Dados de copyright



Baixar 1.69 Mb.
Pdf preview
Página4/21
Encontro18.07.2020
Tamanho1.69 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21
A primeira vez que ele me beijou foi na neve. Neve em abril. Bem-vindo ao Meio-Oeste.
Eleanor estava de branco, eu estava de preto, uma coisa meio Sexta-feira muito louca que a
gente  fazia  de  vez  em  quando,  irmã  boa  e  irmã  má  com  papéis  invertidos.  O  irmão  mais
velho  de  Ryan,  Eli,  estava  dando  uma  festa.  Eleanor  subiu  com  Eli  e  eu  fiquei  dançando.
Amanda, Suze, Shelby, Ashley e eu. Ryan estava na janela. Foi ele que avisou:
— Está nevando!
Dancei até lá, passando pela multidão, e ele olhou pra mim.
— Vamos.
Simples assim.
Pegou minha mão e corremos pra fora. Os flocos eram pesados como a chuva, grandes,
brancos e brilhantes. Tentamos pegar alguns com a língua, e a língua dele encontrou minha

boca. Fechei os olhos enquanto os flocos pousavam em minhas bochechas.
Lá dentro, barulho de gritaria e coisas quebrando. Sons de uma festa. As mãos de Ryan
embaixo  da  minha  camiseta.  Lembro  que  estavam  quentes,  e  no  meio  do  beijo  eu  estava
pensando:  Estou  beijando  Ryan  Cross.  Coisas  assim  não  aconteciam  comigo  antes  de  a
gente se mudar para Indiana. Coloquei as mãos embaixo do moletom dele também e senti a
pele quente e macia. Era exatamente como eu imaginava.
Mais gritos, mais coisas quebrando. Ryan se afastou e eu olhei pra ele, pra mancha de
batom em sua boca. Eu só conseguia pensar: É o meu batom nos lábios de Ryan Cross. Ai-
meu-Deus.
Queria  ter  uma  foto  minha  daquele  instante  exato  pra  lembrar  como  eu  era.  Aquele  foi  o
último momento bom antes de tudo ficar ruim e mudar pra sempre.
Agora Ryan me abraça e me levanta do chão.
— Você está indo pro lado errado, V. — Começa a me levar em direção à casa de Amanda.
— Já passei lá. Tenho que ir pra casa. Estou enjoada. Me põe no chão. — Dou soquinhos
nele e ele me põe no chão, porque Ryan é um bom garoto, que faz o que mandam.
— O que aconteceu?
— Estou enjoada. Acabei de vomitar. Tenho que ir. — Dou tapinhas no braço dele como se
fosse um cachorro. Viro e corro pelo gramado, desço a rua, dobro a esquina e vou pra casa.
Escuto Ryan gritar meu nome, mas não olho pra trás.
 
 
—  Você  voltou  cedo.  —  Minha  mãe  está  no  sofá  com  o  nariz  enfiado  num  livro.  Meu  pai
está jogado do outro lado, olhos fechados, fones de ouvido.
—  Nem  tanto.  —  Paro  no  início  da  escada.  —  Só  pra  você  saber,  foi  uma  má  ideia.  Eu
sabia que era uma má ideia e fui mesmo assim pra você ver como estou tentando. Mas não era
uma festa do pijama. Era uma festa mesmo. Do tipo “vamos ficar bêbados e fazer uma orgia”
— digo tudo isso como se a culpa fosse deles.
Minha mãe cutuca meu pai, que tira os fones. Eles sentam.
— Você quer conversar? Sei que deve ter sido difícil, um susto. Por que não fica um pouco
aqui com a gente?
Como Ryan, meus pais são perfeitos. Fortes, corajosos e carinhosos e, embora eu saiba que
eles  choram,  ficam  com  raiva  e  talvez  até  atirem  coisas  quando  estão  sozinhos,  raramente
presencio cenas assim. Pelo contrário: eles me encorajam a sair de casa e entrar no carro e
voltar pra estrada. Eles ouvem e perguntam e se preocupam, e estão do meu lado. Aliás, estão
do meu lado até demais agora. Precisam saber onde vou, o que faço, quem vou encontrar e a
que horas pretendo voltar. Mande mensagem quando estiver indo, mande mensagem quando
estiver voltando.
Cogito sentar um pouco com eles, só pra concordar com alguma coisa, depois de tudo que
passaram, depois do que quase fiz passarem ontem. Mas não sento.
— Estou cansada. Acho que vou deitar.
 
 

Dez  e  meia  da  noite.  Meu  quarto.  Estou  com  a  pantufa  do  Freud,  uma  felpuda  com  a  cara
dele estampada, e meu pijama tem uns macacos roxos desenhados. É o que visto quando quero
ficar feliz. Risco o dia com um “X” preto no calendário que fica na porta do guarda-roupa e
me acomodo na cama, encostada nos travesseiros, livros espalhados pelo edredom. Desde que
parei  de  escrever,  leio  mais  do  que  nunca.  Palavras  de  outras  pessoas,  não  as  minhas  —
minhas palavras se foram. Neste momento, estou curtindo muito as irmãs Brontë.
Amo meu quarto. O mundo é melhor aqui do que lá fora, porque aqui sou o que eu quiser.
Sou uma autora brilhante. Posso escrever cinquenta páginas por dia e nunca fico sem palavras.
Sou uma futura aluna de escrita criativa na 
NYU
. Sou a criadora de uma revista on-line popular
— não a que fiz com a Eleanor, uma revista nova. Sou destemida. Sou livre. Estou segura.
Não  consigo  decidir  de  qual  das  irmãs  Brontë  gosto  mais.  De  Charlotte  não,  porque  ela
parece minha professora do sexto ano. Emily é feroz e despreocupada, e Anne é a ignorada.
Torço por Anne. Leio e depois fico deitada em cima do edredom olhando pro teto. Desde abril
tenho a sensação de que estou à espera de alguma coisa. Mas não faço ideia do quê.
Depois  de  um  tempo,  levanto.  Há  pouco  mais  de  duas  horas,  às  19h58,  Theodore  Finch
postou um vídeo no Facebook. Ele tocando guitarra, sentado onde imagino que seja seu quarto.
A voz é boa, mas rouca, como se tivesse fumado muito. Está inclinado na guitarra, o cabelo
preto caindo nos olhos. A imagem está embaçada, como se tivesse filmado com o celular. A
letra da música é sobre um cara que pula do telhado da escola.
No fim da música, ele fala pra câmera:
— Violet Markey, se você vir isso, ainda deve estar viva. Por favor, confirme.
Fecho o vídeo como se ele pudesse me enxergar. Quero que o dia de ontem, Theodore Finch
e a torre do sino sumam. Pra mim, aquilo tudo foi um pesadelo. O pior deles. O 
PIOR
  que  já
tive.
Escrevo uma mensagem privada: 
Por  favor,  apague  o  vídeo  ou  edite  o  que  falou  no  fim  pra  ninguém  mais  ler/
ouvir.
Ele responde imediatamente: 
Parabéns!  Imagino,  pela  mensagem,  que  está  viva!  Agora  que  sei  disso,  acho  que
devemos conversar sobre o que aconteceu, já que você é minha dupla no projeto. (E ninguém além de nós vai ver o vídeo.)
Eu: 
Estou bem. Quero muito parar de falar disso e esquecer que aconteceu. (Como você sabe?)
Finch: 
(Porque só entrei no Facebook pra falar com você. Além do mais, agora que você já viu, o vídeo se autodestruirá
em cinco segundos. Cinco, quatro, três, dois…)
Finch: 
Por favor, atualize a página.
O vídeo some.
Finch: 
Se você não quiser conversar pelo Facebook, posso ir aí.
Eu: 
Agora?
Finch: 
Bom, teoricamente, em cinco ou dez minutos. Tenho que me vestir primeiro, a não ser que você prefira que eu vá
pelado, além do tempo que vou gastar no caminho.
Eu: 
Está tarde.
Finch: 
Isso é relativo. Olha só, eu não acho que está tarde. Eu acho que está cedo. É o início das nossas vidas. O início da
noite. O início do ano. Se você parar pra pensar, vai ver que está mais cedo que tarde. A gente só vai conversar. Nada mais
que isso. Não estou dando em cima de você.
Finch: 
A não ser que você queira. Que eu dê em cima de você.
Eu: 
Não.
Finch: 
“Não”, você não quer que eu vá, ou “não”, você não quer que eu dê em cima de você?

Eu: 
Os dois. Todas as anteriores.
Finch: 
Tá bom. A gente pode conversar na escola. Talvez na aula de geografia, ou posso procurar você no almoço. Você
em geral está com Amanda e Roamer, né?
Ai, meu Deus. Faz isso parar. Faz ele desistir.
Eu: 
Se você vier aqui hoje, promete parar com isso de uma vez por todas?
Finch: 
Palavra de escoteiro.
Eu: 
Só pra conversar. Nada além disso. E tem que ser rápido.
Assim que escrevo, me arrependo. Amanda e a festa estão ali, a poucas quadras. Qualquer
um pode passar por aqui e ver Finch.
Eu: 
Você ainda está aí?
Ele não responde.
Eu: 
Finch?

DIA 7 DESPERTO
Entro no velho 
SUV
 compacto da minha mãe, mais conhecido como Tranqueira, e vou pra casa
de Violet Markey pela estrada que corre paralela à Nacional, principal via que corta a cidade.
Piso  no  acelerador  e  o  velocímetro  sobe  rápido,  noventa,  cem,  cento  e  dez,  cento  e  vinte,  o
ponteiro tremendo e o Tranqueira fazendo o melhor que pode pra ser um carro esportivo, não
uma minivan de cinco anos de idade.
No dia 23 de março de 1950, o poeta italiano Cesare Pavese escreveu: O amor é o grande
manifesto;  a  urgência  de  ser,  de  ter  alguma  importância  e,  se  a  morte  vier,  morrer  com
valentia, com clamor — em suma, permanecer na memória. Cinco meses mais tarde, entrou
no escritório de um jornal e escolheu a foto de seu obituário no arquivo. Deu entrada em um
hotel  e,  dias  depois,  foi  encontrado  esticado  na  cama,  morto.  Ele  estava  completamente
vestido, com exceção dos sapatos. Na mesa de cabeceira havia dezesseis caixas de remédio
pra dormir vazias e um bilhete: A todos perdoo e a todos peço perdão. Tudo bem? Não façam
muita fofoca, por favor.
Cesare  Pavese  não  tem  nada  a  ver  com  dirigir  rápido  em  uma  estrada  de  Indiana,  mas
entendo a urgência de ser e de ter alguma importância. Apesar de achar que tirar o sapato em
um quarto de hotel e engolir um monte de remédio pra dormir não seja uma forma de morrer
com valentia e com clamor, o que importa é a intenção.
Faço  o  Tranqueira  alcançar  os  cento  e  trinta.  Vou  aliviar  quando  chegar  nos  cento  e
quarenta. Nem cento e trinta e sete. Nem cento e trinta e oito. É cento e quarenta ou nada.
Me inclino para a frente, como se fosse um foguete, como se 
EU
 fosse o carro. E começo a
gritar, porque a cada segundo fico mais desperto. Sinto a adrenalina — mais do que isso, sinto
tudo à minha volta e dentro de mim, a estrada, meu sangue e meu coração batendo na garganta,
e eu poderia acabar com tudo em um clamor valente de metal amassado e fogo explosivo. Piso
mais fundo no acelerador e agora não posso parar porque estou mais rápido que tudo. A única
coisa que importa é o impulso e como me sinto na colisão com o Grande Manifesto.
Então, no momento exato antes de meu coração ou o motor explodir, tiro o pé do acelerador
e  deslizo  pela  estrada  irregular,  o  Tranqueira  me  levando  sozinho  quando  saímos  do  chão  e
aterrissamos  com  tudo,  a  alguns  metros  de  distância,  metade  dentro  e  metade  fora  da  vala,
onde recupero o fôlego. Levanto as mãos e elas não tremem nem um pouco. Estão mais firmes
do  que  nunca,  olho  em  volta,  pro  céu  estrelado  e  pro  campo  e  pras  casas  escuras  e
adormecidas, e estou aqui, filhos da p… Estou aqui.
 
 
Violet mora a uma rua de Suze Haines, em um casarão branco com chaminé vermelha em um
bairro do outro lado da cidade. Quando chego ela está sentada na escada da frente, com um
casaco  gigante,  parecendo  pequena  e  sozinha.  Levanta  rápido  e  me  encontra  na  metade  da

calçada, então olha atrás de mim como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa.
— Você não precisava vir até aqui.
Está sussurrando, como se a gente fosse acordar a vizinhança.
Sussurro de volta.
—  A  gente  não  mora  em  Los  Angeles  nem  em  Cincinnati.  Levei,  tipo,  cinco  minutos  pra
chegar. Bela casa, aliás.
— Olha, obrigada por vir, mas não preciso conversar. — O cabelo está preso em um rabo
de cavalo, e umas mechas estão caindo no rosto. Ela coloca uma atrás da orelha. — Eu estou
bem.
— Nunca minta para um mentiroso. Sei reconhecer muito bem um pedido de ajuda, e acho
que quase pular de um parapeito com certeza se classifica como um. Seus pais estão em casa?
— Estão.
— Que pena. Quer dar uma volta? — Começo a andar.
— Não pra lá. — Ela puxa meu braço e me leva para o outro lado.
— Estamos evitando alguma coisa?
— Não. É só… hum… mais agradável pra cá.
Faço minha melhor imitação do Embrião:
— Então, há quanto tempo você tem esses impulsos suicidas?
— Meu Deus! Fala baixo. E eu não sou… não sou…
— Suicida. Pode dizer.
— Bom, tanto faz, eu não sou.
— Ao contrário de mim.
— Não é isso que quero dizer.
— Você estava naquele parapeito porque não sabia mais pra onde ir nem o que fazer. Você
tinha perdido a esperança. Então, como um cavaleiro valente, eu salvei sua vida. Aliás, você
fica totalmente diferente sem maquiagem. Isso não é ruim, só diferente. Talvez até melhor. E
qual é a desse seu site? Você sempre quis escrever? Me fale de você, Violet Markey.
Ela responde como se fosse um robô.
— Acho que não tem muito o que falar. Não tenho nada pra contar.
— Então, Califórnia. Deve ter sido uma mudança e tanto. Você gosta?
— Do quê?
— Bartlett.
— É legal.
— E este bairro?
— É legal também.
— Não são as palavras de alguém que acabou de ter sua vida de volta. Você deveria estar
no  topo  da  p…  do  mundo  agora.  Eu  estou  aqui.  Você  está  aqui.  Não  só  isso:  você  está  aqui
comigo. Consigo pensar em pelo menos uma garota que gostaria de estar no seu lugar.
Ela solta um grunhido de frustração (estranhamente atraente) e diz:
— O que você quer?
Paro embaixo de um poste. Deixo de lado as tentativas de persuasão e o charme.
— Quero saber por que você estava lá. E se está bem.

— Se eu contar, você vai embora?
— Sim.
— E nunca mais fala disso?
— Depende das respostas.
Ela suspira e começa a andar. Por um tempo, não fala nada, então fico quieto, esperando. Os
únicos sons vêm da 
TV
 de alguém e de uma festa por perto.
Depois de algumas quadras, digo:
—  Qualquer  coisa  que  você  disser  fica  entre  a  gente.  Você  pode  não  ter  notado,  mas  não
tenho  muitos  amigos.  E  mesmo  que  tivesse,  não  faria  diferença.  Aqueles  imbecis  já  têm
assunto suficiente.
Ela respira fundo.
—  Quando  fui  até  a  torre,  não  estava  pensando.  Foi  como  se  minhas  pernas  subissem  a
escada e eu só fosse guiada. Nunca fiz nada desse tipo antes. Quer dizer, aquela não sou eu.
Depois,  foi  como  se  eu  tivesse  acordado  naquele  parapeito.  Eu  não  sabia  o  que  fazer,  então
comecei a me desesperar.
— Você contou pra alguém o que aconteceu?
— Não. — Ela para de andar e resisto à vontade de tocar seu cabelo, que sopra no rosto.
Ela arruma.
— Nem pros seus pais?
— Muito menos pra eles.
— Você ainda não me falou o que estava fazendo lá em cima.
Eu não espero que ela responda, mas…
— Era aniversário da minha irmã. Ela faria dezenove anos.
— Merda. Sinto muito.
—  Mas  esse  não  é  o  motivo.  O  motivo  é  que  nada  disso  importa.  O  colégio,  a  equipe  de
torcida, os namorados, os amigos, as festas, os cursos de escrita criativa… — Ela gesticula
com os braços. — Tudo isso é só pra passar o tempo até a gente morrer.
— Talvez. Talvez não. De qualquer maneira, estou muito feliz por estar aqui. — Se tem uma
coisa que aprendi, é que a gente precisa aproveitar ao máximo. — Foi o suficiente pra você
não pular.
— Posso perguntar uma coisa? — Ela mantém o olhar no chão.
— Claro.
— Por que chamam você de Theodore Aberração?
Agora eu é que encaro o chão como se fosse a coisa mais interessante que já vi. Demoro um
tempo  pra  responder,  tentando  decidir  o  que  dizer.  Sinceramente,  Violet,  não  sei  por  que  a
galera não gosta de mim. Mentira. Quer dizer, eu sei e não sei. Sempre fui diferente, mas pra
mim diferente é normal. Decido por uma versão da verdade.
— No oitavo ano, eu era muito menor do que sou agora. Isso foi antes de você vir pra cá. —
Levanto  o  olhar  o  suficiente  pra  ver  que  ela  faz  que  sim  com  a  cabeça.  —  Minhas  orelhas
eram enormes. Meus cotovelos também. Minha voz só ficou normal um verão antes do ensino
médio, quando dei uma esticada de uns trinta e cinco centímetros.
— Só por isso?

—  Por  isso  e  porque  às  vezes  eu  digo  e  faço  coisas  sem  pensar.  As  pessoas  não  aceitam
muito bem.
Ela  fica  quieta  enquanto  viramos  uma  esquina,  e  enxergo  sua  casa  ao  longe.  Caminho
devagar pra gente ter mais tempo.
— Conheço a banda que está tocando no Quarry. A gente podia ir lá, esquentar um pouco,
ouvir  música,  esquecer  tudo.  Também  conheço  um  lugar  que  tem  uma  vista  bem  bacana  da
cidade. — Abro um dos meus melhores sorrisos.
— Vou entrar e dormir.
Sempre fico impressionado com o sono das pessoas. Eu nunca dormiria se não precisasse.
— Ou a gente pode dar uns amassos.
— Acho que não.
Mais ou menos um minuto depois, chegamos até meu carro.
— E como você subiu lá, afinal? A porta estava aberta quando cheguei, mas geralmente está
trancada.
Ela sorri pela primeira vez.
— Talvez eu tenha arrombado a fechadura.
Solto um assobio.
— Violet Markey. Quem diria?
Em um piscar de olhos, ela atravessa a calçada e entra em casa. Fico ali olhando até a luz
acender  em  uma  janela  no  andar  de  cima.  Uma  sombra  se  mexe  e  vejo  a  silhueta  de  Violet,
como  se  ela  estivesse  olhando  através  da  cortina.  Me  encosto  no  carro,  esperando  pra  ver
quem desiste primeiro. Fico ali até a sombra sumir e a luz se apagar.
 
 
Em  casa,  estaciono  o  Tranqueira  na  garagem  e  vou  pra  minha  corrida  noturna.  Corrida  no
inverno, natação no resto do ano. Meu trajeto de sempre é descer a estrada Nacional, passar
pelo  hospital  e  pela  área  de  camping  até  uma  ponte  velha  de  metal  que  parece  ter  sido
esquecida por todo mundo, menos por mim. Acelero sobre os muros que servem de barra de
proteção e, ao passar sem cair, sei que estou vivo.
Inútil.  Burro.  Essas  foram  as  palavras  que  cresci  ouvindo.  São  palavras  das  quais  tento
fugir, porque, se deixá-las entrar, elas podem ficar e crescer e me preencher até que a única
coisa  restante  dentro  de  mim  seja  inútil  burro  inútil  burro  inútil  burro  aberração.  E  não
posso fazer nada além de correr mais rápido e me preencher com outras palavras: Desta  vez
vai ser diferente. Desta vez vou ficar desperto.
Corro quilômetros, não conto quantos, passando casas e mais casas com as luzes apagadas.
Sinto pena de todos que estão dormindo.
Pego um caminho diferente pra casa, pela ponte da rua A. Essa ponte é mais movimentada
porque liga o centro ao lado oeste de Bartlett, onde ficam o colégio, a faculdade e todos os
bairros crescendo entre eles.
Corro pelo que restou da barra de proteção de concreto. Ainda tem um buraco no meio, e
alguém  colocou  uma  cruz  perto.  A  cruz  está  tombada,  a  tinta  branca  desbotada  em  cinza  por
causa do clima de Indiana, e me pergunto quem a colocou ali — Violet? Seus pais? Alguém do

colégio? Corro até o fim da ponte e corto caminho pela grama, até a ribanceira embaixo, que é
um antigo leito de rio seco cheio de pontas de cigarro e garrafas de cerveja.
Chuto o lixo e as pedras e a sujeira. Alguma coisa brilha prateada no escuro, e então vejo
outras  coisas  reluzindo  —  pedaços  de  vidro  e  metal.  O  plástico  vermelho  de  uma  lanterna
traseira. Um espelho retrovisor quebrado. Uma placa amassada e quase dobrada ao meio.
Tudo  isso  de  repente  faz  parecer  real.  Eu  poderia  afundar  na  terra  como  uma  pedra  e  ser
engolido inteiro com o peso do que aconteceu aqui.
Deixo tudo como estava, a não ser pela placa, que levo comigo. Deixá-la ali parece errado,
como  se  fosse  uma  coisa  muito  pessoal  pra  ficar  ao  relento,  onde  alguém  que  não  conhece
Violet nem sua irmã pode pegar e achar bacana ou guardar como se fosse uma lembrancinha.
Corro pra casa, me sentido pesado e vazio. Desta vez vai ser diferente. Desta vez vou ficar
desperto.
Corro até o tempo parar. Até minha cabeça parar. Até que a única coisa que sinto é o metal
gelado nas mãos e o sangue pulsando.

152 DIAS PARA A FORMATURA
Domingo de manhã. Meu quarto.
O  domínio  eleanoreviolet.com  está  expirando.  Sei  disso  porque  a  empresa  que  hospeda  o
site me mandou um e-mail avisando que devo renovar agora ou desistir dele. No laptop, abro
nossas pastas de anotações e dou uma olhada nas ideias em que estávamos trabalhando antes
de  abril.  Mas,  sem  Eleanor  pra  me  ajudar  a  decifrar  as  abreviações,  são  só  fragmentos  sem
sentido.
Nós  tínhamos  opiniões  diferentes  sobre  a  revista.  Eleanor  era  mais  velha  (e  mandona),  o
que  significava  que  geralmente  ficava  no  comando  e  conseguia  fazer  as  coisas  do  jeito  que
queria. Posso tentar salvar o site, talvez reformular e transformar em algo novo — um lugar
onde  escritores  possam  compartilhar  seus  textos.  Um  site  que  não  seja  só  sobre  esmalte  e
garotos e música, mas outras coisas também, tipo como trocar um pneu, falar francês ou o que
esperar quando saímos pro mundo.
Anoto  essas  ideias.  Então  entro  no  site  e  leio  a  última  postagem,  escrita  um  dia  antes  da
festa  —  duas  interpretações  do  livro  Julie  Plum,  garota  exorcista.  Nada  de  A  redoma  de
vidro ou O apanhador no campo de centeio.  Nada  importante  nem  surpreendente.  Nada  que
diga: Essa é a última coisa que você vai escrever antes que o mundo mude.
Apago  nossas  anotações.  Apago  o  e-mail  da  empresa  que  hospeda  o  site.  Então  esvazio  a
lixeira pra que o aviso fique tão morto e enterrado quanto Eleanor.

DIA 8 DESPERTO
Domingo à noite, Kate, Decca e eu vamos até a casa nova do meu pai, na parte mais rica da
cidade, para o Jantar em Família Semanal Obrigatório. Visto a mesma combinação de camisa
azul-marinho e calça cáqui que sempre uso para visitar meu pai.
No caminho, permanecemos em silêncio, cada um olhando por uma janela. Nem ligamos o
rádio.
—  Divirtam-se  —  minha  mãe  disse  antes  de  irmos,  tentando  parecer  alegre,  mas  sei  que,
assim que o carro saiu da garagem, ela ligou para uma amiga e abriu uma garrafa de vinho.
Vai ser a primeira vez que vejo meu pai desde o Dia de Ação de Graças e a primeira vez
que vou à casa onde ele mora com a Rosemarie e o filho dela.
É uma dessas casas enormes e novinhas que se parecem com todas as outras da rua. Quando
estacionamos na frente, Kate diz:
— Imagina tentar encontrar a casa certa depois de beber…
Marchamos pela calçada branca e limpa. Dois 
SUV
s iguais estão estacionados na frente da
garagem, brilhando como se sua pretensiosa vida mecânica dependesse disso.
Rosemarie abre a porta. Talvez tenha trinta anos, o cabelo é loiro avermelhado e o sorriso,
preocupado. Segundo minha mãe, ela é o que se chamaria de “cuidadora”, o que — também
segundo  minha  mãe  —  é  exatamente  do  que  meu  pai  precisa.  Ela  veio  com  um  acordo  de
duzentos  mil  dólares  do  ex-marido  e  um  menino  banguela  de  sete  anos  chamado  Josh
Raymond, que pode ou não ser meu irmão de verdade.
Meu  pai  vem  em  nossa  direção  lá  do  quintal,  onde  está  assando  quinze  quilos  de  carne,
apesar  de  estarmos  no  inverno.  Sua  camiseta  diz  
Baixar 1.69 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   21




©bemvin.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Prefeitura municipal
santa catarina
Universidade federal
prefeitura municipal
pregão presencial
universidade federal
outras providências
processo seletivo
catarina prefeitura
minas gerais
secretaria municipal
CÂmara municipal
ensino fundamental
ensino médio
concurso público
catarina município
reunião ordinária
Dispõe sobre
Serviço público
câmara municipal
público federal
Processo seletivo
processo licitatório
educaçÃo universidade
seletivo simplificado
Secretaria municipal
sessão ordinária
ensino superior
Universidade estadual
Relatório técnico
Conselho municipal
técnico científico
direitos humanos
científico período
pregão eletrônico
Curriculum vitae
espírito santo
Sequência didática
Quarta feira
conselho municipal
prefeito municipal
distrito federal
língua portuguesa
nossa senhora
educaçÃo secretaria
Pregão presencial
segunda feira
recursos humanos
educaçÃO ciência
Terça feira
agricultura familiar