Um  bem  condenável.  Seus
filhos o desdenham. Querem ser tudo o que ele não é. Ele os viu crescerem para
se  transformarem  em  funcionários  e  cobradores  de  ônibus.  Funcionários  extra-
oficiais de quinta classe. Com sindicatos próprios.
Mas ele próprio, deixado suspenso em algum ponto entre o céu e a terra, não
pode fazer o que eles fazem. Não pode percorrer corredores de ônibus, contando
troco e vendendo bilhetes. Não pode responder às sirenes que o convocam. Não
pode se curvar detrás de bandejas de chá e bolachas maria.
Em desespero, ele se volta para o turismo. Entra no mercado. Saqueia a única

coisa que tem. As histórias que seu corpo é capaz de contar.
Ele se torna um Sabor Regional.
No Coração das Trevas caçoam dele, os turistas com sua nudez ociosa e seus
breves  momentos  de  atenção  importada.  Ele  controla  a  raiva  e  dança  para  eles.
Ele  recebe  o  pagamento.  Ele  fica  bêbado.  Ou  fuma  um  baseado.  Da  boa
maconha de Kerala. Que o faz rir. Depois, pára no Templo de Ayemenem, ele e
os que estão com ele, e dançam para pedir perdão aos deuses.
Rahel (sem Planos, sem Locusts Stand I), encostada no pilar, viu Karna rezando
nas  margens  do  Ganges.  Karna,  vestido  em  sua  armadura  de  luz.  Karna,  filho
melancólico  de  Surya,  Deusa  do  Dia.  Karna,  o  Generoso.  Karna,  o  filho
abandonado. Karna, o guerreiro mais respeitado de todos.
Nessa  noite,  Karna  estava  de  barato.  A  saia  rasgada  remendada.  Na  coroa,
buracos  no  lugar  das  pedras  preciosas.  A  blusa  de  veludo  careca  de  uso.  Os
calcanhares rachados. Duros. Ele apagava os baseados com eles.
Mas  se  tivesse  um  bando  de  maquiadores  esperando  por  ele  na  coxia,  um
agente,  um  contrato,  uma  porcentagem  dos  lucros,  o  que  seria  dele?  Um
impostor. Um mentiroso rico. Um ator representando um papel. Poderia fazer o
papel  de  Karna?  Ou  estaria  protegido  demais  dentro  de  sua  vagem  de  riqueza?
Será  que  o  dinheiro  viraria  uma  casca  entre  ele  e  a  história?  Seria  capaz  de
tocar o coração da história, seus segredos, da maneira que conseguia agora?
Talvez não.
Esse homem desta noite é perigoso. Seu desespero, completo. Sua história é a
rede de segurança sobre a qual ele salta e mergulha como um palhaço brilhante
num  circo  decadente.  É  tudo  o  que  ele  tem  para  evitar  que  despenque  pelo
mundo  como  uma  pedra  que  cai.  É  a  sua  cor  e  a  sua  luz.  É  o  recipiente  em
que ele se derrama. Dá-lhe forma. Estrutura. O protege. O contém. Seu Amor.
Sua  Loucura.  Sua  Esperança.  Sua  Infinita  Ventura.  Ironicamente,  sua  luta  é  o
oposto da luta do ator: ele batalha não para entrar  no  papel,  mas  para  escapar
dele.  Mas  isso  é  o  que  não  pode  fazer.  Em  sua  derrota  abjeta  jaz  seu  triunfo
supremo. Ele é Karna, quando o mundo foi abandonado. Karna Sozinho. Deuses
condenados. Um príncipe criado em pobreza. Nascido para morrer injustamente,
desarmado  e  sozinho  nas  mãos  de  seu  irmão.  Rezando  nas  margens  do  Ganges.
Com a cabeça feita pela maconha.
Então, apareceu Kunti. Ela também era um homem, mas um homem que ficou
suave  e  feminino,  um  homem  com  seios,  porque  fez  papéis  femininos  durante
anos.  Seus  movimentos  fluidos.  Cheios  de  mulher.  Kunti  também  pirado.  O
baseado repartido. Ela veio para contar uma história a Karna.
Karna inclinou a bela cabeça e escutou.
De olhos vermelhos, Kunti dançou para ele. Contando a história de uma jovem
que  recebeu  uma  bênção.  Um  mantra  secreto  que  ela  podia  usar  para  escolher
um  amante  entre  os  deuses.  E  que,  com  a  imprudência  da  juventude,  resolveu
experimentar  para  ver  se  de  fato  funcionava.  Sozinha  num  campo  vazio,  ela

voltou  o  rosto  para  o  céu  e  recitou  o  mantra.  Mal  as  palavras  deixaram  seus
lábios  tolos,  disse  Kunti,  Surya,  o  Deus  do  Dia,  apareceu  na  frente  dela.  A
jovem,  enfeitiçada  pela  beleza  do  jovem  deus  tremeluzente,  entregou-se  a  ele.
Nove meses depois, teve um filho. O bebê nasceu envolto em luz, com brincos
de ouro nas orelhas e uma placa de ouro no peito, gravada com o emblema do
sol.
A  jovem  mãe  amou  profundamente  o  seu  primogênito,  disse  Kunti,  mas  não
era casada e não pôde ficar com ele. Colocou-o numa cesta de junco e lançou-o
ao  rio.  A  criança  foi  encontrada  rio  abaixo  por  Adhirata,  um  cocheiro.  Que  o
chamou de Karna.
Karna olhou para Kunti. Quem era ela? Quem era minha mãe? Me diga onde está.
Me leve até ela.
Kunti inclinou a cabeça. Ela está aqui, disse. Na sua frente.
A  excitação  e  raiva  de  Karna  diante  da  revelação.  Sua  dança  de  confusão  e
desespero. Onde estava, perguntou a ela, quando mais precisei de você? Algum dia me
carregou  nos  braços?  Me  alimentou?  Nunca  procurou  por  mim?  Nunca  pensou  onde  eu
poderia estar?
Em  resposta,  Kunti  pegou  a  nobre  face  entre  suas  mãos,  verde  a  face,
vermelhos  os  olhos,  e  o  beijou  na  testa.  Karna  estremeceu  de  prazer.  Um
guerreiro  reduzido  à  infância.  O  êxtase  daquele  beijo.  Ele  o  enviou  até  o
extremo  do  corpo.  Até  os  dedos  dos  pés.  Até  as  pontas  dos  dedos.  O  beijo  de
sua mãe adorável. Sabe o quanto senti sua falta? Rahel podia ver aquele sentimento
correndo pelas veias dele como um ovo descendo pelo pescoço de um avestruz.
Um  beijo  viajante  cuja  jornada  foi  interrompida  pelo  desalento  quando  Karna
se  deu  conta  de  que  sua  mãe  só  se  revelou  a  ele  para  garantir  a  segurança  de
seus  outros  cinco  filhos,  mais  amados,  os  Pandavas,  que  estavam  a  ponto  de

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