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Os  pelinhos  dos  braços  de  Estha  ficaram  arrepiados.  Mexer  a  geléia  virou
remar um barco. Girar e girar virou para a frente e para trás. Atravessando um
rio  escarlate  pegajoso.  Uma  canção  da  corrida  de  barcos  de  Onam  encheu  a
fábrica. “Thaiy thaiy thaka thaiy thaiy thome!”
 

Enda da korangacha, chandi ithra thenjadu?
[Ô, seu Macaco, por que sua bunda é tão vermelha, sô?]
Pandyill thooran poyappol nerakkamuthiri nerangi njan.
[Eu fui cagar em Madras e esfreguei tanto que sangrou.]
 
Sobre as perguntas e respostas um tanto malcriadas da canção de remadores, a
voz de Rahel flutuou pela fábrica.
“Estha! Estha! Estha!”
Estha  não  respondeu.  O  coro  da  canção  de  remadores  sussurrava  na  geléia
grossa.
 
Theeyome
Thithome
Tharaka
Thithome
Theem
 
Uma porta de tela rangeu, e uma Fada do Aeroporto com galoschifres e óculos
de sol vermelhos de armação amarela olhou para dentro com o sol por trás. A
fábrica era cor de raiva. As limas em salmoura eram vermelhas. As mangas moles
eram vermelhas. O armário de rótulos era vermelho. O raio de sol empoeirado
(que Ousa nunca usava) era vermelho.
A porta de tela se fechou.
Rahel  ficou  parada  na  fábrica  vazia  com  seu  chafariz  e  o  Amor-em-Tóquio.
Ouviu uma voz de freira cantando a canção de remadores. Uma voz límpida de
soprano flutuando sobre vapores de vinagre e barris de picles.
Ela foi até Estha, curvado sobre o caldo escarlate no caldeirão preto.
“O que você quer?”, Estha perguntou sem levantar os olhos.
“Nada”, Rahel respondeu.
“Então para que veio aqui?”
Rahel não respondeu. Houve um silêncio breve e hostil.
“Por que você está remando a geléia?”, Rahel perguntou.
“A Índia é um País Livre”, Estha respondeu.
Ninguém podia negar.
A Índia era um País Livre.
Você podia colher sal.* Remar geléia, se quisesse.
O  Homem  do  Refrescodelaranja  Refrescodelimão  podia  entrar  pela  porta  de
tela.
Se quisesse.
E Ammu podia lhe oferecer suco de abacaxi. Com gelo.
 
 

Rahel  sentou  na  beirada  de  um  barril  de  cimento  (as  bordas  espumosas  da
anágua  e  da  renda  delicadamente  mergulhadas  em  picles  de  manga  mole)  e
experimentou os protetores de dedo de borracha. Três moscas-varejeiras lutavam
ferozmente contra as portas de tela, querendo entrar. E Ousa, a coruja, observava
o  silêncio  com  cheiro  de  picles  que  jazia  entre  os  dois  gêmeos,  como  um
hematoma.
O dedos de Rahel estavam Amarelo Verde Azul Vermelho Amarelo.
A geléia de Estha estava mexida.
Rahel levantou-se para ir embora. Dormir de Tarde.
“Aonde você vai?”
“Para um lugar.”
Rahel  tirou  os  novos  dedos  e  ficou  com  dedos  cor  de  dedos  de  antes.  Não
amarelos, nem verdes, nem azuis, nem vermelhos. Nem amarelos.
“Vou para Akkara”, Estha respondeu. Sem levantar os olhos. “Para a Casa da
História.”
Rahel  parou  e  virou-se  para  ele,  e  em  seu  coração  uma  mariposa  parda  com
tufos de pêlo dorsal excepcionalmente densos desdobrou as asas predadoras.
Abrindo devagar.
Fechando devagar.
“Por quê?”, Rahel perguntou.
“Porque  Tudo  Pode  Acontecer  Para  Qualquer  Um”,  Estha  respondeu.  “É
melhor Estar Preparado.”
Ninguém podia negar.
Ninguém  mais  ia  até  a  casa  de  Kari  Saipu.  Vellya  Paapen  dizia  ter  sido  o
último ser humano a pousar os olhos nela. Ele dizia que era assombrada. Tinha
contado  aos  gêmeos  a  história  de  seu  encontro  com  o  fantasma  de  Kari  Saipu.
Acontecera  dois  anos  antes,  dizia.  Ele  tinha  atravessado  o  rio,  procurando  uma
árvore de noz-moscada para fazer uma pasta de noz-moscada e alho fresco para
Chella,  a  mulher  dele,  que  estava  morrendo  de  tuberculose.  De  repente,  sentiu
cheiro  de  fumaça  de  charuto  (que  ele  reconheceu  na  mesma  hora,  porque
Pappachi fumava a mesma marca). Vellya Paapen virou e golpeou o cheiro com
sua  foice.  E  pregou  o  fantasma  no  tronco  de  uma  seringueira,  onde,  segundo
Vellya Paapen, estava até hoje. Um cheiro cortado por foice, que sangrava sangue
transparente, âmbar, e implorava um charuto.
Vellya  Paapen  nunca  encontrou  a  árvore  de  noz-moscada,  e  precisou  comprar
uma  foice  nova.  Mas  teve  a  satisfação  de  saber  que,  com  seus  reflexos  rápidos
como um raio (apesar do olho hipotecado) e com sua presença de espírito, tinha
dado fim ao vagar sanguinário de um fantasma pedófilo.
Contanto que ninguém sucumbisse às suas artimanhas e o soltasse da foice com
um charuto.
O que Vellya Paapen (que sabia uma porção de coisas) não sabia é que a casa
de  Kari  Saipu  era  a  Casa  da  História  (cujas  portas  eram  trancadas  e  as  janelas

abertas). E que lá dentro ancestrais com hálito de mapa e unhas dos pés duras
sussurravam  para  os  lagartos  nas  paredes.  Que  a  História  usava  a  varanda  dos
fundos  para  negociar  seus  termos  e  cobrar  o  que  lhe  era  devido.  Que  a
inadimplência  levava  a  funestas  conseqüências.  Que  no  dia  que  a  História
escolhesse acertar seus livros, Estha guardaria os recibos por tudo o que Velutha
pagou.
Vellya Paapen não fazia idéia que era Kari Saipu quem capturava sonhos e os
ressonhava. Que ele os arrancava das almas dos passantes da mesma maneira que
as crianças catam as passas de um bolo. Que aqueles de que mais gostavam, os
sonhos que adorava ressonhar, eram os sonhos brandos de gêmeos bivitelinos.
O  pobre  velho  Vellya  Paapen,  se  ele  soubesse  então  que  a  História  tinha
escolhido a ele como seu deputado, que seriam as lágrimas dele que colocariam o
Terror  em  movimento,  talvez  ele  não  tivesse  passeado,  empinado  como  um
frango, pelo mercado de Ayemenem, gabando-se de ter atravessado a nado o rio
com a foice na boca (acre o gosto do ferro na língua). De ter largado a foice
por um momento apenas, quando se ajoelhou para lavar a sujeira do rio do olho
hipotecado (havia sujeira no rio, às vezes, principalmente nos meses chuvosos), e
sentido  o  cheiro  da  fumaça  de  charuto.  De  ter  pegado  a  foice  e  girado  no  ar,
cortando  o  cheiro  e  prendendo  o  fantasma  para  sempre.  Tudo  num  único
movimento fluido, atlético.
Quando ele afinal compreendeu seu papel nos Planos da História, já era tarde
demais  para  voltar  sobre  os  próprios  passos.  Ele  tinha  varrido  suas  pegadas.
Rastejando para trás com uma vassoura.
 
 
Na fábrica, o silêncio atacou mais uma vez e cerrou-se em torno dos gêmeos.
Mas  dessa  vez  era  um  tipo  diferente  de  silêncio.  Um  velho  silêncio  de  rio.  O
silêncio de Gente Pescadora e de pálidas sereias.
“Mas  os  comunistas  não  acreditam  em  fantasmas”,  Estha  disse,  como  se
estivessem continuando uma conversa para investigar soluções para o problema do
fantasma. As conversas deles emergiam e submergiam como riachos de montanha.
Às vezes audíveis para os outros. Às vezes não.
“Nós vamos virar comunistas?”, Rahel perguntou.
“Talvez a gente tenha de virar.”
Estha, o Prático.
Vozes distantes com farelos de bolo e passos do Exército Azul se aproximando
fizeram os camaradas selarem o segredo.
Ele  foi  colocado  em  conserva,  selado  e  guardado.  Um  segredo  vermelho,  em
forma de manga mole num barril. Dominado por uma coruja.
A Agenda Vermelha estava pronta e assentada:
A  Camarada  Rahel  iria  Dormir  de  Tarde,  mas  ficaria  na  cama  acordada  até
Ammu dormir.

O  Camarada  Estha  ia  encontrar  a  bandeira  (que  Baby  Ko-chamma  tinha  sido
forçada a sacudir) e esperar por Rahel perto do rio, e os dois iam:
(b) Se preparar para estar preparados.
 
 
Um vestido de fada criança (em semipicles) ficou duro, de pé sozinho no meio
do quarto escuro de Ammu.
Lá fora, o Ar estava Alerta e Brilhante e Quente. Rahel ficou deitada ao lado
de  Ammu,  bem  acordada  com  suas  calcinhas  de  aeroporto  combinando.  Dava
para ver o padrão de flores de ponto de cruz da colcha azul de ponto de cruz
impressos no rosto de Ammu. Dava para ouvir a tarde azul de ponto de cruz.
O lento ventilador de teto. O sol detrás das cortinas.
A vespa amarela vespando contra o vidro da janela num bzzzz arriscado.
Uma piscada de lagarto cético.
Galinhas marchando no quintal.
O  som  do  sol  ressecando  a  roupa  lavada.  Branqueando  os  lençóis  de  cama.
Endurecendo os sáris engomados. Branco-cru e ouro.
Formigas vermelhas em pedras amarelas.
Uma vaca quente sentindo calor. Muuuuu. Ao longe.
E  o  cheiro  de  um  ardiloso  fantasma  inglês,  preso  por  uma  foice  numa
seringueira, pedindo gentilmente um charuto.
“Mmm... com licença? Você por acaso não teria um mmm... charuto, teria?”
Numa voz suave de professor.
Ah, puxa!
E Estha esperando por ela. Perto do rio. Debaixo do pé de mangostão que o
reverendo E. John Ipe tinha trazido de sua visita a Mandalay.
Em cima de que Estha estava sentado?
Em cima daquilo em que eles sempre se sentavam quando estavam debaixo do
pé de mangostão. Algo cinzento e arrepiado. Coberto de musgo e liquens, oculto
por  samambaias.  Algo  que  a  terra  tinha  reclamado.  Não  um  tronco.  Nem  uma
pedra...
Antes de completar o pensamento, Rahel já estava de pé e correndo.
Passou  pela  cozinha,  por  Kochu  Maria  dormindo  profundamente.  Com  rugas
pesadas como um súbito rinoceronte com avental de babados.
Pela fábrica.
Tropeçando descalça pelo calorverde, seguida de uma vespa amarela.
Lá  estava  o  Camarada  Estha.  Debaixo  do  pé  de  mangostão.  Com  a  bandeira
vermelha  plantada  na  terra  a  seu  lado.  Uma  República  Móvel.  Uma  Revolução
Gêmea com um Topete.
E no que ele estava sentado?
Em algo coberto de musgo, oculto pelas samambaias.
Batendo com os dedos, fazia um som surdo de batida.

O silêncio baixou e subiu e atacou e traçou figuras em forma de oito.
Libélulas como jóias voejavam como vozes agudas de crianças ao sol.
Dedos cor de dedos lutaram com as samambaias, removeram as pedras, abriram
caminho.  Houve  um  esforço  suado  de  achar  uma  beirada  para  segurar.  E  Um
Dois e.
 
 
As coisas podem mudar em um dia.
 
 
Era um barco. Um minúsculo vallom de madeira.
O  barco  que  Ammu  iria  usar  para  atravessar  o  rio.  Para  amar  de  noite  o
homem que seus filhos amavam de dia.
Um barco tão velho que tinha criado raízes. Quase.
Um  velho  pé  de  barco  cinzento  com  barcoflores  e  barcofrutas.  E  por  baixo,
um  pedaço  de  grama  seca  em  forma  de  barco.  Um  barcomundo  rápido,
passageiro.
Escuro e seco e fresco. Sem teto agora. E cego.
Brancos cupins a caminho do trabalho.
Brancas joaninhas a caminho de casa.
Brancos besouros fugindo da luz.
Brancos gafanhotos com violinos de madeira branca.
Branca música triste.
Uma branca vespa. Morta.
Uma branca pele de cobra ressecada, preservada no escuro, desfez-se no sol.
Mas serviria, aquele pequeno vallom? Seria velho demais? Morto demais? Akkara
seria longe demais para ele?
Dois gêmeos bivitelinos olharam do outro lado do rio.
O Meenachal.
Verdecinzento.  Com  peixes  lá  dentro.  O  céu  e  as  árvores  lá  dentro.  E,  de
noite, uma lua amarela partida lá dentro.
Quando  Pappachi  era  menino,  um  velho  pé  de  tamarindo  caiu  durante  uma
tempestade. Ainda estava lá. A árvore lisa, sem casca, escurecida pelo excesso de
água verde. Madeira flutuante não flutuante.
O primeiro terço do rio era amigo deles. Antes de começar o Fundo Mesmo.
Eles conheciam os degraus de pedra escorregadios (treze) antes que começasse a
lama  viscosa.  Eles  conheciam  as  ervas  que  retornavam  à  tarde  da  laguna  de
Komarakom. Conheciam os peixes menores. O pallathi achatado e bobo, o paral
prateado, o esperto koori de bigodes, o karimeen ocasional.
Ali,  Chacko  tinha  ensinado  os  dois  a  nadar  (espadanando,  sem  ajuda,  na  água
em  torno  da  ampla  barriga  do  tio).  Ali,  tinham  descoberto  sozinhos  a  boba
delícia de peidar debaixo da água.

Ali, tinham aprendido a pescar. A enfiar minhocas roxas que se reviravam em
anzóis  na  ponta  das  linhas  das  varas  que  Velutha  lhes  fizera  de  finas  hastes  de
bambu amarelo.
Ali, eles estudaram Silêncio (como os filhos de Gente Pescadora) e aprenderam
a linguagem brilhante das libélulas.
Ali,  tinham  aprendido  a  Esperar.  A  Observar.  A  pensar  pensamentos  e  não
enunciá-los.  A  agir  como  um  raio  quando  o  bambu  amarelo  se  curvava  para
baixo.
Portanto, esse primeiro terço do rio eles conheciam bem. Os outros dois terços
menos.
No segundo terço é que o Fundo Mesmo começava. Onde a corrente era uma
certeza rápida (rio abaixo na maré vazante, subindo da laguna na maré alta).
O terceiro terço era de novo raso. A água marrom e turva. Cheia de matos e
enguias rápidas, e lama lenta que esguichava entre os dedos dos pés como pasta
de dentes.
Os  gêmeos  nadavam  como  duas  focas  e,  supervisionados  por  Chacko,  tinham
atravessado o rio várias vezes, voltando ofegantes e vesgos de tanto esforço, com
uma pedrinha, um ramo ou uma folha do Outro Lado para comprovar seu feito.
Mas o meio de um rio respeitável, ou o Outro Lado, não era lugar para uma
criança Entrar, Estar ou Estudar Coisas. Estha e Rahel atribuíam ao segundo e
terceiro terços do Meenachal a deferência que mereciam. Mesmo assim, atravessar
nadando não era problema. O problema era levar o barco com as Coisas dentro
(para que pudessem (b) Se preparar para estar preparados).
Os dois olharam o rio com olhos de Barco Velho. De onde estavam, não dava
para ver a Casa da História. Era apenas um escuro além do pântano, no coração
da plantação de seringueiras abandonada, de onde se expandia o som de grilos.
Estha  e  Rahel  levantaram  o  pequeno  barco  e  o  levaram  para  a  água.  Ele
pareceu surpreso, como um peixe grisalho que aflorasse do fundo. Com urgente
necessidade de luz solar. Precisava de uma raspada, uma limpeza talvez, mas nada
mais.
Dois corações felizes subiram como pipas coloridas para o céu azul-celeste. Mas
então, com um lento sussurro verde, o rio (com peixes lá dentro, com o céu e
árvores lá dentro) borbulhou para dentro do barco.
Lentamente o velho barco afundou, e pousou no sexto degrau.
E  os  corações  de  um  par  de  gêmeos  bivitelinos  afundaram  e  pousaram  no
degrau acima do sexto.
Os  peixes  do  fundo  cobriram  as  bocas  com  as  barbatanas  e  riram  do
espetáculo.
Uma  branca  aranha  do  barco  flutuou  com  o  rio  dentro  do  barco,  esperneou
brevemente e afogou-se. Sua branca bolsa de ovos se rompeu prematuramente, e
uma  centena  de  bebês-aranha  (leves  demais  para  afundar,  pequenos  demais  para
nadar) pintou a superfície lisa da água verde, antes de ser arrastada para o mar.

Para Madagascar, para dar início a um novo filo de Aranhas Nadadoras Malayali.
Pouco  depois,  como  se  tivessem  combinado  (embora  não  tivessem),  os  gêmeos
começaram a lavar o barco no rio. As teias de aranha, a lama, o limo, o líquen
flutuaram para longe. Quando estava limpo, eles o viraram de ponta-cabeça e o
levantaram sobre as cabeças. Como um chapéu conjunto e gotejante. Estha pegou
a bandeira vermelha.
Uma  pequena  procissão  (uma  bandeira,  uma  vespa  e  um  barco  com  pernas)
seguiu o caminhozinho bem conhecido pelo mato. Evitando os tufos de urtiga, e
os buracos e formigueiros conhecidos. Ladeou o precipício do poço profundo de
uma  antiga  mina  de  laterita,  que  era  agora  um  lago  calmo  com  margens
íngremes,  cor  de  laranja,  a  água  grossa,  viscosa,  coberta  com  uma  película
luminosa de espuma verde: um gramado verdejante, traiçoeiro, onde os mosquitos
se reproduziam e os peixes eram gordos, mas inacessíveis.
O  caminho,  que  seguia  paralelo  ao  rio,  levava  a  uma  pequena  clareira  de
grama escondida entre árvores densas: coqueiros, cajueiros, mangueira, bilimbis. À
margem da clareira, de fundos para o rio, uma pequena cabana com paredes de
laterita cor de laranja, rebocada de barro, teto de sapé, aninhada rente ao chão,
como  se  estivesse  ouvindo  o  murmúrio  de  um  segredo  subterrâneo.  As  paredes
baixas da cabana eram da mesma cor que a terra em que estava construída, e ela
parecia ter germinado de uma semente de casa plantada na terra, da qual costelas
de  terra  em  ângulo  reto  haviam  nascido,  cerrando  um  espaço.  Três  bananeiras
descabeladas  cresciam  no  jardinzinho  cercado  com  painéis  de  folhas  de  palmeira
trançadas.
O  barco  com  pernas  aproximou-se  da  cabana.  Havia  um  lampião  de  óleo
apagado  ao  lado  da  porta,  a  parede  em  torno  manchada  de  fuligem  negra.  A
porta  estava  meio  aberta.  Lá  dentro,  escuro.  Uma  galinha  preta  apareceu  na
porta. E voltou para dentro, inteiramente indiferente a visitas de barcos.
Velutha não estava em casa. Nem Vellya Paapen. Mas alguém estava.
Uma  voz  de  homem  flutuava  lá  de  dentro  e  ecoava  pela  clareira,  fazendo  o
homem soar solitário.
A voz gritava a mesma coisa, insistentemente, e a cada repetição subia para um
registro  mais  alto,  mais  histérico.  Era  um  apelo  a  uma  goiaba  madura  demais
que ameaçava cair da árvore e fazer uma sujeira no chão.
 
Pa pera-pera-pera-perakka
[Dona goiagoia-go-go-goiaba]
 
Ende parambil thooralley.
[Não cague aqui na minha casa.]
 
Chetende parambil thoorikko
[Pode ir cagar no vizinho, na casa do meu irmão]

 
Pa pera-pera-pera-perakka.
[Dona goiagoia-go-go-goiaba.]
 
Quem gritava era Kuttappen, o irmão mais velho de Velutha. Ele era paralítico
do peito para baixo. Dia após dia, mês após mês, enquanto o irmão não estava e
o  pai  saía  para  trabalhar,  Kuttappen  ficava  deitado  de  costas  olhando  sua
juventude  passar  sem  parar  nem  para  dizer  olá.  O  dia  inteiro  ele  ficava  ali
ouvindo  o  silêncio  de  árvores  densas  com  a  única  companhia  de  uma  galinha
preta mandona. Sentia falta da mãe, Chella, que tinha morrido no mesmo canto
do  quarto  onde  agora  ficava  deitado.  Ela  havia  morrido  de  uma  morte  tossida,
cuspida, dolorida, escarrada. Kuttappen lembrava-se de ter percebido que os pés
dela  morreram  muito  antes  dela.  A  pele  foi  ficando  cinzenta  e  sem  vida.
Lembrava-se  do  medo  que  sentiu  ao  ver  a  morte  subindo  por  ela  desde  baixo.
Kuttappen vigiava os próprios pés amortecidos com um medo sempre crescente.
De vez em quando, cutucava esperançoso os próprios pés, usando uma vara que
deixava  pronta  num  canto  para  se  defender  da  visita  de  cobras.  Ele  não  tinha
nenhuma  sensibilidade  nos  pés,  e  só  a  evidência  visual  garantia-lhe  que  ainda
estavam ligados a seu corpo e que eram seus de fato.
Depois que Chella morreu, ele foi transferido para o canto dela, o canto que
Kuttappen  imaginava  ter  sido  reservado  pela  Morte  para  administrar  seus
negócios  mortais  na  casa  dele.  Um  canto  para  cozinhar,  um  para  roupas,  um
para os colchonetes, um para morrer.
Ele  imaginava  quanto  tempo  a  sua  morte  demoraria,  e  o  que  as  pessoas  que
tinham mais de quatro cantos em suas casas faziam com o resto dos cantos. Será
que tinham mais escolhas de cantos para morrer?
E concluiu, não sem razão, que seria o primeiro da família a seguir a trilha da
mãe. Ele logo descobriria que não. Em breve. Muito em breve.
Às  vezes  (por  hábito,  por  saudades  dela),  Kuttappen  tossia  igual  à  mãe,  e  a
parte superior de seu corpo se sacudia como um peixe recém-pescado. A parte de
baixo  continuava  imóvel  feito  chumbo,  como  se  pertencesse  a  outra  pessoa.
Alguém que morreu e cujo espírito ficou aprisionado e não conseguia escapar.
Ao contrário de Velutha, Kuttappen era um bom paravan, integrado. Não sabia
nem ler nem escrever. Enquanto ali ficava em sua cama dura, pedaços de sapé e
sujeira caíam do teto em cima dele e misturavam-se ao seu suor. Às vezes, caíam
também  formigas  e  outros  insetos.  Em  dias  ruins,  as  paredes  cor  de  laranja
estendiam  mãos  e  curvavam-se  em  cima  dele,  examinando-o  como  médicos
malévolos,  lenta,  deliberadamente,  apertando  para  fora  o  seu  alento  e  fazendo-o
gritar. Às vezes, elas recuavam sozinhas, e o quarto ficava impossível de grande,
aterrorizando-o com o espectro de sua própria insignificância. E isso também o
fazia gritar.
A  insanidade  pairava  sempre  à  mão,  como  um  garçom  dedicado  em  um

restaurante  caro  (acendendo  cigarros,  enchendo  copos).  Kuttappen  pensava  cheio
de inveja nos loucos que podiam andar. Ele não tinha dúvidas quanto à justiça
do trato: sua sanidade em troca de pernas utilizáveis.
 
 
Os  gêmeos  depositaram  o  barco  no  chão,  e  o  ruído  provocou  um  súbito
silêncio lá dentro.
Kuttappen não estava esperando ninguém.
Estha  e  Rahel  empurraram  a  porta  e  entraram.  Pequenos  como  eram,  tinham
de baixar a cabeça para entrar. A vespa ficou esperando no lampião do lado de
fora.
 
 
“É a gente.”
O  quarto  estava  escuro  e  limpo.  Cheirava  a  peixe  com  curry  e  fumaça  de
lenha. O calor se colava às coisas como uma febre baixa. Mas o chão de terra
era fresco sob os pés descalços de Rahel. Os colchonetes de Velutha e de Vellya
Paapen estavam enrolados, encostados à parede. As roupas dependuradas de uma
corda. Havia uma prateleira baixa de madeira na cozinha onde estavam arrumadas
tigelas  de  terracota,  conchas  feitas  de  casca  de  coco  e  três  pratos  de  ágate
lascados  com  debrum  azul-escuro.  Um  homem  adulto  podia  ficar  de  pé  no
centro  da  sala,  mas  não  nos  lados.  Outra  porta  baixa  levava  ao  quintal,  onde
havia mais bananeiras, além das quais o rio cintilava entre a folhagem. A bancada
de carpinteiro tinha sido montada no quintal.
Não havia chaves, nem armários para trancar.
A  galinha  preta  saiu  pela  porta  dos  fundos  e  ciscou  distraída  o  chão  do
quintal,  onde  rolavam  raspas  de  madeira  como  cachos  loiros.  A  julgar  pela
personalidade dela, parecia ter sido criada numa dieta pesada: grampos e ganchos

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