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ficar quieto.
O sr. Black assiste da porta da sala, e tento acenar pra ele com naturalidade pra mostrar que
está  tudo  bem,  tudo  sob  controle,  não  tem  nada  de  mais  acontecendo,  as  mãos  não  estão
coçando,  a  pele  não  está  queimando,  o  sangue  não  está  fervendo,  siga  em  frente,  por  favor.
Prometi  a  mim  mesmo  que  este  ano  vai  ser  diferente.  Se  eu  continuar  no  controle  de  tudo,
incluindo  de  mim  mesmo,  talvez  consiga  ficar  desperto  e  aqui,  não  parcialmente  aqui,  mas
aqui, presente, agora.
 
 
A  chuva  parou  e,  no  estacionamento,  Charlie  Donahue  e  eu  estamos  encostados  no  carro
dele,  sob  o  sol  pálido  de  janeiro,  enquanto  ele  fala  daquilo  que  mais  ama  falar  além  de  si
mesmo:  sexo.  Nossa  amiga  Brenda  está  junto,  com  os  livros  apertados  contra  os  peitos
enormes e o cabelo brilhando em tons de rosa e vermelho.
Charlie  passou  as  férias  de  inverno  trabalhando  no  cinema  do  shopping  e  aparentemente
deixou todas as gostosas entrarem sem pagar. Isso fez com que conseguisse pegar mais garotas
do que até mesmo ele conseguiria dar conta, aproveitando bem os assentos do fundo, que não
têm encosto de braço.

— E você? — ele diz, acenando pra mim com a cabeça.
— O que tem eu?
— Por onde andou?
— Por aí. Não estava a fim de vir pra aula, então peguei a estrada e não olhei pra trás.
Não  tem  como  explicar  o  Apagão  aos  meus  amigos,  e  mesmo  se  tivesse,  não  tem  por  que
tocar no assunto. Umas das coisas que eu gosto no Charlie e na Bren é que não preciso ficar
me explicando. Apareço, sumo, e… Bom, é o Finch.
Charlie acena de novo.
—  A  gente  tem  que  arrumar  uma  garota  pra  você.  —  Ele  está  falando  indiretamente  do
incidente na torre. Se eu pegar alguém, não vou tentar me matar. De acordo com Charlie, pegar
alguém  conserta  tudo.  Se  os  líderes  mundiais  pegassem  alguém  pra  valer  e  com  frequência,
talvez os problemas do mundo desaparecessem.
Brenda fecha a cara.
— Você é nojento, Charlie.
— Você me ama.
— Nem em sonho. Por que você não é como Finch? Ele é um cavalheiro.
Não  são  muitas  as  pessoas  que  diriam  isso  de  mim,  mas  um  ponto  positivo  da  vida  é  que
podemos ser alguém diferente pra cada pessoa.
— Me deixa fora disso — digo.
Bren balança a cabeça.
—  Não,  estou  falando  sério.  É  raro  encontrarmos  cavalheiros.  São  como  virgens  ou
duendes. Se um dia eu casar, vai ser com um…
Não resisto e complemento:
— Um virgem ou um duende?
Ela me dá um murro no braço.
— Existe uma diferença entre ser cavalheiro e não ter as manhas — Charlie aponta pra mim.
— Sem ofensa, cara.
— Tudo bem.
Afinal de contas é verdade, pelo menos em comparação a ele, e o que Charlie quer dizer é
que não tenho talento com mulheres. Sempre acabo indo atrás das mal-humoradas ou doidas ou
que fingem não me conhecer quando tem alguém por perto.
Enfim, mal estou prestando atenção, porque por cima do ombro da Bren vejo Violet. Sinto
que estou me apaixonando — e sou famoso por isso. (Suze Haines, Laila Collman, Annalise
Lemke,  as  três  Brianas  —  Briana  Harley,  Briana  Bailey,  Briana  Boudreau…)  Só  porque  ela
sorriu pra mim. Mas foi um belo sorriso. Um sorriso genuíno, o que é difícil de encontrar nos
dias de hoje. Principalmente quando se é Theodore Aberração.
Bren vira pra ver o que estou olhando. Balança a cabeça, a boca em um sorriso debochado
que me faz proteger o braço.
— Meu Deus! Vocês garotos são todos iguais.
 
 
Em  casa,  minha  mãe  está  no  telefone  e  colocou  um  dos  ensopados  que  minha  irmã  Kate

prepara  no  início  de  toda  semana  pra  descongelar.  Acena  pra  mim  e  continua  falando.  Kate
desce a escada correndo, pega a chave do carro no balcão e diz:
— Até mais tarde, trouxa.
Tenho duas irmãs: Kate, um ano mais velha que eu, e Decca, de oito anos. Ela claramente
não foi planejada — e descobriu isso aos seis anos. Mas todos sabemos que, se tem alguém na
família que foi um equívoco de verdade, esse alguém sou eu.
Com os sapatos molhados fazendo barulho, subo a escada e fecho a porta do quarto. Pego
um  vinil  antigo  qualquer  e  enfio  na  vitrola  que  encontrei  no  porão.  O  disco  pula  e  chia,
lembrando um som talvez dos anos 20. Estou numa fase meio Split Enz, por isso o tênis. Estou
testando um Theodore Finch anos 80, vendo se ele se encaixa.
Procuro  um  cigarro  na  mesa,  coloco  na  boca  e,  enquanto  pego  o  isqueiro,  lembro  que  o
Theodore Finch anos 80 não fuma. Cara, como eu odeio esse certinho imbecil. Deixo o cigarro
na  boca  sem  acender,  tentando  mastigar  a  nicotina,  e  pego  a  guitarra,  acompanho  a  música,
desisto  e  vou  para  o  computador,  virando  a  cadeira  e  sentando  ao  contrário,  pois  só  assim
consigo compor.
Digito: 
5  de  janeiro.  Método:  torre  do  sino  do  colégio.  Numa  escala  de  um  a  dez,  quanto  cheguei  perto?  Cinco.
Curiosidade: os casos de gente que se joga aumentam em dias de lua cheia e feriados. Um dos mais famosos a pular foi Roy
Raymond,  criador  da  Victoria’s  Secret.  Outra  curiosidade:  em  1912,  Franz  Reichelt  pulou  da  torre  Eiffel  com  um  paraquedas
confeccionado por ele mesmo. Pulou para testar a invenção — tinha intenção de voar —, mas caiu, atingindo o solo como um
meteoro  e  deixando  uma  cratera  de  quinze  centímetros  com  o  impacto.  Ele  queria  se  matar?  Duvido.  Acho  que  só  era
arrogante… e burro.
Uma  pesquisa  rápida  na  internet  revela  que  apenas  cinco  a  dez  por  cento  de  todos  os
suicídios  são  cometidos  pulando  de  algum  lugar  (pelo  menos  é  o  que  a  Universidade  Johns
Hopkins afirma). Parece que essa forma de suicídio geralmente é escolhida por conveniência,
por isso lugares como San Francisco e sua Golden Gate Bridge (o maior destino suicida do
mundo) são tão famosos. Aqui, tudo o que temos é a torre Purina e um monte de 383 metros de
altura.
Escrevo: 
Motivos para não ter pulado: muito estrago. Muito aberto. Muita gente.
Saio do Google e acesso o Facebook. Entro no perfil de Amanda Monk porque ela é amiga
de todo mundo, mesmo das pessoas com quem não tem a menor afinidade, entro em sua lista
de amigos e digito “Violet”.
Simples assim, encontrei. Clico na foto e ali está ela, ainda maior, com o mesmo sorriso que
deu  pra  mim  no  colégio.  É  preciso  ser  amigo  dela  para  ler  o  perfil  e  ver  o  resto  das  fotos.
Fico  olhando  pra  tela,  desesperado  pra  saber  mais.  Quem  é  Violet  Markey?  Tento  uma
pesquisa  no  Google,  porque  talvez  exista  uma  entrada  secreta  pro  perfil  do  Facebook,  que
requer um comando especial ou um código de três dígitos, algo que eu possa descobrir com
facilidade.
Em vez disso o que encontro é um site chamado eleanoreviolet.com, que lista Violet Markey
como cocriadora/ editora/ autora. Tem todos aqueles posts do tipo garotos-e-beleza, sendo o
mais recente de 3 de abril do ano passado. Outra coisa que encontro é uma notícia.
 
Eleanor Markey, dezoito anos, aluna do último ano do colégio Bartlett e integrante do grêmio estudantil, perdeu o controle do
carro na ponte da rua A, aproximadamente à 0h45, no último 5 de abril. Gelo na pista e alta velocidade podem ter causado o
acidente. Eleanor morreu com o impacto. A irmã, de dezesseis anos, Violet, que estava no banco do passageiro, teve apenas
ferimentos leves.

 
Leio  e  releio,  com  uma  sensação  ruim  no  estômago.  Então  faço  algo  que  jurei  pra  mim
mesmo que jamais faria. Crio uma conta no Facebook, só pra mandar um pedido de amizade
pra ela. Ter Facebook vai fazer com que eu pareça sociável e normal, e talvez compense toda
essa situação estranha de termos nos encontrado à beira do suicídio, e quem sabe ela sinta que
é  seguro  me  conhecer.  Tiro  uma  foto  com  meu  celular,  me  acho  sério  demais,  tiro  outra  —
muito bobão — e escolho a terceira, que ficou no meio do caminho.
Deixo o computador em espera pra não ficar conferindo de cinco em cinco minutos e toco
guitarra, leio algumas páginas de Macbeth, faço lição de casa e janto com Decca e minha mãe,
uma tradição que começou no ano passado, depois do divórcio. Apesar de eu não ser muito fã
dessa  coisa  de  comer,  o  jantar  é  uma  das  partes  mais  agradáveis  do  dia,  porque  consigo
desligar o cérebro.
— Decca, conta pra gente o que você aprendeu hoje — diz minha mãe.
Ela  faz  questão  de  perguntar  sobre  a  escola  pra  sentir  que  cumpre  seu  dever  materno.  É
assim que ela gosta de começar.
— Aprendi que Jacob Barry é um imbecil — diz Dec, que anda meio boca suja ultimamente,
testando a reação da mamãe, pra ver se ela está mesmo ouvindo.
—  Filha!  —  minha  mãe  repreende,  sem  muita  convicção,  porque  não  está  prestando  tanta
atenção assim.
Decca continua contando que esse tal de Jacob colou a mão na mesa pra não ter que fazer
um teste de ciências e, quando tentaram descolar, a pele saiu junto. Os olhos de Decca brilham
como  os  de  um  animalzinho  raivoso.  Dá  pra  perceber  que  ela  acha  que  o  garoto  mereceu  e
depois ela mesma afirma isso.
De repente, minha mãe presta atenção.
— Decca! — Ela balança a cabeça.
Seu papel de mãe acaba aí. Desde que meu pai foi embora, ela tenta ser a legalzona. Mesmo
assim, me sinto mal por ela, que ainda o ama, apesar de ele ser egoísta e podre e tê-la trocado
por  uma  mulher  chamada  Rosemarie  —  nome  que  a  gente  ainda  não  consegue  pronunciar.  E
também  tem  uma  coisa  que  ela  me  disse  no  dia  em  que  ele  foi  embora:  “Nunca  pensei  que
estaria sozinha aos quarenta anos”. Foi o jeito como ela falou, não as palavras em si. Ela fez
parecer tão definitivo.
Desde  então,  faço  tudo  o  que  posso  para  ser  agradável  e  calmo,  tentando  me  manter
invisível — o que inclui fingir ir à aula quando estou apagado — pra não ser mais um fardo.
Mas nem sempre consigo.
— Como foi seu dia, Theodore?
— Ótimo.
Empurro  a  comida  pelo  prato,  tentando  criar  um  desenho.  O  problema  de  comer  é  que
existem  tantas  coisas  mais  interessantes  pra  fazer.  Também  sinto  isso  em  relação  a  dormir.
Perda de tempo.
Curiosidade:  um  chinês  morreu  por  falta  de  sono  quando  ficou  acordado  durante  onze
dias direto pra assistir a todos os jogos do Campeonato Europeu (futebol, para aqueles que,
como  eu,  não  têm  ideia  do  que  se  trata).  Na  décima  primeira  noite,  viu  a  Itália  bater  a

Irlanda  por  2  a  0,  tomou  banho  e  dormiu  por  volta  das  cinco  da  manhã.  E  morreu.  Sem
querer ofender o morto, mas é muito idiota ficar acordado por causa de futebol.
Minha  mãe  parou  de  comer  pra  me  encarar.  Quando  presta  atenção,  o  que  não  é  muito
comum, ela tenta de verdade ser compreensiva com a minha “tristeza”, assim como tenta ser
paciente quando Kate fica fora a noite toda e Decca é mandada pra sala do diretor. Ela coloca
a culpa por nosso mau comportamento no divórcio e no meu pai. Diz que precisamos de tempo
pra superar.
Com menos sarcasmo, continuo:
— Foi tudo bem. Sem grandes acontecimentos. Chato. Comum.
Passamos a falar de coisas mais simples, como a casa que minha mãe está tentando vender
para os clientes dela e o clima.
Quando  acabamos  de  jantar,  ela  coloca  a  mão  em  meu  braço,  tocando  minha  pele  bem  de
leve, e comenta:
— Não é bom ter seu irmão de volta, Decca?
Ela diz como se eu corresse o risco de desaparecer de novo, bem diante de seus olhos. O
ligeiro tom de acusação em sua voz me faz encolher, e tenho vontade de ir pro quarto e ficar
lá. Apesar de tentar perdoar minha tristeza, ela quer que eu seja o homem da casa, e embora
não  saiba  que  não  fui  à  aula  durante  todo  aquele  período  de  quatro,  quase  cinco  semanas,
sentiu minha falta nos jantares de família. Ela tira a mão do meu braço e então estamos livres,
e é exatamente assim que agimos, cada um dos três correndo em uma direção.
Perto das dez horas, depois de todo mundo ter ido pra cama — menos Kate, que ainda não
chegou —, ligo o computador de novo e entro no Facebook.
Violet Markey aceitou seu pedido de amizade.
E agora somos amigos.
Quero gritar e correr pela casa, talvez subir no telhado e abrir os braços, mas não pular, de
jeito nenhum. Em vez disso chego mais perto da tela e vejo as fotos dela — Violet sorrindo
com duas pessoas que parecem ser seus pais, Violet sorrindo com amigos, Violet sorrindo em
uma  festa  da  escola,  Violet  sorrindo  de  orelha  a  orelha  com  uma  garota,  Violet  sorrindo
sozinha.
Me  lembro  da  foto  do  jornal.  É  a  irmã  dela,  Eleanor.  Com  os  mesmos  óculos  que  Violet
usava hoje.
De repente, uma mensagem aparece na caixa de entrada.
Violet: 
Você me encurralou. Na frente de todo mundo.
Eu: 
Você aceitaria ser minha dupla se eu não tivesse feito aquilo?
Violet: 
Pra começar, eu teria dado um jeito de não ter que fazer o trabalho. Por que você quer que eu seja sua dupla no
projeto, afinal?
Eu: 
Porque nossa montanha está esperando.
Violet: 
O que você quer dizer com isso?
Eu: 
Quero dizer que talvez você nunca tenha sonhado em conhecer Indiana, mas, além de a gente fazer isso por causa do
trabalho, e eu ter me oferecido pra ser sua dupla — tá, encurralado você —, o que eu acho é o seguinte: tenho no carro um
mapa  que  praticamente  pede  pra  ser  usado,  e  existem  lugares  que  precisam  ser  vistos.  Talvez  ninguém  nunca  vá  até  lá  nem
valorize  esses  lugares  nem  se  dê  o  trabalho  de  pensar  o  quanto  são  importantes,  mas  talvez  até  o  menor  deles  tenha  algum
significado. Se não tiverem pros outros, talvez tenham pra gente. No mínimo, quando a gente for embora, saberemos que pelo
menos os visitamos. Então vamos. Vamos até lá. Vamos fazer alguma coisa. Vamos sair do parapeito.

Como ela não responde, escrevo: 
Estou aqui, se você quiser conversar.
Nada.
Imagino Violet em casa, do outro lado do computador, a boca perfeita esboçando um leve
sorriso para a tela, apesar de tudo. Violet sorrindo. De olho no computador, pego a guitarra,
começo a inventar palavras, a melodia logo em seguida.
Ainda estou aqui, e sou grato por isso, porque senão perderia este momento. Às vezes é bom
estar desperto.
— Então não foi hoje — canto —, porque ela sorriu pra mim.

REGRAS PARA ANDAR POR AÍ
1.  Não há regras, porque na vida já existem muitas.
2.  Mas há três “orientações” (porque soa menos rígido do que “regras”):
a)  Nada  de  celular.  Temos  que  fazer  tudo  à  moda  antiga,  o  que  significa  aprender  a
interpretar mapas de verdade.
b) Cada dia um escolhe o lugar, mas também devemos estar dispostos a ir aonde a estrada
nos levar, o que inclui lugares grandiosos, pequenos, bizarros, poéticos, bonitos, feios,
surpreendentes.  Como  a  vida.  Porém,  absolutamente,  incondicionalmente  e
decididamente nenhum lugar comum.
c) Em cada lugar, deixamos alguma coisa, quase como uma oferenda. Seria nosso jogo de
geocaching  (“atividade  recreativa  de  encontrar  objetos  escondidos  usando
coordenadas de 
GPS
 postadas em um site”), mas só pra gente. As regras do geocaching
são  “pegue  algo,  deixe  algo”.  Sempre  queremos  ficar  com  algo  dos  lugares  por  onde
passamos,  então  por  que  não  deixar  alguma  coisa  em  troca?  Também  é  um  jeito  de
provar que estivemos lá e de manter uma parte de nós ali.

153 DIAS PARA A FORMATURA
Sábado à noite. Casa de Amanda Monk.
Vou andando até lá porque são só três quadras. Amanda diz que seremos só nós duas, além
de Ashley Dunston e Shelby Padgett, já que ela não está falando com Suze. De novo. Amanda
era  uma  das  minhas  melhores  amigas,  mas  desde  abril  a  gente  se  afastou.  Como  eu  saí  da
equipe de torcida, não temos mais muita coisa em comum. Me pergunto se algum dia tivemos.
Cometi a burrice de contar sobre a festa do pijama pros meus pais, e é por isso que estou
indo.
— Amanda está se esforçando. E você também devia se esforçar, Violet. Não pode usar a
morte da sua irmã pra sempre como desculpa. Tem que voltar a viver.
Não estou pronta não funciona mais com meus pais.
Quando cruzo o quintal dos Wyatt e viro a esquina, escuto a festa. A casa de Amanda está
iluminada como se fosse Natal. Tem gente pendurada nas janelas. E no gramado. O pai dela é
dono  de  uma  rede  de  lojas  de  bebida,  por  isso  Amanda  é  tão  popular.  Além  do  fato  de  ela
ficar com todo mundo.
Espero  na  rua,  mochila  no  ombro,  travesseiro  embaixo  do  braço.  Me  sinto  no  sexto  ano.
Uma boba. Eleanor riria da minha cara e me arrastaria pela calçada. Já estaria lá dentro. Fico
com raiva dela só de imaginar.
Me obrigo a entrar. Joe Wyatt me dá alguma coisa em um copo de plástico vermelho.
— A cerveja está no porão — grita.
Roamer tomou conta da cozinha com alguns jogadores de beisebol e futebol americano.
— Pegou? — Roamer pergunta a Troy Satterfield.
— Não, cara.
— Nem um beijo?
— Não.
— Pegou na bunda?
— Peguei, mas meio de raspão.
Eles dão risada, Troy também. Todos estão falando muito alto.
Vou  até  o  porão.  Amanda  e  Suze  Haines,  melhores  amigas  de  novo,  estão  jogadas  em  um
sofá.  Não  vejo  Ashley  nem  Shelby  em  lugar  nenhum,  mas  quinze  ou  vinte  garotos  estão
espalhados  pelo  chão  fazendo  jogos  de  beber.  As  garotas  estão  dançando  em  volta  deles,
incluindo as três Brianas e Brenda Shank-Kravitz, amiga de Theodore Finch. Casais estão se
pegando.
Amanda acena a cerveja pra mim.
— Meu Deus! A gente precisa dar um jeito no seu cabelo. — Ela está falando da franja que
cortei. — E por que você ainda está usando esses óculos? Eu entendo que quer lembrar da sua
irmã, mas ela não tinha, tipo, uma blusa fofa pra você pegar?

Apoio o copo numa mesa. Ainda estou carregando o travesseiro.
— Estou com um pouco de dor de estômago. Acho que vou pra casa.
Suze me encara com aquele olhão azul.
— É verdade que você tirou Theodore Finch do parapeito?
(Ela  era  “Suzie”  até  o  nono  ano,  quando  deixou  de  usar  o  “i”.  Agora  a  gente  pronuncia
“Suz”.)
— Sim. — Por favor, Deus, só queria que aquele dia desaparecesse.
Amanda olha pra Suze.
— Eu disse que era verdade. — Ela olha pra mim e revira os olhos. — Ele faz essas coisas
mesmo. Conheço Finch desde o jardim de infância, e de lá pra cá ele só ficou mais esquisito.
Suze toma um gole.
— Eu o conheço melhor ainda — ela diz, num tom malicioso. Amanda dá um tapa em seu
braço e Suze bate de volta. Quando terminam a brincadeirinha, Suze me diz: — A gente ficou
no  segundo  ano.  Finch  pode  ser  esquisito,  mas  tenho  que  admitir  uma  coisa:  ele  sabe  o  que
está fazendo. — A voz dela fica ainda mais maliciosa. — Ao contrário da maioria dos caras
entediantes que estão por aí.
Alguns dos caras entediantes gritam do chão:
— Por que não vem experimentar, cachorra?
Amanda dá outro tapa em Suze. E elas continuam com a brincadeira.
Troco a mochila de ombro.
— Ainda bem que eu estava lá.
Pra  ser  mais  exata,  ainda  bem  que  ele  estava  lá  antes  que  eu  caísse  do  parapeito  e  me
matasse na frente de todo mundo. Não consigo imaginar o que seria dos meus pais, forçados a
lidar  com  a  morte  da  única  filha  que  restava.  E  nem  pareceria  acidental.  Esse  é  um  dos
motivos para eu ter vindo hoje sem questionar. Sinto vergonha de quase tê-los feito passar por
isso.
—  Lá  onde?  —  Roamer  vem  tropeçando  com  um  balde  de  cervejas.  Coloca  no  chão,
derrubando gelo por toda parte.
Suze o encara com o olhar afiado.
— Na torre do sino.
Roamer olha pros peitos dela. Depois se obriga a olhar pra mim.
— Por que você estava lá, afinal?
—  Eu  estava  indo  pro  setor  de  humanas  quando  vi  ele  passar  pela  porta  no  final  do
corredor. A porta que vai pra torre.
— Humanas? Mas não é só no segundo período? — pergunta Amanda.
— Sim. Mas eu precisava falar com o sr. Feldman.
—  Aquela  porta  fica  trancada  e  bloqueada.  É  mais  difícil  de  alguém  abrir  do  que  a  sua
calça, pelo que eu saiba. — Roamer cai na risada.
— Ele deve ter arrombado.
Ou  talvez  tenha  sido  eu.  Uma  das  vantagens  de  parecer  inocente  é  que  a  gente  pode  fazer
qualquer coisa. As pessoas nunca desconfiam.
Roamer abre a cerveja e toma de uma vez.

— Que idiota. Você devia ter deixado ele pular. O imbecil quase arrancou minha cabeça ano
passado. — Ele está falando do incidente com a lousa.
— Você acha que ele gosta de você? — Amanda me olha com cara de repulsa.
— Claro que não.
— Espero que não. Se eu fosse você, teria cuidado com ele.
Dez  meses  atrás,  eu  estaria  sentada  ao  lado  delas,  bebendo  cerveja,  me  enturmando  e
fazendo comentários espirituosos na minha cabeça: Ela pensa bem ao soltar essas palavras,
como uma advogada tentando convencer o júri. “Protesto, srta. Monk.” “Me desculpe. Por
favor, desconsidere.” Mas é tarde demais, porque o júri ouviu as palavras e não tira elas da
cabeça — se ele gosta dela, ela também deve gostar dele…
Mas agora estou aqui, me sentindo indiferente e deslocada e me perguntando como um dia
fui amiga da Amanda pra começo de conversa. O ar está pesado. A música, alta demais. Sinto
cheiro de cerveja por toda a parte. Estou enjoada. Então vejo Leticia Lopez, repórter do jornal
do colégio, vindo até mim.
— Tenho que ir, Amanda. Falo com você amanhã.
Antes que alguém diga alguma coisa, subo a escada e vou embora daquela casa.
A última festa a que fui aconteceu no dia 4 de abril, véspera da morte de Eleanor. A música
e as luzes e os gritos me fazem lembrar de tudo. A tempo, afasto o cabelo do rosto, me abaixo
e vomito no meio-fio. Amanhã eles vão achar que foi algum bêbado.
Procuro o celular e mando uma mensagem para Amanda.
Desculpa. Não estou me sentindo bem.
Bj, V
Viro pra ir pra casa e dou de cara com Ryan Cross. Ele está suado e despenteado. Os olhos
grandes  e  bonitos  estão  vermelhos.  Como  todos  os  caras  gatos,  sempre  abre  um  sorriso
provocante.  Quando  sorri  com  os  dois  cantos  da  boca,  aparecem  covinhas.  Ele  é  perfeito  e
conheço seu rosto de cor.
Não  sou  perfeita.  Tenho  segredos.  Sou  uma  bagunça.  Não  só  meu  quarto,  mas  eu  mesma.
Ninguém gosta de bagunça. As pessoas gostam da Violet que sorri. Me pergunto o que Ryan
faria se soubesse que foi Finch que me salvou, não o contrário. Me pergunto o que qualquer
um deles faria.
Ryan  me  ergue  e  me  gira,  com  travesseiro,  mochila  e  tudo.  Tenta  me  beijar  e  eu  viro  a
cabeça.

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