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pêlos nas sobrancelhas, grossos, compridos. Ammu sorriu para o silêncio à mesa,
enquanto  ciscava  nas  espinhas  a  carne  do  peixe.  Disse  que  se  sentia  como  uma
placa  de  estrada  com  passarinhos  cagando  em  cima.  Tinha  um  brilho  estranho,
febril, nos olhos.
Mammachi  perguntou  se  ela  andava  bebendo  e  sugeriu  que  visitasse  Rahel  o
mínimo possível.
Ammu levantou-se da mesa e saiu sem dizer uma palavra. Nem até logo. “Vá
despedir dela”, Chacko disse para Rahel.
Rahel  fingiu  que  não  tinha  ouvido.  Continuou  comendo  o  peixe.  Lembrou-se
do catarro e quase vomitou. Ela odiou a mãe naquele momento. Odiou.
Nunca mais a viu.
Ammu morreu num quarto imundo na Hospedaria Bharat, em Alleppey, aonde
fora  para  ser  entrevistada  para  um  emprego  de  secretária  de  alguém.  Morreu
sozinha. Com um ventilador de teto barulhento por companhia e sem Estha para
deitar  em  cima  de  suas  costas  e  conversar  com  ela.  Tinha  trinta  e  um  anos.
Nem velha, nem moça, uma idade morrível viável.
Havia acordado de noite para escapar de um sonho recorrente já conhecido, no
qual  policiais  a  abordavam  com  tesouras  clicando,  querendo  cortar  seu  cabelo.
Faziam  isso  em  Kottayam  com  as  prostitutas  que  pegavam  no  mercado,
marcavam  as  moças  para  que  todo  mundo  soubesse  o  que  eram.  Veshyas.  Para
que policiais novos na ronda não tivessem trabalho para saber quem importunar.
Ammu  sempre  prestava  atenção  nelas  no  mercado,  aquelas  mulheres  de  olhos
vazios, com cabeças raspadas à força, numa terra em que cabelos longos untados
eram coisa para as de moral ilibada apenas.
Naquela  noite,  na  hospedaria,  Ammu  sentou-se  na  cama  estranha,  no  quarto
estranho,  da  cidade  estranha.  Não  sabia  onde  estava,  não  reconhecia  nada  à  sua
volta.  Só  o  seu  medo  era  familiar.  O  homem  distante  dentro  dela  começou  a
gritar. Dessa vez, o punho de aço não soltou a garra. Sombras se juntaram como
morcegos nos fundos em torno de suas clavículas.
 
 
O varredor a encontrou de manhã. Ele desligou o ventilador.

Ela  tinha  uma  profunda  bolsa  azul  debaixo  de  um  olho,  que  estava  saltado
como uma bolha. Como se o olho tivesse tentado fazer o que os pulmões não
conseguiam.  Por  volta  da  meia-noite,  o  homem  distante  que  morava  em  seu
peito  tinha  parado  de  gritar.  Um  batalhão  de  formigas  carregava  uma  barata
morta  tranqüilamente  pela  porta,  demonstrando  o  que  se  deve  fazer  com
cadáveres.
A igreja recusou-se a enterrar Ammu. Por vários motivos. Então Chacko alugou
um  furgão  para  levar  o  corpo  ao  crematório  elétrico.  Fez  com  que  a
embrulhassem  num  lençol  sujo  e  a  deitassem  numa  maca.  Rahel  achou  que  ela
parecia um Senador Romano. Et tu, Ammu!, ela pensou e sorriu, lembrando de
Estha.
Era  estranho  rodar  pelas  ruas  ensolaradas,  movimentadas,  com  um  senador
romano  no  chão  do  furgão.  Fazia  o  céu  azul  ficar  mais  azul.  Do  lado  de  fora
das janelas do furgão, as pessoas, como bonecas de papel recortado, continuavam
vivendo  suas  vidas  de  bonecas  de  papel.  A  vida  real  estava  dentro  do  furgão.
Onde estava a morte real. Com os buracos e irregularidades da estrada, o corpo
de Ammu sacudia e acabou caindo para fora da maca. Sua cabeça bateu num aro
de  ferro  do  chão.  Ela  não  protestou,  nem  acordou.  Na  cabeça  de  Rahel  havia
um zumbido, e, pelo resto do dia, Chacko teve de gritar para ela escutar.
O crematório tinha o mesmo ar podre, decadente, de uma estação de trens, só
que estava deserto. Sem trens, sem multidões. Só eram cremados ali os mendigos,
os  vagabundos  e  os  mortos  sob  custódia  da  polícia.  Gente  que  morria  sem
ninguém para deitar em cima de suas costas e conversar. Quando chegou a vez
de  Ammu,  Chacko  segurou  com  força  a  mão  de  Rahel.  Ela  não  queria  que
segurassem  sua  mão.  Aproveitou  o  suor  crematório  escorregadio  para  deslizar  a
mão de dentro da dele. Não havia mais ninguém da família.
A  porta  de  aço  do  incinerador  subiu  e  o  zumbido  baixo  do  fogo  eterno
transformou-se  num  rugido  vermelho.  O  calor  projetou-se  até  eles  como  uma
fera  faminta.  E  a  Ammu  de  Rahel  foi  dada  de  comer  à  fera.  Seu  cabelo,  sua
pele, seu sorriso. Sua voz. O jeito de usar Kipling para amar os filhos ao colocá-
los na cama: Somos do mesmo sangue, você e eu. Seu beijo de boa-noite. O jeito de
segurar os rostos deles com mão firme (faces apertadas, bocas de peixe) enquanto
lhes  repartia  e  penteava  os  cabelos  com  a  outra  mão.  O  jeito  de  segurar  a
calcinha de Rahel para ela vestir. Perna esquerda, perna direita. Tudo isso foi dado
de comer à fera, e ela ficou satisfeita.
Aquela era a Ammu e o Baba deles e tinha amado os dois Dobrado.
A porta da fornalha se fechou com ruído. Não houve lágrimas.
O  Encarregado  do  crematório  havia  ido  até  a  esquina  para  tomar  um  chá  e
levou  vinte  minutos  para  voltar.  Foi  o  tempo  que  Chacko  e  Rahel  tiveram  de
esperar  para  pegar  o  recibo  cor-de-rosa  que  lhes  dava  o  direito  de  retirar  os
restos de Ammu. Suas cinzas. O pó de seus ossos. Os dentes de seu sorriso. Ela
inteira reduzida a um pequeno pote de barro. Recibo número Q498673.

Rahel  perguntou  a  Chacko  como  a  administração  do  crematório  sabia  quais
cinzas eram de quem. Chacko disse que eles deviam ter algum sistema.
Se Estha estivesse com eles, teria guardado o recibo. Ele era o Guardador de
Registros. O zelador natural de bilhetes de ônibus, recibos de banco, recibos de
saques, canhotos de talões de cheques. Homem Pequeno. Morava numa cara-van.
Dum dum.
Mas  Estha  não  estava  com  eles.  Todo  mundo  decidira  que  era  melhor  assim.
Em  vez  de  chamar,  escreveram  para  ele.  Mammachi  disse  que  Rahel  devia
escrever  também.  Escrever  o  quê?  Meu  querido  Estha,  como  vai?  Eu  estou  bem.
Ammu morreu ontem.
Rahel nunca escreveu para ele. Certas coisas não se podem fazer, como escrever
cartas para uma parte de si mesmo. Para seus pés, ou cabelos. Ou coração.
 
 
No escritório de Pappachi, Rahel (nem moça, nem velha), com poeira do chão
nos  pés,  levantou  os  olhos  do  Caderno  de  Exercícios  de  Sabedoria  e  viu  que
Esthappen Des-conhecido tinha ido embora.
Ela desceu (do banquinho, de cima da mesa) e foi até a varanda.
Viu as costas de Estha desaparecendo pelo portão.
Meio  da  manhã  e  prestes  a  chover  de  novo.  Nos  últimos  momentos  daquela
luz estranha, fulgurante, de antes da chuva, o verde estava feroz.
Um  galo  cantou  à  distância  e  sua  voz  separou-se  em  duas.  Como  uma  sola
despregando de um sapato velho.
Rahel ficou ali com os velhos cadernos de Sabedoria. Na varanda da frente de
uma velha casa, sob os olhos de botão de uma cabeça de bisão, onde anos antes,
no  dia  da  chegada  de  Sophie  Mol,  tinham  encenado  Bem-vinda  ao  Lar,  Sophie
Mol.
As coisas podem mudar em um dia.

8.
 BEM-VINDA AO LAR, SOPHIE MOL
 
 
 
 
 
E
RA  UMA  BELA  CASA  ANTIGA,
  a  Casa  Ayemenem,  com  um  ar  altivo.  Como  se
tivesse  pouco  a  ver  com  as  pessoas  que  viviam  nela.  Como  um  velho  de  olhos
remelentos olhando crianças brincarem, enxergando apenas transitoriedade em sua
animação ruidosa, em seu compromisso integral com a vida.
O telhado íngreme tinha ficado escuro e musgoso com o tempo e a chuva. As
molduras  de  madeira  triangulares  das  mansardas  tinham  entalhes  rendilhados.  A
luz  que  passava  por  elas  e  caía  no  chão  formando  desenhos  era  cheia  de
segredos.  Lobos.  Flores.  Lagartos.  Mudando  de  forma  enquanto  o  sol  ia  se
deslocando no céu. Morrendo pontualmente, ao entardecer.
As  portas  não  tinham  duas,  mas  quatro  folhas  de  madeira  de  teca,  de  forma
que, antigamente, as mulheres podiam manter fechada a metade de baixo, apoiar
os  cotovelos  na  beirada  e  barganhar  com  os  vendedores  ambulantes,  sem  se
revelarem  da  cintura  para  baixo.  Tecnicamente,  podiam  comprar  tapetes,  ou
pulseiras, com o peito coberto e os traseiros nus. Tecnicamente.
Nove degraus subiam da rampa de entrada para a varanda da frente. A elevação
dava à varanda a dignidade de um palco, e tudo o que acontecia ali assumia a
aura e a significação de um espetáculo. A varanda dava para o jardim ornamental
de Baby Kochamma, para o caminho de cascalho que o circundava, descendo até
a base do pequeno morro onde ficava a casa.
Era uma varanda profunda, fresca mesmo ao meio-dia, quando o sol era mais
escaldante.
Quando  o  chão  de  cimento  vermelho  foi  feito,  precisaram  da  clara  de  quase
novecentos ovos para misturar nele. Para ficar bem brilhante.
Abaixo da cabeça de bisão com olhos de botão, com os retratos do sogro e da
sogra de cada lado, Mammachi sentava-se numa cadeira de vime, diante de uma
mesa  de  vime  onde  havia  um  vaso  verde  com  um  único  ramo  inclinado  de
orquídeas roxas.
A tarde era clara e quente. O Ar, expectante.
Mammachi encaixava o violino brilhante debaixo do queixo. Seus óculos foscos,
anos  50,  eram  pretos,  estilo  gatinho,  com  strasses  brilhando  nos  cantos  da
armação. Seu sári era engomado e perfumado. Branco-cru e ouro. Os brincos de
diamantes  brilhavam  em  suas  orelhas  como  pequenos  candelabros.  Os  anéis  de
rubi estavam largos. Sua pele clara, fina, era enrugada como a nata sobre o leite
esfriando,  e  polvilhada  de  minúsculas  pintas  vermelhas.  Ela  era  bela.  Velha,
incomum, altiva.
Cega Mãe Viúva com um violino.

Em  anos  mais  jovens,  previdente  e  boa  administradora,  Mammachi  guardara
todos os cabelos que caíam de sua cabeça dentro de uma bolsinha bordada que
ficava  na  penteadeira.  Quando  coletou  o  suficiente,  fez  com  eles  um  coque
dentro  de  uma  redinha,  que  guardava  escondido  numa  gaveta  junto  com  suas
jóias.  Poucos  anos  antes,  quando  seu  cabelo  começou  a  rarear  e  ficar  branco,
para lhe dar corpo, ela usava o coque preto de azeviche preso com grampos na
cabeça  pequena  e  prateada.  A  seu  ver,  isso  era  perfeitamente  aceitável,  uma  vez
que todos os cabelos eram dela mesma. De noite, quando tirava o coque, deixava
os  netos  trançarem  o  que  lhe  restava  de  cabelos  num  rabo  de  rato  apertado,
untado  de  óleo,  com  uma  borrachinha  amarrada  na  ponta.  Um  trançava  seu
cabelo, enquanto o outro contava suas pintas incontáveis. Os dois se alternavam.
No  couro  cabeludo,  cuidadosamente  escondidas  pelo  cabelo  ralo,  Mammachi
tinha  saliências  em  forma  de  meia-lua.  Cicatrizes  das  velhas  surras  do  velho
casamento. Suas cicatrizes do vaso de latão.
Ela  tocava  “Lentement”,  um  movimento  da  Suíte 
I
  em  Ré/  Sol,  da  Water
Music, de Haendel. Detrás dos óculos escuros gatinho, seus olhos inúteis estavam
fechados, mas ela conseguia enxergar a música saindo do violino e flutuando pela
tarde, como fumaça.
Sua cabeça por dentro era como um quarto com cortinas escuras fechadas para
um dia claro.
Ao tocar, sua alma vagava para os anos de sua primeira produção profissional
de picles. Como eram bonitos! Embalados e selados, alinhados na mesa perto da
cabeceira de sua cama, para serem a primeira coisa que ela ia tocar de manhã,
ao  despertar.  Foi  para  a  cama  cedo  essa  noite,  mas  acordou  pouco  depois  da
meia-noite.  Procurou  por  eles  e  seus  dedos  ansiosos  tocaram  uma  película  de
óleo.  Os  frascos  de  picles  estavam  em  cima  de  uma  poça  de  óleo.  Havia  óleo
por toda parte. Formando um anel em torno de sua garrafa térmica. Debaixo da
Bíblia.  Em  cima  da  mesa-de-cabeceira  toda.  As  mangas  em  picles  tinham
absorvido óleo e se expandido, fazendo os frascos vazarem.
Mammachi  consultou  o  livro  que  Chacko  havia  trazido  para  ela,  Conservas
domésticas,  mas  não  encontrou  uma  solução.  Então,  ditou  uma  carta  para  o
cunhado  de  Annamma  Chandy,  que  era  Gerente  Regional  da  Padma  Picles,  em
Bombaim. Ele sugeriu que ela aumentasse a proporção de conservante que estava
usando. E o sal. Isso ajudou, mas não resolveu inteiramente o problema. Mesmo
agora, tantos anos depois, os frascos da Paraíso Picles ainda vazavam um pouco.
Era  imperceptível,  mas  ainda  vazavam,  e  em  transportes  demorados  os  rótulos
ficavam oleosos e transparentes. E os picles em si continuavam a ser um pouco
salgados demais.
Mammachi  imaginou  se  algum  dia  conseguiria  dominar  a  arte  da  perfeita
conservação,  e  se  Sophie  Mol  ia  gostar  da  polpa  de  uva  gelada.  Um  pouco  de
suco roxo gelado num copo.
Então  pensou  em  Margaret  Kochamma,  e  as  notas  lânguidas,  líquidas,  da

música de Haendel ficaram agudas e zangadas.
Mammachi não conhecia Margaret Kochamma. Mas a desprezava mesmo assim.
Filha  de  comerciante,  foi  como  Mammachi  arquivou  mentalmente  Margaret
Kochamma. O mundo de Mammachi era arrumado assim. Se era convidada para
um  casamento  em  Kottayam,  passava  o  tempo  inteiro  cochichando  com  quem
quer  que  estivesse  junto:  “O  avô  materno  da  noiva  foi  carpinteiro  do  meu  pai.
Kunjukutty  Eapen?  A  irmã  da  bisavó  dele  não  passava  de  uma  parteira  em
Trivandrum. A família do meu marido era dona dessa montanha inteira”.
Claro  que  Mammachi  desprezaria  Margaret  Kochamma  mesmo  que  ela  fosse
herdeira  do  trono  da  Inglaterra.  Não  era  só  a  sua  ascendência  de  classe
trabalhadora  que  Mammachi  reprovava.  Ela  odiava  Margaret  Kochamma  por  ser
mulher de Chacko. Odiava-a por ter deixado Chacko. Mas a teria odiado ainda
mais se tivesse ficado com ele.
No dia que Chacko impediu que Pappachi batesse nela (e que Pappachi matou
a  própria  cadeira),  Mammachi  empacotou  toda  a  sua  bagagem  “esposal”  e  a
confiou aos cuidados de Chacko. Dali em diante ele se tornou o depositário de
todos  os  seus  sentimentos  femininos.  O  Homem  dela.  O  único  Amor  da  vida
dela.
Ela  sabia  das  relações  libertinas  dele  com  as  mulheres  da  fábrica,  mas  não
ficava  mais  magoada  com  isso.  Quando  Baby  Kochamma  puxou  o  assunto,
Mammachi ficou tensa, de lábios contraídos.
“Ele não pode deixar de ter Necessidades Masculinas”, disse, afetada.
Surpreendentemente,  Baby  Kochamma  aceitou  essa  explicação,  e  a  noção  de
Necessidades  Masculinas,  enigmática  e  secretamente  emocionante,  ganhou  sanção
implícita  na  Casa  Ayemenem.  Nem  Mammachi,  nem  Baby  Kochamma  viam
nenhuma contradição entre a cabeça marxista de Chacko e sua libido feudal. Elas
só se preocupavam com os naxalitas, que sabiam terem forçado homens de Boas
Famílias  a  se  casarem  com  criadas  que  haviam  engravidado.  Evidentemente,  elas
não  suspeitavam  nem  remotamente  que  o  míssil,  quando  fosse  disparado,  aquele
que  aniquilaria  para  sempre  o  Bom  Nome  da  família,  viria  de  outra  fonte
completamente inesperada.
Mammachi  mandou  construir  uma  entrada  independente  para  o  quarto  de
Chacko,  que  ficava  no  lado  leste  da  casa,  para  que  os  objetos  de  suas
“Necessidades”  não  tivessem  de  circular  por  dentro  da  casa.  Secretamente,  ela
escorregava  dinheiro  para  deixá-las  contentes.  Elas  aceitavam  porque  precisavam.
Tinham  filhos  novos  e  parentes  velhos.  Ou  maridos  que  gastavam  tudo  o  que
ganhavam  nos  bares  de  vinho  de  palmeira.  O  arranjo  era  conveniente  para
Mammachi,  porque,  na  cabeça  dela,  um  pagamento  esclarecia  as  coisas.  Separava
sexo de amor. Necessidades de Sentimentos.
Margaret Kochamma, no entanto, era um caso muito diferente. Como ela não
tinha  meios  de  descobrir  (embora  tenha  tentado  uma  vez  mandar  Kochu  Maria
examinar  os  lençóis  em  busca  de  manchas),  Mammachi  só  podia  esperar  que

Margaret Kochamma não estivesse pretendendo retomar seu relacionamento sexual
com  Chacko.  Enquanto  Margaret  Kochamma  esteve  em  Ayemenem,  Mammachi
conseguiu controlar seus sentimentos incontroláveis, enfiando dinheiro nos bolsos
dos vestidos que Margaret Kochamma deixava no cesto de roupa suja. Margaret
Kochamma  nunca  devolveu  o  dinheiro  simplesmente  porque  nunca  o  encontrou.
Seus bolsos eram esvaziados como parte da rotina de Aniyan, a dhobi. Mammachi
sabia disso, mas preferia interpretar o silêncio de Margaret Kochamma como uma
aceitação  tácita  de  pagamento  pelos  favores  que  Mammachi  imaginava  que  ela
estivesse dispensando a seu filho.
Assim, Mammachi tinha a satisfação de ver Margaret Kochamma apenas como
mais  uma  puta,  Aniyan,  a  dhobi,  ficava  contente  com  a  gratificação  diária,  e,  é
claro,  Margaret  Kochamma  continuava  celestialmente  inconsciente  de  todo  o
arranjo.
 
 
Pousado  em  cima  do  poço,  um  cuco  despenteado  gritou  Hwoop  Hwoop  e
sacudiu as asas vermelho-ferrugem.
Um corvo roubou um pedaço de sabão que fez bolhas em seu bico.
Na cozinha escura e fumacenta, a baixinha Kochu Maria ficou nas pontas dos
pés e espalhou o glacê no bolo de duas camadas, escrito em cima 
BEM-VINDA AO
LAR,  SOPHIE  MOL
.  Embora  mesmo  naqueles  dias  a  maioria  das  mulheres  cristãs
sírias tivesse começado a usar sáris, Kochu Maria ainda vestia sua impecável chatta
branca  de  meia  manga  com  decote  em  V  e  seu  mundu  branco,  que  se  dobrava
num  rígido  leque  de  pano  no  traseiro.  O  leque  do  traseiro  de  Kochu  Maria
ficava  mais  ou  menos  escondido  pelo  avental  de  governanta  xadrez  de  branco  e
azul, com babados, absurdamente incongruente, que Mammachi insistia que usasse
dentro de casa.
Tinha  braços  curtos  e  grossos,  dedos  como  minissalsichas  e  um  nariz  largo  e
carnoso  com  narinas  abertas.  Fundas  dobras  de  pele  ligavam  seu  nariz  aos  dois
lados do queixo e separavam essa parte do rosto do resto, como um focinho. A
cabeça  era  grande  demais  para  o  corpo.  Ela  parecia  um  feto  preservado  que
tinha  escapado  de  seu  frasco  de  formol  de  um  laboratório  de  Biologia  e  se
desenrugado e engrossado com a idade.
Guardava  dinheiro  úmido  no  sutiã  que  apertava  com  força  no  peito  para
achatar aqueles seios nada cristãos. Seus brincos kunukku eram grossos, de ouro.
Os lóbulos tinham se distendido com o peso e iam até seu pescoço, os brincos
pousando em seus ombros como crianças alegres num carrossel. O lóbulo direito
havia se rompido uma vez, e sido costurado de novo pelo dr. Verghese Verghese.
Kochu  Maria  não  podia  deixar  de  usar  seus  kunukku  porque,  senão,  como  as
pessoas  iam  saber  que,  apesar  de  seu  emprego  inferior  de  cozinheira  (setenta  e
cinco rúpias por mês), ela era uma Cristã Síria, Mar Thomite? Não uma pelaya,
nem  uma  pulaya,  nem  uma  paravan.  Mas  uma  tocável,  uma  cristã  de  casta

superior (em quem a cristandade se instilara como chá de um saquinho). Lóbulos
rompidos e costurados eram, de longe, a melhor opção.
Kochu  Maria  ainda  não  tinha  conhecimento  da  viciada  em  televisão  que
esperava  dentro  dela.  A  viciada  em  Hulk  Hogan.  Ela  nunca  tinha  visto  um
aparelho  de  televisão.  Ela  nem  acreditaria  que  televisão  existia.  Se  alguém
sugerisse que existia, Kochu Maria teria concluído que a pessoa estava insultando
sua inteligência. Kochu Maria desconfiava das versões que as pessoas contavam do
mundo exterior. No mais das vezes, tomava-as por uma afronta deliberada à sua
falta  de  formação,  sua  ingenuidade  (anterior).  Numa  inversão  decidida  de  sua
natureza inerente, Kochu Maria decidira agora quase nunca acreditar em nada do
que  diziam.  Poucos  meses  antes,  em  julho,  quando  Rahel  lhe  contara  que  um
astronauta  norte-americano  chamado  Neil  Armstrong  tinha  andado  na  Lua,  ela
riu,  sarcástica,  e  disse  que  um  acrobata  malayali  chamado  O.  Muthachen  havia
dado  várias  cambalhotas  no  Sol.  Com  lápis  enfiados  no  nariz.  Estava  preparada
para admitir que os norte-americanos existiam embora nunca tivesse visto um. Ela
estava até preparada para acreditar que Neil Armstrong podia até ser algum tipo
de  nome  absurdo.  Mas  essa  história  de  andar  na  Lua?  Não,  senhor.  Nem
tampouco  acreditou  nas  vagas  fotos  que  apareceram  no  Malayala  Manorama  que
não sabia ler.
Ela  ainda  tinha  certeza  de  que  quando  Estha  lhe  disse  “Et  tu,  Kochu  Maria!”
ele  a  estava  insultando  em  inglês.  Achou  que  queria  dizer  alguma  coisa  como
Kochu  Maria,  sua  anã  preta  e  feia.  Ela  deixou  passar,  esperando  uma  ocasião
adequada para reclamar dele.
Terminou  de  cobrir  o  bolo.  Depois  deitou  a  cabeça  para  trás  e  apertou  o
resto  do  glacê  em  cima  da  língua.  Espirais  sem  fim  de  pasta  de  chocolate  na
língua rosada de Kochu Maria. Quando Mammachi chamou da varanda (“Kochu
Mariye!  Estou  ouvindo  o  carro!”),  sua  boca  estava  cheia  de  glacê  e  ela  não
conseguiu responder. Quando terminou, passou a língua pelos dentes e deu uma
série de estalos com a língua contra o céu da boca, como se tivesse acabado de
comer alguma coisa amarga.
 
 
Sons  azuiscelestes  de  carro  distante  (passando  pelo  ponto  de  ônibus,  passando
pela  escola,  pela  igreja  amarela  e  subindo  a  estrada  vermelha  esburacada  pelo
meio  das  seringueiras)  lançaram  um  murmúrio  pelas  instalações  penumbrosas  e
poeirentas da Paraíso Picles.
A conservação (e o moer, fatiar, ferver e mexer, salgar, secar, pesar e rotular)
parou.
“Chacko  Saar  vannu”  vinha  a  notícia  voando.  Facas  foram  pousadas.  Vegetais
abandonados,  meio  cortados,  sobre  imensas  bandejas  de  metal.  Abobrinhas
desoladas,  abacaxis  incompletos.  Protetores  digitais  de  borracha  (de  cores
brilhantes  como  alegres  e  grossas  camisinhas)  foram  tirados.  Mãos  em  conserva

lavadas  e  enxutas  em  aventais  azul-cobalto.  Cachos  de  cabelos  soltos  foram
recapturados  e  presos  por  lenços  de  cabeça  brancos.  Mundus  amarrados  sob
aventais  foram  soltos.  As  portas  de  tela  da  fábrica  tinham  molas  e  fechavam-se
sozinhas, ruidosamente.

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